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Lugar de mulher é onde ela quiser

História de: Davina de Campos Glovasky
Autor:
Publicado em: 11/11/2021

Sinopse

Davina de Campos Glovaski nasceu na área rural do município de Guarapuava no Paraná, no dia 01 de maio de 1974. Com descendência ucraniana e italiana, pertence a uma família muito numerosa, sendo o seu núcleo direto o menor deles. Seus pais não tinham condição financeira boa. Cresceu num bairro simples na periferia de Guarapuava. Desde criança ajudava nas tarefas de casa, cozinhando as refeições da família. Seu pai conseguiu bolsa para ela estudar o ensino fundamental numa escola particular, onde sofreu bullying pela sua condição social

Começou a trabalhar com 16 anos, ainda no ensino médio, primeiro como auxiliar de escritórios. Em 1995, após concluir o ensino médio e o curso técnico, como auxiliar de enfermagem foi trabalhar no hospital da cidade. 

Em 1999, prestou concurso para Polícia Militar incentivada por uma amiga. Exerceu a função de policial feminina na rua por 9 anos. Casou-se com um policial militar.

Após investigar uma situação de estupro infantil repensou sua posição na Polícia Militar. 

Prestou concurso para FURNAS para linha de transmissão sem saber que não haviam mulheres trabalhando nessa função. Nos primeiros 9 meses de empresa, fez o curso de técnico de formação (CTB) na Usina de Furnas. Acabou se divorciando do marido. 

Foi a primeira mulher do Sistema Eletrobras a trabalhar com manutenção de linhas de transmissão. Enfrentou diversos desafios, assédios morais e preconceito, mas aos poucos foi vencendo essas barreiras e se destacando como profissional altamente qualificada.

Depois de 9 anos atuando nessa função de campo, conseguiu uma transferência para operação na Subestação de Ivaiporã. 


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História completa

Um pequeno excerto sobre a história de Davina 

Eu sei que sou meio exceção, porque eu sempre gostei de coisas diferentes. Se for analisar, eu fui policial, na operação não corre tanto risco, mas eu tinha um trabalho considerado um dos mais perigosos, que é manutenção com linha energizada, 750kv, e era muito mais seguro do que a minha antiga profissão [...]

 

Essa era mais ou menos essa nossa rotina. A gente fazia a inspeção, torre por torre, depois fazia o relatório, torre por torre, e destacava o que precisava ser feito. Também tinha que ver se não havia mato alto perto das torres, porque o mato cresce, mas não pode chegar próximo do cabo, tem que ficar longe do cabo. Então, depois que você terminava a inspeção das torres, fazia o relatório e vinha fazendo a manutenção. A torre que estava com defeito, você tinha que subir nela e corrigir. Nós fazíamos a manutenção com a linha desligada e com a linha ligada também, mas aí você entrava com aquela roupa especial, entrava no potencial, andava nos cabos para fazer esse tipo de manutenção. 

Tinha também inspeção aérea, que é com helicóptero. A gente tirava abelha, pois formam muitas colmeias nas torres, principalmente na região que tem eucalipto. Inclusive, a gente tinha curso para isso, de como tirar as abelhas da torre. A gente também tinha curso de motosserra porque, por exemplo, você chega perto da torre e tem uma árvore ali, você não vai contratar uma empreiteira para ir tirar apenas uma árvore. Então, o próprio eletricista que já está lá, na hora derruba aquela árvore e resolve o problema. 

As torres variam de tamanho, tem de 30 m, tem 60 m, mas a média é entre 45, 50 m, a média da altura, daqui da 750. Nas outras classes de extensão, as torres são um pouquinho mais baixas, mas por exemplo, tem torre de comunicação, aqui do lado da minha casa, que tem 85 metros, na subestação, a torre de comunicação tem 120m, mas são só algumas, a média de altura na linha é de 45, 50 m.

Eu acho que as melhores histórias vêm das emergências. São 300 pessoas trabalhando para levantar uma torre no menor tempo possível, para que não falte energia para ninguém, para que não tenha mais problema. São muitas pessoas trabalhando ao mesmo tempo, muitas pessoas do Brasil inteiro. Eu mesma já participei de muitas emergências. Teve uma em que caíram nove torres! 

É sempre uma megaoperação! Os equipamentos que são fornecidos pela empresa são muito bons, vem guindastes gigantescos que erguem 120m.  A estrutura para isso tudo é muito gigantesca! Cinco horas da manhã você vai para o campo, e você retorna para o hotel dez horas da noite. Você passa o dia todo! E geralmente são dias de chuva, muito barro... porque para cair uma torre, é porque deu vendaval, alguma coisa assim. Sempre há dificuldade de acesso, porque é comum que a torre caia nos piores lugares, nunca cai num lugar bom de trabalhar. E você vê todo mundo empenhado naquilo, 300 pessoas empenhadas e concentradas para que aquilo flua, para que dê certo. 

O ambiente de linhas de transmissão é um ambiente gostoso, os caras brincam muito, um zoa com outro, faz piada. Então, quando tem emergência, você sabe que vai sofrer, você sabe que vai trabalhar muito, mas você vai rever teus amigos, vai contar a história, vai dar muita risada, vai ouvir piada, é muito gostoso.

 

Desenho de um círculo

Descrição gerada automaticamente com confiança média

Depois de mim, entraram outras mulheres em linhas de transmissão. Eu não sei exatamente quantas, mas foi mais de uma. Eu conheci no trabalho, numa emergência, a Carol. Só que as meninas que entraram nenhuma trabalha aqui no Paraná, então, eu não tive contato com elas. Conheci a Carol numa emergência em que ela foi trabalhar lá. As outras eu tenho contato só por rede social. E tinha a Lise, que trabalha na Eletrosul, ela era também a única mulher da empresa. Ela me procurou na época que tinha o Orkut, logo que eu entrei. Ela me procurou, se identificou e falou: “Oi, eu trabalho na Eletrosul”. Ela trabalhava em Londrina, uma cidade relativamente perto daqui. E daí a gente conversou pela internet e marcou de se encontrar. Ela veio até Ivaiporã e a gente fez amizade, a gente tem amizade até hoje. Quando ela vem trabalhar aqui na região, ela vem aqui em casa, fica aqui um pouco.

Depois de nove anos trabalhando em linha, eu resolvi mudar. O fato de você viajar de segunda a sexta-feira uma hora cansa. No meu caso, eu morava sozinha, não podia nem ter bicho, que sempre gostei. Você nunca estava em casa, sempre em hotel, sempre viajando, é muito cansativo, é desgastante. Mudei numa época em que FURNAS deu um incentivo e muitos operadores aposentaram, assim surgiu uma vaga e eu me voluntariei, eles me aceitaram e passei para operação.

Na operação o trabalho é muito mais tranquilo, nem se compara com linhas. A gente fica de plantão, mantém a subestação funcionando. Você cumpre um turno, não viaja. E turno é assim, indiferente se é feriado, sábado, domingo, deu o teu horário de trabalhar, você vai trabalhar. 

Mas eu não preciso mais fazer manutenção, não preciso mais andar com a capanga de ferramenta nas costas. O trabalho da operação é manter a subestação funcionando, é ficar de plantão atenta. A central, o CTRS, liga para gente, e tem equipamentos que você tem que desligar e ligar, para que haja um controle da tensão.

 

Desenho de um círculo

Descrição gerada automaticamente com confiança média

Eu trabalho na operação há uns cinco, seis anos, bastante tempo já, mas de vez em quando eu sinto falta do trabalho de campo, porque era um serviço muito pesado, abrir o mato com um facão, ficar subindo em torre, sol de 30°, a ferragem quente, com uma capanga de ferramenta nas costas, subir 50 m de uma torre, realmente era puxado, mas a equipe era muito divertida, havia muita brincadeira. E o trabalho de manutenção com linha energizada é algo muito interessante, se pensar que você está andando num cabo, e ali sobre o teu corpo está passando 750.000w, chega a queimar os cabelinhos da gente assim, é um negócio, se você parar para pensar, é muito louco!

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