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História

Lutando pela Saúde e pela Justiça

História de: Francisco de Assis Alves de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/06/2005

Sinopse

Francisco nasceu no dia 7 de dezembro de 1971 na cidade de Gurupi em Tocantins. Em sua entrevista ao Museu da Pessoa nos conta sobre sua infância, marcada por diversas mudanças de cidade, devido à busca de seus pais por melhores condições e pelo estilo aventureiro de seu pai. Conta sobre os pontos positivos e negativos dessa vida itinerante, sobre os bons momentos e desavenças com seu pai, quando decidiu parar de trabalhar com ele e se tornou professor de Kung Fu. Em 1995 ingressou no Programa de Agentes Comunitários de Saúde, atuando em Palmas (TO). Conta sobre suas experiências mais marcantes enquanto agente comunitário, sua participação ativa na classe, como no Conselho Municipal de Saúde e sobre seu sonho de se formar em Direito para lutar contra as injustiças presentes nesse país. 

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História completa

P/1: Francisco, eu queria começar perguntando qual é o seu nome, onde você nasceu e quando?

 

R: Meu nome é Francisco de Assis Alves de Oliveira. Eu nasci em Gurupi, no Tocantins, antes era Goiás, né? No ano de 1971, dia 7 do mês 12.

 

P/1: 1971?

 

R: 71.

 

P/1: Então você tem quantos anos hoje?

 

R: 25.

 

P/1: 25. E qual era o nome dos seus pais, Francisco?

 

R: Crispim Alves de Oliveira, o nome do meu pai, e o da minha mãe Maria da Conceição Souza.

 

P/1: E o quê que ele fazia, o seu pai? Ele também era dessa cidade? Qual era o nome da sua cidade mesmo?

 

R: Gurupi. O nome da minha cidade é Gurupi. Não, o meu pai ele era maranhense, né? A cidade, eu não sei de que cidade ele era. Ele era construtor, trabalhava na área de construção civil, né?

 

P/1: Hum, hum.

 

R: E a minha mãe ela é do Piauí, mas foi criada na região do norte de Goiás, que passou a ser Tocantins agora.

 

P/1: Hum, hum. E a sua mãe, ela trabalhava?

 

R: Não, ela veio trabalhar depois que meu pai faleceu, né? Antes ela nunca tinha trabalhado, não. Aí depois que ele faleceu, ela começou trabalhar. Há uns cinco anos atrás que ela começou a trabalhar.

 

P/1: Você tem quantos irmãos, Francisco?

 

R: Nós somos oito irmãos. Agora tem os irmãos, né, por parte de pai. Oito irmãos legítimos. Agora o meu pai foi casado quatro vezes, tem mais cinco, mais cinco, é, treze irmãos.

 

P/1: Nossa!

 

R: Treze irmãos que a gente conhece, né? Agora tem outros que a gente não conhece também. Mas ele falava que tem outros filhos, né, mas a gente não chegou a conhecer não. Que a gente conhece tem esses.

 

P/1: Vocês foram, então, o último casamento do seu pai?

 

R: O último casamento do meu pai. Só que depois ele, casado com a minha mãe, ele teve outro filho com outra mulher aí. (riso)

 

P/1: (riso) O seu pai era bom de briga.

 

R: Era.

 

P/1: Quer dizer, o seu pai então veio do Maranhão, veio trabalhar em...

 

R: Do Maranhão, né?

 

P/1: Do Maranhão?

 

R: Só que o meu pai, a gente não tinha morada fixa não. Morar numa cidade dois, três anos igual a maioria das famílias fica, né? Constitui todo mundo os filhos, estuda o resto da vida, se forma, sai pra se formar. Cada ano a gente morava numa cidade.

 

P/1: Por causa de quê?

 

R: A gente morava numa cidade. Por que ele era igual cigano, viajava muito. “Ah, aqui não está bom, então vamos não sei pra onde.” Aventureiro.

 

P/1: Ah, ele é assim?

 

R: Nós moramos no Pará, em Boa Vista, em Roraima, né? Uma porrada de cidade que a gente morava com ele.

 

P/1: Ele era muito mais velho que você?

 

R: Meu pai?

 

P/1: É.

 

R: Era. Ele morreu com 55 anos, né, mas tinha aparência, aparentava ter menos.

 

P/1: Ah, ele morreu com 55 anos?

 

R: 55 anos.

 

P/1: Então quando ele teve você, ele tinha...?

 

R: Ah, ele já tinha mais de 30 anos, bem mais.

 

P/1: E ele já tinha casado quatro vezes?

 

R: Já tinha casado quatro vezes.

 

P/1: Você não sabe nada assim do seu avô, da família do seu pai?

 

R: A família do meu pai, só a minha avó e o meu avô, o resto não tinha irmão, não tinha tio, a gente não conhece ninguém da família dele. Não tem parente, não tem... Se tem, a gente não conhece. Só o meu avô e a minha avó que morreu.

 

P/1: E seu avô e sua avó ficavam, moravam aonde?

 

R: Morava no interior de Goiás naquela época, que hoje é Tocantins, em Arapoema, uma cidadezinha perto de Araguaína.

 

P/1: Daí você conhece por quê? Vocês moraram lá?

 

R: Nós moramos lá também.

 

P/1: E o seu pai, o quê que ele fazia em obra?

 

R: Ele, ele era construtor, né, de tudo, fazia de tudo. Ele geralmente pegava a obra pra fazer construção, era mestre de obra, encarregado de obra, né? Aí, sempre viajava, pegava uma obra fora, um serviço fora, aí... né?

 

P/1: Aí carregava vocês, ou deixava vocês em casa...?

 

R: Levava, ia, primeiro ele ia na frente, arrumava uma casa tal, aí voltava, buscava a gente e... Aí, a gente, já se estivesse na escola perdia o ano, chegava ele, carregava de uma vez, rapidão mesmo, não tinha isso não...

 

P/1: (risos)

 

R: (risos)... Com ele não tinha meio termo não.

 

P/1: Mas ele era bravo?

 

R: Não. Ele era legal, conversava com a gente, deixava a gente à vontade. Não era bravo, não.

 

P/1: E a sua mãe, era brava?

 

R: Também não. Toda a vida, até hoje, toda vida ela é na dela. Ela deixa a gente à vontade, conversa com a gente...

 

P/1: Você sabe como foi que o seu pai conheceu a sua mãe?

 

R: Não... Eu sei sim...

 

P/1: Conta pra mim.

 

R: Eu sei, porque depois que ele faleceu, eu estava mexendo nas coisas, nos pertences dela, aí eu encontrei uma carta dela há mais de, uma carta dele, né, há mais de 28 anos atrás, ela tinha essa carta dele até hoje. Não sei se ainda tem, né? Contando, ele contando que gostava dela, tal, e ela não dava atenção pra ele, porque a família da minha mãe, toda é bem de vida, né? E aí eles não queriam o casamento. Aí ele foi, e acho que com quinze dias de namoro eles fugiram e...

 

P/1: (risos)

 

R: Até hoje, aí ela morreu com ele, então... E ela tranquila, né?

 

P/1: Como ela chamava mesmo?

 

R: Ela, minha mãe chama Maria da Conceição Souza.

 

P/1: E a família dela então era de onde?

 

R: A família dela é toda do Piauí, só que mora toda na região de Gurupi, Alvorada e Porangatu. Goiás e Tocantins.

 

P/1: E a família dela era...

 

R: Goiana.

 

P/1: ...era mais bem de vida, por quê?

 

R: É, até hoje eles são bem de vida. Todo mundo é fazendeiro, tem fazenda. Eles, o pessoal não aceita, né? Um cara que não tem, não tem nem parente, não tem ninguém, eles não aceitam.

 

P/1: E você teve convivência com a família da sua mãe?

 

R: Tive. Eu cheguei a morar na casa de um tio.

 

P/1: Ah, é?

 

R: É, uns dois anos. Quando o meu pai mudou pro Pará, aí eu fiquei estudando. O pessoal pediu pra deixar a gente estudando, inclusive meu primo falou que se eu ficasse lá, ele garantia até a faculdade pra mim, mas aí eu me empolguei, aí fui, voltei, aí fui morar na casa do meu pai, depois, sempre a gente passa na casa deles, dos tios, né?

 

P/1: Dos tios, da sua mãe, eles, quer dizer, eles fizeram... Só um minutinho, por favor. (Pausa). Então, então você ainda tem contato com esses seus tios?

 

R: Com esses eu tenho. Sempre a gente está visitando eles, né? Fazem festa quando a gente chega, fica alegre. Porque a gente, eles, a família da minha mãe, todo mundo é aquele pessoal que fica no mesmo lugar, controlado e a gente sempre aventurando, mudando. Aí, quando a gente passa lá, eles ficam animados, ficam alegres. Sempre tem contato.

 

P/1: E você morou em quantos lugares, então? Você nasceu em Gurupi...

 

R: Nasci em Gurupi, teve outras cidades que eu não lembro, que eu era garoto, né? Mas, de Gurupi que eu lembro, a gente mudou pra mais ou menos umas dez cidades, ou mais.

 

P/1: Nossa, é o que, era uma por ano?

 

R: Era mais ou menos uma por ano. Até acho que em um ano mudava de cidade. Moramos em bastante cidade.

 

P/1: E você gostava disso, era...?

 

R: A gente gostava. Toda criança gosta de viajar, vai conhecer outra cidade, ver como que é, ficava empolgado. Mas a gente não sabia que estava perdendo uma cidade.

 

P/1: Você aí, você chegou, como é que era, então? Você entrou na escola com quantos anos?

 

R: Eu acho que, parece que foi com onze ou foi oito. Também, teve um problema comigo que eu ia pra escola e não ficava na escola. Eu tinha medo de gente, acho que de gente mesmo, não sei. E eu não ficava, os irmãos tudo ficava e eu voltava para casa. Chorava, chorava, não ficava. Tinha que acostumar. Durante dez dias minha mãe tinha que ir para escola comigo. Mas eu acho que com onze, onze anos mais ou menos eu comecei a estudar, dez anos, onze anos.

 

P/1: Que você entrou na escola?

 

R: Que eu entrei na escola, mas não ficava, porque eu tinha que acostumar...

 

P/1: Mesmo com dez anos, não ficava?

 

R: Não ficava sozinho não.

 

P/1: Aí, como que aconteceu? Você foi, sua mãe ficava com você...?

 

R: A mãe ficava, minha mãe ficava, aí as professoras começavam a dar atenção, aí eu fui acostumando com o pessoal. Porque a gente era meio isolado, assim, não tinha muito contato não.

 

P/1: Você tinha convívio com seus irmãos?

 

R: Com os irmãos, é.

 

P/1: Me fala o nome dos seus irmãos, Francisco?

 

R: Kennedy, Jefferson, Euclides, Shirley, a Sheila, o Crispim Filho e a Aparecida e comigo oito. Da minha...

 

P/1: Esses todos, mãe e pai, oito?

 

R: É, mãe e pai, esses todos mãe e pai, que a gente conhece. Agora tem os outros filhos do meu pai que a gente não conhece.

 

P/1: Então, por exemplo, você tem 25 [anos]?

 

R: 25.

 

P/1: Você é o último?

 

R: Não, eu sou o penúltimo. Tem a minha irmã que é mais velha do que eu, tem 27 anos, a Sheila. Aí depois foi eu, aí depois foi Kennedy, depois o Euclides, depois o Jefferson, depois a Shirley, depois o Crispim e depois a Aparecida, a mais nova, que ela tem catorze anos.

 

P/1: Agora?

 

R: Agora.

 

P/1: E aí, todo mundo ia para escola, alguém que trabalhava com seu pai, como é que era a vida assim na sua casa?

 

R: A gente, eu que era o mais velho, eu sempre trabalhei com ele. Desde pequeno a gente trabalhava no serviço dele, mas ia para escola também, o horário de ir para escola a gente ia. Aí, quando eu acostumei ir para escola já foi aquela época que já estava mais adulta aí comecei a trabalhar...

 

P/1: Você começou a trabalhar com ele?

 

R: Com ele, com ele. Já com onze anos a gente já ia pro serviço, com doze anos. Aí eu comecei a trabalhar com ele, aí comecei a estudar, aí parei de estudar. Não concluí, não. A gente sempre começa, começa de agora eu vou começar...

 

P/1: Aí você estudou então, até que ano?

 

R: Estudei até a quinta, a quarta série. Fiz a quarta série, comecei a estudar a quinta série umas cinco, seis vezes.

 

P/1: (risos).

 

R: Todo ano começava, parava. Sempre, qualquer cidade que chegava, eu começava a estudar, estudava seis meses, aí parava, não, não...

 

P/1: E aí, o seu pai, ou sua mãe não davam muita bola para isso?

 

R: Não, nunca deu força, nunca pegou num caderno para ensinar, tal...

 

P/1: Nada

 

R: ... Ficar aquele negócio... deixava a gente bem à vontade. Num dava força para: “Ah, vou fazer isso.” Não falava nem que sim, nem que não. “Vou praticar algum esporte.” Não incentivava, né? Tudo que a gente fosse fazer, se a gente não tivesse força de vontade mesmo, não ia para frente, porque eles não incentivavam e até hoje não incentiva, não. Não incentivava.

 

P/1: Não, eles são assim... A vida na casa, na sua casa era mais o que, era ele levar vocês pra ajudar, como é que era, o quê que eles incentivavam vocês a fazer?

 

R: Não incentivava a gente fazer nada.

 

P/1: (risos)

 

R: Era trabalhar, comer, dormir, ver televisão e não tinha incentivo de nada.

 

P/1: Vocês ajudavam em casa, por exemplo?

 

R: Ajudava, ajudava. Quando, quando chegava do serviço, a gente, se a casa estivesse suja, a gente ia limpar, geralmente ela estava limpa, mas ia limpar. Agora tinha a minha primeira irmã, ela foi incentivada a fazer tudo, estudar, até entrou, fez aula de piano, fez uma porrada de curso, ela, o meu pai incentivava ela. Todo evento que tinha...

 

P/1: Por que ela?

 

R: Não sei. Até hoje a gente não sabe por quê. Minha mãe e meu pai sempre incentivavam. E o outro... eram dois irmãos na família, que a mãe e o pai sempre incentivavam.

 

P/1: Que era quem? Era ela...?

 

R: A Sheila e o Jefferson. Só os dois. Mas a Sheila era principalmente. Tudo que tinha, a roupa, roupa melhor, era toda festa. Geralmente nessas cidades pequenas tem bailes, esses bailes que o pessoal promove aí. E ele estava sempre dentro e com ela.

 

P/1: Ah, é?

 

R: É. Com ela, as outras, os outros não existiam pra ele não. Mas eu ia também, escondido ficava de longe assim olhando, mas ela que ia na frente, bem arrumadinha, bonitinha, cheirosa.

 

P/1: E vocês não perguntavam para eles por que que só ela...?

 

R: Não, não perguntava, não.  A gente também não dava muita atenção, não. Acho que é porque que a gente... Não perguntava, não. A gente sentia, eu falava, conversava, mas não perguntava isso...

 

P/1: Vocês falavam entre si?

 

R: É, entre a gente. E ela lá. Acho que todo mundo notava, os vizinho, a diferença, mas...

 

P/1: Ela faz o quê?

 

R: Hoje? Hoje ela tem dois filhos, é casada, mas não faz nada na vida assim de especial, não. E ela teve dois casamentos. Até o primeiro casamento foi uma decepção pro meu pai e...

 

P/1: Por quê?

 

R: Porque ele não queria que ela casasse com um rapaz. Na época meu pai era bem de vida, a gente morava no Pará e ele não queria, ela estava muito nova também, aí, eu sei que ele dançou com ela. Ele enfeitou, enfeitou a boneca e...

 

P/1: (risos)

 

R: ...(risos) os outros foram brincar e ele sofreu uma decepção. Por que geralmente o pai quer um... Para filha quer um noivo do modelo dele e ele teve só decepção pra ele, teve já, já é o segundo casamento dela.

 

P/1: E ele era bem de vida, o seu pai, que você falou?

 

R: Ele tinha época que tava bem de vida, e tinha época que não tinha nada, tava na lona mesmo. Parece que ele era meio pirado. Porque ele ganhava muito dinheiro e gastava também muito. Porque ele era namorador, né?

 

P/1: Ah, ele arrumava muita mulher?

 

R: Arrumava muita namorada. Só era arrumava namorada, quebrava. Quando tava com dinheiro, tinha namorada, quando não tinha dinheiro...  E minha mãe era bem tranquila, tal.

 

P/1: Sua mãe não incomodava?

 

R: Não, meu pai ele chegava - parece até brincadeira - ele, no dia de sexta-feira ele se arrumava todo bonitão, saía para festa e voltava no outro dia, de manhã. Minha mãe não falava nada.

 

P/1: (riso)

 

R: Não falava nada. Fazia de conta que não via. A gente tava percebendo tudo, e ela: “Não...”, até hoje ela fala assim que homem namorador não é defeito. Ela incentivava, desse forma, ela até incentivava ele a ser namorador. Aí o cara gastava mesmo o dinheiro. O cara sai a noite inteira para beber, gastar com mulherada, o cara gasta mesmo. Dar presente para mulher. Até aqui em Palmas, ele vendeu uma chácara que tinha para, e disse que foi para Belém. E disse que quando voltou, gastou o dinheiro todinho, ele voltou. No dia que acabou o dinheiro, ele voltou para casa, e daí morreu. Passou uns quatro, cinco dias, morreu.

 

P/1: Morreu de quê? Você sabe?

 

R: Ataque cardíaco. Eu não tava morando com eles nessa época, não. Eu só vim pra casa depois de seis meses que ele morreu. Eu tava com quatro anos que eu não via ele. Aí morreu, me avisaram, só que eu não vim porque, depois que morre, não adianta a gente chorar, vim. Aí eu peguei e não vim não. Vim só depois de seis meses que eu vim para Palmas.

 

P/1: Mas então me conta: você estudava, trabalhava com ele, até que idade?

 

R: Até, mais ou menos, uns dezesseis, dezessete anos. Aí depois eu comecei a trabalhar, eu aprendi trabalhar de pedreiro, saí e fui trabalhar...

 

P/1: Foi trabalhar de pedreiro?

 

R: Fui trabalhar sozinho, aí a gente foi para Boa Vista, para Roraima. Fiquei um tempo lá, ele não quis deixar eu ficar só, voltei com ele pro Pará, onde a gente morava.

 

P/1: Onde era, no Pará?

 

R: No Pará, em Redenção do Pará. Aí a gente foi pra Goiânia, né? Lá em Goiânia eu comecei a trabalhar com ele, aí parei de trabalhar de pedreiro para trabalhar com aviação civil. Aviação agrícola.

 

P/1: O que você fazia?

 

R: Eu era assistente de aeronave. Tudo que tinha, todo defeito que tinha, a gente tava... O piloto era mecânico, só que eles não botava a mão na massa, não. Eles botavam um assistente para fazer tudo. Tudo na aeronave, carregar, limpar, todo tipo de serviço que ia fazer, reaperto em peça do motor. Tudo eu que fazia. Aí eu parei de trabalhar com ele, aí eu perdi o contato, assim, igual a gente tinha. Sempre de seis em seis meses, de dois em dois meses. Mas aí eu passei...

 

P/1: Mas aí você brigou com ele, em algum momento? Por ele não ter deixado você ficar lá em Boa Vista, ou alguma coisa?

 

R: Não, eu não brigava com ele, porque...

 

P/1: Mas você ficou chateado?

 

R: É, eu fiquei chateado, né? Porque...

 

P/1: Quando você ficou chateado?

 

R: ...eu tinha, eu não brigava com ele não, porque eu tinha medo do olhar dele. Só do olhar mesmo, assim, ele não precisava nem brigar. Não sei se era respeito.

 

P/1: Ele batia em vocês?

 

R: Com frequência, não. Às vezes. Mas nunca foi...

 

P/1: Mas não era isso que dava medo?

 

R: Não, não era isso, não. A gente tinha, não sei se era respeito, se era medo, eu sei que eu nunca levantava a voz para falar com ele, nada. Tinha outro irmão que conversava, falava e brigava. Eu não, eu ficava mais na minha. Mesmo se tivesse com raiva, eu ficava na minha e saía fora. Mas, aí depois eu perdi a convivência assim com ele. Até...

 

P/1: Mas você ficou chateado com ele por causa de quê?

 

R: Quando a gente tava em Boa Vista, que eu queria ficar trabalhando lá e ele não quis deixar. E a gente sempre discutia. De vez em quando. Mas só que eu não dava muita atenção para ele, não. E, muitas vezes, a gente trabalhava e naquela época a gente tava ganhando até mais ou menos. Pedreiro dá até para tirar uma graninha boa se tiver trabalhando igual a gente trabalhava. Ele nunca faltava a serviço. E o dinheiro que eu ganhava também, ele, muitas vezes, fala “se morreu vamos falar que ele era bom”. Mas ele não era não. Ele, quando eu já tava adulto mesmo, ganhando, ele pegava o meu dinheiro. Porque era ele que fazia o pagamento, e não me dava o dinheiro. (riso)

 

P/1: (riso)

 

R: Mais foi isso, também. Pegava o dinheiro todinho e não me dava. Aí a gente comprava som, geladeira, televisão, esses negócio aí. Ele falava: “Isso aqui é nosso.” Passava um mês, uma semana, vendia tudo.

 

P/1: Ah, é?

 

R: Vendia as coisas de dentro de casa. Aí eu fui ficando chateado. Falava: “Isso aqui é nosso.” Vou trabalhar o mês inteiro, a semana inteira, na época a gente já tava saindo para namorar, já quer gastar o dinheiro da gente, e quem ganha, quem trabalha, tem que receber. E ele pegava o dinheiro, ele que pagava, e não me dava.

 

P/1: Isso era com você e seus irmãos também?

 

R: Eu e mais dois irmãos que trabalhavam com ele. E ele não pagava, não. Não tinha esse negócio de... A gente faz o serviço todinho... Tinha serviço que pegava, ele fazia todinho. Só explicava como que fazia, recebia a grana todinha e, desse jeito, qualquer um vai para frente. Botando um escravo!

 

P/1: Mas aí você, então, largou de trabalhar com ele e...

 

R: Aí eu larguei de trabalhar de pedreiro e fui trabalhar com aviação civil. Aí depois eu saí também.

 

P/1: Quantos anos você tinha?

 

R: Aí eu já tinha uns dezessete, dezoito anos, nessa época, mais ou menos. Eu não me recordo bem, não. Aí eu fui, depois que eu saí de trabalhar com aviação civil, eu já tava morando em Goiânia. E eles estavam morando em Goiânia também. Eles mudaram pro Pará, de novo, depois vieram para Palmas. Aí eu não vim, não. Eu vim em Palmas, fiquei dois dias em Palmas...

 

P/1: Na casa deles?

 

R: Na casa deles. Aí eu não gostei, porque era um poeirão, muito barraco de lona e só poeira, só poeira. Foi no começo de Palmas, mesmo. Aí eu falei: “Sabe de uma coisa? Eu não vou ficar aqui, não.” Voltei, que lá em Goiânia eu tinha onde ficar, eu tinha emprego.

 

P/1: Você fazia lá o quê?

 

R: Aí lá em Goiânia, nessa época que eu voltei para lá, que eu vim em Palmas, eu trabalhava numa academia de Kung Fu. Aí eu...

 

P/1: Ah, é? O que você fazia lá?

 

R: Lá eu trabalhava na, tinha uma secretaria e eu atendia o pessoal. Tinha uma lojinha, a gente vendia, que eles confeccionava equipamento para arte marcial, e eu trabalhava lá. Fazia depósito em banco, fazia de tudo. Limpava.

 

P/1: Hum, hum.

 

R: E eu voltei, fiquei lá, e não vim mais para cá, não. E tinha meus irmãos que moravam em Goiânia, também. Mas eu não morava na casa deles, não. Porque a gente não tinha convivência. Eles me chamavam, mas eu não ia, não. Aí eu fiquei morando na academia que eu trabalhava. Morando e comecei a treinar Kung Fu. Treinei bastante tempo. Aí eu fiquei sabendo que meu pai tinha morrido. Eles ligaram para mim: “Seu pai morreu, tal. Vem.” Eu falei: “Não, agora não vou, não.” Peguei, não vim para cá, na época. Passou uns seis meses, mais ou menos, daí eu vim que eu fiquei afim. Disse que Palmas já tava melhor.

 

P/1: E a sua mãe ficou aqui?

 

R: Aí minha mãe ficou aqui, meus irmãos, todo mundo.

 

P/1: Sua mãe começou a trabalhar.

 

R: Aí minha mãe começou a trabalhar.

 

P/1: Começou a fazer o quê?

 

R: Serviços gerais. Ela trabalhava num colégio. Agora ela trabalha na Apae [Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais].

 

P/1: Tá.

 

R: Aí depois que ele morreu que ela veio trabalhar. Mas antes, não.

 

P/1: Ela ficou muito triste? Ou a vida dela melhorou?

 

R: Ah, ficou. Porque acho que ela gostava muito dele. Ficou triste. Até hoje ela é triste, mas depois que morre, a gente fica triste um pouco, aí depois passa a tristeza e continua.

 

P/1: Mas aí você veio para cá, então?

 

R: Aí eu vim para cá.

 

P/1: Aí você acabou ficando aqui?

 

R: Aí eu vim para cá, gostei, aí acabei ficando aqui. Voltei para Goiânia de novo. Mas sempre eu viajo para Goiânia. De seis em seis meses eu viajo para treinar.

 

P/1: Aí você casou? Quando você casou?

 

R: Tem três anos.

 

P/1: Aqui ou lá em Goiânia?

 

R: Aqui. Já tem quatro anos que eu estou em Palmas.

 

P/1: Então conta a sua história. Você chegou aqui...

 

R: Aí eu cheguei aqui e...

 

P/1: Você gostou foi da mulher, então? (riso)

 

R: Não, não. Também, mas não foi tanto, não.

 

P/1: Mas você chegou aqui, como é que era Palmas, então?

 

R: Palmas já tava bem desenvolvida. Já tinha asfalto para todo lado, já tinha praça, ônibus pra todo lado. Daí eu peguei, aí eu fiquei. E o pessoal que eu trabalhava lá em...

 

P/1: Em Goiânia.

 

R: ...em Goiânia, um dos professores lá da academia voltou pro Rio de Janeiro, o outro foi para Toronto, que ele era canadense, e ficou só um dando aula em Goiânia. Aí eu treinava também e vim para cá. Eu vim também para dar aula de Kung Fu. A gente começou dar aula de Kung Fu, aí minha esposa ficou grávida. Aí eu tive que casar.

 

P/1: (riso)

 

R: (riso) Aí eu tenho uma filha de dois anos, dois anos e quatro meses, e um filho de um ano e um mês, o Matheus.

 

P/1: Você casou faz uns três anos?

 

R: Tem uns três anos. É três anos, eu acho que vai fazer três anos. Eu não me lembro da data.

 

P/1: Porque aí ela engravidou, você casou, e você largou o Kung Fu?

 

R: Não, larguei não. Continuo treinando Kung Fu e dando aula à noite. E agora também eu vou voltar a estudar. Tem esse provão que a gente vai fazer, eu já estou me preparando para terminar o segundo grau e continuar dando aula de Kung Fu também, que é um esporte que eu gosto.

 

P/1: Então à noite você dá aula de Kung Fu?

 

R: À noite eu dou aula de Kung Fu.

 

P/1: Aonde, Francisco?

 

R: Eu dou aula na minha casa, mesmo. A gente tem um cômodozinho. E, nos fundos...

 

P/1: E o pessoal vem aqui?

 

R: Vem. Tem bastante aluno, treinando Kung Fu. A gente tem, mais ou menos, em Palmas, uns oitenta alunos praticando Kung Fu. E esse pessoal fui eu quem introduziu o Kung Fu no Tocantins, quando vim pra cá.

 

P/1: Que bacana!

 

R: Agora a gente está pretendendo construir academia no lote da minha mãe. Que o meu lote é mais afastado um pouco. E, até outubro ou novembro, a gente quer fundar a Federação Tocantinense de Kung Fu, e promover o esporte no Estado inteiro. Que já tem alguns instrutores na academia.

 

P/1: Puxa, que legal!

 

R: E a gente vai crescer com este esporte, também.

 

P/1: Bacana. E aí como foi que você começou a trabalhar como agente comunitário de saúde?

 

R: Foi...

 

P/1: Como você começou a se ver com a saúde? Foi como?

 

R: Eu nunca pensava que ia trabalhar na saúde. Eu sempre pensava que ia trabalhar na área de justiça. Na área de justiça que eu quero terminar o segundo grau e pretendo me formar em Direito. Mas aí eu, aqui, eu não tinha serviço e passou um exame seletivo sobre agente de saúde. Eu não sabia o quê que era, né? Aí um carro passou anunciando uma semana, aí eu fui e fiz a ficha lá, de cadastro, né, e no dia da prova eu fui e passei. Aí eles treinou o agente de saúde, eu comecei trabalhar e comecei gostar, né, do trabalho de agente de saúde. E eu só dava aula à noite, né, de Kung Fu, e durante o dia trabalhava de agente de saúde. Aí comecei a receber treinamento, orientação básica de saúde, medicina preventiva, e comecei a trabalhar com a comunidade, cadastrando as pessoas da comunidade, e...

 

P/1: Então qual foi a sua primeira atividade como agente? Quando começou?

 

R: O mês eu não lembro, não.

 

P/1: Mas que ano?

 

R: Há dois anos atrás, mais ou menos. Eu acho que foi em 95.

 

P/1: 95.

 

R: Em 95 que eu comecei a trabalhar lá.

 

P/1: Existiam já muitos agentes?

 

R: Já existiam alguns agentes trabalhando. Aí eu comecei trabalhar e, depois que a gente recebeu o exame...

 

P/1: Qual foi o primeiro treinamento que você recebeu? O que disseram pra você?

 

R: No treinamento introdutório, né, que é o primeiro que o agente de saúde recebe, eles explicaram qual é a função do agente de saúde, né? Que é um trabalho educativo, que a gente vai passar de casa em casa, conversando com as pessoas da comunidade. E a nossa prioridade nesse trabalho era gestante, criança de zero a cinco anos. Porque, nessa região, a gente sabe que em todas as comunidades pobres, o índice de diarreia, de outros tipos de doenças infecciosas, é muito grande, né? E as que mais sofrem são crianças e gestantes. Aí eles passaram isso pra gente. E deu um treinamento, uma semana, falando como que a gente ia conhecer a área que a gente trabalhava, porque a gente tem uma área pra trabalhar, com quantas famílias a gente ia trabalhar. Aí, daí eu comecei a trabalhar, né, cadastrando todas as famílias. A gente fez um cadastro e foi avaliar qual...

 

P/1: Cadastro o quê que seria? Você ia, perguntava...

 

R: Ia perguntar a idade, quantas pessoas, se tinha algum problema de saúde, se morreu alguém na família. Fazia uma ficha completa da família, né?

 

P/1: Hum, hum.

 

R: Da pessoa, de todos os moradores de cada casa, de cada residência.

 

P/1: E você já começou trabalhar nessa região aqui?

 

R: Já comecei a trabalhar nessa região, na área 10. Que é demarcado por área.

 

P/1: E essa aqui, atualmente, é a área 10?

 

R: É área 10. Na Arno 31 tem três agentes de saúde. A área 9, a 10, que é a minha, e parece que é a 7 ou é a 8, é a 8...

 

P/1: Aqui nessa área 10 tem quantos agentes?

 

R: Na Arno 31 tem três agentes de saúde, só na Arno 31.

 

P/1: Arno 31 é...

 

R: É o bairro que eu trabalho. Agora tem outros bairros que tem mais agentes de saúde.

 

P/1: Esse bairro aqui que a gente tá chama Arno 31?

 

R: É, 31, esse. Tem três agentes de saúde, né? E eu trabalho na área 10.

 

P/1: Você trabalha com quantas famílias, Francisco?

 

R: Atualmente eu tô com 168 famílias.

 

P/1: Que moram tudo por aqui?

 

R: Que moram tudo por aqui. Agora tem agente de saúde que tem mais famílias, né? Eu tô com 168. E, dentro dessas famílias, tem as famílias que tem mais prioridade, né, do trabalho do agente de saúde. Mas todas as famílias a gente visita. Mesmo aquelas que não tem tanta prioridade a gente sempre tá passando. Porque um mês pode ser que não esteja com problema de saúde, o outro pode ser que tá com algum problema de saúde, a gente passa. E o pessoal já tá acostumado, hoje, né? Antigamente era mais difícil. A gente passava...

 

P/1: É como foi, você lembra, o seu primeiro dia de trabalho?

 

R: Eu lembro. A minha primeira semana de trabalho foi, acho, a semana que eu mais trabalhei. Mesmo porque eu não tinha experiência, né, e eu sempre ia nas agentes de saúde que tinha mais experiência. Ou então conversava com as mulheres. Porque a gente trabalha direto mais com mulher, né? E eu acho que foi num, o meu primeiro dia de serviço foi cadastro. Os primeiros dias. Aí, cadastrei toda área, né? E quando tava no cadastro mesmo, eu parei numa casa, tinha uma mulher com uma cirurgia aberta. Tinha feito uma cesariana que tava com oito dias e o esposo dela saía pra trabalhar. Já tinham feito o acompanhamento de pré-natal dela, né, só que ela era muito tímida, não conversava. Só o que a gente perguntava ela falava. Aí eu saí da casa dela, vi que ela não tava legal, e passei na casa da vizinha do lado. Aí a vizinha comentou comigo que essa senhora tava com uma cirurgia aberta e que tava muito grave. E que ela tava cuidando dela mesma e da criança que nasceu. Aí eu chamei a vizinha pra ir comigo na casa dela, né? Aí a vizinha foi comigo, aí a vizinha chegou lá, já conhecia, né, tinha intimidade com ela, falou que ela não tava boa, não. Que ela tava mal. Aí ela resolveu se abrir, né? Eu perguntei se ela queria ir pro hospital, ela disse que não queria, não, que tinha medo do marido dela brigar com ela. Aí eu chamei outra agente de saúde pra ir lá na casa. Ela foi comigo, aí ela falou: “Ó, Francisco, tem que levar pro hospital.” Aí eu levei ela pro hospital. Saí procurando carro. Quase não conseguia casa.

 

P/1: E ela tava o quê? Amarela?

 

R: Tava amarela, não tava aguentando andar. Até tava com mau cheiro a cirurgia dela. A barriga tava, praticamente, aberta. Com mau cheiro. Não conseguia fazer nada, né? E o marido deixava o dia inteiro a mulher em cima da cama, ela cuidando do bebê.

 

P/1: E o bebê ali lado?

 

R: E o bebê ali do lado também, né? Aí eu levei pro hospital no carro do Corpo de Bombeiros, né? Eu telefonei pra eles, eles veio, pegou ela, a gente levou pro hospital. Nesse dia, eu não tinha experiência, eu fiquei três horas segurando a filha dela, né? Que os médicos não queriam deixar a filha com a mãe. Internou a mãe e não queria deixar. Até que o pediatra examinou a criança e resolveu deixar com a mãe, a criança, né? E teve outros casos também de pessoas que chegou...

 

P/1: Esse foi um dos primeiros casos?

 

R: É, foi um dos primeiros, que eu não tinha experiência nenhuma. Sem experiência nenhuma. Mas eu fui buscar, conversar com outras pessoas que entendiam mais. Levei ela pro hospital, hoje a garota dela acho que tem já quase dois anos. Até essa semana eu passei na casa dela, pesando a garota. Tem aproximadamente uns dois anos isso.

 

P/1: E que outro caso foi assim tão forte?

 

R: Outro caso de hospital foi numa casa que... Já teve vários casos, né? Eu vou contar outro de gestante. A vizinha do lado aqui, do lado da minha casa, né? Ela tava grávida e o marido dela levou ela duas vezes em trabalho de parto pro hospital e voltou.

 

P/1: Com ela?

 

R: Com ela, né, porque não ficava internada. Aí ela começou a entrar em trabalho de parto, as dores veio bem forte, mesmo. Aí ele veio me chamar. Já era umas oito horas da noite. Aí a gente foi arrumar carro no meio da rua. Aí ela disse que não ia mais pro hospital, não. Aí quando a dor apertou, ela não aguentou e falou que ia, né? A gente arrumou um carro, levamos. Quando chegou lá no hospital, o médico disse que ela não teria o filho naquele dia, não, porque era o primeiro filho. Ela era nova, né? Tinha quinze anos a garota, quinze anos. E o médico disse que eu não sabia de nada, não, que ele que era o médico, que não ia ser cesariana, não. Aí eu falei que o médico que fez o acompanhamento dela, que fez o pré-natal dela... Porque a gente passa fazendo um trabalho preventivo, orientando pra pessoa buscar o médico, educando nas formas de prevenção de saúde, né? E o médico chegou e falou que não ia ser cesariana, não, né? Aí quando foi no outro dia...

 

P/1: E ela com dor?

 

R: E ela com dor. E o médico que tinha feito o acompanhamento de pré-natal dela disse que ia ser uma cesariana, né, que ela não tinha condições de ter o parto normal. Aí ele pegou e resolveu internar ela. Internou. Quando foi no outro dia, quatro horas da tarde, eles tiveram que fazer uma cesariana nela, né? Ela ficou 24 horas no hospital pra eles fazer a cesariana nela. Até a criança nasceu toda roxinha, não sei se passou da hora de nascer. Mas eu creio que passou da hora de nascer, né? Aí o médico fez a cesariana nela nas pressas, conseguiu salvar a criança,...

 

P/1: E ela?

 

R: E ela também. E a criança tá bem, né? Só que ela se separou do marido. Ela tinha quinze anos, casou e aí já foi logo. Esses casamento aqui é meio doido!

 

P/1: (riso) E isso era um trabalho de pré-natal. Você continua fazendo esse trabalho?

 

R: De pré-natal, se eu continuo fazendo?

 

P/1: É.

 

R: Continuo fazendo. Com gestante, cadastrando gestante, orientando pra fazer o pré-natal. A gente passa todo mês, verificando se a gestante fez o pré-natal, incentivando, também, né, a ela fazer o pré-natal e explicando qual é a importância do pré-natal.

 

P/1: E elas, em geral, querem ou não?

 

R: Hoje, geralmente, elas fazem, né, o pré-natal. A maioria das mulheres, eu acho que mais de 90% fazem, né? Tem algumas que acham, não sei se é preguiça de ir ou é vergonha de ir, mas na minha área todas as gestantes faz o pré-natal.

 

(Fim da Fita A1)

 

P/1: Que outro tipo de trabalho você faz?

 

R: A gente, além de orientar a gestante, a gente faz o acompanhamento materno infantil de criança de zero a cinco anos. Acompanhando a criança no cartão, né, verificando se a criança foi vacinada, pesando todo mês, acompanhando no peso, né? E todo mês a gente passa. Se teve alguma doença infecciosa, diarreia, pneumonia, a gente orienta a mãe, como evitar a diarreia, com higiene. A nossa prioridade é essa, né, criança e gestante. Além de pesar. A gente também promove reuniões com as mães, explicando sobre noções básicas de saúde, né?

 

P/1: Tá, você falou noções básicas de saúde e...

 

R: E incentivando a mãe, né, a manter higiene com a criança, e explicando também. Todo mês a gente promove reuniões na comunidade, né? E todas as campanhas que tem, a gente trabalha com todo tipo de problema básico de saúde na comunidade, a gente trabalha. Mas a prioridade é essa. Agora eles falaram pra gente que a gente vai trabalhar também com DST, né?

 

P/1 O quê que é DST?

 

R: Doenças Sexualmente Transmissíveis.

 

P/1: Ah, com...

 

R: A gente vai trabalhar orientando a comunidade, mas a gente faz todo tipo de orientação, né? Orienta a mulher na prevenção do câncer de mama, colo do útero.

 

P/1: E como é, as mulheres ouvem você? Não ficam com vergonha de falar com você, um homem?

 

R: Não, no começo, a princípio, elas ficavam com vergonha, né? Porque não sei se a gente não tinha intimidade, né? Aí depois eu passei a ter mais confiança no meu trabalho, né? A gente foi tendo mais treinamento, o que é importante o agente de saúde ser capacitado, porque à partir do momento que a gente tem convicção do que a gente tá falando, a gente tá fazendo um trabalho como se fosse um profissional. E na verdade é um profissional. Aí ela passa a ter mais confiança, né? A gente convida o esposo a participar da palestra, da reunião, junto, né, em casa.

 

P/1: Essas reuniões acontecem aonde, na sua casa?

 

R: Não, essas conversas, as reuniões que eu já promovi, foi feita nas escolas, na escola da Arno 31...

 

P/1: Aí você convida todo mundo?

 

R: A gente convida, né, bota cartazes nos lugares mais frequentados, e convida as pessoas, né, que geralmente tem uma dificuldade de participar, né? As pessoas quase não participam. Mas as reuniões que a gente já fez...

 

P/1: Ah, o pessoal vai pouco, Francisco?

 

R: Vai pouco. O pessoal quase não participa. Mas a gente tem visto...

 

P/1: Por que você acha que eles vão pouco?

 

R: Eu acho que muitas vezes eles não é estimulado. A vida inteira, eles nunca participaram de reuniões, nunca estiveram presente na vida social, em política também nunca decidiram nada, nunca tentaram. Eles não têm aquele estímulo em aprender, em buscar conhecimento. Eles não participam, não.

 

P/1: Você chama, eles falam: “Eu vou, eu vou.”

 

R: “Eu vou, vou.” A gente chama, convida todo mundo. Inclusive, numa reunião que eu fiz, eu fui até a Porto Nacional, pra divulgar na rádio, né? Nessa época, eu ganhei um espaço na rádio pra divulgar todo o trabalho que o agente de saúde fosse fazer em Palmas. E eu fiz, nessa entrevista convidei toda a população a participar da reunião, né? Eu acho que apareceu, mais ou menos, umas dezoito pessoas, que a gente documentou as pessoas que participou. Inclusive, nessa reunião, tinha um pessoal do chefe de gabinete do Secretário de Saúde, aí a gente conseguiu um respaldo maior nessa época, né? A Inês, que era chefe de gabinete dele, a secretária dele, ela cedeu um vídeo cassete e uma televisão, pra quando a gente fosse fazer reunião, né? Que a gente tava fazendo só com um cartazinho bem simples e explicando. Mas a participação das pessoas é pouca. Mas, depois daquela reunião, as pessoas que participaram daquela reunião, todas as reuniões que a gente fazia eles tava participando. Sempre participando. É porque eles não descobriram ainda, né, não são estimulados a participar, eles ficam na deles, tranquilo.

 

P/1: Por exemplo, numa visita, o quê que a pessoa acha de você: que você é um médico?

 

R: Não. Hoje, eles já sabem o que é agente de saúde. Mas tem gente que não conhece, fica perdido. Hoje, aqui em Palmas, já conhece o agente de saúde quando chega.

 

P/1: Não te pedem remédio?

 

R: Não, não pede remédio porque a gente quando chega já explica, né? Muitas vezes pedem até cesta básica. Eles pedem, né? Só que a gente já passou na mentalidade da pessoa que o trabalho do agente de saúde é preventivo, é informativo. A gente passa isso. Porque, a partir do momento em que você faz um trabalho, e divulga qual que é a finalidade dele, eles não vão ter como pedir remédio, pedir cesta básica. Tem gente que pede, né?

 

P/1: E você sente que muda um pouco a sua participação? O que você acha que muda?

 

R: Mudar, esse trabalho do agente de saúde muda, só que é um processo demorado, né? Porque esse trabalho de conscientização é difícil demais de fazer. A gente passa hoje, fala, passa o mês que vem, fala, e tá do mesmo jeito. Aí a gente, com o tempo, é muito demorado esse trabalho, mas a gente já conseguiu bons resultados.

 

P/1: O que você acha que é um bom resultado, Francisco?

 

R: Eu, hoje, em relação às crianças, né, diarreia. Quando eu entrei, quase todas as casas que a gente passava as crianças tinham diarreia. E hoje a gente já passa... Eu pesei essa semana, não pesei todas as crianças da minha área, já pesei mais ou menos umas quinze crianças e não encontrei nenhum caso de diarreia.

 

P/1: O caso de diarreia vem, basicamente, por causa de quê?

 

R: Geralmente a diarreia é transmitida por uma bactéria, né? A mosca, vamos supor, pousa numa criança que fez diarreia, e vai pousar num pão, de uma outra casa, de um vizinho, e a criança come aquele pão. Ou então o bico, o bico da mamadeira, né? Ou a chupetinha dele.

 

P/1: E como você orienta?

 

R: A gente orienta pra, quando a criança estiver com diarreia, primeira coisa que a gente faz, né, é dar o soro de reidratação oral pra criança não ficar desidratada. Porque diarreia, muitas vezes, tem mãe que assusta, corre, leva pro hospital. Mas não precisa levar pro hospital. Só se a diarreia tiver com uma semana, ou mais, ou tiver rastros de sangue. Então a gente orienta pra mãe ter toda a higiene com essa criança, lavar as roupinha dela, tirar na hora que ela fizer cocô, limpar o cocô, jogar terra em cima, cobrir, jogar dentro de um saco de lixo. E as mães já aprenderam, né? Inclusive tinha casa que a criança ficava três, quatro meses com diarreia, né? Toda semana tinha diarreia. E hoje já não tem. Muitas vezes o vizinho cuida do dele, e o outro não cuida, né, aí a mosca vai lá e pum, a criança fica. E a gente tem muito a mostrar pras pessoas, na prática mesmo, casos de pessoas que tinha diarreia e hoje não tem. É raro. Quando tem a mãe já sabe como cuida. E muitas vezes a mãe sabe como cuida, e não cuida. A criança tá: “A minha filha tá com diarreia.” Aí muitas vezes até vem atrás do agente de saúde: “Vamos lá.” A gente explica: “Não, você que tem que fazer, tem que aprender.”

 

P/1: Ah, elas vem aqui pra você fazer?

 

R: Muitas vezes vem, né? Já aconteceu caso de vim, da mãe vim atrás.

 

P/1: Então você acha que essa mudança já aconteceu, que elas aprenderam a cuidar da diarreia?

 

R: Mudou, aprenderam a cuidar. E, em relação a pré-natal também. Quando a gente entrou, a maioria das gestantes não fazia acompanhamento, já ia, quando sentia dor, já ia pro hospital. Hoje não, já tá fazendo. Em relação ao câncer de mama, a gente tá incentivando. A gente passa nas casas e quando passa a mulher: “Oh, vou buscar meu resultado na semana que vem.” “Hoje eu vou buscar meu resultado.” Eles tão fazendo exame preventivo, né, que é importante. Se a gente não passar, e não ficar martelando, eles não fazem não.

 

P/1: E essa história, por exemplo, de pesar a criança: pra quê que serve, e o que você acha que mudou?

 

R: A gente pesa a criança pra saber se tá com baixo peso ou se o peso é normal, né? Hoje a gente já tem visto que a gente passando, acompanhando no cartão e marcando quando a gente passa pesando, as crianças que são pesadas e que estão com baixo peso, a gente incentiva a mãe a dar uma alimentação extra. E a gente passa acompanhando pra saber o quê que aquela criança tem que não tá ganhando peso. Porque não é normal uma criança que não tá ganhando peso. Ou ela não tá se alimentando bem ou esteve gripadinha, teve doente, teve diarreia. Se ela não teve doente e o peso dela continua aquele, a gente vai procurar saber, né? Inclusive a gente tava fazendo alimentação alternativa, incentivando as mães a fazer alimentação alternativa, né?

 

P/1: O quê que é alimentação alternativa?

 

R: Aqui a gente trabalha com o puído do arroz, né, e a folha da mandioca. O pessoal prepara, todo mundo prepara, e dá pras crianças comer. Eu acho que as criança come, né, coloca na comida e, não sei, eu acho que talvez pode até ser psicológico. Aquele puído que a mãe fica incentivando a criança a comer, né, a criança vai e come. Eu sei que a criança ganha peso.

 

P/1: Hum, hum.

 

R: Começa a ganhar peso. A gente passa e começa até a amedrontar a mãe: “Oh, se a criança não ganhar peso, ela pode ter um problema de saúde na frente. Ele tem que se alimentar bem.” E a mãe começa a ficar com medo, né, que toda a mãe quer ver o filho saudável, e começa a alimentar o filho mais. Tem mãe que tem preguiça de dar comida pra criança.

 

P/1: Você acha que tem?

 

R: É, tem. Tem mãe que é relaxada demais, não cuida do filho direito.

 

P/1: Qual você acha, Francisco, que é a maior dificuldade do seu trabalho?

 

R: Uma das maiores dificuldades, do nosso trabalho, hoje a gente já tem bastante apoio, né, mas antigamente a gente não tinha muito apoio não. Como eu te falei no começo, a gente faz uma reunião, a gente conseguia cinco, seis cartolinas, não conseguia uma TV, um vídeo cassete pra passar vídeo educativo pra comunidade. Que existe muito vídeo educativo. E hoje a gente já tem bastante incentivo, né? Nesse ano, o trabalho do agente de saúde, em Palmas, tá sendo bastante valorizado, né? O novo Secretário de Saúde que entrou começou a apoiar bastante, né? Inclusive ele criou o Conselho Municipal de Saúde, do qual eu faço parte, né, como membro do Conselho Municipal. E a maior dificuldade da gente era falta de apoio, né? O coordenador tinha uma força de vontade muito grande, mas muitas vezes a gente não tinha muito estímulo a trabalhar. E também, a dificuldade também é a participação da comunidade, que a comunidade não participa. Porque se a comunidade começasse a participar, reivindicar os seus direitos, cobrar mais e trabalhar junto com o agente de saúde também, não só na área de saúde, mas em todas as áreas, né, ia mudar bastante, na área, segurança, educação. E principalmente área de educação, né, que é fundamental. Educação, se não tiver... Se no princípio os nossos governantes tivessem investido na educação, hoje não teria esses casos básicos. A maioria das doenças que tem na comunidade é doenças que pode ser evitada, as mortes, tudo, pode ser evitada com...

 

P/1: É o que, falta de informação?

 

R: Falta de informação, e falta de... Porque a comunidade, a gente passa hoje uma informação na televisão sobre o câncer, mas se o vizinho não ver, a vizinha dele ou uma pessoa da família morrer com câncer, ele não vai fazer prevenção, não. Então precisa a gente tá todo dia. É um trabalho lento, demorado. Tem que ser feito nas escolas, com os jovens, com todas as pessoas. Eu acho que esse trabalho tinha que ser feito, também, com as crianças, nas escolas, né? Incentivando de uma forma que as crianças absorvessem. Que as crianças hoje já nascem... Minha filha tem dois anos, eu pergunto pra ela qual é a capital do Japão, da China, ela fala. Tem dois anos. Então ela, com cinco, seis anos, oito, dez anos, tá na época de começar a se educar, começar a aprender. E a mãe não ensina em casa, né, que tem que lavar a mão ao sair do banheiro, antes de comer. Que tem que tomar banho, cortar as unhas, o cabelo, que não pode ter piolho. Aí deixa.

 

P/1: Isso tudo você diz na casa?

 

R: Isso tudo é uma coisa que a gente passa pra comunidade, né? E eles aceita numa boa. Mas na hora de fazer na prática, é difícil.

 

P/1: A você vai no mês seguinte...

 

R: Aí vai no mês seguinte, é a mesma coisa. Aí quando eles vê um do lado adoecer, né, com algum problema de saúde, e a maioria desses problemas pode ser evitados, né, aí eles vão e cuida. Aí eles diz: “Ai, meu Deus, aqui é igual o dengue!” O dengue, enquanto não vê uma pessoa com dengue do lado, ou suspeita, eles não limpam o quintal, não fura as latinha antes de jogar no lixo, né?

 

P/1: Nada.

 

R: Nada.

 

P/1: Só...

 

R: Agora saúde assim, pra melhorar a saúde, né, não é só esse trabalho preventivo, não. Tem que ter uma série de... Tem que trabalhar. Eu acho que todas as secretarias tinham que trabalhar em conjunto. Porque só esse trabalho preventivo não adianta. Pra falar em saúde tem que ter moradia, tem que ter alimentação. Eu não falo nem alimentação, a gente fala comida mesmo, né? Tem que ter uma comida decente. E hoje em dia quase não tem.

 

P/1: Por exemplo, o pessoal desse bairro aqui não tem uma comida decente? O quê que as pessoas comem?

 

R: Hoje já tem, né? Antigamente, quando a gente começou... Mas o poder aquisitivo desse pessoal não é tão bom, né? Tem as pessoas que já tem mais dinheiro, já tem as pessoas que moram aqui que já tem carro, tem casa, se alimentam bem, mas tem pessoas que não tem nem o que comer. A gente passa na casa hoje e não tem o que comer.

 

P/1: Hoje tem isso?

 

R: Hoje, hoje. Hoje tem pessoas que, se eu sair, eu vou na casa de fulano de tal, vou fazer uma visita pra ele, ele tá lá, tá chorando. Inclusive já teve casa que, quando a gente passou, de uma senhora que quando eu saí de lá, na época, eu tinha cinco reais, eu dei pra ela, pra ela comprar alimento. Até passe mesmo eles pedem pra gente, pra levar filho no hospital, alguma coisa. Porque tem muita gente que mora aqui que não tem condições. Aí não tem como ele ter uma saúde boa, né, se não tem alimentação, a moradia não é decente. Muitas vezes, mesmo que limpe, que tire os ratos e as baratas, depois volta. Rato até que não tem tanto problema, não, mas barata já tem um pouco, né? E é difícil, né, esse trabalho. É lento e demorado, né? Pra conseguir bons resultados tem que ter muita força de vontade. O agente de saúde tem que trabalhar bastante.

 

P/1: E você acredita que isso vai mudar com o tempo ou você acha que vai ser sempre assim? Você vai continuar trabalhando com isso?

 

R: Se eu vou continuar trabalhando como agente de saúde?

 

P/1: É. Você me disse que ia estudar Direito, né?

 

R: Não, eu não pretendo. Eu pretendo continuar trabalhando como agente de saúde por enquanto, até... Eu gosto desse trabalho, desse trabalho preventivo, conversando com as pessoas, né, e a gente faz muita amizade, e eu acho bom. E eu tenho o outro trabalho à noite, que eu dou aula de Kung Fu, né? E eu vou voltar a estudar também, tem esse provão que vai ter aí agora. Eu vou fazer. Mas eu quero, pra minha vida, eu não quero continuar como agente de saúde o resto da vida, não. Logo eu quero fazer um curso, né, eu pretendo me formar em Direito.

 

P/1: Hum, hum.

 

R: Isso aí sempre tive vontade.

 

P/1: Você quer se formar em Direito pra fazer alguma coisa de especial?

 

R: É, eu quero não pra advogar. Eu quero ser delegado.

 

P/1: Ah, você quer ser delegado?

 

R: Delegado de polícia.

 

P/1: Por que você quer ser delegado de polícia?

 

R: Porque, hoje em dia, a gente não consegue mudar nada, né, na sociedade, por falta de, eu acho, que de conscientização das pessoas. Se as pessoas se reunissem, todas as pessoas, e: “Vamos mudar. Vamos radicalizar, mesmo.”, a gente conseguia. Mas eu quero ser delegado de polícia assim porque eu acho que tem uma injustiça muito grande. As pessoas, os bandidos ficam solto por aí. A gente prende, vai e solta. Mas prende. Não tem esse negócio de soltar, não. Prendeu, deixa preso. Solta, a gente prende de novo. Errou, a gente fica na cola, prende de novo. Eu acho que porque eu me identifico com justiça, um pouco.

 

P/1: Ah, então você quer trabalhar com isso?

 

R: É, eu quero trabalhar nessa área, né? E eu tô na saúde, até os meus amigos falavam: “Ah, o Francisco tá na saúde!” Falou: “Nunca imaginei que você fosse trabalhar na saúde. Sempre imaginei que você fosse ser policial, fosse trabalhar nessa área.”, que é desacreditada também, a área de polícia, o pessoal não confia mais. Mas eu não admito muito injustiça, não. Não é pouca, eu acho que tem que ter justiça. E eu acho que, pra mudar isso no Brasil, não falando de Palmas, pra mudar no Brasil, as condições de vida, de toda a comunidade, de todas as pessoas no Ceará, no Pará, em tudo o que é lugar, eu acho que só depende de uma lei, que a nossa Constituição é bem feita, né? O Estado garante alimentação, garante escola, garante um salário digno pra pessoa manter o filho, a família. Mas a lei não é obedecida, né? Só pros pobres tem lei, né? “Ah, você errou, pisou na bola, vai pro xadrez.” Rico não vai pro xadrez, rico tem dinheiro, né? Então se fizesse uma lei que fizesse cumprir todos eles: “Ah, vamos criar uma lei que vai punir o soldado.” Mas não pune, não. Toda lei, né, só fica no papel aquela lei.

 

P/1: Então pra isso você quer ser delegado?

 

R: É. E se tivesse uma lei que fizesse ser executada todas as outras leis que existe eu acho que melhorava. E tem que conscientizar a toda a população. Hoje eles não têm educação, né, que eles não educa porque quando a pessoa tem conhecimento é difícil manipular uma pessoa que tem conhecimento. Aí quando não tem... Político, aqui em Palmas, eles fazem política com cesta básica. Não só em Palmas, mas na maioria das regiões brasileiras, principalmente as mais pobres. Leva cesta básica, passa a mão na cabeça do eleitor. Aí fica naquela mesmo. Aí não consegue mudar nunca, porque eles não investem em educação. E a educação é fundamental. A partir do momento que a pessoa tem conhecimento ele não vai deixar ser manipulado.

 

P/1: Certo.

 

R: Então, eu acho que pra melhorar mesmo tem que investir na educação. Primeiro lugar, na educação.

 

P/1: E Francisco, só pra terminar aqui do PACS [Programa de Agentes Comunitários de Saúde], qual é o seu material de trabalho? O que você mais usa?

 

R: O material de trabalho da gente, né, que a gente mais usa, a gente tem o manual da gestante, né, usa mais os cartões que a gente trabalha. Tem a balança, que a gente mais usa é a balança também, que a gente pesa todas as crianças. Tem o termômetro, também, quando a gente chega numa casa que tem alguma pessoa com febre a gente coloca, né? Tem um aparelhozinho pra gente ver a batidas do coração, quando que tá batendo, o batimento cardíaco por minuto. E os que a gente mais usa é esse material, né? Caneta, papel, e as ficha, né, que a gente cadastra as gestantes. E não tem outro material, não. É balança. Não tem um material específico. Tem a bicicleta que a gente usa muito também, né?

 

P/1: Você usa muito a bicicleta?

 

R: A gente usa muito, né?

 

P/1: Você recebeu algum material mais recente que chegou por causa da Abifarma?

 

R: Nós recebemos da Abifarma um colete, recebemos da Abifarma um termômetro, um aparelhozinho pra marcar o batimento cardíaco e uma redinha pra pesar as crianças. A balança a gente não recebeu porque a gente já tinha, né, e foram pra outros agentes de saúde. A bicicleta também a gente não recebeu porque a gente já tinha a bicicleta, não precisamos, não havia necessidade da gente ter duas bicicletas. E o material da Abifarma foi isso que a gente recebeu.

 

P/1: Essa material você já, existia aqui, você recebeu um novo?

 

R: Não. O colete a gente não tinha, a redinha de pesar a gente não tinha. A gente tinha uma sacolinha, mas não era eficiente. O termômetro a gente não tinha também. O aparelho de ver o batimento a gente não tinha.

 

P/1: Isso mudou alguma coisa na sua prática?

 

R: Mudou bastante, né? A rede é bem prática. A balança a gente tinha, né? O colete também, fica fácil de identificar o agente de saúde. Todo mundo vê o “agente de saúde” bem grande, né, com aquele colete. A redinha também é eficiente. O termômetro também é muito importante. Porque a gente chega, tá com febre, a gente não vai pôr a mão na testa pra vê se tá com febre, né? Tem que colocar o termômetro, espera, vê a temperatura da pessoa, da criança, né? E o que a gente mais usa é esses.

 

P/1: Tá. Agora, finalizando, você tem dois filhos...

 

R: Dois filhos.

 

P/1: ...uma esposa. Quem mais mora aqui com vocês? Essa casa é sua?

 

R: É da minha mãe essa casa.

 

P/1: Ah, é da sua mãe?

 

R: É, da minha mãe.

 

P/1: Mas a sua mãe mora aqui?

 

R: Mora. Minha mãe e mais dois irmãos.

 

P/1: E você e a sua esposa.

 

R: É, e os dois filhos.

 

P/1: E o que é que você mais gosta de fazer?

 

R: Ah, o que eu gosto mais de fazer é, eu acho que eu gosto muito de, primeiro, eu gosto de, acho que a coisa que eu mais gosto de fazer é treinar Kung Fu, né? Eu levanto pela manhã, bem de madrugadinha, treino Kung Fu, treino Tai Chi Chuan também. E ler também. Eu gosto muito de ler. E trabalhar.

 

P/1: O quê que você gosta de ler?

 

R: Geralmente os livros que eu gosto de ler são livros relacionado a leis, né? Inclusive eu tenho alguns livros relacionados a lei. Tenho um curso de direito processual penal. Eu sempre compro livros, né? Tenho bastante livros. E li também um livro que me chamou muita atenção, que eu gostei, foi Olga Benário. Um livro bom pra caramba. Qualquer jornal, revista, qualquer tipo...

 

P/1: Tudo.

 

R: É.

 

P/1: Então você gosta de treinar, gosta de ler.

 

R: Gosto de treinar e de ler, né?

 

P/1: Hum, hum. E o que você quer ser, você já me falou, né?

 

R: Já.

 

P/1: É isso. E você tem algum outro sonho? Qual o seu maior desejo?

 

R: Ah, o meu maior desejo, a gente tem, eu tenho... Meu maior desejo é ter paz, tranquilidade, né, e viver em harmonia. Ter condições pra me manter, né, manter a minha família. Eu gosto muito de passear também, de viajar, né? Eu acho que porque tive uma infância viajando. Quando eu estiver bem de vida, eu quero conhecer a Europa. Isso eu vou. Eu não tenho dúvida, não, porque eu tenho convicção nas coisas que eu faço, né? Eu vou conseguir alcançar os meus objetivos. Aqui em Palmas a gente já conseguiu alguma coisa, né? Porque quando eu cheguei pra cá não tinha nada.

 

P/1: E os seus objetivos são viajar,...?

 

R: Meu maior objetivo é primeiro me formar, né? Quero me formar. E em relação ao esporte também, eu gosto muito. Porque através do esporte tem condições de viajar pra muitos lugares. Pra qualquer lugar, até do mundo, né? Eu tenho amigos que disputou campeonato na China, campeonato de Kung Fu. E eu treino pra isso, né? Pra mim conseguir um objetivo, né, no meu esporte. Inclusive agora eu ganhei 15 quilos, aumentei 15 quilos, pra mim participar de um campeonato.

 

P/1: Nossa, você então era muito magro!

 

R: Eu pesava 60 quilos. Agora eu peso 75. Aumentei 15 quilos. E o pessoal sempre dá força, né? O pessoal que a gente trabalha junto. Agora em relação o pessoal de casa, ninguém dá força, não.

 

P/1: Não, ninguém?

 

R: Não. Nem a mulher, nem...

 

P/1: Nem a sua esposa? Todo mundo acha o quê?

 

R: Não, faz é brigar: “Esporte é luxo.” “Não pode.” Não incentiva, não. Porque tem casa que geralmente a mulher, a mãe, os irmãos, incentiva. Qualquer...

 

P/1: Aqui não?

 

R: Não, aqui ninguém incentiva, não. Mais é brigar.

 

P/1: Me diz uma coisa: você ganha algum dinheiro com o Kung Fu?

 

R: Com o Kung Fu eu ganho sim. A gente tem mais ou menos oitenta alunos em Palmas, né? Em Palmas não, no Tocantins. Que tem aluno que vem treinar de fora também. No Tocantins inteiro. Em Palmas a gente tá com mais de quarenta alunos, só em Palmas. E eu cobro vinte reais por mensalidade, por pessoa, né? Aqui na minha academia eu tô com vinte alunos. Então dá pra mais ou menos, né? E quando eu construir a academia, quando a gente começar a divulgar, eu tenho certeza que é muito aluno, que a procura é muito grande pelo Kung Fu.

 

P/1: E esses vinte alunos são seus? Você ganha esse dinheiro pra você?

 

R: É meu. Esses vinte alunos são meus.

 

P/1: Então o dinheiro que você ganha é das aulas que você dá e desse trabalho de agente comunitário?

 

R: É, do Pacs. É eu ganho essas duas rendas: esse da aula de Kung Fu e do Pacs. E a gente construindo a academia eu acho que vai dá bastante aluno, porque a procura é grande.

 

P/1: Então você ganha mais dinheiro no Kung Fu do que no Pacs, né?

 

R: No Pacs eu ganho o dobro do que eu ganho no... Eu ganho mais que o dobro. Tem época, isso varia muito, né? Teve uma época que, tem aluno que treina particular, eu cobro cinquenta reais uma hora de aula particular.

 

P/1: Então você ganha mais ou menos quanto? Posso te perguntar?

 

R: Pode sim. Mais ou menos no Kung Fu, hoje do jeito que tá, eu tô tirando mais ou menos uns 500 reais por mês.

 

P/1: E do Pacs você recebe quanto?

 

R: É, e do Pacs um salário e meio.

 

P/1: Tá.

 

R: E do Kung Fu a gente tem tendência de aumentar.

 

P/1: E mesmo ganhando assim a sua família não dá força?

 

R: Não, não dá força nada. Faz é acabar, destruir o que a gente tem. (riso)

 

P/1: (riso) Que droga!

 

R: Não dá força, não. Tudo o que a gente vai fazer, quando eu vou pra Goiânia treinar, porque eu pago aula particular em Goiânia, né? Quando eu vou pra Goiânia treinar eles não incentiva, não. Faz é briga mesmo e xinga e explora. E não tem jeito, não. Não tem como. Não dão força, não. Pra eles tem que trabalhar. Até ontem, eu fui numa academia ontem à noite, cheguei mais ou menos nove horas, quando cheguei tava todo mundo chorando. Os dois meninos chorando e a mulher chorando porque eu demorei. Chorando não era preocupado, não, era com raiva mesmo, porque eu não tava pra cuidar das crianças.

 

P/1: (riso)

 

R: O pessoal deixa tudo sempre em cima de mim, né? As crianças eu que boto pra dormir, os dois, eu que coloco pra dormir. Todo dia!

 

P/1: Ah, é?

 

R: É, eu que coloco pra dormir. Coloco no colo e bato na bundinha até dormir. Então fico sacudindo no braço. Mulher...

 

P/1: Mulher não serve pra isso? (riso)

 

R: (riso) Não serve, não. Até hoje eu incentivei ela pra treinar, não treina. Porque geralmente eu acho assim, vamos supor: se ela gostasse de fazer alguma coisa, e me incentivasse a fazer, e perguntasse, eu fazia também só pra incentivar ela.

 

P/1: A sua mulher ela faz o quê? Ela cuida das crianças?

 

R: Cuida das crianças.

 

P/1: E cuida um pouco da casa?

 

R: É, cuida da casa. Comida, lava roupa. O que geralmente as mulheres fazem, né? Mas eu incentivo ela a fazer um curso, a fazer alguma coisa, né?

 

P/1: Mas ela anima?

 

R: Ela fica animada, né? Eu vou incentivar ela porque a gente não sabe o dia de amanhã, né?

 

P/1: Lógico!

 

R: Se acontecer alguma coisa ela pode ter o meio de trabalho dela também.

 

P/1: Tá bom, Francisco. Tem alguma outra coisa que você queira dizer?

 

R: Não, eu só quero agradecer a vocês, a Abifarma também, que me convidou pra fazer essa entrevista com vocês. E eu sempre, não sei, acontece na maior naturalidade comigo, né? Quando foi pra escolher o representante no Conselho Municipal de Saúde, todo mundo tava afinzão de fazer, de ser representante, né? Inclusive tinha agente de saúde que acho que no anos 2000 quer ser candidato e já tá querendo aparecer, tá querendo se destacar, né? E eu fui de onda. Eu fui só pra ir mesmo. Levantei o dedo e ganhei. Aí tô sendo membro do Conselho Municipal de Saúde. Eu sempre tô...

 

P/1: Você tá sempre sendo escolhido?

 

R: É, tudo que eu entro... Geralmente eu entro...

 

P/1: Dá certo.

 

R: ...assim, vou entrar só pra entrar, mesmo, porque só de onde mesmo, pra competir, E ganho. Todas as coisas que eu entro é assim.

 

P/1: Que bacana! Que bom!

 

R: É.

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