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História

Luta, futebol e samba

História de: José Bernardo da Silva
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Publicado em: 01/06/2021

Sinopse

Infância em Minas Gerais, trabalhando na lavoura juntamente com o seu pai e cortando lenha para sua mãe poder cozinhar. Discriminação. Mudança para o Rio de Janeiro em 1959, sozinho, para tentar uma melhoria de vida. Teve muitos trabalhos durante sua vida. Sempre lutou pelos seus direitos, o que o influenciou a sempre tentar melhorar seu ciclo social, por meio da criação da Associação dos Moradores.

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História completa

P/1 – Boa tarde José, eu gostaria de começar a nossa entrevista pedindo que você me dê o seu nome completo, o local e a data de nascimento, por favor.

 R – Meu nome é José Bernardo da Silva, nascido em Juiz de Fora, Minas Gerais, nascido em 22 de maio de 1939.

P/1 – E os seus pais? O nome completo dos seus pais?

 R – Dp  meu pai é Sebastião Bernardo da Silva e minha mãe é Clarisse Maria da Silva.

 P/1 – Seus avós, você lembra deles? Lembra do nome?

 R – Avô materno era Mateus José dos Santos.

 P/1 – Mateus.

 R – E meu avô paterno não lembro, quando morreu eu não era nem nascido.

 P/1 – E irmãos, em quantos vocês são?

 R – Nós somos 17 irmãos, comigo 18.

 P/1 – Você pode contar um pouquinho como era a sua infância em Minas, quais são as suas memórias sobre a sua casa, sobre o trabalho dos seus pais?

 R – Eu me lembro que em Minas...Assim, detalhadamente é difícil contar ponto por ponto, mas eu vou contar o que eu me lembro nesse instante, a memória que eu tenho agora. Eu sou de uma família pobre... [choro]

 P/1 – O senhor se emociona quando relembra da família, das dificuldades que passou?

 R – É muito difícil, até porque a situação era tão difícil que a gente não tem palavras pra dizer o que passou lá, não tenho condições.

 P/1 – Quer dizer que você tava contando que muitos dos seus irmãos ficaram em Minas, né?

 R – Exatamente.

 P/1 – E que não quiseram vir pro Rio?

 R -  Eles estão satisfeitos lá, com a profissão deles. Na questão de trabalho também estão se virando por lá, ninguém pensa em vir pro Rio. Estão bem lá, têm amigos, mesmo com a ausência do meu pai, mas tem a minha mãe.

 P/1 – A tua mãe é viva?

 R – Minha mãe é viva, acho que vai fazer agora 89 anos. Só dentro de casa, tá lá lutando e planejando pela vida, também muito satisfeita porque tem a casinha dela.

 P/1 – É Juiz de Fora?

 R – É Juiz de Fora, Jardim Esperança. Mas a casa é boa, a casa com 16 cômodos. Ela tem dois cômodos alugados, a parte de cima, de um lado, mora uma irmã, do outro mora ela. O meu pai faleceu, mas ela mora sozinha, satisfeita, tem todo o conforto.

 P/1 – A família tá junto, tá perto, isso faz a diferença quando tá todo mundo unido ainda.

 R – Exatamente.

 P/1 – Você vai à Minas às vezes?

 R – É muito difícil eu ir à Minas, porque eu sempre fico esperando por tempo bom. Tem que levar sempre alguma coisa e a gente nunca teve essa oportunidade e vai demorando devido à situação.

 P/1 – E a sua infância, vocês brincavam ou vocês tinha que trabalhar cedo na lavoura?

 R – A gente trabalhava muito, mas para brincar sempre sobrava um tempinho. O futebol que eu sou apaixonado. Meu pai deixava a gente jogar bola, a gente jogava sempre depois do trabalho cinco e meia, seis horas num dia grande de sol no verão, a gente ia pro campo de futebol jogar bola; quando era de noitinha a gente ia pra casa. E nos domingos antes de jogar futebol a gente tinha que botar duas viagens de lenha pra dentro de casa pra minha mãe poder cozinhar durante a semana.

 P/1 – Lenha?

 R – Botava aquela lenha, o papai rachava, botava direitinho. Ali era tudo na base de fogão a lenha, né, a vida era muito difícil. E aí era obrigação nossa trabalhar assim, primeiro cortar lenha, botar a comida do porco, aí sim podia brincar.

 P/1 – E a lavoura do seu pai era do que?

 R – A gente plantava arroz, feijão, milho, fava, quiabo e jiló.

 P/1 – Vocês trabalhavam na lavoura de vocês ou trabalhavam pra outras pessoas?

 R – A gente tinha a nossa lavoura e trabalhava meio pros fazendeiros lá. A gente gostava muito de passar o terreno pras pessoas trabalharem e aproveitava a metade ou pouco mais além do nosso trabalho. A gente tinha que dar mais da metade que colhia, se não a gente não tinha como sobreviver, não tinha recurso, vivia ali a mercê dos fazendeiros. O que eles ditavam é que era a verdade, você não podia questionar, se mandassem embora você não tinha como viver.

 P/1 – Vocês moravam em terra de fazendeiro também?

 R – Em terra de fazendeiro, o meu pai morou 40 anos, muito tempo. E ali tudo que a gente comia, quando tinha o nosso terreno era da gente, plantava pra nós, mas a maioria era de meia, metade pra gente. A escola também era a mesma coisa, era na fazenda a escola.

 P/1 – Vocês chegaram a cursar? Você fez o primário?

R – Fiz o primário, até foi meu pai que construiu essa casa que morava a professora e ela dava aula pra gente. Mas era uma dificuldade muito grande, a discriminação rolava em volta, o povo lá discriminava a gente.

 P/1 – Discriminava?

 R – Discriminava. A sala de aula era uma só e o quadro negro, se tivesse quatro turmas eram quatro problemas, se tivesse três eram três problemas. O filho do fazendeiro tinha um problema, do administrador era outro e do lavrador era outro, a coisa era nessa situação. Cada um tinha um tipo de aula, só que era numa sala só, o quadro era um só, só que era dividido com um giz, “esse é seu, esse aqui é do outro”. Pelo menos eu sofri muito com isso, porque eu tinha uma capacidade boa para gravar as coisas, né, e eu costumava fazer os três problemas. Eu gostava, pensava “Vou fazer os três” e ali era o problema. Na hora que tinha que levar pra professora, eu tinha que sair da cadeira e levar na mesa dela para ela corrigir e aí ela protestava: “Você tinha que fazer o seu, não tinha que fazer esse”.

 P/1 – Mas o que diferenciava?

 R – O filho do lavrador, era um...o problema era mais ou menos assim:  “Você ganha dois mil réis, você vai no armazém do seu Joaquim e gasta duzentos réis e mais mil réis. No armazém do seu Pedro gasta mais mil e quinhentos réis, quanto é que você ficou devendo?”. Esse era do filho do lavrador. Agora o filho do administrador: “Você vai capinar não sei quantos quadros, você tem que tomar conta de tantos trabalhadores, faltou um, com quantos trabalhadores você ficou?”.  E do filho do fazendeiro era o seguinte : ”Você tem uma fazenda, comprou mais uma fazenda, mais dez bois, mais vinte cavalos, com quantos você ficou?”. A discriminação era mais ou menos assim. Eu fazia tudo, ela sabia que eu não podia comprar uma fazenda, entendeu?.

 P/1 – Entendi, claro.

 R – “ Mas você como vai comprar uma fazenda?”.  Se não ganhava nem pra comer, nem dinheiro a gente tinha, quem recebia o pagamento era meu pai. Só tinha direito de trabalhar mesmo não tinha jeito.

 P/1 – Nossa que dureza.

 R – A história era mais ou menos assim. Aí quando a gente protestava, conversava com a professora que eu queria fazer tudo, ela reclamava pro meu pai, aí ele dizia assim: “Bota de castigo professora, puxa a orelha dele, bota arroz ou milho aí no chão, forra uma lã e bota de joelho”. Às vezes ela fazia, às vezes não.

 P/1 – Vocês ainda tinham que se ajoelhar no milho?

 R – Eles botavam, a professora botava, quando não tinha muita simpatia pelo aluno botava de castigo, botava com a cara na parede, dava bolo na mão. Aquelas palmatórias “abre a mão e pá”. Se fechava, tinha que abrir mesmo.

 P/1 – Como era uma palmatória, era o que?

 R – Era uma peça igual a uma pá de angu, só que ela é redonda com cabo, só que ela é redonda.

 P/1 – Mas de madeira?

 R – De madeira e tinha uns buracos no meio dela, quando batia queimava.

 P/1 – Caramba que dureza. E aí sua família ficou nessa fazenda, quantos anos você tinha?

 R – Ah, eu fiquei naquela fazenda, pode considerar que eu cheguei quase a maioridade lá, porque eu vim embora pra cá, mas eu sempre ia lá, de vez em quando tava indo lá. Meu pai saiu fora, tava lá numa miséria danada, foi morar nessa casa onde nós compramos, com a indenização de lá o meu pai ainda acabou gastando o dinheiro todo. Quem deu o dinheiro pra ele comprar o terreno fui eu , meu pai pensou que era muito dinheiro e começou a fazer farra, aí eu fui, lá apaziguei e comprei o terreno de novo.

 P/1 – E sua mãe mora no terreno que é propriedade da família?

 R – Propriedade da família, graças a Deus.

 P/1 – Bom, você tava contando então... quando é que você veio pro Rio e por quê você veio pro Rio de Janeiro?

 R – Eu vim pro Rio em 1959, eu vim me aventurar. Era bom pra ganhar dinheiro e eu sempre tive essa ambição e com meu trabalho eu não tive muita perspectiva.

 P/1 – Você lá em Minas chegou a trabalhar sem ser na lavoura com outras atividades?

 R – Trabalhei na obra com meu pai, fazia estrado de animal, consertava casa, essas coisas, reforma na fazenda, construir igreja, construir colégio, coisas assim.

 P/1 – Ah, teu pai trabalhava como pedreiro?

 R – Como pedreiro, com eletricidade, fazia tudo dentro de obra.

 P/1 – E sobre o seu carreiro?

 R – Ali é o seguinte também, porque era novo não tinha aquela experiência e lá valia muito a palavra do mais velho. Podia ter espinho, o que tivesse pela frente, dizia: “Vai pra ali, moleque” e a gente tinha que pular. O carreiro para quem eu trabalhava se chamava senhor José Luiz.

 P/1 – Carreto?

 R – Carreiro.

 P/1 – Carreiro é que... ?

 R – Carreiro é quem cuida dos bois, vai puxando os bois pra e pra cá. Então uma época, ele botou um boi muito bravo pra eu guiar ele, eu fiquei com medo, ele me botou embaixo do braço e me jogou pra cima do boiA aí firmei na ________pulei longe. Aí ele falou: “É isso aí moleque, pula mesmo, tem que ser esperto”. E ali eu aprendi, comecei aprender aquilo.

 P/1 – E o carreiro é quem vai na frente?

 R – É quem vai na frente, o boi vai acompanhando; se a gente ir pro um lado o boi vai pro outro lado acompanhando a gente.

 P/1 – E o peso?

 R – Aqueles altos de serra, quando a gente caçava e a distância era muito grande, aí o carreiro mandava a gente voltar pra subir dentro do carro e aí era um alívio, ia sentado, quando você tá lá na frente,pelo amor de Deus [risos].

 P/1 – Bom, aí o senhor veio pro Rio em que ano?

 R – Foi em 1959, quase 1960, foi nessa data. Aí quando eu cheguei aqui eu já tinha a tendência do trabalho social,  eu tive uma oportunidade e vim trabalhar aqui em Lagoinha, onde conheci o seu Antônio na época. “Vamos lá pro morro, você fica aqui nessa casa de família”. Eu morei com o Dr. Maurilio dos Santos Fonseca, de Lagoinha e o seu Antônio trabalhava com ele. “Vamos embora, vamos lá pro morro”. Aí eu vim pro morro e gostei, comecei a trabalhar, foi na época que precisava botar água, luz aqui e eu achei que tinha alguma coisa pra ajudar. Aí começou a chamar aquelas pessoas que soubessem ler, escrever, que até então a dificuldade era elaborar um documento, era você anotar o que falava, fazer uma ata, as pessoas tinham essa dificuldade, então eu ali me dei bem com isso, “não, leva o caderno aí, dá um papel aí”, eu ia anotando tudo.

 P/1 – Porque tinham poucas pessoas que sabiam ler e escrever aqui?

 R – Exatamente, tinham boa vontade de trabalhar, mas na hora de escrever...

 P/1 – Mas você me contou que antes de vir pra Santa Teresa, você tinha vivido em outro bairro?

 R – Vivi lá no Engenho Novo, na Rua Araújo Leitão, 839. Foi uma das primeiras favelas do Rio de Janeiro a ser saneada.

 P/1 – Qual é?

 R – Bairro Vermelho. Eu ajudei o meu tio fazendo mutirão lá, fazendo saneamento básico.

 P/1 – É Bairro Vermelho?

 R – Bairro Vermelho, na Rua Araújo Leitão, 839.

 P/1 – Quer dizer você veio de Minas atrás desse tio que morava lá?

 R – Que morava lá, entendeu. E lá eu comecei ajudar, fazer esse trabalho com ele, depois que eu tomei conhecimento, comecei a conhecer o Rio de Janeiro. Aí ele falou: “Não, agora já tá na hora de você procurar a sua vida, já tá rapaz”. A casa dele era pequena, já tava meio incômodo ali, aí me retirei.

 P/1 – Como é que você veio pra Santa Teresa? O que é que te trouxe pra Santa Teresa?

 R – Foi através de um trabalho que eu arrumei em Lagoinha, aqui na Avenida Dom João Manuel, 32.

 P/1 – Qual era o trabalho?

 R – Eu fui trabalhar, ajudar a fazer a casa da Dona Maria dos Santos Fonseca, lá eu fiz a casa dela, conheci o seu Antônio que era ajudante e o seu Antônio que eu vim aqui pro morro.

 P/1 – Qual foi a sua primeira impressão do morro quando você chegou aqui, você lembra desse dia?

 R – A rodoviária era ali na Praça Mauá e eu achei muito bonito aquele movimento, muita gente.Aí eu falei: “Aqui eu tô bem, vou ter muito o que fazer” e tive assim muita surpresa porque um lugar que você não conhece ninguém, você tem que pensar até como você vai se dirigir às pessoas. Porque a fama que tinha aqui era: “Você vai pro Rio de Janeiro, tem muito ladrão, cuidado com seu dinheiro se não as pessoas roubam” e contavam aquelas história antigas que um ladrão rouba o outro, como é que vai fazer, não sabe de nada. O meu tio tinha uma história engraçada e contava pra gente, acho talvez até pra dar instruções pra gente: “O ladrão, uma vez, queria roubar o mineiro e aí o mineiro tava com o dinheiro preso na mão. O cara falou; ‘Oh, mineiro, cuidado que nós vamos te roubar!’. ‘Mas como é que vai fazer?’. “Oh, você dá licença pra ver como ele faz: você vai assim na tua mão, abre a mão um bocadinho’ e o mineiro abriu a mão. Ele pegou o dinheiro:  ‘vou pegando o dinheiro, olhando na sua cara e vou andando de costas, olha como eu tô andando de costas’. Quando tava meio distante parou e correu”. Eu tenho tudo gravado, quando chegar não vai ter como fazer, você vai ver [risos].

 P/1 – Essa é boa.

 R – Porque hoje é, assim, a melhor maneira de você fazer alguém se defender é fazendo medo: “Não passa ali que é perigoso” é a única maneira de ensinar, principalmente criança fazendo medo. Foi assim que o_____ enfrentou essa moradia hoje.

 P/1 – Mas a sua chegada aqui no Morro dos Prazeres ,você se lembra mais ou menos como era essa época, como eram as casas, como era o abastecimento de luz e água? Conta um pouquinho pra nós?

 R – Aqui as casas eram todas de estuque, folha de zinco, essas latas de tinta, o pessoal abria a lata e fazia o telhado, outra de sapé, muitos vinham pra se aventurar de acordo com que iam ganhando ia melhorando. Caminho não tinha pra ir, eram aqueles caminhos entre o roçal, quebrava com enxada pra poder chegar em casa e pra subir que era aquele desespero, não tinha água, tinha que pegar nas caboclas ou aproveitar as minas, as muitas que a gente tinha, muita nascente, até hoje se você quiser recuperar alguma nascente, recupera. E a gente tinha uma dificuldade enorme, porque durante o dia tinha que trabalhar e de noite tinha que ir bem cedo pegar água lá nas caboclas, as pessoas tinham uns tambores, esses tambores de vinho, né, botava uma alça, outro com uma balança com uma lata de um lado outra de outro.

 P/1 – Eram homens que faziam esse trabalho ou mulheres?

 R – Eram homens, mulheres e tudo. As mulheres tinham que ajudar também,  um tinha que ajudar o outro, sempre foi assim, só que os homens ajudavam mais, porque era uma discriminação em cima das mulheres ferrada. Se o cara podia não deixar a mulher ir ela não ia, era um ciúme danado.

 P/1 – Por quê?

 R – Não sei, você vê era muito difícil ver uma mulher batendo papo com quem ela não conhecia, o marido não gostava. A mulher tinha que ser mais dona de casa, era um preconceito extraordinário. Agora não, a mulher lutou, igual a você com seu espaço, você na sua capacidade, né, foi até bom pra gente porque a gente começou aprender mais, que a mulher tem autonomia hoje, ela fala, discute, bate o pé no chão, mostra que nem tudo tá acabado.

 P/1 – Mas nessa época que você chegou as mulheres trabalhavam fora, às vezes? Quer dizer tinham função ou lavavam roupa? Tinha isso, Zé?

 R – A maioria delas iam buscar roupa da patroa dela e lavava em casa.

 P/1 – Como é que era, aonde, era em Santa Teresa, essas famílias ?

 R – Era perto, porque até a condução era difícil.

 P/1 – Como é que era?

 R – A condução aqui é muito difícil e pra carregar trouxa dentro de um bonde é fogo, lotado, era muito difícil. Quando você vinha aqui pegava um bonde pro Leblon, ia pro centro da cidade, depois ia pra Penha , Cascatu, tudo era ponte.

 P/1 – Mas mesmo com a dificuldade de água havia o trabalho da lavadeira?

 R – Havia o trabalho da lavadeira, era uma preocupação enorme, porque era uma coisa que você não conseguia viver, era com a sujeira. Você tem que tá com a roupa limpa, você tem que lavar seus ternos, você tem que cozinhar, tem que tomar banho, então isso tá tudo associado mesmo, é a função da mulher. Você pode ver que poucos homens tem habilidade de cuidar de uma casa, então isso é antigo, a mulher sempre se dedicou muito.

 P/1 – Como é que era no interior uma casa, eram como as casas aqui?

 R – Chão batido, espalhava aquele barro Tabatinga, fazia um cal e pintava o chão, as paredes, ficava bonito.

 P/1 – O cal com a terra?

 R – Ela dá uma cor como o cal, barro Tabatinga, aí pintava bonitinho, tinha casa que dava gosto. Até hoje tem pessoas aí que você vai na casa deles brilha.

 P/1 – E se cozinhava como?

 R – Com lenha, fogão a querosene, era de acordo com as possibilidades da pessoa. Se não tinha querosene cozinhava a carvão, se tinha querosene era a lenha mesmo.

 P/1 – Você lembra bem aquela época do querosene?

 R – Eu cozinhei muito com querosene, na minha casa, nas obras que eu trabalhava, eu cozinhei muito em obra, era mais fácil.

 P/1 – Não tinha um cheiro muito forte?

 R – Um cheiro forte, Nossa Senhora, acho que um litro de querosene no passado dava dois desse.

 P/1 – Era um cheiro muito forte nas casas?

 R – Muito forte. E as crianças respiravam aquele pó, aquele fumaça, criava até picuinha no telhado.

 P/1 – E as diferença de estação, o verão era muito quente, chovia muito? Como é que vocês se adequavam a essas diferenças de período? A casa, por exemplo, no verão era muito quente?

 R – A gente nem notava muito por causa da vegetação, entendeu? Até então as pessoas demoravam muito pra cortar as árvores. Fazia uma casa sempre preservando a vegetação, hoje querem mais, a vegetação ajuda a você não sentir muito calor. O meio ambiente hoje, que se discute muito, as pessoas não estão tão preocupadas em preservar o meio ambiente, mas no passado preservava, você não cortava uma árvore a toa, você nota que se você estiver embaixo de uma sombra, você não sofre com o calor intenso, não é verdade isso?

 P/1 – É verdade, nada como a  sombra de uma árvore.

 R – Existe até um ditado popular que diz: “Deus deu o sol pra todos e a sombra pra quem merece”.

P/1 – A própria posição do Morro dos Prazeres tem um vento, tem uma ventilação sensacional, né?

 R – Sensacional, se você observar tem sempre uma árvore que marca a comunidade, você pode andar que sempre vai existir uma árvore, pergunta quanto tempo tem aquela árvore.

 P/1 – Tem alguma que você pode dar um exemplo?

 R – Essa aqui, em frente a quadra, essa jaqueira enorme, essa é uma delas.

 P/1 – Ela tá aí desde que você chegou Zé?

 R – Desde que eu cheguei, ela tá meio tombada. Ela tombou mas não caiu e tem mais outras.

 P/1 – Lá em cima, aonde você morava tem alguma árvore que tem um ponto de referência alguma coisa?

 R – Tinha uma mangueira, eles conseguiram matar ela. Ccom esse negócio de campo de futebol, ela morreu.

 P/1 – Que árvore que era?

 R – Uma mangueira.

 P/1 – E essa vista maravilhosa que você tem aqui, o Cristo pra um lado, o Pão de Açúcar pro outro.

 R – Esse é um dos privilégios que a gente tem aqui, todo mundo que vem gosta, ficam satisfeitos, admiram, as vezes até aproveitam pra tirar foto de um lado pro outro, filmagem. Se você vai pelo Rio de Janeiro não tem uma comunidade como a nossa aqui, com essa visão.

 P/1 – É bonito, é uma visão sensacional do Rio de Janeiro. Mas Zé conta agora um pouquinho da Associação dos Moradores, por favor. Qual foi a ideia, como é que vocês se organizaram nessa Associação de Moradores?

 R – A Associação de Moradores era feito de acordo com a nossa necessidade de organização. Chegou um ponto que a gente queria pleitear a melhoria da comunidade, lembra que não tinha água, não tinha luz, não tinha esgoto, não tinha acesso, saneamento básico. Organizar como?. Através de uma Associação dos Moradores e assim veio a ideia.  E quando a gente pensou em fundar a Associação, veio a dificuldade do estatuto, quer dizer, eu participei da grampeação do estatuto da comunidade 375 no Rio de Janeiro, eu fui o relator deste estatuto e sofri muito. Houve uma discriminação na ocasião, porque você tinha aqueles oportunistas que vinham fazer reuniões pra te derrubar, você dificilmente via quem era esse sujeito, ficava lá na platéia, de uma sensibilidade tal que as pessoas acreditavam e se você errava um ponto, uma vírgula o cara caía de pau em cima. Eu me lembro quando nós fomos fundar uma associação, criamos um preço, um valor pras pessoas comprem alguma coisa, papel, tinta, não tinha máquina de datilografia, era aquele heliógrafo, aquelas coisas todas. Gastava tinta, papel, querosene pra limpar as mãos aquelas coisas todas que tinha. E o que nós fizemos: “Vamos criar uma mensalidade”. Era de 10 contos e apareceu um tal de, esqueço o nome, meu Deus, não faço nem questão de lembrar. E quando tava aprovada a mensalidade da Associação pra manter... (Fim da fita A – 30 min.)

 

P/1 – A proposta que você tava contando então, a mensalidade da associação?

 R – Aí nós fizemos a mensalidade e foi aceito na assembléia. Eu me lembrei do nome do sujeito: Datene Silva, ele depois que tava tudo aprovado pediu a palavra e disse: “Meu Deus, a gente vive num sacrifício enorme, uma comunidade como essa queria tanto criar uma Associação de Moradores, depois de tudo pronto, vamos cobrar dez tostões de cada um? Como é que esse povo vai viver? ”[risos]. Aí o pessoal: “Tinha que pôr o presidente de outra forma”, entendeu?

 P/1 – Entendi. Torceu o negócio?

 R – Torceu o negócio , as dificuldades eram de formar e falar com os moradores o quanto era importante dar dez tostões, porque o da vacaria já tinha feito, apareceu esse imbecil, falei: “Meu Deus do Céu, como é que pode?!”. E o estatuto que a gente fazia na época, só mostrava os deveres, o que o cara tinha que fazer pra pagar, como ele era prensado, aí não me mostravam o direito dele não.  A gente até sabia disso, porque aonde tem deveres, tem direitos, não é verdade? E isso era uma dificuldade enorme que a gente tinha. Reivindicavam um telefone, mas tem determinado momento também que você tem que ficar do lado intelectual também. Você não vai com uma máquina, como a obra aqui, mas tem que tá do lado dele. Quando a gente não pode, ajunte-se a ele, né? É essa a política certa, disse: “Seu...”. Aí derrubou tudo, desmoronou nosso trabalho,  demoramos mais uns tempos e aí veio uma certa impressão que a Associação dos Moradores não conseguia reivindicar nada e a gente ia pro Palácio Guanabara com as pessoas, levando bandeira, meio desorganizado, mas ia. Aí foi indo até que o terreno que tinha aqui tinha medo de ser despejado, aí esqueci os documentos todos. Alguém queimou tudo e misturou a terra que era nossa, podia ficar a vontade aqui que ninguém ia nos tirar mais, porque essa terra tinha sido conquistada por nós, porque na Segunda Guerra os alemães já tinham ido embora, os alemães eram o Geraldo Rocha aquela coisa.

 P/1 – Ah, era essa a história que a propriedade aqui, onde é a comunidade Morro dos Prazeres, era dos alemães?

 R – Era dos alemães, do outro lado era do Geraldo Rocha, não sei o quê e davam vários nomes. Então ela disse que os alemães nunca mais viriam aqui pra nossa comunidade mais antiga, que se instalasse e cuidasse dela. Então foi isso. Mas aí faltou aquela pessoa que documentasse direitinho. Hoje não veio aí a Lídia Costa, que é doutora?

 

P/1 – De usucapião, né, depois de tantos anos. Quando você chegou aqui, você lembra de figuras? Você chegou aqui foi em 1959, já tinham famílias  que estavam aqui desde a época de 1940, dez anos, 15 anos antes.

 R – Tinha o seu Joaquim, quando eu cheguei, ele já estava.

 P/1 – Você conhece um pouco da origem da comunidade: quem foram os primeiro ocupantes aqui do Morro dos Prazeres, você saberia um pouquinho isso?

 R – Os primeiros ocupantes não, porque não havia esse cuidado no passado, das pessoas notificarem essas coisas. Ficava muito nos arquivos das igrejas, das religiões, eles também temiam porque eram sempre subordinados a um superior, teve época no passado aqui que as pessoas eram chegadas na parede, não podiam nem conversar muito. Então quando você não tem liberdade pra falar, pra discutir, pra escutar ,você vai saber do quê? Não se preocupa com isso. A dificuldade hoje pra gente resgatar a memória é em cima disso, se você quiser comprar um livro que conta tudo isso você não tem dinheiro, ganha muito mal pra comer. Mas a dificuldade da gente tá muito em cima disso, mas tem um monte de pessoas aqui muito antigos conta a história disso tudinho.

 P/1 – Muitos mineiros aqui, né, Zé?

 R – Muitos.

 P/1 – Muita gente de Minas Gerais?

 R – Muita gente de Minas aqui.

 P/1 – E já foi conhecido como Morro dos Mineiros, é isso?

R – Não, tem uma rua que é a Rua dos Mineiros, como tem aqui Morro dos Paraísos.

 P/1 – Naquele tempo Morro dos Paraísos é um pedaço do Morro dos Prazeres, é isso? Onde moravam mais pessoas vindas da Paraíba,? Mas depois dos mineiros...o pessoal do Nordeste veio depois dos mineiros?

 R – A maioria veio depois, a maioria veio depois dos mineiros. Porque antigamente a gente trabalhava na construção civil, o cara vinha com a mala pra trabalhar na obra. Então ele fazia amizade, ficava sendo amigo, aí ele falava assim: “Não tem um cantinho lá pra eu fazer um barraco?”. E o cara vinha, um ajudava o outro e assim foi vindo, era muito em cima da necessidade.

 P/1 – Você fez a sua casa aqui ou você já tinha uma casa?

 R – Eu comprei um barraco todo de madeira, aí eu fui fazendo aos poucos, dois pavimentos todo de tijolo, não tinha pra onde ir, fazia dentro de casa mesmo, fazia uma parede, desmanchava, fazia outra e fui fazendo assim.

 P/1 – E é onde você mora ainda hoje?

 R – E a água eu juntava pra fazer a massa do chororó, juntava água de chuva, era assim. Até água pra beber, botava pra ferver.

 P/1 – E na época de construções de casas, havia mutirões?

 R – Sim, a ideia de mutirões até que funcionou, hoje nem um tanto é mais, no passado o mutirão funcionou. Era muito difícil trabalhar com uma pessoa só, ninguém conseguia, então a idéia era mutirão mesmo, se não tivesse mutirão tava roubado, não dava pra fazer nada.

 P/1 – Dá um exemplo de um mutirão aqui que vocês construíram.

 

R – O primeiro mutirão nosso que ficou marcado, foi da nossa caixa d água lá em cima, a gente não tinha acesso, começou fazer escada, até mulher ajudou a carregar pedra até a caixa d'água, porque tem um desafio muito grande, porque tem duzentos e poucos metros lá de baixo até a caixa d’água e as pessoas não acreditavam que ia cair água até lá em cima.  Eu vi uma das pessoas que me ajudou muito nesse mutirão, chama-se Edgar Pires de Carvalho. Essa pessoa foi extraordinária nesse mutirão conosco e o Doutor Marinho ele era engenheiro, era o cara que calculava e participava ativamente, Maria Lúcia que era irmã dele e motivava, Zé Flamengo que tomava conta do material, entrava com dinheiro pra fazer comes e bebes pro pessoal do mutirão.

 P/1 – Como que é feito isso?

 R – Eles cozinhavam, juntavam as mulheres, aquelas latas de tinta no fogo, ali cozinhava feijoada.

 P/1 – Nas latas de tinta?Não acredito.

 R – É nessas latas de tinta, mas era mais resistente do que essas aí. Tinham aqueles panelões de alumínio, panela de ferro, alumínio não, nem panela de ferro. Então era naquilo que  a gente se virava, todo mutirão foi feito assim: “Todo material é aqui mesmo, guarda onde?,Lá no Zé Flamengo. “Quem é que vai ajudar?”. “Francisco Sabiá”, que era um moço que morava lá em cima. Então a gente dava um nome, que a gente acreditava, uma pessoa considerada, Francisco Sabiá ninguém descia, seu Zé Flamengo ninguém descia, quem tá lá em cima, seu João Guilherme, ninguém descia, tinha esse respeito, então foi assim que o mutirão funcionou muito em cima desse trabalho, se não a gente não tinha como botar essa caixa d’ água lá em cima.

 P/1 – Em que ano foi?

 R – Foi em 1962, 1963.

P/1 – Quer dizer que ação que a Sociedade dos Amigos do Morro dos Prazeres, foi fundada em 1962, é isso?

 R – É isso, 1961, 1962.

 P/1 – E você participou da primeira gestão?

 R – Participei da segunda como diretor. Antes eu participei de quase todo trabalho, mas participar da Direção foi na segunda gestão.

 P/1 – O símbolo dela é uma casinha?

 R – São duas casinhas ou três casinhas, que foram escolhidas...

 P/1 – E como é que foi esse processo pra escolher, você lembra disso?

 R – Nós fizemos uma brincadeira, um concursozinho que as crianças apresentassem um desenho de escola, uma coisa mais ou menos assim. Aí fizeram aquele desenho “Como é a sua comunidade?”. “É assim: uma casinha aqui, outra ali”.

 P/1 – Entendi. Ainda na questão da água, a década de 1960 era uma época política de muita repressão, como é que funcionava uma Associação de Moradores num momento político desses? Como era a militância da Associação dos Moradores no Morro dos Prazeres?

 R – Era muito difícil, porque não se podia se reunir em lugar nenhum, essa era a primeira dificuldade que a gente tinha. E quando você se reunia em algum lugar, você tinha que ter um nome fictício, você conhecia as pessoas e de repente voltasse nos dias de hoje, você corria de um lado corria do outro, eu não sabia o teu nome e nem você o meu, então não tinha como caguetar ninguém, cada um escrevia um nome fictício, pendurava na roupa e passava por aqui e era discutido seriamente as nossas necessidades, agora a discussão era mais em procurar um caminho, uma saída, porque ninguém aguenta a repressão aqui dentro, a terra aqui é outra, ela existe, nem todo mundo engole, eu pelo menos é muito difícil. Já sofri muito com isso, porque nunca neguei ajuda, sempre fui um bom crítico, se eu disser que você não pode estar aqui, mas vou mostrar um lugar que você poderia ficar. Passa a ser dessa forma e a repressão é a seguinte, o cara dizia: “Não pode fazer isso” e você tinha que sair a andar, prendiam as pessoas.

 P/1 – Mas, por exemplo, havia repressão interna aqui no Morro dos Prazeres?

 R – Eles perseguiam toda Associação dos Moradores. Quantas vezes eles metiam o pé na porta da Associação pra ver o que tava acontecendo...

 P/1 – Você me contou uma história interessante nessa época, sobre a rezadeira, como é que é?

 R – Me lembro , Vovó Rosa.

 P/1 – Me conta.

 R – A história da Vovó Rosa era muito engraçada, não sei se ela adivinhava, ela gostava muito de mim, do meu trabalho e sempre quando tinha alguma coisa pra acontecer meio ao contrário, a minha pessoa ela avisava: “Passa por aqui”. Aí eu passava lá. “Senta aí um pouco, você tá com medo de que rapaz?”. “Não tô com medo de nada”. “Tá, você tá meio cismado”. Aí começava a conversar comigo, rezava, jogava um pouco de água benta em cima, me dava um pouco de água pra beber e quando eu ia embora jogava um pouco de água e não olhava pra trás. Ela sempre fazia isso, pegava um prego, escrevia num papel, tinha esses lances.

 P/1 – Tinha proteção aqui?

 R – Tinha que ter, tem que ter numa cidade como essa. Se você tiver, você tem que ter fé em alguma coisa, porque se não você não anda nem tranqüilo nessa cidade. Nós tivemos momentos tão difíceis que às vezes você tinha que fazer uma tática sem esperar. Por isso tem que se cuidar e eu tenho fé, eu acredito que tem a maldade, se não valesse nada, Deus não punha também, né, me dado esse poder a gente tinha que respeitar.

 P/1 – E nessa época vocês se reuniam aonde, vocês já tinham o prédio da Associação?

 R – Era um comodozinho da Associação, não era bem onde é o prédio agora não, era mais embaixo, em frente a casa do seu Agmar.  Em um comodozinho a gente se reunia lá. Quando nós mudamos a Associação, nós fizemos um comodozinho pequenininho ali onde eu comecei a trabalhar, achei que tinha que aumentar, as obras tinham que ser feitas, foi fazendo aos poucos.

 P/1 – E como é que foi?. Houve um mutirão também pra construção do prédio da  Associação?

 R – Antigamente era tudo na base do mutirão, o governo não dava nada. Ou você aproveitava na época de um político ou não conseguia nada. O político queria garantir o voto, às vezes eles pediam até o título adiantado.

 P/1 – Teve algum político que olhou mais aqui pro Morro dos Prazeres em um certa época, vocês se lembram?

 R – Olha, que eu me lembre não, eles vinham muito de voto, mas de pegar a rédea na frente não, por isso ia muito da simpatia do vigente. Por exemplo, eu tive muita sorte, eu sempre me dei muito bem com esse povo político. Eu fazia o meu jogo de cintura com eles, se me tratavam bem eu tratava eles bem também e sempre abria as portas e deixava chegar. O cara quer vir, amanhã ele nem te vê mais. Ele acha que já tá com o controle da situação, você já observou isso? Ele quer chegar, chegou aqui acabou, o caminho é esse; amanhã ele não fala mais contigo, já vai procurar outro. “Você já tá no papo”, como diz a história. Sempre foi isso, porque aqui tinha menos possibilidade, como era um político do interior daquele curral eleitoral, aqui era difícil, porque as pessoas que vinham aqui muito poucos tinham titulo, o titulo deles é lá da roça e o político não tinha muito interesse. [risos].  Não tinha interesse não: “O seu título da onde é?”.“Lá de Juiz de Fora”.“ Tá tudo bem?”. “Tudo bem, Gaspar”. “Vê se você transfere ele”. Aquele era um voto perdido, então era muito em cima disso.

 P/1 – Em termos de atividade, o carnaval, você lembra do bloco Acadêmicos dos Prazeres?

 R – Me lembro, eu participei do bloco. A gente tinha o bloco, foi uma das atrações muito boas aqui da comunidade, levantou o ânimo da comunidade e teve uma época que a diretoria queria abandonar o bloco e eu era Presidente da Associação dos Moradores e fui convidado a ser presidente do bloco, trabalhei como presidente do bloco dois anos e fui campeão dois anos.

 P/1 – Que ano foi isso Zé, você lembra?

 R – Acho que em 1976, fui presidente do bloco. Inclusive tenho a carteira aqui.

 P/1 – Ah, ia ser bacana.

 R – E a dificuldade foi demais, aí os caras: “Ah, você como presidente aqui do bloco, a gente precisa de você, pelo amor de Deus, vamos dar um jeito”. Aí eu entrei mesmo sem saber nada de samba.

 P/1 – Ganhou em que, competia com quem?

 R – A gente competia com outros blocos.

 P/1 – Que outros blocos?

 R – Por exemplo, daqui a gente ia desfilar no Rio Comprido, Santa Isabel, Santa Cruz e era julgado por aquelas pessoas lá.

 P/1 – Chamava Acadêmicos do Morro dos Prazeres?

 R – Acadêmicos dos Prazeres.

 P/1 – Puxa é bacana ter a carteirinha. Você sabe quando foi fundado, Zé?

 R – O bloco, olha eu não lembro mais não. Porque depois que eu sai do bloco eu fiz questão até de esquecer, as pessoas imaginam que você tá arrumando, tem dinheiro, vê o outro lado, aí fica difícil de você trabalhar. Quando você tá trabalhando, as pessoas veem o seu objetivo. Quando começam a visar dinheiro as coisas ficam mais fáceis, mas quando começam a visar “Quanto é que você ganhou? Quanto é que foi aquilo?”, aí você desanima. Foi o que aconteceu comigo, fui campeão e caí fora, não quis mais saber.

 P/1 – Quando você foi campeão qual era o tema, você lembra?

 R – Foi sobre aquele painho da Bahia, aquele escritor baiano.

 P/1 – Jorge Amado. Ah é, vocês homenagearam Jorge Amado? Que bacana. Jaqueira da Portela, o que é isso?

 R – Foi um esquema nosso também que nós defendemos.

 P/1 – Aí o samba era feito aqui no morro mesmo pelo pessoal daqui?

 R – Pelo pessoal daqui.

 P/1 – Tinha alguma pessoa que era boa assim pra escrever samba?

 R – Aqui teve vários: o Léo foi vice campeão da Vila Isabel, teve meu filho que escreveu samba aqui.

 P/1 – Qual é o nome do seu filho?

 R – Orlando. Ele com o Léo, ganhou o vice na Vila Isabel.

 P/1 – Existe até hoje o bloco?

R – O bloco acabou.

 P/1 – Essa carteirinha, eu vou ficar te devendo.

 P/1 – Pra mim ia ser bacana a gente reproduzir, dar uma olhadinha.

 R – E aí foi muito bom na época, porque a juventude tinha condições de mostrar, o pessoal vinha de fora pra vê, gostava.

 P/1 – Tinha algum espaço aqui embaixo, de samba?

R – Não era ali embaixo da quadra. Era uma barreira e nós metemos enxada, abrimos espaço.

 P/1 – Conta um pouquinho, Zé, onde era a barreira?

 R – Onde é a quadra nossa hoje, era uma barreira, quer dizer lixeira, nem barreira lixeira, então todo dia de tarde se ajuntava, fuça daqui, fuça dali e abrimos no terreno um espaço, o palanque que a gente montava era de madeira, fincávamos uns paus, de vez em quando o palanque caia e a gente não largava o microfone de jeito nenhum [risos].  Jesus Cristo, aí que animava mesmo:“Cara, o seu Batista caiu lá”. Corri e segurava o microfone”.

 P/1 – Mas isso era durante o ano todo ou mais na época do carnaval?

 R – Mais na época do carnaval.

 P/1 – Você chamavam como o espaço?

 R – Na barreira. O bloco sempre foi na barreira.

 P/1 – Mas depois vocês cimentaram ali?

 R – Depois nós cimentamos um trecho e quando eu fui Presidente aqui, o barracão era de madeira. Eu quebrei fiz de alvenaria, fiz uns tanques pra gelar cerveja e foi melhorando. Aí veio a _______ derrubou tudo pra fazer de novo, mas o bloco já tinha acabado e foi numa época política muito forte, o pessoal tava querendo acabar com as escolas, não estavam querendo criar escolas e a ideia de criar escolas já foi mais pro poder paralelo.

 P/1 – Escola de samba?

 R – Escola de samba, aí acabou não dando certo, aí parou com tudo e ficou nessa aí, nós estamos querendo reatar de novo o bloco.

 P/1 – Você foi presidente da Associação dos Moradores em que ano, Zé?

 R – Em 1976, eu comecei em 1962 se não me engano. Em 1962 fui até 1976, depois em 1986 fui até...não lembro bem as datas precisas. Eu só sei que eu tive três mandatos de presidente e um como Vice. Eu tive quatro mandatos na Associação.

P/1 – Uma avaliação rápida desse projeto Favela Bairro, de que forma você avalia essa presença, essas reformas na comunidade do Morro dos Prazeres?

 R – Eu gosto desse programa só que é uma idéia que a gente já teve no passado, só que  não era com esse nome, a gente queria Saneamento Básico, era o nome da entidade. Porque sem muito aquela sofisticação que eles fazem aí, arranha-céu, essas coisas, na minha cabeça eu não faria aquilo. Empregava mais na nossa água, porque aquela caixa é mais um elefante branco, tem dois anos, foi a Prefeitura que levou a água de lá de baixo pra cima, não usou ________________ de acordo com a comunidade, o que a comunidade usa, vai usar e vai conservar. Aqui sabe a comparação que eu fiz no passado aqui, eu fiz pra mim nem levei em Assembléia,  muitas pessoas aqui tavam igual um passarinho passando fome numa gaiola de ouro. Eu analiso assim: você tá entendendo, você está acostumada num barraquinho de barro, um cara faz uma casa de ouro e te põe ali, mas não te dá condição de cuidar, não te dá trabalho, não te dá saúde, você vai ficar preso naquele espaço, aí o que vem na tua cabeça? “Eu vou vender”. Aí vem um engenheiro sei lá da onde te dá um dinheirinho,  daqui a pouco tu tá dura, sem dinheiro, sem casa e sem amizade, tá entendendo? No Favela Bairro aqui aconteceu isso, muita gente achou que trinta conto era muito dinheiro,  vendeu a casa dele, agora volta aqui pra comprar, vai acontecer em várias delas aí. Se eu tenho hoje bastante dinheiro eu comprava tudo isso pra mim [risos].  Se morar em morro fosse ruim,  não estava lá em cima não.

 P/1 – Tem uma casa muito grande em Santa Teresa, a família mora lá há muitos anos?

 R – Tudo lá é deles, entendeu?

 P/1 – E eles tem uma vista parecida com a do Morro dos Prazeres?

 R – Com certeza, igualzinha _____________________________________________________________________________________ 

 P/1 – Aqui tem muitas casas a venda , se vende muito, se negocia muitas casas?

 R – Negocia.

 P/1 – Porque tem muita casa de tijolo boa aí?

R – Olha, eu sofri muito, porque essa idéia de alvenaria aqui nessas casas, quem trouxe fui eu. A doutora Elza Quincas Borba é que me ajudou muito nisso, me dava uma licença de quinze dias, ajudava as pessoas.  “Faz pelo menos a de lá porque é a primeira laje, porque quando vir as suas não precisa carregar um sarrafo”. Então as pessoas faziam aquele, então tá aí.

 P/1 – Porque antes tinha esse problema na época de chuva, de cair casa?

 R – Caía a casa e se você quisesse reconstruir tinha que fazer de madeira de novo, não podia fazer de alvenaria que a política do governo era essa. Tinha que fazer com o próprio material que davam.

 P/1 – Isso na época do Lacerda, em que época?

 R – Era depois do Lacerda, te dava com uma mão e tiravam a outra. O camarada ainda dizia, foi o que eu te falei agora a pouco, o camarada te mostrava o dever, mas não mostrava o direito, entendeu? Só dizia: “Você deve fazer isso, você deve fazer aquilo”. Mas não dizia assim: “Você tem direito nisso, nisso e nisso”. Como é que você pode fazer alguma coisa pra mim se eu tenho que negar o meu direito? , Não posso, né.

 P/1 – E hoje a maioria das casas aqui são de alvenaria?

 R – Tudo de alvenaria, feito com muito sacrifício. Só aí pra carregar tijolo pra cá e estão construindo mais.

 P/1 – Quantas pessoas você acha que tem hoje morando aqui no Morro dos Prazeres?

 R – Eu acredito que uns dois mil aproximadamente, por aí, porque as casas cresceram muito, todas elas são dois pavimentos.

 P/1 –É, são dois andares?

 R – Tem de três andares, cresceram muito.

 P/1 – Tá bom, Zé, pra gente finalizar, deixa eu te perguntar alguma coisa na sua vida, na sua trajetória que você gostaria ainda de realizar, ou almeja ainda, um sonho... (fim da fita B – 30 min).

 P/1 – Bom Zé, pra gente só ir finalizando a nossa entrevista do dia 4 de abril, gostaria de perguntar se tem alguma coisa na sua trajetória de vida que você gostaria de realizar, alguma coisa que você quisesse mudar na sua trajetória, o que você mudaria?

 R – Eu tenho bastante coisa que eu gostaria de mudar, agora de principio é dar continuidade na cultura, mudar a forma de pegar a cultura do povo brasileiro, principalmente pras crianças, pros adolescentes, é uma coisa que eu gostaria de mudar. Até porque hoje em dia se fala muito em cultura, mas hoje você vai fazer um trabalho como esse da memória e a gente tá encontrando dificuldade, porque as pessoas  falem pra fora o que é a realidade da cultura, isso não podemos deixar passar nunca. Se eu pudesse mudar hoje, mudaria esse lado, levar mesmo essa cultura pras escolas, pra porta de bar, pras igrejas, aonde tivesse uma Assembléia, tivesse alguém que falasse da cultura. E pra finalizar eu também penso um dia poder trabalhar nesse centro cultural que é o Museu da Pessoa.

 P/1 – Muito obrigada, mas tem mais uma pergunta que eu não te fiz, em relação ao casarão, esquecemos de comentar. E o casarão quais são as suas lembranças, quando o senhor chegou aqui como ele era, nesse ano de 1959, 1960 que você chegou aqui, Zé ?

R – Ele era usado como igreja e as pessoas rezavam missa, davam aula e depois ficou um tempo abandonado, que começou aparecer uns vultos aí que a gente não sabe quem é. E hoje, graças a Deus mudou tudo, nós começamos a entender que esse casarão pertencia a essa comunidade, por ser vizinho nosso, por tá dentro do nosso espaço, a gente não conseguia ver divisa aqui entre os Prazeres e o casarão. Começamos a lutar, pensar nisso, a nos informar, as informações mesmo a gente nunca soube dá, a gente nunca soube uma coisa certa, ninguém aqui sabe o verdadeiro dono, tem vários nomes e daí que começou a luta pelo casarão, mas ele teve a ponto de acabar tudo aí.

 P/1 – Porque ele tava muito deteriorado. Morava alguém aqui, Zé, que você se lembre?

 R – Morou bastante pessoas aqui, quer dizer quem morava,  eram os caseiros, os proprietários, os que se diziam dono, iam lá uma vez ou outra, mas morava um senhor aqui tomando conta, depois ele veio a falecer, invadiram, criavam cachorro, cobra, largado tudo aqui dentro.

 P/1 – Como assim?

 R – Cada um demarcou um espaço e se tornou dono aqui dentro.

 P/1 – Mas eram várias famílias que moravam aqui dentro?

 R – Era, pro final eram várias famílias, entrar aqui dentro foi difícil, porque tiveram que tirar esse ________ aqui de dentro.

 P/1 – Eu ouvi uma história de uma moça que parecia uma índia, que morava aqui, você lembra dessa figura, uma moça com umas tranças ?

 R – Me lembro, só que eu não tinha conhecimento dela, _________________________________, em descer aquele caminho até aqui embaixo. Quando eu cheguei ali chamaram Thomas Celio de Ipanema, veio com uma escolta da aeronáutica pra eu parar de fazer o negócio, faltava cinco degraus, tive que parar, tá ali parado a vida toda. Se atrasa meia hora você tem medo de descer a escada, que o medo deles que você vai aonde tem acesso, você toma posse. Passei não sei quanto tempo num lugar eles podem fechar, não é que eles temiam, eles conheciam as leis, os direitos e não dava pra mim, só davam pra gente dever, porque não falavam a verdade pra gente, pra sair vocês vão ter o poder disso, disso. Eu não queria nada mais, nada menos do que passar, pra ficar mais perto pra eu chegar em casa, porque eu podendo passar aqui eu ia dar a volta lá na Associação que fica do outro lado, podendo ir por aqui.

 P/1 – Essa escada que tem aqui é nova?

 R – Essa é nova.

 P/1 –Essa escada perto do casarão, é creche, né, pra cima?

 R – É nova, ela passava aqui antes no local que tá a creche, passava a curvazinha aqui, subia ali, mas fizeram a creche aí tem que entrar por outro lado.

 P/1 – Mas de uma certa forma a comunidade nunca sentiu o casarão parte da comunidade, como é isso.

 R – Aquelas coisas, alguém sentia, mas as pessoas que podem e devem se interessar não se interessam por comodismo.

 P/1 – Porque realmente ela continuou, o casarão sempre era de propriedade da igreja, não é isso?

 R – Não, a igreja usava como qualquer um poderia usar, como hoje é nosso, tinha espaço ali, porque não rezar uma missa, não era pra comunidade.

 P/1 – Você vinha nessa missa aí?

 R – Já.

 P/1 – Era uma missa rezada no andar térreo?

 R – Exatamente, porque não tinha outra igreja.

 P/1 – Era a igreja católica e a comunidade vinha aqui?

 R – Teve gente que foi até batizado, quer dizer, o importante é isso quando é um trabalho comunitário, você tem mais possibilidade de conquistar, individualmente não, já comunitário é mais fácil, quando tem pessoas inteligentes que tem necessidade disso, tá do seu lado também é mais fácil. Tem gente que tem uma dificuldade enorme, tem pessoas que se julgam melhor um pouco de situação que o outro ele se acomoda, tem um outro nível, tem uma outra postura, não precisa vim, explora. Uma vez um amigo meu me disse uma coisa engraçada: “Comunidade, eu não gosto muito de comunidade, não”. Eu até pensei que fosse uma piada que ele fosse contar: “Mas, por quê?”.  “Comunidade tem três classes de gente: tem o melhorado, o explorador e o desgraçado”. Disse assim pra ele: “O que é isso?”. “É verdade  que aqui não tem nome, tem gente que quer melhorar e aquele outro que vive às custas dos outros, vive do povo e não ajuda nada o povo”. Eu calei, fiquei quieto, porque eu não tive resposta, me pegou de surpresa. “Não gosto por isso, você sobe lá em cima agora tem um cara tomando cerveja e outro morrendo de dor de barriga. O do lado não tá olhando nem pro lado dele e tem um te cobrando duas vezes a mais a mercadoria e tá rindo da tua cara”.

 P/1 – Mas essa não é só no morro, a vida é assim, né, Zé?

 R – Mas ele achou que é mais fácil ele falar daqui do morro, onde o povo para pra lhe escutar, do que Copacabana, Ipanema que ninguém tá se lixando. “Esse nego é maluco”, mas aqui tem gente que gosta de parar pra ouvir, foi o que eu fiz na ocasião.

 P/1 – Zé, pra finalizar o morro mudou muito, né, e você contou coisas boas com a chegada das melhorias, coisas boas, coisas ruins, mas de uma forma geral o que você acha, como é a vida hoje aqui, você continua morando aqui depois de tantos anos, você casou aqui, os seus filhos foram criados aqui, eles permanecem aqui?

 R – Quando eu me casei eu morava na Rua Fonte da Saudade. Me casei lá e depois vim aqui, onde meus filhos nasceram foi praticamente aqui. Orlando quando veio pra cá tinha um mês de idade.

 P/1 – E por que você voltou pra cá?

R – Eu voltei porque era muito espaço que eu tinha, na condição de vida que a gente leva, como é que eu ia sustentar, morar na Rua Fonte da Saudade, mais mulher e filhos? Não tinha como. Então eu tinha que procurar um lugar que não pagava aluguel, não pagava luz.

 P/1 – Na Rua Fonte da Saudade você morava em aluguel?

 R – Eu morava numa casa de família. Em Embu Guaçu eu trabalhava com famílias milionárias.

 P/1 – Em Embu tinham casas bonitas?

 R – Casas bonitas, o pessoal lá até era uma família muito boa, mas eu também me considerava discriminado lá. mMu trabalho lá era servir café da manhã, café da tarde, janta a noite, lavar automóvel, levar criança na escola e botaram pra eu fazer um curso de francês, inglês, aquilo era uma humilhação pra mim. Por que eu vou aprender o francês e o inglês? “Tem que aprender, a gente recebe muita visita aqui, o senhor precisa”. Porque essas pessoas que vocês convidam não vem falando português, eu é que tenho que tá enrolando língua aqui se eu não sei falar nem o português direito, vou ter que tá falando inglês aqui pras pessoas, mas fui obrigado a aturar isso durante muito tempo, também não falava nada só algumas palavras: “Thank you very much”. Eu deveria ter aproveitado um pouco mais. [risos]. Paciência não deu, foi difícil, você tá no meio de um povo que te obrigou a seguir uma linha que não é assim.

 P/1 – E você com seus ideais aí todo socialista não deve ter sido fácil, né?

 R – Pelo amor de Deus.

 P/1 – Quando era jovem já fazia o exercício do dono da fazenda na escola?

 R – Eu achava que eu podia tá numa situação melhor, ou dividisse, tinha que dividir os direitos, não são iguais, os direitos de sobrevivência não são iguais, eu não tenho direito de educação, de saúde, pelo menos uma condição dessa, um pedaço de solidário, um pedaço bom pra empresa, como tratar você, um ganho suficiente. Eu não entendo até hoje como o povo brasileiro pode sobreviver com um salário menino de cento e oitenta reais, eu nunca ganhei salário mínimo porque nunca deu, eu sempre trabalhei dobrado pra cobrir esse espaço.

 P/1 – Até hoje você trabalha fora?

 R – Trabalho até hoje, ainda trabalho e vivo numa situação difícil.

 P/1 – E você conheceu ela aonde?

 R – Eu conheci aqui no Rio mesmo.

 P/1 – E como é o nome dela?

 R – Maria Teresa da Silva.

 P/1 – São casados a quantos anos?

 R –  Trinta e sete anos.

 P/1 – Aí voltaram pro Morro dos Prazeres onde moram até hoje. Aí dois filhos seus moram aqui?.

 R – Moram aqui, outro mora em Caxias e minha filha mora em Anchieta.

 P/1 – E os filhos, quais são as profissões?

 R – O Orlando é militar, agora ele deu baixa, mas chegou a Sargento da Marinha; o Marcos trabalha como inspetor de alunos no colégio; o Carlos é analista técnico de contabilidade, tá no último ano de contabilidade e esse ano deve se formar; e a Rogéria é dona de casa, tem dois filhos.

 P/1 – Quantos netos você tem ao total?

 R – William, Felipe, Adriel, Alan e Dativa.

 P/1 – E futebol pra gente encerrar, eu sei que é uma paixão sua.

 R – É, isso é o bastante.

 P/1 – E você tem um time aqui no Morro dos Prazeres.

 R – É esse time é tradicional.

 P/1 – Você joga Zé?

 R – Sempre joguei, atualmente não estou jogando depois de um tombo que eu levei aqui na comunidade, fraturei a coluna e não pude mais jogar, mas sempre participei.

 P/1 – E tem nome esse time?

 R – É Veterano mesmo.  Esse aí é o clube dos vinte , Veterano clube dos vinte. O outro que eu acompanho que é dos meus filhos é o Ebolição.

 P/1 - Quem deu esse nome, Zé?

 R – Os próprios meninos mesmo, aí eles se desentenderam por alguma razão, não tem vaga pra um, não tem vaga pra outro, aí eles formaram o próprio time deles e me convidaram pra ser presidente.

 P/1 – Mas é uma turma aqui do Morro dos Prazeres, o Ebolição. Qual é a cor do time?

 R – Verde e branco.

 P/1 – E o Ebolição joga contra o time dos veteranos?

 R – Joga.

 P/1 – E você torce pra quem?

 R – Pelo Ebolição, porque o Veterano é mais fraco [risos].

 P/1 – Bom, Zé eu te agradeço mais uma vez. Quer falar mais alguma coisa?

 R – Não, eu te parabenizo pelo seu trabalho aí do Museu da Pessoa, é muito importante isso e vamos dar continuidade, sempre que possível eu estou aí expondo as questões.

 P/1 – Muito obrigada Zé, muito obrigada mesmo pelo depoimento.

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