Busca avançada



Criar

História

Macedo, viagens, calor e medicamentos

História de: José Joaquim de Macedo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/06/2021

Sinopse

José Joaquim conta sua trajetória na Aché desde sua contratação até suas viagens e como realiza seu trabalho na propaganda e venda de medicamentos. Conta também suas relações profissionais e relações pessoais que desenvolveu com seu trabalho.

Tags

História completa

P/1 – Macedo, para começar, eu gostaria que você dissesse seu nome completo, data e local de nascimento.
R- Meu nome completo é José Joaquim de Macedo. Sou mundialmente conhecido por Macedo e eu nasci no dia 21 de fevereiro de 1964. 
P/1 – Aonde?
R – Em Picos, Piauí.
P/1 – Como que é essa região de Picos, onde você nasceu?
R – É uma região que sobrevive, mas a cidade em si é do comércio e tem muita agropecuária também. Criação de gado, de ovelha e também foi considerada na minha época de criança, como a terra do alho, né? Produzia muito alho no rio Guaribas, um rio que corta a cidade. Pena que hoje isso aí praticamente não existe porque assassinaram o rio. Colocaram todos os esgotos dos hospitais dentro do rio e não há mais aquele plantio de hortaliças no caso.
P/1 – E a tua família toda, por parte de mãe e por parte de pai, é dessa região?
R – É dessa região, tanto o meu pai, quanto a minha mãe são da região de Picos. P/1 – Da cidade ou do campo? R – Do campo. Sou originário da roça mesmo.
P/1 – Plantava o que lá na propriedade dos teus pais?
R – Lá o meu pai era específico na época, plantador de algodão. Era um dos maiores produtores de algodão da região e criava também. Era especificamente só essas duas atividades, criar gado e plantio de algodão.
P/1 – E você trabalhava com ele?
R – Não, porque quando eu fui crescendo, ele me tirou disso. “Não quero que você siga a minha profissão, que você tenha a profissão melhor do que a minha.” Ele me tirou para cidade novinho, aos 10 anos. Eu fui chorando aos prantos, achando que era ruim. Todo final de semana eu ia. Fiquei pertinho.
P/1 – Você foi para aonde?
R – Fui para Picos.
P/1 – Para Picos. Ah, para a cidade.
R – Para cidade. Depois vim para Fortaleza, estudei aqui também e fiz aeronáutica. Não aguentei, só aguentei seis meses. Foi a época que eu namorava aqui a mulher que hoje é a minha esposa, né? Ela estudava em Recife, ela é de Picos, natural de Picos, sei que a gente resolveu casar, casamos bem novinhos. Eu com 17 anos e ela com 16. Voltamos para Picos, coloquei um comércio que eu achava na época muito interessante de discos. Naquele tempo não existia cd. Era só discos e fitas. Trabalhei de 1983 a 1988 quando eu entrei no Aché. Ganhei muito dinheiro com discos. Consegui comprar carro novo, comprar tudo para casa, comprar moto. Naquela época era mais jovem, precisava da moto grande.
P/1 – Que tipo de disco que fazia mais sucesso lá, que você vendia?
R – Lá era mais era brega mesmo [risos]. Brega, forró, está entendendo? Ai quando foi em 1987, tinha um propagandista do Aché que ele todas as vezes que ia lá, em Picos, ele namorava uma menina que era em frente à loja. Ele gravava duas, três fitas comigo. E a gente conversava: “O que é que tu trabalha?” Ele chegava com aquela “malazona”, cheia de remédios. Aí ele explicava para mim como é que ele trabalha. Eu disse: “Rapaz, é fácil entrar nisso aí?” Ele disse: “É.” “Rapaz, quando tiver uma vaga, tu me avisa?” Ele disse: “Olha, vai surgir uma vaga daqui para o próximo ano, porque o Aché comprou a Merck Sharp & Dohme do Brasil” - e eu não sabia nem o que era Merck Sharp & Dohme- “para a Merck Sharp & Dohme do Brasil e vai entrar uma grande equipe. Inclusive, eu já fui solicitado pelo meu gerente, que eu preciso indicar uma pessoa aqui de Picos. Se você quiser, eu lhe indico. Você tem toda a possibilidade de vim a trabalhar.” “Opa.” Pegou todos os meus dados, o grau de escolaridade e me indicou. Realmente quando surgiu a vaga no começo de 1988 eu fui chamado.
P/1 – Por que que você queria ser propagandista? O que te atraía?
R – Primeiro porque o comércio de discos bagunçou muito porque entrou um pessoal que não queria ganhar dinheiro. Então eles não viviam especificamente do lucro dos discos. Eles tinham outras atividades que rendiam dinheiro. Então, o preço ficou lá embaixo. A minha renda não estava mais dando, queria partir para outro negócio. Como não tinha outro negócio em vista, eu tinha que aprender algo novo. Como eu via ele todo arrumado e tal, calça social pensava: “Rapaz, esse cara deve ganhar bem, né?” Então, o que me atraiu, assim, a princípio foi conhecer um ramo de atividade novo e também pelo próprio salário que eu achava que era bom.
P/1 – Você sabia o que que era ser propagandista?
R – Não, eu vim a saber, ter uma ideia quando fui fazer a entrevista em Teresina. Foi que o Santos foi me explicar; o Santos e o Calixto na época eram os gerentes, supervisores naquela época. Eles foram me explicar o que era realmente propagandista, entendeu? Era realmente empregado. Eu nunca tinha sido empregado tanto que eu não confiei muito. Eu passei ainda seis meses com a loja enquanto trabalhava no Aché.Com seis meses decidi desfazer da loja para investir no Aché porque durante esses seis meses, meu carro era Fusca,na época. Eu fazia uma área geográfica muito grande, fazia de Petrolina a Chapadinha do Maranhão, e de Picos a Corrente. A última cidade do Piauí, extremando com a Bahia. Então o motor do Fusca não aguenta, além de ser frágil tem a quentura. De dois em dois meses tinha que refazer o motor. Eu disse: “Preciso comprar um carro novo.” Mas naquela época era muito difícil. Você tinha que pagar um ágio certo. Depois de pagar o carro esperar dois ou três meses. Eu disse: “Eu só tenho condição de comprar um carro se eu desfazer a loja.” Como eu já estava seguro no emprego vendi a loja. Comprei um Gol novo, zero. Cheguei no meu gerente e disse: “Você diz que o Aché está investindo muito em mim, né? Mas o Aché só está investindo eu acho que 0,5%, mas eu estou investindo 100% no Aché.” Estou vendendo o meu ganha pão, que era a loja para comprar um carro para rodar para o Aché.” Que o pessoalzinho dizia: “Pai, tu é doido, comprar um carro novo para rodar oito mil quilômetros por mês. Cabra não te dá manutenção, não dá nada.” E todo ano tinha que trocar. Eu tinha que fazer uma economia. Quando era mais ou menos em outubro, eu já comprava o carro novo lá na Pivel, que era revendedor da Volkswagen. Dizia: “Quanto é um carro novo?” “Tantos.” “Quanto que é o meu carro?” “Tanto.” Eu batia um tipo... uma declaração para, quando recebesse, entregasse o meu naquele valor.
P/1 – E por que que você achava que valia a pena investir?
R – Eu acreditava que valia a pena investir porque eu sempre vi o crescimento do Aché. Hoje o Aché não tem nada do que era quando eu entrei. Mudou tudo, sabe o que é tudo? Uma coisa que eu sempre observei no Aché é que ninguém passou dois anos no mesmo setor, na mesma função do mesmo gerente, com o mesmo supervisor, com os mesmos produtos. Praticamente já trabalhei em todos os setores, quase todos. Acho que 100% dos produtos do Aché eu já trabalhei. Então hoje eu acho que sou um cara preparado. O Aché me preparou exatamente por esses motivos. Há cada ano é uma nova história, é um novo setor, um novo gerente, uma nova propaganda e assim, muda. Eu gosto muito disso porque quando você fica muito na mesmice você tende a acomodar e o Aché não deixa você se acomodar. E outra coisa também que me chamou muita atenção com relação ao Aché é porque ele se preocupa com a gente. Ele se preocupa com a sua saúde, se preocupa com a data de vacinação dos seus filhos. Eles se preocupam, por exemplo, se você está bem, se você não está bem, se você está motivado, se não está motivado. Ele se preocupa em termos de investir em você. Você não tem que ir dormir pensando : “O que é que eu tenho que investir?" Ele faz tudo isso para gente. E de certa forma, passa uma certa segurança para a gente.
P/1 – Você estreou na região Sul do Piauí, é isso?
R – Estreei em Picos, região Sul do Piauí.
P/1 – Eu queria que você contasse um pouquinho. Como é que era a tua rotina de viagem? Você saía que dia? Percorria aí quais cidades?
R – Eu saía na segunda-feira, por volta de 6:00 porque eu ia na próxima cidade, os médicos chegavam exatamente 7:00, que é a cidade de Oeiras, que fica há 86 quilômetros de Picos. Então tem que sair um pouco mais cedo para pegar os médicos na entrada do hospital, que depois que eles entravam, eles não atendiam mais. Ia para centro cirúrgico medicar os pacientes internados. Então sempre ele pedia para gente, que a gente chegasse exatamente 7:00, a gente pegava ele no café da manhã, eles tomam café no hospital. Então obrigava a gente a sair um pouco mais cedo. Eu saía na segunda-feira, por volta de 6:00, 6:50 estava estacionando meu carro lá no hospital. Enchia a minha pasta e ia para o refeitório. Ia chegando um, ia chegando outro, eu fazia a minha propaganda. Depois eu ia para próxima cidade que é Simplício Mendes, depois para Floriano e só regressava na sexta-feira. Na sexta-feira, por volta de 16:00 eu estava... 16:00, 16:30 eu tinha que estar em Picos para botar o malote no correio antes do correio fechar.
P/1 – Nessa época era só propagar ou ainda vendia?
R – Não, naquela época a gente vendia, propagava, visitava farmácia, cobrava, cobrança era em carteira.
P/1 – Como é que era?
R – Você levava duplicata e a pessoa dava um cheque nominal ao Aché. Aquele tempo eu não tenho ideia porque era Cruzeiro, mas toda semana eu vinha com a pasta cheia de cheque, né? Todos nominais ao Aché. Fazia um malote e mandava via correio.
P/1 – E você distribuía também remédio?
R – Como assim? Amostra grátis?
P/1 – Não, remédio em si. Tinha uma distribuidora que fazia isso?
R – Não, não. A distribuidora era diretamente daqui de Fortaleza.
P/1 – Nesse dia a dia, qual que você acha que era o maior desafio, assim, para você?
R - O maior desafio sempre foi as viagens, porque não é fácil você todo dia ter que dormir num local diferente. Você nunca se adapta. Quando você vai se adaptando vai para outro hotel. E naquela região especificamente, região muito pobre, né? E os hotéis são muito ruins. Não tem. Na realidade não existe hotel. Aqueles lá eles chamam de pensão. É uma casa velha bem antiga, esta entendendo ? Onde você fica num quarto, toma banho e come uma comida típica lá mesmo da cidade. Então isso para mim foi sempre um desafio.
P/1 – E as estradas como é que era?
R – As estradas são as piores possíveis. Se no Brasil as estradas são ruins, imagina no Piauí? Sempre foi desafio as viagens, exatamente por esse motivo e também pelos motivos do desgaste do carro. Trabalhei com ele de 1988 até 1993, com carro meu. Tinha preocupação de todo ano ter a reserva de trocar o carro. Dia 19 de março de 1993 eu recebi o primeiro carro do Aché. Me elegeram para receber pelo setor que eu fazia, pelo tempo de casa e também pela área geográfica que eu era que fazia o setor , digamos assim, maior, né?
P/1 – O primeiro a receber o carro do Aché ali no Piauí?
R – Fui eu.
P/1 – Que carro que era?
R - Era um Fiat Eletronic, aqueles ruins que só. Mas só em ser do Aché já era bom porque o meu já ficou guardado.
P/1 – Está certo? Tem alguma viagem, alguma cidade que você visitou, que te marcou mais assim? R – Olha, eu acho que quase todas me marcaram. Eu fiz muitas amizades com donos de farmácia, com os próprios médicos, médicos lá tem o maior carinho pela gente. Acho que se tiver algum, algum tipo de problema, não deve ser nem contado 1%. Foi só amizade que eu fiz.
P/1 – Eram cidades que você já conhecia?
R – Não, nunca tinha dado?
P/1 – Como é que era isso, de chegar pela primeira vez numa cidade?
R – Era meio estranho. Aquela época a gente tinha, assim, um pouco de... Não sei se era pela idade, que eu era novo, não tinha experiência... a gente tinha, assim, um pouco de receio de chegar na clínica, abordar o diretor da clínica. Mesmo porque é médico, a gente não era, né? Me apoiava no supervisor, ele era treinador, está entendendo? Ele dizia: “Você tem que fazer assim e você só tem que ser doutor dos seus produtos. Se você for doutor dos seus produtos, outros assuntos ele pode conversar. Se você dominar o seu produto, você tem sucesso.” E foi uma coisa que eu sempre fiz. Foi dominar todos os meus produtos, desde da descrição, formulação, indicação, posologia, possíveis efeitos colaterais, mecanismos de ação e os concorrentes que por região que sai mais.
P/1 – Mas, por exemplo, você chagava numa cidade, você já sabia quem procurar ou você tinha que ir descobrindo onde é que ficavam os consultórios?
R – Não, a gente ia com as fichas. As fichas com os endereços dos médicos, dos hospitais, dos consultórios. Era só parar no Centro, no estacionamento, perguntar alguém de farmácia ou alguém de uma loja, onde é que ficava o consultório de doutor Fulano de tal. Geralmente o pessoal de interior são bem gentis. Diziam: “Dobra assim, faz isso.” Mas era muito fácil pegar. Na segunda vez, já sabia tudo. Muito fácil, não teve nenhuma dificuldade nesse sentido não.
P/1 – Está certo. E muitas vezes você era o único propagandista lá naquela cidade ou outros laboratórios também iam para essa cidade?
R – Não, geralmente essas cidades quando eu comecei a trabalhar era só o Aché que ia. Quando ia outro era Aché também. Não era de outro laboratório. Agora, depois que os outros laboratórios viram o sucesso do Aché, aí estão se infiltrando lá. Mas antes era nosso.
P/1 – E o que você achava que representava para o médico, para o dono da farmácia essa presença do Aché lá?
R – Representava muito porque eles diziam: “Vocês são os únicos que vem aqui, né?” Por exemplo, a gente trabalha na cidade na Bahia, chamado Remanso, Remanso da Bahia. Fica na divisa do Piauí, entre São Raimundo Nonato, em 50 quilômetros é a divisa, depois vem logo Remanso. Cidade de porte médio, tem em torno de 12 médicos. Então a gente ia até lá. Lá não ia ninguém da Bahia. A gente dizia: “Vocês estão sendo desprestigiados pela Bahia. Ninguém da Bahia vem lhe visitar. A gente sai lá de Teresina do Piauí, roda essas estradas todinhas para lhe visitar aqui. Por isso tudo, quero que o senhor me apoie aqui porque se não, não vai ter condição de eu vim aqui.” Os médicos lá apoiam a gente mesmo.
P/1 – Faz diferença na hora...
R – Faz diferença.
P/1 – E acaba levando algum tipo de informação para esse médico?
R – Com certeza, principalmente quando se trata dos lançamentos. Resultado muito interessante quando eu cheguei em São Raimundo Nonato tinha um médico novo lá, doutor Guilherme. Quando eu fui propagar para ele, ele foi, assim, um pouco diferente comigo. Naquele tempo eu era meio doido, eu perguntei mesmo: “Doutor, o senhor acha que a nossa presença não vale a pena, toma o seu tempo?” Ele foi também sincero: “Não, eu acho que toma tempo, é que eu já conheço tudo. Acabei de me formar.” Fez aquela toda conversa. “Tudo bem, doutor. Pois... Olha, eu não vou mais tomar o seu tempo, não vou mais lhe incomodar.” “Agora eu sou seu amigo. Sou do Aché, quando você precisar de qualquer medicação do Aché, sinta-se à vontade. Eu estou de 15 em 15 dias aqui. Quando você me ver passando aqui para visitar os outros médicos daqui da clínica, o senhor pode me procurar, quando você precisar de qualquer medicação.” Ele disse: “Tudo bem.” Saí, visitei os outros médicos. O tempo passou. Naquele tempo, eu lancei Respexcil, lancei Proipa e lancei Primivil para os outros. Para ele não. Aí passou, passou o tempo, lancei, relancei, vendi bem lá. Quando foi um certo dia, cheguei lá, um dos médicos que era mais amigo meu porque ele gostava de sair a noite, eu sempre ia com ele na praça jantar junto. Quando eu cheguei, eu perguntei: “Doutor Camargo está aí?” “Está de reunião lá na diretoria. E olha querido, depois você vai lá e fala no ouvido dele, que o Macedo do Aché está aqui querendo falar com ele. Precisa falar isso” A menina foi lá, falou no ouvido dele. Quando ela voltou, eu esperei ele dizer assim: “Bom, manda ele esperar lá dentro do consultório.” “O médico disse que é para tu entrar”, para a reunião com o médico. “para mim entrar?” “É, a reunião está acontecendo, mas ele mandou entrar.” Fui e entrei. Quando entrei, tinha exatamente os 12 médicos da cidade e o médico lá que era o diretor, casado com a filha do dono da clínica. “Bom dia, bom dia.” Ele sentou. O doutor (Camargo?) que era mais chegado a mim disse logo: : “Não, faça logo a propaganda aqui, aproveita logo todo mundo, faz logo a propaganda, que você fica logo despachado.” E falei “tudo bem. Posso fazer?” Aí todo mundo: “Pode.” Comecei a falar Rexpecil, de Primivil e de Proipa. E dando as amostras e os materiais para todos os médicos, menos o que disse que não queria propaganda, que era o diretor da clínica e casado com a filha do dono da clínica, doutor Valdir. Quando terminei, ele disse “você não vai me dar não, as amostras?” “Doutor, eu sempre deixei claro, desde o meu primeiro contato com doutor, que o senhor poderia solicitar qualquer produto. Mas em respeito a vossa pessoa, você pediu que... Disse que já sabia de tudo. Ele disse “Rexpecil, Primivil, o que é isso?” Digo: “Doutor, Rexpecil é a última palavra para tratar infecções urinárias. O senhor não está sabendo porque o senhor não recebe a minha visita, mas os outros aqui todos sabem. Propa, doutor, é o ácido icosapetanóico. Os mais modernos anti-agregante plaquetário natural. O senhor não sabe porque o senhor não me recebe, mas os outros aqui sabem. E Primivil, doutor”, é a primeira droga que não precisa ser metabolizada para exercer os seus efeitos terapêuticos. Essa é a grande vantagem para o seu paciente, doutor. Porque não vai forçar o fígado a metabolizar a droga diariamente e para o resto da vida, que é o caso da hipertensão arterial. O senhor não sabe porque o senhor não me recebe, mas os outros aqui sabem.” Ele disse: “´Pois agora, toda vez que você vim aqui, pode vir falar comigo.” E se tornou meu amigo. Ultimamente, que eu não trabalho mais lá, todas as vezes que ia lá, ele fazia questão de chamar para sair a noite para comer bode assado, para comer galinha, aquelas comida da região lá, né? Então, fiz muitas amizades boas.
P/1 – Você falou de sair para jantar com o médico, como que é essa convivência com o médico?
R – No caso específico lá, quando a gente sai na noite, aí é amigo. Ele não quer nem que chame de doutor. É Guilherme, é Valdir.
P/1 – Vira amigo.
R – Vira amigo. Aí a gente esquece até que ele é médico, intimidade mesmo.
P/1 – E qual que é a especialidade que vocês comem lá?
R – A comida típica?
P/1 – É. R – Mais é galinha caipira, que é a galinha que eles chamam galinha capoeira e o bode assado, o bode na brasa.
P/1 – E é gostoso esse bode?
R – É muito bom.
P/1 – Como que é o bode assado? Acompanha o que?
R – Lá acompanha a tapioca, o arroz branco ou então o famoso feijão tropeiro, você escolhe. Aí tem gente que prefere arroz branco, que não é o meu forte, outros preferem feijão tropeiro, outros preferem a tapioca. É servido junto com o bode e tem outros locais que é servido com macaxeira cozida ou assada.
P/1 – Nessas tuas andanças aí, pelo interior do Piauí, tem algum lugar que você gosta de voltar, assim, tem essa coisa do restaurante na estrada, tem alguma paisagem que tenha te marcado?
R - Ah, com certeza, tem. Por exemplo, lá em (Cristinecas?) tem os poços muito bonito. Lá é o maior lençol d'água subterrâneo do Brasil. Então, os poços lá são perfurados e jorram água. Tem um lá que é 35 metros de altura, que ele jorra. Então, é muito bonito. Tem uns hotéis muito bonitos. A vegetação até muda. A gente pensa até que não está no Piauí. E tem outra cidade também que é muito bonita, é a cidade de Remanso, porque ela fica colada na represa na barragem de Sobradinho. Então, são quase 300 quilômetros de represa. Então, é praticamente um mar. Aí tem vários restaurantes aqui na beira da represa. É muito bom, é muito peixe, entendeu? Então, tem um restaurante lá chamado Chiquinho da Piranha, que a especialidade dele é pirão de piranha, que a gente se esbaldava quando a gente chegava lá.
P/1 – E encontra outros propagandistas do Aché nessas viagens?
R – Encontra sim. Do Aché, né? De outros laboratórios não porque realmente lá só vai quem tem negócio. No final, você vai lá, até lá, aí tem que voltar. Não tem _____ de sair lá não.
P/1 – Fim da linha mesmo.
R – Fim de linha. Aí os outros faz, assim, tipo balão. Faz por conveniência, mas o Aché não. Ele vai lá especificamente e volta.
P/1 – Lá em Remanso?
R – Lá em Remanso.
P/1 – Depois você passou a trabalhar na capital, em Teresina?
R – É, em 1996, foi em 1996, eu comecei a trabalhar na capital.
P/1 – E essa realidade dos consultórios, dos hospitais da capital é diferente?
R – Que quando eu comecei na capital é o seguinte, que a gente cancelou algumas cidades do Piauí por causa das estrada e por causa também da distância. Por exemplo, de Picos, para você ter idéia, de Picos à Correntes são 980 quilômetros. Então, para você ir lá numa semana e voltar, são mais de dois mil quilômetros que você tem que rodar numa semana. Então, é muito chão. Você roda mais do que trabalha. Então, a supervisão em comum acordo com a gerência, achou melhor tirar essas cidades mais longe e fazer um complemento em Teresina, na periferia, os hospitais de periferia. Então, comecei em 1996 nos hospitais da periferia de Teresina. Aí praticamente não existe diferença não.
P/1 – É um desafio novo, a capital?
R - Agora, quando foi em 1997, aí comecei a trabalhar no Centro de Teresina, nos hospitais-escola, Infantil, São Marcos, Santa Maria. Aí já começou um negócio diferente. Uma realidade diferente que a concorrência é acirrada. Tem médico lá que só recebe determinado dia, na sexta-feira aí. A gente chega lá na sexta-feira tem 30 propagandistas para falar com o médico. Aí você chega no médico, o médico... A gente vê que o médico só olhando para o relógio e o birô dele não tem mais aonde você coloca o seu material, está entendendo? Aí você vê que a amostra grátis já não é um ponto forte porque a mesa dele já está superlotado de amostra. É diferente dos outros, que o médico está querendo remédio para os pacientes, para alguém da família dele. Então, é outra realidade.
P/1 – Porque na periferia também a concorrência é menor?
R - É menor. Não são todos laboratórios que faz periferia; não porque laboratório é assim; ele tem um, no máximo dois propagandistas em Teresina. O Aché tem 12. Então, esse um, dois não dá para fazer o Centro de Teresina e a periferia. Então, nós abrangemos uma área maior. Ou seja, 100%. Esse ano mesmo, devido a necessidade de cadastro mesmo fiz um arrastão. Chegava no hospital, “quem é o diretor aqui?” O cara “doutora Fulano de tal, doutor Fulano de tal.” A gente não conhecia porque o pessoal lá chama doutora, mas às vezes não é nem de medicina. É a fisioterapeuta, outras especialidade que não são clínica médica. Chegava lá, conversava com ela, me identificava, dava uma amostrazinha naturalmente, um Cefaliun, Cefalivo, um Constan, que toda mulher gosta. Aí eu disse “Olha, em contrapartida, queria que você fizesse favor porque nós estamos querendo dar assistência aos médicos aqui dos hospitais. Nós não sabemos os nomes desses médicos, nem os horários que eles trabalham. Eu queria que você pedisse para a sua secretária fazer uma relação dos nomes dos médicos com CRM e horário, que é para a gente ficar visitando aqui.” Na hora, chamava a secretária. 100% daqueles hospital eram cadastrados. Ia para o outro e assim sucessivamente. Consegui cadastrar 100%.
P/1 – Quantos médicos lá em Teresina mais ou menos?
R – No meu cadastro? Em torno de 320, 320 médicos.
P/1 – E o Aché visita todos?
R – Visita todos.
P/1 – Como que é esse trabalho nesse sol de Teresina? Você estava contando que tem que brigar ali contra a temperatura, né?
R - É, a gente se protege como pode. Óculos escuros, chapéu, boina, protetor solar, película fumê no vidro do carro.
P/1 – A temperatura é alta?
R – É altíssima.
P/1 – Qual é mais ou menos?
R – Entre 38 a 42 graus, principalmente no horário da tarde, no começo da tarde. Você sai de 13:30, 13:15. O sol chega treme. Você para em frente ao consultório, tem setor, por exemplo, no setor do Centro você para o carro, fica visitando vários consultórios e volta no carro só para abastecer a pasta e voltar para lá . Já no setor de viagem, você não pega tanto. Agora nós temos carro com ar, antes não, pegava muito sol. Mas o setor de viagem não pega tanto porque você sai de uma cidade para outra, fecha os vidros, liga o ar condicionado. Tranquilo. Mas antes a gente pegava muito sol também no setor de viagem porque não tinha ar no carro. Tinha que ter os dois vidros abertos... até o vento era quente. Também a gente não achava se era mais quente com vidro aberto ou fechado, não tinha quase diferença. Era quente mesmo.
P/1 – Tinha umas paradinhas para beber alguma coisa?
R – Tinha. Geralmente, a gente tem os locais que servem para parar para lanchar, para tomar água, para dormir. A gente faz esforço para ficar numa cidade melhor, que tem um hotel melhor. Quem trabalha viajando já tem os pontos certos. A gente tem amizade mesmo com esse povo. Dono de restaurante, chego lá é o mesmo que chegar um filho dele.
P/1 – Tem algum em especial que você gostaria de contar?
R - Nós temos vários [risos]. A gente tem uma cidade chamada Simplício Mendes, Piauí, tem um senhor chamado lá Narciso, seu Narciso. É um velho de interior muito farto, chega lá, aí: “Seu Narciso, quero almoçar.” Ele bota uma mesa para ti, como se botasse para 10 homens comer. Ele bota arroz, feijão, macarrão, carne de porco, carne de ovelha, frango assado, carne de carneiro... Rapaz, e é muito, negócio só por esse canal. Bota três, quatro tipos de banana, depois bota três, quatro tipos de doce, três, quatro tipos de queijo. É coisa que você só fica olhando assim. Você quer parar de comer... Ele tem a mania de ficar perto de você. Você comendo, ele diz “Bota um pouquinho mais disso daqui, você já experimentou isso”. Depois ele diz: “Não, você não vai viajar agora. Você vai deitar um pouquinho, já tem uma rede lá armada para você, num local com o vento. Vocês não podem ir agora não. Tem que descansar um pouquinho. Deita um pouquinho na rede.” Depois é só lavar o rosto, escovar o dente e vai embora.
P/1 – É uma profissão de muitos amigos então, né?
R – Muito amigo. A gente fez muita amizade.
P/1 – A gente já está finalizando, eu queria perguntar sobre essa tua trajetória no Aché. Olhando para trás agora, o que é que você vê?
R – Eu tenho muita saudade porque quando eu entrei no Aché, uma coisa muito interessante. Quando eu vim aqui fazer a entrevista, fiz primeiro em Teresina e vim para cá, para Fortaleza. Quando eu cheguei aqui, o regional na época era seu Ricardo. Seu Ricardo olhou para o gerente, que era o Santos. Perguntou: “Santos, onde é que você arrumou esse menino?” Me chamou de menino. Eu com 30 quilos a menos do que eu tenho hoje. Ele me chamou de menino. Por dentro assim, eu digo: “Ah rapaz, eu já sou pai de dois filhos, o cara me chamando de menino.” Porque a gente é assim; quando a gente é novo, o elogio é assim; o Fulano já é rapaz, o Fulano já é moço, está moço, né? Mexe no ego, né? Quando a gente passa depois dos 30, aí o elogio é assim; “rapaz, tu está novo, né?” Aí sentia uma diferença assim. Quando eu chegava nos consultórios, “bom dia, bom dia”, me identificava para atendente, aí a atendente falava para as pacientes: “Olha, quando esse paciente que está dentro sair, esse rapaz vai entrar.” Eu olhava, “rapaz?” Que eu já queria ser senhor.Hoje que eu quero ser chamado de “rapaz”, aí ela diz assim, hoje: “Olha, quando a paciente sair esse senhor vai entrar [risos],” Então você vê como as coisas mudam, né? Eu chegava, por exemplo, eu chegava em cidades mais movimentadas, como Floriano, como São Raimundo Nonato, como Correntes no Piauí. Você sabe que quando a gente chega na cidade pequena... De capital, ninguém nota isso, mas cidade do interior tem esse detalhe; quando você chega é sangue novo. Todo mundo olha para você. Então, chegava um carro novo naquele tempo... O Gol era um carrão e novo, ninguém dizia que eu era casado. Então era muita atenção para mim, como rapaz. Hoje já é como senhor. Então, as coisas mudam. A gente sente saudade das brincadeira, das amizades, das viagens. Muito bom, sinto muita saudade.
P/1 – E o que você achou de ter contado... (pequena interrupção) Retomando a entrevista Fortaleza 010, você estava lembrando dos 10 anos de Aché, foi especial esse momento?
R – É, foi muito especial porque quando a gente tinha cinco anos, seis anos de Aché, disse: “Rapaz, o dia que eu completar 10 anos, eu faço uma festa.” E foi muito bom porque o meu gerente na época fez um baita de um churrasco e muita cerveja. E eu para dar, uma maneira, assim, de mostrar minha gratidão pelo Aché, de uma forma geral, eu homenageei com uma pequena poesia, que na época saiu até na Integração, certo? E o nome da poesia chamasse “Orgulho Acheano”, certo, que diz mais ou menos assim: “Aché, sinônimo de realeza, porque não de Fortaleza, exalta a tua presteza como também tuas riquezas, riquezas incomparáveis, porque Aché tu és hoje orgulho nacional. O Aché há três décadas era chamado de Achezinho por ser tão pequenininho, mas com trabalho, garra e afinco, demos a volta por cima, deixando a concorrência pasmada porque nos últimos cinco anos, somos líderes de mercado. As estratégias do Aché são claras e inteligíveis, isso eu pude constatar, que é prova indiscutível de um marketing afiado e porque não dizer de um treinamento adequado.” As propagandas do Aché, elas são claras e inteligíveis, isso é uma realidade. Para finalizar, diz assim: “Aqui assim eu termino, não por falta de inspiração, com coração palpitando porque sou um varonil acreditando no Aché 2000, que hoje já é realidade. Eu só sei que me orgulho de ser um acheano nato.” Eu estou falando de 2000 porque nas entrevistas que o seu Adalmiro dava na época, através de TV SAT, na época de 1997, 1996, ele dizia: “No ano 2000... “ Ele sempre criava essa expectativa: “No ano 2000, os propagandistas mais bem pagos dentro dos farmacêuticos vai ser do Aché. Os propagandistas mais bem preparados do mercado brasileiro vai ser do Aché.” Tudo ele dizia do Aché. Então, criou uma expectativa; é por isso que na finalização aí, eu falei que disse de se orgulhar por ser acheano.
P/1 – Está certo.
R – Está bom?
P/1 – E hoje? O que você achou de ter contado um pouquinho da tua história?
R - Ah, foi muito bom porque agradecer você em especial, Imaculada, por me ter deixado totalmente à vontade. Eu achei que você ia ser mais rígida nas perguntas. Você me deixou, assim, totalmente à vontade, onde realmente abri o meu coração. E hoje sou uma pessoa feliz de trabalhar no Aché, Imaculada, porque geralmente em todos os lados, tem uns pró e uns contra, né? Uns dizem assim: “Pô, parabéns, você tem 14 anos de Aché, vai fazer 15 anos.” Outros chegam, dizem: “Pô, tu ainda está no Aché? Pô, tu não muda não?” Mas de uma forma geral, o que me elogiam, eu agradeço e o outro me incentiva. Ele me dá uma espetada e eu... Faz é me incentivar. Por que? Porque eu é que sei da minha realidade. Hoje, o que eu sei, que o salário do Aché para mim representa, para mim e para a minha família. Eu sou feliz porque eu tenho um trabalho no Aché, porque eu tenho uma esposa que eu gosto muito dela, gosto muito dos meus filhos. São três filhos, são a minha vida. E aquilo que eu ganho no Aché, eu retribuo para ele, dando uma melhor condição de vida para ele, um estudo melhor, uma roupa melhor, um perfume melhor, um tênis melhor e assim faz com que eu crie essa coragem de viajar por todos os lugares que acabei de citar para você, rodando até oito mil quilômetros por mês, pegando sol de 42 graus. Você vê a marca do meu rosto. Isso aqui não foi nada não. Foi sol. Hoje, eu tenho hiper sensibilidade aos raios solares. Ou seja, a qualquer luz, até essa aqui, ela está me queimando. Por isso que eu perguntei se o ar estava ligado porque essa aqui me queima também. Faz com que eu fique vermelho, dando sinal que para mim ir na sombra. Mas de uma forma geral, no contexto geral, é claro que tudo não é perfeito, nem tudo é rosas. Existem espinhos em tudo isso, mas se você for ver no contexto geral é muito bom.
P/1 – É uma história boa?
R – Muito boa.
P/1 – Muito obrigada pela participação, muito contente.
R – Eu só agradeço a você, Imaculada. Desejo sucesso, tá, para você e para a sua equipe.
P/1 – Está certo.
R – E que a gente possa se reencontrar outras vezes, está bom?
P/1 – Espero que você acompanhe.
------ Fim da entrevista ------

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+