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História

Luiz Guilherme Carvalho Leonardo

História de: Luiz Guilherme Leonardo
Autor: Luiz Guilherme Leonardo
Publicado em: 27/09/2019

Sinopse

Uma carta para que eu guarde minhas memórias e entenda que superei diversos momentos e que foi uma vida feliz e complexa, como a de todxs

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História completa

São Paulo, 09 de setembro de 2019

 

Para meu querido Eu, Luiz Guilherme Carvalho Leonardo. Você nunca fez um texto pra você, sempre achou que fosse idiotice de pessoas que precisavam de tamanha atenção que escreviam pra si para comprovar alguma importância dentro da sociedade. Isso claramente foi na sua adolescência, que não faz tanto tempo assim, mas lembro que você sempre teve esse bloqueio com você, talvez porque não se reconhecia/aceitava e achasse que tudo que escrevesse seria uma completa farsa. E por vezes seria de fato, porque vestimos uma máscara para nos proteger.

 

Sua infância foi conturbada, essa noção você criou desde a própria infância. Sua mãe já tinha passado por muita coisa com seus irmãos. Conheceu seu pai, que já começou mentindo pra ela. Os dois se juntaram e, pelo que foi dito pra você seu pai disse que queria um filho. Sua mãe engravidou, e vocês moravam na casa da sua vó materna, que acolheu seu pai. E nascemos dia 15/09/1999. Você passou por muita coisa pesada, mais de 17 mudanças de casa, beirou a fome, já viveu sem energia, sem água, foi abusado, por vezes tudo pareceu estranho. Mas em todos esses momentos que pode ser visto pelo mundo como miseráveis você era feliz.

 

Seu irmão e sua mãe faziam bonequinhos contra a luz da vela e te contavam histórias diversas, ou iam pra frente da Tv e fingiam estar acontecendo a novela, porque sabiam que você gostava. Seu irmão aprendeu a tirar de todos esses momentos uma graça, aprendeu a fazer sua família a rir nesses episódios. Sua irmã sempre foi mais retraída, por diversas construções, mas a verdade é que ela sempre foi a pessoa mais doce na sua brutalidade. Essa brutalidade veio pela sua visão de uma necessidade de esconder seus sentimentos para não intensificar mais ainda a dificuldade do que vocês viviam. Das diversas mudanças de casa você conseguiu na última ter o sentimento que nunca irá esquecer, o sentimento de pertencimento. Você morou no sítio da prefeita de Piranguçu-MG. Essa casa era no meio de um monte de mato e você parecia um cachorro que viveu preso e tinha sido solto naquele terreno e não sabia o que fazer com tanto espaço para brincar. Você tinha sua horta, tinha as árvores para subir e achar que era a maior pessoa do mundo, andava de pé descalço na terra onde se sentia o mundo inteira. Olhava os pássaros, os macacos, as formigas e tudo era incrivelmente mágico e tudo era constantemente vivo. Lá, em tudo que vem na sua memória, parece ser cheio de constante significação e de êxtase pela vida.

 

Veio pra São Paulo, e lembra da primeira vez que saiu onde olhava tudo e era minúsculo, e tudo era completamente cinza, sua memória te dá essa imagem de tudo cinza como se fosse um filme em um filme antigo. Morou no fundo do fundo de uma casa, com cinco lances de escada para baixo e ficava lá trancado, como se tivesse voltado a ser o cachorro preso. Nas escolas que frequentou, em todas aprendeu o que é viado. Vergonha completa para um homem. Não existiu pra você outra alternativa a não ser: não pensar, não demonstrar, sempre negar, sempre se dizer o contrário de viado. E assim se iniciou um processo de mascaramento total para se adequar ao eixo heteronormativo. Em casa você também se mascarou, família evangélica que sempre se disse detentora dos bons costumes. Você ouvia sempre que ia pro centro de São Paulo e viam um casal gay: que nojo, vão todos pro inferno, deveriam ter vergonha. E foi assim que você cresceu pensando sobre si mesmo por detrás dessa máscara, desse personagem hétero. “Quem diria que se desacolhesse tanto, o que há do seu menino? Está maluco, agora é quem sou” E aí você até namorou para esconder e tentar ver se gostava, talvez fosse só pensamento de ser gay. Não era. Porque afinal pensamento é quem você é. A primeira menina que você beijou foi para mostrar pros seus amigos que você era “homem”. A segunda foi diferente, após milhares de sessões de autohipnose fornecidas pelo Youtube para que você escondesse algum problema no subconsciente, você se sentia curado e pronto para um relacionamento e sabia já fazia um ano que não estava com mais ninguém e precisava reforçar, pois as perguntas de “você é gay?” não pararam de surgir.

 

Assim você começou seu segundo namoro, e foi incrivelmente mágico, não porque se sentiu hétero, mas porque se sentiu acolhido como era. Não precisava provar masculinidade. E foi respeitado em todos seus pedidos. Mas você entrou na faculdade e se sentiu distante de casa e de conhecidos, e se sentiu livre pra se expressar nas artes e nas letras, e foi. Você deu um salto como se estivesse pulando de paraquedas, pois não tem sensação melhor que a liberdade. Terminou seu namoro sendo honesto e aceito por ela. E assim continuou. O que você não esperava era essa velha angústia de não ser quem é, em casa. E assim você começou a se fechar, e o arrebatamento da liberdade se transformou em um terrível aprisionamento dentro de você. E quando se viu por dentro, se perdeu. Você se dedicou tanto a sua máscara que já não sabia quem era. Ao mesmo tempo viu a possibilidade de ser tudo, mas nem tudo é você. O que se seguiu foi se entender, foi horrível a dor que sentiu. Todo ódio que a sociedade construiu em você por você mesmo voltou em pensamento, você era o gay nojento que sua família dizia ter vergonha e que iria pro inferno. Isso foi sufocante e te rendeu ansiedade, dias sem sair de casa pensando em se matar.

 

Até que você conversando com um amigo entendeu que precisava contar pra sua família. Toda comunidade LGBTQIA+ vivia uma tensão por conta das eleições. No dia que do segundo turno é anunciado que Bolsonaro era o novo presidente. Seu irmão comemorou a vitória e você mandou calar a boca pois sabia que ele tinha ideias homofóbicas e então ele te questionou se você estava falando isso porque era gay. Você levantou e confirmou que é gay. Daí se seguiu todo um tormento em ter que ensinar para sua família que você é um ser humano pleno e que tem sua própria sexualidade. Foi estranho em alguns momentos, mas você conseguiu se impor e contemplar sua identidade dentro de casa. Ensinou a sua mãe que você era muito mais participativo tendo sua identidade plena. E então falou de alguns meninos que você ficava, até dizer do seu namoro. Sem dúvida o namoro que mais te marcou, pela sinceridade de sentimentos, pela intimidade vivida, pela acolhimento e pelo amor que sentiram um pelo outro, claro que o amor deu uns tombos e se estrepou. Mas ali nesses dois corpos você foi Luiz, e você aprendeu sobre si e mais sobre os outros. O relacionamento marcado pela palavra intimidade te rendeu através da troca autoconhecimento.

 

Agora na semana em que você faz vinte anos você vive suas maiores crises, medo do que você pode se tornar. Medo do adulto que será. Você sempre pensou no daqui a pouco e não no agora, no ali e não no aqui, sempre no amanhã e não no hoje, sempre no quando acontecer não no que está acontecendo. E lembro da primeira vez que você se sentiu acolhido e sem precisar de mais nada. O momento em que, sentado na varanda lá no sítio da prefeita com sua irmã, viu o céu cinza desabar na estrada de terra na frente de casa e molhar toda a cidade. Esse foi o momento em que você sentiu o agora e não precisava entender nada para se sentir impossivelmente infinito e potente. Ficou para você a memória do agora, que nunca mais se repetiu, depois daquele momento se sentiu estrangeiro a tudo. Hoje busca se sentir conterrâneo de si mesmo. Hoje busca entender que não entende, é que é mutante em descobertas que nem Portugal se arriscaria navegar. Como diria seu poeta favorito, Fernando Pessoa, “E vou escrever esta história para provar que sou sublime”. Obrigado por ler um resumo dos seus vinte anos. Parabéns, que seja mais um ano incrível e que você aprenda a enxergar sua beleza humana e sua potência, arrase meu querido e viva muito, você já aprendeu que a dor passa!

 

Com carinho e acolhimento de Luiz Guilherme Carvalho Leonardo

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