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História

Lutando para existir

História de: Filomena
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Filomena nasceu no Piauí. O trabalho na roça e as dezenas de afazeres domésticos foram determinantes para o crescimento de uma criança que foi privada de todas as possibilidades de ter uma infância feliz e acolhedora. Mesmo passado muitos anos após a saída da casa da qual foi criada, ela ainda tem pesadelos da época em que apanhava brutalmente da mulher do avô. Na terceira tentativa de fugir desta realidade, acabou sob a tutela da mãe, prostituta, que morava em um cabaré e alternava a criação da filha com idas a festas e casas de colegas. Com quinze anos conheceu o pai de suas filhas, que, após o casamento, se mostrou extremamente controlador e abusivo. Os dezoito anos que viveram juntos foram de muita violência, durante todo o tempo. Sem saber como era de fato ter o carinho de um pai, achava normal o zelo de seu companheiro com as filhas, sem saber que, na verdade, o excessivo carinho se tratava de abuso sexual. Alertada por uma das filhas algum tempo depois, soube dos abusos que ele praticava enquanto Filomena trabalhava na roça. A difícil luta por justiça, apoio e compreensão, marcaram sua trajetória por muitos anos. Mesmo tendo sido acusada de negligente por pessoas que não conheciam a realidade de sua família, ela ainda teve forças para encaminhar os filhos ao Projeto ViraVida.

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História completa

Nasci no interior do Nordeste. Minha mãe era prostituta, meu pai eu não conheci, fui criada pelo meu avô. Apanhava demais da mulher dele, por isso fugia sempre que podia e, quando me levavam de volta para casa, apanhava de novo por ter fugido. 

 

A mulher do meu avô vivia dizendo que minha mãe não prestava, que era prostituta e que eu ia acabar como ela. Quando eu fugia e me levavam de volta para casa, ela dizia: “Você vai me pagar, vou te dar uma surra que tu vai ficar mole no chão!” O meu medo era enorme. Vivia me escondendo embaixo da cama. Até hoje tenho pesadelo com ela.

 

Além das surras, eu era abusada sexualmente pelo marido de minha bisavó. Toda vez que isso acontecia, eu fugia e depois apanhava, era sempre assim. Quando fiz doze anos, fui para escola e tinha vergonha, medo de que descobrissem a profissão da minha mãe. E acabaram descobrindo.

 

Tenho raiva da minha mãe, culpo ela pelo que aconteceu comigo na vida. Não tenho inveja de quem tem dinheiro. Invejo quem tem o carinho de um pai. Esse foi o meu ponto fraco. 

 

Aos quinze anos, deixei a escola e fui morar com aquele que pensei que seria o meu salvador. Foi só no sonho. Quando eu o conheci, ele demonstrou ser boa pessoa. Eu acreditava que ele era um bom partido. Pelo comportamento dele, parecia que tinha tudo para ser um bom marido. Só depois que eu fui morar com ele que fui ver realmente quem ele era. Logo depois que passamos a morar juntos ele começou a me bater, a me maltratar. Fiquei grávida no mesmo ano e tive a minha primeira filha. Por um tempo ele parou de me espancar. Eu achava que a ruindade tinha acabado, que dali para frente ia ser tudo às mil maravilhas. Mas não foi. Tive, logo depois, a segunda filha e tudo ficou mais difícil. Ele voltou a me tratar mal. Ele controlava tudo, vivia repetindo que eu era uma péssima mãe. 

 

E eu acreditava nele, me sentia um zero à esquerda. Ele dizia que era um favor ele ainda estar dentro de casa. O pior é que eu ainda agradecia aquela vida cachorra que a gente tinha, porque ele repetia que se fosse embora, eu ia ter que me prostituir como minha mãe fazia.

 

No fundo, com todos os maus-tratos e ruindades que ele fazia para mim, eu gostava dele. O que ele fizesse estava bom, tinha que aceitar porque achava que ele era um bom pai. Ele tinha um ciúme doentio e proibia as nossas filhas de brincar na rua. Vigiava as duas o tempo todo, mesmo quando elas estavam na escola. Não deixava que eu levasse elas pro médico, ele mesmo medicava em casa. Eu achava que aquilo era carinho normal de pai, mas não era.

 

Vivia uma vida de medo e maus-tratos, mas nunca pensei em separar, porque, afinal, ele parecia ser um bom pai para os meus filhos e isso era muito importante para mim, porque eu nunca tinha conhecido o amor de um pai.

 

Fiquei com ele até o dia em que as meninas tiveram a coragem de me contar o que o pai fazia com elas. Na hora, eu não quis acreditar. Não, aquilo não era possível. Quando vi que as meninas diziam a verdade, que ele abusava delas desde pequenas, dentro de casa, debaixo do meu nariz, meu chão caiu. Nunca deixei de me sentir culpada por não ter desconfiado, por não ter procurado escutar as meninas. Não dei atenção aos detalhes e, por isso, não consegui evitar essa desgraça.

 

Eu suportava as surras, os maus-tratos, as bebedeiras e as amantes. Permanecia calada ao lado dele, porque acreditava que ele era um pai carinhoso, que amava seus três filhos e fazia de tudo pelo menino e, principalmente, pelas meninas. 

 

Quando fiquei sabendo de tudo, eu queria matar meu marido. Entrei em desespero. Pensei: “Como vou viver agora?” Meu pensamento era: “Eu mato ele e depois me mato.” Tentei me matar, queria morrer para não sentir mais aquela dor. Pensava que minhas filhas não teriam mais futuro. Não tinha confiança em ninguém, nem na minha sombra. Essa é uma coisa que nunca vou superar. Pensava comigo: “O que eu sempre ganho é pancada, pancada e mais pancada.” Mas, depois, me perguntei: “Quem vai cuidar dos meus filhos, quais seriam as consequências para eles?”

 

Ele nunca demonstrou arrependimento. Na delegacia, contou tudo. Disse que não tinha amor de pai e, sim, amor de homem. Falou que era normal e que aquilo não tinha problema, não tinha nenhuma consequência e ainda perguntou: “Tá faltando algum pedaço em alguém? Tem alguém aleijado?”

 

Passaram-se cinco anos desde que descobri. Ele está na prisão. Cumpre pena de trinta e cinco anos. Hoje, apesar da minha dor, de me sentir culpada, do desespero de me ver sozinha para cuidar de três filhos, sem dinheiro, sei que tenho que seguir em frente. 

 

Mas não foi fácil, pois as meninas foram crescendo e se tornaram muito rebeldes. Felizmente eu encontrei apoio nos projetos sociais do governo, no CREAS, no Sentinela e na Casa de Zabelê. Elas passaram por acompanhamento psicológico. Foi com os psicólogos que elas vieram a saber o que era ser criança, brincar, ter amizade com uma pessoa, com outra, vieram a saber o que era carinho. 

 

Aí surgiu o Vira Vida, foi uma coisa que ajudou muito a gente, porque lá a Luzia e a Lúcia continuaram com o acompanhamento com psicólogo. Eles mesmos levavam elas para o hospital, quando estavam doentes. A Lúcia continuou estudando. Fez o curso de Auxiliar Administrativa, tinha ajuda da bolsa que eles davam, que era uma ajuda para mim também. O comportamento da Luzia me preocupava. Ela saía para ir pro curso e fugia com outras colegas, ia para outro lugar, aí me ligavam: “Olha, a Luzia tá faltando.” Aí eu ficava controlando desde a hora que ela saía. “A Luzia já chegou?” “Quanto tempo tem que a Luzia saiu?”, que era para eu ficar marcando o tempo que ela poderia levar de lá até em casa. Fiquei tentando controlar para não deixar a Luzia com más companhias. As pessoas com quem ela estava fazendo amizade queriam levar ela para prostituição, para beber, para fumar, fiquei o tempo todo em cima.

 

Eu lutei muito até chegar aqui. Graças a Deus, hoje a Luzia já tem a família dela, o marido dela. Agora, o dia que ele arribar a mão para ela, ele vai apanhar de mim também; se ele der nela, ele vai apanhar. A outra, a Lúcia, arranjou uma pessoa, viveu com essa pessoa durante três anos. Não deu certo, se separou, voltou para casa. Ela tá fazendo parte, agora, da segunda etapa do Vira Vida. As mesmas coisas que a Luzia teve, ela tem, os mesmos acompanhamentos, tudo. Agora vai viajar para São Paulo para participar de um congresso. 

 

Hoje em dia, as minhas filhas estão bem. Eu agradeço muito a paciência que todos tiveram com elas. Eles foram um pouco mãe delas também. Eu acho que elas se superaram muito mais do que eu, porque eu sei que não sou culpada, mas me sinto culpada. Eu me sinto culpada pelo que aconteceu. Eu fui covarde, não tive a coragem de largar dele. Eu tinha medo, porque ele dizia que, se eu largasse dele, eu ia sair de casa, mas não levaria meus filhos. Eu não queria me separar dos meus filhos. Ao mesmo tempo, eu não queria que eles fossem criados sem pai como eu fui. 

 

Eu digo sempre pras meninas que não se pode esquecer o passado. Temos que saber que o importante é que houve uma mudança nas nossas vidas. Se não fosse isso, nem elas nem eu teríamos voltado a acreditar, a sonhar, a crer que existe gente boa ainda, que vale a pena confiar nos outros, que vale a pena lutar e nunca se entregar. 



Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra, bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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