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Criar

História

Mãe, madrinha e conselheira

História de: Maria do Carmo Neves Cesário
Autor: Coleção Alagados
Publicado em: 13/01/2021

Sinopse

Carminha narra sobre a relação com os filhos de criação e sobre como se desdobrava para conseguir prover e cuidar de cada um deles.

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História completa

Pois eu quero dizer que minha vida sempre foi assim atribulada, e eu trabalhando e nesse trabalhar minha filha, eu criaaando! Senhor muito obrigada! Eu louvo muito ao Senhor minha filha, porque é Ele que é o meu testemunho. Ele é que sabe de tudo, eu posso falar a você, mas Ele é que sabe de tudo. Porque antes da gente falar ele já sabe o que nós vamos falar, não é verdade? Então, eu... nesse vai e vem eu criando. Eu comecei a criar um menino desde lá de Santo Amaro, que a mãe dele me deu pra eu batizar e depois ela morreu. Desde os 2 anos ele dormia aqui neste braço ... eu comecei a criar ele e batizei. Criando ele desde os 2 anos. Vim pra aqui e trouxe ele. Eu louvo e agradeço ao Senhor porque tomei conta e dei conta sim, cuidei dele. Botei, eu achei uma amiga.. sempre achando pessoas amigas... "Você quer Carminha, tem uma vaga na Vila Militar." Ó que coisa boa! Só quem entrava ali era filho de militar. Então ... Ele foi pra lá. Estudou, se formou e eu já tava mais ou menos com o meu trabalho, paguei aula de datilógrafo pra ele. Ele tirou o diploma de aula datilógrafo, se formou. Fez o primeiro grau, o segundo, Graças a Deus! Daí arranjou um emprego através de um cunhado meu. Arranjou uma colocação pra ele trabalhar. Ele trabalhava num escritório. E Graças a Deus trabalhando direitinho e tal. E continuei. Trabalhando, trabalhando.. nesta altura já tinha mais 2 pra criar, que era Carlos e Adão (...) Era daqui do bairro mesmo, que a mãe.. A minha resposta era essa: “- Eu não tenho condições, eu aqui pago casa de aluguel..” “- Ah mas eu não tô podendo, eu tô assim, eu não tenho quem.. eu tô assim, eles passam fome e não sei o que..” E eu terminava ficando. Dois, os dois me deu. Um pra eu batizar e outro já veio batizado. Pronto, aí já ficou mais dois. Aí quando menos espera vem um sobrinho de Santo Amaro que o meu primo teve lá com a mulher e ela já mandou, disse que era pra eu criar também. Eu tenho glória dentro de mim porque eu nunca disse: “- Eu não quero, eu não posso.” Eu dizia assim: “- Eu não quero” Mas.. as menina dizia : “- É. Você com esse coração de manteiga lá se vai!” Um menino e outro.. Menina, é tantos! Então chegou esses dois, depois chegou oooutro de Santo Amaro... (risos). Lá vai eu levando esses menino aí criando. Tem umas: “- Mas Carminha, como é que você pode com tanta gente assim dentro de casa?” Também, minha filha, o que Deus me dava coragem de eu trabalhar, eu trabalhava! Eu costurava, eu alisava cabelo, e eu botava eles pra vender também pra poder me ajudar. Assim comprava cesta e.. não era de ficar na rua, como tá o mundo aí não é minha filha. Botava eles na escola. Nunca deixei de botar na escola, nem na igreja, fez primeira eucaristia. Justina, Justina uma vez fugiu, e eu busquei Justina (risos). Eita Nossa Senhora, era muita coisa! Mas graças a Deus Senhor, eu dei conta, não foi Jesus (olha para uma imagem pendurada na parede)? Eu penso que eu dei não é? Eu tive minhas falhas, meus erros. Bom é Deus, ninguém é perfeito né? E a gente não deixa de reclamar, alguns eu castigava, outros não. Depois outro sobrinho também veio e lá se vai! Ele ficou doente, depois ficou bom. Um teve desastre, eu peguei correndo levei para o pronto-socorro. O vizinho foi quem me deu a carona. O carro quebrou bem aí quase (aponta pra rua). “- Oh, o menino de Carminha o carro quebrou!” Aí coitada enfaixou a cabeça toda. Mas graças a Deus ficou bom. Depois surgiu outra. A patroa viu ela costurando roupa de neném e botou ela pra fora. Ela chegou, veio andando ... "- Oh nega, oh nega, eu tô aqui procurando um soldado." Não sabia nem falar direito coitada. “- E eu tô de nenê e eu tava costurando a roupinha e a patroa disse que não queria ninguém de neném dentro de casa ... "Se deixa a minha sacola aqui, enquanto eu vô lá, eu vou ver ele?" “- Deixe aí”. E la foi e não encontrou, não encontrou. “- Olhe nega, eu sei que ele mora numa casa grande assim. – ela não sabia o que era apartamento - É uma casa grande assim. Ele chama Osvaldo. O caminho dele é aqui, é aqui." (Carminha) “- Menina, e o que é que eu vou fazer com você? Você veio pra aqui, eu não conheço ele. Você disse que é soldado. Eu vou dar um arranjo aí. Aí eu vou dizer que sou sua madrinha e que seu pai mandou você pra aqui e não me avisou...E você...” Aí combinei. Aí passou quando ele passou, aí vinha ele e vinha dois. Aí eu fui chegando junto dele e parecia até presa. Era uma de um lado e outra do outro. Aí eu fui conversando com ele, que eu estava sabendo do que tinha acontecido, que o filho era dele. (Carminha) “- Não é seu?” E ele fez assim com a cabeça (sinal de positivo). Aí quando chegou na saída do Araújo Bucão que já tava perto da Vila Militar, aí eu disse: "- Olha, eu vou lhe ser franco. Na Vila Militar, eu conheço muita gente. Eu já costurei para professor de Física. Eu conheço doutor Miguel, que já foi meu dentista. Eu conheço doutor Isiel, que era meu avalista, quando eu pegava dinheiro no banco. Porque quando eu trabalhava assim, eu tinha uma amiga, que era da Aliança da Bahia, depois fui conhecer que ela era até minha prima, a terceira mais velha. Ela tomava dinheiro, eu não ia no banco, ela trazia o papel, eu preenchia. Então ele é que era meu fiador e eu não conhecia. Só conheci doutor Isiel porque ele era meu dentista. Aí eu digo: "- Bom, eu conheço eles. Eu, se chegar lá na Vila, eu vou procurar eles e eles vão me orientar o que é que vai fazer pra você se responsabilizar na manutenção da criança”. Ele aí ele ficou assim e disse: "- Olhe moça não precisa a senhora ir não”. “- Eu vou direto, vou lá, vou falar a doutor Isiel a doutor Miguel e o professor de Física, que eu até esqueci o nome dele agora”. Ele aí: “- Não se preocupe não, que eu vou me responsabilizar." Boa conversa né? E se responsabilizou. (...) Aí graças a Deus ela teve o menino lá em casa. Na minha casa, se ela tava lá?! A barriga foi crescendo. Depois que teve o menino, eu brincando com ela disse: " Oh meu irmão casou, tá novinho; o casamento é recente. Você não quer dar não esse menino?" Mas eu falei assim minha filha, por falar. Por mim o menino ia ser criado até ali. Aí ficou com medo do menino..., arranjou uma colega. "- Ah não nega, eu vou me embora”. Eu digo: “- Oh menina, eu tô brincando..” “ - A menina vai tomar conta do menino, aqui já tem muita gente...” Eu tive que ver o menino nascer, eu tive que ser parteira (risos)

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