Busca avançada



Criar

História

Luta pela vida

História de: Rogério Tales da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/03/2005

Sinopse

Nesta entrevista, Rogério nos conta sua trajetória: sua entrada na Marinha e sua expulsão, o trabalho em várias empresas, como Varig e Mesbla, o falecimento de dois dos três filhos e a contaminação acidental do HIV em uma cirurgia, o que lhe custou o emprego e gerou o abandono de sua família. 

Tags

História completa

 

P/1 - Seu Rogério, nós gostaríamos de começar a entrevista com o senhor falando o seu nome completo, local e a data de nascimento.

 

R - Meu nome é Rogério Tales da Silva. Nasci em 27 de Setembro de 1938 na cidade de Ilhéus, Bahia.

 

P/1 - Seus pais são da Bahia também, seu Rogério?

 

R - São, mas são falecidos.

 

P/1 - Qual o nome dos seus pais?

 

R - Roberto da Silva e Rosana Tales da Silva.

 

P/1 - O senhor sabe quais as atividades que eles faziam lá na Bahia?

 

R - Bom, ele era metalúrgico e a minha mãe era costureira.

 

P/1 - Conte para a gente um pouco da sua infância.

 

R - Eu fui da Bahia para o Rio de Janeiro com um ano. Com sete anos a minha irmã me colocou no (San?) e de lá eu saí para o sul de Minas, [para] uma escola de padres. Em 74 eu fugi e fiquei perambulando, fui recolhido novamente em 79 e já era [na] Funabem [Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor]. Nesse ínterim, eu fui para a Escola de Marinheiros de Vila Velha. Fiz o concurso, passei e em 81 fui excluído devido à falta de disciplina que eu cometi lá dentro.

De lá para cá, em 87 eu arrumei um emprego, comecei a trabalhar na Volkswagen como auxiliar de serviços gerais. Fiz um curso profissionalizante e me aperfeiçoei em mecânica de autos, trabalhei [nisso por] treze anos. Em 90 eu fiz uma operação de úlcera, fui contaminado pelo plasma e hoje sou HIV positivo. Vim aqui agora em 98 para resolver o no INSS um pagamento meu que está retido. São oito pagamentos, mas devido à perícia, esses andamentos todos de burocracia, eles não quiseram resolver. Eu tenho que voltar para o Rio e me encontro aqui em São Paulo há dois meses e vinte dias, morando embaixo do viaduto.

 

P/1 - Vamos só voltar um pouquinho, Seu Rogério. A gente queria que o senhor contasse um pouquinho da sua infância lá no Rio de Janeiro. Quando o senhor veio, onde o senhor morava lá?

 

R - Pois é, com sete anos eu fui para o (San?), no Rio, pra uma escola, internado. De lá eu fui para o sul de Minas…

 

P/1 - Mas antes do senhor ser internado no Rio de Janeiro, antes dos sete anos, o senhor morava onde lá?

 

R - Eu morava com a minha irmã. Eu morei com ela de um ano até uma faixa de seis anos e oito meses; quando eu completei sete anos ela me colocou no colégio interno.

 

P/1 - Em que bairro o senhor morava lá no Rio?

 

R - Vila Isabel, [Rua] Conselheiro Otaviano, apartamento 201. Ela reside lá até hoje.

 

P/1 - E por que vocês vieram para o Rio de Janeiro?

 

R - Bom, ela foi me apanhar porque eu fiquei sozinho lá. Ela foi me apanhar na Bahia para me criar e me dar um estudo, uma melhoria, afinal eu trabalhava na lavoura.

 

P/1 - Mas por que você estava sozinho? Seus pais já tinham falecido?

 

R - É, meus pais faleceram em 58.

 

P/1 - Mas eles faleceram antes de ir para o Rio ou depois?

 

R - Meu pai não foi para o Rio, nem minha mãe, eles não chegaram a conhecer o Rio. A minha irmã foi para o Rio em 1942, foi quando a madrinha dela, minha tia, nos levou para o Rio. Mas sabe como é o problema, o parente lhe dá um apoio hoje e amanhã já não quer dar mais, não entendo qual é a filosofia do parentesco.

A minha vida sempre foi sofrida, só que a minha inteligência é múltipla. Eu sempre trabalhei, sempre procurei me aperfeiçoar em algumas coisas e delas construí a minha independência. Eu ganho hoje um salário que não é lá muitas coisas, mas dá para comprar uma dedicação. Vim por esse motivo a São Paulo, para resolver esse problema porque não estava indo o meu dinheiro para o Rio. Chegando no Tietê eu fui assaltado e hoje me encontro debaixo de um viaduto, Alcântara Machado.

 

P/1 - Vamos voltar só mais um pouquinho, senhor Rogério. Esse período que o senhor morou lá na Vila Isabel, o senhor lembra das brincadeiras de infância?  O que o senhor fazia lá de brincadeiras?

 

R - Eu tinha várias brincadeiras. Na rua eu jogava bola, brincava de gude. Não tive estudo lá em Vila Isabel porque fui parar no colégio externato de (San?), então não tive quase infância em Vila Isabel. Fiquei o mínimo, um ano em Vila Isabel e de lá fui para um colégio em sul de Minas. Do sul de Minas eu fui para Vila Velha, para escola de marinheiros e quando entrei em indisciplina [esse projeto] se excluiu.

 

P/1 - Esse colégio que o senhor foi era no sul de Minas?

R - Era. Eu fui em dois colégios. Fiquei em um que era Escola João Luiz Alves, que agora é a Funabem, no Rio de Janeiro, e de lá eu fui para o sul de Minas, [para o] Externato Padre Antônio Vieira.

 

P/1 - Como era o convívio nesse externato?

 

R - Era bom, lá eu aprendi vários tipos de trabalho. Hoje, se eu sei fazer alguma coisa com o benefício de ganhar um pouco é tudo em benefício ao colégio. Eu sei plantar, sei fazer um trabalho artesanal, sei trabalhar com a madeira, entende?

 

P/1 – Além disso, vocês estudavam também?

 

R - Estudávamos, eu fiz até a sexta série.

 

P/1 - E o colégio era de padre?

 

R - É.

 

P/1 - O senhor ficou lá até quando?

 

R - Eu fiquei lá até 1979.

 

P/1 - Quando o senhor saiu tinha quantos anos?

 

R - De onde, do colégio?

 

P/1 - É.

 

R - Eu fui para Vila Velha com quatorze anos.

 

P/1 - Por que você saiu do colégio para ir para Vila Velha?

 

R - Porque… Veja bem: a unidade dá prioridade aos alunos mais comportados e mais inteligentes. Antigamente, a Marinha fazia um concurso, como fazem agora… Antes era diferente, você fazia uma prova no mesmo local e daqui a um mês você estava viajando. Chegando em Vila Velha, me aperfeiçoei em outra atividade, fui ser fundidor de navio.

Lá você aprende várias coisas dentro do quartel como aprendiz de marinheiro. Depois que você passa à classe um você passa a ganhar o auxílio-benefício, então lá eu aprendi como lidar com a máquina, como planejar um navio, como sai com ele, como ancorá-lo. Tem várias atividades.

 

P/1 - O senhor que escolheu a Marinha?

 

R - Não, eu não escolhi. O meu destino foi traçado por Deus.

 

P/2 - Mas como você foi parar na Marinha?

 

R - Eu fui para o Colégio de Vila Velha, fiz o concurso e fui o quinto colocado. No meio de duzentos alunos fui o quinto colocado.

 

P/2 - E você poderia contar para a gente o que aconteceu para você sair da Marinha?

 

R - Olha, hoje eu era para ser um capitão de fragata. Eu cheguei na Marinha muito novo, bonito; agora eu ainda não estou feio. Houve um contra-oficial, ele era homossexual e queria manter uma relação comigo. Eu dei com uma pá nele e fui desligado da Marinha. Foi isso que aconteceu.

 

P/1 - O senhor ficou quanto tempo na Marinha?

 

R - Fiquei [por] dois anos.

 

P/1 - O senhor chegou até que posto lá?

R - Eu fui até soldado de terceira classe.

 

P/1 - E essa coisa é muito comum?

 

R - Como assim?

 

P/1 - Essa proposta que o senhor recebeu lá.

 

R - Dentro da Marinha?

 

P/1 - É.

 

R - Olha, até na rua, no mundo você recebe esse tipo de proposta. Você aceita se quiser. Meu lema é esse: eu não adoto esse sistema, ainda mais na idade que eu estou. Eu não deitaria com uma pessoa do meu sexo, nunca. Eu achei aquilo um absurdo.

Já estava com a mente transtornada porque tinha perdido a minha mãe, a madrinha da minha irmã levou a gente para o Rio de Janeiro e chegando lá dar o transtorno de me jogar no colégio interno. Eu dei sorte da minha inteligência, de ganhar esse privilégio de ir para a Marinha. Não tenho mais nada a contar.

 

P/2 - Mas o que ele fez com você, exatamente?

 

R - Nós tínhamos acabado de limpar uma piscina, porque cada um tem um órgão. Quando eu fui tomar um banho ele veio dentro do banheiro e começou a querer me alisar. Eu me aborreci e dei com o ancinho nele. E eu era novo.

 

P/2 - E daí a Marinha lhe processou?

 

R - A Marinha me processou e me excluiu. Eu vim para o Rio de Janeiro, para o quartel [da] Ilha das Cobras, em Niterói. Lá eu fiquei retido oito meses. Depois que completou um ano eu fui ao Supremo Tribunal da Marinha e fui excluído.

P/2 - Você ficou preso por oito meses?

 

R - É.

 

P/2 - Como era lá?

 

R - Eu tinha a minha atividade como tinha no quartel, né? Jogava a minha bola, fazia a minha [atividade] física e tomava meu banho de sol. Só por esse episódio eu perdi meu quadro, hoje eu poderia estar com uma família bem melhor.

 

P/1 - Mas para esse episódio não teve um processo administrativo? Alguma coisa que o senhor pudesse se explicar frente aos seus superiores?

 

R - Na época eu recorri, mas é aquele problema, você que é pé-de-chinelo está sempre perdendo. Uma verdade de um presidente são dez mentiras minhas, uma mentira dele são dez verdades minhas, entendeu?

 

P/1 - Depois que o senhor ficou detido o senhor saiu de lá e foi para onde?

 

R - Eu saí de lá e fui trabalhar na Varig. Trabalhei na Varig [por] dois anos e depois saí porque eu pedi as contas. Aluguei uma temporada na Glória, comecei a tocar minha vida sozinho. De 89 a 94 trabalhei na Mesbla. Saí porque eles descobriram que eu era soropositivo, me mandaram embora. De lá para cá eu não consegui fazer mais nada. Eu não tenho força mais, sou aidético, a discriminação é…

 

P/2 - E a sua família?

 

R - Da minha família só resta a minha irmã mesmo.

 

P/2 - Você tem contato com ela?

 

R - Eu tentei pela Casa de Convivência, mas ela não me respondeu nada. A minha sobrinha… Por um guaraná eu saí da casa da minha irmã no ano passado. Ela comprou um guaraná, eu fui abrir e ela me ofendeu com palavras. Eu a escutei falar para a minha irmã: “Olha, mãe, o meu tio está doente, tá aidético. Não deixa ele ficar mexendo no meu refrigerante.” Ela é novinha, dezessete anos, não entende o que é, né? Isso não contamina. Aí me deu aquele branco, juntei as minhas coisas. Como eu tinha que resolver aquele problema aqui em São Paulo, pedi dinheiro a um amigo emprestado e vim para São Paulo resolver. Estou aqui há dois meses e vinte dias.

 

P/2 - Você está trabalhando atualmente?

 

R - Eu estou fazendo um trabalho na Erundina, que inclusive ela mostrou à senhora, mas não tem lucro nenhum. Os primeiros remédios são caros e o governo reduziu a faixa de medicações.

Não tem atividade fixa para mim aqui. Eu estava vendendo refrigerante, mas o ‘rapa’ tomou tudo. Eu vivo hoje do nada, só aguardando mesmo esse processo da perícia para eu apanhar o meu pagamento que está retido. São oito pagamentos.

 

P/1 - Seu Rogério, vamos voltar só um pouquinho. O senhor falou que trabalhou na Varig. O senhor fazia o que na Varig?

 

R - Eu era auxiliar de serviços gerais.

 

P/1 – Trabalhava lá no Galeão?

 

R – Não, eu trabalhei no Aeroporto Santos Dumont, mas eu exercia atividade na Rua México, 128, 17º andar.

 

P/1 – E nessa época o senhor morava sozinho?

 

R – Eu morava na Glória, [na] Rua Cândido Mendes, 480.

 

P/1 – O senhor morava sozinho?

 

R – Sozinho.

 

P/1 – O senhor chegou a casar, senhor Rogério?

 

R – Olha, eu fui… Como é que se fala? Eu me... Vocês dão um nome, eu não sei o nome. A justiça fala que é… Como é que é?

 

P/1 – Amasiado.

 

R – Isso. Desse casamento eu tive três filhos. Um morreu, se envolveu com problemas que não devia; minha filha morreu de doença asmática. Só resta mesmo o Diego, que também me renegou por causa da mulher dele.

 

P/1 – Ele tem quantos anos, o Diego?

 

R – Está com 28.

 

P/1 – Conte pra gente. Como o senhor conheceu essa sua esposa e em que período da vida o senhor a conheceu?

 

R – Eu a conheci em 1970. Ela era garçonete no Bola Preta, antigo Tabuleiro da Baiana, no Rio de Janeiro. Ficamos saindo, aí nos juntamos e fomos morar juntos.

 

P/1 – O senhor trabalhava em que lugar nessa época?

 

R – Eu trabalhava na CTC – Companhia de Transporte Coletivo.

 

P/1 – O senhor fazia o quê lá?

 

R – Eu era motorista.

P/1 – O senhor falou que também trabalhou na Mesbla, é isso?

 

R – É. Eu tive quatro ____________ Eu tive [emprego] na Volkswagen, na Mesbla, na Varig e na Companhia de Transporte Coletivo, antiga CTC do Rio de Janeiro.

 

P/1 – E na Mesbla o senhor trabalhou em que época, mais ou menos?

 

R – Eu trabalhei de 85 a 89.

 

P/1 – O senhor fazia o quê?

 

R – Trabalhava de auxiliar de serviços gerais.

 

P/1 – Em que lugar era? Era loja?

 

R – Era [na] Rua do Passeio, 55.

 

P/1 – Conte pra gente como é que era esse trabalho que fazia lá na Mesbla.

 

R – Era limpeza. Lavava o banheiro, varria sala de diretores, refeitório, cozinha.

 

P/1 – Lá que mandaram o senhor embora, é isso?

 

R – É, eles descobriram que eu era portador do HIV e me mandaram embora.

 

P/1 – Desde quando o senhor sabe que está contaminado?

 

R – Olha, eu tenho quatro anos com essa penumbra toda.

 

P/1 – O senhor falou que fez uma operação. Conte pra gente.

R – É. Eu operei a úlcera no Hospital Santa Maria, tenho até os laudos aqui comigo, aí me botaram o plasma contaminado. Operaram-me em 90 e me botaram um plasma de 83.

 

P/1 – E o senhor não pensou em processar o hospital?

 

R – Meu processo está em Brasília. Esse pagamento que eu ganho não é o meu pagamento que o INSS tem que me dar. É o auxílio de benefício à medicação que o governo dá a nós, mas devido ao recadastramento, a perícia, não sei por que, embargou meu pagamento. Devido a essas fraudes que estão acontecendo, enfim, é o que eles falam pra mim. Semana passada eu estive na Caixa Econômica fazendo o requerimento do meu PASEP; eles disseram que não podem me dar sem autorização da perícia. Recorri à perícia em São Paulo, a mulher me deu uma carta pra ir ao Rio. Deixei a carta na Erundina. Pretendo viajar semana que vem porque estou sentindo muitas dificuldades durante esses dois meses infelizes que eu estou aqui. Fiquei três dias caído aqui em São Paulo. Por sorte eu não morri.

 

P/1 – E o senhor não tentou processar a Mesbla?

 

R – Não, porque não foi na Mesbla que aconteceu essa operação; nesse período eu trabalhava na Varig.

 

P/1 – Mas o fato deles terem mandado o senhor embora... Que desculpa eles deram pra mandá-lo embora?

 

R – Ah, eles alegaram que era excesso de funcionário, quando na realidade não é.

 

P/2 – E você pretende voltar para o Rio de Janeiro e fazer o que lá?

 

R – Olha, eu vou ao Rio para resolver essa situação minha da perícia e vou voltar pra São Paulo. Segundo o padre Mário, ele tem um sítio que dá auxílio às pessoas pra trabalhar. E eu, ganhando meu dinheiro aqui, do INSS, vou montar um negocinho pra mim.

A minha inteligência é muita e eu não vou desistir porque eu estou contaminado pelo vírus da AIDS. Eu nunca desisti; sempre antes de dormir eu pego a Bíblia, leio, eu tenho muita força. Eu me emociono porque eu não era assim, eu tinha noventa quilos e hoje em dia estou com 49. A minha vida é assim, é sempre luta, luta pelo meu benefício honesto, mas hoje eu me encontro na rua, debaixo de um viaduto quando fui renegado pela família. É muito triste você depender das pessoas quando mais precisa.

 

P/2 – E você vai para esse sítio? Onde é esse sítio?

 

R – Ele não falou o local. Aquela senhora da Erundina que está vendo isso tudo pra mim. Eu pretendo viajar [na] semana que vem. Se eles me derem a passagem eu vou e resolvo, apanho o dinheiro que eu tenho lá na Caixa, na minha poupança, e venho embora.

Aqui eu sigo minha vida, eu boto minha vida. Eu quero distância da minha família. Porque não é o fato de você - eu vou repetir - você pegar uma doença que é contagiosa e não se pega de maneira... A discriminação existe em várias partes, tanto faz [se é] de parente como de qualquer um. Não estou levando esse caso a vocês pra...

 

P/1 – A sua família mora no Rio ou mora aqui?

 

R – Minha irmã mora no mesmo local, no Rio de Janeiro, Conselheiro Otaviano, 67, apartamento 201.

 

P/1 – E seu filho?

 

R – O Diego mora na Rocinha. É um bairro mais distante de Vila Isabel.

 

P/1 – E por que o senhor não mora com eles?

R – Porque a minha nora me rejeitou também, entendeu?

 

P/2 – Por que?

 

R – Devido à AIDS.

 

P/1 – O senhor já tem netos?

 

R – Eu tenho oito netos. Eles têm oito filhos.

 

P/1 – E o senhor falou que tinha mais outros dois filhos.

 

R – Não, o Roberto morreu devido a ele se misturar com as suas... Que não deveria, já a outra morreu de bronquite asmática.

 

P/1 – Mas o seu filho foi assassinado?

 

R - Foi.

 

P/1 – E a sua esposa, ela já é falecida?

 

R – A minha esposa morreu de diabetes. Ela era diabética.

 

P/1 – Tem muito tempo?

 

R – Tem, ela morreu em 66, na primeira revolução.

 

P/1 – E desde então o senhor está sozinho?

 

R – Graças a Deus, estamos eu e Ele lá em cima.

 

P/2 – Conte como é o bairro do Brás aqui. O que você acha do bairro?

R – Eu na realidade não conheço o Brás. Eu vim direto do Tietê praquele albergue. Não estou no albergue porque eles recolhem as pessoas [às] dezenove horas e jogam às quatro e meia na rua. Você fica quase doze horas na rua.

Eu tive uma recaída naquela pedra do Brás. Fiquei muito inchado e esse amigo, o Gilson, me socorreu com a Sônia e me levaram pro Alcântara Machado. Pra falar a verdade, eu não conheço nada de São Paulo.

 

P/1 – O senhor sempre morou no Rio, né?

 

R – Sempre morei no Rio.

 

P/1 – Nessa segunda fase da sua vida, lá no Rio, o senhor morava onde?

 

R – Eu morava na Glória, Rua Cândido Mendes, 480.

 

P/1 – Quer dizer, atualmente, o senhor mora lá?

 

R – Não, atualmente eu estou morando aqui em São Paulo.

 

P/1 – Sim, o senhor veio para resolver os seus problemas.

 

R – Ah, sim. Tem minhas coisas lá, está tudo lá.

 

P/1 – Estão onde?

 

R – Na Glória.

 

P/1 – Estão lá na sua casa? E lá, o senhor fica sozinho?

 

R – Lá eu fico sozinho, com a senhoria. Ela me ajuda às vezes, quando eu preciso de alguma coisa. Ela me ajuda, mas eu pago o meu aluguel. E a minha comidinha eu mesmo faço, isso eu aprendi quando era pequeno. O resto é só tranquilidade.

P/1 – E senhor frequenta algum grupo de apoio aos aidéticos lá?

 

R – Olha, eu frequentei um no [Hospital] Graffée e Guinle que é coordenado pela mãe do Cazuza, mas ela fez uma creche só pra crianças e liberou os adultos. Nós continuamos no Graffée e Guinle com apoio do Roberto Dinamite, que era jogador de futebol - hoje é vereador, deputado. Ele nos ajuda lá. Lá dentro nós fazemos um tipo de trabalho artesanal, artesanato, várias atividades que dão renda pra unidade e uma renda pra gente se manter também. Não só ele, como o Eurico Miranda, o Isaías Tinoco me ajudam muito. Às vezes aparece um bico pra fazer aqui no Teatro Fênix. Em qualquer parte do Rio de Janeiro eu estava fazendo, escondendo a AIDS.

 

P/1 – Que tipo de bico o senhor faz?

 

R – Eu fazia pintura, tipo de carpintaria, fazia arranjo, né?

 

P/1 – O senhor falou que tinha vontade de abrir um negócio. Esse negócio era... O que pretende abrir?

 

R – Olha, o meu sonho é montar um ateliê.

 

P/2 – Um ateliê do quê?

 

R – De uma exposição de qualquer coisa que eu faça. Você me dá cem folhas de isopor e eu vou bolar o que eu vou fazer, entendeu? Se de um papel eu faço uma rosa, por que eu não posso fazer outro trabalho? Eu aprendi isso de mim mesmo, eu tenho o meu dom. Eu ponho aquela tábua, pinto você, pinto ela, pinto qualquer um, mas é meu mesmo, é o meu dom.

 

P/2 – E você faz bastante isso, o que você já fez de arte?

 

R – No Rio?

 

P/2 – No Rio, aqui...

 

R – Aqui eu não tive privilégios, eu só fiz rosas e trabalho artesanal de cartolina. No Rio eu fiz vários trabalhos pro Rasek. Ele é um cara que tem um ateliê e quando eu ia pra lá eu ficava ajudando, fazia vários artesanatos. A talha, uma madeira do caule da árvore...

 

P/1 – Essa experiência de morar na rua o senhor está tendo aqui em São Paulo. Lá no Rio o senhor nunca morou na rua?

 

R – Eu nunca morei na rua. Eu volto a falar, eu estou há dois meses e vinte dias morando na rua.

 

P/1 – Quer dizer, aqui em São Paulo que deu esse problema com o senhor, né?

 

R – É, aqui em São Paulo.

 

P/1 – E como é que está sendo?

 

R – Morar na rua? Está sendo um desastre, porque você não tem... Você não dorme sossegado: ora a polícia, ora o ‘rapa’, ora você vê um e morre, ora você vê um briga, ora você vê um beber. O índice de rua é muito perigoso, você cochila e acorda de repente com um trovão, entendeu?

São pessoas que vêm de outros estados pra tentar a sorte numa cidade grande como é São Paulo, mas não arrumam colocação, aí caem nesse mistério de roubar. Não é um povo ruim, é um povo que, às vezes, você tira de alguns que são inteligentes, mas tira de outros que não são.

Vocês não tiveram oportunidade de ver, mas ali dentro da Erundina tem pessoas que usam uma faca desse tamanho. Eu fico apavorado porque eu não tenho hábito, eu não tenho costume de frequentar esses ambientes. Só estou indo lá pra tomar um banho, pra fazer um lanche, pra tomar um café e pra comer uma comida. Pra fortalecer o meu organismo porque eu tomo remédio muito forte, é o AZT, o DDI, o Dexa 1000, são remédios fortes.

Se eu tivesse realmente resolvido esse problema eu não estaria ali embaixo, no viaduto. Ontem eu falei isso pra um rapaz da Rede Record. É uma vida sofrida, uma vida triste. Você defeca na rua, você faz a comida numa lata à noite, porque de dia tem a casa de convivência - se bem que abre [às] oito horas e fecha [ao] meio-dia.

 

P/1 – Fecha ao meio-dia?

 

R – Hoje não, hoje fecha [às] três horas. Então você não tem um sossego, na rua você não dorme de dia.

 

P/1 – O senhor está dormindo lá no albergue, é isso?

 

R – Não, eu estou debaixo do Viaduto Alcântara Machado. O simples fato de eu não ficar no albergue é porque eles... Eu achei um absurdo, eles botam a pessoa [às] dezenove horas pra dentro e jogam [às] quatro e meia da manhã pra rua.

 

P/1 – O senhor chegou a dormir lá algum dia?

 

R – Eu fiquei lá um dia só. Eu fui tomar um banho de manhã, fazer a minha higiene. O rapaz aí põe o meu cartão, me botou pra rua. Só pelo fato de eu não saber que eu não podia tomar banho. Tem testemunha, tem pessoas lá que viram esse episódio, entendeu? Ele não soube se dirigir comigo, eu também já nervoso, nem sei mais que houve.

 

P/1 – Senhor Rogério, o senhor está contando todas essas histórias pra gente. Nós estamos encerrando nosso depoimento, mas eu queria lhe perguntar: O senhor tem algum sonho?

 

R – O sonho que eu tenho hoje é ser curado por Deus, não existe outro sonho que... Eu quero voltar ao que eu era, é esse o meu sonho. Toda noite, todo dia que eu acordo, eu rezo e peço a ele. Meu sonho é ser curado por ele.

 

P/1 – E o senhor está fazendo esse tratamento desde quando?

 

R – Eu faço tratamento desde 90.

 

P/1 – E o senhor está sentindo melhoras com esses remédios?

 

R – Olha, se você não tomar as medicações, você tem uma recaída, então eu passo a tomar sempre certinho pra eu não morrer cedo. Eu quero chegar a cem anos. Trabalhando e tendo os meus negócios, se Deus quiser.

 

P/2 – Rogério, você pretende procurar o seu filho, os seus netos?

 

R – Eu não os procuro nunca mais. A minha vida daqui pra frente vai ser minha.

 

P/1 – Eles sabem onde você mora?

 

R – Sabem. Eu não pretendo procurar nem eles e nem minhas irmãs, ninguém. Eu sempre lutei sozinho e vou continuar lutando sozinho. Dependi de um apoio, mas eles me renegaram com palavras, então eu entreguei a Deus. Não quero vingança e vamos tocando o barco como eu estou tocando. Assim como eu o criei, dei todo apoio, ele me renegou. Vou vencer. (choro) Me desculpem.

 

P/1 – Não, tudo bem. O senhor quer falar mais alguma coisa?

 

R – Não.

 

P/1 – Então muito obrigado pelo seu depoimento, senhor Rogério.

 

P/2 – Muito obrigado senhor Rogério.

 

R – Obrigado vocês, por terem me escolhido.

 

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+