Busca avançada



Criar

História

Lugar de mulher é onde ela quiser

História de: Rosemeyre da Conceição Duarte
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/01/2021

Sinopse

Infância ao lado dos avós. Santos. Casamento. Maternidade. Atuação no Porto de Santos. Destaque em cargos anteriormente ocupado por homens. Liderança. Empreendedorismo. Determinação.

Tags

História completa

Eu senti que não era mais o caminho que eu queria, que eu estava perdendo muita coisa na minha vida por causa das 12 horas de trabalho. Foi quando eu pensei e falei: "Não, eu quero dar outro para minha vida". Eu não quero ficar aqui no transporte, a mesmice, onde eu não possa aplicar o que eu tenho de conhecimento, onde eu sei que eu não vou seguir para lugar nenhum, porque ali onde eu estava já tinha sido promovida, eu estacionei, não ia mais para lugar nenhum. E eu decidi sair da empresa e dar outra na minha vida.

Fiz uma entrevista [para uma empresa do porto de Santos] e logo em seguida me ligaram dizendo que eu tinha sido aprovada. Aí bateu um frio na barriga, um pânico, porque era um universo novo, o pensamento que eu tinha de porto era aquele pensamento machista, aqueles homens estivadores, alguns broncos, alguns mais estudados, e bateu aquele medo, aquele tudo, meio de felicidade, tristeza, tudo junto. E aí eu falei: "Eu vou lá. Vou buscar, vou ver como que é".

Comecei a trabalhar, comecei a matar os fantasmas, que o porto não era tudo aquilo que me assustava, que os homens não tinham cara de mau, e fui buscando o meu espaço nessa primeira empresa. Daí com seis meses de empresa, eu fui chamada para poder treinar do lado de uma função que se chamava assistente de transporte.

Eles ali dominavam a logística do transporte. E eu fui treinar. Treinei, fui bem aceita, quando eu tive um ano de empresa, eu tive a oportunidade de começar a tirar férias deles, sozinha, eu fui a primeira mulher nessa função. E tirei as férias deles. Eu passava trabalho, distribuía trabalho para uma equipe de 50 homens, e eram só homens, não tinha motorista mulher, e eu era a única mulher ali no meio deles.

E eu fui desempenhando, desempenhando, quando acabou a quarta férias eu ganhei a minha primeira promoção. Essa promoção foi tão gratificante que ela me empurrou para fazer outra faculdade, aí eu queria mais. A gana veio, aí eu queria mais. Eu tinha a Logística e fui fazer Comércio Exterior. E fui buscar mais e mais qualificação, fui buscar mais e mais conhecimento.

Quando eu estava mais ou menos uns oito meses na função de assistente, um dos supervisores foi para outro setor, aí eu tinha um gerente, ele me chamou e falou para mim assim: "Por enquanto, você vai substituir como supervisora até eu buscar alguém qualificado para poder exercer a função." E uma frase que ele falou para mim, que eu falo para ele até hoje, toda vez que eu o encontro, eu falo que aquilo impulsionou a minha vida, impulsionou mais ainda a minha gana de querer ser alguém, querer mostrar que eu tinha espaço, querer mostrar que, por eu ser mulher, eu não era diferente e que eu conseguia fazer aquele trabalho, foi ou quando ele disse assim para mim: "Você não é e nunca vai ser a minha opção. É só por três meses e depois eu vou colocar alguém lá, porque você não serve para essa função".

Aquilo deu... Sabe, mais força... Sabe quando te dá aquele empoderamento, de eu vou mostrar para você que eu sou capaz e que eu posso fazer? Foi assim que eu fiz. Quando passou os três meses ele me chamou e me promoveu, que eu era capaz de comandar aquela equipe de 50 homens. Aquilo foi de uma gratificação enorme.

Por ser mulher eu encontrei muita dificuldade. Eu não era aceita, no começo eu não era respeitada, eu tive que impor meu respeito, eu tive que buscar minha aceitação. Eu escutei por várias vezes que lugar de mulher não era no porto e que eu estava pegando a vaga de alguém qualificado. Mas eu segui em frente, eu não deixei me abalar, foi o que eu falei, eu fui lá e conquistei o meu espaço. E por ser mulher muitas coisas também você tem aquela facilidade, aquele seu jeitinho para poder conduzir a situação e você acaba fazendo até a pessoa mudar de opinião. A pessoa que era arisca com você... Teve muitos assim, ariscos, e você vai com jeitinho, com jeitinho você vai conquistando, com um jeitinho que só a gente tem de ativar mesmo, né? E você traz a pessoa para o seu lado. E esse lado também era muito gratificante. Mas já escutei muito assim: "Ah, tá fazendo o que aqui? Vai lavar uma louça. Lugar de mulher não é aqui". Escutei bastante.

Muitas não aguentavam porque o turno... Machuca um pouquinho o turno, né? Às vezes você trabalhar na madrugada é ruim, é um pouquinho puxado principalmente, para gente mulher que exerce dupla função, dona de casa, é mãe, é um pouquinho puxado. E algumas entravam e não aguentavam e saiam. E eu sobrevivi nesse universo masculino e daí eu engajei, botei na cabeça que eu era capaz e eu fui capaz. Sabe a frase "Eu vim e venci"? Foi assim que eu me senti.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+