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Mãe universitária

História de: Maria Aparecida da Silva Trajano (Tia Cida)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/08/2009

Sinopse

Quase todos só conhecem Maria Aparecida por Tia Cida, dona de uma história de resistência e crença na capacidade de mudança. Envolvida na luta por melhores condições de vida em São Mateus, bairro da Zona Leste de São Paulo, criou seus filhos sozinha depois do fim de seu casamento e concluiu o curso de Serviço Social, com a ajuda da comunidade com quem sempre trabalhou. A sua vida, repleta de histórias, foi movida pela crença na capacidade de promover a mudança. Mesmo se sentindo discriminada por ser pobre, negra e separada, não se deixou abater e teve uma vida plena de realizações.

História completa

Meu nome é Maria Aparecida da Silva Trajano. Nasci em São Paulo, em 26 de novembro de 1940. Minha mãe se casou aos 13 anos de idade, em Piracicaba, mas acabou fugindo para São Paulo onde trabalhou como doméstica. Arrumou um namorado e engravidou. Quando eu tinha oito dias de vida, ela começou um serviço em uma casa onde tinha uma senhora negra, de 60 anos, empregada antiga da casa: essa mulher, que eu chamava de avó, cuidou de mim até meus 15 anos, quando faleceu. Eu sinto falta dela até hoje!  

 

O meu maior sonho na infância era estudar. Quando eu terminei o primário, na admissão, o diretor da escola ficou na minha casa do meio-dia até às oito horas da noite esperando a minha mãe. Ele falou: “Vim pedir para levar a Aparecida para minha casa, quero custear o estudo dela. Uma cabeça como a da Aparecida só aparece de cem em cem anos! A sua filha é muito inteligente”. Mas minha mãe disse que tinha arrumado um noivo para mim e que eu ia casar. Um amigo meu contou para minha tia, cunhada do meu pai, e ela me levou para morar na casa dela, na Vila Madalena. Fui trabalhar com a filha daquela família onde minha mãe trabalhava quando eu era criança. Eu saí desse emprego para casar, com 23 anos, por minha vontade.

 

Eu namorei, noivei e casei em 45 dias. Ele trabalhava na CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos) em Santos. Eu morei lá de 63 até 65. No golpe de 64, foi aquela devassa! Todo mundo na rua, desempregado: nas docas, nos cais, e na CMTC não foi diferente. Mudamos para São Paulo e meu marido desenvolveu o que ele sabia fazer bem: pintava quadros. Se ele pintasse 20 quadros pequenos e saísse na Rua Direita, na Praça da República, vendia tudo. Ele era um artista nato! Mas todo artista é acomodado e eu sofri demais. Eu não tinha paciência. A gente tentou reatar em 68, mas não deu certo. Essa última vez que ele foi embora, eu fiquei grávida do Marcelo, meu último filho.

 

Antes disso, ele tinha trazido para casa um menino de rua. Chegou de manhã com o menino e disse: “Minha preta, olha o que eu achei debaixo de uma construção? Ele está sujo, com fome e com sede. Não fale muito para não assustar o menino.” Gente de Deus, a gente já passava uma vida tão apertada! Ele chegou em casa no dia 23 de fevereiro de 1967, ia fazer dez anos em maio. Esse menino foi muito forte na minha vida, ajudou a olhar as crianças para eu poder trabalhar. Ele faleceu em 82, com doença de Chagas. Em 78, com esse problema que me afligia muito, resolvi estudar. Eu tinha 38 anos. Fui fazer supletivo.

 

Nessa época eu trabalhava na paróquia há algum tempo, com uns padres novos. O padre Franco era ativista roxo! Ele sofreu muito por minha causa, porque tinha o problema de eu ser negra, mulher, separada, trabalhando em uma paróquia. Ele enfrentou muita briga por minha causa! A gente discutia os problemas da comunidade a partir do evangelho de João, Marcos ou Mateus. Refletia sobre o problema da falta de água na favela. Coisa que não era muito bem vista em 68, 69, chumbo mesmo. Então foi uma experiência muito rica, cresci muito nessa época.

Acabei o supletivo e fui fazer faculdade. Eu fui para a faculdade empurrada por esse pessoal com quem já trabalhava. Esse é o meu maior orgulho: não passei pela vida em branco. Consegui 75% de bolsa, o pessoal ajudava a pagar o resto. Assim fiz os quatro anos da faculdade de Serviço Social.

 

Eu trabalhava na paróquia, tinha entrado no Estado, estudava, fazia o vespertino, um sacrifício! No fim de semana, eu organizava os encontros com o pessoal da favela, da educação ou da saúde. Em São Mateus o ativismo era muito grande. Era fantástico! Foi uma forma de esquecer um pouco aquela coisa de família, ser separada do marido, ter filho para criar. Não ficar presa naquele sofrimento. Você tem que erguer as mangas e partir para a luta, não ficar se sentindo vítima. Brigar por uma condição de vida melhor. Foi nessa época que começou o movimento da educação. Cada área tem uma creche, cada bairro tem uma escola não é à toa. O movimento de educação foi muito forte!

 

Quando eu estava no terceiro ano da faculdade, as coisas ficaram muito difíceis financeiramente. Chamei meus filhos: “A mãe vai deixar de estudar.” Eles perguntaram quanto tempo faltava. Faltava um ano e meio, quase dois anos. “Mãe, nós somos os únicos na escola com mãe que faz faculdade.” Levei um susto! “A senhora não vai sair não! A senhora vai se formar como todo mundo tem que se formar!” Isso me fez pensar muito. Comentei com um professor: “Ontem eu tomei uma decisão, falei com as crianças que eu ia desistir. Você precisava ver a reação deles. Fiquei com vergonha.” Ele me arrumou uma saída: fazer o trabalho de casa de outros alunos. A minha chefe me emprestou a máquina de escrever. Eu passava a noite inteira fazendo rascunho, a noite inteira escrevendo. Com o dinheiro que ganhei, comprei todos os livros que precisava, comprei sapatos para os meus filhos. Passamos a comer carne duas vezes por mês. Terminei a minha faculdade.

 

Depois de formada, continuei trabalhando na paróquia. A gente assessorava o movimento da água, da luz e estava se aprofundando no da – isso em 85. Alguém falou para mim: “Cida, vai até o Mário Covas. Vamos preparar seu currículo.”  O meu currículo foi parar na mão do Mário Covas. E assim eu assumi a diretoria de uma creche na Cidade Tiradentes. Foi a primeira vez que vi resultado daquilo que o pessoal tinha me empurrado para fazer.

 

Em 87 meu marido foi assassinado. Tinha um policial reformado testando as balas do revólver. O meu marido estava com a cachorra e com o estampilho do revólver ela se agitava. Meu marido falou: “É perigoso você ficar atirando, a cachorra fica agitada.” Ele virou e atirou no meu marido. Meu filho correu para acudir o pai. O policial imaginou que meu filho fosse atacá-lo e atirou no meu filho. Terrível, terrível! Meu marido faleceu no final do mês, mas meu filho sobreviveu. O que mais me doeu foi não poder acompanhar meu filho e meu marido até o hospital porque tive que acudir a família do policial. O pessoal invadiu a casa dele e queria pôr fogo com a família dentro. Ele já era uma pessoa marcada pelas estripulias que fazia na área.

 

Como o Marcelo estava desnorteado com a morte do pai, o Tim Maia teve a misericórdia de dar de presente para ele um cavaco quebrado. “Tia Cida, dá esse cavaco para ele brincar um pouco, para ele relaxar, porque ele tem um jeitão para as cordas.” Foi aí que o Marcelo aprendeu a tocar cavaco e banjo. A Beth Carvalho considerou o Marcelo o segundo melhor banjo do Brasil.  

 

Em 90, aquele amigo que me ajudou a fugir do casamento que a minha mãe tinha arrumado reapareceu. No meu aniversário, em 89, eu estava numa roda de samba e ele entrou: “Minha preta!” Ele tinha ficado viúvo em 88 e eu tinha ficado viúva em 87. Ele não pensou nada, nada! Em seis meses a gente estava casado. Ficamos casados até 2001, quando ele faleceu. Ele era um dos últimos filhos de escravos no Brasil, mas ele não gostava de falar sobre isso de jeito nenhum. Eu sempre fui alucinada por conhecer um pouquinho as origens dele. Nas minhas férias eu queria conhecer esse povo e fui para Pernambuco com ele, 47 horas de viagem. Ele foi recebido como um rei, o prefeito até colocou faixa. Depois fomos para Agrestina, conhecer o tal tio Luiz, irmão mais velho dele. Foi o encontro do irmão mais velho com o caçula. A conversa dos dois em dialeto africano foi forte. Agrestina é um bairro pobre, o pessoal se alimentava de mandioca e coco.  Tinha um mercado na esquina e eu falei: “A gente vai embora pra São Paulo a pé, mas a gente vai deixar tudo que a gente tem para esse pessoal!” Ele faleceu no mês de março seguinte.  Do meu segundo marido ficou foi essa satisfação de mostrar para ele o quanto que ele era importante. Mas ele tinha muita raiva, não aceitava!

 

Contar minha história foi uma experiência transcendente. Tinha coisas que estavam bem adormecidas, que eu já não lembrava mais. A faculdade foi um momento bom porque eu consegui superar uma série de coisas que foram muito tristes. Sofri muita discriminação por ser mulher, ter idade, ser negra, ser pobre! Eu estou falando de 20 e poucos anos atrás. Quando as coisas vão mudar? Quando você se propõe a descruzar os braços é porque você anseia a mudança. A mudança está muito em você: seus objetivos, seu conhecimento, seu crescimento interior – que eu sempre falo que é o crescimento espiritual.

 

Editado por Raquel de Lima


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