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História

Mais conforto, mais saúde

História de: Bruno Gonsaga Carvalho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/03/2021

Sinopse

Bruno relembra sua infância no Jardim Camargo Novo, na zona leste de São Paulo, e dos períodos em que morou no interior do Paraná. Fala sobre sua família e sobre sua vida profissional. Comenta, por fim, sobre sua seleção para participar do projeto Ano Novo, Casa Nova, em que a Vedacit, empresa onde trabalha, foi responsável por reformas de impermeabilização em sua casa, melhorando a saúde de sua família.     

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História completa

 

 

P/1 – Poderia, então, falar o seu nome completo, o local e a data em que você nasceu? 

 

R – Meu nome é Bruno Gonsaga Carvalho. Eu nasci em São Paulo, no dia primeiro de dezembro de 1988. 

 

P/1 – Eu queria te perguntar o que você sabe da história dos seus avós. 

 

R – Parte de mãe, parte de pai... 

 

P/1 – Pode começar por parte de mãe. 

 

R – Parte de mãe, muito pouco. A única coisa que eu sei é que meus avós são de Alagoas e vieram pra cá, pra São Paulo. Não sei em que época, em que ano, mas vieram já pra morar e trabalhar e estão desde então aqui. A minha avó já é falecida e meu avô mora atualmente em São José dos Campos.  

 

P/1 – E da parte de pai? 

 

R – Por parte de pai, meus avós são de Curitiba. Minha avó estava, até um tempo atrás, morando em Rondônia, com a minha tia. Agora ela voltou pro interior do Paraná. Meu avô já é falecido. Mas são do Paraná. 

 

P/1 – Esses são os pais do seu pai, né? 

 

R – É, são os pais do meu pai. 

 

P/1 – E o seu pai, você conhece a história dele?  

 

R – Eu sei que meu pai nasceu no Paraná, foi criado e cresceu, praticamente a vida toda aqui em São Paulo. Faz um tempinho que eu não falo com ele, (risos) porque ele sumiu no mapa. 

 

P/1 – A sua mãe, você sabe como ele conheceu sua mãe? 

 

R – Eu sei que eles estudavam juntos, época de escola. O pouco que eu sei é que ele foi o primeiro namorado dela, primeiro homem, tudo. Na época do meu irmão - eu sou o segundo filho - eles namoravam, aí eles meio que fugiram pra morar junto, lá pra Rondônia. Eu tenho parente, família por lá. Na época, os pais dele moravam em Rondônia e eles foram pra lá.

Minha mãe estava já grávida do meu irmão, o primeiro filho, então ficaram juntos, né? Acho que eles ficaram casados [por] 32 anos. 

 

P/1 – Mas foram pra Rondônia? 

R – Pra Rondônia. Não sei quanto tempo ficaram por lá. Antes do meu irmão nascer, eles voltaram pra cá. 

 

P/1 – Seu irmão mais velho?   

 

R – O primeiro filho deles, meu irmão mais velho. 

 

P/1 – E o que mais você sabe da sua história da sua mãe? 

 

R – Eu sei que ela é de Alagoas, mas ela não nasceu lá. Ela morou lá, mas eu nem sei explicar direito, porque, assim, é muito pouco... Eu nunca tive a curiosidade de conversar com a minha mãe sobre essa história dela. Interessante. (risos) Eu sei que ela é de Alagoas, a família da minha mãe é de Alagoas, mas eu nunca me aprofundei nisso. Nunca tive a curiosidade de saber. 

Nossa, que coisa! E eu sou filho, hein! (risos) 

 

P/1 – E você sabe a história do seu nascimento?

 

R – Sei que eu nasci em São Paulo, há trinta anos, na maternidade de São Miguel Paulista. Praticamente eu fui... De idas e vindas, eu fui criado aqui em São Paulo. Fui criado um pouco no Paraná, um pouco em São José dos Campos, pelos meus avós, os pais por parte da minha mãe. Basicamente é isso. 

 

P/1 – Você nasceu de parto natural ou cesárea? 

 

R – Natural. 

P/1 – Eu queria te perguntar, se você quiser até fechar o olho pra essa pergunta, buscar lá na sua memória, qual é a lembrança mais antiga que você tem dessa vida,  sua memória mais antiga.

 

R – Memória mais antiga? Nossa, tem que fechar o olho, mesmo, pra ver se... (risos)

A memória mais antiga? Que eu me recordo agora… Quando eu era bem menino ainda, bem molequinho, minha mãe me dando chá na mamadeira, (risos) na casa que a gente morava, lá... a casa própria, ainda. Nossa! Não sei como essa memória veio pra... (risos) Nossa!

  

P/1 – Você tinha quantos meses?   

 

R – Veio outra. Essa eu devia ter o quê? Uns quatro anos. Eu estou me lembrando da minha mãe me trocando, agora. Nossa! 

 

P/1 – Te trocando, você pequeninho?   

 

R – E eu, pequenininho. Trocando fralda. 

 

P/1 – Que louco! 

 

R – Nossa! Caramba! 

 

P/1 – Conta um pouco, então, já que nas duas a sua lembrança é com a sua mãe. Como era a sua relação com a sua mãe? Você lembra? 

 

R – A minha mãe é uma inspiração pra mim, né? A relação que eu tenho com a minha mãe é de muito afeto, muito amor, muita proximidade. Ela, pra mim, é uma inspiração, é uma guerreira. De tudo que ela passou, tudo que eu presenciei que ela viveu, todo o meu processo de amadurecimento, até hoje, ela, pra mim, é uma inspiração pra ser uma pessoa honesta, uma pessoa melhor a cada dia, de fazer o bem, sabe? Trabalhar, de correr atrás. 

Tudo o que eu sei, do que eu presenciei, de estar perto, tanto quando eu morava com ela, ainda, antes de casar e depois de casado, pra mim ela é uma guerreira. 

 

P/1 – E o que você presenciou? Você falou que ela é uma guerreira. O que você viu, por exemplo, que faz achar que ela é uma guerreira? 

 

R – Ah, o que ela sofreu com meu pai que, entre idas e vindas, no casamento dela teve separação, teve agressão, teve briga que a gente, eu e meus irmãos, presenciávamos. Muita coisa. A luta dela de... Em algumas vezes que eles se separaram, eu sempre fiquei com ela, na verdade. Em todas as separações, eu e minha irmã, a gente sempre ficava com ela e o meu irmão mais velho ficava com meu pai. Eu sei do esforço que ela tinha, que ela sempre fez, pra criar eu e minha irmã e agora, que ela faz, pra criar meu irmão mais novo, que agora está com 18. 

 

P/1 – Vocês são quantos irmãos? 

 

R – Quatro.        

 

P/1 – Todos do mesmo pai? 

 

R – Tudo do mesmo pai. 

 

P/1 – Você falou que eles brigavam muito. Desde sempre? 

R – É. Meu pai, até uma certa época, ele bebia. Tinha o vício de cigarro e de bebida. Ele voltava do trabalho, ia direto pro bar e só chegava na madrugada ou no dia seguinte. Acho que por conta disso, pelo que eu me lembro, na minha infância, vinham as brigas. E por traição também, que acabava vindo à tona, ela descobria. Eu lembro do meu pai me levando e meus irmãos na casa de mulher que ele conhecia, essas coisas assim. 

Eu me lembro agora que chegou um certo ponto que eu cheguei a falar pra minha mãe: “Olha, mãe, eu vi o pai com tal mulher”, que era vizinha da casa que a gente morava aqui em São Paulo. 

 

P/1 – Você contou pra sua mãe e sua mãe... 

 

R – Porque acho que chegou uma certa idade que eu comecei a entender e comecei a me revoltar, né? Ver que era uma coisa muito constante. Eu via que ela sofria com isso, pela falta de respeito também, pela falta de... Sabe? 

Vai fazer três anos que meu pai abandonou a família. Pela falta de respeito, pela falta de consideração por ela sempre ter ajudado, sempre ter trabalhado, sempre estar ali do lado. Nunca fez... Nunca deu motivos pra passar por tudo que ela passou com ele, nesses anos todos casada com ele. 

 

P/1 – Mas ele chegava a agredi-la? 

 

R – Teve algumas brigas que eu me lembro na infância, que ele agrediu. A que eu me recordo, que foi uma mais violenta, foi num dia que eu estava, eu e meus irmãos, na festa de aniversário do meu primo e ela estava com ele. Ela estava em casa e ele chegou do bar. 

A casa da minha tia e a minha casa era como se fosse na rua de baixo. Não sei o que aconteceu, porque a minha mãe é do tipo de pessoa que fica na dela, mas se ela se estourar, ela começa a falar alto e vai pra cima - não pra agredir, mas porque ela quer saber, quer questionar. Acho que numa dessas, ele, estando já alterado por causa da bebida, foi pra cima dela e a agrediu com tapa, essas coisas assim. 

Eu lembro, nesse dia, que a gente estava na festa; ela chegou lá na casa da minha tia chorando, por conta da agressão. Ela pegou a gente -  estávamos eu e meus irmãos -  a gente voltou pra casa e ele não estava. A gente dormiu, aí no dia seguinte ele chegou, mas a gente não falou nada. 

Eu mesmo ficava muito quieto, na minha; fui sempre muito quieto, de não falar nada, só observava. Até uma certa idade, que eu comecei a me... Eu não chegava a bater de frente, sabe, mas me revoltar, ficar indignado pelas coisas que ele fazia com ela. Quem falava mais alguma coisa de bater de frente, não de brigar, era o meu irmão, mas ele também nunca chegou a fazer nada de mais. 

Depois disso, passou. 

 

P/1 – Ele chegava a bater em vocês também? 

 

R – Não sem motivo. Era só quando tinha algum motivo, mesmo, pra isso. Não agredia a gente de graça. Nunca aconteceu. Que eu me lembre, não. 

 

P/1 – Mas você tinha alguma conexão com ele? Tinha um carinho com ele? 

 

R – Sempre tive. Muito respeito também, porque é o cara que me criou, me educou. Por mais que ele tenha essas falhas, é o cara que me vestiu, me deu de comer, estava sempre ali, do lado. Às vezes ele ia numa reunião de escola, comprava material de escola, comprava roupa. De vez em quando levava a gente pra passear.

Poucas memórias boas eu tenho, não vou falar que não. Só que são essas falhas, esses poréns dele que acabou desanimando daquela imagem de pai, sabe? Hoje em dia, nem falo com ele mais.

 

P/1 – E você começou a bater de frente com ele quando, que você disse?      

 

R – Olha, foi tarde, viu? Eu tenho trinta anos. Até mais ou menos uns três anos, ele ainda estava com a minha mãe. Não era bater de frente, a gente... Não só eu, meus irmãos, às vezes, se reuniam pra uma pizza ou um almoço em família e a gente percebia o comportamento estranho dele; já chegava a questionar, conversar, às vezes rolava um bate-boca. Quando eu falo que eu batia de frente é nesse sentido.

 

P/1 – A sua família tinha religião? 

 

R – Minha mãe sempre foi católica, da parte do meu pai também sempre foram católicos. Eu fui batizado na igreja católica, mas frequentava, até uns anos atrás, a igreja evangélica. Hoje em dia eu não frequento mais nenhuma igreja. E a minha mãe, de vez em quando, ainda vai na missa no domingo. Ela ainda continua firme. 

 

P/1 – E você, pequeno, ia em missa, essas coisas assim? Tem memória disso? 

 

R – Tenho, sim. Eu conheci, ia à missa com os meus pais. Visitava Aparecida do Norte também, mas teve uma certa época que a minha tia apresentou a igreja evangélica e aí eu tomei gosto pela religião. Sempre fui com ela, com as minhas primas. 

 

P/1 – O que fez você tomar gosto pela religião evangélica? 

 

R – Os louvores, né? (risos)       

 

P/1 – O que são os louvores? 

 

R – A emoção, aquela emoção, aquele arrepio que dá, de ouvir aquela letra, aquela voz bonita, aquela música calma, sabe? É mais ou menos isso o que eu sinto quando escuto um louvor. Hoje em dia eu não escuto tanto quanto eu escutava antes. 

 

P/1 – E aí você ia na igreja direto, quando você começou a ir na evangélica? 

 

R – Ia pelo menos umas duas, três vezes por semana.  

 

P/1 – Duas, três vezes por semana?

 

R – É. 

 

P/1 – Nossa! E como era a relação da igreja com a sua vida? Mudou alguma coisa na sua vida quando você entrou na igreja? 

 

R – Nessa fase que eu frequentava eu me sentia tranquilo, me sentia em paz, mais conectado com Deus, mas chegou um ponto que eu acabei me afastando. Fui me afastando aos poucos, aí me afastei de vez.

 

P/1 – E o que fez você afastar de vez?    

 

R – Sinceramente, não sei te dizer. Não sei se foi um pouco de rebeldia, um pouco de relaxo também, da minha parte, sabe? Aquela coisa: “Que preguiça de ir”, essas coisas assim. Aí fui deixando, fui deixando e hoje em dia nem vou mais. (risos) 

 

P/1 – Voltando lá pra sua pequena infância, você cresceu em qual lugar? 

 

R – Eu fui criado na região do Jardim Camargo Novo, ali. 

 

P/1 – Zona leste? 

 

R – É, zona leste. Sempre morei e fui criado, morei naquela região. 

 

P/1 – E como é que era?

 

R – Legal, tenho lembranças boas de lá. Tenho muita lembrança boa de infância, de brincar na rua, sabe? Aquelas brincadeiras que a gente tinha no passado: pega-pega, esconde-esconde, rouba lata, essas coisas. 

 

P/1 – Rouba lata? 

 

R – É.     

 

P/1 – Como é esse rouba lata? 

 

R – É assim: são dois times, um de cada lado, na rua e um tem que tentar roubar a lata do outro. Brincar de bola, de vôlei, essas coisas, ir na casa do amigo pra jogar videogame, essas coisas. Na minha época, que eu lembro. (risos)  

 

P/1 – E quem era a galera que você brincava? Era da rua, mesmo?  

 

R – Da rua, mesmo. Dos vizinhos, mesmo. Tinha muita criança na rua. 

 

P/1 – Muita criança?

 

R – Muita criança. 

 

P/1 – Mas não tinha muito carro? 

 

R – Tinha. Aí é aquela coisa, né? O carro vem passar, a gente desvia, deixa o carro passar. Até hoje é assim. Faz tempo que eu não vou pra aquele lado, mas o que eu sei é que ainda é assim ali. 

 

P/1 – E era violento também ou não? 

 

R – Não me lembro. 

 

P/1 – Não tinha essa visão de que... 

 

R – Não tinha essa visão de violência que hoje em dia eu vejo, que a gente vê muito por aí nos bairros, nas regiões de São Paulo. Não tinha essa noção. Era mais inocência, a criança, mesmo, querendo brincar, ir pra escola. 

Tirando a parte do que aconteceu dentro de casa, eu tinha a infância, queria brincar, queria só curtir mesmo, como uma criança normal. 

 

P/1 – Você torcia pra algum time? 

 

R – Dizem que eu sou corintiano. (risos) Eu não sou do tipo de acompanhar jogo, nunca fui. Brincava na rua de bola, mas nunca fui aquela coisa muito ligada a isso, não. 

P/1 – Em que você era ligado? 

 

R – Desenho. Sempre gostei muito de desenhar, hoje em dia não desenho mais. 

 

P/1 – Desenhar? 

 

R – Desenhar. Sempre a arte. Gostava muito de arte, de desenhar. 

 

P/1 – Quem foi... Você lembra do primeiro desenho que você fez? O que te levou…

 

R – O primeiro desenho que eu fiz eu não... Difícil... (risos) 

O primeiro desenho que eu devo ter feito foi o quê? Uma casinha, um bonequinho, uma árvore, que é o que a gente aprende na escola também. Acho que o maior incentivo, mesmo, deve ter sido na escola. Pelo gosto por isso, pela arte. E como eu ficava muito em casa, grudado na televisão, vendo desenho, acabei criando aquele gosto de pegar, fazer e copiar, sabe? Fazer olhando. Pegar uma figurinha do chiclete e tentar aumentar. Fui aperfeiçoando isso, até um ponto que acabei enjoando. (risos) Acho que é isso. 

 

P/1 – Você chegava a mostrar isso pra alguém, esses desenhos? 

 

R – Mostrava. Tinha pasta e tudo. 

 

P/1 – O que sua mãe achava? 

 

R – Ah, sempre elogiava. Não só minha mãe, meu pai; amigos de escola, um ou outro que eu acabava mostrando, sempre elogiava. “Ah, que legal! Ah, você tem dom”. Fazia o desenho da mão perfeitinho. Esse aqui, o desenho da mão.

 

P/1 – Já que você falou em escola, quais foram as escolas que você estudou? 

 

R – Estudei no Artigas, que é ali na zona leste, até a quinta série. Estudei no Paraná também, não me lembro o nome das escolas que eu estudei porque era um ano e meio em uma, um ano na outra, sempre estava mudando de lugar. Parecia um cigano. (risos) 

 

P/1 – Vamos chegar na ciganagem. Mas o que você lembra dessa primeira escola, até a quinta série?           

 

R – Ah, lembro que as professoras que eu tinha lá eu gostava muito, principalmente a professora de Artes e de Português. A Professora Helenice, essa eu nunca vou esquecer porque ela sempre foi um doce, um amor de pessoa comigo. A minha primeira professora. Não lembro da professora da pré-escola. 

 

P/1 – Helenice?  Conta um pouquinho mais o que você lembra da Helenice. 

 

R – Ah, eu lembro que ela me tratava bem. Lembro da professora da creche, da minha época de creche; ela cuidava bem de mim, me levava pra casa dela. Eu lembro dela falando com meus pais - mais com meu pai, porque ele buscava a gente. Eu e meu irmão. Ela falava pro meu pai me dar pra ela.

 

P/1 – Nossa! 

R – Não sei se ela falava isso brincando, mas eu lembro dessa cena. Também lembro uma vez que eu fui pra casa dela. Não sei se era filho ou se era marido, o que era dela; rolou um desentendimento lá e ele quebrou a casa, derrubou a geladeira, fez uma pá de coisa lá. 

 

P/1 – Nossa! 

 

R – E depois disso eu nunca mais fui pra lá. Não sei se ela não quis me levar mais,  se ela acabou contando ou eu contei, não lembro, pros meus pais. Nunca mais fui pra lá, pra casa dela. 

 

P/1 – Essa era sua professora de creche? 

 

R – De creche. 

 

P/1 – E você tinha amigos da escola também? 

 

R – Tinha. Nunca fui muito de ter amigos, mas tinha alguns gatos pingados. 

        

P/1 – Mas por que não tinha?

 

R – Eu não sei o porquê, mas eu sempre fui muito na minha. Muito fechado, muito caladão, muito tímido. Até hoje. 

 

P/1 – É mesmo? E você lembra quando começou a ser assim, tímido?    

 

R – Não. 

 

P/1 – Sempre foi?

 

R – Sempre fui. Acredito que eu sempre fui. 

 

P/1 – E os meninos mexiam com você?

 

R – Já sofri muito com isso também. 

 

P/1 – É mesmo?

 

R – Já. 

 

P/1 – Como é que era? Conta pra gente. 

 

R – Eu me lembro em época de escola, no fundamental. Eu estava parado ali, na minha, na hora do intervalo, aí vinha um moleque lá e pá, me dava um peteleco. Às vezes dava um soco, mas não falava nada, era tipo de graça, passava e batia, sabe? 

Lembro da época que eu morava no Paraná. Eu estava brincando no parquinho da praça, lá da cidade que eu morava, de Curiúva - a cidade que eu morei lá sempre foi interior. A troco de nada vinham, batiam, xingavam, sabe? Aqueles moleques que querem pagar de valentão. 

 

P/1 – Nossa! 

 

R – De graça. Bullying de graça. 

 

P/1 – E aí você... 

 

R – E nunca fui revidar. Nunca briguei na escola. Nunca. 

 

P/1 – Mas teve alguma coisa que era mais contínua ou era assim: às vezes vinha, dava um tapa e ia embora ou chegou a ter alguns que era todo dia?    

 

R – Não. Nunca sofri isso diariamente, eram  casos raros. Sei lá, acho que não foi com a minha cara ali naquele dia e foi lá e deu um tapa. Não era coisa frequente, não, mas já aconteceu. 

 

P/1 – E os seus amigos eram… Mesmo os gatos pingados, tinha algum que era bem próximo, que chegou a você ter uma memória afetiva dele?

 

R – Tem o Jefferson. Teve um que a gente sentava junto na aula e ia pro intervalo juntos. Já o visitei, poucas vezes também, na casa dele, mas isso aqui em São Paulo. Quando eu fui embora pro Paraná, perdi totalmente o contato; fiquei alguns anos lá, quando voltei, aí já não... Por conta do meu jeito calado, tímido, acabei não conversando mais.

Já cheguei a encontrar com ele na rua, no ônibus, mas aquela coisa: só cumprimenta e não fala mais nada. Isso acho que por causa do meu jeito de ser. 

 

P/1 – E quais são as memórias fotográficas que você tem da sua infância? 

 

R – (risos) Tem essa foto que eu falei pra você, que é de bebezinho, sentado na cadeira. Eu não lembro, não sei o que estava acontecendo naquele dia, mas é a memória que eu tenho, com cotonete na orelha. São poucas, mas tem. 

 

P/1 – Você falou que você mudou pro Paraná. Como é que foi isso? 

 

R – O que eu sei, o que eu me recordo dessas mudanças que a minha família fez, é assim: o meu pai sempre quis seguir a família dele, que é lá do Paraná. Ele nunca gostou de morar aqui em São Paulo, sempre deixou isso muito claro pra minha mãe, pra gente também, depois de uma certa idade. Então, a primeira oportunidade que ele tinha, ia pro Paraná. 

 

P/1 – E ele voltava por que, você sabe?    

 

R – Por conta de ser cidade grande, o estresse, a correria, essa coisa toda, né? Ele sempre quis estar ali, muito perto da família dele, lá nas cidadezinhas do interior que eles moravam. Acabavam levando a gente. 

Quando ele e minha mãe se desentendiam e se separavam, minha mãe voltava pra São Paulo. Eu vinha junto com ela e a minha irmã e ele ficava lá. Isso [era] coisa de um ano, às vezes um ano e meio, dois. Ele vinha pra cá atrás dela, pra tentar reconciliar; eles voltavam, ficava um tempinho, aí depois ia de novo. 

 

P/1 – Seu pai? Mas ele ficava onde, lá?

 

R – Na casa da mãe dele, dos pais dele. Tinha meus tios também. Sempre foi assim. Sempre. 

 

P/1 – Mas teve uma época que você chegou a morar lá no Paraná?     

R – Sim. Já. Eu fui até uns bons anos, morei e fui criado lá, estudei. Mas acho que não chegou a ficar... Acho que o tempo maior que eu fiquei morando lá no Paraná foi  uns seis ou sete anos. 

 

P/1 – Nossa! Você tinha quantos anos? 

 

R – Deveria ter uns treze anos, por aí. 

 

P/1 – Você lembra se foi de ônibus, se foi de carro?

 

R – Sempre, pra ir, que eu me lembre, a gente... Eu ia pra lá com o meu irmão de ônibus. E a minha mãe, né? Mas também eu já cheguei a ir de carro com meu tio, que é o padrinho do meu irmão. Ele, mesmo morando lá, sempre vinha pra cá pra São Paulo, porque a sogra dele, a família da esposa, da minha tia, é daqui de São Paulo. Todos. E aí, do meu tio, todos lá do Paraná. Ele sempre vinha, fazia essas viagens e o meu irmão era o que estava sempre junto, porque são os padrinhos dele. Quando surgia uma oportunidade, até lugar no carro, ele também vinha junto. Ou ia. 

 

P/1 – Você tem padrinho?     

 

R – Ah, eu tenho, mas nunca considerei tanto assim. É o meu avô por parte de mãe e a minha tia por parte de mãe. Teve uma época que eu nem sabia que eles eram meus padrinhos, aí minha tia falou: “Você sabe que eu sou sua madrinha, né? E o seu vô é seu padrinho?” Eu falei: “Ah, sei.” Aquele ‘sei’ meio duvidoso, mas eu sabia que era. Eu nunca considerei, sempre chamei de tia e de vô. 

 

P/1 – Porque era padrinho parente. 

R – É. 

 

P/1 – E você ia, então, pra casa dos seus avós, lá no Paraná? 

 

R – É, [pra] casa dos meus avós. 

 

P/1 – Era em qual cidade do Paraná?  

 

R – Na época... Foram várias, que eu me lembre, que eles moraram. A primeira que eu fui foi em Curitiba, Fazenda Rio Grande. 

 

P/1 – Fazendo Rio Grande, como era? 

 

R – É muito legal. (risos) Era uma cidade muito gostosa, eu tenho muitas lembranças boas de lá, de escola, de finais de ano. A gente morava junto, todo mundo ali na mesma casa. Ficaram um tempinho morando ali meus avós, minha tia, meu tio; era uma… Cidade do interior tem muita casa de madeira, muita casa antiga. 

 

P/1 – A casa era de madeira?       

 

R – Era de madeira e era muito grande, um casarão mesmo. Dava pra dividir a casa no meio e ficar todo mundo ali, sem... Mesmo assim ainda era ruim, por estar muito próximo. 

 

P/1 – A sua família, como era? Parte negro, parte branco, todo mundo branco, todo mundo negro? 

R – Da parte de pai é todo mundo branco. Da parte de mãe, a minha mãe é morena, da cor. Meu avô, minha avó. Os irmãos dela foram começando a… Não sei de que parte, de qual genética puxaram, porque tenho tias que já são brancas, uma corzinha mais clara. Meu tio mesmo, irmão da minha mãe, é branco. 

 

P/1 – A sua mãe é negra? 

 

R – A minha mãe… Não sei se ela é negra, mas ela é morena. Ela é da cor. Não é negona, mas é... 

 

P/1 – E seus avós também? 

 

R – Meus avós também. 

 

P/1 – Quando você foi com sua mãe lá, encontrava no Paraná?

 

R – É. 

 

P/1 – Você sentia que tinha algum preconceito, na época, no Paraná?  

 

R – Nunca percebi isso. Com ela, nunca percebi isso, não. 

 

P/1 – E com você?

 

R – Também não. Tranquilo. Nunca sofri esse tipo de preconceito, não. 

 

P/1 - Pode continuar falando. Você disse que tinha muitas memórias boas. 

 

R – Tenho muitas memórias boas de lá. 

 

P/1 – Da Fazenda Grande.

 

R – É, da Fazenda Rio Grande. Porque tinha aquele convívio muito familiar, né? Acho que pelo motivo da gente morar junto, eu lembro de brincar de mangueira num dia de calor. Lembro das festas de final de ano, lembro dos amigos secretos que a gente fazia. 

 

P/1 – Como eram os amigos secretos? 

 

R – Final de ano, aquela coisa de Natal, aí a gente sorteava um nome pra cada um e você tinha que ir lá dar um presente. No dia do Natal ou do Ano Novo a gente fazia aquela ceia, aquela comida, aquele banquete e cada um entregava o seu presente.

Hoje em dia nem sinto mais prazer, vontade de participar dessas coisas. Não só em família, mas em qualquer lugar. (risos) Mas tinha isso, sabe? Era gostoso isso, essa... Sei lá, nem sei como é a palavra. Eu acho que por não ter mais isso em família, eu não sinto mais nada. Mas era gostoso, na época. 

 

P/1 – Isso era no interior?   

 

R – É, interior.  

 

P/1 – E era mato, assim? 

 

R – É, a Fazenda Rio Grande tinha... Era chão de terra, barro em algumas partes; tinha um pouco de mato, mas não era muito, não. Ela tinha mais uma cara de cidadezinha, mesmo. 

A cidade que eu morei, Novo Barro Preto, que é mais interiorzão do Paraná, lá é mato total. Lá é bem pequeno, mesmo. 

 

P/1 – Que foi a cidade seguinte? 

 

R – É. 

 

P/1 – E por que vocês foram pra essa cidade seguinte? 

 

R – Dizem... Pelo que eu me recordo, a trabalho. 

 

P/1 – A trabalho? 

 

R – É. 

 

P/1 – Do seu pai?

 

R – Da família do meu pai e meu pai ia junto, na cola. Levava a gente junto. 

 

P/1 – No que ele trabalhava? 

 

R - A parte do meu pai... Meus tios e meu avô também sempre tentaram trabalhar por conta. Meu avô tentava ter aquele comerciozinho, barzinho e meus tios sempre inventaram de querer trabalhar por conta, fazendo, fabricando chinelo, essas coisas. Não sei, nunca vingou, nunca foi pra frente. Trabalhar com rolo. 

Meu tio, padrinho do meu irmão, tem aquele toque de comerciante mesmo. Até hoje ele trabalha com isso. Os meus tios, irmãos do meu pai, tentavam se inspirar e acabava não dando muito certo. Às vezes, quando viam que não dava certo, tentavam trabalhar registrados numa empresa, mas ficavam pouco tempo. 

Eu lembro, a minha tia mesmo, que mora lá em Rondônia, chegava a trabalhar cinco, seis meses numa empresa e saía. Lá no interior é muita fábrica... Muita madeireira, né? Só tem isso lá. 

 

P/1 – Cortar árvore?

 

R – É. Fazer lâmina, compensado, essas coisas, sabe? 

 

P/1 – E sua família trabalhava nisso? 

 

R – Meu pai. Meu irmão chegou, [por] um certo tempo, trabalhar também. Hoje ele está morando lá e trabalha com isso, mas ele trabalha na área de pintura de laminado. 

 

P/1 – E você, nessa idade, trabalhava? 

 

R – Não. 

 

P/1 – Só estudava? 

 

R - Eu só estudava. Eu comecei no mercado, trabalhando aqui em São Paulo, já com quase dezenove anos. 

P/1 – A gente vai chegar lá, mas conta um pouco mais. Vocês foram com seu pai pra essa cidade, São José... 

 

R – Fazenda Rio Grande, depois Barro Preto... 

 

P/1 – Barro Preto. Como era o Barro Preto?

 

R – Novo Barro Preto. É uma cidade bem parada. Interiorzão mesmo, que não tem nada. (risos) Mas a gente, por ser criança, gosta, acaba se adaptando. 

Era só aquilo: pra escola, depois pra casa. No final de semana, visitava a tia ou o tio, um almoço. Tinha as festas de final de ano, tinha a cidade vizinha, Curiúva, [em] que outro tio foi morar; os padrinhos do meu irmão moravam lá. É interior também, só que já tem uma carinha de cidade mais desenvolvida. Mas também é parada, não tem nada. 

 

P/1 – E a escola, era como? 

 

R – Legal, eu gostava. 

 

P/1 – Você gostava do quê? 

 

R – Gostava da aula de Matemática, da aula de Português. Acho que por causa das professoras, mesmo. Eu detestava as aulas de Educação Física. (risos) Nunca fui o tipo de gostar de esporte. Nunca. 

 

P/1 – Você chegou a ter alguma história que te marcou nesse lugar? Aqueles episódios que você lembra, conta até em jantar de família. Sabe aquelas histórias marcantes de infância? Chegou a ter alguma, nesses lugares do Paraná?

R – Marcante, marcante… Coisa boa, coisa ruim... Tem as memórias boas, as memórias que marcam, que fazem lembrar. Do Paraná, mesmo, do Barro Preto, tem a catequese, que é quando eu fui batizado. As aulas, eu gostava muito da escola que tinha lá. A educação lá é muito boa. 

 

P/1 – Foi batizado lá? 

 

R – Fui batizado lá. Tinha as festas... Eu não sei se ainda tem, acho que não tem mais isso lá, mas na cidade que eu morava tinha muito de fazer a festividade, eles chamavam Festa das Nações. Faziam aquela tenda, um monte de barraquinhas e cada barraquinha tinha uma comida típica de uma região, de um estado. Tinha muito disso. Vinham bandas de fora, pra fazer um show, cantar. Era uma coisinha bem legal. 

Acho que essas são memórias marcantes que eu tenho. Memórias boas de lá. Tinha muito disso. 

 

P/1 – E memória ruim?

 

R – Memória ruim são as separações dos meus pais, as brigas.  

 

P/1 – Nesse período todo tinha briga, ainda?

 

R – É, de vez em quando tinha. Depois de uma certa época - não lembro, acho que em 2001… 2000 ou 2001, aí minha mãe engravidou do meu irmão, que está com dezoito. Acho que não foi 2001, porque ele está com dezoito agora. 

 

P/1 – 2002. 

 

R – É. Foi também um momento bem conturbado. A gente passou algumas dificuldades, até mesmo por conta dela não trabalhar e ele trabalhar só fazendo bico, aí tinha um pouco de dificuldade financeira também. Ele trabalhava com meu tio na lanchonete que ele tinha, o padrinho do meu irmão. Quase no final da gravidez, eles se separaram. 

 

P/1 – Nossa! 

 

R – É. Ele agrediu meu irmão, agrediu minha irmã, a minha mãe grávida. 

 

P/1 – Caramba! 

 

R – É. Você lembra disso?

 

P/1 – Lembro. Sempre fui muito próximo da minha mãe. Sempre. 

 

R – E por que sua mãe não terminava de vez? 

 

P/1 – Por amar, por gostar. Por ser o primeiro homem... Até onde eu sei que ela fala, eu acredito, porque não vou desacreditar da minha própria mãe. Foi o primeiro homem na vida dela, o primeiro e único namorado. Acho que por esse sentimento por ele e por pensar nos filhos também, ela tinha essa coisa de voltar, dar uma chance. Sempre ela brigava, separava, voltava. 

A família sempre falava: “Não, não dá certo mais.” Eu lembro. A minha tia, meus tios falavam isso pra ela, mas acho que, por ela gostar, por amar, acabava voltando. Hoje em dia mesmo, ela fala que ainda sente saudades dele. (risos) Vai entender! Falo: “Ai, meu Deus!” Mas o coração da gente… A gente não manda no coração. Eu acho. 

P/1 – Falando em coração, você tinha alguma namorada nessa época? 

 

R – Sempre fui muito tímido, mas tinha aqueles rolinhos, né? Vamos dizer assim: uns rolos na época da escola. As menininhas, assim... Nunca fui...

 

P/1 – Você lembra da história do seu primeiro beijo? 

 

R – Que eu me lembre, o primeiro beijo foi na creche. (risos) Estava deitado, porque tinha horário da soneca na creche. Estávamos eu e a minha amiguinha lá. Nem lembro mais nem do rosto dela, mas o primeiro beijo foi ali, debaixo da coberta. 

Depois teve a época da escola, na quinta série. Teve a minha prima. E por aí vai.            

 

P/1 – Na escola, como foi? 

 

R – Não foi na escola, foi a amiga da escola. Estudava junto. A gente saiu da escola, eu fui pra casa dela pra fazer lição, aí acabou rolando um beijo lá na casa dela. Foi a única vez, também. 

 

P/1 – E namoro, assim, maior?

 

R – Namoro? O maior tempo que eu fiquei com uma menina namorando, eu já tinha os meus dezessete pra dezoito anos. Fiquei três anos. 

 

P/1 – Foi onde?

 

R – Já aqui em São Paulo, mesmo. 

 

P/1 – No Paraná você ficou seis anos?

 

R – Cinco ou seis anos, mas eu não me lembro. Não vou te dar a data exata, porque eu não me lembro. Faz tanto tempo! (risos) 

 

P/1 – Mas ainda lá no Paraná, você saiu desse Barro Preto?  

 

R – É, Barro Preto.       

 

P/1 – E foi pra onde? 

 

R – Foram tantas idas e vindas! Barro Preto pra Curiúva, de Curiúva pra Barro Preto, depois pra São Paulo. Bem cigano, mesmo. 

 

P/1 – E o que você sentia de ficar mudando tão rápido na sua vida? 

 

R – Falando assim… Eu achava bom e não, porque vinha pra perto da família que eu tenho aqui em São Paulo. Eu sempre gostei daqui, sempre preferi aqui em São Paulo, porque a cidade do interior não tem nada. E por conta das brigas e separações dos meus pais, então acabei… Aquelas memórias deles brigando, a minha mãe chorando… Acabei desgostando um pouco de lá, porque sabia que aquele lugar fazia mal pra ela e fazia mal pra mim. Eu tinha essa coisa na mente. Até a época que meu pai teve um relacionamento por fora e tem uma filha por fora. Isso, até uma certa época, trazia muita memória ruim pra mim também. Eu não aceitava a minha irmã. Hoje em dia eu falo de boa com ela, eu a aceito super de boa, sabe? 

 

P/1 – Como foi isso, do seu pai ter filho por fora?     

 

R – Foi bem ruim, porque a minha mãe… Não que ela passasse essa memória pra gente culpar a minha irmã, a filha que ele teve, mas eu sentia, eu via que ela sofria por ele ter tido um filho fora do casamento. Uma filha, né? Sofreu muito.  

 

P/1 – Mas era assim, abertamente? 

 

R – Depois que ela descobriu a traição, sim. Eles foram morar juntos, a família dele a acolheu. Eles moraram juntos lá na casa dos pais dele, na época.   

 

P/1 – Quem? A outra mulher?

 

R – A outra mulher, com a bebezinha, com a minha irmã. 

 

P/1 – Com a sua mãe também?

 

R – Não. Com a minha mãe, não. Eles estavam separados, nessa época. 

 

P/1 – Ah, sim. Ela separou porque... 

 

R – Vou falar pra você: eu não sei te dizer quantas vezes eles se separaram, porque são muitos flashes de memória que eu me recordo deles se separarem; volta, separa, volta e nisso acontecia muita coisa. 

Nessa época que eles estavam separados, ele foi morar com a outra mulher, ela já estava grávida. A minha irmã nasceu, aí eu não sei que época foi que eles moraram tipo numa chacarazinha lá no Paraná e tem fotos deles lá. Meu irmão morava com meu pai, meu irmão mais velho; enquanto isso, a gente estava aqui em São Paulo: eu, minha mãe e minha irmã. 

 

P/1 – Ah, foi aí que você voltou pra São Paulo? 

 

R – Porque ela fazia isso. Eles brigavam, se separavam e ela vinha pra cá, pra São Paulo. Aqui a gente vinha, ficava na casa da minha tia, até ela se ajeitar; alugava uma casa e a gente ficava morando de aluguel. 

 

P/1 – E essa última vez foi uma briga mais forte? Essa última saída do Paraná, pra vir pra cá? 

 

R – A última que eu me lembro que eles se separaram foi porque a família dele mudou pra outra cidade, não lembro qual o nome da cidade agora. Ele queria ir junto, foi junto pra conhecer a cidade, meu irmão foi junto e aí ela não queria mais, sabe? Já estava, acho, de saco cheio. Ela vendeu todos os móveis da casa e veio embora pra São Paulo. Eu, ela e minha irmã. 

 

P/1 – E aí, vocês vieram pra onde?  

 

R – A gente foi lá pra São José dos Campos. Ficamos lá com os meus avós, os pais dela. Fiquei lá com a minha irmã, morando com os meus avós, estudando, e ela veio trabalhar pra São Paulo, porque em São José ela não estava conseguindo arrumar emprego. 

Ela arrumou [um emprego] aqui em São Paulo, na época, de doméstica - aliás, ela sempre trabalhou como doméstica. E ficou morando na casa da minha tia, porque era muito mais fácil só uma pessoa, pra não dar muita despesa pra minha tia. Ela ia pra lá nos finais de semana, quando dava, em São José dos Campos, e na semana ela vinha pra cá, pra trabalhar. 

P/1 – E quando ela vinha trabalhar, ela dormia na casa dos patrões? 

 

R – Não. Na casa da minha tia, que é a irmã dela. 

 

P/1 – E ela, alguma vez, te levava pro trabalho, junto? 

 

R – Não. Nunca. 

 

P/1 – Você nunca lembra... 

 

R – Não, nunca fui pro trabalho junto com ela. Nunca. 

 

P/1 – Nisso, você já estava com quantos, dezessete anos? 

 

R – Não lembro a idade que eu tinha, mas devia estar por aí, uns dezesseis, dezessete anos. 

 

P/1 – Foi aí que você arrumou a primeira namorada? 

 

R – Nessa época eu não namorava, não. Não arrumei nada. Era só estudar, mesmo. Nem lembro, pra falar pra você. Nem lembro. (risos) Eu era muito tímido. Nossa! 

 

P/1 – Mas como foi aquele primeiro namoro que você falou?  

 

R – Na época que eu estava morando aqui em São Paulo, eles estavam juntos de novo. Foi a época do ensino médio. A namorada que eu fiquei três anos, nem sei explicar, foi assim, estudando junto. Rolou aquele interesse da minha parte e da parte dela, a gente ficou junto, aí a pedi em namoro pros pais dela ainda. Nossa, ainda fiz isso! Nossa! 

O pai dela policial. (risos) Eu lembro até que a mãe dela falou assim: “Não é do meu agrado, não, vocês namorarem, mas se é o que ela quer...”. A gente namorou, mas tinha muita interferência da família dela, dos irmãos dela e da mãe dela. Eu fui desgostando, fui deixando. Falei: “Não tem porque eu ficar passando por isso, não.” Deixei quieto. Aí não namorei mais com ninguém, fiquei de boa. Terminei meus estudos e comecei a trabalhar. 

 

P/1 – Terminou os estudos, o colegial?   

 

R – Isso, o colegial.  

 

P/1 – Você pensou em fazer alguma faculdade?    

 

R – Sim, mas tentei, fiz a prova do Enem, tentei o Prouni e não consegui. Não sei que diacho que tinha lá, que eu não conseguia. Eu tinha notas boas, conseguia as bolsas, mas eu não conseguia. 

A primeira rejeição que eu tive do Prouni foi por conta que não fechou turma, aí eles cancelaram a minha bolsa. A segunda foi por conta do documento do meu pai. Na época que a gente morava no Paraná, ele tinha o CPF dele jurídico, ele não mudou. Quando chegou aqui, que eu morava com meus pais, não sabia que isso interferia. Fui levar a documentação dele pra secretaria da Uninove, a moça falou assim: “Se eu entregar a sua documentação, o MEC vai entender que o seu pai tem condições de pagar uma faculdade. Eles não vão aceitar a sua bolsa.” Tive que desistir da bolsa e aí eu desanimei pra caramba. Não dava certo. 

 

P/1 – E pra que você estava tentando?  

R – Administração. Sempre tentei pela Administração. 

 

P/1 – Por que você queria Administração?  

 

R – Acho que por não ter ainda nenhuma área específica que eu me identificasse, pra poder me profissionalizar naquilo. Administração era o primeiro passo que eu tinha em mente, pra ver se abria a minha visão pra outras áreas. Mas nunca deu certo. 

 

P/1 – E aí você foi procurar trabalho? 

 

R – Aí eu comecei a trabalhar. Meu primeiro emprego registrado foi no McDonald’s, [uma] experiência horrível. Fiquei só quatro dias. (risos) 

 

P/1 – E como foi o trabalho?  

 

R – Horrível. Nossa! Fiquei quatro dias, só. 

Eu estava terminando os meus estudos. Falei: “Não quero isso pra minha vida, não.” Ganhava uma miséria - aliás, não cheguei nem a pegar um pagamento inteiro! Mas falei: “Vou me matar aqui de ficar fritando hambúrguer, pra poder ganhar uma miséria”... Porque eu via o pessoal reclamando de salário, os que já estavam lá há mais tempo. Aí eu saí fora. 

 

P/1 – Mas como era o trabalho? 

 

R – Quando eles me colocaram, na época que eu entrei, era ficar fritando hamburguer, montando os lanches na bancada deles. É uma frescura do caramba, não sei quantos gramas disso, quantos gramas disso, não sei o quê. A gerente daquela loja cobrava muito a montagem do lanche: “Vamos melhorar a montagem do lanche”, porque tinha muita cobrança dos clientes em cima disso, o lanche tinha que vir perfeitinho na caixa. 

Eu me injuriei com essas coisas. Falei: “Isso aqui não é pra mim, não.” Saí fora. (risos) 

Nisso, eu terminei meus estudos. Depois do Mac, eu entrei pra trabalhar como telemarketing. Foi uma indicação que um parente da dona da casa que meus pais moravam de aluguel indicou, ali no Paraíso. Era uma empresa que prestava serviço, na época, pra Vivo. Hoje em dia eu nem sei se existe mais. 

 

P/1 – E como era a rotina de telemarketing? Seu primeiro dia de trabalho.  

 

R – Foi estranho falar no telefone, com pessoas corporativas. Um ambiente totalmente novo pra mim, que não sabia lidar com pessoas desse tipo: empresários, essas coisas, que tinham que administrar as suas linhas de telefone nas suas empresas, as suas contas, as suas linhas que não funcionavam, essas coisas assim. 

Fiquei pouco tempo também nessa parte corporativa. Isso na Barra Funda, quando entrei nessa empresa. Depois, eu fui para o Paraíso; lá era mais dados, mesmo, na internet do celular. Era dar suporte técnico pra quem não conseguia conectar na internet. Era mais…

 

(PAUSA)

 

P/1 – Então você veio trabalhar como operador de celular?  

 

R – É. Telemarketing, pra dar suporte técnico pra Vivo. 

 

P/1 – Você chegou a se identificar com o ambiente? 

R – No começo sim, eu gostava bastante. O pessoal novo, jovem, da mesma idade que eu; muita brincadeira, tal. 

Eu gostava, até um certo ponto. Até o momento que começou a ficar estressante. Telemarketing é estressante [de] trabalhar. A pessoa tem que ter vocação pra trabalhar com isso. (risos) Não recomendo. 

Eu não vou cuspir pra cima, não. Se um dia eu tiver que voltar a trabalhar com isso, eu volto, porque é um trabalho digno, como qualquer outro, mas não é pra mim. 

 

P/1 – Mas era estressante por quê?  

 

R – Porque o cliente te xinga lá do outro lado, né? 

 

P/1 – Isso que eu ia te perguntar: você recebeu muito xingamento? 

 

R – Vixe, nossa! Demais. O cliente já liga te xingando, estressado, na maior falta de educação e você não pode falar nada. “Não, senhor, não sei o quê”, sabe? 

Chegou um certo ponto que eu já queria sair da empresa, aí eu não atendia o telefone, desligava na cara. Tem muito disso, hoje em dia não sei se vocês já tiveram essa experiência de telemarketing, de ligar pra uma central de atendimento, mas a pessoa desligar na cara. É bem isso aí. Se o atendente está injuriado, estressado, ele desliga na cara. 

 

P/1 – Nossa! 

 

R – Derruba a ligação, né, que fala. (risos) 

 

P/1 – Mas todo dia você recebia grosserias? 

 

R – Ah, não era todo dia. Tinha dia que era super de boa, bem tranquilo, mas tinha dias que eram bem marcados por um ou dois que deixavam a gente bem estressado. A pessoa chegava toda mal educada na linha, xingando, porque o negócio dele não deu certo ou porque outros atendentes derrubavam a ligação dele, aí ele vinha e descontava no próximo. Tinha muito disso. 

Como você vai argumentar com uma pessoa dessas, se a pessoa já está ali com sangue nos olhos? 

Nessa empresa eu fiquei um ano e dois meses, três meses. 

 

P/1 – E essa era no Paraíso?

 

R – É, no Paraíso. 

 

P/1 – Mas você estava morando onde? 

 

R – Eu morava com os meus pais, sempre ali na zona leste, no Camargo Novo. 

 

P/1 – Uma coisa que eu ia te perguntar: você notou alguma mudança na zona leste, na sua infância, brincando na rua, até esse período que você estava trabalhando em telemarketing?  

 

R – Mudou muita coisa. As ruas ficaram asfaltadas, ficou mais movimentado de carro. Você perguntou do movimento, né? 

Ficou mais violenta, porque eu comecei a ter essa noção de violência, de assalto. Foi a época que eu comecei a trabalhar, também. Nessa época, eu nunca tinha sido assaltado, mas tinha já essa noção de perigo, justamente pela minha mãe falar: “Cuidado”. Eu não trabalhava num horário perigoso, era um horário movimentado, mas tinha essa orientação, pra tomar cuidado. 

A evolução do bairro, de comércio, essas coisas acho que são naturais pra qualquer região, qualquer bairro. Mudou bastante lá, cresceu. Não muito, mas cresceu.  

 

P/1 – E você pegava... Você ia pro trabalho como?     

 

R – De ônibus. 

 

P/1 – E era quanto tempo? 

 

R – Dali da zona leste, pra quem trabalhava (risos) ali no Paraíso, metrô e ônibus. Gastava duas horas, duas horas e meia, dependendo da condução, se o metrô estava bom ou não. Era bem cansativo. 

 

P/1 - Duas horas, duas horas e meia pra ir, só? 

 

R – É. 

 

P/1 – E pra voltar?

 

R – Também. Eu acho que era mais ou menos isso. 

 

P/1 – E nesse transporte você lia alguma coisa, passava o tempo de algum jeito...

 

R – Eu gostava de ouvir muita música. Não tinha esse hábito de ler, nunca tive esse hábito de leitura. Isso eu me arrependo, de não ter tido esse hábito de leitura. Eu ficava mais ouvindo música com fone de ouvido.  

P/1 – Os celulares que vocês davam suporte, como é que era? Nessa época, qual era o tipo de celular?

 

R – Nossa! Eu lembro que eu tive um Nokia bem simplesinho, que só dava pra ouvir rádio nele. O celular melhorzinho que eu tive foi um da Sony Ericsson, que eu mesmo comprei - eu estava trabalhando, né? Tinha uns celulares desses piratões, que meu pai pegava de rolo no trabalho dele, com os colegas dele lá, que também dava pra quebrar o galho, mas ele dava pra gente e pegava de volta. Ia lá e vendia.

Também tive MP3, que era o que eu mais usava, que eu mesmo comprei também, aí me roubaram. Não sei como conseguiram pegar da minha mochila, no ônibus; quando eu fui dar conta, já tinham levado. Era o que eu tinha pra poder me distrair nesse trajeto de ir pro trabalho, de voltar pra casa. 

 

P/1 – E aí, qual foi o trabalho seguinte? 

 

R – Depois dessa empresa de telemarketing? O meu irmão trabalhava numa empresa de limpeza, era tipo o encarregado. Surgiu uma vaga pra trabalhar na área de limpeza, serviços gerais; ele perguntou se eu queria. Como eu estava bem estressado com o telemarketing, falei: “Quero, topo.” Estava com férias vencidas e tudo na casa, pedi as minhas contas e fui trabalhar lá com ele, nessa empresa. 

Era uma empresa que prestava serviços dentro do Correio, ali na Mooca. Fiquei lá dois anos e pouquinho.  

 

P/1 – Como é que era? Faxina?   

 

R – Faxina. Limpeza das máquinas, do chão, do banheiro. 

 

P/1 – E era diário? 

 

R – Era diário. Todo dia a mesma coisa. 

 

P/1 – Você sentia que o povo respeitava? Como era? 

 

R – Tinha o pessoal bem receptivo. Tinha aqueles que respeitavam e aqueles que não respeitavam, um ou outro, né? 

Nessa época, eu tinha uma visão que a pessoa que trabalha com serviços gerais, na limpeza, não é tão valorizada como eu acho que deveria ser. Não só em questão financeira, de salário, mas pelo respeito, porque chegava vez de eu estar limpando.. Um exemplo: estou lá lavando um banheiro; vem o cara pra usar, não está nem aí, não pede licença ou faz a sujeira dele de qualquer jeito no vaso sanitário, entendeu? Ou pelo simples fato do indivíduo não ter a coragem de dar descarga depois de usar o banheiro, essas coisas. Acho que é muita falta de respeito com a pessoa que está lá limpando, pra manter aquilo ali organizado. É a visão que eu tinha, na época. 

 

P/1 – E você chegou alguma vez a falar isso pra alguém?

 

R – Pra pessoa não, mas a gente, entre si, reclamava, reclamava pra supervisora: “Olha, acontece muito assim, assim. O cara vai lá, usa o banheiro e não dá descarga ou faz um bolo de papel higiênico, ataca no vaso”, essas coisas que até Deus duvida. Você pensar que uma pessoa faz isso na sua própria casa… Mas fora isso, tinha umas amizades legais lá também, o pessoal do Correio. 

 

P/1 – Teve umas amizades legais?

 

R – Tive. Tinha uma senhorinha lá que gostava pra caramba de mim. (risos) Já cheguei até a ir pra praia com ela, eu a visitava na casa dela. Ela me chamava de filho. Eu me identificava bastante com ela.  

 

P/1 – Qual o nome dela? 

 

R – Nazaré. 

 

P/1 - E como foi que surgiu essa amizade? 

 

R – Como surgiu, eu não sei te dizer, mas acho que era no dia a dia, conversando. Não sei por qual motivo ela me convidou pra ir pra casa dela. Fui lá almoçar com ela, depois ela me convidou pra ir pra praia, a gente ficou três dias na praia. Essas coisas assim, bem amigos, mesmo. 

Hoje em dia não tenho mais contato com ela, infelizmente. Ela é super gente boa. Foi mais ou menos isso. 

 

P/1 – Teve algum dia que te marcou, nesse trabalho?     

 

R – Ah, teve, quando eu descobri que a pessoa que trabalhava comigo falava mal de mim, me entregava, queria me ‘queimar’ com a minha supervisora. Na frente, ela era toda amiga. Depois, a minha própria supervisora falou: “Cuidado com a Andréa, que ela vem aqui falar mal de você.” Eu falei: “Ah, é? Caramba!” Aquela coisa, apunhalada do seu amigo, que você nem espera. 

Eu tinha muita amizade com essa pessoa, trabalhava junto. Até, às vezes, contava coisas da minha vida pessoal pra ela e ela pra mim, da vida dela, pessoal. 

 

P/1 – Você descobriu que a Andréa falava pelas costas. E aí, como você reagiu? 

 

R – Eu fiquei bem chateado na época, porque eu não esperava isso dela. Tinha outras pessoas que eu falava pouco, que eu me identificava pouco, da equipe, mas a pessoa que eu trabalhava todo dia junto, que eu compartilhava, dividia coisas pessoais da minha vida e ela da vida dela… Saber que ela falava mal de mim e tentava me prejudicar por trás foi bem inesperado. Foi ruim, não gostei, não. 

Foi uma experiência que eu falei: “Não, agora eu já fico esperto pras próximas amizades que vierem.”  Serviu como experiência. 

 

P/1 – Aí você ficou lá um tempão?

 

R – Fiquei dois anos e acho que uns cinco meses. Não me lembro. Dois anos e alguma coisa. 

 

P/1 – Teve alguma outra experiência marcante lá? Como era, pra você, ser um funcionário de limpeza, além dessas coisas que você falou, das pessoas deixarem, sujarem tudo? 

 

R – Essa parte é bem marcante, porque eu não gostava muito, não. (risos) Já estava ficando bem injuriado de trabalhar com a empresa. Eu queria mais, queria evoluir, progredir. Não queria ficar como auxiliar de limpeza pra sempre, tinha esse pensamento. E o próprio pessoal do Correio falava: “Estuda, faz um curso, alguma coisa pra você conseguir uma coisa melhor, uma empresa melhor, sair da limpeza. Presta o concurso do Correio.” 

Eu tinha aquela vontade de trabalhar no Correio. Eu via que, além de ser um pessoal legal que trabalhava lá, o salário deles era bom, bem atrativo, bem agradável os benefícios que eles recebem. Tinha muita vontade de entrar, mas não fiquei sabendo de concurso, não consegui; cheguei a me inscrever pra prestar o concurso, mas cancelaram e depois disso eu nunca mais tentei. 

De lá, eu fui trabalhar... Onde eu trabalhei mesmo, depois de lá? 

Eu pedi as contas, fui passar o final de ano no Paraná, viajar com a minha mãe. Meu irmão estava morando lá. A gente ficou lá o final do ano, Natal e Ano Novo. 

A gente voltou pra São Paulo, aí eu voltei a procurar emprego. Trabalhei no shopping, nas lojas Pernambucanas. Foi a sequência. 

 

P/1 – Trabalhou no shopping?

 

R – É. Foi isso: fui ali no Shopping Aricanduva entregar currículo e me chamaram na loja Pernambucanas. Não queria entrar em shopping porque eu não gostava, por ser povão, sabe? Muito cheio. Essa coisa nunca me chamou atenção, mas precisava trabalhar, precisava ajudar em casa. 

Lá fui eu, meti as caras pra trabalhar no shopping. Fiquei lá também, um tempinho. Dois anos? Dois anos também. 

 

P/1 – Dois anos lá?

 

R – Acho que foram dois anos ou um pouco mais, não lembro com certeza. Estou com a memória bem ruim, viu? Nossa! 

 

P/1 – O que teve de diferente lá? 

 

R – A experiência de trabalhar como analista de crédito. Trabalhava analisando, fazendo crediário pros clientes. O promotor fazia a captação do cadastro da pessoa, do cliente, aí levava pro setor que eu trabalhava, de análise de crédito; eu preenchia o cadastro, mandava pra central, pra analisar se tinha um score bom pra poder aprovar. Vendia seguro, essas coisas. 

Pra mim, isso era bem atrativo. Tinha saído de auxiliar de limpeza pra trabalhar como analista de crédito. Pra mim foi uma coisa bem diferente, então isso era bem atrativo pra mim. 

O supervisor que me contratou na época falou assim: “Olha, eu vejo aqui no seu currículo que você trabalhou de limpeza. Vejo que você tem força de vontade, de querer crescer, de trabalhar, de ter compromisso. Eu vou ficar com você. Eu gostei de você, vou te contratar.” Pra mim, isso foi bem motivador, pra ficar ali trabalhando, mesmo trabalhando com público porque, querendo ou não, acabava sendo quase parecido com o telemarketing. Eu só não estava no telefone com o cliente, mas eu estava ali, cara a cara, né? 

 

P/1 – Mas o pessoal era mais tranquilo?       

 

R – Na maioria dos casos, sim. Dos clientes que eu já atendi, sim. Mas tinha um ou outro que era bem estressadinho. Tem aqueles que se acham, não sei o que a  pessoa tem na cabeça que acha que só porque eu estou do lado de cá do balcão pode maltratar, pode jogar o documento. Esses tipos de situação que quem trabalha com isso, nessa área, passa, né? Isso, pra mim, é muita falta de educação. 

Acho que entregar na mão… Essa coisa da educação, sabe? Você chegar, cumprimentar: “Bom dia! Boa tarde! Olha, aconteceu assim, assim e assado.” Coisa que a gente conversa com calma, com educação, civilizada; a pessoa consegue entender, compreender. Se você chega já causando, estressada, deixando o outro estressado, não resolve nada. 

 

P/1 – Mas teve alguma situação específica? Você lembra disso?

 

R – Ah, teve. Teve uma senhora que eu atendi que até me jogou praga. Eu tentei... De imediato o cadastro dela não tinha sido liberado, o cartão dela. Ela ficou indignada, revoltada, achando que eu que não queria aprovar o cadastro dela, o crediário dela. 

No dia seguinte, voltou com todos os cartões que ela tinha, jogou na minha mesa,, me deu um papelzinho pra eu ler e falou: “Você acredita na lei do retorno?”, me jogando praga. Não lembro o que eu falei pra ela. Só peguei o papel, amassei e joguei no lixo. Nem li. Tentei manter a calma naquela hora, que é difícil. Aí ela pegou as coisas dela, os cartões dela e foi embora. 

Quando não, [tinha] aqueles clientes que tentam usar o cartão no caixa, não passava e vinham xingando a gente. Quando eu trabalhava na parte de crédito, também tinha que liberar um pouco mais de limite. A gente tinha essa autonomia pra liberar o cartão pro cliente passar no caixa, pra liberar as compras dele. Quando não dava pra liberar, o cliente já ficava todo estressado, todo ignorante, aí vinha pra cima, com toda a revolta. E aí eu mesmo já estourei, já mandei calar a boca, já mandei… Xinguei. Coisas que eu nunca imaginei que eu faria. Acabei fazendo porque você fica estressado, são coisas que estressam. 

 

P/1 – Esse lugar era próximo da sua casa?

 

R – Não. De onde eu morava com a minha mãe, no Jardim Camargo Novo, ao Aricanduva, era o maior rolê.     

 

P/1 – E era ônibus também?

 

R – Era ônibus também. 

 

P/1 – Quantos ônibus?

 

R – Eu pegava dois. Um ônibus e uma lotação, pra ir e pra voltar. 

 

P/1 – Teve algum momento que você sentiu que melhorou? Algum prefeito de São Paulo, você sentiu que deu uma melhorada na sua vida?  

 

R – Nunca tive essa percepção. Melhorou porque melhoram os ônibus, vem uns bancos mais confortáveis. Eu lembro quando pegava ônibus com a minha mãe ou com a minha tia, da época daqueles bancos duros, daqueles ônibus de cordinha. Não sei se você chegou a pegar ônibus assim. Eu lembro disso, pegava muito ônibus assim, com a minha mãe e com a minha tia e com meu pai. 

Melhorou o transporte, mas pelo fato de eu morar bem no extremão da zona leste, qualquer coisinha que era pra ir pro Centro de São Paulo era um trajeto de uma hora e meia, duas horas ou mais. Isso nunca mudou e acho que nunca vai mudar. É cansativo, porque são regiões que têm uma quantidade de pessoas muito grande, que vão no mesmo horário e aí é horário de pico, o fluxo maior. Isso acaba sendo sempre muito desgastante, muito cansativo. Até quando eu vou visitar a minha mãe -  ela mora no Camargo Novo, com meu irmão - eu pego trem e ônibus com as minhas filhas, com a minha esposa. 

 

P/1 – E você já chegou a pensar em mudar? 

 

R – Com certeza, mas não tive oportunidade ainda. Está ali, no meu projeto, no meu sonho. Eu não tenho habilitação, não tenho carro, mas eu pretendo, sim, justamente por isso, pra me livrar desse estresse de pegar condução, trem, ônibus, pra poder ir passear com mais tranquilidade e mais conforto com a minha família. E até pra trabalhar, também. 

 

P/1 – Você ficou na Pernambucanas quanto tempo? 

 

R – Acho que fiquei lá uns dois anos e pouco também. Peguei férias duas vezes lá, nas segundas férias eu não quis mais voltar, porque já estava bem cansado de atendimento com público, povão. 

Não sei se você conhece o Shopping Aricanduva, ele é bem movimentado. Não agora, por conta da pandemia, mas é um shopping que sempre lota [no] final de semana, feriado, final de ano. É bem estressante. 

Eu nunca fui do tipo... Acho que até mesmo pelo meu jeito de ser, mais reservadão, caladão, eu não me identificava com multidão, com o povão. E também atendimento ao público - nunca foi, pra mim, o meu forte, trabalhar com isso. 

 

P/1 – O seu forte é o quê?        

      

R – Hoje eu trabalho como assistente administrativo na Vedacit, na área da Logística. Eu gosto do que eu faço, na área administrativa. Acredito que esse seja meu forte. Apesar de estudar Química, né? Então... 

 

P/1 – A gente vai chegar lá. Muita calma nessa hora. 

Me responde um negócio: você sonhava dormindo? Quando você dorme, dormia, você tinha sonho? 

 

R – Sonhava. Ultimamente não estou sonhando muito, não. Mas sonhava. 

 

P/1 – Você pode compartilhar algum sonho forte que você já teve na vida, dormindo? 

 

R – Deixa eu puxar aqui um sonho, porque os meus sonhos sempre foram tão confusos. Já tive sonho bom, sonho ruim, com as minhas filhas, com a minha família, a minha mãe, os meus irmãos. Já tive pesadelo também. Falar pra você um sonho mesmo, contar o que aconteceu, não estou conseguindo lembrar de nenhum. 

 

P/1 – Você tinha sonho acordado? 

 

R – Como é que é isso? 

 

P/1 – Sonho de vida, alguma coisa que você sonhava. 

 

R – Alguma coisa que eu quero, que eu almejo? Tem, né? O meu carro. Sonho em viajar mais, quero muito poder viver, aproveitar a vida, coisa que eu não fiz, acho que não fiz do jeito que gostaria de ter feito na minha juventude, na minha adolescência. Tenho só trinta anos, mas a vida é isso aqui, passa num estalo. Gostaria mais de ter aproveitado, ter curtido mais, viajado mais, brincado mais. Se eu pudesse voltar a minha vida uns oito anos, eu voltaria e faria tudo diferente. Tudo. 

 

P/1 – O que você faria diferente?     

 

R – Tudo. Faria tudo. 

Não casaria. (risos) Desculpe falar assim, mas não casaria. Namoraria, sim, eu e a minha esposa. A gente fala isso abertamente, que se a gente tivesse a maturidade, a cabeça que a gente tem hoje naquela época, a gente não teria casado e não teria feito filhos. A gente teria estudado, curtido mais, saído mais. A gente saía, aproveitava o nosso namoro, mas a gente quis juntar pra casamento muito rápido, muito cedo. Apesar de que eu tinha 24 pra 25 anos. 

 

P/1 – Foi quando você a conheceu? 

 

R – Foi quando a gente teve a nossa primeira filha e aí foi morar junto.  

 

P/1 – Nossa! Calma aí. Antes de chegar, eu queria saber se você curtiu alguma coisa. Você está me contando outra trajetória de trabalho. Mas você tinha alguma coisa de lazer, que te dava prazer, alegria?

 

R – O meu lazer, tirando as pouquíssimas vezes que eu fui pra praia, era ir pra shopping, passear. 

Eu não praticava nenhum esporte. Hoje em dia eu adoro correr, descobri uma paixão por correr, mas também parei um pouco por conta do meu horário de trabalho, porque não permite. Corro na esteira agora, na academia, mas eu gosto. E andar de bike. 

Nessa época eu não tinha nenhum tipo de lazer diferenciado. Era mais esse basicão, mesmo: o shopping, uma praça. Na minha época de namoro com a minha esposa, a gente ia pra zoológico, pro Hopi Hari, já foi pro Playcenter, quando existia. E outros tipos de lazer, né? 

 

P/1 – Bom, aí você teve as segundas férias e aí saiu da Pernambucanas? 

 

R – Saí da Pernambucanas. 

 

P/1 – E foi para...     

 

R – Quando eu saí da Pernambucanas, eu trabalhei na Raia... Foi na Raia? Foi na Raia. 

 

P/1 – O que é Raia? 

 

R – Farmácia Droga Raia. 

 

P/1 – Ah, Droga Raia. E como foi que você chegou lá? 

 

R – Através dela. Conheci a minha esposa na Pernambucanas.  

 

P/1 – Ah! Como foi? 

 

R – Eu tinha terminado meu namoro da época da menina da escola, do ensino médio. Estava naquela coisa: “Não vou namorar mais ninguém, não vou gostar de mais ninguém. Vou ficar só mesmo, de boa e trabalhando.” 

Um mês depois que eu entrei na Pernambucanas, a minha esposa entra. Ela, toda atiradinha, já veio pra cima, dando em cima: “Você é bonito, vamos ficar.” “Não, não quero me relacionar com ninguém, não, porque eu acabei de sair de um namoro e não foi muito legal.” “Ah, mas não sei o que…” 

Eu até brinco com ela: “Maldita Paula Fernandes!” Na época, a Paula Fernandes estava bem estourada. Por conta que eu gostava de ouvir as músicas da Paula Fernandes, tipo: “Vai se entregar pra mim”, sabe? Aí eu falava: “Vou dar uma chance, vamos ver o que vai rolar.” (risos). 

A gente ficou. Eu falava: “Caramba, mano.” Mas assim, na brincadeira, a gente brinca. A gente ficou, começamos a namorar e com três meses de namoro a gente resolveu que queria casar. Mas não casamos. A gente só continuou trabalhando, cada um morando com seus pais e se preparando financeiramente, comprando as coisas de casa - os móveis, geladeira, coisa e tal, pra poder alugar uma casa e morar juntos. Em nenhum momento, nessa época, passou pela nossa cabeça: “Não, vamos estudar ou só trabalhar, pra poder juntar dinheiro e comprar nossa casa própria”. Incrível, sabia? 

 

P/1 – Não passou isso?

 

R – Em nenhum momento. Agora, falando, compartilhando isso com você, me vem na mente isso. E é coisa que eu já falava com ela. Se a gente pudesse voltar na época do nosso namoro, não teria casado e ter feito... Eu amo minhas filhas, são minha vida e eu não me arrependo de tê-las, mas eu teria feito diferente. Não teria me casado e não teria sido pai na época que eu fui, por conta da dificuldade... De hoje eu estar tendo um pouco mais de dificuldade pra estudar, ter uma profissão, pra me formar. Eu não sou formado. 

 

P/1 – E como foi que você virou pai?     

 

R – Ah, era o meu maior desejo, né? Eu falava, tinha medo de não conseguir ser pai, não ter uma família. Tinha essa visão, na época. E foi de acordo entre eu e ela, na nossa primeira filha: “Vamos ver se vai dar certo.” Acabou que deu certo. 

Foi bem emocionante pra nós dois, apesar de ser uma experiência nova, pai de primeira viagem. Era uma coisa que nós dois planejamos, a gente quis que isso acontecesse no nosso relacionamento. E foi muito bom. Graças a Deus foi muito bom, uniu bastante a gente, mais ainda. 

[Foi] uma experiência bem marcante. Tudo. Todo o processo da gestação dela, até o parto. Muito bom. Dessa parte eu não me arrependo, mas... 

 

P/1 – Como foi que ela falou que estava grávida? Vocês estavam há quanto tempo juntos? 

 

R – Quando a Léa ficou grávida?

 

P/1 – É. 

 

R – Não lembro exatamente quanto tempo a gente tinha junto, mas acho que a gente já tinha quase uns dois anos, por aí. Não tenho certeza. . 

(PAUSA)

 

P/1 – Como foi que ela te deu a notícia?       

 

R – Na verdade, eu mesmo percebi. Como ela era mãe de primeira viagem, o corpo dela mudou muito. Eu percebi que ela já estava grávida, mesmo ela não tendo a certeza da gravidez. Teve a certeza, depois, com aquele teste de farmácia, aí ela veio dar a notícia pra mim toda emocionada e estressada - ela sempre foi bem estouradinha, bem estressadinha. Mas assim, emocionada por ter dado certo a gravidez. (risos) 

A gente [disse]: “Vamos ver o que vai dar.” Eu me lembro até hoje, falei pra ela não tomar remédio. “Não faz nada, vamos ver se vai dar certo.” E deu certo. 

 

P/1 – Você lembra qual foi o primeiro momento que você viu sua filha?

 

R – No primeiro ultrassom. Assim, [antes de] pegá-la depois do parto. Mas a emoção... 

 

P/1 – No pegar.

 

R – No pegar? Quando ela foi para o quarto, porque eu assisti o parto das minhas duas filhas, mas não pode pegar. 

A emoção de ver a minha filha nascendo, ouvir o primeiro choro dela - isso, pra mim, é inexplicável, não tem nem como explicar a emoção desse momento. Pra mim é muito amor, muita emoção ver um pedaço de mim nascendo ali. É bem emocionante. Da minha primeira filha e da segunda também. 

Pegar, então, nem se fala! Aquele pedacinho de gente e eu todo atrapalhado, sem experiência nenhuma de pai, todo desengonçado (risos) e aí ela olhar, toda inchadinha, é legal. Bem legal. Nossa, demais. 

 

P/1 – O que mudou na sua vida na hora que você virou pai? 

 

R – A responsabilidade, né? A preocupação de fazer por ela, trabalhar por ela, dar... Não vou dizer... Eu nunca nunca dei luxo pras minhas filhas, mas de poder sempre mantê-las bem agasalhadas, bem alimentadas. Sempre tentar dar o essencial pra elas, pra nunca faltar nada, sabe? Tanto de parte de vestimenta, quanto alimentação e também cuidados da saúde. A minha preocupação era sempre estar trabalhando, me manter firme nas empresas que eu trabalhei, que tivessem benefício, que era o seguro... Ai, meu Deus, fugiu a palavra... Convênio médico. Nossa! Seguro de vida. Convênio médico. Pra ter uma assistência boa pra saúde das minhas filhas. 

São muito novas. A minha filha mais velha tem seis e a mais nova tem dois anos. Criança tem muito isso de ir ao médico toda hora. A minha mais velha eu tinha muito problema de ir ao médico, levar… Não sei se ela tinha problema de respiração, mas ela tinha muito problema de tosse e de ficar doente direto. 

 

P/1 – Qual é o nome dela?     

 

R – Melissa. A mais velha é Melissa e a mais nova é Mirela. 

 

P/1 – E como chegou a Mirela? 

 

R – Não sei. A minha esposa fala que é por culpa minha.

Eu queria a segunda? Queria, sim. Ela não queria, só que foi assim: quando um não quer, dois não brigam. Aconteceu de vir a segunda, mas ela fala que ela veio de teimosa, não planejada. A primeira a gente planejou e quis, a segunda não. 

 

P/1 – E você sentiu que você aprendeu alguma coisa com as suas filhas? 

 

R – Acho que eu ainda aprendo. Estou aprendendo a ser pai, a ser homem, a educar - a ser um pai diferente do que o meu pai foi pra mim. 

 

P/1 – O que você sente que o seu pai não foi e que você tenta ser?  

 

R – Meu pai, até um certo ponto, foi presente, carinhoso. Ele educou, mas eu acho que faltou, não sei... O que faltou no meu pai que eu tento ser pras minhas filhas, sei lá... Meu pai foi carinhoso, mas não sei, faltou alguma coisa no meu pai, que eu tento ser pras minhas filhas, sabe? Mais atencioso, não sei. Não ser agressivo perto delas. Não brigar, não discutir perto delas, pra elas não terem esse tipo de cenário, de coisa que elas vão gravar na mente. Eu gravei muito isso. 

 

P/1 – Você estava na Raia?

 

R – Quando ela engravidou da minha primeira filha, eu estava na Raia, então eu acompanhei muito as visitas dele ao médico. Depois eu saí e ela continuou. 

 

P/1 – E você? 

 

R – Depois da Raia, eu fui pra Panco. 

 

P/1 - Panco?     

 

R – Sabe o pão de forma, bolo, bisnaga? Trabalhei na fábrica da Panco. 

 

P/1 – Fazia o quê? 

 

R – Trabalhei lá como auxiliar de serviços gerais. (risos) Voltei pra auxiliar de serviços gerais. Só que eu ganhava bem melhor do que lá, a empresa que o meu irmão trabalhava. 

 

P/1 – Quais são as histórias boas de lá? 

 

R – Histórias boas da Panco? É uma empresa muito acolhedora, me acolheu, me recebeu muito bem lá. Tive amizades boas lá. 

Não tive muita coisa marcante lá, nada que pudesse te falar agora. Nada fora do normal. Gostava do que eu fazia lá, tinha pessoas que me motivavam lá também, pra caramba. 

 

P/1 – E na vida, qual foi a coisa mais fora do normal, que você viveu?   

 

R – Na vida? Mais fora do normal? Nossa! Espera aí que eu vou jogar. (risos) Nossa! Experiências fora do normal. Tem muitas, nossa! Tem coisas que eu nem posso compartilhar. 

 

P/1 – Conta, sim. 

 

R – Não pode. Coisas fora do normal? Em que sentido? 

 

P/1 – Aquelas histórias, mesmo, assim. 

 

R – Nossa! 

 

P/1 – Aquelas que fazem a vida ser única. 

 

R – Nossa! Deixa eu pensar aqui. Tem que pensar muito bem. 

Por isso que eu falo pra você que, se eu pudesse voltar alguns anos da minha vida, eu voltaria pra fazer a minha vida ser mais emocionante. Eu acho que a minha vida não foi emocionante. 

 

P/1 – Mas toda vida é emocionante. 

 

R – Eu acho, considero que a minha vida não foi. Apesar de eu ter tido alguns momentos bons, acho que a minha vida não foi emocionante do jeito que eu queria que tivesse sido. Eu acho. 

Eu não teria casado. Que nem eu falei pra você: não teria casado tão cedo, apesar que eu acho que 25 anos não é tão cedo assim. Mas eu teria tido momentos mais marcantes, sabe? Eu teria tido experiências diferentes do que eu vivi, como tão cedo eu me entreguei pra ser o pai de família, sabe? Ter essa responsabilidade de só trabalho, casa; casa, trabalho; esposa; filho. Teria, antes de ter essa ideia e essa vontade de querer casar e aí acabou vindo a gravidez… A minha vontade era estudar, fazer a faculdade que eu tanto tentei e não consegui a bolsa. Tinha amigos meus que, assim que a gente terminou o colegial, saíram do ensino médio já com a vaga da faculdade. Saiu de um e pulou por outro. 

Se eu fosse contar, se tivesse dado tudo certo, hoje era pra eu estar com duas faculdades; no mínimo, já formado e nem morando aqui eu queria estar. A minha vontade era conhecer o Canadá. Era ter ido pra fora. 

 

P/1 – De onde veio essa vontade?

 

R – Não sei. O meu irmão queria conhecer Portugal e eu queria conhecer o Canadá. Sabe aquela vontade de conhecer um lugar fora do Brasil, que eu tinha, na minha adolescência? Acho que qualquer um tem essa vontade de ir pra fora, conhecer lugares diferentes. 

 

P/1 – Da fábrica, você foi para... ficou lá um tempão, na fábrica?

 

R – Não, fiquei pouco tempo lá. Dois anos e pouco também. Muito pouco. Nunca tive experiências muito longas em empresa, sabe? De ficar cinco, seis, dez anos. Nunca tive. Eu me arrependo disso também, sabia? Porque... 

P/1 - Deixa eu te perguntar uma coisa: você já sentiu a presença de Deus na sua vida, em algum momento? 

 

R – Já. 

 

P/1 – Como foi esse momento que você sentiu assim: “Nossa! É Deus!” 

 

R – Já senti, sim. Já tive livramento, senti que foi Deus ou que Deus permitiu que um anjo, alguém ali permitisse que naquele momento não acontecesse comigo. O acidente que era pra ter acontecido e talvez eu nem estaria aqui hoje. Já tive experiências assim. 

 

P/1 – Nossa! Conta essa aí.  

 

R – Estava indo trabalhar. Eu pegava... Você conhece ali o Terminal do AE Carvalho? Zona leste também. Eu passava por aquela região e o ônibus que estava vindo na direção oposta… Eu não sei o que aconteceu com o motorista, ele perdeu o controle do ônibus e bateu no poste. A fiação caiu bem perto de mim, na minha frente; não sei quem era a pessoa, pegou e me puxou pra trás. Eu estava indo bem distraído, não tive aquela reação de me afastar, de correr e a pessoa me segurou. Foi um homem. 

Pra mim aquilo ali foi permissão de Deus, naquele momento, pra não acontecer comigo alguma coisa que poderia ter levado a minha vida. Uma das experiências que eu tive [em] que senti a presença de Deus, cuidando de mim. Fora as orações que eu... 

 

P/1 – Como foi que você chegou na Vedacit?  

 

R – Foi, pra mim, bem inesperado, porque até hoje eu não lembro se eu entreguei currículo pra Vedacit. Chegou uma época que eu entreguei tanto currículo pela internet que eu devo ter entregado pra Vedacit, mas não sabia que era Vedacit. 

Nessa época, eu estava desempregado. Eu tinha acabado de sair da Vigor - saí da Panco, fui pra Vigor. 

 

P/1 – O que é a Vigor? 

 

R – A Vigor é [fábrica de] iogurte, fica ali no Belenzinho. Fui desligado da empresa lá, da Vigor e fiquei um tempo recebendo seguro em casa. Comecei a procurar emprego, não consegui, aí fui trabalhar, eu e a minha esposa, vendendo água, no Parque Ecológico. Acho que não deu nem quatro meses. 

 

P/1 – Vendendo água?

 

R – Vendendo água.

 

P/1 – E suas filhinhas?

 

R – Iam junto, as duas. Tinha vezes que eu ia sozinho e elas ficavam em casa com a minha esposa. Mas era daí que eu tirava, pelo menos, o leite e a mistura. O nosso alimento. E eu sempre ali, naquela esperança, vendendo as águas lá e pedindo pra Deus pra abrir uma porta de emprego, porque não era aquele tipo de vida que eu queria. Por mais que desse um dinheirinho razoável, não era um dinheiro que fosse pagar as contas do mês, entendeu? 

Direto acontecia de [com] que eu ganhava no final de semana, num sábado ou domingo, passar no mercado e já levar a carne, as verduras, o leite, pra casa. Era isso. 

E eu sempre pedindo pra Deus, eu nunca perdi a fé. Por mais que eu não esteja na igreja, a minha oração de manhã, quando eu saio pra trabalhar, sempre faço, pedindo proteção pra Deus. Nunca perdi a minha fé em Deus, em nenhum momento. E tenho certeza que, por mais que eu não seja um filho perfeito, eu sei que Ele me ouve. Eu sei que o fato de eu ter entrado na Vedacit foi graças a Ele. Foi Ele que abriu essas portas pra mim, porque tanta coisa boa aconteceu pra mim naquela empresa. 

 

P/1 – É mesmo? 

 

R – E eu tenho fé que ainda muita coisa boa vai acontecer, porque é uma empresa maravilhosa, acolhedora; me abraçou, me recebeu de braços abertos.  

 

P/1 – A empresa tem braço? 

 

R – As pessoas, né? As pessoas são o braço da empresa. É uma empresa de família. A família não trabalha mais na administração da empresa. Eles trabalham por fora, são os conselheiros. Mas as pessoas que trabalham lá recebem muito bem a gente, fazem sentir esse calor, essa recepção boa. Eu senti isso. Na sinceridade, mesmo. Estou falando pra você: eu senti isso. Tanto é que quando eu fiz a entrevista, quando a Carol, que é a menina de Gestão, estava me levando pra portaria, pra me despedir, eu falei pra ela, contei rapidinho: “Obrigado pela oportunidade.” Eu falei pra ela um pouquinho do que eu estava trabalhando atualmente e que estava na expectativa que desse certo. Acho que dois ou três dias depois ela me ligou, falando que eu tinha sido aprovado na vaga.

[Foi uma] coisa muito emocionante pra mim. Foi muito bom sentir isso, esse acolhimento da empresa. E aí, graças a Deus, muita coisa boa aconteceu. 

 

P/1 – O que aconteceu? 

 

R – Primeiro por eu ter entrado na empresa, que é uma empresa muito boa. Segundo, pelo projeto que eu acabei participando, que foi a reforma da minha casa; consegui ganhar a reforma de dois cômodos da minha casa. E terceiro, que recentemente eu fui promovido, então coisas muito boas aconteceram pra mim lá dentro. 

Fora que as pessoas que eu conheço lá dentro são legais, são muito gente boa; são pessoas que estão trabalhando, estão na luta, estão correndo atrás. Não tem aquela pessoa... Tem um ou outro, ninguém é perfeito, ninguém está 100% feliz onde está, mas eu tento estar sempre próximo daqueles que vão me fazer eu me sentir bem, que vão acrescentar em alguma coisa. Não é que eu vou rejeitar o outro, não é isso, mas saber lidar nas duas situações. 

As amizades, os companheiros, colegas de trabalho, são pessoas que sempre me motivaram, incentivaram, desde a produção - eu trabalhava na área da produção - até agora, [na] área administrativa [em] que eu estou. 

 

P/1 – Você começou a estudar Química como? Você falou que você estava estudando Química. 

 

R – É. A Química, eu gosto dessa área. Eu me lembro muito pouco da área da Química na época da escola, mas a vontade de estudar Química, entrar na área da Química, surgiu quando eu trabalhei na Vigor, porque eu queria trabalhar em laboratório. Eu queria ter essa experiência de trabalhar em laboratório. 

Eu fiz a prova da Etec [Escola Técnica]. Passei, consegui a vaga, só que meu supervisor não autorizou a troca de horário, então eu tive que desistir da vaga. De novo. Acabei deixando quieto, trabalhei um tempo lá. 

Isso me desmotivou bastante, porque eu não tive o apoio de quem eu esperava ter, que era o meu supervisor, pra um crescimento. Eu imaginei que é uma indústria, uma fábrica que trabalha com laticínios, mas também mexe com produtos químicos e eu queria trabalhar, crescer na empresa. Tinha essa visão. E aí não tive esse apoio, essa força da empresa, do meu gestor direto, né? Isso me desanimou bastante, mas eu continuei fazendo meu trabalho na linha de produção. Fui desligado da empresa depois da crise que teve, dos caminhoneiros. 

 

P/1 – Ah, isso teve alguma ligação?

 

R – Eu acredito que sim, porque não fui só eu. Várias outras pessoas também foram desligadas da empresa depois dessa época. Não sei se eles não gostaram do meu trabalho, também. Não sei. 

Enfim, depois de lá eu fiquei no seguro, fui trabalhar vendendo água no Parque Ecológico e aí onde surgiu a Vedacit, outra indústria química. E aí voltou aquela vontade, o desejo de entrar na área da Química, pra trabalhar em laboratório. 

Assim que eu fui desligado da Vigor, eu fiz uma entrevista na Aché. Conhece? É indústria farmacêutica. Aí, sabe, voltou à tona aquela vontade de entrar na área da Química, ou na farmacêutica. 

Minha esposa é técnica de farmácia, ela conseguiu se formar nessa área. Também está estudando Química. Não sei se o fato de eu ter entrado nessa área acabou motivando-a. Não sei, pode ser que sim, mas tanto eu quanto ela estamos ali, né? Porque não é fácil estudar com duas crianças pequenas e ainda fazer aula on-line. 

Fiz de novo a prova da Etec já estando na Vedacit, consegui a vaga e entrei. E estou até hoje. Vou me formar no segundo semestre do próximo ano, se Deus quiser! 

 

P/1 – É o que, uma faculdade?

         

R – É Etec, curso técnico.           

 

P/1 – E aí, me conta como era sua casa, que você morava.

 

R – Como era? 

    

P/1 – Antes dela ser transformada, como era a casa. 

 

R – A minha casa própria agora não está acabada do jeito que eu gostaria, mas ela está bem melhor. 

 

P/1 – Mas como ela era antes? 

 

R – Antes ela era na parede, o reboco, não tinha acabamento. O meu banheiro, na época, antes da reforma, era só no chapisco, não tinha nem piso no chão. Não tinha cerâmica, molhava muito quando chovia. Até hoje ela não tem forro, não tem reboco no teto. Tinha muito problema com umidade, com infiltração, por causa da chuva, porque a minha casa é de laje. Eu optei por fazer laje. Só que eu não sei se foi na parte de escoramento, a laje cedeu e criou uma barrigona, então toda vez que chovia, empoçava muito. Com o tempo, com menos de um ano, a minha laje estava bastante trincada e então infiltrava todinha a água pra dentro. Além da goteira, ainda escorria pelas paredes, porque não tinha telha, nada. 

Eu tinha muito problema de umidade e mofo. Sempre, mesmo não chovendo, tinha muito problema com mofo, não sei por quê. Não sei de onde vinha o mofo que pegava nos móveis. Mas eu tinha problema com isso e isso acabava afetando as minhas filhas, a respiração delas. Tinha muito problema delas ficarem tossindo, espirrando e não era gripe. Acho que era algum problema respiratório. 

Da parte da minha casa, só o banheiro que não tinha acabamento. Não tinha reboco, era só no chapisco, mesmo. Não tinha piso no chão. Mas o quarto e a sala tinham reboco porque eu reboquei com a minha esposa. O piso no chão a gente colocou.

 

P/1 – Você que fez? Você que rebocou? 

 

R – Eu e ela. A gente pesquisou lá no Youtube e meteu as caras, porque o dinheiro que eu tinha pra pagar um pedreiro… Eu pagava um pedreiro ou comprava o material, então, a gente optou por meter as caras, comprar o material e fazer. 

A gente fez e deu certo. Não ficou 100% porque a gente não é experiente, não é pedreiro. A gente não sabe, não tem essa prática de um pedreiro, mas deu certo e está lá a casa rebocada, o piso no chão - meio tortinho, mas está lá. Pensando no conforto pra nós e pras nossas filhas, né?    

 

P/1 – Você nem tinha dito que tinha comprado uma casa própria. Quando foi isso?

 

R – Depois da nossa primeira filha... Acabou pulando, (risos) aconteceram várias coisas também. Antes dela engravidar, a gente decidiu morar juntos, compramos os móveis e alugamos uma casa perto da minha mãe. Só que eu não me senti preparado pra isso e acabei desistindo. Aí voltamos, cada um pra casa dos seus pais. Vendemos uma parte dos móveis. 

Nessa época a gente quase se separou, quase terminou nosso relacionamento, mas aí a gente acabou decidindo tentar de novo. Falei pra ela que não é que eu não queria mais ter um relacionamento com ela, mas eu não estava me sentindo preparado pra morar junto, pra ter uma vida de casado e ela não entendeu muito bem isso na época. Até hoje ela me joga isso na cara, mas enfim, coisas de mulher.

Depois disso, de não sei quanto tempo, a gente decidiu ter a nossa primeira filha. Aí ela engravidou, a gente alugou outra casa, um pouco mais próximo ali da Vila Cisper; é um pouquinho mais afastado do extremão ali onde eu morava, do Jardim Camargo Novo, com meus pais. Ficamos morando de aluguel ali, aí nasceu a minha primeira filha. 

Dali a gente voltou pro Camargo Novo, a gente alugou uma casa lá, perto da minha mãe, porque essa casa que eu estava morando, que a minha filha nasceu, era sobrado, então a gente tanto estava tendo problema com a minha filha, com a saúde dela. Ela sempre teve problema, [quando] mais novinha ela tinha muito problema de respiração, ou porque a casa era muito abafada, ou porque a casa tinha problema de mofo, então eu vivia no hospital com ela. Ela já estava na fase de aprender a andar; a gente decidiu alugar a casa que era perto da minha mãe, que era toda térrea. E era maior, tinha um cômodo a mais. 

Mudamos, moramos lá por um tempo também, não sei quanto tempo. De lá, a gente foi pra outra casa de aluguel. Saímos do Jardim Camargo Novo e fomos morar em São Miguel, de aluguel. Só que aí, nesse tempo, quando eu ainda estava na Panco, eu fui desligado. Eu decidi... O pai dela tem um terreno ali na Vila Sílvia e ele mora lá: ele, a mãe dele e o meu cunhado, que construiu lá. Ele falou: “Se vocês quiserem construir aqui um cômodo ou dois, pra vocês saírem do aluguel, vocês vêm. Eu te ajudo a construir.” O pai dela, meu sogro, é pedreiro. “Você entra com o material, nós dois juntos entramos com a mão de obra e eu não te cobro nada por isso.” Graças a Deus! 

Quando saí da Panco, eu peguei os meus direitos, o que eu peguei lá e comprei, investi tudo na casa. Construímos dois cômodos, que é a nossa casa própria, e está lá, graças a Deus! É o bem maior que eu tenho, depois das minhas filhas. 

 

P/1 – Como você ficou sabendo do projeto Ano Novo, Casa Nova?

 

R – Foi no final do ano, acho que foi em novembro do ano passado, novembro pra dezembro. A gente teve uma reunião lá, sempre tem uma reunião do flash, que é pra falar os resultados do mês; apresentaram esse projeto de voluntariado, do Instituto Vedacit, e entrou também essa parte do concurso Ano Novo, Casa Nova. Se a gente tivesse algum problema de insalubridade na nossa casa ou conhecesse alguém que tivesse, a gente poderia indicar pra participar. Ia ter toda uma seleção, pra poder participar. 

Eu mesmo me indiquei e também falei com os meus colegas do setor. Se eles não tivessem alguém ou eles mesmos pra indicar, eles poderiam me indicar. Aí expliquei, falei: “Minha casa é assim, assim, assado. Tem muito problema” - fora as condições, no momento não estava tendo condições de acabá-la. 

Acho que foram quatro ou cinco dos meus colegas que me indicaram pra participar do concurso, aí eu fui selecionado. 

 

P/1 – E como foi a sensação, na hora que você foi selecionado? 

 

R – Muito bom, né? Fiquei bem feliz, falei: “Nossa!” 

De início, eu achei que eu ia ser selecionado e eu não sabia ainda do projeto em si, o que ia acontecer. Eu achei que eu ia ser selecionado e já iam lá, de imediato, fazer a reforma da minha casa de dois cômodos, mas a Juliana me explicou como ia funcionar o projeto: era um concurso de ação social, [em] que cada candidato que foi selecionado ia ter que criar uma ação social pra beneficiar ou a comunidade ou uma instituição; tanto poderia ser pra adulto ou pra criança. De alguma forma teria que criar um projeto pra beneficiar essa instituição ou a comunidade. 

Nós nos reunimos, cada um criou o seu projeto. Ia ser feita arrecadação de doações, tanto dentro da empresa quanto externamente, através da comunidade, parcerias ou a família também, amigos. Cada um, com seu projeto, ia arrecadar o que foi determinado pra cada ação e depois ia ser doado. Só que entrou a pandemia, a quarentena e aí parou o projeto. 

 

P/1 – Parou o projeto?       

 

R – Parou o projeto, parou o concurso. Não tinha um prazo pra retornar, porque estava tudo incerto no começo da quarentena. 

 

P/1 – Qual era o seu projeto? 

R – O meu projeto, que eu ainda vou realizar, finalizar, é o Dia da Saúde Bucal. Eu escolhi uma data, que justamente foi... Eu não me lembro o mês, ia cair bem próximo do Dia da Saúde Bucal. Eu vou arrecadar produtos de higiene bucal, montar um kit e doar esses kits pra uma instituição que cuida de crianças, [que] dá aula, faz projeto, faz curso. 

Consegui algumas doações. Uma parceria com a Colgate, uma dentista, parcerias com a Droga Raia - tem um amigo meu que trabalha lá e falou que ia me ajudar. Mas aí teve que segurar um pouco, por conta do distanciamento, né? As aulas pararam. O meu foco foi voltado pra criança, para o público infantil, pra fazer essa doação. Os kits que eu tenho guardados lá em casa são todos kits pra criança. 

 

P/1 – Como rolou a reforma?    

 

R – A Juliana entrou em contato com a gente - a gente tem um grupo no Whatsapp - falando que tinha sido feita uma reunião; por conta da pandemia, eles acharam melhor segurar um pouco o projeto, as ações, mas que iam beneficiar todos os candidatos. A gente se comprometia a entregar o nosso projeto no final, quando tudo voltasse ao normal, mas eles iam dar a reforma pra todos os candidatos. 

Foi uma notícia maravilhosa! Saber que, mesmo... Porque o concurso era pra beneficiar uma pessoa só. Uma pessoa só ia ganhar a reforma de até dois cômodos da casa. Por conta disso, eles acharam [melhor], numa reunião que eles tiveram lá, premiar todos os candidatos. As quatro pessoas que participaram, todo mundo ganhou a sua reforma. Estavam precisando, né? 

 

P/1 – O que você achou disso? 

 

R – Perfeito. Nossa, foi maravilhoso saber que não só eu ia ser beneficiado, mas todos eles, porque cada um tem a sua particularidade, mas todos precisam. Saber que todo mundo ia sair ganhando foi muito bom, foi bom demais. 

 

P/1 – Mas aí a reforma rolou quando? 

 

R – Aí teve um... Como é que eu posso dizer? Não sei o tempo, não me lembro o tempo que durou, mas eles foram lá, fizeram uma visita pra ver qual era a necessidade da minha casa, em questão dessa parte de umidade, de infiltração. Eles identificaram... Porque a minha casa não tem o acabamento... Não tinha o acabamento, na época, antes deles iniciarem a reforma e também a fiação tem uma deficiência na parte de instalação elétrica, que é exposta, não é embutida na parede. A gente puxou a fiação elétrica por fora por conta da pressa. A minha segunda filha já estava pra nascer, então a gente estava com a casa quase pronta. Dava pra entrar pra morar, mas o piso estava no grosso, não tinha cerâmica; as paredes do quarto e da cozinha não tinham reboco, estava no chapisco, aí a gente decidiu sair do aluguel e entrar na casa do jeito que estava mesmo. E aí a fiação dela estava toda exposta, não tinha acabamento, não tinha nada. Estava no brutão, mesmo. Foi quando a gente decidiu entrar na casa. 

Eu perdi o foco. Qual era a sua pergunta, mesmo? (risos) 

 

P/1 – Como foi que aconteceu a reforma.       

 

R – Ah, tá, sim. O tempo da reforma?             

 

P/1 – Quando começou a reforma? 

 

R – Eles fizeram a visita pra identificar o que tinha, o que era mais necessário. Eles identificaram a laje - cobrir a laje, por conta da infiltração, e o meu banheiro, porque também estava tendo muita infiltração e por não ter acabamento. Identificaram que o meu banheiro também estava com urgência pra terminar, não só por estética, mas por questão de saúde. Pelas minhas filhas. Depois, ao longo do tempo, eu conseguir rebocar a cozinha e o quarto e colocar o piso, então essa parte estava tranquila. 

A parte que estava mais necessária - eu mesmo tinha essa noção, de que estava precisando muito, urgente - era cobrir a laje com telha, pra parar de ter o problema de umidade, e o acabamento do banheiro. É uma questão não só da parte de umidade, mas higiênica também. 

 

P/1 – E foi feito durante a pandemia?

 

R – Foi feito durante a pandemia. 

 

P/1 – Como aconteceu isso, as pessoas reformaram durante a pandemia? 

 

R – Com todo cuidado. Álcool [em] gel, máscara. Os pedreiros, o pessoal da empresa parceira que foi fazer todo o acompanhamento tinha todo esse cuidado. Não ficava muito próximos, ficavam meio afastados um do outro. Mas rolou, deu certo. Graças a Deus, a gente não teve nenhum problema em relação a contágio de nada em relação ao vírus [da] covid. 

Não era uma equipe grande. Eram só dois pedreiros, trabalhando. Enquanto um trabalhava fazendo a reforma do banheiro, mexendo no banheiro, o outro ficava em cima, fazendo a parte da estrutura, das telhas, pra cobrir a laje. 

 

P/1 – E como ficou a casa, depois?

 

R – Ficou linda. Em vista do banheiro que eu tinha, sem acabamento nenhum, todo cinza, no chapisco ali, sem piso, ficou que nem eu falei pra minha mulher e pra Juliana: “Eu me apaixonei pelo meu banheiro”. Todo branquinho, todo bonitinho, do jeitinho que eu queria. Talvez não tivesse condições tão cedo de fazer isso. 

A minha intenção era, com as minhas condições, rebocar o banheiro e colocar o piso no chão, pra deixá-lo mais ou menos pronto, mas deixaram meu banheiro zerado. Depois da reforma, está lindo. 

Depois disso, como minha cozinha estava só no reboco, entrou um dinheirinho legal; eu me inspirei a ir lá, paguei o próprio pedreiro que reformou o banheiro pra ele colocar o revestimento na parede da cozinha, então a cozinha agora também tem a cerâmica nas paredes, no chão. Ficou bem mais confortável, bem mais aconchegante, mais bonito.  

 

P/1 – Chegou a melhorar também a questão respiratória?

 

R - Demais. Não tive mais problema. Nem me lembro quando foi a última vez que eu levei as minhas filhas ao médico com problema respiratório. Demais. Não tenho mais problema de umidade, de goteira, nada. Graças a Deus! Pode cair uma chuva, o temporal que for; [é] tranquilo, porque eu não tenho mais aquela preocupação de subir na laje no dia seguinte e puxar a água da laje com o rodo e com a vassoura,  senão ia infiltrar. Ou acordar no meio da noite, ter que arrastar a cama - no início era o berço da minha filha, depois foi a cama de solteiro - ou ter que ficar mudando os móveis de lugar pra não molhar ou não pingar em cima delas ou em cima da gente. Só o fato de não ter essa preocupação… E também pela saúde, o conforto, mais aconchego da casa, sabe? Ficou bem melhor. 

 

P/1 – E antes era como? 

 

R – Antes era confortável? Era, mas a gente tinha essa preocupação de umidade, de mofo. Tinha muito problema com mofo, vivia levando as meninas ao médico. Eu até falava pra minha esposa: “Caramba, a gente saiu do aluguel, entrou na nossa casa achando que não ia ter problema disso, acabou continuando.” 

Por quê? Por conta da casa que não tinha acabamento. Além da umidade, a casa sem acabamento tem muito pó. O piso grosso, a parede sem acabamento, só no chapisco, só no reboco, faz muito pó. Então, isso trouxe muito problema respiratório pras meninas, pras minhas filhas. Eu nunca tive problema com isso, apesar que sentia também, mas a gente resiste mais por ser já adulto, eu e minha esposa. As meninas não. Pequenininhas. Criança adoece muito fácil com essas coisas. 

 

P/1 - E agora, o que você acha que tem de importante em ter uma casa com mais salubridade? 

 

R – Eu acho que é primordial a casa ter esse cuidado, não ter umidade, infiltração, porque é uma questão de saúde - pra nossa saúde, mesmo.

 

P/1 – E qual a melhor memória que você tem de você nessa casa?

 

R – A melhor memória? Sou eu ali, no braçal. (risos) É eu sentir que eu estou fazendo, pegar e fazer aquela massa de reboco. Eu nunca fiz isso, nunca me imaginei fazendo isso, de colocar a mão na massa, saber que aquilo ali tem a minha mão, o meu calo, o meu suor, a minha dedicação, o meu esforço de fazer aquilo. De rebocar uma parede, de carregar um carrinho de terra pra poder nivelar o chão. De colocar o piso no chão, jamais me imaginei fazendo esse tipo de trabalho. De poder saber que o que está ali foi eu que me esforcei, me dediquei, pra aquilo ali acontecer, sabe? Pra ter aquilo ali. Acho que é a memória mais importante, principal, que eu tenho da minha casa. 

 

P/1 – O que você sonha pra sua vida, hoje? 

 

R – Pra minha vida? Terminar, deixar a casa do jeito que eu quero, porque a minha casa são só dois cômodos, banheiro e a área de serviço. Logo mais minhas filhas já vão estar crescendo; [preciso] aumentá-la, fazer dois cômodos pra cima, mais dois quartos, deixá-la acabadinha, do jeito que eu quero. 

Ter o meu carro; poder curtir, viajar, passear mais com a minha família. Ter essa experiência de poder viajar mais, viver mais.

 

P/1 – Teve alguma coisa que aconteceu contigo, que você ainda não falou e gostaria de falar? 

 

R – Que aconteceu comigo?                     

 

P/1 – Da sua história, que você não chegou a falar conosco e quer falar ainda, deixar registrado. 

 

R – Acho que não. 

 

P/1 – Como foi contar a história hoje, aqui?

R – Ah, bem diferente. Puxar todas essas lembranças… Acho que não puxei nem metade do que eu vivi, sabe? Poder compartilhar da minha história com outras pessoas, deixar isso registrado. 

Não sei quanto tempo vai ficar registrado. Sei lá, daqui quantos anos alguém vai ver isso, esse material e ver, ler isso em algum lugar. Ou de que daqui a sei lá quantos dias, quando for divulgado esse material, a pessoa vai saber um pouquinho mais de mim e vai falar: “A história do Bruno é assim”, poder olhar pra mim mesmo e falar: “Eu posso fazer um pouco mais, eu posso viver mais. Correr atrás um pouco mais também.” Não só por mim; pelas minhas filhas, pela minha família.   

 

P/1 – Obrigado!

 

R – Eu que agradeço. De coração. (risos)   



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