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História

Lucia mudou com a família para Rio Claro e salvou o filho mais velho das drogas

História de: Maria Lucia de Souza dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Maria Lucia de Sousa dos Santos deixou tudo pra trás para salvar o filho com dependência química.

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História completa

Meu nome é Maria Lucia de Sousa dos Santos, nasci em São Tomé, no Paraná no dia dois de abril de 1964. Meu pai trabalhava em roça. Minha mãe fazia as coisas em casa e também trabalhava na roça pra ajudar. Comecei a trabalhar cedo na roça, desde criança. Eu fui a mais velha, daí fui a mais sofredora (risos), trabalhei bastante. A gente foi criada debaixo dos pés de café. Desde pequenininha mesmo, três, quatro anos. Eu estudei até o quarto ano, o meu pai tinha mania de falar que mulher não precisava estudar muito. Eu fui terminar de estudar, já tava com 30 anos.

Eu não era muito arteira, não. Eu era mais sossegada, mas uma vez, fui moer cana, tinha as crianças, tinha engenho, eu fui moer e apertou o dedo do menino. Eu sofri bastante com aquilo, sentimental... Eu não gostava de sítio, eu odiava morar em sítio. Fim de semana era uma vida, porque eu queria vim pra cidade. Eu morava, mas não gostava. Eu dava um trabalho danado pro meu pai. Pra vim pra cidade, tinha que arrear carrinho, carroça, às vezes, eu vinha sozinha [com 12 anos, 13 anos], arreava o carrinho e me mandava, o meu pai ficava doido (risos).

Eu trabalhava de doméstica, eu, minhas irmãs... Vichi, o primeiro salário, o meu pai tava na situação difícil, entreguei pra ele pagar aluguel. Ajudou bastante, foi emocionante. Meu pai deixava uns troquinhos com a gente. Mesmo na roça eu catava mamona, eu criava galinha, sempre gostei de ter o meu dinheirinho, eu não gostava de depender de ninguém. Até hoje eu não gosto de depender. Sempre me virava, fui comprando enxoval, fui comprando as coisas, roupa, calçado.

Eu comecei a namorar com 17 anos e pouco. O meu pai exigia que tinha que namorar pouco, namorar e já casar. Eu não era namoradeira. Comecei a namorar, ele é bem mais velho do que eu. Daí, meu pai: “É seis meses pra namorar e casar”, não teve como se explicar... Continuei trabalhando... Eu saí do Sumaré, que era a vilinha, fui pra Paranavaí, pra cidade, também numa vila, eu morei 28 anos lá. Nisso nasceu os filhos, continuei sempre trabalhando.

Com uns trinta e poucos anos, eu trabalhava o dia inteiro, saía correndo pra estudar, chegava lá, às vezes a canseira batia, cochilava até. Comecei na quinta série, mas eu consegui tirar o segundo grau, graças a Deus. No ano passado, eu fiz um curso de panificação e de confeiteira. Fiz pelo Senai e gostei muito... Eu sempre procuro correr atrás, que a gente todo dia aprende.

A minha mudança pra cá, eu trabalhava no restaurante, e tive que pedir as contas. Meu filho caiu no mundão da droga. O mais velho, já não trabalhava. Ele ficou um ano e pouco só naquela vida terrível. Tava se pinchando, eu vendo que ele tava morrendo, já tava o couro e o osso, só tinha a orelha de tão magro que tava, não comia, não dormia. Era uma tribulação, daí eu vim passar umas férias aqui. Cheguei, analisei, pensei e falei: “Acho que o jeito é criar uma asa e voar”. Eu larguei tudo, pedi as contas do serviço, vim pra cá morar com o meu pai. Meu pai, minha família me ajudou muito. [Meu marido] veio também, eu que decidi, eu vi o meu filho morrendo: “Ou você vai ou você fica. Eu vou salvar o meu filho”, aí ele veio, ele se deu bem aqui também. Veio [o filho mais velho e o mais novo]. Só ficou minha filha e minha neta, foi uma judiação, minha neta morava dentro de casa, ela era muito apegada ao meu filho mais novo. Eu tive que largar tudo pra salvar o meu filho, eu tive que abandonar tudo, larguei a casa, larguei tudo, só vim praticamente com a roupa do corpo... Mas logo, graças a Deus, arrumei um serviço na escola, fiquei um ano e meio, na cozinha fazendo merenda.

...“O jeito é eu ir pra tentar tirar ele do meio dos amigos”, porque se ele tivesse ficado lá, ele tinha morrido. Ele não tava vivendo mais. Graças a Deus! Aqui Deus ajudou que ele conseguiu recuperar, criou força, começou a trabalhar. Ele trabalhou um ano na firma de estofado, daí era muito pesado, ele pediu as contas, comprou uma motinho. Nisso ele já tava bem, ficou dois meses em casa, entregou um currículo, daí a Tigre chamou, trabalha na empresa e hoje ele já é líder, graças a Deus, tá ótimo. Nem parece mais aquele... O mais novo não gostou de vir pra cá, sofreu muito. Sofreu mesmo! Teve um tempo que eu falei: “Meu Deus, vim salvar um, agora o outro vai ficar revoltado”. Porque ele sentia falta da minha filha, da menina, dos amigos. Veio para outro lugar totalmente diferente, não tem nada a ver de onde veio. Mas graças a Deus, hoje ele tá bem, tá superando, tá fazendo cursinho pra faculdade, tanto um como o outro.

Aqui no Espaço Solidário: eu tinha saído do restaurante, tava meio em casa, comecei a fazer cursinho, tirei uns tempos pra descansar, daí elas convidaram, viemos, gostamos, e estamos aqui. Eu tive a ideia das bolachinhas, foi aprovada, e uma vez na semana eu tenho que fazer pra vender. Eu faço aqui mesmo, a gente põe pra vender, o dinheiro vai pro caixa, pra todo mundo... Eu fiquei mais aberta para conversar com o povo. No restaurante, a gente não tem acesso, fica mais na cozinha. Aqui não, a gente é mais aberta, mais liberal. Mudou bastante. Eu nunca tive um negócio, estou aprendendo bastante com isso. Acho que o principal é saber administrar tudo, compra, conta, pesquisa.

[Sonhos] é ter saúde pra correr atrás das coisas e assim por diante, que enricar é difícil, né? Então, manter o bem estar, saúde, paz. Eu quero que [os meus filhos] sejam alguém um dia, que eles estudem, que eles tenham a vida deles estável.

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