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História

Mãe de muitos filhos

História de: Antônia Antonita da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/12/2013

Sinopse

A entrevista de Antônia Antonita da Silva foi gravada pelo Programa Conte Sua História no dia 28 de novembro de 2013 no estúdio do Museu da Pessoa, e faz parte do projeto "Aproximando Pessoas - Conte Sua História". Antônia conta que nasceu em uma família muito pobre mais cheia de amor. A mais velha entre 22 dois filhos, Antônia conta que ajudou muito a cuidar de seus irmãos e por isso, mesmo gostando muito de estudar, o tempo acabava dificultando seus estudos. Desde pequena também ajudava na roça o seu pai, pegava agua, ajudava nos serviços de casa, sempre trabalhando muito. Depois de casada começou a trabalhar mais com venda e é o ramo que segue trabalhando até hoje.

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História completa

Eu nasci no dia 19 de outubro de 1929, num sábado, às cinco horas da manhã. Eu nasci, era um casal muito pobre e muito feliz. Eu vim de uma família pobre e de muito amor. Ele era agricultor. Foi muito interessante que no dia que eu nasci essa casa onde nós morávamos tinha um lajedo muito grande, não sei se vocês sabem, aquelas pedras. Deu um temporal muito grande e deu um trovão tão forte que caiu um raio na pedra e saltou uma lasca da pedra que fez um tanquinho. Eu costumo dizer que eu vim da rocha mesmo, da pedra. E então a gente viveu, eles foram um casal muito unido, tiveram muitos filhos. A minha mãe teve 22 filhos, eu a mais velha. Eu sempre tive muita vontade de estudar. Nossa, minha vontade era grande de estudar. O meu avô era quem me dava caderno, lápis, aqueles tinteiros, ele pagava isso para eu estudar. Mas, como eu cuidava dos meus irmãos, eu era a última a chegar na escola, tudo pra mim era difícil na escola porque eu só chegava atrasada. Eu nunca estudei em um livro novo, eu só estudava nos livros das minhas primas, então elas terminavam o primeiro ano era aquele coração de criança. E eu sentia uma alegria do livro, eu tinha muito gosto no livro, de escrever eu gostava demais, mas os meus estudos eram muito difíceis porque eu saía correndo, quando chegava era trabalhando, eu tive muita dificuldade. Eu cuidava de todo serviço de casa, ajudava na roça, apanhava café, milho, arrancava feijão. Todo serviço da roça eu fazia. Carregava água de longe, ainda hoje tenho um calinho aqui que é de carregar lata d’água na cabeça . Tem aquela música lá, lata d’água na cabeça. Eu carregava água, carregava lenha. Plantava, quando começavam as chuvas eu ia plantar, ia ajudar meu pai. Eu trabalhei muito. Muito, muito. O meu pai, teve uma época que ele matava boi e vendia no sítio. A gente ia entregar a carne nas casas. E o meu marido ia comprar a carne lá, ele sempre ia a cavalo comprar a carne pra levar pro pai dele. Eu conheci ele a gente vendendo as coisas lá. Era quase vizinho, perto. E eu conheci ele, foi meu primeiro namorado fiel mesmo, forte. Porque eu sempre tive uma opinião, eu tinha muitos primos meus que eu tenho meus primos como meus irmãos e teve alguns que sempre tinham, eu falava: “Eu não quero nem ver, eu não vou casar com parente, eu não vou casar com parente. Eu quero me casar com uma pessoa estranha”. E foi, nunca quis. Se era meu parente não adiantava, queria bem, mas não pra casar. Eu senti a diferença da vida de casada pelo seguinte, porque a família do meu esposo tinha um temperamento muito diferente da dos meus pais. O meu sogro era uma pessoa que me queria muito bem, eu queria muito bem a ele, mas o meu esposo era duas, o meu sogro ficou viúvo e tinha a segunda família. Então meu esposo só tinha dois irmãos, e da outra família eram seis. Aquilo ali sempre tinha ciumada, era uma ciumada, sempre a família mais velha é quem tinha o direito das coisas, entendeu? E o meu esposo muito trabalhador, muito trabalhador. Vou contar uma história que vocês vão dar risada. A gente casou e foi morar no sítio e tava na época do café. Eu sempre trabalhei muito, a minha lua de mel foi apanhando café . Eu casei no domingo, em Caruaru na Igreja Nossa Senhora do Rosário e fui para o sítio. Então da Sapucaia pra ir para o sítio, que era mais longe, todo mundo foi de cavalo, tava chovendo, todas essas coisas. E na segunda-feira fui pegar café normalmente . Pois é, aí continuei minha vida normal, sempre trabalhando, trabalhando. Depois ele pôs uma venda, eu tomava conta da venda, sempre trabalhando. Aí começou a vir os filhos, eu tive 13 filhos. A minha mais velha é a Maria do Socorro e eu trabalhei muito. Ele trabalhava muito também em fazer farinha. Tinha as casas de farinha, quando era sexta-feira ele arrancava a mandioca, ia pra casa de farinha e trabalhava, tinha vez que trabalhava até o dia amanhecer. Trabalhei muito. Grávida eu cevando mandioca, carregando mandioca. Depois tive venda. Aí vendia jabá, carne seca, arroz, feijão, pinga, açúcar. Aquela aguardente que vinha do sul, aquele açúcar preto que traziam. Eram aquelas coisas normais da venda. E era eu quem tomava conta, quem fazia tudo na venda. Aí depois ele deixou a venda, mas eu trabalhava na venda, sempre trabalhei, sempre fui lutando pela vida. Quando vim pra São Paulo, meu primeiro serviço foi vender carnê do Silvio Santos. E ganhei dinheiro. Eu falei: “É comigo mesmo!”. Agora eu saía de São Miguel até o Largo da Concórdia de ônibus porque ia na Rua Jaceguai que é o Silvio Santos lá. Eu ia do Largo da Concórdia pra Rua Jaceguai a pé, pra estar lá oito horas, pra sair numa perua com os vendedores. Os vendedores tudo chiques, as vendedoras tudo chiques, bonitas, arrumadas e eu, sabe Deus como. Mas ele é um homem que paga muito bem, então a gente tinha o dinheiro de comer só que eu não comia na rua, nos restaurantes que eles iam, eu ficava com meu dinheirinho pra comprar um pão, fazer um lanche e levar o dinheiro pra casa, pros filhos, o dinheiro do vale. Todo dia eles davam, que fosse cinco reais naquele tempo, eu nem me lembro. E era assim, você vendia o carnê, ainda hoje é assim, vende o carnê por aquele valor. A primeira prestação que aquela pessoa pagou, aí você ganha dobrado, você ganha uma comissão extraordinária, mas aquela primeira, foi confirmada a venda, confirmação da venda. Era uma beleza, eu só vendia confirmada. Porque eu contava a verdade, a mulher dizia: “Eu vou ganhar um carro?”, eu dizia: “Não sei, a senhora vai comprar o carnê e vai esperar a sua sorte”. Eu nunca disse: “Você vai ganhar um carro, você vai ganhar uma casa”, nunca disso. Elas iam na fé e pagavam. Quando eu ia receber eu sempre recebia quase o mesmo tanto do meu salário de comissão porque eu faço uma venda bem feita. Eu cheguei a ganhar dinheiro, nunca que esqueço, meu primeiro ordenado, quando eu cheguei em casa meu marido falou: “Poxa vida, tu ganhasse mais do que eu!” Eu trabalhei dois anos lá e, infelizmente, eu podia hoje ser uma pessoa muito bem aposentada. Puxa, fiz muita coisa na vida. Hoje, a felicidade da minha vida é meus filhos, é minha família. Eu acho muito importante a família. Eu dou muito valor à família. Você vê os dedos das mãos da gente, não são iguais. Cada filho é um diferente do outro.

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