Busca avançada



Criar

História

Os catadores percorrem as cidades

História de: Lucia Rosa
Autor:
Publicado em: 25/05/2021

Sinopse

Lúcia Rosa cresceu no Alto da Lapa – São Paulo, a 4ª de 5 filhos, na infância já pintava em restos de telhas avulsas que tinha no fundo do quintal da família. Se apaixonou pelos livros na casa da vizinha, que foi sua professora do primeiro ano. Com 9 anos participou de um concurso de desenho na escola e ganhou uma bolsa de estudos na FAAP. Instruída pelos pais optou pela faculdade de letras, pois era um caminho mais fácil no sentido de se manter financeiramente. Iniciou a carreira trabalhando em editoras, se mudou para Atibaia e continuou como freelance. Quando os filhos começaram a alcançar independência a pintura entrou na sua vida, posteriormente começou a se dedicar a outras trabalhos, pesquisas de materiais, frequentar sucatas. Foi convidada para participar de uma exposição para ativar o entorno de uma biblioteca no Pari, enquanto andava procurando sucata, os carroceiros que andavam em volta lhe chamaram a atenção, naquele momento decidiu trabalhar com papelão. Lúcia Rosa é uma das fundadoras do Coletivo Dulcinéia Catadora que funciona dentro de uma cooperativa de materiais recicláveis em São Paulo, tem o funcionamento similar ao de seu projeto mãe, Eloisa Cartoneira, uma cooperativa Argentina, onde famílias de catadores produzem livros com papelão.

Tags

História completa

Meu nome completo é Maria Lucia Gonçalves Leite Rosa, eu nasci no dia 22 de julho de 1953. Depois que os meus pais se casaram construíram uma casa no Alto da Lapa, muito perto da casa da da minha vó. Nós éramos em 5, tínhamos um quintal, era uma alegria só, eu era a quarta. Eu fazia muitos desenhos, pinturas em resto de telhas avulsas, que tinha no fundo do quintal. O que aparecia na minha frente eu pintava.

Tinha uma amiga da minha mãe, que era vizinha, foi minha professora do primeiro ano. E ela tinha livros na casa dela. E eu ficava, assim, maravilhada que ela tinha livros.

Com 13 anos, eu já pensava muito nas artes, quando tinha nove anos, acabei ganhando um concurso na escola, no grupo de desenho. E esse concurso dava direito a uma bolsa ao curso de Artes Livres da Faap, então eu fiz esse ano inteiro como bolsista e realmente eu amava, eu lembro que mesmo tendo sido premiada, eu passei por um tipo de teste no primeiro dia que eu fui e lembro que fiz uma esculturinha de um burrinho.

Então, com essa idade, eu já pensava que tudo que eu queria fazer era pintura, mas eu acabei fazendo Letras, eu também adorava ler e acabei optando por ler. Por conversas e orientação dos meus pais, que seria um caminho mais fácil, no sentido de eu conseguir me manter financeiramente.

Então eu fui pondo essas coisas todas na frente, a hora que deu uma folga, que meus filhos já tinham oito, dez anos, aí eu retomei a parte de artes

Comecei a ler os jornais já adolescente e acompanhava onde estava tendo exposição. No Masp eu lembro que vi uma exposição lindíssima do Portinari, foi a primeira vez que eu fui ao Masp. Quando eu fiz 18 anos eu conheci a Praça Roosevelt, era onde tinha o Cine Bijou|, onde passava filme de arte. Quem me acompanhava, a partir de 16 anos, é o meu atual marido, nós nos conhecemos num grupo de amigos da Lapa.

Eu acabei mudando pra Atibaia e continuei trabalhando como freelancer pra várias editoras. Quando meus filhos eram pequenos, às vezes eu os colocava na cama e voltava a trabalhar, porque não dava pra fazer tudo que eu queria ou tudo que era exigido de mim só naquelas horas. A pintura entrou no momento em que eles começaram a ficar mais independentes, mas depois eu me dediquei a outro tipo de trabalhos, instalações, pesquisa de material, um monte de coisas.

Eu comecei a procurar vários cursos e, aos poucos, eu fui trabalhando. Eu sempre tive uma atração muito grande por material já usado. Eu gostava também de trabalhar com sucata, eu comecei a frequentar muito a sucata.

Eu fui convidada pra participar de uma exposição, e a proposta dos artistas era ativar o entorno de uma biblioteca no Pari. Eu achei bacana a proposta e resolvi participar e fui andar pelo em torno da biblioteca, andei bastante naquela tarde e achei sucata, mas enquanto eu andava, eu via muitos carroceiros, e comecei a ver aquele mundo de carroceiros e me chamou muito a atenção aquilo e, naquele momento, eu decidi trabalhar com papelão. Eu tinha interesse em saber um pouco da vida deles. Então, comecei a frequentar aqueles locais, comecei a gravar depoimentos. Eles tinham uma visão muito positiva da vida, que ele queria se divertir. Então, é totalmente contrário, às vezes, do que você pensa que um carroceiro pode sentir em relação a vida.

Quase que ao mesmo tempo que eu estava fazendo esse trabalho, eu soube do Eloísa Cartonera, que é um coletivo argentino que trabalha com papelão, com livros com capa de papelão. E eu comecei a me comunicar com esse grupo argentino, nesse meio tempo eles foram convidados, pura casualidade, pra participar da 27ª Bienal de São Paulo. E a Lisette Lagnado, que era a curadora, estava trabalhando, propondo a arte colaborativa.

E o Javier me indicou pra produção, a primeira coisa que eu fiz: eu não fui atrás de catador, eu quis filhos de catadores, porque eu já sabia que o catador tem rotina de trabalho. Eles não sabiam o que era direito nem o Ibirapuera.

Quando acabou, que eu quis começar o Dulcineia.

Eu trabalho com um grupo só de catadores. Existem os catadores que até hoje não me aceitam, mas também não impedem que eu faça esse trabalho com essas catadoras. O Dulcineia é a junção do meu lado, do meu interesse pela literatura com o trabalho da arte, mas um trabalho de arte que exige a colaboração e a aproximação com as pessoas, entre pessoas. Então, é um trabalho artístico que passa pela ética.

Os cento e cinquenta livros que a gente tem do Dulcineia, a gente tem 15 que são feitos em colaboração com artistas, são artistas que a gente convida, o artista vai visitar a cooperativa, apresenta o trabalho pros catadoras.

O Catador, é um livro de entrevistas em que os catadores se entrevistaram.

E acho que tudo isso é o Dulcineia. Não é só fazer livros com autores ou de escritores, mas envolve todo esse processo de exposição dos catadores.

A venda de livros é um dos pilares, funciona como uma renda complementar ao trabalho das catadoras. Inclusive o horário de trabalho da gente no ateliê é depois que elas deixam a coleta, que é tipo depois das quatro horas da tarde.

Quem tem participação mais ativa e regular são as mulheres. A maioria acha um trabalho muito feminino, principalmente desde o momento que a gente começou a costurar os livros.

O coletivo não tem lugar fixo, não tem lugar específico, gosta de ocupar tudo que aparece.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+