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Mãemórias - Elizabeth de Almeida Barboza

História de: Elizabeth de Almeida Barboza
Autor: Carlos Eduardo de Almeida Barboza
Publicado em: 19/05/2022

Sinopse

O projeto Mãemórias teve início em junho de 2021 e finalizado em dezembro do mesmo ano e tem a finalidade de ilustrar, a partir da fotografia, com a criação de um fotofilme, perpetuar as memórias que temos de entes queridos quando se vão, de uma forma que lembremos de acontecimentos e momentos em família ou na vida. Com a perda de minha mãe, Elizabeth de Almeida Barboza, em maio de 2021, para a COVID-19, usei dessa experiência e a soma de minhas memórias, através dos textos, narrando desde a história da minha bisavó e outros acontecimentos na vida de minha mãe para mostrar como encarar o processo de luto e de como vivenciá-lo, trazendo à tona boas e más memórias, mas também uma forma de perpetuar a história de quem se foi de uma forma carinhosa e convidativa.

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História completa

01. Bisavó Maria

A minha bisavó materna, mulher preta, corajosa e ousada, é uma figura que não posso deixar de falar. Nunca soube seu nome, nunca vi um retrato dela, mas quando minha mãe falava dela, eu sempre a chamava em meus pensamentos de Maria. Maria foi uma mulher tão abençoada e corajosa, que ela nunca teve medo de dizer o que pensava. Um dia, sentados na cozinha, meu irmão e eu víamos nossa mãe cozinhar e de repente ela nos disse que naquele momento tinha sentido saudade de nossa bisavó. Nos contou que Maria (e por incrível que pareça, se minha mãe disse o nome certo, eu não lembro, eu era muito novo quando ouvi essa história), Bom Maria era uma mulher fenomenal, e se minha mãe tivesse que agradecer alguém em vida, seria a Maria, pois a mesma tinha dado a oportunidade de vida à ela e aquilo não teria preço. Num primeiro momento, não entendemos o porquê de nossa mãe dever a vida a nossa bisavó, e aí, ela desligou o fogo das panelas, puxou uma cadeira e sentou e seus olhos marejados e um misto de firmeza e voz embargada, minha mãe começou a contar a história. Meu avô paterno, Oswaldo, era uma pessoa muito complicada, que assim, como todo homem, usava de sua virilidade para contar vantagem ou expressava de forma mais abrupta, sua masculinidade, destruindo corações, ou usando, ou enrolando várias mulheres. No ano de 1956, uma mulher (até hoje desconhecida por nós) se envolveu com meu avô e um fruto seria gerado, minha mãe Elizabeth. Só que essa mulher, que gerou minha mãe, não imaginava que meu avô era casado, e muito bem casado, com a Guiomar, que futuramente acabaria assumindo o papel de mãe de minha mãe. Lembro que minha mãe contava que nos últimos anos de vida de minha bisa, ela ouviu da boca dela, que por meu avô ser mulherengo, ele tinha cometido muitos outros erros, inclusive, segundo a minha própria bisa relatou, que anjos não tiveram a chance de vir ao mundo. Quando minha bisa soube que meu avô tinha aprontado mais uma vez, parece que em seu coração e em seu ser, o sentido materno tinha renascido e como uma leoa, ela apenas comunicou meu avô que aquele anjinho viveria, e que ele teria que entender de uma vez por todas o papel de pai e de ser responsável. Maria pegou para ela a responsabilidade de levar adiante, até onde ela pudesse, que minha mãe teria uma chance de ser feliz. Aos prantos, minha mãe confessou, ao meu irmão e a mim, que ela dava graças em saber que, se ela era mãe, era feliz, era porque Maria tinha feito tudo por ela. Ela pôde ser livre, brincar e que, apesar das adversidades, ela sentiu que era amada. Com um grande sorriso, disse que até nos últimos dias de vida da bisa Maria, ela sabia que toda aquela força estaria nela e que nunca iria esquecer o valor de se doar e de amar alguém verdadeiramente, e percebeu que, com Maria, via todos os dias que sua maternidade, no futuro, seria algo precioso. Apesar de não saber como a bisa Maria era, não ter tido a oportunidade de ter visto seu retrato, ou convivido com ela, eu a tenho em meu coração.

02. Avó Guiomar

Depois que minha bisa morreu, a mulher que sempre chamei de avó, que não era de sangue, assumiu uma responsabilidade muito grande. A avó Guiomar viu que teria que lidar com coisas que jamais imaginaria e que ela teria que ser forte. Minha avó, crescida em um lar de luxo e onde a valorização da moral e dos bons costumes era tão exacerbada, teve que enfrentar, ou às vezes engolir a seco, o preconceito gerado por sua família. Ela, sempre batalhadora, era costureira e tinha a mão cheia para doces. Através desses dons, ela pôde levar um alento, à sua maneira, à minha mãe. Muitas vezes, minha avó presenciava e ouvia comentários de suas irmãs quanto à minha mãe, onde o racismo e a falta de caráter vieram a tona, quando comentavam que era uma vergonha assumir a vida de uma perdida e cuidar de sua prole... Pessoas baixas, sem noção e sem perspectiva e sem empatia nenhuma. Eu tive a chance de desfrutar da presença da minha avó Guiomar e realmente ela era uma mulher forte, orgulhosa, sonhadora, brincalhona, às vezes, e do seu jeitinho, fez com que minha mãe tecesse sua história. Até seus últimos dias, Guiomar tinha sua pose, seu orgulho e minha mãe conseguiu retribuir chances que lhe foram dadas e ela entendia que se um dia, apesar dela e minha avó Guiomar, se tiveram algum desentendido, era por culpa de outras personagens que não souberam enxergar o amor como ela teve e a chance de presenciar e levar adiante. Mais um exemplo a ser seguido, minha avó Guiomar.

03. Infância

Lembro da minha mãe falando de suas peripécias quando criança e me vem uma alegria tão contagiante, uma sensação que não dá pra explicar... era muito bom quando ela contava sobre as bolinhas de gude que ela ganhava dos meninos, dos passeios de carrinhos de rolimã que ela conduzia, sendo a protagonista da mãe da rua, onde ela ensinava como era acolher e liderar, nos pulinhos de amarelinha, com a inocência de não querer ir pro inferno e não parar um segundo quieta no céu, como se voasse sem direção, sem par. Girando e girando com ciranda, cirandinha depressa e sem parar, risos A melhor coisa, é que ela ensinou a mim e aos meus irmãos a maravilha de sermos crianças, como se ela estendesse a nós, toda sensação que ela tinha quando era pequena. Nunca nos podava de nada, até mesmo quando brigávamos em algum momento. Ela podia nos repreender, podia chamar a atenção, mas em seguida dizia “agora para de chorar, abraça quem você brigou e vai brincar, vamos lá, mamãe vai ensinar uma brincadeira nova”, e ali naquele momento, nos sentíamos livres, ganhávamos asa e voávamos longe com nossa imaginação e o amor tomava conta e acalentava o coração, era uma liberdade anunciada... Que saudade... Adoleta, risos.

04. Juventude

Neste capítulo descrevo como minha mãe e avó Guiomar viveram após meu avô Oswaldo ter abandonado as duas em uma situação de misérias e como as duas conseguiram superar esse momento e ir adiante. Uau, quando lembro das histórias da minha mãe, quando contava sobre a sua juventude, é algo que me dá orgulho, porque é incrível saber o quanto essa mulher fez e lutou para conquistar seu espaço e surfar nas ondas de felicidade que ela encontraria. Desde muito nova, minha mãe, devido a falta de responsabilidade de meu avô, sempre quis sua casa. Uma vez ela me confessou que tendo o espaço dela, ela poderia se entender mais e ainda poderia construir uma vida sem o preconceito das tias, das primas, da família, que tecnicamente, a tinha adotado, mas que não representava nada, além dos conflitos que aconteciam com minha avó Guiomar. Lembro como se fosse ontem, quando minha mãe contou que de um dia pro outro, meu avô Oswaldo decidira abandonar a ela e a minha avó Guiomar, e tudo isso pra poder viver “uma nova vida” onde o mesmo, já tinha uma outra família o esperando, e quando ele saiu de casa, deixou despensa e geladeira vazias e minha avó e minha mãe com dívidas. Depois desse abandono, minha avó Guiomar fez o que fazia de melhor e era seu maior talento, costurar, costurar e costurar, e minha mãe, como estava terminando o técnico em contabilidade, batia todos os dias em empresas e bancos para conseguir uma oportunidade. Alguns meses depois, ela conseguiu uma oportunidade em um banco, no centro da cidade. A partir daí e com as costuras de minha avó, as duas começaram a costurar uma colcha de retalhos, de orgulho, de dignidade, de esperança, onde perceberam que cada pedacinho seria importante para terem um norte. Apesar de algumas brigas nos entremeios de suas conquistas, minha mãe teceu oportunidades e enlaces, onde cada degrau que subia, alimentava seus sonhos. Primeiro, seu fusca 68 branco que sempre dava um problema aqui e ali, mas era maravilhoso saber que ela usou e abusou de seu Herbie (e olha que ele durou muitoooooooooo, rs, cada passeio doido e cada momento bom que meus irmãos e eu aproveitamos, rs). Anos depois, ela conquistaria sua casa, casa essa que foi seu lar até seus últimos dias. Problemas, discussões e até enfrentamentos rolaram, mas quando via a alegria nos olhos dela, ao dizer sobre todas essas conquistas, me fazia sentir muito mais orgulho dela. E quando ela comprou sua casa, ela já estava numa fase nova de sua vida, uma fase de enlaces e romances e algo maior já tinha acontecido, seu coração encontraria o amor de sua vida...

05. Casamento

... E a minha mãe, encontrou o amor da sua vida... Seu nome era Antônio. Ele trabalhava na cia de telefone, a antiga TELESP, que hoje é VIVO e os olhares se encontraram durante uma instalação de uma linha telefônica. Entre truques de linhas telefônicas que não funcionavam, meu pai fez de tudo pra ser chamado de novo à casa de minha mãe para tentar resolver o problema da linha telefônica. E entre linhas e fios, o primeiro toque, o primeiro alô, a primeira chamada, veio com uma rosa entregue à minha mãe, e quando suas mãos se tocaram, a vergonha tinha se instalado e teriam a certeza do clichê mais esperado por qualquer coração apaixonado, seria amor à primeira vista. A ficha parecia ter caído e aquela chamada tinha sido completada. No íntimo de meus pais, eles sabiam que a conexão que eles tinham, superaria qualquer narrativa clichê de qualquer romance da novela que estivesse passando no momento e, entenderam que aquele dia foi o início, o meio e o fim, o frio na barriga, eram borboletas no estômago, um dia em que suas almas se encontraram e a partir dali floresceu uma linda história, onde o amor realmente os moveria adiante. Em 1981, num cartório do centro da cidade de SP, meus pais reuniram algumas testemunhas... tá bom, eram parentes que foram chamados para testemunhar, pois se não fossem chamados, seria como um apocalipse em suas vidas, rs, oh gente fofoqueira. Mas pelo menos testemunharam um dia de alegria, de festa. Apesar do mau humor da minha avó, da presença do meu avô sem noção, de meus tios fofoqueiros, que dariam inveja a qualquer Sônia Abrão, rs, meus pais consumaram aquele dia. O sorriso dos dois foi a tradução perfeita para entender por que os dois permaneceram juntos a vida toda. Entre altos e baixos, causados por terceiros, eles nunca desistiram do amor que os unira, e sempre olharam pro presente, se preocupando com o futuro que teriam. Graças à rosa que tudo começou, uma família brotou, como um jardim e tudo que floresceu, foi regado com alegria e esperança, dedicação e temperança e o mais importante, o que não poderia faltar, o amor. Nasceriam mais tarde, os frutos daquele genuíno amor.

06. Maternidade

Colo de mãe é o maior presente que a gente pode receber. Quando o abraço nos acolhe, o beijo vem à testa e os ouvidos estão atentos e prestando atenção, o coração fica mais leve e aí a gente percebe que o mundo não é tão ruim quanto achávamos. Minha mãe tinha o dom de, apenas com o olhar, nos acalentar, como se ela automaticamente entendesse tudo que acontecia comigo ou com meus irmãos. Logo em seguida vinha o som de sua voz, como mantra e a gente percebia que, por mais que ela não tivesse uma resposta pro problema, ela tinha o toque mágico da felicidade. Sua risada fazia qualquer situação ser nada perto de tanta alegria. Pensei em tantas renúncias que ela deveria ter feito, nos sonhos não vividos, nas conquistas incompletas e tudo o que ela não tinha feito para que ela pudesse ser a melhor mãe do mundo. Quando penso em todas essas questões, hoje entendo ainda mais que, toda renúncia, toda ressignificação de sonhos não realizados, tinham se tornado doação. As linhas que minha mãe tecia, ou os capítulos que ela escrevia no livro da vida, englobava sua família de uma forma tão especial e rica que nada mais importava a não ser a felicidade de quem ela amava. Sua doação a nós, seus filhos, Débora, Carlos e César, além dos pets, que ela fazia questão de chamá-los carinhosamente de meus fi, rs, fez com que cada um de nós tomasse um caminho e mesmo cada um em sua direção, o orgulho que emanava e o apoio que ela dedicava, me fez enxergar o quanto o amor dela, o amor de mãe é a forma mais genuína, única e verdadeira de existir. Seu amor fez com que cada um de seus filhos jamais desistisse de objetivos, metas, sonhos, realizações e a cada conquista de cada um de nós, sua celebração era como uma renovação de votos, como a alegria de celebrar a vida a cada aniversário, como os fogos de artifício que recepcionavam um novo ano... era como se sentir especial por ser quem éramos e sabermos que alguém nos admirava e nos apoiava sem distinção. Hoje, longe dela, eu sinto dentro do meu ser cada palavra dita, cada bronca dada que fazia a gente se recompor, cada beijo de boa noite, cada bom dia alegre recheado com seu bolo caseiro, cada áudio de WhatsApp perguntando se eu estava bem, se tinha almoçado, como tinha sido meu dia e que quando eu chegasse em casa eu ia amar o que ela tinha preparado pro jantar... sinto que o amor de mãe que ela tanto nos dedicou jamais se apagará ou se extinguirá e que a cada tormenta, sua força renovará nossa coragem para enfrentar cada desafio e fará com que o amor dela alimente nosso amor pra passarmos adiante tudo que for necessário pra ser feliz. Mãe, como você faz falta...

07. Saudades

César

“Oi mãe. Aqui quem fala é o César. Primeiramente, eu gostaria de dizer que eu te amo muito! Você foi meu tesouro, meu porto seguro. Sou agradecido por tudo que vivemos juntos, lhe agradeço por ter sido uma mãe acolhedora, amorosa, cuidadosa que sempre se esforçou em dar o seu melhor para mim e para os meus irmãos. Você é a melhor mãe do mundo, sem dúvidas, não tenho nada a reclamar de você. Ai mãe, que saudades... Que saudades eu tenho de seus fortes abraços, seus sorrisos, seus doces, suas comidas, de assistirmos filmes juntos. Vivo agora dignamente meu presente ,expressando naturalmente os valores e tudo mais que você me ensinou, e neste tudo mais, incluo coisas básicas como andar, comer, beber, falar, tudo que sou e me tornei, em grande parte, devo, graças a você. Obrigado por estar comigo nos momentos solenes, nos momentos difíceis, por sempre me acolher no dia-a-dia e por ter estado presente em todos os momentos de minha vida. Me espelho em você, você é meu maior exemplo Muito obrigado por tudo mãe! Como você mesmo disse, em breve estaremos todos juntos. Mãe te amo muito, muito, muito! Até breve.”

Débora

Fiquei buscando as palavras mais bonitas e impactantes ao longo de dias, porém cheguei à conclusão de que qualquer texto que eu produza jamais chegará perto de traduzir o que eu sinto por você, mãe. Leitores me perdoem os clichês. Afinal, quando se trata de mãe, tudo pode parecer familiar e pouco original. - Nossa, mãe! Que saudade! Vou ver se tiro férias e dou uma escapada para São Paulo. - Não vem, não, filha! A situação é muito grave. Essa COVID maldita está levando muita gente embora. E as autoridades estão perdidas, não sabem o que fazem. Ligo a TV e parece que estou vendo uma paródia de muito mal gosto de um episódio de “Os 3 patetas”. - Ah, mãe. Mas a vida tem que andar. Se eu puder, eu vou. - Filha, insisto, não venha. Se cuida aí, viu? Você e o Carlos. Te amo, filha. - Te amo, mãe. E assim foi a toada de 2020 e início de 2021. Máscaras, álcool gel e quase nunca sair de casa. Um verdadeiro pesadelo. O que me deixa mais triste é que parece ter sido tudo em vão. Infelizmente, você se foi. Há dias que eu penso “Deveria ter ido.” e noutros, a maioria, caio em mim e vejo como você estava correta. Que situação terrível para perder quem se ama. Um luto desumano que traz sempre um “E se?”. É uma espécie de trauma a ser superado com o tempo, muito amor entre os que ficaram e auto perdão. Sempre lembrarei da mulher consciente que você foi e me ensinou a ser. Mesmo em meio às maiores dificuldades tinha uma oração, uma atitude de perseverança, vivendo um dia de cada vez na batalha que é a vida. Vida, impermanente vida. Sim, impermanente. Vida é movimento. Paz só no cemitério. Paz só onde não há vida. Espero do fundo do meu coração e do alto de minhas crenças que a vida seja realmente eterna. Que você esteja iluminando os ambientes por onde passar fora deste plano material. Espero que um dia possamos nos reencontrar com alegria e dar aquele abraço apertado que a gente sempre dava quando você vinha abrir o portão para mim, recém-chegada de viagem. Estes são os momentos que mais tenho frescos na memória. Abraços apertados no portão com a cachorrada pulando em cima. Antes de partir você já fazia falta. Agora então... É até difícil acreditar que você se foi. Mas creio no tempo. Implacável. Que tudo ajuda a transmutar e curar. Agradeço infinitamente por sua existência. Grande parte do que sou é você. Te amo para sempre.

Carlos

“Oi mãe, agora essa mensagem é minha, do Carlos, rs, e sim, eu sei, você estaria chorando antes mesmo de eu começar a falar, rs. Queria começar dizendo que hoje senti uma saudade de ouvir um áudio seu, me contando como foi seu dia, enquanto estou no metrô, após sair do estágio ou indo pra ETEC. Era incrível ouvir sua voz e sentir sua energia e sua alegria ao realizar pequenas coisas, que só você tinha uma forma de fazer, e tudo ficava mais leve, interessante, aconchegante, e o melhor era quando você me falava “Traz um docinho pra sua veinha”, rs ou “traz balinha ou sorvete no bolso”, rs. Mas naquele fatídico dia, que te vi pela última vez, eu não imaginaria que seria a última vez... Você, mesmo adoecida, tinha uma esperança no olhar, na voz e disse à mim e ao César, “não briguem, tenham calma, se cuidem, fiquem bem, vai dar tudo certo, cuidem dos meus filhos de 4 patas e fiquem tranquilos, a gente se verá de novo em breve”... E o breve se tornou uma despedida... como se você soubesse que iria partir e não quisesse nos preocupar... e você foi mãe e corajosa até o último momento. Não sei explicar ou definir até hoje quando ouvi que você tinha partido... Mas, queria te dizer que sinto muito a sua falta. Quando você partiu, a sensação foi como de terem tirado o melhor de minha alma, o amor verdadeiro, o amor sincero, a alegria sincera e inocente de mim... como se meu mundo de fantasia tivesse deixado Neverland pra trás e agora eu fosse um Peter Pan crescido, que esqueceu como voar, que não lembra mais de um momento feliz e único, ou de defender seus amigos do Capitão Gancho... Mas sei que se você me ouvisse falar isso, você daria 3 tapas na minha cara e diria pra eu parar de ser louco, rs, e erguer a cabeça e me pegaria no seu colo, me abraçaria e me daria força, me faria ser o pequeno príncipe pra desbravar novos mundos e entender que longe de casa, eu entenderia a força que deveria ter sempre e jamais esquecer de cada ciclo ou momento vividos. E lembrar de você me dá força. Em dias frios e chuvosos, lembro das receitas que você fazia, dos bolos com os ingredientes na dispensa, e ao reproduzir suas experiências gastronômicas, sinto você em mim, a cada movimento ao mexer a massa... Quando lembrava de seus pratos inventados, instantaneamente vejo cada movimento seu e, quando cozinho, sinto sua presença e entendo mais ainda que tudo que você fazia não era só cuidado e sim amor. Quando assisto uma série ou filme que você acompanhava e gostava, é como sentir sua presença, e sua cabeça no meu ombro quando te pegava dormindo, rs, no meio de algumas cenas e lembro da sua alegria ao fazer pipoca e estar com quem você amava e rir sem parar... , rs e aproveitar cada momento como se cada momento fosse o último e único! Mas o que eu sentirei mais falta, será da sua alegria nos aniversários. Você só gostava de comemorar duas coisas, a primeira, era o dia das crianças pra se esbaldar nos doces, mesmo com as restrições por causa da diabete, rs... oh mulher teimosa, devorava tudo, rs... e a segunda qualquer aniversário, festa que celebrasse mais um ano da vida de alguém que você admirava e amava e que não via a hora de ver a alegria do aniversariante em poder ter seu dia, seu momento e curtir sem medida a festa celebrada. O melhor era quando te dava o primeiro pedaço e você logo dizia, “é hoje que a formiga fará a festa”, rs... Era bom demais celebrar contigo os desejos em silêncio a cada apagar de vela... Ai, que saudade mãe... sinto falta da sua risada todos os dias... Sua risada era sempre um enlace, era carregada de afeto, amor esperança e me dava força pra vencer qualquer luta ou combate. Vc cheia de graça, na cadência de sua alegria, tecia orações e notas, como uma bênção no final do dia. Me trazia esperança, força e alegria e enchia meu coração, às vezes aflito, de paz. Obrigado por todas as vezes que me apoiou, por todas as broncas dirigidas, por todos os abraços calorosos e seu colo. Seu filho, hoje entende ainda mais sua garra, sua força e sua ousadia. Ousadia em querer mostrar ao mundo que o amor é o maior tesouro que alguém pode ter ou dedicar, de ter me acalentado e acolhido por eu ser como sou e por ter me defendido por cada palavra rude lançada à mim. Ousadia de ser sincera e de nunca baixar a cabeça quando via injustiças acontecerem e ainda ter a paciência de ensinar a quem fosse preciso sobre respeito, diversidade e de aceitar as diferenças... Que saudade de ti... não posso, agora, dizer tudo isso olhando pra ti, mas saiba que em breve nos veremos e nos reconectaremos e eu poderei mais uma vez ter meu coração cheio de paz. Beijos, mãe, te amo!

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