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Mãe é quem cuida

História de: Raquel Barros
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/09/2009

Sinopse

Relação com os pais. Mudança para São Paulo. Faculdade de Psicologia na USP. Pesquisa com maconha. Ida para a Itália. Coordenadora do trabalho com usuárias de heroína. Casamento. Tentativas para engravidar. Fundação do Projeto Lua Nova. Geração de renda para as mães em situação de rua. Fabricação de casas. Visibilidade e disseminação do Lua Nova.

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História completa

O meu nome é Raquel Barros e nasci aqui em Sorocaba no dia 16 de fevereiro de 1966.


Pelo fato de eu ter sido a primeira filha, meu pai foi muito ligado a mim. Ele é muito afetuoso. A minha mãe, absolutamente o contrário, tinha certa birra comigo e eu não era o padrão de filha legal: Eu não era bonita, era gordinha, usava óculos. Com oito anos, ela me levou no médico pra fazer regime. Eu tinha que atingir um padrão. Dos oito até os 16, eu emagrecia e engordava.

 

Quando eu tinha dez anos, resolvi que ia ser psicóloga.

 

Comecei a perceber o meu poder e a minha determinação na adolescência porque minha mãe falou: “Vamos todos morar na fazenda”. Eu falei: “Nem pensar. Com você, no meio do mato, nós vamos nos matar”. Ela falou: “O único jeito de você não ir, é passando no vestibular”. Fiz e passei nas três faculdades que prestei. E fui pra São Paulo estudar na USP.

 

Na faculdade, eu e umas amigas começamos a fazer a matéria:“Treino e Pesquisa” e ganhamos uma bolsa pra trabalhar com droga em rato. No primeiro ano, a gente já falou pra mulher que propôs a matéria: “Por que a gente não faz essa pesquisa em gente?”. Fizemos pesquisa com maconha.

 

Eu tinha uns namoradinhos e falava: “Eu vou nas baladas, não vou usar droga, nem bebo, fico só anotando”. Levava torta de morango e, na hora da larica, eles comiam e eu fazia a pesquisa.

 

Depois que me formei, existia um negócio de Centro de Medicina Social e Criminologia do Estado, que trabalhava com orientação pra pais. E tinha um cara que era pesquisador e chefe lá. A gente foi apresentar a nossa “pesquisinha” da maconha. O cara falou: “Vocês tem que vir fazer estágio aqui”. Fomos.

 

Aí, resolvi que tinha que ir pra Itália. Vendi meu carro, sem falar italiano, e fui. Ia ficar seis meses fazendo estágio em um lugar que era uma comunidade terapêutica.

 

Cheguei. Não sabia falar nada. Fui hostilizada. E os meninos, os usuários de drogas, eram os meus professores de língua. Foi uma coisa legal e digo que devo a minha inclusão lá, a eles.

 

Depois de um ano e meio, começaram a pensar em fazer um trabalho pra mulheres também e me chamaram pra coordenar.

 

De seis meses que eu ia ficar, fiquei sete anos. Aí, conheci o meu marido: o Alessandro.

 

A minha irmã ia casar aqui e falou: “Por que você não casa junto comigo? As pessoas vão te dar geladeira, fogão, não sei o quê. Não vai custar nada porque vai ser a minha festa, eu vou fazer tudo e você só casa”.

 

Casei. Agora falta ter filhos. E eu não engravidava. Durante quatro anos fiz tudo o que podia. Chegou um dia, o médico falou: “Olha, você não vai ter filhos”. Fiquei mal. E eu tenho uma coisa, fico deprimida por dois dias. O dia que recebo a notícia. No outro, já começo a bolar uma solução.

 

Resolvi que eu ia voltar pro Brasil e trabalhar com meninas que eram mães.  “Vou montar uma ONG”. Eu queria ter filhos e o jeito que resolvi a história da minha “não-maternidade”, era ficar junto com mães.

 

Cheguei pro meu ex-chefe e falei bem assim: “Acho que tenho que fazer isso lá, e você tem que comprar pra mim um lugar, para eu fazer lá e poder voltar”.

 

Vim com o meu marido para o Brasil e comecei a história da Lua Nova.  

 

Com o dinheiro que o italiano me deu, comprei uma chácara em Araçoiaba. A ideia era: trazer mães pra estarem junto comigo e fazer com que a maternidade fosse um fator de transformação na vida dessas meninas.

 

Percebi que não tinha dinheiro, não tinha equipe, não tinha nada. Era um “elefantão” branco. Comecei a trabalhar no bairro onde estava a chácara, com a liderança de mulheres, na comunidade.

 

Chamei essas mulheres e falei: “É o seguinte, vamos receber um dinheiro, não sei quando. Vocês topam trabalhar de graça comigo e quando eu receber pago tudo?”. Elas toparam.

 

Começaram a chegar essas meninas. Eu tinha programado dez, cada uma com um filho, e chegava: uma menina e quatro filhos. Programei cinco, depois mais cinco. Mas, imagina, ia chegando de montão. Já estávamos sem espaço.

 

Uma vez ligou o Conselho Tutelar. “Não tem vaga, não tem cama. A menina e as crianças vão ter que dormir no chão”. Passaram-se cinco horas, a gente vai sair, e tem na frente cinco colchões, duas camas e a família, sentada em cima. Os caras deixaram lá e foram embora! O nível da desgraça era tanta. Estava me propondo trabalhar com quem ninguém queria.

 

Uma delas, era a Paulete. Tinha uma filha que morava com a mãe, na favela e não a reconhecia porque era filha de um abuso de rua. Ela falou: “O meu sonho é que a minha filha me chame de mãe”. Ela veio pra Lua Nova, trouxe o primeiro filho, a filha não quis vir. Depois conseguimos que viesse. Mas era uma cena horrível. Ela não conseguia tratar bem a menina. Mais tarde, começou a trabalhar e a guardar dinheiro. No dia da festa de aniversário da filha, ela comprou uma bicicleta. E na hora que ela dá, a filha fala: “Obrigada, mãe”.

 

Depois de um tempo, a Paulete chegou pra mim e falou: “Raquel, adorei. Mas, sou neta de prostituta, minha mãe herdou a profissão, ela também tem os clientes que eram da minha avó, seus filhos e tal, e eu também sou. Então, vou me prostituir duplamente pra poder dar o leite para os meus filhos”. Aquilo mexeu comigo e eu comecei a ir atrás de trabalho pra elas.

 

Os empresários da cidade respondiam: “Peça cobertor, leite, o que quiser. Mas não peça pra colocar uma menina dessas na minha empresa. Porque elas vão ter caso com os caras, vão contaminar, não sei o quê”. Eu voltei pra elas e falei: “Nós é que vamos ter que arrumar dinheiro. Vamos ter que nos virar”.

 

Tive uma ideia de fazer uma boneca mãe com a boneca filha e um livrinho. As minhas meninas iriam fazer e vender pra outras mães, pra melhorar a relação com os seus filhos.

 

Nessa época, descobri que estava grávida de gêmeos.

 

Nasceram as minhas filhas e a gente montou essa fabriquinha de bonecas. Como a gente aprendeu a fazer plano de negócios e tudo, foi mais legal porque a gente começou a ficar profissional. Foi a primeira coisa que começou a mostrar para as pessoas que elas tinham capacidade de fazer alguma coisa que não só se prostituir.

 

Elas começaram a perceber que tinha potencial ali: “Não só fico com o meu filho, também posso criar alguma coisa, um sonho meu, uma ideia que eu tenho e gero renda”. Começamos a trabalhar nas comunidades, onde elas voltavam. Ganhamos certa visibilidade. Apareceram patrocinadores.

 

Conheci um cara que era fellow da Ashoka, de Uberlândia. Ele fazia casas populares, autoconstrução. Eles faziam tijolos só no cimento. Uma hora tinha uma foto com uma mulher com o tijolo na mão. Eu falei: “Mas essa mulher também participa? As minhas vão fazer também”. Cheguei lá e falei: “Tem um negócio aqui que faz o tijolo. Vocês topam?”. Começamos.

 

Precisava de um terreno pra fazer as casas. Meti uma reportagem no jornal: “Venha aqui ver as meninas fazendo tijolo”. Deu muita visibilidade e a gente foi conseguindo mais apoio. Comecei a fazer parceria com o SENAI e a Faculdade de Engenharia.

 

E tinha uma briga entre dois vizinhos e uma pirambeira. Eu falei: “Se eu conseguir liberar na Prefeitura pra vocês, vocês me vendem por dois mil reais esse lugar aqui?” “Vendemos”. Era um lugar horroroso, mas eu não tinha dois mil reais também. Consegui liberar. Uma delas tinha guardado 200, outra tinha 50, fomos juntando. Eu tinha não sei quanto, peguei emprestado não sei quanto. Quando vimos, conseguimos e compramos a pirambeira.

 

Meio que estou passando a bola pra elas. E eu queria isso mesmo, que elas assumissem. Como se fosse um movimento, falando pras outras: “Se eu posso, você também pode. Levanta aí, você pode ser mãe, estar com o seu filho, ter a sua casa, o seu dinheiro. Vamos nessa”.

 

Eu funciono muito e vivo melhor no coletivo. Outro dia me ligou uma das meninas que está indo embora porque vai casar com o pai do filho: “Viu mãe, eu tô indo embora. Você vem me ver?”. Eu falei: “Vou te ver. Você também vai poder ser mãe, irmã, tia...”. Ela falou: “Acho que sim, mas você vai continuar sendo a minha mãe”. Eu falei: “Continuo sendo a sua mãe”.

 

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