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História

Lutando pela moradia

História de: Elaine Cristina da Silva Leite
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/08/2014

Sinopse

Elaine é uma budista que acredita na transformação das pessoas. Em seu depoimento, ela lembra como os seus pais se conheceram, casaram e se separaram. Fala com carinho da tia, irmã de sua mãe, que lhe acolheu durante um período de sua vida e que lhe ajudou a criar seu filho. Ela relata como se envolveu com movimentos de moradia, conquistando um apartamento no bairro do Itaim Paulista. Ao tentar fazer a diferença, decidiu montar uma associação de moradores para promover atividades culturais no condomínio onde mora: a Associação Três Gerações. Finaliza o depoimento falando da importância de respeitar o próximo.

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História completa

Meu nome é Elaine Cristina da Silva Leite. Nasci em São Paulo, em 1967, no dia 27 de julho. Meus pais são baianos, mas vieram pra São Paulo e se conheceram em São Paulo.  Meu pai foi alfaiate e depois foi trabalhar como motorista particular. Ele sempre trabalhou muito. Então ele nunca teve tanto tempo pra ficar dialogando, conversando. Ele sempre trabalhou pra cuidar das irmãs, dos irmãos. Ele foi numa festa e tinha uma conhecida que estava paquerando ele. Essa conhecida era amiga da minha mãe, uma prima distante de terceiro ou quarto grau, que veio mais tempo pra São Paulo. Só que no fim, meu pai conheceu a minha mãe, se encantou por ela e se casaram. Ficaram casados durante algum tempo, depois se separaram. Eu sei que moraram em Pirituba, Osasco, pra esses cantos. Viveram algum tempo ali em Osasco. Eu nasci no Hospital Nossa Senhora da Lapa, aqui na Lapa. Meus pais moravam ali em Osasco.  Depois meu pai conheceu uma outra pessoa.  E tanto que vive até hoje junto com essa que eu chamo de mãe. Construiu uma nova família.  A minha mãe já casou, descasou. Hoje ela vive na Bahia. Somos duas irmãs. E eu tenho irmãs de criação também, que são mais quatro. Nós fomos morar com meu pai porque ele ficou com a nossa guarda. Éramos seis, fora os meus pais. Ele achou que tinha mais condições de estar cuidando e minha mãe resolveu deixar com ele mesmo. O meu pai sempre foi tranquilo. A minha madrasta é que tinha o poder de cuidar da gente, de educar, essas coisas. A minha mãe pegava a gente esporadicamente pra passar as férias, essas coisas.  Quando criança eu sentia saudades dela. A gente quer ali, uma família igual a de qualquer um outro, tudo juntinho, mas com o tempo a gente vai aprendendo que nossa felicidade não depende dos dois estarem juntos ou não.

Lá em Osasco tem muito morro. Era uma casa até boa. A gente brincava, normal. Uma convivência saudável. Estudo, casa, amigos, essas coisas. A casa tinha dois quartos. A gente dormia na beliche. Tinha o quarto dos pais, tinha a sala, tinha o nosso quarto que era em beliche. A gente foi criada dentro do catolicismo, mas não que tinha a obrigação de participar. Cheguei a fazer o catecismo, mas nada que era obrigado. A preocupação mesmo era a de estudar, essas coisas. Não teve uma força religiosa nesse sentido, uma obrigação.  A gente participava de festas junto com a família, reunia primos, que a família é grande da parte do meu pai. Então, a gente ia pra casa da minha avó, a gente se divertia lá entre as primarada, até hoje. Entrei na escola com a idade de sete anos. Ia a pé, que a escola não era tão longe. Só que eu demorava pra voltar pra casa. Pra ir, eu ia no horário. Pra voltar, eu às vezes chegava mais tarde. Mas era normal. Eu ia pra escola com roupinha de uniforme, que tinha aquelas sainhas xadrezinhas, blusinha, aquelas coisas normais. Reguada na cabeça eu já levei bastante. Mas era aquela coisa que hoje em dia a gente acha normal, mas antes eu tinha muito medo.

Eu sempre gostei de ser muito independente. Então, eu com 11 anos ia trabalhar no Jaguaré com meu cunhado que tinha uma máquina de sorvete. Eu ia pra lá e ficava cuidando daquelas máquinas de sorvete que faz massinha. Fiquei um bom tempo lá.  Eu ficava cuidando da máquina de sorvete. E chupando sorvete, lógico.  Com isso eu consegui até montar um quartinho separado da casa. Então, eu investia nas coisas que eu queria.  Era no próprio quintal. Eu queria construir um quartinho só pra mim. Naquela época metade a gente ajudava dentro de casa, metade a gente fazia o que bem entendia. E eu sempre tive uma meta de ter um cantinho meu. Com 16 anos, eu mudei em definitivo pra Penha. Mas não pra morar com a minha mãe, eu fui morar com uma tia minha que é irmã da minha mãe. Saí da casa do meu pai e fui morar com ela. Eu gostava muito da minha tia por ser criada por mãe de criação, e com a minha tia eu me sentia muito bem.  

Eu fiquei um bom tempo só estudando e depois, vim trabalhar na 25 de Março, como vendedora. Ali era um atacadista, que inclusive depois de dez anos eu voltei até a trabalhar com ele. Eu estou com ele atualmente, com esse meu patrão. Eu fui trabalhar como vendedora e fiquei mais de 15 anos com ele. Depois saí e hoje estou com ele novamente. A gente trabalhava com brinquedos, presentes, perfumes. Hoje eu só trabalho com ele na área de perfumes. Na 25 de março antigamente não tinha tantos coreanos. Eram mais árabes. Então como eu trabalhava em prédio, eu só via a 25 na hora de ir embora e na hora que eu chegava. Mas ela sempre foi muito movimentada. Eu gostava muito do centro velho.

Eu morei com minha tia por um bom tempo. Com 21 anos, eu quis morar sozinha. Depois engravidei, tive o meu filho.  Quando eu tive ele, desocupou uma casa no quintal dela e eu fui morar lá embaixo. Eu tive o filho sozinha. A gravidez não foi planejada, aconteceu. E eu assumi e pronto. Sempre dei liberdade dele aparecer quando quisesse. Mas eu fui criando meu filho sozinha mesmo. Ele foi ver quando nasceu e pronto. Até hoje, não tenho contato nenhum.  Nem o meu filho, ele só é registrado no meu nome.  A minha tia dá esse suporte até hoje, no entanto que eu falo que ele é mais filho dela do que até meu mesmo. É uma paixão muito grande entre os dois. E a minha prima também, que é uma pessoa que está sempre ali por trás, protegendo também. Então, quando eu não podia dar as coisas, ele conseguia as coisas. Só dele pensar, ele já tinha. Não que ele pedia, mas ele sempre teve a boa sorte de ter pessoas que sempre quiseram dar o melhor pra ele.  Eu trabalhava, deixava ele na escolinha, pagava escolinha. Até os sete anos estudou em escolinha particular. E quando chegava da escola até eu chegar, ela ficava com ele. E quando estava frio, ela pegava ele na escola, não deixava ir, e cuidava dele também. Então, é uma relação muito bonita entre os dois.

Então com o tempo, eu entrei no movimento da moradia, ajudei, trabalhei em esquema de mutirão. E comecei a participar e hoje eu tenho a minha casa própria. Em 2000, eu comecei a participar do movimento da moradia ali no Cangaíba, eu participava de reuniões até que fui sorteada. E eu fui trabalhando até pegar a chave da minha casa, que eu peguei em 2005. Então, eu sempre gostei dessas coisas, desde a escola eu sempre gostei de participar, nunca gostei de ficar esperando. Eu sempre gostei de ser muito útil. Eu não gosto de ficar esperando as coisas virem até mim, eu gosto de ir atrás das coisas. Hoje tenho a minha casa própria lá no Itaim Paulista. E com dois anos que eu estava lá, não bastava eu ter minha casa, eu queria algo mais. E com isso, eu fundei uma associação junto com alguns amigos. Eu fiquei mais de dois anos participando de reunião, uma vez por mês você tem que participar de um evento, essas coisas. Vai lá e vão tendo vários sorteios, fiquei mais de dois anos sem ser sorteada, até mesmo porque não tinha área. E quando surgiu a oportunidade de sair uma área grande lá no Itaim Paulista, eu fui pra lá. É um projeto até diferenciado, são dois apartamentos por andar, com garagem, eu tive boa sorte de ter o apartamento que eu tenho hoje.  Eu encontrei amigos que já faziam trabalho social. E ela falou assim, já que eu gostava tanto de fazer alguma coisa, com a associação eu poderia fazer muito mais, eu teria assim mais credibilidade. Então foi onde que eu fundei a Associação Três Gerações e comecei a fazer trabalho de formiguinha, porque a gente não tem parceiro, essas coisas. Então, é com a ajuda de moradores ou com uma empresa ou outra que a gente acaba pegando amizade, com cabeleireiro ou coisa... Dentro do trabalho que a gente vai fazer, a gente consegue o apoio e realiza as atividades. O nome fantasia é Três Gerações.  Com a terceira idade eu geralmente faço mais diálogo, palestra, junto aos condomínios locais, a gente faz assim, cinema, às vezes pras crianças, até mesmo para os moradores. Quando tem festas comemorativas, épocas comemorativas como o Natal, Páscoa, o Dia das Crianças, a gente se movimenta pra fazer um evento conjunto. Já fizemos show cultural ali no bairro também, levar rádio pra tocar lá, pra trazer um pouco de cultura pra um lugar que é deficiente nesse sentido. Tem a moradia, mas falta essa parte de diversão. Então, lá foi muita gente que veio de outros cantos e não tem. Então a gente procura realizar esse tipo de atividades, conforme a gente consegue. Então, a associação surgiu realmente com esse propósito. E é mais assim, o objetivo não é dar as coisas, mas mostrar o caminho. Então, onde que eu procuro tal coisa? Procura dar esse tipo de orientação. Então, eu sempre busco me informar, buscar apoio, até mesmo da LBV, participo às vezes de reunião, onde eles nos ensinam o caminho de como estar agindo. Então, esse trabalho é realmente um trabalho de formiguinha. Conforme a gente tem a disponibilidade, a gente realiza as coisas. Surgiu dentro do condomínio para aqueles moradores que estavam ali. Só que não adiantava a gente simplesmente fazer para aqueles moradores lá. A gente começou fazendo pra outros condomínios também. Então, às vezes, a gente leva o cinema pra comunidade dentro dos condomínios, quer dizer, as pessoas não saem de casa pra ir buscar, a gente leva o lazer ou a diversão até o local. É aquela coisa meio itinerante.

Há três anos homenagearam algumas associações de bairros e entre elas, a minha foi escolhida. Por justamente por fazer esse trabalho de formiguinha, não ficar esperando simplesmente dos órgãos públicos. E é uma coisa que eu falo que eu realmente aprendi isso até mesmo dentro do Criança Esperança. Você vendo aqueles trabalhos lá no morro, aqueles trabalhos sociais lá na Bahia. Então eu falei assim: “Poxa, se eles fazem lá, por que não fazer aqui?”. A gente não faz na mesma grandeza, mas no que a gente pode. E com isso, eu acho que a gente contribui pra gente ter um país melhor. Há mais de sete anos que doo para o Criança Esperança. Porque me tocou em algum momento, de uma matéria que eu vi, que eu não lembro exatamente o que foi, eu doei com aquele sentimento de doar. Tem pessoas que falam assim: “Ah, você nem sabe pra onde que é direcionado”. Eu falei assim: “O importante é o sentimento que eu estou querendo fazer isso”. Então, assim, se eu quiser saber aonde está sendo usado ou não, é só eu buscar, como eu sempre fiz. Então eu fiz realmente porque me deu desejo de participar, independente das consequências ou não. Não estava me fazendo falta, mas também não estava sobrando. Então, eu realmente contribuí porque senti o desejo de fazer isso.

Eu trabalho fora pra me manter. Final de semana, além da religião, tem a associação que eu busco verificar em que eu posso estar ajudando. Me envolvo diretamente com condomínios locais. Como eu já fui síndica, então eu estou sempre entrando em contato com um síndico ou outro pra fazer, dialogar e verificar o que a gente pode fazer. Então, é bem corrido. Não gosto de ficar muito parada, não.  Meu filho, hoje ele mora sozinho, ele mora junto com a minha tia em um cômodo separado. E trabalha, tem 24 anos. Eu tive meu filho e fui tendo a minha vida, buscando realmente seguir em frente. Se um dia aparecer um companheiro, bem. E se não aparecer, também está bem.

Hoje eu sonho com a harmonia, seja a harmonia familiar, seja a harmonia no país, seja a harmonia no mundo. Porque a gente não é feliz vendo as outras pessoas sofrendo. Então assim, eu acredito que isso começa dentro de casa. É de você falar um “bom dia”, é de você falar um “obrigado”. Então, isso eu acho que é o caminho. Pode não ser a solução, mas eu acho que é o caminho. Acho não, tenho certeza que é o caminho pra que a gente possa ter um mundo melhor. Respeitar o próximo é entender que a gente não pode mudar as pessoas. Mas respeitar as pessoas eu acho que é um ponto essencial. E agradecer da gente viver num país como o nosso, valorizar o que nós temos, porque não adianta a gente só, simplesmente, criticar se nós mesmos não participamos do princípio de respeitar as pessoas que estão à nossa volta.

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