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Lutar para conquistar

História de: Gilvam Biserra da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/10/2021

Sinopse

Vinda dos pais de Pernambuco para São Paulo. Infância na Freguesia do Ó. Irmãos. Avó materna. Brincadeiras de infância. Trabalho desde os 12 anos. Trabalho em transportadora. Hérnia de disco e cirurgia. Juventude e paternidade. Separação. Mudança para a casa dos pais. Comunidade Zaki Narchi. Transformações na comunidade. Entrada da polícia na comunidade. Incêndios. Infância do filho na Zaki Narchi. União e coletividade. Pandemia. Desemprego. Rotina. Sonhos.

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História completa

P/1 – Gilvam, pra começar eu gostaria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Oi, meu nome é Gilvam Biserra da Silva, nasci dia cinco de maio de 1983, tô aqui pra conversar (risos).

 

P/1 – Que cidade você nasceu?

 

R – São Paulo.

 

P/1 – Quais os nomes dos seus pais?

 

R – Luiz Bezerra da Silva e Ivonete Alexandre da Silva.

 

P/1 – E o que eles fazem?

R – Eles são aposentados, minha mãe era faxineira e meu pai é motorista de carreta, carreteiro.

 

P/1 – E você sabe como eles se conheceram?

 

R – Não, saber, saber não, mas foi por parentes, eles são pernambucanos, aí eles se conheceram assim, por parentes.

 

P/1 – E você sabe se eles se conheceram lá ou aqui?

 

R – Não, foi lá em Pernambuco.

 

P/1 – E como que eles vieram pra cá?

 

R – Ah, eles vieram pela situação que era lá, eles vieram pra cá pra continuar a vida deles, a trabalhar, arrumar um emprego, ser um pai de família, aí construíram tudo aqui.

 

P/1 – E eles chegaram aqui e vieram pra cá, ou vieram pra outra região da cidade?

 

R – Não, eles vieram primeiro pra região da Zona Norte, Freguesia do Ó, só que aí nós pagávamos aluguel e eles deram um jeitinho de trabalhar e compraram um apartamento.

 

P/1 – Aqui?

 

R – Isso.

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho, tenho dois.

 

P/1 – Mais velhos?

 

R – Mais velhos.

 

P/1 – Quais são os nomes deles?

 

R – Gilberto Bezerra da Silva e Gilson Bezerra da Silva.

 

P/1 – E me conta uma coisa: você sabe a história do seu nascimento?

 

R – Saber, eu sei quase tudo, entendeu?

 

P/1 – E como foi?

 

R – Eu nasci na Freguesia do Ó, tive uma infância boa, estudei, joguei bola, aí praticamente eu comecei a trabalhar cedo também, com doze anos de idade já comecei a trabalhar e foi indo a minha vida, continuando ainda, casei, tive o meu filho. Dezessete anos casado, aí agora que eu me separei, tô só com o meu filho, agora, eu e ele e minha mãe e meu pai.

 

P/1 – E antes de a gente entrar nisso tudo, queria saber se você sabe como os seus pais escolheram o seu nome?

 

R – Aí eu já não sei, acho que foi indicação do meu vô, ele já faleceu e foi o meu vô que mandou por esses nomes: Gilson, Gilberto e Gilvam.

 

P/1 – Você conheceu os seus avós?

 

R – Conheci só a minha vó, o meu vô não, só na parte de mãe, de pai o meu pai perdeu os meus avôs logo cedo, o meu pai perdeu o pai dele e a mãe dele com doze anos de idade.

 

P/1 – E como era a sua vó?

 

R – Ah, minha vó era uma pessoa muito legal, só que ela se foi né, Deus levou eles dois logo cedo também, com doença, por causa de diabetes, essas coisas, pegou e foi embora.

 

P/1 – Tinha alguma atividade, alguma coisa que você gostava de fazer junto com ela?

 

R – Ah, eu tinha, jogar dominó com ela (risos). Jogava muito dominó com ela, ela brincava muito, era muito divertida, só que foi embora.

 

P/1 – E como eram esses dias que você ficava com ela, jogando com ela?

R – É, eu chegava do meu serviço, aí ela ficava lá com a minha mãe, não tinha nada pra fazer e nós íamos pegar e jogar um dominózinho, às vezes jogava um baralho, Paciência. Aí foi indo, mas chegou numa certa hora que Deus quis que ela fosse.

 

P/1 – E na sua família tem alguma comida muito típica, familiar ou data comemorativa? Tem algum cheiro que você lembra?

 

R – Tem, lasanha (risos). Muita lasanha, eu adoro comer lasanha.

 

P/1 – Quem que cozinha a lasanha?

 

R – Eu.

 

P/1 – Você?

 

R – Eu sou o cozinheiro, eu cozinho porque a minha mãe é doente, aí às vezes ela não pode, meu pai também agora, tem dois meses que ele teve dois AVCs e um derrame cerebral. Aí agora que a gente está com um probleminha de saúde lá em casa, que o meu pai teve AVC, AVC e dois derrames.

 

P/1 – Você cozinha desde pequeno?

 

R – Não, eu comecei a cozinhar quando eu casei. Aí eu queria aprender mais alguma coisa e fui aprendendo, aprendendo, aí já cozinho direito. Quando eu também morei sozinho, quando eu me separei e tive que morar sozinho, aí depois eu vim pra casa dos meus pais de novo.

 

P/1 – E pensando lá na infância, como era a sua relação com os seus pais?

 

R – Muito bom, muito boa.

 

P/1 – O que vocês curtiam fazer juntos?

 

R – Ah, a gente ia também brincar, Paciência, baralho, porque a gente gosta de brincar de Paciência, essas coisas, baralho. É o único lazer que a família gosta de ter, não gosta de ficar de bagunça, não vai pra balada, essas coisas, tudo dentro de casa, entre família.

 

P/1 – E seus irmãos, como era a sua relação com eles?

 

R – Muito boa, nós empinávamos pipa, jogávamos bola, jogávamos bolinha de gude, jogávamos taco na rua, só que depois que casou, um foi pra cada lado e não teve mais jeito.

 

P/1 – Seus irmãos também nasceram aqui em São Paulo?

 

R – Nasceram, todos.

 

P/1 – E você lembra da sua casa de infância?

 

R – Lembro.

 

P/1 – Como que era?

 

R – Era um quarto, cozinha, banheiro fora. Aí teve que sair do aluguel, porque o aluguel acabava com a vida de todo mundo. Aí meu pai conquistou, trabalhou e conseguiu o apartamento. 

 

P/1 – Aqui?

 

R – Isso.

 

P/1 – E como era morar na Freguesia [do Ó]?

 

R – Ah, era um pouco bom, não era tão que nem aqui, aqui é melhor ainda, porque aqui não tem muito avenida, não tem gente que sai da rua, dentro de casa, porque tem perigo.

 

P/1 – E quando você era pequeno, você pensava naquilo que você queria ser, quando crescer? O que você queria fazer?

 

R – Não, eu só pensava em construir uma carreira. Eu consegui… primeiro serviço que eu consegui foi na Fiat, eu consegui como ajudante geral, aí foi indo, depois de ajudante geral foi transporte, depois de transporte foi vigilante, vigia noturno, garçom, já fiz um pouco de tudo, na minha vida.

 

P/1 – Qual foi o primeiro trabalho?

 

R – O meu primeiro foi num lava-rápido, na Fiat.

 

P/1 – Como era?

 

R – Lavar carro, lavar carro, fazer higienização, limpar os carros das pessoas, atender clientes. Eu comecei assim, a minha vida.

 

P/1 – E, nessa época, como era o seu dia a dia, você ia pro trabalho cedo, à tarde?

 

R – Ia pro trabalho oito horas e chegava às cinco horas da tarde, aí depois eu ia pra escola, à noite, e aí depois eu tive que parar, porque já tive um filho, aí do filho eu já tive que trabalhar mais pra cuidar dele, cuidar da casa, da esposa.

 

P/1 – Esse foi o que você tinha doze anos ou não?

 

R – O que, o meu filho?

 

P/1 – Trabalho.

 

R – Não, esse foi o primeiro trabalho.

 

P/1 – Com doze?

 

R – Isso, com doze anos. Já trabalhei em sacolão, descarregar frutas, no Ceasa também. Meu primeiro trabalho eu não era registrado, esse daí o primeiro que eu falei, é registrado. O meu, mesmo, foi olhar carro e descarregar caixa de laranja no Ceasa, com doze anos eu comecei.

 

P/1 – E como era o dia a dia, assim? Falar com as pessoas.

 

R – Ah, falava tranquilo, perguntava o que era o serviço, como quiser, passado.

 

P/1 – E aí você ia pra escola à noite?

 

R – Isso, eu entrava na escola às sete da noite e saía às onze da noite.

 

P/1 – E qual a primeira lembrança que você tem da escola?

 

R – Ah, muita coisa! A minha primeira lembrança foi quando eu comecei, aí no primeiro ano eu repeti e minha mãe me deu um cacete, (risos) já me deu um coro, aí no segundo eu comecei a aprender mais, aprendendo, falando, quando eu via meus amiguinhos passando de estudo e eu ficava, aí eu falei: "Não, agora eu vou ter que aprender, pra não repetir porque, se eu repetir, eu vou perdendo os meus colegas e vai vindo outros e outros e eu vou ficando".

 

P/1 – E tinha algum professor ou professora marcante?

 

R – Tinha, a professora Vilma, de Matemática.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque eu gosto de Matemática, adoro muito fazer Matemática.

 

P/1 – E como era o jeito dela?

 

R – Ah, ela era uma pessoa que nem você, assim, um pouquinho alta, engraçada, ela ensinava com um jeito que quase professora não ensina, do jeito que ela ensinava, você aprendia na primeira coisa.

 

P/1 – Como é esse jeito?

 

R – É um jeito de ensinar carinhoso, de querer ensinar mesmo, de falar: "Ó, eu vou fazer isso pra você aprender uma vez só, eu não vou ensinar de novo", mas ela ensinava com todo o carinho, do jeito que ela gostava.

 

P/1 – E você tem memórias marcantes, assim, da escola, momentos?

 

R – Tenho, de quando eu cabulava as aulas e ia jogar bola (risos), porque eu cabulava a última aula e ia jogar bola.

 

P/1 – Seus amigos tudo...?

 

R – Todos os amigos.

 

P/1 – E era perto da escola?

R – Era dentro da escola mesmo, na quadra da escola, aí tinha aula que eu não gostava, que nem aula de inglês, eu falava: "Não vou, não, vou jogar bola" e eu não ia pra aula de inglês, aí ficava jogando bola, até a hora de ir embora, que era a última aula, deu o horário, quando dava quinze pras onze, nós saíamos da quadra e íamos embora pra casa.

 

P/1 – Isso você tinha quantos anos?

 

R – Ah, aí eu tinha uns quatorze, quinze anos, já.

 

P/1 – E aí, desses trabalhos ainda, sem ser registrados, quais foram os mais marcantes, pra você?

 

R – Foi em transporte, foi em transportadora, porque eu gostei muito, só que eu me arrependi de ter saído, porque é um serviço que não falta, que tem direto, só que aí depois que eu tive um acidente, que eu estourei a hérnia de disco, aí eu não pude mais trabalhar carregando peso, mas, se eu pudesse, eu ficava no transporte até hoje.

 

P/1 – O que é que você curtia, no transporte?

 

R – Ah, que eu saía pra rua, ia visitar outras empresas, coletar outros materiais de outras empresas, saía em São Paulo, ia pra Campinas, Ribeirão Preto, ia pra vários lugares aqui de São Paulo, pro interior, isso aí era muito legal.

 

P/1 – Você lembra de alguma viagem dessas?

 

R – Lembro, quando eu fui pra Sorocaba.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque é uma viagem tão tranquila, é um serviço que a gente vai e fica vendo só estrada, mato, conhecer outras cidades. Aí, transporte é o que eu gosto.

 

P/1 – E que acidente foi esse, do machucado?

 

R – Foi quando eu carreguei um peso, aí estourou a hérnia, aí deu hérnia em mim, aí tive que operar, aí o médico falou: "Ó, você não pode mais trabalhar com peso. Se você trabalhar com peso, ela vai estourar de novo". Aí eu tive que parar.

 

P/1 – Foi no trabalho, né?

 

R – Foi, foi no trabalho, carregando peso.

 

P/1 – E como foi esse dia?

 

R – Ah, esse dia pra mim foi doído, porque eu tive que operar, operei e depois eu tive que sair, falar: "Não tô aguentando mais carregar peso".

 

P/1 – E aí você foi pra qual trabalho, depois?

 

R – Aí depois eu tive que trabalhar como vigia noturno. Aí comecei a trabalhar de vigia, aí depois eu fui arrumando outro serviço, que não era de peso, que eu não podia, entendeu?

 

P/1 – E sempre morando aqui?

 

R – Sempre morando aqui.

 

P/1 – E quando você se tornou pai?

 

R – Eu me tornei com 22 anos.

 

P/1 – E como foi ser pai cedo?

 

R – Ah, primeiramente foi com medo, mas depois foi uma coisa maravilhosa que aconteceu na minha vida, porque filho é tudo, a gente gosta, mesmo não gostando ou não, tem que ter, Deus deu, tem que cuidar.

 

P/1 – E como você conheceu a mãe do seu filho?

 

R – A conheci numa balada. Eu fui sair com uns amigos meus, já não queria, cheguei lá, a conheci, fui continuando a conhecer, conheci e aí acabou dando um relacionamento de dezessete anos.

 

P/1 – Como foi esse período, você sair de casa?

R – No começo foi doído. Agora não, agora eu tô acostumado, eu já me separei faz dez anos, entendeu?

 

P/1 – E por que no começo foi doído?

 

R – Ah, porque você larga o filho, tem que deixar filho, tem que deixar tudo o que você construiu e começar tudo do zero, isso aí é uma coisa doida, mas depois você vai se acostumando, o tempo vai tirando isso aí tudo de você. 

 

P/1 – Mas me explica uma coisa: vocês moravam juntos aqui?

 

R – Nós morávamos juntos. Não, aqui não, eu saí daqui e fui morar lá na Freguesia, aluguei uma casa e fui morar na Freguesia. Depois que eu separei, eu aluguei uma casa, fiquei seis meses e aí falei: "Ah, eu não tenho mais condições". Meus pais estavam precisando de ajuda, eu falei: "Eu vou voltar pra casa do meu pai". Eles são doentes, e às vezes eles não podem andar sozinhos, eu saí de casa, de onde eu aluguei, e fui morar com eles.

 

P/1 – E um pouco antes, como foi a sua juventude? Que recordações você tem desse período?

 

R – Ah, esse período eu tenho quando eu chegava do serviço, aí eu cuidava das minhas coisas, da minha obrigação, isso aí é uma responsabilidade que eu gostei e eu gosto mais ainda quando eu tenho um filho agora, meu filho é tudo o que eu tenho.

 

P/1 – E como você se divertia?

R – Ah, divertia muito jogando bola e empinando pipa, isso é a coisa mais que eu gostava e gosto até hoje, quando eu pego meu filho, final de semana, eu vou empinar pipa com ele, às vezes eu vou num campeonato de pipa, ele mesmo já gosta muito de jogar bola, aqui mesmo, ele joga tanta bola, praticamente passa o dia inteiro jogando bola, se deixar.

 

P/1 – E você jogava bola aqui?

 

R – Joguei, joguei muita bola, joguei.

 

P/1 – E como funcionava, tinha aula ou não?

 

R – Não, era... chegava o pessoal e falava: "Vamos bater uma pelada? Vamos jogar?", aí já juntava todo mundo e ia pra quadra, jogar bola. Chegava final de semana: "Ah, vamos jogar uma bola?", daí chama um, chama outro. Aí, quando vai ver, já tem umas trinta pessoas querendo jogar, fazer um joguinho.

 

P/1 – E como que era, assim, a sua época jogando bola e agora você vendo seu filho, quais são as diferenças?

 

R – Ah, é um orgulho, eu gosto muito que ele jogue, melhor ele jogar bola do que estar fazendo coisa errada na rua, do que estar mexendo com coisa errada, mexendo com as coisas dos outros, coisa que eu detesto que mexa.

 

P/1 – Isso é um assunto entre vocês? Vocês conversam?

 

R – É, eu converso muito com ele, eu sempre dou o toque. Ele mesmo, às vezes, já quer inventar, ele tem doze anos e já quer inventar de querer olhar o carrinho dele, eu não deixo, eu falo: "Você vai pra escola, estuda, o que você precisar, o pai vai fazer de tudo pra ver se te arruma, mas primeiro o estudo, depois você vê o que você quer fazer da sua vida".

 

P/1 – E como era isso na sua casa, com os seus pais? Também tinha esse diálogo?

 

R – Meu pai sempre falava: "Primeiro vocês estudam, quando você chegar na sua idade, você vai lá e vê o que você quer". Cheguei na idade cedo, estava lá, às vezes eles passarem necessidade e eu comecei a trabalhar cedo por causa disso, porque eu queria aprender, a eu ser dependente mesmo de mim, não depender de ninguém.

 

P/1 – E como é morar aqui, assim? Você falou que na Freguesia…

 

R – Aqui é bom, porque aqui tem quadra, tem um parquinho pras crianças, não tem tanto perigo de avenida. Aqui é muito bom, é tudo fechado, é um condomínio, as crianças podem andar pra onde quiser, mas lá onde eu morava, na Freguesia, não podia morar, porque era avenida, era arriscado de ser roubado, arriscado de ser atropelado. Aí, por isso que aqui é bom, é por causa disso, aqui é um condomínio fechado e as crianças podem brincar à vontade, sem se preocupar com quase nada. Não deixar largado, assim, o dia inteiro. Tem que se preocupar, saber onde ele está, se está fazendo certo ou errado. Aqui é muito bom por causa disso, aqui todo mundo, um ajuda o outro. Se puder ajudar, ajuda; se não puder, não ajuda.

 

P/1 – Como é esse trabalho coletivo, mesmo?

 

R – É muito bom, as pessoas gostam de ajudar, tem uns que gostam de ajudar, tem outros que já ajudam muito mais, que veem a necessidade de cada um aqui: "Ah, aquele ali está precisando, então vamos ajudar". Aqui mesmo tem a sociedade da Zaki Narchi, que ajuda muito aqui, a gente, que se não fosse a sociedade, tinha muita gente aqui passando fome, por causa dessa pandemia agora, gente desempregada, porque o desemprego, hoje em dia, está difícil.

 

P/1 – E você lembra de outros momentos que a comunidade teve uma ajuda?

 

R – Não, não lembro muito assim, não, porque eu quase não venho pra cá, quem fica muito aqui é meu filho, meu filho que gosta de ficar aqui, às vezes ele fica aqui na academia, às vezes ele fica com os meninos aí, jogando vídeo game, aí às vezes ele vem ajudar aqui, a entregar as marmitas. Aqui tem muita ajuda, muita gente que nos ajuda, aqui.

 

P/1 – E quando seus pais chegaram aqui, o que eles contam assim, como que era? Era diferente, tipo tinha... 

 

R – Não, sempre foi assim. 

 

P/1 – Já tinha predinhos?

 

R – Não, primeiro aqui não tinha os prédios, antes era barracos, aí um prefeito, o Maluf, começou a fazer os prédios e aí foi derrubando os barracos, aí chegou na hora dos prédios, tirou os barracos. Agora que eles estão fazendo uns barraquinhos de novo. Quem precisa, né?

 

P/1 – E como foi esse momento, pros seus pais? 

 

R – Ah, foi uma alegria pra eles, uma alegria grande, porque eles construíram o que eles queriam, sair do aluguel, pagar o que é deles mesmo, ele já pagou o que é deles, eles lutaram pra ter aquilo.

 

P/1 – E eles contam, assim, como... não sei, questão de luz, saneamento, água, eles viram tudo isso?

 

R – Viram, viram tudo.

 

P/1 – Você sabe?

 

R – Isso aqui antigamente não era assim, não. Isso aqui era... tinha um rio aqui, aqui embaixo tem um rio no meio, não era assim, aí que a prefeitura foi arrumando tudo direitinho, mas isso aqui antigamente era um rio aqui e não existia nem avenida, só existia o Carrefour, que não era nem Carrefour, era Eldorado, se eu não me engano.

 

P/1 – Você chegou a ver?

 

R – Vi tudo, tudo isso aí, eu vi aqui.

 

P/1 – E como foi, pra você, acompanhar essas transformações?

 

R – Ah, foi bom, né? No começo foi bom e agora está ainda melhor, porque tem saneamento, tem onde jogar o esgoto, que antigamente o esgoto não era jogado em ar livre, era tudo dentro do rio, agora tem tudo encanado aqui dentro.

 

P/1 – E os desafios?

 

R – Ah, foram muitos (risos). Pra lutar teve que ter muito desafio. A gente, quando quer alguma coisa, você tem que ter muito desafio pela frente, não adianta, você tem que lutar mesmo e desafiar, falar: "Vou fazer e pronto, acabou". Se você não fizer assim, não vai conquistar nada.

 

P/1 – O que você mais gosta daqui da comunidade?

 

R – Ah, o que eu mais gosto daqui é do pessoal, aqui tem muito pessoal bom, aqui a gente brinca, conversa, chega num certo horário, a gente vai, deita e descansa, mas aqui é muito bom, aqui a amizade é em primeiro lugar, se não tiver amizade, aí é gente que não tem amor à vida, então. 

 

P/1 – E o que você menos gosta daqui?

 

R – Daqui eu não tenho menos gosto daqui, não. Eu gosto, não tenho isso aí, pra mim, não, eu nunca deixei de gostar de onde eu moro. Onde eu for, eu gosto de tudo, só não gosto do errado, coisa errada eu não gosto, não.

 

P/1 – E pensando em todo esse tempo que você está aqui, com seus pais, quais os acontecimentos mais marcantes?

 

R – Ah, mais marcante foi quando teve uma greve aqui e aí teve a maior briga, as greves dos professores, aí teve briga, polícia daqui, polícia dali e o meu medo são as crianças. E quando as polícias entram aqui dentro. Aí, às vezes, a polícia entra aqui, aí tem que ficar mais preocupado com as crianças. Nós, adultos, já conhecemos, mas as crianças, às vezes eles entram do nada.

 

P/1 – Como é isso?

 

R – Ah, entrar do nada. Às vezes é coisa errada que eles vêm, entram, a gente tem que se preocupar com isso.

 

P/1 – Você lembra de algum?

 

R – Coisa assim, às vezes eu lembro quando eles entram, assim, do nada e eu tenho que ficar mais preocupado é com meu filho, eu tenho que ficar correndo atrás dele, pra saber onde ele está, onde ele não está, às vezes ele está aqui, às vezes ele está na quadra, mas do nada eles aparecem, assim, de surpresa.

 

P/1 – E aí, como é isso de segurança?

 

R – A segurança aqui é boa.

 

P/1 – Você tem uma... 

 

R – Eu me sinto seguro aqui dentro.

 

P/1 – E muita gente comentou sobre os incêndios, como é isso?

 

R – Aqui teve um incêndio, aí no morro, aí foi uma coisa feia, queimou quase todos os barracos do pessoal, foi uma tristeza, gente chorando, correndo, desesperado, pra não perder as coisas deles.

 

P/1 – Não rolou com a sua família?

 

R – Não, eu nunca peguei Bolsa Família, não, eu não pego não, eu só peguei agora o auxílio, né?

 

P/1 – Ah, não, se já aconteceu com a sua família, de perder coisas no incêndio?

 

R – Não, graças a Deus, isso não. Aconteceu uma vez, quando eu estava morando no morro, em barraco, aí uns três, quatro metros, o barraco do vizinho começou a pegar fogo, por causa das fiações e aí começou a pegar fogo, mas não teve nada grave mesmo, não.

 

P/1 – Então, você já morou em um barraco, não só nesse prédio?

 

R – Já, antes dos prédios, já morei no barraco, aqui dentro.

 

P/1 – Como que era?

R – Ah, era bom, né? A gente não pagava aluguel, água e luz nós tínhamos, graças a Deus, mas era muito bom, aí agora ficou melhor ainda, quando o prefeito Maluf fez esses prédios e a gente teve aqui a coisa melhor do mundo, ter a sua casinha própria.

 

P/1 – E como foi se juntar, começar a morar junto com a sua ex-mulher?

 

R – A minha ex-mulher, quando eu separei, não deu certo, nós brigávamos muito, aí tive que sair de casa e vir morar com a minha mãe. Aluguei uma casa primeiro, fiquei seis meses e vim morar com a minha mãe.

 

P/1 – Quando você era casado, como era o dia a dia de vocês?

 

R – Ah, era bom, ela trabalhava, eu trabalhava, passava o dia todo fora, chegava em casa cansado, tinha que fazer as coisas, cuidar da criança, era corrido, mas era bom. Só que aí o tempo foi gastando, a amizade, foi se gastando o casamento, acabamos decidindo se separar.

 

P/1 – E como foi o momento da separação?

 

R – No começo foi ruim, dolorido, o tempo foi passando e depois vai acostumando.

 

P/1 – E se tornar pai, o que seu filho representa, pra você?

 

R – Tudo, meu filho é tudo que eu tenho. A coisa mais abençoada que Deus me deu foi o meu filho, a coisa mais feliz da minha vida, ele estava aqui a quase agorinha, ele veio me ajudar a trazer umas roupas, aí agora ele deve estar na quadra, jogando bola, que ele ficou aí na frente, agora já não sei pra onde ele foi (risos).

 

P/1 – E hoje, como é o seu trabalho?

 

R – Hoje eu estou desempregado, no momento eu tô desempregado, mas tô correndo atrás.

 

P/1 – E como é o dia a dia?

 

R – Ah, corrido, é muito corrido. Eu tenho que, às vezes, cuidar de casa, cuidar do filho, cuidar do pai e da mãe, que são doentes, é difícil pra mim, mas eu luto, Deus me dá força pra fazer tudo isso de uma vez só.

 

P/1 – Como é a convivência com os seus pais, hoje?

 

R – Hoje é bem melhor, depois que eles estão precisando de ajuda, a minha atenção foi dobrada agora, tem que ser bem dobrada mesmo, porque depois que meu pai teve esse infarto, esse derrame cerebral e esse AVC, pra mim está sendo uma luta mais dobrada agora, tem que cuidar dele, a minha mãe já tem diabete, ela já amputou os dedos do pé todinhos, aí fica mais difícil ainda que eu tenho que cuidar de dois e uma criança ainda, que ele me ajuda muito, ele me ajuda muito, o meu filho. Quando eu preciso das coisas, ele vai lá e faz pra mim, me ajuda muito, quando eu tenho que trabalhar e às vezes minha mãe tem que ir pro médico, quem leva é ele, ele que vai lá e a leva. Ele é um garoto que me ajuda muito.

 

P/1 – E você comentou da pandemia. Como que foi, pra você, viver isso?

 

R – Foi difícil, foi difícil, porque no começo meu pai não acreditava nisso, quando ele estava bom, aí agora que ele viu que morreu muita gente, que agora que ele caiu na real e falou: "Não, vou me resguardar". A minha mãe eu já não deixei sair muito, não, só saiu mesmo pra ir pros médicos, porque pra sair pra rua, pra ficar na rua, eu não deixava, não, porque é uma doença que é invisível e eles pegavam mais idoso. Eu mesmo já sai, quando saía com ela, eram duas máscaras, álcool em gel, era cuidado em dobro, não ficar muito perto do outro, entendeu?

 

P/1 – E seu filho, como que foi explicar pra ele? Como foi explicar pro seu filho da pandemia? Ele também ficava mais em casa?

 

R – Ele ficava mais em casa, ele só saía mesmo pra ir pra escola, mas depois que ficou um ano sem ir pra escola, nossa, deu muito trabalho. Então, agora que ele está começando a ir uma semana sim e outra não, mas mesmo assim, está indo pra escola, mas deu muito trabalho pra ficar em casa, ele não se acostumava a ficar em casa, só queria ir pra rua, aí chegava em casa, tinha que passar álcool nele todinho, pra não contaminar os avós dele, mas foi difícil segurá-lo dentro de casa, que ele não acostumava.

 

P/1 – Hoje ele mora com você?

 

R – Ele mora comigo.

 

P/1 – E na comunidade, assim, como você percebeu a pandemia? Aqui as pessoas estavam…

 

R – Eu percebi pela internet, comecei a perceber pela internet, tem um colega meu que mora lá na Itália, aí passou pra mim o vídeo, falando: "Ai, Gilvam, como está aqui, tudo fechado, não tem nada, por causa dessa pandemia". Aí começou a chegar aqui e eu já fiquei mais alerta.

 

P/1 – E a pandemia aqui dentro da Zaki, comércio, o que você sentiu, você viu?

 

R – Muita gente quebrou, viu? Em Santana mesmo, muita loja fechou, por causa do comércio, que não teve movimento, muita gente fechou, o desemprego foi aumentando, foi fazendo um monte de coisa. Eu mesmo desisti de correr, esse ano, atrás de serviço, porque não acha, já entreguei mais de duzentos currículos, ninguém chama, falei: "Não, então vou deixar tudo pro ano que vem". Agora que está começando a chamar, algumas empresas estão começando a contratar, mas mesmo assim eu vou deixar pro ano que vem, eu vou fazer o que eu tenho que fazer e aí o ano que vem eu começo a correr atrás de serviço.

 

P/1 – E doações, nesse momento de pandemia, aumentaram?

 

R – Teve muita doação aqui, muita, muita doação, principalmente de cesta básica, aqui teve muita gente que recebeu cesta básica, recebeu alimentos, recebeu tudo, graças a Deus.

 

P/1 – Qual a importância disso?

 

R – Ajuda muito o pessoal, porque muita gente perdeu o serviço por causa da pandemia e essas empresas que nos ajudou aqui na Zaki Narchi, ajudou muito, por causa da cesta básica, tinha muita gente que não conseguia comprar nem o pão do dia, muita gente aqui não conseguiu comprar, mas Deus sabe o que fez e nos ajudou muito.

 

P/1 – E seu filho, qual é o nome dele?

 

R – Artur.

 

P/1 – O Artur joga bola?

 

R – Joga.

 

P/1 – E ele faz aula?

 

R – Ele faz, ele fazia jiu-jitsu e agora ele está fazendo o treino dele na escolinha, vai pra biblioteca aqui do Parque da Juventude, aí ele tem outra escolinha que ele está indo também fazer, treinando.

 

P/1 – Como que é pra você, como pai, ver essas atividades?

 

R – Ah, é muito gostoso, muito bom.

 

P/1 – A associação está incentivando?

 

R – Está incentivando a fazer a coisa certa, não fazer o errado. Eles incentivam muito tirar as crianças do lugar errado, melhor estar fazendo isso, do que estar fazendo o errado.

 

P/1 – E o que você gosta de fazer, nas suas horas de lazer?

 

R – Ah, eu gosto mais de empinar pipa com ele (risos). Quando eu tenho tempo, eu vou lá e o levo pra empinar pipa, às vezes eu jogo baralho com ele, ele gosta muito de ficar mexendo no celular, internet, jogando free fire (risos).

 

P/1 – E o que a comunidade representa na sua vida, na sua história, pensando nos pais?

 

R – Tudo, porque tudo que eu consegui foi aqui mesmo, graças a Deus, tudo o que eu consegui na minha vida foi lutando aqui dentro, mesmo.

 

P/1 – E, pra você, o que são as coisas mais importantes, hoje?

 

R – Ah, mais importante são meus pais, meu pai e meu filho, sem isso aí eu não era nada. Tem que cuidar deles agora.

 

P/1 – E quais são os seus maiores sonhos?

 

R – Meu maior sonho é ter a minha casa própria, que um dia eu vou conseguir.

 

P/1 – E você gostaria de contar mais alguma coisa, alguma passagem da sua vida, que eu não tenha perguntado?

 

R – Não, o que eu contei, já contei tudo.

 

P/1 – Ou sobre aqui, a Zaki, alguma coisa marcante?

 

R – Não, marcante eu já contei, o que eu tinha mesmo eu já contei tudo. Agora, só se cair a ficha e lembrar, mas o que eu tinha que falar, já falei tudo.

 

P/1 – E você gostaria de deixar alguma mensagem?

 

R – Ah, eu gostaria, eu gostaria que todo mundo, que Deus abençoe e lutar pra conquistar o que você quer, nunca pegue nada de ninguém, luta e conquista.

 

P/1 – Como foi, pra você, ter contado um pouquinho da sua vida? Ter lembrado…

 

R – Foi bom. 

 

P/1 – Como que foi, pra você, dividir um pouquinho com a gente, da sua história?

 

R – Foi bom, porque tinha coisa que passou que eu nem lembrava. Agora foi bom, que eu relembrei um pouco da minha história.

 

P/1 – Muito obrigada! [Desculpa] por ter [sido] super improvisado, em cima da hora, mas foi muito gostoso.

 

R – Tá bom, então, obrigada a vocês, que me deram essa oportunidade.

 

P/1 – E, Gilvam, se você puder, não sei o quanto você tem fotos…

 

R – Foto, eu não tenho, pra dizer a verdade, foto…

 

P/1 – Não tem fotografia?

 

R – Fotografia do meu passado, quando era criança, eu não tenho mais nenhuma. 

 

P/1 – Nadinha? 

 

R – Nenhuma.

 

P/1 – E hoje em dia?

 

R – Hoje em dia eu tenho, no celular, tenho quando eu procuro emprego, que eu tenho guardadinha.

 

P/1 – Você poderia mandar umas fotos, assim, do seu filho?


R – Mando.

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