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Luzimar Brandão

História de: Luzimar Brandão
Autor: Formação Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Luzimar Brandão, mais conhecida como Lusa, compartilha da cultura de suas origens africanas, principalmente no âmbito religioso. Em seu relato, nos conta causos e detalhes de como é a relação da sua família e antepassados com a religão do candomblé e umbanda.  Após estudar no Rio de Janeiro, foi contratada pela Vale na área de processamento de dados, ajudando a fundar o núcleo de seu setor. Além deste mérito, Lusa fundou o Coral Doce Voz, da Vale, e é gerente sindical e militante.  

Mulher, Negra e Gerente Sindical

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História completa

P/1 – Luzimar, vou pedir para você falar o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Luzimar Brandão, nascida em São Luís do Maranhão, dia 14/12/1951.

 

P/1 – Seus pais são de São Luís?

 

R – São. Minha mãe é de São Luís e o meu pai é de Rosário, município pertinho aqui de São Luís.

 

P/1 – Só perguntar uma coisa, como que é o seu nome?

 

R – (inaudível).

 

P/1 – Como é que você vai mudar o seu nome, quando você tiver dinheiro? Fala Lusimar...

 

R – Luzimar Lusa Brandão (risos).

 

P/1 – E os seus pais são da onde?

 

R – Daqui de São Luís. Meu pai é de Rosário, é um município pertinho daqui. Mais ou menos uma hora de viagem.

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – Minha mãe é daqui mesmo, de São Luís.

 

P/1 – E você sabe um pouco a origem familiar sua?

 

R – Não, claro. A gente é... eu tenho uma descendência, como a maioria dos brasileiros, a gente é descendente de índio, minha avó, a mãe do meu pai era índia, aquelas índia braba. E quer dizer, o meu avô, o meu avô, parte de mãe, é português. Quer dizer, a maioria dos brasileiros tem essa característica, né. A gente tem um pouco de negro, nós somos negros, os africanos, nossos descendentes, nossos antepassados e dessa mistura de branco, que são os portugueses, franceses que chegaram aqui. Tem todo esse contexto.

 

P/1 – Da África, qual tribo?

 

R – Não, eu tenho a impressão que a minha tribo, ela é daquela região da Nigéria. Eu sou Nagô. Inclusive, tenho toda uma história, por sinal, centenária, dentro da festa da (inaudível) Afro. Eu já tive várias tias, que são adepto do culto das Caldas Minas, que é a nossa casa matriz, Casa Jeje.

 

P/1 – O que é Casa Jeje?

 

R – É a casa das minas aqui do Maranhão.

 

P/1 – E como que é quando você era pequena, as suas tias passavam essa tradição, como é que você fazia com isso?

 

R – Não, na verdade, a gente aqui no Maranhão, nós que somos adeptos do culto afro maranhense brasileiro. A gente tem, assim, uma certa rejeição, entre aspas, de não comentar muito do que acontece nos terreiros, de não permitir que os filhos vão para os terreiros, porque aqui foi muita repressão. A repressão foi muito grande em relação a esses nossos ancestrais, né, e até relacionado mesmo com os nossos parentes mais próximo. A polícia invadiu os terreiros montados a cavalo, furavam os tambores e era aquela coisa de sofrimento... Se passou a idéia de sofrimento, tinha que cumprir isto porque para a gente não ter que sofrer. Hoje, isso aí já está mais ou menos trabalhado, né?

 

P/1 – Mas você lembra, assim, você estava em algum terreiro, você viu alguma invasão?

 

R – Não, isso a gente não sabe. O que... Eu nunca vi, né? Tenho só 50 anos, sou bem jovem, né? (risos) Mas a minha avó contava isso, presenciou em alguns terreiros.

 

P/1 – O que é que ela contava?

 

R – Essa coisa da polícia chegar e invadir. E uma coisa interessante, por exemplo; ela conta que eu tinha uma... Vinha a ser mais ou menos a minha trisavó e era curandeira de Maracás, pajelança, e aí ela curava e antigamente como era proibido. Então tinha as pessoas que eram os pajés, os curadores que a gente chama, eles curavam em determinados lugares meio escondido. Mas um dia a polícia descobriu. Agora, não me lembro o nome do... Na época, do cara, do responsável, do policial... Tipo assim, o major que era responsável por essas empreitadas. E aí ela estava com a cabocla Mariana e ela, a cabocla falou para ela o seguinte, para o pessoal, né: “Olha, ninguém vai sair daqui porque está chegando aí os homens montado a cavalo.” A entidade falou isso e que não precisava ninguém sair.

 

P/1 – A entidade.

 

R – A entidade falou, que tinha o nome de cabocla Mariana. E aí não demorou, assim, tipo de coisa meia hora, eles chegaram, né? Eles chegaram e estavam lá, cura rolando sem problema, né, e levaram ela, inclusive, presa.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – Deixaram o pessoal lá e levaram ela presa. E o que a minha avó conta, que quando ela chegou no quartel, que é aqui no Centro, na Rua 28 e chegando lá, ela pediu para os soldados da área um pouco de cachaça, pediu para fazer de uma lata de leite Ninho, um defumador que você fura embaixo e bota uma alça, mandou comprar o defumador, pediu para comprar cachaça e charuto. E eles foram fazer isso. Aí o comandante disse para a minha... e ela com a entidade, dona Amarantus, que só acreditava que ela tinha realmente uma entidade se ela dissesse o que tinha acontecido na casa com a esposa dele. E aí ela disse: “Vai mandar comprar minha cachaça e meu charuto”. Ele mandou comprar. Aí diz que ela pegou o charuto, deu umas três baforadas, mandou incensar, colocar o incenso lá e aí ela disse que o que ele estava procurando era um cordão de ouro, tipo assim, era um relógio, cordão não. Era um relógio de ouro, que o pessoal, tipo, chamava de algibeira, assim, redondo, que pendurava aqui. E foi um presente da esposa para ele. E ele ganhou da esposa, do aniversário de casamento, ganhou da esposa e a esposa deixou no quarto guardado numa gaveta lá, da cômoda deles e no jantar isso aí desapareceu. Deram falta e desapareceu. E aí essa minha ancestral, dona cabocla Mariana, em cima dessa minha ancestral, colocou que tinha sido um irmão da esposa que tinha levado. Lógico que ele não ia acreditar: “porque irmão da minha mulher como é que ia roubar um relógio?”. Não acreditou. E aí ela disse: “Não precisa você acreditar. Daqui a três dias, o relógio vai aparecer e vocês vão estar, tipo assim, numa recepção, assim, tipo como se tivesse num almoço, num ambiente mais ou menos desse gênero.” Mas ele não acreditou nisso. Três dias depois realmente houve alguma festividade lá na casa, alguma comemoração e aí o relógio foi encontrado em cima de um buffet. Não é buffet que chama, né? Tipo assim, uns armários com cômoda, gaveta, foi encontrado lá. E depois dessa história toda, ele disse que se conseguisse devolver o relógio, ele ia dar uma carta de alforria, que eles chamavam na época, para ela curar onde ela quisesse. Então, para gente, quer dizer, para ela e para o povo que acompanhava naquele momento, foi muito importante porque ela podia trabalhar, diz que podia trabalhar, fazer as cura em qualquer canto, que ela não ia ser incomodada, como a maioria das pessoas que curavam...

 

P/1 – E ele deu essa carta?

 

R – Deu a carta.

 

P/1 – E vocês têm guardado essa carta?

 

R – Não, sabe por... não, porque é uma coisa, assim, que tem o que? A minha avó vai fazer 90 anos agora em agosto, era avó dela. Quer dizer, ela tem uns 200 anos, isso daí, né? A gente não tem, assim, registro. A gente tem registro, mas contado, registro contado, né? E a minha família toda envolvida nessa...

 

P/1 – Você lembra de músicas, cantos, que vocês escutavam, cresceu com ele?

 

R – Olha, a gente lembra. Não só músicas, mas assim...

 

P/1 – Cantigas, danças.

 

R – Algumas cantigas de roda e também história. A minha bisavó, ela contava muita história para gente e ela ficou muitos anos paralítica, no fundo da rede, né? E ela, assim, às vezes a gente, nós os bisnetos, a gente deitava junto com ela na rede e ela contava algumas histórias, cantava algumas músicas. Mas já tem muitos anos também.

 

P/1 – Canta uma para gente? Você não lembra?

 

R – Assim, de imediato, não me lembro. Não me lembro, mesmo, mesmo... Mas tem algumas coisas interessantes e eu era vendideira de doce na Praia Grande, aquela negra cafusa, bonita, que vendia doces, aqueles buffet, muitos doces antigo lá na Praia Grande. Quando nem se pensava em projeto Reviver. Era uma outra era, uma outra história.

 

P/1 – E você lembra das suas brincadeiras de infância?

 

R – Ah, sim, eu brinquei de roda até 15, 17 anos, entendeu? Brinquei muito de roda, muito, muito, muito.

 

P/1 – Em que bairro que você morava na infância?

 

R – Eu nasci aqui na maternidade no Centro e a gente nasceu num casarão muito antigo, que tem o nome de “Balança mas não cai”, porque o teto caiu as paredes estão todas em pé, que foram feitas pelos ancestrais, pelos escravos, né? Então, está lá. Ali fica perto da Escola Modelo Benedito Leite, na Rua das Favelas, no Centro, perto da Beira Mar.

 

P/1 – E você tem quantos irmãos?

 

R – Eu tenho oito irmãos, comigo, né? Nós éramos 10, morreu dois.

 

P/1 – E como é que era todo mundo, essa família grande, vivendo nessa casa?

 

R – Deixa eu te falar: a gente, eu convivi... eu vivi, eu fui criado por avó. Sou primeira filha da minha mãe e do meu pai e fui criado pela minha avó. Então, eu tive pouca convivência com meus irmãos, né? Eu fui criada praticamente só. Inclusive, nesse casarão.

 

P/1 – E como é que começou seu contato com a religiosidade?

 

R – Ah, essa história é longa. A minha... Eu já falei, que toda minha família é envolvida com essa coisa. O meu pai, ele toca atabaques, ele é... aqui em São Luís. No tambor de minas, a gente chama de abatazeiro e no candomblé são chamados de o ogãs. Então, o meu pai aqui, ele é batazeiro. A minha mãe era do culto, mas ela não aceitava porque a gente vê muito isso aqui em São Luís. As pessoas não aceitavam. Elas sabem que tem essa mediunidade, essa ancestralidade, mas não cultuavam. Então, ela não aceitava, sofreu muito e, por extensão, os filhos também sofreram, toda família sofre. Então, a gente, quer dizer, sempre conviveu com isso aí. Agora, a minha, a minha... Quer dizer, o meu conhecimento relacionado com o culto foi mais ou menos quando eu tinha uns 16 anos, 17. Eu vinha da escola, eu passava, assim, muito mal. Eu tinha uns acessos de... assim, de vertigem, né, e ficava... E tinha acesso de choro, eu tinha medos assim, uns medos que não tinha muita explicação. Então, a minha avó me levava para o médico. Aí toma remédio daqui, remédio dacolá. E assim funcionava por um determinado momento, mas depois tudo voltava de novo. Mas eu passei por muitos processos, até chegar na cultura afro-brasileira. Eu fui da Igreja Messiânica durante muitos anos. Eu passei pelo espiritismo kadercista e até... Quer dizer, tive momentos muito interessante, de conhecimento espiritual e até chegar hoje no terreiro onde estou, há mais ou menos 15 anos. Fiz o meu santo, que a gente chama isso, raspar o santo, fazer o santo e estou me sentindo muito bem. Estou feliz e sou, assim, batalho muito pela questão da divulgação da nossa cultura. A gente participa de muitos congressos. A gente... a gente faz congressos, a gente realiza seminários, encontros, para poder discutir, não só a religião em si, mas a política da nossa religião, que é religião afro-brasileira e maranhense.

 

P/1 – E você canta um trechinho para gente, alguma música pela tradição da sua família de culto?

 

R – Olha, tem uma coisa, assim, muito interessante, que normalmente nos terreiros cantam. Mais ou menos assim: “A mina não é para quem quer. É só para quem sabe baiar.” Ah, esqueci. Não, espera aí. Esqueci, eu esqueci. Espera aí. “A mina não é para quem quer. É só para quem sabe baiar. Quem está dentro, não queira sair. Quem está fora, não queira entrar lá, lá, lá.” É interessante, né? Tem uma profundidade na letra porque... E por que essa coisa de quem está dentro não deve entrar, quem está fora... Não, quem está dentro não tem, não tem como sair. Quem está fora é melhor não entrar. Porque, na verdade, na prática é isso mesmo, sabia?

 

P/1 – É mesmo?

 

R – É, isso mesmo. A gente passa por muitas situações difíceis, que normalmente você não tem explicação para essas coisas, para essas dificuldades, né? Então, muita das vezes é melhor você estar fora do que estar lá dentro. Agora, quando você está dentro, se você faz tudo de acordo como manda as tuas entidades, de acordo com a orientação do teu líder religioso, você consegue muitas virtudes, muitas felicidades, muita paz. Também... como a gente, como se fosse uma outra religião. Tudo de bom tem na nossa religião. Não tem essa coisa de quem é do culto afro é que faz coisa ruim, que faz coisa mal. Isso não existe. E na nossa concepção africana, nós não temos o bem e o mal separado. Tudo faz parte da natureza. É um conjunto, entendeu, de coisas naturais, criadas por Deus Ogum, que é o nosso Deus maior. E se Deus é bom, é perfeito, o que ele criou não pode ser... Ter coisas ruins, ter coisas imperfeitas, ter maldade, não pode. A gente acredita que tudo isso é um conjunto dessa natureza que está aí, que Deus criou.

 

P/1 – E você com toda essa formação, quer dizer assim, você foi crescendo, assim, você começou estudar, achar alguma profissão?

 

R – Ah, não, lógico. Eu fui criado por avó, já falei, e aí a gente pobre, humilde, mas a idéia era essa, que a gente se formasse, que ela fez de tudo de acordo com a situação financeira na época, tentou nos formar. Eu já tive... eu fiz vestibular. No Rio de Janeiro, que eu vivi muitos anos, né? Aí depois voltei para aqui, tranquei tudo e não voltei mais estudar o terceiro grau, mas estou pensando no próximo ano, já que a empresa aqui está dando toda uma condição para gente estar hoje num nível mais elevado. Aí eu estou pensando seriamente em fazer um curso.

 

P/1 – Em que ano que você entrou para Vale?

 

R – Em 1984, 02 de dezembro 1984.

 

P/1 – O que você sabia da Vale antes de entrar?

 

R – Não, nada. Foi, assim, superinteressante. Eu cheguei no Rio e meu primeiro emprego aqui no Maranhão foi na Coca-Cola. Aí um dia, eu sempre fui digitadora, muitos anos que eu digito. E aí um dia eu peguei o catálogo, eu não sabia que existia Vale. Aí peguei o catálogo e: Vale do Rio Doce. Aí liguei, peguei o número e liguei para cá. E aí quando eu liguei para cá, atendeu o Jair. Jair (inaudível).

 

P/1 – Jair (inaudível) que te atendeu?

 

R – Isso. Atendeu e disse... Aí disse “Vale do Rio Doce, recursos humanos, era lá.” Eu disse “eu estou acabando de chegar do Rio, trabalhei tantos anos no Jornal do Brasil, trabalhei muitos anos Fotocomposição do Jornal do Brasil. Tenho curso tais, tais, tais. E aí eu gostaria de saber se vocês não estão precisando de ninguém nessa área assim, assim. Aí disse: “olha, Lusa, nós estamos aberto uma inscrição para processamento de dados, para digitadores e operadores de computação”. Falei: “poxa, que legal. O que é que eu faço?”. Disse: “não, você não precisava nada. Você vem aqui e a gente te inscreve”. “Tudo bem. Onde que é?”. Aí falaram, tal. Aí eu morava na época na casa da minha cunhada, ex-cunhada, na (Coam?). E aí ela tinha carro na época, eu pedi para ela vim me deixar aqui. E aí foi tudo na bateria de seleção, de teste, porque na Vale para gente entrar tem que fazer assim... Na época, era mil e um testes. Não deve ser diferente hoje. E aí eram muitos, muitos concorrentes. Eu passei em terceiro lugar, por todas etapas, né? E fiquei, passei em terceiro lugar e estou aqui até hoje. Já vai fazer 18 anos.

 

P/1 – Você lembra do seu primeiro dia como é que foi, foi tudo direitinho?

 

R – Ah, não. A gente... Não muito engraçado, que o primeiro dia, a gente teve que como eram muitos testes, e na época essa parte aqui ainda não era... Ainda não existia, essa parte aqui não existia. Era na Tupi, eu não sei se alguém já falou para você, a Vale antigamente se chamava Tupi. Na época, a gente era Cofebre, era coordenação. E por exemplo, da portaria ali, do anjo da guarda, pela outra portaria lá, às vezes quando chegava lá, e a gente não tinha carro e o pessoal não conhecia muita gente, os motoristas para dar carona era um horror. Então, a gente saía andando daqui da portaria até lá em cima na Tupi, que é um pedaço enorme, enorme. E aí a gente saía andando. Depois descobrimos um lugarzinho mais rápido, onde tinha um riacho, assim, muito interessante. Agora, o primeiro dia da gente foi... Como era para gente conhecer área, na época não tinha nada disso, era tudo lá em cima, conhecer a área. Eram máquinas muito antigas, nós... a nossa equipe, nós éramos três mulheres, à princípio. Nós formamos, fundamos o NPD, que era Núcleo de Processamento de Dados. Hoje, a gente foi Susis, somos agora Geti e aí esse parque imenso todo computadorizado aqui na nossa empresa porque na nossa época não tinha isso. Na nossa época não tinha isso. A gente começou com uma máquina enorme. Nós saímos ligada a Vitória, ao Rio de Janeiro. Nosso gerente era direto lá. A gente só tinha que... Um supervisor. Então, foi, assim, tudo o início do início dessa era de informática da Vale, a gente participou desse início. Aliás, começamos, né?

 

P/1 – Mas você tinha falado que era ferroviária, não?

 

R – Sim, ferroviária, porque a gente trabalha numa ferrovia. Nós... Todos nós da empresa somos ferroviários.

 

P/1 – Você tem algum causo de ferrovia para contar, alguma história?

 

R – Não, tem algumas coisas, assim, muito interessante. Uma vez, a Vale antigamente fazia muitas festas (risos). Nós éramos três, eu, Sayonara e Olinda, essas duas não estão mais na empresa, e eu negra, Sayonara tem uma característica, assim, índia, ela é morena, mas com traços indígenas, lindinha, branquela. A gente chamava de branquela, assim, sabe aquela branquela bem branca mesmo. Ah, tinha Teresinha também e a gente andava muito junta. Onde uma estava, outra estava. E aí a gente observava que as pessoas nos olhava muito porque aqui dentro da Vale quando a gente chegou, não tinha muita gente de cor. Não tinha.

 

P/1 – Mesmo aqui em São Luís?

 

R – Mesmo aqui em São Luís. Pessoal, todo mundo do Sul, né? Vitória, Rio de Janeiro, Minas. Então, muita gente... Não tinha negros, não tinha, quando a gente chegou aqui. E aí a gente andava muito junta. Aí o pessoal olhava, assim, para gente, a gente: “por que todo mundo fica olhando para gente?”. “Porque nós só andamos juntas.” A gente achava que era isso. Mas um dia a gente descobriu numa festa que teve na Tupi, que essa coisa deles ficarem, olhar a gente, é porque eles achavam muito interessante eu, a negra, e as duas brancas. Então, chamava muita atenção. Agora, passou uma pessoa ali, um negro, negro, negro, assim. Depois de mim, começou ter... quer dizer, eu não estou querendo dizer com isso que a Vale é racista. Não é isso, mas a gente observava, até por conta do pessoal que  veio de fora, que não tinha negros aqui na empresa, empregados negros e que hoje já tem um percentual razoável de negros, negros assumidos para empresa, que era uma coisa que antigamente a gente não via. A gente não via.

 

P/1 – E você faz parte do coral?

 

R – É, o coral a gente fundou há, mais ou menos 10 anos atrás...

 

P/1 – Dentro da Vale?

 

R – Isso. É o Coral Doce Voz. Foi uma experiência muito interessante e tínhamos o apoio dos nossos superintendentes na época, doutor Pacheco e alguns gerentes davam muito apoio. Tínhamos tudo da empresa. Mas aí, depois de alguns anos, eu tive que sair, por exemplo, porque eu sou dirigente sindical e aí eu fui liberada para estar no sindicato. Então, teve um período que e fiquei afastada e quando eu retornei, o coral já não estava mais em evidência, o coral. Tinha deixado de existir, mas hoje nós estamos retomando o coral com o projeto Vale Viver e a gente está, assim, muito feliz porque o coral... ele expressava muito a nossa vivência dos empregados dentro da empresa. A gente está...

 

P/1 – Que música que vocês estão ensaiando?

 

R – Não, o nosso primeiro ensaio vai ser dia 6, mas a gente teve muito sucesso. A gente participou de vários festivais, entendeu? O pessoal viajou muito. Nós inauguramos o Teatro de Carajás na época. Nós e Doce Voz foi lá inaugurar.

 

P/1 – Que música que vocês cantaram na inauguração de Carajás?

 

R – Sabe, eu não me lembro (risos). Eu não me lembro. Eu não me lembro do coral, eu não me lembro assim. Porque no coral tem vozes e vozes, muito interessante.

 

P/1 – Que voz que você faz?

 

R - Eu sou contralto.

 

P/1 – Dá um tom aí, de contralto?

 

R – Como é que é? (risos) Tinha que ter um regente aqui. Tinha que ter um regente aqui com a gente.

 

P/1 – Vai. O que é um contralto, dá um contralto?

 

R – O contralto tem uma voz forte. Às vezes...

 

P/1 – Fala Rosane em contralto.

 

R – “Rosane” (risos). Às vezes, a minha voz... Eu sou confundida com homem. Senhor... Não, com senhor não. Senhora, que eu tenho um vozeirão muito forte, muito grave, é grave? Agudo? Não, é grave.

 

P/1 – É grave, grave.

 

R – Grave, é. Essa voz forte. Mas a gente tem muitas coisas interessantes aqui na empresa.

 

P/1 – E como você vê, assim, o seu futuro aqui na Vale do Rio Doce?

 

R – Sinceramente... Olha, tem coisas que eu não devo falar (risos). Sinceramente, olha, em relação a minha pessoa, né? Olha só, eu passei alguns anos da minha vida, tipo assim, oito anos fora da Vale do Rio Doce. E da minha área, que é a área de processamento de dados, a área de informática é uma área que todo dia está acontecendo coisas novas. E esse período que eu vivi fora, para mim foi, assim, um verdadeiro desespero. Quer dizer, foi, assim, uma coisa louca na minha vida porque eu perdi... Por exemplo, de me reciclar, de fazer cursos, de aprender mais, né? Área de processamento, banco de dados, você está sempre aprendendo coisas novas. Resultado: quando eu voltei, tem o que? Cinco anos que eu retornei, eu tinha que correr atrás do prejuízo. Sei que eu não vou conseguir porque esses oito da minha vida fora foi como se tivesse perdido 80 aqui dentro da empresa. Mas eu estou muito contente porque hoje, por exemplo, de uma certa forma, dentro da minha área, eu sou respeitada como profissional, eu tenho um carinho muito grande pelo meu gerente. Sem nenhuma demagogia, mas que é uma pessoa que eu gosto e que me respeita, não só como gente que eu sou, mas como profissional, como mulher, como militante sindical. Então, para mim, esse momento foi muito interessante. Agora, futuro, futuro realmente eu não... Não que eu não tenha perspectiva nisso, mas eu acho que a Vale mudou muito.

 

P/1 – E São Luís?

 

R – São Luís mudou, está mudando a cada momento, a cada instante. E aí a gente... Hoje, por exemplo, futuro que tem uma empresa; dentro da minha área, não sei qual seria o meu futuro. Sinceramente falando, eu não sei. Não sei porque, sabe? Hoje, a Vale... hoje, tem o que? Não é técnico não, mas a maioria deles são todos já formados dentro dessa área de informática e é meio complicado, né? Agora, Vale São Luís, ela... Não só em São Luís, mas no Maranhão, a Vale no Maranhão, a gente aparentemente não se vê o que a Vale tem feito, até porque a empresa antigamente, ela não tinha nenhum... Quer dizer, embora a gente tenha todos os meios de comunicação, mas a Vale, ela jogava para sociedade o trabalho que ela tem com a sociedade. Não. Não fazia isso. Hoje não. Já está mais, mas a Vale tem ajudado muito o Estado a crescer. Isso a gente não tem dúvida. Tem ajudado muito, mas muito o Estado a crescer. E todos os anos, todos os segmentos da sociedade, do Maranhão, a Vale têm contribuído bastante.

 

P/1 – Você sabe o que é exportado por esse porto?

 

R – Sim, minério, soja.

 

P/1 – Vem de Carajás?

 

R – Isso, a gente já foi em Carajás várias vezes, várias vezes. De trem, a gente viajou muitas vezes, não só como empregada da Vale, mas como dirigente sindical que a gente é.

 

P/1 – Conta uma mensagem, uma dança, uma música.

 

R – Não, assim, é... Olha, dentro de uma grande empresa como é a Vale, a gente vive momentos de competição. Essa competição termina sendo selvagem, né? E aí eu acho que todos nós... Nós temos no mundo, dentro da Vale do Rio Doce, cada um de nós tem um pedacinho para a gente crescer aqui dentro. Então, não precisa você, tipo assim, pisar outras pessoas, não precisa você maltratar, massacrar pessoas para você estar no topo, porque cada um de nós tem o seu valor, tem o seu momento. Então, a minha mensagem é mais nesse sentido, de que a gente possa ser gente, que a gente possa ser humano, que a gente, sabe, viver e deixar as pessoas viverem em paz, com tranquilidade, ter amor, que eu acho que está tudo embasado, né? O amor é a base de tudo.

 

P/1 –O que acha da Vale estar fazendo esse projeto?

 

R – Não, olha, eu amei. Taí uma coisa que normalmente as pessoas... como eu tenho uma imagem aqui, porque eu sou dirigente sindical, a gente já teve... A gente tem muitos momentos de briga com a Vale do Rio Doce nesse momento, nos momentos que a Vale e o sindicato tem que ir no embate; eu como dirigente tenho que estar junto com todos outros diretores. Mas está aí uma coisa, entre tantas cosas que a Vale tem feito, que eu acho interessante e quando para mim não é interessante, eu digo. As pessoas aqui da empresa conhece a Lusa, conhece o que eu penso, mas uma das... Essa iniciativa do Museu do...

 

P/1 – Da Pessoa.

 

R – Da Pessoa, olha, é um negócio fantástico, entendeu? Eu acho que isso valoriza o empregado, faz do empregado porque a gente em sã consciência quer ser valorizado pelo seu gerente, pela empresa, pelo presidente, né? Então, eu achei, assim, maravilhoso essa iniciativa e eu acho que essas coisas, a Vale cresce muito e o empregado cresce junto com ela e a gente tem que ter isso registrado mesmo. Isso é memória. Eu acho que isso faz a construção, não só da Vale do Rio Doce, mas a construção do Brasil.

 

P/1 – Não vai ter nenhuma música dessas aí do Boi? Canta uma para gente, para poder encerrar? Tem uma voz tão linda (risos).

 

R – Ai, do Boi. Sabe, a gente sabe um monte de música, mas tem momentos que a gente não se... A gente não lembra, né?

 

P/1 – Vai, uma.

 

R – Deixa aqui uma de Boi?

 

P/1 – Sua voz é linda.

 

R – Eu vou cantar uma música que não é de Boi, mas é do movimento, movimento bonito. E a música muito interessante, que é do Bloco (inaudível) : “Vem sereia. Na ponta da areia. Tem sereia na ponta da areia. Os teus olhos de cristal. Tua boca de água e sal. Eu quero te namorar, na construção do luar. Leleô, leleô. Leleô, leleô, leleô. Leleô, leleô, leleô, leleô, leleô. Vem sereia.” (risos) Lindo. Obrigado, gente.

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