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História

Maestro Gaspar Ricardo Sarti

História de: Gaspar Ricardo Sarti
Autor: Centro de Memória de Cosmópolis
Publicado em: 25/01/2016

Sinopse

Um pouco da vida de Gaspar Ricardo Sarti, maestro que dá nome a Banda Municipal de Cosmópolis. Gaspar relata sobre sua experiência como músico, de como começou na profissão até os tempos em que esteve a frente da Banda Municipal de Cosmópolis.

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História completa

Entrevistadores: Carina Bentlin e Silvino Torres Neto

C. Estive olhando o livro do Mano[1] sobre a história de Cosmópolis. Tem uma parte com depoimento do senhor, contando que o senhor foi ferroviário da estrada de ferro. Vamos começar então contando um pouco sobre sua infância, família, o começo na música.

G. Estive sempre na área de música desde criança quando meu pai tocava na banda Carlos Gomes de São roque. Ele tocou por 50 anos. Comecei tocando Surdo como todo músico amador começa, depois vai pra caixa, prato, depois aprendi um pouco de música e acabei tocando Trombone, Quando completei 15 anos eu entrei na Estrada de Ferro Sorocabana, que era um excelente emprego, mas naquela época, outros tempos, a gente recebia o pagamento e nem via a cor do dinheiro, passava direto para os pais. Se a gente quisesse algum cruzeiro tínhamos que fazer um serviço fora, como tirar areia do rio, catar osso, naquele tempo comprava-se osso, hoje é latinha, mas naquele tempo era osso. Vendi pastel e cerveja no campo de futebol, depois, com dezesseis anos entrei numa loja de tecidos, era um armarinho, tinha de tudo na loja, a maior de São Roque. Quando eu completei 18 anos me alistei em São Roque e fui servir a Sorocabana que me transferiu pra Campinas, sem experiência de vida, pra mim foi um choque, mas meu pai disse: você vai, porque aqui você não tem futuro. E eu segui destino.

Quando fazia uns quatro meses que eu estava em Campinas, chegou o tempo de me apresentar ao exército, mas em São Roque, onde era a minha classe. Mas ninguém da minha classe passou, todos foram dispensados porque eram agricultores. Então ninguém serviu naquela época. Meu chefe falou: “se apresenta aqui em Campinas mesmo, você vai ser dispensado e ainda te dou dois dias de folga pra você namorar”, meu chefe era muito bacana.

Fui servir, quando me apresentei tive a surpresa do tenente falar: “não, você vai servir”. Foi mais um choque que eu levei na minha vida. Levei umas malas de papelão, cheias de roupas, era uma gozação, eu era muito caipira. Tinha vergonha de tomar uma Coca-Cola no bar de vergonha de pedir. O tempo foi passando, a gente foi perdendo a vergonha (risos) e fui servir. Quando deu três meses que eu estava servindo fui promovido a cabo. Eu me animei com a promoção e o meu comandante, o Serafim Migueis disse: “você vai ficar aqui com nós”. Aí eu disse: “só se você apresentar um pedido de licença de mais um ano na Sorocabana”. Ele concordou e eu fiz o ofício pedindo, mas foi negado e então eu não era mais empregado da Sorocabana.

Continuei no exército e com oito meses eu já era apto a sargento. Mas essa promoção demorou porque não tinha vaga, demorou quase oito anos, aí fui promovido e passei para outra unidade em Santos, lá fiquei quatro anos, sempre perguntando pra voltar pra Campinas, até que voltei para a Escola de Cadetes de Campinas, onde fiquei por onze anos. Da Escola de Cadetes, onde eu já pensava em reformar, o que faltava pouco, aí veio a transferência e promoção pra Brasília, fui pro Batalhão da Guarda Presidencial, onde fiquei por quatro anos e depois me reformei com referência de 2º Tenente.

 

C. E como era a rotina no Batalhão da Guarda Presidencial?

G - Nós fazíamos aquela descida da rampa do presidente, eu sempre na banda de música, e fazia o cerimonial, que é essa descida da rampa. As terças e quintas o presidente descia a rampa e cumprimentava o público. Fora isso, tocava em desfiles, formaturas, essas coisas de exército.

 

C - Em que ano foi isso?

G – 1979

 

C – Quem era o presidente da época?

G – Era o Ernesto Geisel[2] Tinha até mais uma parte, quando eu cheguei a Brasília, em 1979, tinha um “celotex” grande escrito: precisa-se de professores para primeiro e segundo grau classe C, para formar bandas de música. Classe C era a última classe de professor, eu precisava ter um monte de requisitos e eu nem liguei para aquela placa. O pessoal disse: você não vai se inscrever? Eu respondi que não, porque não tinha nada, faculdade, essas coisas. Aí os evangélicos, tinha uma grande parte de evangélicos na banda, aí puseram meu nome lá, me inscreveram. Apresentaram-se 128 pessoas para 20 vagas e não passou ninguém no concurso. Aí a Secretária de Educação chamada Eurides Brito falou: “vocês vão fazer outra vez e aquele que for classificado melhor vai preenchendo as vagas”. Eu passei em 11º lugar e fui lecionar em Taguatinga, cidade satélite de Brasília. E de lá contei os tempos até 1985, eu me aposentei pelo exército e pelo INSS.

 

C- Dá pra dizer que o início da sua formação musical aconteceu dentro do exército, onde você teve uma experiência maior com a música?

G- Maior foi, maior tempo. Agora em Cosmópolis tivemos bastante tempo, 18 anos.

 

C- Como aconteceu a oportunidade de ir para Cosmópolis?

G – Não imaginei que ia trabalhar mais com música, que minha vida [na música] tinha encerrado e tudo mais. Aí, o nosso querido prefeito que eu admiro muito, José Pivatto, pediu para que a Secretaria de Cultura indicasse um professor de música. Então a Secretaria pediu para que a Ordem dos Músicos indicasse alguém. Então a Ordem dos Músicos, através do Meirelles, me indicou e eu fui pra Cosmópolis e não saí mais. Formei duas bandas de música. Quando eu cheguei lá a Banda estava meio caída. Formei muitas crianças.

 

C- O Silvino estava me contando que havia aulas de música, de formação?

G – Tinha aulas, coisas simples. As aulas eram bem simples. Depois o Silvino e outros músicos que foram se aperfeiçoando mais.

 

C- Como foi a participação na cidade?

G – Participava muito da cidade, muito mesmo, em várias oportunidades, inaugurações, procissões. Em quase todas as festividades a banda era convidada para participar. As coisas mais simples até coisas que precisávamos ensaiar muito para fazer. Tinha o refrão à bandeira, a solenidade de guarda, de chegada de autoridades. A Banda trabalhou bastante.

 

C- Quais eram as dificuldades?

G – O ensaio era tarde, das seis da tarde até oito, nove da noite. Era esse horário, às vezes mudava um pouco.

 

C- E no começo vocês ensaiavam no Grêmio?

G – Primeiro foi no Grêmio, depois mudou ali pro Fórum, depois do Fórum mudamos lá pra cima...

 

C- O senhor poderia citar um fato bem marcante que aconteceu durante a sua permanência na Banda?

G – Marcou foi uma coisa simples, mas pra mim, falo e já me tranca a garganta. Eu estava em um desfile e vejo falar: “agora nós vamos ver a banda, com o regente Milton Santos”, e eu lembrei que era o mesmo nome de um soldado que eu pus no exército, aprendeu comigo e tudo mais. E era ele mesmo. Me abraçou, foi muito emocionante (Gaspar chora). Outra coisa também é que os alunos da cidade de Taguatinga todo ano vêm me visitar.

 

C- A convivência com a Banda era bem intensa e também os laços de amizade...

G – Como disse, a Banda é como a vida da gente. Eu sou muito sincero, eu não vou falar pra você que todo mundo é meu amigo, eu tenho inimigo também. Até Jesus Cristo teve inimigo. Mas 99,9% são meus amigos.

 

C- Na sua avaliação qual a importância pra Banda pra cidade? E o papel da música para as pessoas?

G – Uma Banda anima a cidade, o pessoal vê uma cidade bonita e muito alegre. Uma cidade que tem Banda... Você ver uma Banda tocar um clássico, um popular bem tocadinho... Agora, francamente, falta um pouco de apoio. Eu tive muito apoio do José Pivatto, Mauro, muito apoio do Joaquim Pedroso. Mas a gente merecia um pouco mais de apoio. E digo que meu tempo já venceu, eu já fiz o que tinha que fazer para cidade, tava na hora de mudar mesmo. Mas tinha que mudar com um pouco mais de entusiasmo. Não foi isso que aconteceu. Já teve dias melhores.

 

C- Se o senhor pudesse deixar um recado para os administradores da cidade, os futuros prefeitos sobre a importância da música na vida das pessoas, porque a música é um elemento transformador para a vida das pessoas. O senhor deve ter acompanhado na banda, com os alunos da banda, mudança de comportamento, uma melhora...

G – O meu recado é o seguinte: quem vê a banda vê a cidade. A cidade que não tem banda, que não tem música, é uma cidade sem alma. Essas músicas de hoje, eu não condeno, mas não é uma música que toca no sentimento das pessoas. Torno a falar: uma banda enfeita a cidade, cria aquele ambiente de paz, de amor, que toca no homem. Então, pediria para os prefeitos, investir nas escolas, no ensino, porque são esses alunos que serão os músicos de amanhã, das orquestras, do mundo. Porque a música é a arte de exprimir o nosso sentimento através do som.

 

C- É uma missão isso, alertar as pessoas para a importância da música...

G – Só depende de pessoas que tem o poder de fazer essas coisas pra cidade. Me deixa tão alegre os meus netos todos tocarem algum instrumento, tem um que vive de música, tem outra neta formada em psicologia, mas que toca o instrumento. Tem outra também cursando faculdade, que toca. E todos os outros... Uma netinha de oito anos que toca Clarinete. É o maior prazer ver uma banda só de netos. Qualquer dia vou pedir a ajuda de dois músicos para completar isso aí, pra tocar tudo que eu tenho no meu repertório, preciso desses dois músicos, um Clarinete e um Trompete. Preciso do som e da amizade deles (risos).

 

C- Voltando um pouco atrás. Seu pai era músico, teve uma influência muito importante, não é?

G – Teve. Ele exigia, a gente gostava, mas ele exigia. Eu comecei namorar aos 13 anos e era dia de ensaio e eu cheguei atrasado ao ensaio, quando entrei, ele disse: “vai embora, não precisa mais de você”, eu abaixei a cabeça e fui embora. No dia do outro ensaio, eu estava em casa porque ele tinha me mandado embora no outro, e ele disse “não vai pro ensaio não? Vai pro ensaio já!” (risos). Ele adorava os músicos, os músicos eram a família dele. Eram as paixões dele, a maçonaria e os músicos. Me lembro um dia que ele estava fazendo um agradecimento, e lá (em São Roque), as bandas tocavam na Alvorada, e fui lá que aprendi isso. E tinha um relógio na parede chamado Cuco, e quando dava hora o passarinho fazia “cuco, cuco, cuco”. Então ele estava falando “eu não tenho palavras para dizer” e o passarinho “cuco, cuco” (risos). Todo lugar que ele ia tinha que dar o discursinho dele.

C- Como era a formação da Banda, no estilo, teve algumas mudanças?

G – Não, às vezes o aluno toca de instrumento, mas fora disso, não tem muita ciência.

 

C- A Banda se apresentava bastante em Cosmópolis e nas outras cidades?

G – Ah sim, muitas cidades. Bastante, não dá pra contar. Trabalhava toda semana. Hoje em dia que a Banda está meio devagar.

 

C- O senhor lembra-se de alguma apresentação em especial?

G – Ah, todas as apresentações eram boas. Eu gostei daquela apresentação que nós fizemos na Amirp e também na Academia Campineira de Letras. Fora isso, todas as apresentações eram boas. As cerimônias junto com os Guardas, fomos pra Santos, todas as cidades da região, Jaguariúna, nas carretas de cavalos, bois...

 

C- O senhor poderia dizer qual o seu legado para a Banda de Cosmópolis?

G – A gente fez o que pode. Eu vejo os músicos, todos me querem bem. Por exemplo, em Brasília, eles me chamam de professor. “Professor, dos quarenta alunos que você deixou, nenhum é bandido, são todos trabalhadores e honestos”. Em Cosmópolis eu deixei isso também, a gente trabalhou pra isso. É gostoso ver um aluno vir conversar, contar, estar satisfeito, é bom. Esse é o legado. Maestro faz papel de pai e amigo, quantas fez a gente dá conselho “não faz assim”. Mais vale um covarde vivo do que um assassino morto (risos).

 

C- Uma curiosidade. O senhor fez parte da Guarda Presidencial, em Brasília, em uma época de ditadura. Como era o clima?

G – Nós não nos envolvíamos com essas coisas, nem ficávamos sabendo. Quando a gente sabia o caldo engrossava. Servi no BCL e quando dava aquele tempo quente a gente não ficava sabendo. Só sabia quando o cara ia pro porão do navio. Não sabia que a Dilma tava presa, onde tava, não sabia de nada.

 

C- Não tinha nenhuma regra em especial?

G – Não, isso era do alto escalão.

 

C- O senhor gostaria de dizer algo que não foi contemplado nas perguntas?

G – Eu lembro que antes da revolução, 63, 62, você não podia passar fardado que a pessoa te batia a janela na cara. Eles não gostavam de militar. A gente andava fardado porque não podia andar à paisana, se não ia preso. Naquela época militar não podia ficar à paisana, o “praça” que eu digo.

 

C- O senhor tem quantos filhos e netos?

G - Tenho um casal de filhos e sete netos e quatro bisnetos. E o mais bonito, tenho sogra, com 94 anos, está firme, com mais saúde que eu.

 

C- Silvano (ex-aluno de Gaspar e integrante da Banda), aproveitando que você está aqui, em sua opinião como aluno da Banda, qual o legado do seu Gaspar?

S – Quando eu entrei na Banda com 12 anos, não sabia nada de música, tenho família, mas eu era uma criança que precisava ter uma formação, precisava ter tempo preenchido com coisas boas, convivência sadia. A gente tinha aula de música todo dia à tarde na Escola do Comércio. Isso se estendeu por aproximadamente uns três anos. Até vir os instrumentos e tudo isso. O seu Gaspar sempre foi uma pessoa simples, responsável, até mesmo por lidar com crianças. A banda tomou o jeito dele porque nos tínhamos uma convivência de família entre os músicos, de frequentar a casa um dos outros, e os músicos mais velhos, os concursados tinham uma percepção da gente como filhos, porque eles tinham filhos da nossa idade e muitos deles não gostavam de música e a gente gostava. Eu me lembro do Seu Gaspar que ele sempre dizia que aquilo tinha que funcionar como uma família. Tinha os desentendimentos ideológicos, mas nunca era levado pro lado pessoal, o assunto começa ali e terminava ali também. Todo músico que passou por lá, por exemplo, o João Fernandes que trabalha na prefeitura, o João Felisbino que é vereador, comerciantes, professores, industriários, que são pessoas que levaram e aplicam na vida deles as coisas boas. Chegar no horário certo, ter respeito na casa dos outros, falar na hora certa, que pra gente começou a fazer parte da nossa vida. Além da música, a gente ganhou muita educação. Nunca chamava a nossa atenção na frente dos outros. Até eu cheguei fazer coisas que ele chamava a atenção, mas sempre mostrando a razão. Ele sempre levava a família, o filho, sempre junto com a gente. Nunca teve diferença de nada. É isso que eu agradeço ao seu Gaspar.

G – Não precisava chamar a atenção, era só olhar.

S – Tinha uma cumplicidade grande. Imagina um grupo de crianças de 12 anos, nós não tivemos muita atividade como as outras crianças, porque tínhamos um compromisso com a Banda. Mas não era uma coisa de obrigação, era o nosso pacto, nossa cumplicidade. Muitos momentos de estar com a família, nós estávamos tocando na Banda embaixo de um sol quente, em algum desfile.

G – E os pais sempre juntos. Foi muito bonito. É o que eu digo: falta alma. Uma banda tem que ter alma.

S – Havia uma troca de sinceridade de estar junto, que muitas pessoas não conseguiram conviver no ambiente da Banda. Passou gente que usou droga, alguns se recuperaram e os que não se recuperaram não conseguiram se manter no ambiente da Banda, porque não era sadio.

G - Foi muito bonito. Desejo que Cosmópolis consiga o que a gente está pedindo, é tão simples, mas é importante que as autoridades olhem com mais frequência e amor pela Banda. É pra cidade.  Formar uma banda é uma coisa e montar uma banda é outra coisa. Montar é fácil, pego um músico daqui, outro de lá e está pronto. Agora formar e ensinar é difícil. Sou um cidadão cosmopolense e Cosmópolis mora no meu coração.

 



[1] “Cosmópolis: De Fazenda Funil à Cidade Universo”. Mano Fromberg, Ana Maria Barbosa e Sérgio Fromberg

[2] Ernesto Geisel (1974 – 1979), em seguida João Figueiredo (1979-1985). Gaspar ficou na Guarda Presidencial de 1979 a 1982.

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