Busca avançada



Criar

História

Lutando pelo que quer

História de: Daice Maria Costa Fonseca
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/12/2004

Sinopse

Daice nasceu em Itumbiara em abril de 1953. Na sua infância, os pais trabalhavam na roça, e a família sofria algumas dificuldades. A mãe, além de cuidar da pequena fazenda onde moravam, também era lavadeira. Os pais de Daice se seperaram quando sua mãe tinha apenas trinta anos, e ela foi morar em Capinópolis. Lembra de ir com a família passear de trem em Uberaba. Mais tarde, muda-se para Uberaba e presta um concurso para trabalhar na CTBC, onde começa como telefonista. Após seis anos nessa função, torna-se responsável pelos bilhetes, parte chave da antiga tecnologia de ligações interurbanas. Depois, muda para a área de vendas, até chegar onde está hoje: atende por volta de setenta clientes por dia, na área de negociação de dívidas. Daice sempre lutou para subir na empresa, luta que deu muitos frutos. Gosta muito do que faz, e não tem vontade nenhuma de se aposentar. 

Tags

História completa

P1 – Bom dia, Dona Daice, eu queria, por favor, que a senhora iniciasse dizendo o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Meu nome é Daice Maria Costa Fonseca, eu nasci em Uberaba, não, mentira, não foi que eu nasci em Uberaba, pode voltar?

 

P1 – Pode, claro.

 

R – Eu nasci em Itumbiara, no dia 29 de abril de 1953.

 

P1 – O nome do seu pai e da sua mãe, por favor.

 

R – Meu pai chama Larico Silvestre Pereira e minha mãe chama Zilá Costa Pereira.

 

P1 – Zilá com H?

 

R – Zilá com Z. 

 

P1 – Com Z.

 

R – Com Z.

 

P1 – Com H no fim, ou não?

 

R – Não, não tem H no fim, não.

 

P1 – Ah, tá. Qual que era a atividade do seu pai?

 

R – Meu pai sempre foi agricultor, sempre foi, tanto que ele chegou a ser presidente do Sindicato Rural de Campina Verde, e hoje ele já, ele é vivo ainda, ele tem quatro pontes de safena, quer dizer, mas ele está bem, e hoje ele é aposentado, vive da sua renda.

 

P1 – Ele era proprietário, arrendatário, como é que era o esquema de trabalho dele?

 

R – Não, meu pai, na verdade, ele trabalhava quando era solteiro, trabalhava em roças, e tudo, e conheceu minha mãe, quer dizer, minha mãe é que tinha fazenda, e minha avó morreu, e eles herdaram parte dessa fazenda, né? Mas eu não sei, assim, o que é que aconteceu com essa fazenda, eles trabalharam nela, perderam ela e vieram para Uberaba, porque aqui em Uberaba ainda tinha casa também, eles herdaram uma casa aqui, que é onde a gente mora até hoje.

 

P1 – E essa fazenda ficava onde?

 

R – Em Ponte Alta, na pedreira da fábrica de cimento de Ponte Alta. Então hoje minha mãe fala, porque hoje minha mãe é separada do meu pai, ela fala que meu pai é que, na época ela herdou a melhor parte da pedreira da fábrica de cimento, que ela explora hoje, né? E que não sabe o que é que o meu pai fez com isso, então minha mãe não sabe o que é que ele fez com essa pedreira, depois ele acabou vendendo parte da fazenda junto com essa pedreira, né, que hoje poderia estar rendendo bastante dinheiro para eles, né?

 

P1- Qual era o nome da fazenda?

 

R – Era Fazenda Santa Rita.

 

P1 – E a sua mãe, qual era a atividade dela?

 

R – A minha mãe, ela sempre foi de fazenda também, quando mudou para Uberaba ela, minha mãe foi doméstica, minha mãe foi lavadeira de roupa. Então, até outro dia eu estava contando a história para minhas filhas, que minhas filhas são muito enjoadas para comer, e tudo, e eu falava: “gente, eu vivi a minha infância e a minha adolescência, eu comia era, quando era época de mandioca era mandioca, quando era época de abacate era abacate, mexerica era mexerica”, e tudo isso. E minha mãe, teve uma época que ela trabalhou, ela lavava roupa no Sanatório Espírita, que é onde que tinha muito louco, hoje em dia nem tem mais louco, porque eu acho que nem existe gente louca mais, hoje em dia, que as coisas são tão modernas, que, né, é outro jeito. Mas minha mãe trabalhava lá, lavava roupa, e minha mãe, os abacates caíam no chão, minha mãe arrumava aquelas fronhas, ela trazia as fronhas cheias de abacate, olha o que a gente comia! Porque foi uma época muito difícil, que foi quando ela separou, que eles perderam tudo, até não entendo muito bem como eles perderam, né? Mas é história, depois, quando minha mãe foi adquirindo uma certa cultura, porque a minha mãe casou muito nova, casou com treze anos de idade, né? Quer dizer, quando ela tinha trinta anos, ela já tinha tido os três filhos, já tinha separado, já tinha vivido uma vida difícil de família para cá e família para lá, ninguém queria ela, né, com três filhos quem que ia querer, né? Ninguém queria. Então, minha mãe, ela foi, teve um pouco de cultura, teve alguém que ajudasse, ela aprendeu a costurar, hoje ela costura muito bem, quer dizer, ela viveu com a gente, nós somos em três. Com costura, ela manteve a casa, tudo costurando. E até hoje, minha mãe tem 74 anos, ela é empregada de uma loja, ela costura para uma loja, faz reparos, faz as capas das roupas, né, e ela adora fazer isso! E, minha mãe, se você vir a minha mãe, você nem fala que ela viveu uma vida desse jeito. Hoje ela tem uma vida de rainha, faz o que quer, tem o dinheirinho dela, tem saúde pra dar e vender, não tem doença nenhuma, não fuma, não bebe, não, né? Nunca, nunca fumou, nunca bebeu, então minha mãe é super saudável, muito saudável, faz de tudo na minha casa, ela mora comigo, né? Quer dizer, eu trabalhei também, ela fez parte desse, ela fez parte da minha história, porque se não fosse ela, eu tive duas filhas, casei, quer dizer, ela que criou minhas filhas, praticamente. Até hoje ela ensina tarefa de escola, ajuda a fazer recorte de coisa de tarefa das minhas filhas, né, então ela fez parte desse... Eu pude trabalhar, pude dar o melhor de mim para a empresa, porque eu tive ela, também, para colaborar.

 

P1 – Na retaguarda, né, claro.

 

R – E eu, até hoje, cuido dela.

 

P1 – Ah, claro. A senhora conheceu seus avós?

 

R – Não, eu conheci, o meu avô não conheci.

 

P1 – Da parte de?

 

R – Da parte, não, da parte do meu pai eu conheci muito pouco o meu avô. Eles contam que o meu avô morreu louco, mas, quer dizer, ele morava em outra cidade, nunca fui assim, não tive esse tempo, porque eu sou a caçula, né? Quer dizer, minha mãe deixou o meu pai, e eu já tinha, eu tinha cinco anos, eu não lembro muito bem dele, eu lembro mais da minha avó, por parte da minha mãe, que eu lembro, infelizmente eu lembro da morte dela. Que ela veio para Uberaba, morava na fazenda, veio para Uberaba às pressas e de repente alguém falou: “morreu”, né? Quer dizer, eu lembro do caixão dela, lembro do velório, isso eu lembro. 

 

P1 – Como era o nome dela?

 

R – Maria Rita.

 

P1 – E o seu avô materno, a senhora conheceu?

 

R – Não conheci. Quando eu nasci, ele já tinha, deveria já ter falecido, né? Porque minha avó já era ca... casou com outro, só que não teve filhos. Ele tinha filhos e ela teve filhos, então acabaram unindo, uma família só, tanto que hoje existem os filhos da minha avó, e existem os filhos do marido da minha avó. Quer dizer, são uma família unida também, estão sempre juntos.

 

P1 – A senhora tem notícia, ou informação, ou lembrança de histórias que tenha ouvido sobre, de onde os teus avós vieram, se eles eram da região, ou se vieram pra cá migrando?

 

R – Não, meus avós, eles eram, eles eram da região mesmo.

 

P1 – Está certo.

 

R – Minha mãe nunca me contou história assim, que eles eram de outro lugar, tipo assim, se eram italianos, se vieram de… Não, nunca contaram. Eu imagino que deva ser da região mesmo, né?

 

P1 – E a sua casa, essa primeira casa da infância lá na fazenda, como é que era esse lugar?

 

R – Ah, era uma casa modesta, era aquelas casas mesmo de fazenda, que os meninos andavam sem roupa, então até eu podia ter trazido, mas eu tenho umas fotos que a gente está sem roupa, na fazenda, no meio de capins, tal, eu não, assim, não lembro muito bem dessa roça, desse lugar, da fazenda que nós moramos. Quero dizer, nós moramos pouco tempo, eu lembro que a gente ia para a roça catar milho, né, que o pessoal fazia a colheita do milho, o que sobrava a gente ia lá catar, a gente era pequeno e catava milho, ensacava aqueles milhos. A gente trazia, meu pai vendia, comprava roupa para a gente, é uma passagem que eu lembro bem disso aí, sabe? Quando começou a usar aquelas calças, tipo jeans, umas calças vermelhas de bolsinho, então o meu pai ia e comprava, quer dizer, o dinheiro era da gente, a gente que tinha trabalhado. É uma passagem que eu lembro bastante, e essa passagem, a gente morava em Capinópolis, a gente morava numa casa em Capinópolis, ali perto do rio, e a gente ia numa roça e catava milho pra vender. E a gente pegava o dinheiro, vinha de trem para Uberaba passear, eu lembro bastante dessa passagem.

 

P1 – Como é que era Capinópolis nesse seu tempo de infância?

 

R – Ah, Capinópolis não tinha nada, era uma rua que tinha a rodoviária e uma rua que é ali daquele, de um rio que tem, né? Eu sei que a gente descia no rio, a gente catava batata doce, que a plantação de batata doce lá na beirada do rio era enorme, umas batatas roxas, sabe? E a gente catava batata doce para a gente comer, eu lembro muito dessa passagem. Mas Capinópolis era bem pequeno, apesar de que eu nunca mais fui em Capinópolis, nunca mais, tenho até vontade de ir pra ver. Mas nessa época que eu fui, que deve ser o que? 1950 e, eu nasci em 1953, na época de 1959, 1960, por aí, né? Que eu era bem pequena, quer dizer, não tinha nada, eu lembro que tinha rodoviária, lembro bastante.

 

P1 – E essa viagem de trem para Uberaba, para passear, para...?

 

R – Era para passear, a gente vinha no trem, tinha, as pessoas vinham, parece que era uma viagem longa, sabe? Levava lanche, e a gente, eu lembro, que a gente era pequeno, um comia lanche do outro, o passageiro da frente estava com criança, dava bala para a gente também, a gente, minha mãe sempre fazia era uns bolinhos, né, daquele bolinho de fubá que frita na gordura lá, e a gente comia aquilo, quer dizer, não fazia mal de jeito nenhum, né? Porque hoje você não pode nem ver o bolinho, mas naquela época, mal não fazia. Eu sei que a gente trocava o lanche dentro do trem, era muito bom.

 

P1 – Dona Daice, saindo da fazenda e vindo para a cidade, como é que foi assim a sua primeira impressão da cidade? Foi Capinópolis que a senhora morou primeiro?

 

R – Capinópolis, foi Capinópolis.

 

P1 – E depois, ficou lá até quando?

 

R – Ah, eu fiquei lá até… Que foi quando minha avó faleceu. Quer dizer, eu tinha uns seis anos de idade, de cinco para seis anos, quando minha avó faleceu. Aí nós viemos para passear, nós ficamos na casa da minha tia, que foi quando, no dia que minha avó veio da fazenda, que ela morava em Ponte Alta, que veio e que morreu. E nós já ficamos por aqui, meu pai já estava com a intenção lá da herança da minha avó, que ele sabia que minha avó tinha, meu pai nem voltou mais para Capinópolis, ele não voltou, ele já ficou, já comprou uma casa para a gente morar, né?

 

P1 – Em Uberaba?

 

R – Em Uberaba. Ele já comprou uma casa e nós ficamos morando nessa casa. Aí ele comprou um caminhão também, ele começou a fazer frete com o caminhão, quer dizer, ele viajava, né, sempre estava viajando, e tudo. Mas, nessa época ele já não estava dando mais certo com a minha mãe, sabe? Porque ele era muito, assim, eu penso que era muito genioso, e minha mãe também é muito custosa, eles não deram certo. A gente até hoje, às vezes eu converso com meu pai, mas ele assim, ele fala que tem muita vontade de me contar, mas que ele tem muita vergonha. Mas eu já estive com meu pai, assim para morrer, o meu pai falando para mim, me pedindo perdão porque ele me largou, e assim no hospital mesmo, porque ele sabia que ele ia morrer, mas os médicos ainda salvaram ele, que ele fez, tem doze anos que ele pôs a safena, mas ele teve um baque, a outra veia entupiu e eles conseguiram salvar ele. Então ele tem vergonha de mim hoje, de saber que naquela hora ele ia morrer, que ele é consciente disso, que ele me pediu perdão, e tudo, por ter me deixado e tal. Mas...

 

P1 – Como é que foi para a garotinha, chegar numa cidade que é maior do que Capinópolis, maior do que o lugar onde vivia, como é que foi chegar em Uberaba?

 

R – Olha, eu já cheguei indo para a escola, né, eu já cheguei...

 

P1 – Foi a sua primeira escola?

 

R – Foi a minha primeira escola.

 

P1 – Qual era?

 

R – Eu estudei no Grupo Brasil, que eu fui, era perto também. Eles falam que eu era muito pequena quando eu ia para a escola, mas, na verdade, eu realmente não tinha nem idade para ir para a escola, porque eu nem registrada era, eu nasci em Itumbiara, eu fui para Capinópolis, mas eles nem, não preocupavam com isso de registro. Então, quando minha mãe, quando alguém, minha mãe precisou de trabalhar, que o meu pai já estava, já tinha perdido as coisas, meu pai era jogador, né? Meu pai jogava baralho, perdeu tudo o que tinha com isso. Minha mãe já precisando, estava precisando trabalhar, e alguém falou pra ela: “ó, põe a menina na escola, né? Você pondo a menina na escola você vai trabalhar.” E a minha mãe foi pra me pôr na escola, só que quando ela chegou na escola, o pessoal: “ó, tem que ter sete anos para entrar na escola”, aí alguém falou: “não, mas você ainda não registrou ela, você vai lá e registra ela como que ela tem sete anos, e põe.” Então, o pessoal fala que eu era muito pequena quando eu ia pra escola, eu tenho uma vizinha, até hoje que ela fala pra mim, ela fala assim: “Daice, você era minúscula, a gente via você descer, a gente via só a sainha fazendo assim”, porque era rodada, até hoje ela fala isso comigo, sabe, porque eu era muito pequena para ir pra escola. Mas, então, hoje a gente vê que realmente era por isso, você não tinha nem idade para estar indo pra escola e ia. Mas foi bom, né? Foi ótimo.

 

P1 -  A senhora tem alguma recordação de uma professora, de um professor que tivesse marcado a senhora nessa primeira...?

 

R – Tenho, eu tenho a minha primeira professora, ela chamava dona Maria, Maria Raimunda. Ela faleceu até há pouco tempo, eu tinha conhecimento dela, tal, do falecimento dela eu tive. Mas, quando eu estava no primeiro ano, ela gostava muito de mim, e na escola sempre tem as programações, né, de tudo, então eu lembro que quando foi na época da árvore, eu era a folha, eu ia ser a folha, vestida de folha e tudo, e nessa época, eu não sei nem se é da sua época também, que era a época de eleição, do Jânio Quadros, do Fernando Paes Lemes, né? Você lembra?

 

P1 – Jânio Quadros, Lott e Ademar de Barros, não é?

 

R – Ademar de Barros. O Jânio Quadros era a vassoura, né?

 

P1 – Isso.

 

R – A vassoura.

 

P1 – O Marechal Lott era a espada.

 

R – Era a espada. O outro era um outro negocinho. Então, eles tinham aqueles pin, né? Hoje é pin, antigamente chamava alfinete. Então tinha o alfinete com a vassourinha, e esse menino estava com esse alfinete lá, brincando, e eu pedi pra ele, quero dizer, eu troquei umas figurinhas e ele me deu esse alfinete, e eu ensaiando para ser a folha, que eu ia falar lá na frente, naquela época vinha gente assistir, a escola era cheia. E eu lá, eu ia ser a folha, e tal e coisa, e eu brigando com esse menino porque eu queria a vassourinha, e eu dava a figurinha pra ele, foi, até que ele me deu essa vassourinha. E essa vassourinha, eu fiquei com essa vassourinha na mão, e eu pus na boca, eu só sei que eu engoli a vassourinha, eu engoli o alfinete, e eu ia ser a folha! E eu fiquei desesperada, eu não sabia o que é que eu fazia, eu falei para o meu irmão, porque o meu irmão nessa época estava na mesma escola que eu, quer dizer, entrou eu e meu irmão no primeiro ano. E eu falei para ele que eu tinha engolido, ele falou assim, ele não acreditou que eu tinha engolido o alfinete, não tinha, “mas como que você engoliu um alfinete?”, “não, mas eu engoli”. Olha, e eu fui tão forte, que eu engoli o alfinete e ainda fui lá fazer a folha, fiz direitinho, só que quando eu cheguei em casa, eu cheguei desesperada falando. Minha mãe ficou louca, né? O que é que ela fazia? Ela foi na farmácia, o farmacêutico falou assim: “não, vamos dar um laxante pra ela”, que naquela época eles falavam que era purgante, “aí quem sabe ela, esse alfinete sai.” E foi o que aconteceu. (risos)

 

P1 – Nossa, que perigo!

 

R – É, então, é uma passagem que você lembra de... 

 

P1- Que perigo, menina.

 

R – Isso eu nunca esqueci, essa história, nunca.

 

P1 – E depois do Grupo Brasil, continuou seus estudos nele mesmo ou passou para outra escola?

 

R – Não, depois do, o Grupo só tinha até o 4º ano, né? Do Grupo eu passei para, eu fui estudar no Senac, que na época a gente também não tinha condição financeira para estar pagando escola, e minha mãe conseguiu no Senac, nessa época no Senac tinha desde a admissão até o 4º ginasial, né? Então, a minha mãe conseguiu tudo de graça no Senac, e eu fui para lá, fiquei, fiz admissão, o 1º ginásio, fiz até o 4º. Fiz todos os cursos que tinha no Senac, de embalagem, faturamento, pessoal, a gente fazia tudo, os cursos, datilografia, né? Quer dizer, eu era bem, eu aprendi bem datilografia. E fiz o ginásio lá.

 

P1 – Nesse período, como é que eram as divisões de tarefa em casa? Quer dizer, o seu pai já não estava mais em casa, você caçula, tinha obrigações assim de casa, responsabilidades que a mãe passava para os irmãos, como é que funcionava o cotidiano?

 

R – Não, naquela época não tinha tantas obrigações, minha mãe acabava fazendo tudo. Quer dizer, eu fui uma menina assim pobre, mas eu morei, eu moro hoje, ainda, num lugar privilegiado, e naquela época já era privilegiado o lugar que eu morava. Então, eu tinha muito vizinho que era, o pai já era pintor, quer dizer, eu tenho um vizinho, que nessa época o meu vizinho pintou o Banco do Brasil, quer dizer, foi um dos primeiros prédios aqui em Uberaba, ele ganhava uma nota com isso, né? Então, eu tinha vizinho assim, então eu fui criada, minha mãe me criou mais assim para esse lado, minha mãe sempre falava para mim: “minha filha, você nunca se envolve com gente menos que você, você sempre procura estar indo pra frente com as pessoas.” Quer dizer, ela não tinha muita cultura, então o que é que ela queria para mim? Ela queria dizer para mim que ela não podia me dar o que eu estava almejando, então, que era para mim procurar coisas maiores, né? E eu sempre fui assim, então eu fazia natação, eu sempre procurava onde que tinha alguma coisa pra mim fazer que não gastasse dinheiro, eu fiz natação, eu fazia ballet, eu juntava com as meninas que tinham poder melhor que eu, que o pai tinha emprego, tudo, quer dizer, as que tinham pai, né? E eu ia com elas, quer dizer, eu sempre estava de cara de pau em algum lugar, então eu não tinha tanta tarefa em casa, para fazer, porque uma que a minha mãe trabalhava o dia todo, e menino você já viu, menino fica dentro de casa se a mãe não está? Sempre dá um jeito ir pra rua, né?

 

P1 – Como é que eram as brincadeiras, o lazer que vocês tinham? Quer dizer, na divisão da casa, da escola, como é que vocês se divertiam?

 

R – Olha, eu, até meus dezessete anos, minha casa, eu jogava, na porta da minha casa eu jogava bolinha, biloca mesmo.

 

P1 – Bolinha de gude?

 

R – Adorava, adorava! E a gente, dezessete anos! Eu tenho uma fotografia de dezessete anos eu jogando na rua. Aí depois passaram asfalto, não teve jeito, né?

 

P1 – Claro.

 

R – Mas era sem asfalto, a gente jogava. Gostava muito de brincar de queimada, a gente fazia muito piquenique, porque eu moro num lugar onde que, assim, no alto é uma fazenda, que hoje é loteada, mas na minha época era uma fazenda do mirante, então tinha córrego, tinha frutas, e a gente fazia piquenique, sempre estava fazendo piquenique, fazia comidinha e tudo mais, essas coisas.

 

P1 -  A turminha da rua ali?

 

R  - A turminha da rua, a gente juntava a turminha da rua e ia fazer piquenique. Levava comida para comer lá, nadava, né? E minha mãe trabalhando, que a minha mãe trabalhava de doméstica, de lavadeira, pra manter. Depois de um certo período é que ela aprendeu a costurar, ela entrou no Sesc, e lá no Sesc ela aprendeu a costurar.

 

P1 – E a senhora, quando começou a trabalhar, qual foi o seu primeiro emprego quando já estava mais crescidinha, digamos assim?

 

R – Eu? Quando eu fiz dezoito anos, eu fiz o concurso da CTBC. Com dezoito anos, quer dizer, eu devo ter feito esse concurso em março de 1972, e fui, mudei, nesse ano a minha melhor amiga faleceu, porque a minha melhor amiga ela teve leucemia, ela faleceu nesse ano, eu tinha feito o teste, em outubro ela faleceu. E nessa época, minha mãe estava costurando já com o Marquito, em São Paulo. E eu fiquei com uma tia minha que morava no centro da cidade, que ela era por parte de meu pai, e eu ficava muito na minha casa, mas essa amiga minha morreu, eu fiquei tão, tão assim desnorteada, e a minha mãe para São Paulo, eu fiquei louca, eu fui ficar com a minha tia no centro da cidade. E nessa época eu fiz, já tinha feito o concurso e fui morar na minha tia. Aí a CTBC ligou para o meu vizinho, que nessa época ele já tinha telefone, é um senhor de idade, ele foi lá na casa da minha tia me falar, falou assim: “ó, ligaram lá da CTBC para você ir lá.” E eu fui, dia 26 de dezembro, eu comecei a trabalhar, aí fui e já, quando eu cheguei era uma sala de tráfego pequena, aí falaram: “você vai ser contratada para você ser telefonista.” Porque, naquela época, era só telefonista que tinha. Eu achei maravilha, né? “Não, vamos continuar”, e tudo. E comecei a trabalhar, aprendendo o serviço, nós tínhamos a nossa chefe, a Paulina, ela era ótima, eu tenho conhecimento com ela até hoje, eu tenho, ela morou em Olinda, hoje ela mora em São Paulo, a gente tem conhecimento, ela esteve há pouco tempo aqui em Uberaba, ela foi lá na CTBC me ver, e ela foi a minha primeira chefe. E, naquela época, o tráfego só tinha um circuito para São Paulo, era tudo manual, tudo manual, e tinha, quando eu entrei tinham doze telefonistas, ou dez telefonistas. E quando eu saí, depois de oito anos, que eu deixei de ser telefonista, que eu passei para outra área, a gente já era em quase 60 telefonistas, né?

 

P1 – Onde é que ficava esse local?

 

R – Esse local ficava ali no centro, naquele prédio menor onde, que hoje funciona a Telemática, né? Que é um prédio, me parece que hoje é até um prédio da Algar, então era ali, era uma sala pequena que tinha o tráfego.

 

P1 – E o que é que te atraiu na telefônica, por que é que foi fazer concurso na CTBC?

 

R – Ah, não sei. Minha mãe estava trabalhando para o Marquito em São Paulo, e foi por intermédio de uma costureira que morava perto da CTBC, e eu por acaso fui na casa dela para saber se tinha recado da minha mãe, de São Paulo, porque a gente não tinha telefone, e ela pegou, e de certo ela olhou em mim e falou: “gente, essa menina está bem grandinha, ela está precisando é trabalhar, fica procurando recado da mãe”, ela pegou e me falou: “Daice, a CTBC...”, não, não era CTBC, era Empresa Telefônica, né? Todo mundo falava Telefônica. “Lá na Telefônica vai precisar de moça para trabalhar, por que é que você não vai lá?”, e eu fui, eu fui, cheguei lá fiz a inscrição, aí a moça falou para mim: “a prova vai ser tal dia”, tinha prova, eram muitas candidatas que tinham, não eram poucas candidatas, tinham muitas.

 

P1 – Era Ettusa ainda?

 

R – Era Ettusa, Empresa Telefônica de Uberaba. Mas eu fui funcionária da Ettusa muito tempo, né? Depois com a, com a opção para, quando a gente fez a opção para Fundo de Garantia, né, eu não sei se você lembra disso?

 

P1 – Sim.

 

R – Aí que foi quando passou a ser CTBC, já tinha, a gente tinha que ser optante pelo fundo.

 

P1 – E como é que foi o seu aprendizado para ser telefonista? Porque era um processo, assim, de aprender os códigos, a fraseologia, como é que isso se deu?

 

R – Nada, eu fui ótima! Depois ó, com três meses minha chefe já me adorava já, eu era super eficiente, tanto é que tinha um circuito para São Paulo, só um, que já tinha as telefonistas que eram assim, já eram, já tinham, como se diz, cadeira cativa naquele circuito, que era mais fácil, não precisava você ficar gritando, pegando ruído, aquelas coisas. Ela já deixava eu trabalhar com o circuito de São Paulo, porque eu sempre fui muito ágil, eu sempre, assim, não elétrica, que eu não sou elétrica, assim, não sou ansiosa, não, mas eu sempre gostei das coisas bem com agilidade, sempre gostei de ser formal com as pessoas, então ela achava ótimo aquilo, então ela já me punha para trabalhar. Mas assim, eu levava tudo pra casa, eu decorava tudo, tudo, tanto que eu já sabia de cor todos os números das localidades, para fazer as bilhetagens, que era tudo manual, a gente tinha que colocar o código de Uberaba, da localidade de destino. Então, aquilo tinha um caderno, a gente decorava tudo, eu levava tudo para casa, porque eu queria que eles me registrassem, e eu fui registrada em março de 1973, né? Eu queria ficar, eu levava para casa, eu decorava, ensaiava, eu tinha um gato, eu punha ele em cima da televisão, eu ensaiava com ele. Ensaiava os códigos, o que é que eu ia fazer, o que é que ia falar, como que tinha que ser, né? Tudo isso, eu falava. Quer dizer, eu tinha muita vontade de trabalhar, porque eu fui uma menina pobre, mas minha mãe tinha muito luxo comigo, eu sempre estava de roupa nova, então minha mãe, muito luxo ela tinha. Mas eu queria trabalhar, porque eu nunca, nem sabia o que é que era dinheiro, né? Porque dinheiro mesmo eu não tinha, minha mãe me dava as coisas, mas não me dava dinheiro, eu tinha as coisas, às vezes ganhava também. Mas, quando eu recebi o meu primeiro salário, hoje eu falo para as meninas, porque todas que entravam para trabalhar comigo, recebiam o primeiro salário, “ai, quero comprar um som, quero comprar um som”, eu, meu primeiro salário eu comprei um relógio Seiko, porque eu era apaixonada para ter um relógio. Hoje eu tenho tanto relógio, que não uso nenhum. É a coisa mais interessante, não é? Hoje já não faz parte de mim aquilo, mas eu era apaixonada, peguei o meu salário, eu lembro até hoje, era 268 não sei o que é que era na época, se era Cruzeiro, eu peguei o salário, fui lá e comprei um relógio. Cheguei em casa, minha mãe: “mas você não recebeu?”, “recebi, olha o que é que eu comprei”, era o relógio. Quer dizer, fiquei sem o salário, né?

 

P1 – Como é que era essa fraseologia, esse tipo de código, dá um exemplo para nós. Como é que quem intermediava as ligações, como é que atendia, como é que passava adiante, como é que completava uma ligação?

 

R – Olha, tinha o painel, né? O painel era cheio de, tinha o buraquinho, e tinha, em cima do buraquinho tinha uma luzinha, E embaixo tinha as pegas, igual àquelas pegas de forno, então as pegas é que davam a transmissão, a transmissão era feita com as pegas. Então quando um cliente, hoje a gente chama de cliente, mas, antigamente, na época a gente chamava de interurbano. Depois eu vou te contar uma historinha de um interurbano. Chamava interurbano, e a gente não podia falar o nome também, não podia de jeito nenhum, a gente chamava interurbano também. E a gente atendia, a luzinha, quando a luzinha acendia era porque tinha um assinante na linha, aí você punha a pega, abria uma chave e falava: “interurbano”, aí ele falava: “eu quero uma ligação para...”, vamos supor, São José do Rio Preto, “quero uma ligação para São José do Rio Preto.” Aí você fazia, tinha o bilhetinho, você colocava, “que número que é o telefone?”, ele passava o número do telefone, aí você perguntava se tinha alguma pessoa específica para ele falar, porque nessa pessoa específica a tarifa era maior, né? Porque era uma taxa especial. Ele falava assim: “não, qualquer pessoa que atender”, ou dava o nome da pessoa, né? Aí você punha Uberaba, punha o número da gente no bilhetinho, o nome, o número, eu era número três, sempre fui número três. E você completava, aí você pegava, ou se estivesse disponível o circuito, porque eram poucos circuitos, se estivesse disponível você podia completar com ele na linha mesmo, a ligação. Mas, normalmente, se eu pegasse uma ligação para São José do Rio Preto, tinha que passar por São Paulo e, às vezes, geralmente era outra que fazia, então você passava o bilhete pra frente, a outra ligava, chamava o cliente, para estar completando a ligação para ele. Se fosse uma ligação especial você tinha que já por a pessoa na linha, porque ele só queria falar com aquela pessoa, outra pessoa não servia. E assim era, várias, várias, e você punha o bilhetinho assim, tinha um relógio que era o telefonógrafo, telefonógrafo não, não era telefonógrafo, tinha um outro nome, é um relógio de você marcar os minutos, então, quando iniciava a ligação, você batia de um lado, carimbava o reloginho, né? Aí, quando terminava a ligação, você carimbava do outro lado, aí vinham os ponteirinhos do relógio na hora que, eram dois reloginhos, um no início, outro no fim. Então, aquilo ali depois você tinha que codificar, por o número da cidade, porque o faturamento era feito por números, né? Por números de cidade que era feito o faturamento, e fazia, a gente mandava para Uberlândia, porque o faturamento era feito lá, então, tinha uns dias de você mandar os pacotes para Uberlândia, das ligações. Mas eram todas ligações manuais, quer dizer, Uberaba tinha quatro circuitos para São Paulo, e São Paulo que ligava tudo.

 

P1 – E a senhora, às vezes, conseguia fazer esse tipo de anotações no bilhete, para garantir a tarifa depois, atendendo mais de uma pessoa? Às vezes não dava um, não embolava o meio de campo ali na mesa?

 

R – Não, não, ih, ó! A telefonista excelente era aquela que você olhava na posição dela, vamos supor, cada posição tinha, e são pares de pegas, uma pega com o cliente, outra pega no circuito. Então, me parece que eram dez ou doze pares de pegas, então, a telefonista excelente era aquela que, você olhava na mesa dela, estavam todas as pegas funcionando, e todas com os bilhetinhos marcadinhos, tudo organizadinho ali. Você olhava na mesa de uma, só tinha uma pega, ela enrolava. Mas, então, tinha que estar ali, eu achava lindo, ficava tudo certinho, tudo arrumadinho. E você, às vezes, não, no começo a gente mesmo fazia essa codificação, a própria telefonista fazia, porque você tinha o IGL, que é o Índice Geral de Localidade, para você pegar os números. Mas, depois, quando foi aumentando os circuitos, porque aí depois teve circuito, já tinha dez circuitos para São Paulo, dez para o Rio, aí já tinha para Uberlândia, aí já tinha, já foi aumentando, tinha uma pessoa específica para fazer essa codificação. A pessoa mesmo fazia a codificação, ela arrumava, tudo, porque aí já eram muitos bilhetes, que foi quando a empresa, você já via que a empresa já estava crescendo, que era tanta ligação, tanto bilhete, eu imagino o que chegava de Uberaba, de Uberlândia, de Franca, de tudo, eles foram vendo, “gente, nós temos que acabar com esse manual, né? Nós temos que dar um jeito de priorizar isso aí.” E eu fui uma que depois de oito anos, que eu trabalhava de telefonista, eu passei, eu fiquei uns seis anos na posição, mas depois eu já passei para ser essa pessoa que fazia essa bilhetagem, porque eu sempre tive ótima memória para número, eu guardava tudo, eu codificava tudo aquilo.

 

P1 – Mas a senhora, ainda nesse momento que estava lá na posição, às vezes as ligações não eram tão rápidas, às vezes o assinante lá do outro lado ficava impaciente, como é que a senhora administrava aquela impaciência, às vezes a falta de educação de um ou outro, como é que era isso?

 

R – Não, mas a gente tinha um prazo estipulado para dar para o cliente, porque se a gente tivesse uma, vamos supor, o cliente pediu um interurbano para Porto Velho, você dava um prazo para ele de dez horas, doze horas, às vezes não era nem você que ia fazer aquela ligação, seria outra telefonista. Mas isso, a gente tinha que ligar em São Paulo, passar para São Paulo que a gente queria falar em Porto Velho, ela ainda ia ver que horas que podia fazer a ligação, às vezes demorava até 24 horas para você falar em Porto Velho, não era simples, não. Então, a gente, a gente falava para o cliente se ia demorar uma hora, até fazer direto, assim, no começo era difícil, mas depois a empresa foi ampliando isso aí, ela foi abrindo, foi diminuindo as horas. Então, sempre saía no jornal que interurbano estava demorando demais, e tudo, que já tinha implantado o DDD e tal, e a empresa, ela cresceu com isso aí. Mas tinha muito problema com o cliente, muito problema, porque, olha, era caso de morte, então, quando era caso de morte a gente escrevia no bilhete com caneta azul: “é caso de morte, a pessoa tem urgência”, tudo isso. Na época de exposição, que tinha que, os repórteres passavam tudo por telefone, então, debaixo de um, você ficava sabendo tudo o que estava acontecendo, tudo, eles passavam tudo para revista, para jornal, “O Estado de São Paulo”, era tudo por telefone. Então, quando chegava a exposição, a Paulina já organizava já circuitos para São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, quer dizer, o Presidente, ele tinha um circuito só pra ele, ninguém podia usar aquele circuito, porque o presidente ia falar, ou precisava de assessor, ou o que precisasse o presidente, aquilo ali ia ficar reservado para ele. Na época de exposição, quando ele estava era tudo, tudo sigiloso, então, quando falava que o presidente vinha para a exposição, fechava os canais, era só aquele ali, porque não podia ter rastreamento de nada. Então, tudo era estipulado prazo, mas cliente que xingava, ou pressa, sempre tinha aqueles, então você acaba conhecendo todos os clientes, quando você atendia, que você ouvia a voz, você já sabia, porque era o gerente do banco, era o dono da, de uma transportadora, você já sabia até onde ele fa..., você sabia o telefone de cor, da filial de São Paulo, da filial de Belo Horizonte, você sabia de cor os telefones, você sabia.

 

P1 – Mas não podia dizer, mostrar isso para ele, né?

 

R – Você não podia mostrar isso para ele, né? Não, de jeito nenhum, você não podia nem falar o seu nome, a gente era número, era, não podia estar falando. Depois que, com a abertura da empresa, aí sim a gente podia estar falando, mas no início mesmo, não.

 

P1 – A senhora falou de uma historinha de interurbano aí, que era uma história interessante...

 

R – Não, você vê que é tão, coisa assim, interurbano, interurbano. (risos) Um dia eu cheguei numa banca de verdura, e eu adoro cajamanga, e eu peguei e perguntei para a mulher, eu peguei e falei pra ela: “interurbano”, chamei a dona da verdura de interurbano! Que ela estava assim de lado, eu, em vez de eu chamar “fulana”, não, eu: “interurbano.” (risos) Ai, meu deus, mas ela riu tanto!

 

P1 – Sabia que a senhora era telefonista?

 

R – Ela?

 

P1 – É.

 

R – Sabia, sabia. Ela achou muita graça, né? De eu chamar ela de interurbano...

 

P1 – Dona Daice, esse período que a senhora sai da posição e vai para o controle ali de bilhetes, e tudo o mais, melhorou um pouco a sua vida, não é? Porque os turnos agora, o horário agora passa a ser mais...

 

R – Ah, melhorou. O meu turno era fixo, e a minha vontade era essa, porque eu estudava, eu queria estudar, e você sendo telefonista não tinha, você não tinha período, porque uma semana você estava durante o dia, outra semana você estava à noite, e eu queria. E, nessa época, eu consegui, para eu terminar meus estudos. Eu consegui, então foi bom, assim, apesar de que salário assim, não, sabe, mas para mim foi, os horários, foi ótimo.

 

P1 – Como é que as telefonistas eram, a imagem das telefonistas na comunidade, assim, como é que as pessoas viam as telefonistas?

 

R – Olha, infelizmente, naquela época era muito mal, falava que era telefonista ou enfermeira... Você vê o tanto que as coisas revertem hoje em dia, né? Mas, antigamente, não sei se é porque a gente trabalhava à noite, mas não tinha uma fama boa, telefonista não tinha, nem enfermeira.

 

P1 – E nem o exemplo, assim, da vida cotidiana, não fazia essa imagem mudar, enfim?

 

R – Não. 

 

P1 – Mesmo para as pessoas que conheciam as telefonistas?

 

R – Não, o que eu imagino, assim, quem conhecia, conhecia, sabia quem era a pessoa. Mas, assim, de um modo geral, na comunidade geral era mal vista. Tanto é que nós, tinha moça que trabalhava lá que namorava com cara até bem, sabe, que era família tradicional de Uberaba, mas nem chegou a casar porque a família não quis mesmo. Nós temos isso aí, vários casos, vários casos de telefonista que namorava, porque você conversando, eu não sei se você já passou por essa experiência, mas de tanto você atender um cliente, e tudo, você acaba tendo empatia por aquele cliente e tal, então, isso acontece muito com telefonista, muito. Às vezes por uma voz, quer dizer, tem muitas histórias disso, de casos de amor, que começaram assim, né?

 

P1 – É mesmo?

 

R – É, tem muitos. Então, aquilo ali, aí você ia ver, quer dizer, você, era Prata, era Rezende, era Rodrigues da Cunha, Uberaba, era família tradicional, namorando uma telefonista? E nós tivemos muita telefonista bonita, bonita, não tinha telefonista feia, era tudo moça nova de corpo bonito, a maioria era bonita. Então o cara apaixonava, mas ele não podia, como que ele ia namorar uma telefonista!? Então ficava aquele namoro escondido, entendeu? Que é, que vem a fama, a fama de, quer dizer, a fama de ser amante, de ser a segunda, né? Tem isso tudo.

 

P1 – No seu caso pessoal, assim, isso chegou de algum modo a lhe incomodar, lhe, enfim, a senhora sentiu em alguma medida esse preconceito, teve alguma situação que foi constrangedora?

 

R – Não, comigo nunca aconteceu, você sabe por que? Porque eu vim de uma família, minha mãe era uma pessoa muito, assim, muito, não é que ela era rígida, ela era uma pessoa sincera com a gente, ela não escondia nada da vida, né? Então, quando eu já entrei pra trabalhar que, no princípio, quando eu comecei a sair dez horas da noite, quer dizer, eu era novinha, com dezenove anos eu saía dez horas, onze horas de casa, para ir trabalhar. Que foi quando a gente sentiu, assim, que eu falei para minha mãe, minha mãe já me falou tudo, minha mãe falou: “ó, é assim, você, as pessoas vão falar, mas não tem nada a ver, você tem que ser você, você tem que ter o seu caráter, você é que tem que saber quem é você, você não tem que preocupar com as outras pessoas, com o que as pessoas falam.” Então, a minha mãe nunca pôs preconceito na gente, tanto é que eu, hoje eu não tenho preconceito de nada, então a minha mãe, ela fez de tudo para não deixar a gente com esse tipo de preconceito. Eu não ligava, para mim tanto faz falar como não falar, é igual hoje, eu não estou muito preocupada com as pessoas, porque não adianta você preocupar com as pessoas, você tem que ser você mesmo, assim, ser sincera com as pessoas, olhar no olho da pessoa para você conversar com ela, para você estar passando alguma mensagem, porque, é dizer, minha mãe nunca ensinou a gente a mentir, xingar. Então eu tive uma formação, e com essa formação eu não me esmoreci, porque eu não tinha pai, outro agravante para mim, eu era filha de mãe desquitada, era um agravante péssimo! Tanto é que eu casei com 30 anos, eu tive vários namorados, namorei médico, dentista, engenheiro, né? Namorei pessoas bem de vida e tudo, mas não podia casar, porque outro agravante para telefonista era isso; a telefonista, ela podia namorar, mas ela não podia casar, porque a CTBC não permitia ela casar. Naquela época, se casasse, até 1970, me parece que até 1979, 1978, se casasse não precisava nem de voltar. Depois, casou, a empresa liberou para casar, e naquele ano casou todo mundo, todo mundo casou, eu, a Vanilda, a Vanilda que estava aqui, ela casou. Casou junto comigo, no mesmo ano, aí ela, nós casamos e tudo, aí, nossa, não podia ter filho de jeito nenhum! Se tivesse filho, Nossa Senhora! Ia, era mandado embora. Aí ninguém podia ter filho, eu demorei três anos pra ter filho, né? Quer dizer, ainda fui ter a minha segunda filha com 39 anos, minha filha tem dez anos, demorei muito a ter. Então, isso já era um agravante para esse tipo de preconceito. Quer dizer, telefonista só podia ser a outra, ela não podia ser a primeira, pois ela não podia casar, né? E o Sindicato veio na CTBC, e tal, e com aquele andamento, e tudo, a CTBC acabou deixando isso acontecer.

 

P1 – Nessa sua trajetória, quero dizer, saindo do tráfego, indo lá para a administração, digamos, dos bilhetes, e daí como é que foi a sua continuação, como é que foi o processo do seu desenvolvimento dentro do seu trabalho na CTBC? Dali pra diante foi fazer o quê?

 

R – Dali, assim, as meninas sempre falando assim, porque era, era bom ser telefonista, eu sempre gostei, mas tinha aquelas que não gostavam, né? Tem aquelas que trabalhavam por trabalhar, né? Ou precisavam do dinheiro, então elas falavam que: “ai, deus me livre desses horários, gente, por que é que não muda esses horários?”, todo mundo reclamava de horário, tinha que fazer plantão, que o plantão era muito grande, podia dividir, cada uma trabalhar a metade da noite e outra noite. E eu falava para elas, eu falava assim: “eu não vou ser telefonista nem mais um ano, isso aí eu garanto pra vocês, eu vou fazer de tudo dentro dessa empresa para mim não ser telefonista mais, eu tenho que crescer, eu tenho.” Mas o escritório era o luxo da empresa, o escritório era ali na, como se diz? Na redoma, né, de coisa, nossa, era intocável ali, né? E eu falava isso, mas ela falava assim: “como que você vai?”, eu falava: “você vai ver se eu não vou.” Eu sempre falava isso para ela, e no outro ano me puseram na bilhetagem, quer dizer, já foi um passo para mim. Aí, eu na bilhetagem, eu tinha mais contato com o pessoal do escritório, eu sempre estava lá pedindo alguma coisa, e tal, e eu fui indo, fui indo, né? E a dona Joana Abraão era mais fã da Vanilda. Aí faltou uma no escritório, a Joana Abraão, que era a chefe do escritório, você não entrevistou ela, não? A dona Joana Abraão?

 

P1 – Ainda não.

 

R – Ela é ótima, ela está na lista, ou não?

 

P2 – Ainda não, mas agora está.

 

R – Ela, ela foi, a dona Joana Abraão, ela é ótima, eu conversei com ela há pouco tempo, me parece que ela está com um probleminha de saúde que ela não está andando, mas ela foi a primeira chefe do nosso escritório. E ela era fã da Vanilda, ela pegou e chamou a Vanilda para trabalhar no escritório. Nossa, e a Vanilda ficou toda inchada! Eu falei: “Gente, mas eu que tinha que ir, não era a Vanilda que tinha que ir, mas pode deixar.” Aí a Vanilda foi. Quando, e o escritório só foi crescendo, porque tinha, acho que tinha mil telefones instalados nessa época, eram pouquíssimos telefones, que era a Gama 332, que foi a primeira, eram uns mil telefones. E veio, já era pra vender mais telefone, a empresa ampliando a rede e tudo o mais, mandaram o Durval, nessa época o Dr. Weber que era o gerente, né? E a dona Joana do escritório. Mandaram o Durval, de Uberlândia, pra vir para Uberaba fazer a campanha de venda de telefone, e o Durval veio para Uberaba fazer a campanha de venda. E para vender, naquela época você tinha que, não tinha aquela propaganda, aquela mídia e tudo, então, “vamos atrás”, né? E ele montou um esquema de venda, foi o primeiro esquema de venda feito em Uberaba, foi o Durval que montou, ele montou o esquema de venda, só que falou assim: “mas quem é que vai vender?”, né? Bom, aquela mulherada no tráfego, que tinha umas cinquenta, ele foi de olho nelas, e foi, conversou com a chefe: “se eu precisar”, e tal e coisa, “não, tudo bem”, tal. Ele pegou, foi e escolheu, ele escolheu algumas, né? Aí ele falou: “não, eu quero a Daice também”, né? “eu quero a Daice”, “mas a Daice, ela mexe com bilhete”, “não, ela vende nas horas vagas”, né, “ela vende, na hora que ela não estiver trabalhando ela vende.” E nós fizemos isso.

 

P1 – O seu Durval, que a senhora fala, é o seu Durval Barbosa, né?

 

R – Durval Barbosa.

 

P1 – Está certo. E aí a senhora foi vender telefone?

 

R – Fui vender telefone, na rua, de salto. A gente ia lá para o bairro São Benedito, batia de casa em casa para vender telefone, fazia contrato, né? E vendemos muito telefone, vendemos telefone em Uberaba inteiro, e ele sempre chefiando aquilo ali, quer dizer, eu estava lá na bilhetagem, mas já estava na coisa. E ele gostou muito do meu serviço, ele pegou e falou para mim, falou assim: “olha, o dia que eu entrar nesse escritório aqui, eu te trago pra cá”, ele falou pra mim, ele me prometeu isso. E não deu outra, ele, como a campanha de venda dele foi muito boa, conseguiu vender bastante telefone, eles logo passaram ele para fazer parte do Setor Comercial, quer dizer, foi a implantação do Setor Comercial; era um escritório, mas dividiu a parte comercial, e ele ficou. E eu fui trabalhar com ele, dentro do escritório, nessa época eu já ia, eu já fui direto mexer com a área financeira, que era pra fazer, tinha que fazer vale para os motoristas, nota fiscal, porque as coisas, era tudo pago por Uberlândia nessa época, os cheques vinham prontos. O Sr. Wilson, né? Você entrevistou ele também, o Sr. Wilson?

 

P1 – Não, o Sr. Wilson, não.

 

R – O Sr. Wilson, ele era o chefe da Tesouraria nessa época. Era tudo feito por cheque, e tudo, eu comandava tudo aquilo ali, né? Eu lembro de uma passagem, assim, logo que eu comecei, quer dizer, eu fui para um Setor Financeiro, eu me dei muito bem no Setor Financeiro, mas que eu não tinha conhecimento nenhum daquilo ali, nenhum. E o Dr. Weber, todo final de sexta-feira ele conferia o caixa, porque o caixa era coisas que a gente recebia, que o cliente pagava de transferência de nome, era tudo pago ali, e a gente fazia vale para os motoristas, e pagava posto de gasolina, pagava, fazia pagamentos. Então, era um caixa que tinha débito, crédito, tinha o saldo. Eu comecei, eu sei que na primeira semana ele me chamou na sala dele, tinha uma pasta, tinha uma caixa, aquela coisa toda, ele me chamou, então, aí ele, muito educado, sempre que você entra, até hoje acho que ele é assim, sempre que você entra na sala dele, ele levanta, te cumprimenta e tudo. Aí a gente morria de medo dele, nossa, falava que o Dr. Weber vinha, nossa! A gente ficava louca, né? Aí ele veio, falou assim pra mim: “Daice, me dá os papéis para eu assinar”, não, “me passa os vales para eu assinar”, passei tudo pra ele, os vales, “não, me dá as notas”, passei as notas, tudo pra ele assinar, e tal. Aí ele começou a conferir, ele assinava tudo e escrevia atrás o que é que era, comprou para quê, ele sempre foi muito organizado, ele escrevia tudo, ele, era tin tin por tin tin as coisas dele. Aí ele pegou e falou: “olha, você...”, aí eu apresentei o que eu tinha de dinheiro em caixa pra ele, ele falou assim: “mas você tem só isso? Aqui tem tanto, como é que é esse negócio aí?”, eu falei: “não...”, e ele querendo me, ver se eu sabia, mas eu não sabia nada, eu não sabia nem o quê que era o saldo, ele falava: “Daice, mas você tem um saldo de tanto, você tem que ter isso aí em dinheiro”, eu falava: “Dr. Weber, mas o que eu tenho em dinheiro é só isso aqui”, ele falava assim: “não, mas não pode ser, você tem que ter mais, você não pode ter só isso”, eu falei assim: “não, Dr. Weber, mas eu não tenho”, “não, então eu vou chamar o Durval, para ele ajudar você a olhar isso aí.” Aí, ele chamou o Durval, o Durval foi lá na minha mesa, “uai, Daice, o quê que é que o Weber tá falando?”, eu falei: “não, ele quer que eu tenha isso aqui de dinheiro, Durval, não tem”, “Mas onde você achou isso?”, “não, eu somei, diminuí, somei, diminuí, e sobrou isso aí, mas eu não sei o quê que é isso aí”, ele falou assim: “não, Daice, isso aqui é o saldo, é o dinheiro que você tem, os vales que você fez para os motoristas viajarem, aquilo é dinheiro também...” Quer dizer, eu nem sabia o quê que era saldo e eles me puseram no setor, e eu fui aprendendo tudo isso com ele, quer dizer, o Dr. Weber me ensinou coisas assim, ele sentava e falava pra mim: “Daice, senta aí na máquina e bate uma carta pra mim”, eu começava a bater, ele dava uma olhadinha lá, ele falava assim: “não, pode continuar, depois eu confiro.” E eu punha a carta na mesa dele, ele conferia tudo, quer dizer, ele me ensinou até concordância verbal, ele me ensinou a fazer em carta, porque eu realmente não sabia, eu saí, eu era telefonista, né? E eu fui aprendendo, fui aprendendo, e tudo. Depois, ultimamente, ele só chegava pra mim e falava: “olha, você faz uma carta”, assim, assim, assim para mim, acabou, eu chegava lá, ele assinava, bonitinho, numa boa. Porque são as coisas que você vai aprendendo, né?

 

P1- Certo, claro, claro. Nesse período, a senhora chegou a travar contato com o Sr. Alexandrino Garcia?

 

R – Tinha, tinha contato com ele também, ele vinha...

 

P1 – O que a senhora me conta dele?

 

R – Ah, ele gostava muito de estar assinando cheques, né? Quer dizer, eu acho que foi um custo pra eles, assim, na época que mudou, porque depois não tinha cheque mais, nem precisava disso. Mas os cheques eram todos assinados por ele, era tudo controlado, a gente tinha que estar mandando o controle para ele, né? Agora, a vinda dele aqui em Uberaba, que eu lembre assim, aconteceu pouco, não era frequente, não. O Dr. Luiz, ele vinha mais, quando ele era bem jovem ele vinha mais que o Dr. Alexandrino. O Dr. Alexandrino, a gente via ele muito em Uberlândia, todas as vezes que a gente ia em Uberlândia ele estava no corredor, ele cumprimentava a todos, né? Conversava, perguntava de família, sempre com o bonezinho, a pasta, muito bem arrumado. Teve uma época que eu ia muito em Uberlândia, porque aí, com esse Setor Financeiro meu, eu já passei até a mexer com as ações, então eu ia muito no Setor de Ações, para estar mexendo com procuração de venda de ações, aquilo, e ele trabalhava no prédio onde era o Setor de Ações. Então a gente sempre estava, tinha uns bancos, assim, na parede, a gente sentava nesses bancos e conversava.

 

P1 – Como é que era ele, dona Daice, como é que...?

 

R – Ah, ele era muito carismático, né? Mas era muito, assim, era bem impositivo também, essa pessoa assim, sincera com você, não era aquela de ficar passando a mão na sua cabeça, ele não era paternalista, como se dizem hoje, né? Ele era bem impositivo e, é igual o Dr. Luiz é hoje, o Dr. Luiz, ele vê uma coisa, ele fala aquilo e é aquilo, né? Parece que ele via, e falava: “gente, não é assim, tem que ser assim, vocês seguem isso”, ele era assim. Eu acho que o Dr. Luiz herdou isso aí dele.

 

P1 – E a convivência com o Dr. Luiz foi maior, então, como a senhora disse, teve mais tempo com ele?

 

R – Tive mais tempo com ele, porque ele vinha muito em Uberaba, né? E a gente conversava mais com o Dr. Luiz, a gente tinha mais acesso ao Dr. Luiz.

 

P1 – O quê que ele procurava saber?

 

R – Ah, ele sempre procurava saber de, ele sempre se preocupava, assim, com problemas de venda, né? Ele preocupava com as vendas, ele queria saber como que estavam indo as coisas, naquela época a gente, assim, não tinha um índice para mostrar, hoje tem índice, você entra e faz, e tudo. Mas naquela época não tinha assim um índice, ele queria saber “Como que estão indo essas vendas? Quantos telefones nós já vendemos?”, o que você podia falar, vendeu 500, vendeu 100, né? Então ele era mais preocupado com isso, ele não preocupava assim com, com alguma ação, essas coisas. Depois, mais pra frente é que ele foi, a preocupação dele já era, assim, com o visual, ele queria uma coisa bem arrumada, então, quando falavam que ele vinha, nossa, não podia ter um papel em cima da mesa, “vocês tiram essa papelada”, nossa! “O Dr. Luiz vai chegar, vocês arrumem tudo.” Ele chegava na sua mesa, queria saber o quê que você estava fazendo, o quê que você fazia, qual era o seu trabalho, ele perguntava tudo isso, quer dizer, ele sempre interessou demais pelo funcionário, por você estar fazendo. “O quê que você faz?”, ele perguntava: “o quê que você faz?”, “ah, Dr. Luiz, eu faço o vale para o pessoal ir viajar...”, “então, muito bem, esse pessoal te dá muito trabalho?”, “não, não dá não”, “te acertam direitinho?”, queria saber se o pessoal acertava, “acerta, acerta”, “se não acertar a gente vai atrás.” Então, ele era muito assim, perguntava, conversava com todos, sempre estava na rodinha conversando, ou sentado em algum lugar. Mas ele, quando ele chegava, era salada de fruta que oferecia para ele, era a Rosa Cruz que fazia salada de fruta. O Dr. Weber chegava e falava assim: “O Dr. Luiz nessa época, ele está só comendo abacaxi”, a Rosa ia e fazia abacaxi, tudo o que ela fazia ela punha abacaxi, ele não comia nada, às vezes comia um pedacinho só e ia embora. Aí nós, “não, ainda bem que sobrou lanche pra todo mundo!”

 

P1 – Dona Daice, aí quando a senhora, enfim, finca raízes no escritório, não sai mais do escritório? Fica o seu desenvolvimento profissional todo lá?

 

R – Não saí mais do escritório, todinho. Aí, no escritório, já fui fazer parte mesmo do escritório, que o escritório já foi crescendo, já teve que ser dividido por setores, né? Então, tinha o Departamento Pessoal, já tinha, e o Departamento que mexia com recebimento de contas, porque aumentou, né? Os telefones que o Durval começou a vender, com aquele aumento já teve que estar montando essa parte de recebimento, então chamava Recebimento de Contas, e fazia cobrança também. Então, ali a gente elaborava bloqueio, a gente recolhia, fazia depósito do dinheiro dos bancos, passava para Uberlândia, para ser digitado em Uberlândia, e fazia a lista de bloqueio, a gente ia para os bancos buscar as contas que não tinham sido pagas, para trocar pelas outras. Então foi, a gente ia para o DG fazer bloqueio, chegava no dia de bloqueio, às vezes no DG tinha um, dois, ia eu e a Vanilda, era só, a gente aprendeu tudo do DG, tinha os buraquinhos, quando você bloqueava, você punha uma pega, então eu ia cantando, e ela ia bloqueando, ou a gente ia cantando e o Dr. Weber mesmo, ele gostava muito de fazer bloqueio, o Dr. Weber, ele adorava ir no DG fazer bloqueio! E a gente cantava, e ele, ele achava bonitinho. Depois, passava uns três dias, ele queria saber: “Gente, quantos que pagaram?”, a preocupação dele era, “Quantos que pagaram?” Ele ia lá no DG, pra ele fazer aquele visual novamente, se as pedras tinham sido retiradas. Mas era um índice muito bom de recebimento, naquela época, a gente sabia direitinho, controlava, né? Quando a gente bloqueava um telefone errado, Nossa Senhora! O Dr. Weber: “eu quero saber quem é que bloqueou esse telefone desse cliente! Porque é justamente o cliente...” tal, o cliente fulano de tal, né? E virava aquela coisa, sei que, no fim, dava tudo certo. Mas foi assim, foi uma época muito boa também, uma época de crescimento da empresa, você via a empresa crescendo, assim, crescendo mesmo, sabe? Porque sempre tinha mais uma coisa para fazer, sempre aparecia uma coisa nova que precisava de outra pessoa, para estar ensinando e instruindo, pra você estar fazendo aquele outro serviço, sempre tinha. Eu vou te falar, olha, nesses 29 anos meus de empresa eu acho que não teve um dia que não aparecesse uma coisa, “isso aqui é novo”, até hoje, até hoje. Você vê, hoje eu não trabalhei de manhã, é eu chegar lá à tarde e ter uma coisa diferente. Então, isso para mim, o gratificante para mim é isso, eu acho ótimo isso aí, porque eu gosto, eu gosto só de coisa nova, coisa que cresce, não gosto de nada que anda pra trás.

 

Troca de disco

 

P1 – Mas, dona Daice, neste período de franca expansão, que foi mesmo um momento de muita instalação de novas linhas, crescimento da empresa e tudo o mais, a senhora ficou mais dedicada ainda a esse sistema de cobrança? O seu trabalho no escritório era mais nesse setor de contas a receber, a pagar, era esse o seu negócio?

 

R – Era.

 

P1 – E a senhora continua nisso até agora?

 

R – Eu continuei até agora, recente, até 2000. Que foi quando esse setor foi centralizado em Uberlândia, nós éramos em doze no setor, aqui em Uberaba só ficou eu e a Sandra, que hoje a Sandra mexe com orçamento, e eu fui, eu fiquei na área de mercado, fiquei com o Gilberto Fernandes na área de mercado. Mas eu mexi com isso a vida toda, a vida toda, é contas a receber, contas a pagar e cobrança, acerto de cliente, até hoje, eu estou na área de mercado, mas até hoje eu mexo com a área financeira. Hoje eu trabalho num setor, que eu estou atendendo em média 70 clientes por dia, eu atendo, sou uma atendente e faço negociação de dívida, quer dizer, a negociação de dívida é feita na minha sala, eu e outra menina que estamos trabalhando.

 

P1 – Dona Daice, nessa relação, quer dizer, “trate bem o cliente, porque ele é quem paga o seu salário”, como que é o segredo do tratamento? Porque, às vezes, a senhora podia estar encontrando pessoas que não estavam necessariamente calmas, não eram necessariamente educadas, e, de repente, a senhora estava ali fazendo uma interface da empresa com aquele cliente, como que é o cliente? Como tratá-lo, como relacionar-se com ele?

 

R – Olha, eu sempre fiz o serviço interno, então, vinha alguém de Uberlândia para mudar setor, e tal, você fazia teste, eles faziam (piai?), sempre eles falavam pra mim que eu não tinha perfil, que eu só tinha perfil mesmo pra fazer serviço interno. Eu tinha certeza que eu não tinha, mas eles falavam, você vê como que é a contradição, quando você conhece você não adianta outra pessoa falar, porque você sabe o que você é. Então, eles falavam que eu tinha perfil só para trabalhar ali naquela área interna, que era estar fazendo caixas, acertando bancos, que é o que eu sempre fiz, que a empresa ela tinha conta em todos os bancos, você tinha que controlar extrato bancário e tudo o mais, e passar tudo aquilo certinho pra Uberlândia, porque hoje você tem e-mail, mas naquela época não tinha e-mail, né? Nem fax não tinha, você passava, mandava as cópias assinadas. E eles falavam que eu não tinha esse perfil, mas foi passando, foi passando, minha área já teve que ter uma abertura para negociar com o cliente, que foi quando eu conheci o cliente, que foi quando eram aqueles débitos, “ah, não, não, eu quero falar com quem mexe com isso, porque eu quero parcelar, não dou conta de pagar, cancelaram meu telefone.” Então foi quando nós começamos a ter o contato com o cliente, e aquele contato, o primeiro contato que eu tive com o cliente, eu aprendi demais com eles. Porque o cliente que vinha até a gente era o cliente que estava magoado com a empresa, porque tinha cancelado o telefone dele, então você, o que é que você teria que fazer? Você teria que sentir junto com ele, aquela mágoa dele, para você poder ajudá-lo, não adiantava você ter o nariz em pé e ficar por cima dele, você tinha que se igualar a ele, falar, conversar com ele, explicar como que era para ele estar pagando a dívida, geralmente era uma dívida alta e ele queria o telefone. Então, o meu primeiro contato, eu vim aprendendo, eu vim aprendendo, quer dizer, cada cliente que você atende, você aprende uma coisa com ele, isso aí você pode ter certeza. Nós temos clientes de todos, olha, eu sei te enumerar todas as espécies de cliente que nós temos. Aí quando, em 2000, que terminou a minha área aqui, e que eu realmente não, eu não quis ir para Uberlândia porque o meu marido trabalha numa firma há muitos anos, eu tenho a minha mãe que mora comigo, minhas filhas, eu realmente não gostaria de mudar de cidade, quer dizer, só se fosse uma coisa assim, fosse mesmo, para eu não deixar de trabalhar eu até iria, mas eu não tinha aquela vontade. E tinha a área de mercado, todo mundo falava pra mim: “Olha, você vai ser a primeira a sair, porque só quer gente nova aqui na empresa, né? É moça nova que está entrando hoje.” E eu pensava comigo, pensava comigo: “Mas eu sou nova, eu sou nova, por quê é que eu não posso continuar? O quê!”, eu olhava as meninas, eu falava: “Gente, eu sou igual elas, que diferença que eu tenho? Nenhuma.” E eu fiquei com aquilo, aí eu falava assim: “Eu tenho certeza que o Gilberto vai ficar comigo”, o Gilberto da área de mercado, né? Aí ele, foi passando, foi passando, eu fui a última que ele conversou, ele pegou e falou pra mim, falou assim: “olha, Daice”, isso foi em setembro, ele falou assim: “olha, Daice, eu vou ficar com você na área até 31 de dezembro, eu vou fazer um teste com você, se você for a pessoa, a funcionária que eu penso para a minha área, eu vou te passar para a minha área, eu te tiro da RF”, que é a área financeira, “e te passo para a RM”, aí eu falei assim: “olha Gilberto, não, tudo bem”, ele falou assim: “você aceita o desafio?”, eu falei: “aceito qualquer um que você me der.” Ele pegou e falou para mim assim: “Daice, mas, antes disso, eu quero te fazer uma pergunta, que eu tenho um negócio engastalhado aqui com você, ó”, aí eu gelei, né? Falei: “uai, o que é que esse homem tem engastalhado comigo assim?”, aí eu peguei e falei assim: “pode falar Gilberto”, ele falou assim: “Daice, eu quero saber de você, se o ano passado você entrou na CIPA de medo da empresa te mandar embora?”, ele falou isso pra mim. Eu falei: “Gilberto, eu vou ser sincera com você, não foi”, “não foi, Daice?”, eu falei: “não foi, você quer que eu te fale por que é que não foi?”, ele falou: “quero, porque eu não acredito”, eu falei assim: “então, você pede a alguém para ir no arquivo, procurar, que a primeira CIPA, o primeiro caderno da CIPA daqui de Uberaba eu estou lá nele, eu sempre fui membro da CIPA aqui em Uberaba, você, porque é novo aqui, não sabe. Mas eu sempre fui, e vou lá te buscar um e-mail que eu recebi essa semana, de alguém falando pra mim: ‘Daice, vai ter eleição da CIPA, por que é que você não entra?’”, porque eu fui secretária, eu fui presidente, eu fui tudo na CIPA, fiz eleição e tudo. Quer dizer, era uma coisa que ele tinha, não sei por que é que também ele tinha isso comigo, mas eu fui sincera com ele. E falei pra ele: “você não vai se arrepender de ficar comigo, você pode me dar o desafio que você tiver”, ele falou: “Não, por enquanto você vai ficar com o serviço que ainda resta da área financeira, porque também não tem como a empresa funcionar numa cidade sem ter alguma coisa de financeiro para tratar, você vai ficar com essa parte”, e foi me dando desafios, sabe, foi me dando desafios. Quer dizer, eram aquelas coisas lá de Paranaíba que, da Prefeitura que estava devendo imposto não sei de quê, eles cobrando, mas estava pago, tinha que procurar aquilo; era nota fiscal fora do prazo que mandava para Uberlândia, que não podia, que atrapalhava a gestão dele, e era muita coisa, ele foi me dando aquilo, sabe, foi me dando. Era aluguel de prédio que eu tinha que cuidar, foi me dando, foi me dando, quando foi dia 31 de dezembro ele nem falou comigo, ele mandou um e-mail pra mim, me dando os parabéns pela minha atuação na área, e que a partir do dia 1º eu fazia parte da equipe dele. Ele, ultimamente, agora ele saiu, né? Tem uns três meses que ele saiu. Mas, ultimamente, ele falava pra mim, ele falava assim: “Daice, eu liguei lá, para o Dílson da ________”, quer dizer, todo problema que tinha, que tinha que resolver, qualquer pepino, ele sabia que eu conhecia tudo aqui em Uberaba, com a Prefeitura, Faculdade de Medicina, o pepino que tinha pra resolver ele punha na minha mão pra resolver, e ele me ligava e falava assim: “olha, eu já falei lá que é você que vai resolver, então, a pessoa lá já está sabendo que é você, você pode ligar, é você que vai tratar desse assunto.” Então ele já tinha aquela confiança em mim, e eu adorei ele ter me passado para a área dele, porque aí eu, aí sim que eu vim sentir o cliente, e vim sentir aquilo que alguém falou pra mim um dia, que eu não tinha perfil para tratar com cliente. Hoje eu atendo 70 clientes por dia, em média, cada um eu atendo especial, de um modo, não trato todos iguais, cada um é um pra mim, cada um é um problema, são coisas diferenciadas, e o meu setor é o setor de apoio ao atendimento, quer dizer, quando você fala: “aquela sala ali é de apoio”, é porque você tem certeza de que ali dentro tem uma coisa diferenciada pra te oferecer. Então, é o que a gente oferece para o cliente, nós temos clientes de todo jeito, não tem, né? Mas todos eu atendo bem, adoro atender o cliente, adoro atender, o dia inteirinho eu atendo, o dia todo, quer dizer, às vezes você não tem tempo de sair. Então, é uma coisa que, eu tinha certeza que eu tinha esse perfil para estar atendendo os clientes.

 

P1 – E mostrou na prática que tem.

 

R – E mostrei na prática. E estou lá, você vê, eu tenho três anos que eu aposentei, eu já aposentei, tem três anos que eu estou aposentada. E ganho o meu salário, não tenho nenhuma falta na empresa, as minhas faltas que eu tive foram as minhas duas licença maternidade e uma cirurgia da vesícula que eu fiz, só. Não falto, o meu horário é aquele horário ali, eu faço o que tem pra fazer, eu ajudo lá fora na triagem, eu atendo o cliente lá na loja, eu estou vendo que o cliente está lá ansioso, eu vou lá, pego o cliente, levo para a minha sala, sabe? Então, estou assim, acho, nossa! Para mim foi assim, foi maravilha. E todo mundo falava assim: “você vai aposentar? As pessoas aposentam e morrem”, eu falava: “gente, a pessoa morre porque ela quer morrer, quando a pessoa não quer morrer, não morre nunca.”

 

P1 – Por que a senhora decidiu aposentar-se?

 

R- Eu, foi mais, porque na época a lei mudou, né? A lei de, porque eu, quando eu fui telefonista, eu tenho aposentadoria especial e, na época, acabou essa lei, não existe mais periculosidade, não tem mais essa aposentadoria. Então, na época a gente não sabia direito, não tinha aquela instrução assim, detalhada mesmo, então nós ficamos com medo, eu e o meu marido, nós ficamos com medo de perder aquilo ali. E todo mundo falava assim: “ah, se vocês não aposentarem, vocês vão perder esse tempo”, vai perder alguma coisa, e eu e ele fomos, nós aposentamos na mesma época. Então, eu tinha só a minha carteira, aquele papel de periculosidade, cheguei no INPS e aposentei.

 

P1 – Aí, quer dizer, a relação com a CTBC continua agora em novas bases, não é?

 

R – Não, não muda nada, todo mundo me pergunta isso, sabe, isso não muda em nada. Eu continuei com o mesmo contrato da CTBC, eu ganho o meu salário, porque eu aposentei pelo tempo de serviço não por eu trabalhar na CTBC, eu aposentei pelo tempo de contribuição do INSS. Quer dizer, eu não sou aposentada pela CTBC, eu sou aposentada pelo INSS, é pelo tempo que eu contribuí, de contribuição. Mas não muda em nada, não.

 

P1 – Eu queria que a senhora lembrasse para nós uma situação, que foi uma situação meio complicada na CTBC, que foi o momento daquela grande reestruturação havida no final dos anos 1980, princípio dos 1990, quando o Sr. Mário Grossi assume, como é que isso foi refletido aqui no seu trabalho e nos seus colegas aqui?

 

R – Olha, nessa época que foi a mudança dos setores, né? Então, teve uma parte do pessoal da rede que não ia ficar na CTBC, porque a rede ia ser terceirizada, o pessoal que mexia com PABX que, na época chamava CPCT, parece, que ia sair e tudo. A gente, como trabalhava, quer dizer, todo, quando falava que veio, e vinha, ia chegar a empresa rede, o pessoal, assim, achava bom, mas a mudança foi muito radical, mas muito mesmo. Tipo assim, você não podia nem dar sugestão dentro da empresa, quando alguém falou que a empresa rede, você poderia, tinha aquela abertura e que você poderia fazer isso, fazer aquilo, e tal e coisa, as pessoas, elas não acreditavam muito, né? Então, ficou todo mundo apreensivo, “será que é verdade? Será que não é verdade?”, e ia acabando, aí o pessoal falava: “ah, vai acabar com o setor tal, vai acabar com o setor tal”, e tudo. E a gente, como fazia parte do escritório, e tinha mais, assim, acesso a Departamento Pessoal, essas coisas, a gente sabia das pessoas que iam ser mandadas embora, tinha uma lista de catorze funcionários, eu me lembro bem, né? Mas, chegava e perguntava, eles perguntavam, “diz que tem uma lista que vai vir”, e tal, “você sabe?”, “não, ninguém sabe de lista.” E foi, que deu, que deu, e foram embora, foram mudando os setores, aí o pessoal já ficava apreensivo, porque falavam assim: “olha, quem não se adaptar à empresa rede, não vai ficar.” Quer dizer, quem não adaptar-se às mudanças, as mudanças estão vindo, vai acontecer todo dia, quer dizer, quem, na época, que fez isso aí foi o Mário Grossi, ele não mentiu, porque até hoje tem mudança, porque ele falou: “a partir de hoje a empresa vai viver mudanças.” Mas as pessoas não acreditavam naquilo, e muitos, eles eram contra essas mudanças, por que? Porque essas mudanças iam gerar insegurança para a pessoa, por que? Porque não é toda pessoa que tem a capacidade de mudar, tem pessoa que acha que é daquele jeito, tem que morrer daquele jeito, não é assim? E, hoje, não é verdade isso, você tem que ir acompanhando, surge aquela insegurança, então, eu imagino que, assim, durante uns dois anos, dois anos e meio os funcionários trabalharam muito inseguros, muito inseguros de emprego, briga por causa de salário, também nessa época, mas foi mudando. Quer dizer, quem realmente não adaptou, hoje não está na empresa. E hoje ainda é desse jeito. 

 

P1 – Como que a senhora vê, depois de toda essa experiência, essa trajetória, como é que a senhora vê o futuro da empresa? O que é que está desenhado aí pela frente, qual que é a sua avaliação? Sem nenhum exercício de futurologia, mas como é que a senhora imagina que essa companhia vai encarar o futuro?

 

R – Olha, eu acho que a empresa vai muito para a área de tráfego, serviços, atendimento, essas coisas vai ser outras empresas que vão fazer, ela vai mexer só, só mesmo com a telefonia, só com a técnica e com todos os tipos de produto que possa haver dentro de telecomunicações, a CTBC vai ser pioneira nisso aí, ela vai ser pioneira. Então, ela vai deixar aquela parte burocrática, que não é o negócio dela, para ela fazer o negócio dela, que vai ser na área de comunicação, área de dados, ela vai explorar tudo, dentro desse país, nessa área de comunicações, o que tiver e o que vier, ela vai encarar. Eu vejo ela desse jeito, eu vejo ela como uma empresa que não tem medo, ela vai a fundo naquilo ali e faz bem feito.

 

P1 – Dona Daice, se a senhora estivesse de frente assim para um associado que estivesse acabando de chegar para a CTBC, o que a senhora diria para ele? O que ele vai encontrar aqui?

 

R – O que é que eu diria hoje para ele? 

 

P1 – É.

 

R – Nossa! Olha, eu gostaria de dizer tanta coisa pra ele, assim, de contar como é, como você vê, como você vê um filho seu crescer eu vi a CTBC crescer. Então, eu vou dizer pra ele, vou falar assim: “olha, você entrou nessa empresa aqui hoje, você pode ter certeza que você trabalha numa das melhores empresas do país, e que, daqui pra frente, você tem que ser uma pessoa especial para você trabalhar dentro dela, senão você não vai conseguir trabalhar, se você não tiver algo mais pra dar para essa empresa, você não vai conseguir acompanhá-la. Porque ela é uma coisa especial dentro do Brasil.”

 

P1 – Dona Daice, a senhora tem sonhos, a senhora acalenta sonhos, tem projetos, assim, que queira realizar ainda?

 

R – Olha, eu tenho, eu tenho um projeto que, enquanto eu estiver produzindo, ser produtiva na área da CTBC, eu gostaria de fazer parte dela até quando eu puder, né? Porque, a partir desse momento, eu tenho meu sonho, meu sonho maior é trabalhar na área social, é estar dando, reunindo pessoas, para falar para as pessoas que a vida não é daquele jeito que elas estão tentando viver. Que pela experiência de vida que eu tenho, pelo que, de onde eu vim e, eu não tenho nada hoje também, em termos materiais eu tenho uma casa, tenho um carro, quer dizer, tenho o meu salário, tenho as minhas filhas, que são ótimas, estudam… Tenho uma filha, minha filha de dezesseis anos já é formada em inglês, quer dizer, eu tenho duas coisas lindas na minha casa. Mas tudo o que eu tive, o que eu adquiri foi experiência, como tratar as pessoas, como lidar com as pessoas, porque a vida não é aquilo assim, de você morrer para poder viver, você tem que viver, e viver a sua vida. Então, eu gostaria muito de conversar com as pessoas, de ter um grupo, fazer parte de um grupo, para levar a vida para as pessoas. Que seja com droga, bebida, porque eu tenho um irmão, que é filho do meu pai, como se diz, eu pelejei com ele três anos! Em 29 anos eu e meu marido catávamos ele na sarjeta, no asfalto, com a cara toda rasgada, alcoólatra, e eu falava para o meu marido: “se eu não tirar meu irmão disso aí, eu vou matar ele”, porque eu não aguento ver isso, lindo! Hoje, se você ver ele, você fala que é mentira minha, ele estava um traste, e eu pegava o ônibus, e ia na casa dele, a mãe dele me ligava, falava que ele estava lá, porque ele sumia também. Eu ia lá, conversava com ele, conversava, e fazia, então, a minha experiência foi com ele. Hoje, ele tem quatro anos que não bebe, hoje ele trabalha, ele estuda, né? Quer dizer, eu consegui fazer aquilo ali, eu conversava com ele, eu falava, ele chama Gilmar, eu falava: “Gilmar, se você estiver esperando que eu, seu pai, sua mãe façamos alguma coisa por você, não espere, morra, não espere, porque se você não fizer algo por você, você vai morrer! Porque ninguém vai fazer, ninguém!” Então, isso aí, eu acho que eu fiz um bem enorme pra ele, hoje ele me ama, ele me adora, ele não passa um dia sem ir lá me ver, ele não acredita, nem ele acredita que ele fez aquilo. Então, hoje ele, assim, ele não ganha bem, ele ganha mal, e tudo, a mãe dele fala assim: “ah, eu não sei o que o Gilmar tem na cabeça?”, “você não sabe?”, eu falo para a mãe dele: “você não sabe? A cabeça dele é muito melhor que a minha, que a sua, que a do meu pai, que a de todo mundo! Ele era alcoólatra, ele conseguiu se recuperar, então, a cabeça dele é igual à nossa? Ãhn!? Dá de mil a zero! Porque quem é que consegue?” Então, eu tenho essa vontade de trabalhar nessa área social, sabe, de estar dando, assim, dando força para as pessoas, para as pessoas não caírem, porque não adianta você ficar ali no chão pedindo piedade, você tem é que erguer, né? Então, eu tenho esse sonho de trabalhar. Agora, um sonho meu mesmo, que isso aí é uma coisa assim, que eu não sou mais, não, eu sou uma pessoa realizada em tudo, tal, mas uma frustração que eu tenho na vida é que eu não consegui dirigir, eu já tive carros zeros, tenho um carro lindo hoje, meu carro, comprei com o meu dinheiro, estou terminando de pagar ele agora, eu não consigo dirigir, eu morro de medo! Então, eu tenho esse sonho de ainda entrar dentro de um carro e sair dirigindo.

 

P1 – Por que é que não aprende?

 

R – Já aprendi, eu já fiz legislação, já fiz o exame de rua, não passei, eu não passei, eu fiquei muito triste porque eu não passei, acho que eu, não sei, não sei. 

 

P1 – Esse é o sonho mais fácil de ser realizado! (riso)

 

R – Então, gente, eu falo: “não é possível que isso eu não vou...” Mas eu vou conseguir, né?

 

P1 – Está certo, beleza Daice. Teria alguma coisa que você gostaria de ter dito, e a gente não te estimulou a dizer?

 

R – Não, acho que não, acho que eu falei até demais.

 

P1 – Não, falou muito bem.

 

R – Falei, falei muita coisa. Não, eu acho que, assim, não sei, eu sou imensamente agradecida pela empresa, porque tudo que eu tenho, tudo o que eu aprendi, tudo que eu vi, tudo que eu fui, tudo fez parte da minha vida, a CTBC. Então, eu ainda não parei para pensar assim: “como vai ser a minha vida sem a CTBC?”, eu realmente não parei, porque ainda estou, na minha cabeça, que eu estou lá na CTBC, estou trabalhando, vou continuar. Nunca, nem pensei que eu vou parar, né? Quer dizer, o dia que chegar, que eu parar mesmo, aí, é claro, eu já falei para as meninas, “eu vou chorar demais, vocês podem ter certeza, a hora que vocês me virem chorando”, porque eu não sou manteiga derretida, sabe, eu falo para as meninas: “vocês me ver chorando, vocês podem saber que eu vou chorar mesmo, não vai ter jeito.” Mas tudo tem o dia também, quer dizer, eu também tenho essa consciência. Mas eu adoro trabalhar, adoro sair de casa e trabalhar, eu trabalho uniformizada, então, eu acho lindo o meu uniforme, todo lugar que eu chego, todo mundo fala: “nossa, mas seu uniforme ficou lindo, uma elegância...” quer dizer, Uberaba vê a CTBC como uma empresa, assim, de requinte maior mesmo, todo lugar que você chega, você está uniformizada da CTBC, é outro tratamento que as pessoas te dão. Apesar de que Uberaba inteira me conhece, também, de uniforme ou sem uniforme. Mas é uma empresa, assim, que, de um nome fantástico, então, a gente sente orgulho mesmo de trabalhar, eu me sinto orgulhosíssima de trabalhar na CTBC, me sinto orgulhosa de mim mesma, de ser o que eu sou, sabe, de passar por onde eu passei, e ser essa pessoa que eu sou hoje, né? Porque eu sou uma pessoa feliz, não sou aquela pessoa emburrada, faço de tudo para estar naquele ambiente bom, um ambiente sadio, gosto demais das pessoas, eu não tenho preconceito de nada, nada, para mim todo mundo é igual: pobre, rico, preto, branco, por tratamento meu, eu mesma. Então, adoro trabalhar na empresa, gosto demais.

 

P1 – Diga para nós como é que você se sentiu dando esse depoimento, o que significou para a senhora, como é que foi?

 

R – Olha, eu acho que tem dois dias que eu não durmo, de pensar, assim, para mim foi emocionante, eu senti emoção. Ontem eu fiz um, ainda estou fazendo cursos! Ontem eu fiz um curso que é, dessa pastinha aí, é “Produtos e Serviços”, eu fiz um curso, e eu falei para a menina lá e, não, tudo o que a menina falava eu perguntava, e falava também, e ela falou assim: “você trabalha em que área?”, ela falou, “não, eu trabalho na área de mercado, eu sou atendente lá”, “ah, mas isso aqui tem muito tempo”, eu falei: “não, mas eu tenho muito tempo que eu estou na empresa”, aí eu falei para ela: “ah, amanhã...”, aí falaram que hoje ia começar outro curso, que era da área de dados, eu falei: “não, o meu não está marcado para amanhã, não, o meu vai ser semana que vem, porque amanhã eu vou participar do Museu da CTBC” Aí caiu todo mundo na risada, porque muitos sabem que eu tenho muitos anos de casa, outros não, eles não achavam, assim, uns ficaram até: “ah, mas o quê que é isso?”, eu falei: “a CTBC vai fazer um álbum da vida dela, tipo de um álbum, um documentário da trajetória toda, e eu vou participar. Então, amanhã eu não vou trabalhar, vou participar.” Então, para mim é, eu quis contar pra todo mundo, eu quis que todo mundo soubesse que eu vou estar participando, então eu achei ótimo.

 

P1 – O que significou para você, assim, pessoalmente, hoje, agora?

 

R – Ah, eu acho que é uma, me parece que eu tive a oportunidade de contar a história da minha vida, então, isso é muito importante para uma pessoa. Quero dizer, não é qualquer pessoa que tenha as pessoas, assim, como vocês dois estão, que eu possa contar a minha vida para vocês. Vocês nunca me viram, vocês não tinham conhecimento da minha pessoa, e eu poder contar para vocês, deixar com que as outras pessoas saibam disso também. Então é lindo você contar a sua vida, por onde você passou, o quê que você é. Eu tenho certeza que você, ela, vocês ficaram me conhecendo um pouquinho.

 

P1 – Certamente.

 

R – Não tenho? Então, para isso é ótimo, eu adoro isso. Eu sou do signo de gêmeos, sou uma pessoa hiper comunicativa, adoro passear, adoro estar com pessoas, adoro! Eu tenho o argumento muito grande, adoro, você entendeu? Sou muito, assim, dinâmica, tenho muita energia, adoro tudo, as coisas, assim, simples, né? As meninas falam para mim assim: “Daice, mas...”, meu aniversário vai ser agora, dia 29 de maio, elas, porque, igual eu te falei, eu fui registrada dia 29 de abril, mas na verdade o meu aniversário é 29 de maio, porque eu tenho batistério, tenho tudo, mas meu registro é essa data. Então, as meninas falam assim: “Daice, mas o quê que a gente dá? Você tem tudo, você gosta de coisa assim”, eu falei: “gente, eu gosto de coisas pequenas, pequenas, é qualquer coisinha que você me der eu acho lindo, eu não gosto de coisas grandiosas, que você chega com aquele embrulho daquele tamanho, não, você chega com uma coisinha simples que você me agrada muito mais.” Porque as coisas grandiosas a gente compra, não é isso? O que é grande você compra, o que é pequeno é que é difícil você adquirir, não é verdade?

 

P1 – Está certo. Muito obrigado, por esse belo depoimento que você deu para nós.

 

R – Então, está bom, graças a deus.

 

P1 – Muito obrigado, foi ótimo Daice.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+