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Lucia Benedita de Souza Araujo

História de: Lucia Benedita de Souza Araujo
Autor: Elisabeth E. Jafet Cestari
Publicado em: 05/12/2013

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História completa

Entrevistada Lucia Benedita de Souza Araújo (L) Entrevistadoras: Beth (B) e Rosana (R) - Parte 1 B: Hoje estamos fazendo uma entrevista de história de vida, com a Lúcia. Eh... Lúcia você poderia nos dar, dizer seu nome completo? L: Lúcia Benedita de Sousa Araújo. B: A sua data de nascimento. L: vinte e três de abril de mil, novecentos e cinquenta e nove. B: Tá. Eh:...você podia contar um pouquinho, aonde você nasceu? L: Eu nasci na cidade de São Paulo, dentro de um taxi DKV. Eh:...entre a Avenida Paulista e a Avenida Angélica. B: Você pode contar um pouquinho disso pra gente? Quer dizer que você nasceu dentro de um taxi? L: Sim, eu nasci de sete meses. A minha mãe começou a passar mal, e aí parou um taxi. Eh:..na, na Angélica e quando entrou na Angélica com a Avenida Paulista, ainda não tinha ali o viaduto ainda, quando entrou ali ela:...é, começou a sentir muito mal, começou a gritar e o motorista do taxi que era um senhor alemão, né, filhos de alemão, muito assustado parou uma, na época chamava-se rádio patrulha, era uma baratinha que as pessoas diziam né? E aí, esses policiais ajudaram e não deu tempo que eu ia ainda para maternidade São Paulo, eu não, minha mãe. E não deu tempo, aí nasceu aí, na rua, na esquina. Todos dizem que eu nasci numa encruzilhada, por isso que eu sou santa. B: Ah hã ((risos)). E essa pessoa, esse taxista, você, depois você o conheceu? Pelo jeito nas fotos parece que teve uma foto aí que a gente viu que tinha, ele estava presente nessa foto. L: Sim, ele foi meu padrinho de batismo. B: Ah, tá.. L: Porque como eu tive Eh:...muita dificuldade no nascimento, além de ser prematura, meia à rua, sem pessoas especializadas para ajudar no parto, então é... eu acho que ele sofreu mais que minha (mãe) ((risos)) para que eu nascesse. Então, aí no final das contas ele virou meu padrinho e eu tive contato com ele aé os meus...17, 18 anos quando ele veio a falecer. B: Ah, hã. Então ele foi uma pessoa importante para você na família né? L: Bastante importante B: hum-hum. E...você pode contar um pouquinho da origem da sua família, da onde eles...sua mãe, seu pai, de onde eles nasceram...como que era a histó... um pouquinho do histórinha deles? L: minha mãe nasceu em Brotas. Foi criada lá na roça, na fazenda. Meu avó tinha um bom poder aquisitivo, mas ao longo da vida foi perdendo tudo. E aí saiu do interior de São Carlos e foi para Brotas onde nasceu minha mãe e minha mãe ficou a vida inteira criada por, porque minha avó era branca né? E então meu avô fugiu com minha vó e teve seus, seus (dezessete filhos). Minha mãe era a sétima filha, sétima, oitava filha e a minha mãe era que...era a mais negra da família, por conta da mistura né? Então minha mãe teve alguns problemas, até mesmo dentro da família que, que chamam hoje de bulling, minha mãe sofreu bastante bulling dentro da própria família. Eh:... com dezenove anos minha mãe veio para São Paulo trabalhar, já que meu avô havia perdido tudo, precisava sustentar. Então minha mãe veio é, como uma das velhas primeira para trabalhar e trazê-los para cá, para São Paulo. Nesse período que minha mãe teve aqui, minha mãe conheceu meu pai. Eh:..ambos muito jovens né? Minha mãe aos dezenove anos, meu pai com vinte anos...e...meu pai era morador aqui da Vila Mangalot, né, então, não sei se ainda existe, distrito de Pirituba...e aí eles se conheceram, sei lá, num passeio, numa praça, se conheceram e se apaixonaram. Minha mãe ficou ainda por algum tempo aqui, depois voltou novamente pro o interior, aí meu pai então se deslocou daqui pro interior, para pedir minha mãe em casamento e tal... B: Quando sua veio para cá, ela veio aqui trabalhou no quê? L: Então, a principio ela veio trabalhar numa casa, é...num...numa casa de família, né, porque era criada na roça, não tinha instrução alguma. E...veio trabalhar com uma família judia. Eu sempre disse que minha mãe era uma lady né, mas acho muito por conta dessa, dessa participação da, de família judia. No final da:..( ) dela, ela estava entrando para puberdade aos dezenove anos. Então a minha mãe é... é uma lady muito fina, muito delicada, eu...até hoje eu digo que eu sou o oposto dela nesse sentido, né? Então... e meu pai , eh...conheceu minha mãe nesse período, enfim, numa praça por aí, passeado E...quando ele foi a Brotas pedir minha mãe em casamento, logo me seguida minha mãe também já trouxe meus avós para cá e todos os seus irmãos e aí foi encaixando cada um em alguma coisa do trabalho. B: E aí vocês moravam, eles moravam aonde? L: Meus pais? B: É... seus pais e quando trouxeram toda a família. L: então, quando minha mãe casou-se, minha mãe morava nessa casa de família. Aí, logo após o casamento ela mudou para a Vila Mangalot, que... hoje em dia as pessoas chamam de puxadinhos né, mas, mas geralmente as casas antigas, nos bairros mais antigos assim, eram grandes e sempre cabiam muito. Então assim, pela coincidência dos meus avos maternos serem, serem pais de dezessete filhos, a minha avó paterna também. São dezessete filhos com um diferencial. A minha vó materna é... tinha uma mistura né, de gêneros. No caso da minha avó paterna, aí eram dezessete, sendo dezesseis homens e uma única mulher que era minha Tia Odete que sofreu pra (caramba) . E aí, a minha mãe então, mudou-se porque para, para Vila Mangalot porque tinha que ficar próxima tal, da família dos meus pais, do meu pai. E minha mãe então também alugou lá uma casa para os pais dela lá na Vila Mangalot. Até que todos foram casando, tal. E minha mãe acabou vindo, eh...voltou novamente né, para cá, para Avenida Angélica um determinado tempo da vida dela porque meu pai morreu muito cedo,. Meu pai morreu eu tinha, eh:... oito meses de nascida. Então a minha a mãe saiu de lá, porque como foi um suicido então naquela época investigação era mais ou menos, todo mundo era culpado de tudo né? Então minha mãe preferiu sair do, do núcleo da família, para me criar e então voltou novamente pra Angélica. Mas daí, aí ela começou a se dedicar mais a outro tipo de profissão, ela começou a estudar, foi ser cabelereira, manicure, teve o próprio salão. Eh:... Depois não deu certo, aí teve problema com sociedade, montou uma pensão. Para mim, minha mãe foi uma... uma pessoa muito evoluída no tempo dela. Com pouca preparação, mas bastante evoluída porque ela, ela, a própria vida ensinou um bocado de coisas para ela. (E que) ela não se transformou em uma mulher amarga, tal. Porque era para e r se transformado, mas não. Uma pessoa... enfim, é isso, era muito fina mesmo. B: E você se lembra dum pouquinho da sua infância? De aonde, como das suas, das brincadeiras do que você fazia, do que você gostava de fazer? L: Sim. Eh:... a minha infância bastante, foi bastante marcante porque assim, quando aminha mãe, é...saiu da convivência dos meus avós e de toda família , minha mãe realmente abandonou toda a família. E vir pra Angélica era, significava eu morar numa casa de família judia, com outro tipo de criação, que tinham crianças também que faziam parte dessa família, mas que...que tinham outro olhar...negra, não nasci na Rússia, enfim né? Filha da empregada... mas sempre me tratava com muito carinho, muito respeito. Mas, é... Ao mesmo tempo que sempre me trataram com muito carinho, muito respeito, desrespeitavam a minha mãe pela forma com o que a minha mãe queria me criar. Então, até os meus 3, 4 anos de idade, eu fiquei nessa casa, né.. ali na Rua Pará, inclusive. E aí... quando chegou nesse período, período escolar tal, minha mãe achou que era, era difícil continuar me criando nessa casa porque e eu tinha um padrão de vida da qual ela não poderia me dar. E aí, as idas no Guarujá, minhas férias eram no Guarujá numa epoca em que nossa, o Guarujá era né, o ó do borogodó. Aí minha mãe então resolveu que aí sim ela ia montar esse salão, montar a pensão dela, tal. E aí foi para onde eu me mudei pra Bela Vista. Aonde eu digo que de fato é uo lugar onde eu nasci que Paulista e Angélica é muito próximo à Bela Vista. E foi ali que eu comecei a...a ver o outro lado, um outro lado da vida assim né, que não era tão protegida assim, que não era tão farto assim...Não que eu tivesse passado qualquer tipo de necessidade com a minha mãe, mas é..era um outro padrão de vida né, eu não tinha todo final de semana o bolo de nozes que a família judaica faz. Éh:... eu não tinha as comidas ( ), né, Be...( ), enfim uma série de coisa. Eu já não tinha mais a pronuncia né, de do ("it"), que eu ouvia muito a pessoas falarem, aprendi muitas palavras, então eu já não tinha mais. E aí eu comece a perder meu status de senhorita, como a minha mãe, como a família queria. A minha mãe não queria, mas eu comecei a perder o status de lady porque aí eu vim de fato para as ruas local. Então morar na Conselheiro Ramalho, conhecer a Conselheiro Carrão, a Diogo de não sei das quantas na Bela Vista também me fez conhecer outras crianças de uma realidade muito mais próxima a minha. É... ali, é a minha mãe a principio ela tinha começado uma vida nova, montado um salão e tal, então eu vim morar numa casa de cômodos, então isso para mim foi assustador. Até sair da casa de cômodos e ir para uma casa muito maior, foi quando ela amontou a pensão de fato e mantinha o salão e a pensão. B: Você fala casa de cômodos, como era isso. L: Cortiço! B: Tá, várias famílias.. L: várias famílias e não famílias também. Então banheiro único para, sei lá, 20, 30 pessoas ou mais. Era onde minha mãe tinha o salão de cabelereiros inclusive, que ela morava no quarto da frente né? Esses casarões muito antigos na Bela Vista, com éh:... 2 andares, tinha pessoa que morava no porão que geralmente eram...éh:...pessoas nordestinas que chegavam em São Paulo para trabalhar na construção. E eu era uma menina de nove anos que tinha saído, veja bem, da Higienópolis para morar na Bela Vista, né? Então eram muito, mas é... foi muito rica porque ali naquela casa tinha bastante criança. Eu lembro até hoje, que... como eu, eu fui muito habituada a ler muito cedo, eu fui alfabetizada muito cedo dentro de casa, então eu gostava muito de brincar, meu, minha melhores brincadeiras era professora e o aluno. E aí eu tinha um aluno chamado Amilton, um garoto, que provavelmente, tinha basicamente a minha idade. E que... sei lá, aí surgiu a primeira paixão desse garoto. Eu tinha horror essa história de amor, né, acho que toda menina tem nessa idade, tinha horror. E esse menino cantava uma música de Ataulfo Alves para mim que, quando eu chegava na escola, ele tava sentadinho na escada da, do quarto onde eu morava com a minha mãe, e ele então cantava.. ai como é que é? “Que saudades a professorinha que me ensinou o be a bá”. Porque ele achava que eu ajudava ele né. Eu achava que não. ( )Devo ter traumatizado muito ele porque eu dava muito tapa nele, coitado B (( risos)) L: E aí, é...essa era umas minhas brincadeiras Eu gostava muito e brincar de queimada. Eu sempre fui muito apaixonada por doce desde criança, então eu comprava muito doce. A rua inteira me conhecia, a Conselheiro Ramalho inteira me conhecia. É..tinha um japonês lá, também que eu comprava muito doce lá com ele. É...aí a padaria São Domingos que eu ia muito comer tudo de massa, tudo de italiano que você possa imaginar. Eu comia assim, eu tenho muita, muitas boa lembranças das, dos meus vizinhos, da...mesmo que depois eu mudei do cortiço e mudei na mesma rua para uma casa muito maior, eh:...as pessoas sempre, a molecada da rua sempre me tiveram como um...uma amiga mesmo, um docinho de coco, assim sabe? Eu sempre fui muito bem tratada por, por aquelas pessoas, mesmo as pessoas do cortiço em que todo mundo achava ah...era tudo bandido, tudo vagabundo, mas não era bem assim né? E aí fui, a minha infância era essa, era brincar de queimada, jogar bola na rua, jogar bolinha de gude que eu joguei muito. Eu tive muita, a minha infância foi muito cercada de muitos meninos e eu tinha, é... até porque minha mãe trabalhava demais, então eu me dava mais, muito melhor com os meninos, vivia sempre muito na rua com os meninos brincando, tal. Naquela época podia se brincar na rua né? E:.... e aí tentando aprender a limpar casa, fazer comida para quando minha mãe chegasse não podia ter nada fora do lugar que minha mãe era muito enérgica. Não era de bater, mas era de colocar de castigo horas. B: Ah e você falou de uma, de uma cadeira, de uma cadeirinha... L: Eh... é, chamei de cadeirinha, era uma cadeira de ferro pequenininha, como essa cadeiras que se fazem hoje de madeira para creches, só que a minha era de ferro. E minha comprou para me colocar de castigo. Toda vez que eu aprontava, que aprontava muito, eu quebrava muita vidraça, eu, é... ali na, na Rua da Consolação próximo ao cemitério tinha a casa da minha primeira professora, professora de, e ela tinha um pé de amora, eu sempre fui apaixonada pro amora. Aí eu juntava toda molecada daqui de baixo da Bela Vista para subir lá em cima na Consolação para roubar amora, e ela coitada da velhinha, sofria muito comigo. B: como que era o nome da sua professora? L: Dona Diva B: Diva? Tá... L: Eh:... eu lembro dela com muito carinho porque foi uma pessoa que me ensinou muito e ...tinha muita paciência comigo Eu gostava tanto dela, assim tanto dela que eu não tinha dinheiro para levar presente para ela. Porque minha mãe trabalhava muito para me dar tudo dentro do possível, lanchinho para escola, frutinha, comidinha...minha mãe sempre exigiu que a gente comesse muito bem...sempre. Podia acontecer qualquer coisa, mas passar fome, não. Até porque foi criada em fazenda também nunca passou fome né. Então aí, a. eu gostava muito da Dona Diva apesar das broncas que ele me dava, que ela reclamava muito de eu roubar as coisas na casa dela, roubar as frutinhas. Eu passava sempre lá no cemitério Santo Antoninho e roubava uma flor de Santo Antoninho para levar para minha professora. Coitada até o dia que ela descobriu de onde vinha.. B: risos L: ((risos)) Aí chamou a minha mãe, fiquei de castigo na escola até minha mãe ir me buscar. Então assim, é...eu fui muito peralta, mas eu tive uma infância muito, muito, muito feliz assim. B: E você lembra o nome da escola? Como era o nome da escola? l: Marina Cintra! B: Ah, é o Marina Cintra que existe até hoje né? L: Existe até hoje... B: E lá você estudou até quando? L: Então, eu as... estudei até ...até a terceira...terceira ou quarta série, porque daí...quando eu fiz nove anos, minha mãe perdeu tudo. B: de novo... L: perdeu salão, perdeu pensão... e aí eu fui então, minha mãe me colocou inclusive, porque eu era uma pessoa revoltada né, briguenta também. Aí minha mãe me colocou num colégio interno. Aí fiquei por uns dois anos no colégio interno. B: Onde que era esse colégio interno? Como que era o nome? Você lembra? L: É... Madre Tereza...Michel. Fica na Mooca, hoje ele não existe mais porque eu voltei á quando minha filha nasceu, quando minha filha tinha uns 18 anos eu fui lá levar minha filha para ir lá conhecer. Então ele, ele não existe mais como colégio interno né, ele tem lá suas funções de escola, mas é... não é nem período integral. As crianças entra e sai, então é só crianças. Na minha época já eram desde crianças até de..até 18 anos, de sete aos 18 anos, ou ate antes né, porque tinha o berçário. Era uma escola muito boa para mim no meu modo de ver, só não era boa num setor, mas era muito boa no, na questão de me dar limites porque como minha mãe trabalhava muito, então eu era uma pessoa muito livre, minha liberdade era por demais até. E, é lógico que eu tinha bons exemplos de vida que era minha mãe, mas eu também tinha maus exemplos, na rua. Então é... minha personalidade, ela estava se estava começando a se enroscar, a se entornar mesmo. Então minha mãe resolveu por bem, até porque não tinha mais como, é se cuidava pouco, ela ia cuidar muito menos. Ela então me colocou nesse colégio e esse colégio me deu parâmetros de vida, tipo responsabilidade, hora de acordar, hora de comer, é.. como trabalhar, o que fazer. É.. hum...o colégio me moldou, mas era um colégio da igreja católica e a minha origem, eh... religiosa nada tinha haver com a igreja católica. Minha mãe era umbandista, é...ao longo do tempo se tornou umbandista né, porque também vinha de uma igreja católica, de uma família católica e tal, né? Mais ou menos, porque minha avó não era, como meu avô era descendente diretamente de africanos, então meu vô realmente já tinha toda uma ligação com candomblé, com um..não tinha nada haver e a minha mãe ao longo do tempo foi conhecendo a umbanda até por saúde...eu tive muitos problemas de saúde também. Então minha mãe foi conhecendo a umbanda, então eu tinha uma criação dentro da umbanda, dentro do candomblé, e aí, é.. os esquemas, os sistema da igreja católica para mim foi muito penoso. Porque eu era uma menina. Então tudo era pecado, eu tinha que me confessar todo o dia, tinha que ir à missa todo dia, 5 horas da manhã! E eram atos que eu não tinha, e era assim, as irmãs é, sempre me criticam muito, algumas das irmãs, não todas também, têm muitas irmãs que eu gostei de ter convivido com elas. Mas e aí, é... quando eu sai do colégio interno, 3 anos depois, eu saí outra pessoa, Eu saí uma menina que não gostava de decote...tudo era feio, tudo era pecado, toda , toda aquela minha inocência de brincar com os meninos na rua, eu perdi. Eu já não era mais aquela, aquela menina tão livre. Aí minha mãe inclusive brigava comigo para eu sair de casa que aí eu não queria mais sair. Eu só queria ficar lendo na minha, tal. Teve uma época até que eu achei que eu queria ser freira. R: Quantos anos você tinha quando você saiu? L: Acho que uns onze anos, dez ou onze anos, né... Então isso foi uma coisa bastante marcante na minha infância assim, que eu não tinha como...como achar bonito, Só depois que eu cresci, que eu me tornei adulta é que eu fui avaliar que foi bom, um período bom. Mas na época para mim era muito ruim, primeiro porque eu nunca tive que ficar distante da minha mãe tanto tempo e aí, assim, eu saía todo final de semana, minha mãe ia me buscar e me levar no domingo, Saia no sábado e voltava no domingo. Aí como eu era pessoa muito peralta, muito livre, muito feliz e contente, eu ficava de castigo às vezes, eu ficava o mês inteiro sem poder sair. E os castigos eram muito penosos assim porque, eu não podia falar com ninguém do colégio... Eram mais de 100 alunas e aí ficava isolada, ficava num isolamento, veja bem. Dormir forma do seu dormitório. 50 meninas, você ir dormir sozinha, numa cela onde as freiras também dormiam, mas "mêu", né. E era uma coisa para mim muito cruel assim. E vai confessar. Mas eu não tenho pecado! Então porque você não tem pecado você reza 50 não sei o quê, 50 não sei o quê, de joelho na capela. Mas eu...né? Porque eu não entendi essa relação da igreja católica mesmo porque eu não tive esse tipo de criação, esse tipo de ensinamento fora. E quando foi, foi (?). B: foi muito difícil né? L: foi muito difícil B: mas a religião pelo o que eu vi sempre, sempre te acompanhou. L: Sempre B: quando a quando você era menor, então antes de você ir para o colégio interno, você frequentava junto com a sua mãe os terreiros e tudo né? L: sempre, sempre frequentei. R: E foi lá que você fez essa foto que você mostrou sua primeira comunhão, você ainda tava nesse colégio? L: Estava nesse colégio. B: Tá você é...ainda tem... L: É tão marcante para mim a minha primeira comunhão que eu fiz minha primeira comunhão em oito de dezembro. Que tinha toda uma ligação com candomblé. Que oito de dezembro se comemora ou se festeja Iemanjá, e aí eu fui obrigada a fazer nessa data porque todo mundo fazia, então. Assim, “ah, eu vou receber Cristo", vocês nem imaginam o que passou na minha cabeça. Como receber Cristo, pelo amor de Deus. (Cristo vai descer em mim?) Entendeu? Então era muito confuso pra mi, era muito difícil. R: você tem irmão, Lucia? L: não, eu sou filha única. A minha mãe criou um rapaz, mas com 19 anos ele foi embora de casa assim, então eu não tenho muitas lembranças dele, porque ele era muito mais velho do que eu. É que era filho de uma amiga dela, enfim, precisou ser criado. Mas assim, eu não tenho irmãos, mas assim, mas como a família é muito grANde, do lado da minha mãe, ás vezes houve a necessidade e eu sou a única filha única do lado da minha mãe. Então às vezes as irmãs precisam que os filhos ficassem em casal e tal, porque ela era mais rígida, mais dura para educar, né. Porque a minha mãe não educava na porrada não, mas a minha mãe é...colocava lá, em pé, sentado, do lado da cama, ela tinha uns castigos bem loucos. Também não podia ser guloso com ela, também não podia falar “ah não vou comer isso”, que você tinha que comer, querendo ou não você ia comer. R: Você disse que...teve alguns problemas de saúde quando pequena, voltando um pouquinho no tempo. Que problemas eram esses Lucia? L: pausa...bom, é...eu fui uma mulher que menstruou muito cedo, Eu menstruei aos sete anos de idade... né. Então a medicina não era tão avançada assim, não existia ultrassonografia nem nada, você tinha que tomar liquidozinho para ficar claro lá dentro, E as pessoas não entendiam bem qual era, quer dizer, os médicos não entendiam bem qual era a minha patologia. Eh...câncer não era tão famoso e:.. enfim, aí na verdade o que eu tinha mesmo era um desnível na trompa, entre a trompa e ovário, mas isso não era detectado nunca porque as pessoas num, não tinham muito conhecimento sobre isso, o pessoal da medicina. Então, eh:...menstruar pela primeira vez no Marina Cintra, bastante complicado porque , sete anos, primeiro ano de escola, como assim né? As professoras entenderam, os meus colegas de classe não. Então eu fiquei envergonhada...fiquei um tempo sem vim na escola, enfim, é aí que entra a professora Diva. Muito, muito acolhedora, muito meiga, muito amiga, dava bastante bronca mas também muito meiga, muito amiga, de cuidar de lidar com a situação de uma maneira bem legal. Eh:...aí, também eu tive bronquite, altas crises de bronquite, assim, de balão de oxigênio. Então, menstruar, ter hemorragias quase que constante, então foi um negócio bem bravo assim. Eu vim me curar ... depois de muito tempo. Eu tive suspeita de câncer...Eh... acho que por conta disso eu também tinha medo do sexo. Então não rolava. Todo mundo falava: “não, quando essa menina tiver um filho, quando ela se entregar pro amor da vida dela, ela” ( ). Ficavam dando conselhos. ( ) (broacas) todos ficavam dando conselhos. Então assim, é...me gerou muitos traumas, muitos traumas assim, pra mim, é...me tornar mulher foi muito difícil, viver enquanto mulher, muito difícil, passar pelas provas que eu passei, porque enquanto criança você não entende porque daquilo. Aí quando você vira adolescente, você eh...é tão traumatizada que...e as cólicas, e as dores, e os desmaios, enfim... Parte 2.AVI]] B: então Lúcia, como é que foi a sua saída do colégio interno, eu soube, você se mudou, você saiu de lá e foi para outro bairro. É isso? L: Eh... é que fui morar na Vila Santa Catarina. É...onde também eu comecei lá a fazer o antigo ginásio, né? E...a partir de então, eu...eh...como sou uma menina, muito...religiosa, que saiu muito moldada ne? E também uma criatura muito... nojentinha, a minha mãe então me encaminha-- era nojentinha mesmo que tudo me incomodava-- a minha mãe então me encaminhou para trabalhar ou para frequentar o grupo de jovens da igreja católica. B: Mas isso era em outro bairro, não é isso? L: isso era em outro bairro, Santa Catarina, na Vila Santa Catarina. B: Tá, então bem longe lá de onde você, você morava anteriormente. L: Bem longe da Bela Vista, bem longe de onde eu nasci. B: Tá. E como é que foi esse período pra você? L: Então, foi um...um período ruim de adaptação e...também todas as questões de saúde que eu tive né. Ainda na minha adolescência eu pensava bastante. E eu era uma guria, entre os meus 13, 14 anos, muito... de leitura, eu lia muito. Tinha muitas né...meu foco, meu foco de vida era outro assim, enquanto muitos se apaixonavam e, e né, era fase das grandes paixões, não sei o quê, eu lia bastante estudava bastante, me envolvi na política, eh... comecei a lecionar a ...a...na verdade não é lecionar né? É...alfabetizar na época, adultos. E...tive uma vida assim, é... e, o tempo que eu tinha de dedicação que não era para as paixonites né, mesmo porque eu tinha medo de me envolver, eu tinha medo de uma série de coisas por conta da saúde mesmo né? E...aí eu comecei a me envolver com esporte o colÉgio, e essa era minha vida, era jogar bola, ler muito, estudar muito, preparar minhas Aulas dar minhas aulas, discutir político. Isso eu passei uns bons anos dentro da Vila Santa Catarina vivenciado esse tipo de coisa. B: E, e qual que era o momento político no Brasil ¿ Você fazia política, o que, como era isso. L: Então... B: com a igreja... L: a igreja católica era bastante envolvida com a pastoral da terra, né, a pastoral...acho que da infância já surgia bem, nisso, era ...a gente vivia uma, um momento de, de ditadura militar né? E o que se pregava, mesmo que , que proibido, mesmo que o partidão era proibido tal, o que se pregava era, de fato, uma... revolução a mão armada, né? Então se preparava, tinha-se a ilusão de que se estava preparando o povo para isso. O que na verdade não, não, não vingou muito porque muitos dos meus conhecidos da igreja católica naquela, naquele momento, padres e missionários e tal, acabavam ou por serem expulsos do Brasil porque na maioria era espanhóis, italianos, ou, é...por desaparecerem simplesmente porque o DEIC sempre, né, tava dando uma passada por ali. E...e as pessoas, é...migravam de um estado para o outro, quando conseguiam, porque ao contrário da classe artística na época, era pessoas muito pobres né, eram pessoas bastante envolvidas com favelas né, era, eram, essa criminalidade que existe hoje, não existia. As pessoas eram mais politizadas inclusive pela igreja católica, portanto, por, por quererem sair daquela situação e...e não tinha como. E o DEIC então investigava e quando descobria, as pessoas sumiam. E assim eu perdi grandes amigos da época, da minha adolescência. Mais velhos que eu, mas eh...grandes amigos assim. Perdi mesmo, despareceram. B: E você fazia exatamente, como era a sua participação nesse, nesse movimento todo¿ Alfabetização como você falou... L: Então, primeiro é, porque com a minha saída do colégio interno eu tinha alguma práticas né, da igreja católica que ficaram em mim. Então, terço, missa, missa de domingo. Eu não ia na missa a semana inteira como no colégio interno , mas de sábado e domingo eu ia, eu me dedicava a ajudar, a limpar a igreja, a fazer pesagem de criança, a ajudar com as crianças. Aí, visitar, como eu era nojentinha, então, eu ia visitar favela, minha mãe achava ótimo. Porque lá eu aprendi que eu podia beber água na casa das pessoas, que eu podia abraçar...eu tinha muitas reservas com as pessoas porque eu realmente... tive uma criação diferenciada, ne. Passei primeiro pela família judia, depois fui , eu pra um, pra um colégio interno, então as pessoas eram, é eu era uma, eu deveria ter sido uma pessoa moldada para ser uma dama, a delicadeza em pessoa -- Tudo eu tinha nojo, gente, era um horror--.. Tudo. Aí, essa minha experiência me fez ver que dentro da favela tinha pessoas bastante limpas, bastante organizadas, porque eu também era muito organizadinha, até hoje eu sou, tudo meu era dobradinho, tudo guardadinho nos devidos lugares, proque eu trouxe esses ensinamentos dessa minha criação, mesmo. O que eu também não acho ruim, né. Porque eu sou uma pessoa organizada, responsável, tenho horários, eu não perco hora nunca, muito difícil eu me atrasar. Tudo isso eu trouxe da minha infância. Eu acho isso bom. Hoje em dia as crianças não são mais assim né, os adolescentes que...( )E se tornam adultos poucos responsáveis. Isso foi a aminha, e com isso também, quando, á pra 197 e poucos, não 80, quase 80, oitenta e poucos, quase que fim da ditadura, eh...eu tive que retornar para o centro, de São Pulo, por conta da perseguição que acontecia na Vila...algumas coisas e tal, e minha mãe então, bastante apavorada por ser filha única, "como assim, você tá envolvida ( ), né? Melhor assim do jeito que tá...que era essa, esse tipo de criação que se tinha, né? Melhor tá com militar do que não tá com nada, vai virar uma bagunça isso, não sei o quê, bom enfim. É...em 15 dias eu me mudei da Vila Santa Catarina e voltei novamente pro o centro, voltei novamente a morar na Rua Conselheiro Ramalho, é...onde eu passei parte da minha infância, boa parte da minha infância. E...e aí volta comigo também todos os meus anseios, de molequinha antes de ir para o colégio interno, minha, meu berço era a Escola de Samba Vai-Vai, os ensaios, a rua... enfim né, ai eu também retomo esse meu lado, esse meu lado do samba, meu lado apaixonante pelo samba. É...de grandes paixões, né, e não homens e mulheres, e mulher com mulher, nada disso. Grandes paixões pelo samba, pela música, pela dedicação de ver a minha escola crescer, a minha escola, eh...também perder e ganhar campeonatos e ai eu começo a aprender de fato, com um...eh...como alguns presidentes da escola, alguns harmonias, que nem todos hoje estão vivos, aprender o que é o samba de fato para mim, o que ele significa como um cultura, uma cultura negra, porque aí eu começo a entender como que nasce o carnaval de São Paulo, enfim, e, vou né, caminhando com isso. Minha mãe por sua vez odiava samba, sempre odiou, nunca gostou de samba. Então minha mãe sempre procurava me impedir de sair no samba, e... B: e pelo jeito não conseguiu né? L: não, porque depois ela acabou também saindo no samba e foi campeã, né? ... –bem na hora que ela saiu, dei sorte-- Então, é...não conseguiu, não conseguiu. Eu apanhei muito por conta da Escola, de...entra no meio dos desfiles quando criança, é e guarda e segurando nas cordas. Muito muito assim, apanhei mesmo, apanhei de bater, minha mãe bateu em mim por conta do samba porque ela achava que era coisa de maloqueiro, que "imagine, isso, isso é coisa de corticeiro." Veja bem eu morei em cortiço né gente, então podia ser mesmo coisa de corticeiro, mas na verdade era só...uma ação cultural que acontecia e que era bastante marginalizada, assim como ainda é hoje outros enveradamentos da música popular brasileira. Mas o samba, eh...me dei muita alegria de viver, me deu muitos, muitos sonhos, eh...muita presença de luta porque lá eu me encontrei também com o passar do tempo. B: Como assim presença de luta? Você poderia explicar um pouquinho melhor? L: Então, porque o, o samba, o samba na escola de samba ele é um...foi um grande movimento, ainda, eu ainda acho que é, mas foi uma grande movimento muito machista né? Mulher no samba era para uma única coisa, era para limpar a quadra, para fazer parte de um departamento que chamava, departamento feminino. Então era um departamento que as vezes precisava cuidar da cozinha, lavar os banheiros, organizar os banheiros, ajudar a vestir a ala das baianas no Carnaval e nada mais que isso. Tinha que obedecer. Era essa a real dentro do samba. É ...eu sempre muito turrona né, eu achava que era desaforo um negócio desses. Então, eu, eu também não era muito bem vista pelo departamento feminino. Porque, moleca, chegou na escola agora-- que é sempre assim né—“ chegou na escola ago...você chegou na escola agora, uma moleca, não pensa em nada, como assim?” E aí eu entro pra um , um movimento que nasce na escola, que e é um movimento de, do departamento, de departamentos. Além do departamento feminino, de criar outros departamentos. Dentre eles é, criou-se o departamento cultural, pra onde eu fui, é. Trabalhar pela escola. Quando é, eu chego no departamento cultural, eu entendo a cultura de um jeito e os colegas que estão lá, os senhores, não todos, entendem a cultura de um outro jeito. E ai eu passo a pensar que, não, vamos resgatar a escola, algumas coisas da escola e vou mesmo no resgate de algumas coisas, tal, e...ainda assim me debatendo com o departamento feminino que não ne, é propondo outras coisas para escola tal. E, até que um, o diretor da, do departamento cultural se afasta da escola por alguma razão, e eu assumo por algum tempo o departamento cultural. E aí já começou um negócio assim: "como assim? né? Não vai rolar. " Mas... a minha equipe, a, a equipe do departamento cultural naquele momento dá conta daquilo que te, que se propos. Levantar o que é a velha guarda, trazer a velha guarda, montar a velha guarda e montar, estruturar de fato um departamento cultural de uma escola de samba, que é o primeiro, de São Paulo. E depois as outras escolas também vão estruturando as suas, mas é o primeiro de São Paulo, acontece na Vai-Vai. Começa com o Ciro, vai comigo, aí nisso a diretoria da escola, a executiva me propõe, eh, participar da diretoria, por que...tem lá um secretário e tal, então como eu sou muito agilizada com papel, gosto muito dessas coisas tal, então, nessa época estudante de direito já...agilizada com papel, então vamos lá pra, pra diretoria e assim mesmo, mesmo que afastada do departamento cultural, da ala feminina da escola, então vamos, tentar a sua, a sua entrada na diretoria executiva. Aí virou um reboliço “porque não, como assim? O Renatinho vai sair...e não pode, como assim, nunca teve mulher na diretoria executiva da escola e agora vai ter, uma mulher e tal.” E aí eu crio bastantes atritos, tal, mas como na escola é por voto, né, montou-se a chapa, eu entrei para chapa e acabei é ganhando e fiquei lá acho que uns 8, 16 anos, enfim. B: Então nessa época Lúcia, você já tinha é...terminado o colégio, o colegial tudo, essa parte. L: É, foi, foi indo. B: você já tava, você fez o quê, Direito, é isso? L: Não, eu comecei a fazer Direito, fiz um ano, um ano e pouquinho de Direito e aí, vieram as dificuldades financeiras da minha família, como eu não tinha entrado para uma Estadual né, então eh:...eu tive que parar, pronto. Parei...não, não fui mais eh:...eh:...tranquei, não dei continuidade, também depois, ao longo do tempo., eu vi que aquele meu mundo tinha sido uma perca de tempo porque eu não concordava com uma série de coisas do Direito né¿. Eu era uma rebelde, então tinha um monte de coisas que eu não concordava das leis, tal. Então eu nem sabia porque estava fazendo aquilo. Aí, e também aí, ajudAR, trabalhAR, larguei a faculdade e tal, me dediquei ao samba, voltei para política fui, fui trabalhar no PCdoB enquanto secreTÁria, que aí o PC do B começa então a entrar na legalidade, né, eu já peguei esse período, vou trabalhar lá como (Amazonas) , aí eu começo a entender um pouco mais o que é esquerda, porque até então eu não entendia que é esquerda, o que é direita, o que que é centro, não sei quê...enfim, eu, eu começo a entender um pouco mais tal, mas é isso né, até porque politicamente quando se vem da clandestinidade, você não quer...eh... você já não vem filiada a nada né, então até hoje eu não filiada .Eu tenho uma consciência política e que eu não, não de fato acho que eu tenha que me filiar a ninguém...Porque existe os prós e os contras, assim como tudo na vida né, eu também acho que tem umas coisas que não vale à pena você fazer, se filiar é uma delas. Eh...eu costumo dizer que o único partido que eu sou filiada é o partido do samba, que eu sou associada da Vai-Vai, hoje em dia não mais ativa como sócia, mas é a única carteirinha que eu tenho (( risos))...que eu sou associada a alguma coisa. Então, eu acho que pra mim é o Partido do Samba. B: Você le...você no samba então, eu estou que é uma coisa muito importante para você, na sua vida. Você lembra de algum ano assim que, da Vai-Vai assim que foi super. importante para você, que você, que te chamou mais a atenção em termos de...sei lá, qualquer coisa assim que seja importante para você. L: é...eu não vou lembrar o ano assim, data assim para mim é muito ruim de lembrar, mas eu posso lembrar o enredo.. É...um enredo para mim que foi bastante decisivo e que me colocou eh...dentro da Vai-Vai, de fato mesmo assim, com toda uma dedicação, tal, foi nos 60 anos de Vai-Vai quando a Vai-Vai saiu com...não, 60 não..., quando a Vai-Vai com o enredo do Jorge Amado, que era um livro do Jorge Amado... Hum...não lembro...não vou lembrar o nome, certinho...Mas aí nesse enredo, eh... muitos, muitos dos nossos trabalhos nesses anos todos apareceram de fato na Escola, algumas coisas que se perpetuaram. Eh...do departamento cultural a sugestão de...no carro abre-alas, por exemplo ter lá a...--é 50 anos de Vai-Vai-- colocar a coroa que é do pavilhão da Vai-Vai no carro como o maior destaque, não as pessoas, que iam sempre pessoas. Éh...o primeiro ano da velha-guarda desfilando enquanto velha-guarda, com uma ala somente de velha-guarda. Éh...a figura do Criouléu que é um boNEco que para muitos é uma entidade que acompanha a escola, mas para outros é um boNEco que e é muito, sempre foi muito importante. A entrada do pavilhão Saracura porque o Bexiga fica no Saracura, que era um rio que passava ali, né, um riacho. Então, entrada desse pavilhão. É sob a mão, as mãos de uma porta-bandeira bastante respeitada, que NEM era da Vai-Vai na época, que era a Marina e o Wilson, hoje falecidos. É...então tudo nesse ano foi muito, muito bonito. E foi o primeiro ano que minha mãe saiu na escola, e que a escola foi campeã. B: Ah... Poxa que maravilha hein? L: Então assim...eh...para mim esse ano foi muito importante. Porque eu já era da Executiva, porque todo trabalho que foi desenvolvido no Departamento Cultural naquele ano apareceu de fato dentro da escola, e pra fora da escola, porque a gente conseguiu reunir muitas pessoas importante para escola, que colocaram tijolo, que tiraram tijolo, que eu dou risada até hoje sobre isso, porque é assim, todo mundo falava "por que hoje você não é da Velha Guarda da Escola?". Porque eu não me sinto Velha-Guarda porque eu não coloquei nenhum tijolo e nem tirei tijolo nenhum da quadra. Eh...eu acho que minha contribuição foi pouco e será sempre pouco porque meu sangue não é vermelho, é preto e branco, né? E ao contrário do que dizem, eu não sou nem palmeirense e nem corinthiana, as pessoas né, que a gente tem que ser. No outro time, meu time de coração é o Santos. Eu sou mais uma das viúvas de Pelé, é o que dizem, mas eu prefiro ser a namorada do (risos), eu prefiro ser a namorada do Robinho, né, Romário é pouco, Romário ainda tá começando. É...e, e aí, --oque que tava falando mesmo?-- Então, da importância da Escola para mim, esse ano foi um ano fantástico, a única coisa que foi ruim é, desse ano, foi o próprio Jorge Amado estando vivo na época se recusar a vir para São Paulo e desfilar na Escola. E aí a gente teve que inventar uma cadeira com um monte de pano representando ele. Que o (?) né? Porque tem mesmo essa rivalidade que carnaval de São Paulo, carnaval de Rio é tudo, é tudo muito diferente. É de fato diferentes, as batidas são diferentes, eh...o samba, o samba é menos acelerado, bom enfim. Tem uma série de diferenças mas o final, samba é samba, é tudo do Brasil e devia-se ter esse respeito e a gente sabe que não é bem assim as coisas, mas...tudo bem também. É... B: e nesse período, eh... Lúcia, como é que você... como é que estava seus namorAdos, sua vida amorosa? L: Então, nesse período eu já não era mais aquela menina tímida que tinha acabado de sair do colégio interno né?. Eu era um pouco mais namoradeirinha. Namorava um pouco mAis, eu saia um pouco mAis, mas eu tinha uma responsabilidade com a Escola ((risos)). Eu tinha que me manter enquanto diretora sem ‘muitos, muitos escândalos, amorosos , essa coisas né? Que sambista geralmente todo mundo fala do "babado", mas não é bem assim. Então meu presidente ( ) falava: "olha aqui negrinha, pelo amor de Deus hein, tenha consciência, você é uma diretora da Vai-Vai”. Então eu tinha meus rolinhos todos né, teve uma época até que eu fui bem safadinha, que eu namorava, 3, 4 da Escola...só que cada um de uma localidade de São Paulo porque era para não dar atrito né? E nos ensaios, eu nunca tinha namorado, eu nunca tava namorando com ninguém, eu nunca tava saindo com ninguém porque eu não tinha tempo. Era essa, meu, meu posicionamento. E...nisso, eh:...foi que como na minha adolescência eu não tive tempo para me apaixonar, eu já fui me apaixonar lá pelos meus 20 e poucos anos né, foi minha primeira paixão, 19, 20 anos. Eh...que para mim na época era uma grande paixão, que depois com o passar do tempo eu fui descobrir que não, que foi o grande a-mor da minha vida, né? Mas que ficou no passado, que não deu certo, como acho que quase todos os amores não dão certo na vida, esse também não deu. E aí eu tirei por mim que... eh...eu queria ser mãe... mas eu não queria me casar com ninguém. Eu não queria viver com ninguém. Isso eu passei uns bons anos da minha vida assim, só, eh... namorando, eh...viajando bastante conhecendo bastANte, eh...partes do, do Brasil, e estudando bastANte, era só isso que eu queria. Eu não queria nenhum tipo de relacionamento muito certo, tal. Até que eu acabei me envolvendo com uma pessoa, casei. Meu casamento durou quatro meses, ele foi anulado, eu tive problemas seríssimos com o meu casamento. E ao sair desse casamento, eu acho que fiquei mais uns 5, 6 anos, aí sem namorar com ninguém, sem ter nada com ninguém, eu não queria saber de NADA porque eu fiquei realmente traumatizada com o que, com o que aconteceu com esse meu casamento. É...depois que que esse meu suposto marido né, porque já não era mais marido, havia morrido, e que eu de saúde estava bem né, também, aí então eu resolvi que ia ter um filho de fato, e que eu queria que eu fosse alguém do samba, alguém bonito, alguém não sei o quê. O que não deu certo também. Meus planos nenhum deram certo na questão do amor. Vai ver que eu devo ter muita sorte no jogo, vou ficar rica um dia. Porque no amor ((risos)), nada. Aí beleza, é...eu encontrei é...ainda ainda da Vai-Vai, no samba, tal, na madrugada eu encontrei o pai da minha filha, que na época tava em São Paulo, ele não é daqui, ele estava em São Paulo fazendo um estudo também sobre a igreja católica--Eu estou sempre envolvida com a igreja católica, embora seja do candomblé. --E...fazendo um estudo, tal e eu conheci no metro, achei ele lindo, maravilhoso. Falei "nossa, esse é o pai da minha filha, do meu filho... E de fato foi mesmo né, depois de um ano envolvimento mesmo ele morando fora de São Paulo a gente se via quase que sempre, eu engravidei e logo que engravidei também, como uma pimentinha que sempre fui, acabei por briGAr com ele ainda grávida, e larguei ele para lá e vim cuidar da minha filha. E como eu sempre dizia, que “Ah, eu quero ser mãe, mas eu não quero casar com ninguém, não quero morar com ninguém, eu quero criar minha filha,” enfim. Tive a minha filha, linda e maravilhosa que... é...ao contrario de mim, não ama sambista, nunca foi, nunca teve esse interesse. Eu até tentei, falei vai...empurrava, enquanto bebê, enquanto criança, tal, mas não, não tem essa mesma ligação. Gosta, hoje em dia gosta, diz que gosta de samba, inclusive gosta de. B: Como chama sua filha? L: pagode . Minha filha chama Ivana. Mas ela , mais foi roqueira enquanto adolescente do que sambista. Eh...eu queria que ela tivesse tido a cara do samba pela importância que o samba teve pra mim também, mas eh...são outras épocas. E aí, eh...mesmo com, com grandes dificuldades tal, nesse, nesse período, eu, eu voltei, em todo esse tempo de vida eu voltei morar com a minha mãe, ou minha mãe voltou a morar comigo. Eh...minha mãe me ajudou muito na criação da minha filha, tal, mas eh...quando a minha filha fez nove anos de idade, eh...minha mãe veio a falecer, foi um infarto fulminante. Bom que ela não sofreu né? E aí, eu acho que nesse, nesse momento... que eu ja tava, tão, tão desvinculada, porque quando, quando você tem um filho, você abre mão de uma série de coisas. Eu também abri mão, eu abri mão do samba, que pra mim era muito importante. Quando minha filha nasceu, eh...eu saí eu já estava muito... PARTE 3 B: Lucia você tinha falado para gente em off quando a gente tava conversando, papeando, que você também chegou a fazer um samba enredo. L: Sim, é...quando você tá numa, numa grande agremiação, você também a possibilidade de conhecer as pequenas agremiações, né? Em outras cidades, em escolas em inicio que vão pedir para sua agremiação ser madrinha, apresentar essas agremiações pequenas ao samba paulistano, ou no ambiente do samba, tal, então eh...eh...eu conheci e (iniciei) outras escolas, e uma das escolas que eu, que eu conheci , eh...Santo AnDRE, São Miguel PauLISta, eh...hum...enfim, escolas é uma escola no Butantã que eu nem lembro mais, tinha um nome bem estranho, tal, é hoje está na terceira divisão...é...e aí nós então defendemos um samba nessa escola de São Miguel, que eu não vou lembrar o nome, faz muito tempo, então assim, tinha eu, o Ademir que era um compositor da Vai-Vai também, e a gente então concorreu com um samba, porque esse samba, essa escola, ela tava fazendo um samba-enredo naquele ano x, é...em homenagem à Vai-Vai. Então como a gente tinha muito em mente o histórico da Vai-Vai e ela queria contar o histórico da Vai-Vai, então eles nos convidaram para a gente concorrer com o samba-enredo lá, e a gente ganhou o samba-enredo. B: Com o seu samba-enredo¿ L: com o nosso samba-enredo. Eu.. B: e você pode cantar um pedacinho desse samba-enredo para nós? L: Nossa ((risos)), eu não... nossa...não lembro mais, não lembro mais...Eu teria que ter procurado a letra, tal. E...mas enfim, a gente ganhou porém não levou. Porque a além de sermos da Escola de Samba Vai-Vai, madrinha daquela escola de São Miguel, as pessoas acharam que a gente tinha feito algum tipo de mutreta, os compositores ( ). E aí teve que se fazer um acordo e a escola saiu com um samba, com um segundo samba, né, que ficou em segundo lugar pra eles não se sentirem tão ofendidos, como se sentiram e queriam resolver a coisa de uma outra maneira e a gente achou melhor então, “gente (sai) com o samba de vocês”, sai aqui, não tem problema, a gente saiu na escola enquanto padrinho e madrinha né, a escola a gente saiu lá e...mas foi muito, muito estranho, mas é assim, também se conco...eh...em questão de concorrer com samba, a gente concorreu com um samba, não com samba-enredo, mas com samba de quadra, na, na, na própria Vai-Vai, é...com samba de quadra na...hum..eh... Tom Maior, a gente pegou o segundo lugar, tal. Foi uma época que eu achava que eu podia ser compositora, que eu queria ser compositora. Como eu gostava muito, como eu gosto muito de música, gosto muito de samba, então eu achei que eu podia ser compositora, mas foi mais uma aventura do que um negócio que daria certo mesmo porque aí tinha que subir no palco, cantar era um horror para mim, cantar aquilo, então assim...eh...meu negócio dentro do samba mesmo era bastidor, não era um negócio de linha de frente. B: Quais são os sambistas que você mais gosta? L: ... eh...Geraldo (Filme), o Oswaldinho da Cuíca que um dia na vida me atrevi a aprender a tocar, fazer uns acordes de cuíca com ele. Ele nem deve lembrar disso, na Rosas de Ouro, numa festa. Eh...gosto, gosto muito de alguns compositores que poucos são conhecidos no mundo do samba, pela mídia, não são midiáticos, é...Walter (Baboo), Almir, Mário Sergio do Cavaco, esse um bocado de gente conhece que ele foi do Fundo de Quintal né. Eh...mesmo sendo paulista, fez parte do Fundo de Quintal, EH...ele foi cavaco oficial da Vai-Vai por um longo, um bom período da vida dele, desde moleque toca lá também, tocava na Vai-Vai, agora não sei se tá tocando. Eh...Acho que Borrão...também porque não dizer do próprio Tobias da Vai-Vai né? Que eu sempre fazia piadinha com ele dizendo que ele não era sambista, que ele era seresteiro, porque ele é único sambista que tem mais homem que tem mais homem como fã do que mulher, impressionante. Não que ele seja do babado, mas... acho que ele canta mais para os homens do que para as mulheres. Que mais? E...também fora, fora da Vai-Vai, talvez, eh...fora, fora de São Paulo, eh... Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, meus respeitos, adoro esse homem, eh...hum...acho que só...é...grande paixão, não como sambista, mas Tim Maia, tive... uma das minhas primeiras paixões, eh...enfim, eu, eu me ligo muito, muito, muito, muito mesmo mais do que em compositores do que em cantores. É...Nelson Cavaco, aqui o Paquera, o Chapinha, são caras que fazem sambas sensacionais, e que mídia pouco conhece, Ah, conhece, ah...ah, eles são, vamos dizer, eles fazem parte do samba da (vela)...mas eu conheci eles antes de chegar ao samba da (vela). Então assim, no meu olhar eles são é...foram consagradas pelo samba da vela mas fizeram grandes sambas antes. JB também...faz muito tempo que eu não vejo, mas também era uma das pessoas que eu gostava muito de ver cantar. Acho que...assim...me desculpe os outros que eu não lembrei, mas... R: hum-hum, nenhuma mulher? L: Pois é...então, essa é minha grande luta atualmente. Eh...eu conheci algumas mulheres e que eu não tenho, é...visto, nem ouvido falar delas. Tá assim...tem a Cida que tocava na JB que eu não sei por onde anda. Tem a Silvia que é uma cavaquista bárbara, toca maravilhosamente be.., é uma médica inclusive. É...e que sumiu...não sei se ela, ela andava pelas escolas por aí, passou pela Vai-Vai, acho que passou pelo Peruche também, mas eu não sei se ainda continua. Eh...tem a...Eliana de Lima que todo mundo conhece, um vozeirão né, um mulherão. Tem também a Aparecida que é mais uma cantora de (Jungo) do que sambista, é conhecida como sambista mas é mais uma cantora de ( ) de Minas Gerais e faz muito tempo que eu não ouço falar. É...na atualidade eu, não....não posso citar ninguém porque o que mais se fala são das mulheres (" brutas"), npe, do funk, que eu tenho aqui minhas reservas. É...hum..não tenho muito, muito...saber sobre as mulheres compositoras e cantoras atualmente. Lógico, tem as clássicas, Beth Carvalho, mas assim, o que me, o que me choca muito é que os nomes apareçam são sempre de OUTRAS lugares do Brasil, de São Paulo é meio difícil assim, não dá para lembrar de muita gente. B: e me diz uma coisa, você eh...voltando um pouquinho, eu lembro que você nos contou, que você tinha um vinculo bastante forte com a religião católica, tal. Essa é a religião que você professa atualmente? Como é que a religião para você? L: Não. Meu grande vínculo pela a igreja católica sempre foi IMposto. A minha crença sempre foi pelo lado, não posso nem dizer que eu sou...espírita. É...eh, a minha mãe da umbanda por muitos anos. Meu avô, já, já pai da minha mãe, já era mais pelo Candomblé. É...e eu sempre fui muito ligada ao candomblé. A imposição do colégio interno é que, quando eu lembro lá atrás que eu era uma criança extremamente rebelde, que minha mãe precisava trabalhar e que ela não podia tomar conta de mim porque senão eu ia acabar virando, caindo para bandidagem de tão ruim que eu era na época, de tão levada que eu era, que a minha mãe me colocou no colégio interno. Aí estando no colégio interno eu fui obriGADA, eu não podia SEQUER dizer que eu acreditava no espiritismo no colégio interno. Eu ficava de castigo se eu dissesse isso. Eu, como uma menina muito atrevida, eh...meu primeiro castigo foi porque eu disse que era impossível a Virgem Maria ser mãe de Jesus sendo virgem. E a freira me deixou de castigo, ((risos)) por um mês porque eu não podia dizer isso, imagine se era um absurdo que um anjo que tinha anunciado, tal. Então eu era muito rebelde e tudo, eu era sempre do contra gente. Tudo o que me falava, eu nunca aceitava. Então eu fui por um bocado, uns 4, 5 anos eu fui obrigada a renegar minha religião, mas hoje eu sou de fato muito ligada ao candomblé. A minha baba orixá faleceu alguns anos, eu fiquei bastante do candomblé por muito tempo. É, sempre procurando uma casa, mas eu sempre visito aos centros de umbanda, umbanda, não...raramente eu frequento mesa brANca, Allan KARdec, eu acho que, eu respeito, é legal, bonito como doutrina, mas para mim não, não pega, não serve. Muito molinho, muito, eu gosto mesmo do batuque, eu gosto mesmo de tratar e cuidar dos meus orixás, então assim. Então a minha fé é no Candomblé. Eh...são os rituais de candomblé. Eu sou eh...considerada filha de Iansã com Ogum e deve ser mesmo né, porque é...até pra própria umbanda e pra própria igreja católica, eu nasci no dia de São Jorge Guerreiro. Então na Umbanda eu seria filha de Ogum né, que é São Jorge Guerreiro e...então eu, eu realmente os búzios dizem que eu sou filha de Ogum, eu acredito neles. Sou filha de Ogum, sou filha de Iansã, tenho carrego de , de um santo bravo que, que é (Baloaê) né, o Santo da Saúde, mas é bravo. Então até pelas minhas, pelo meu caráter, minhas próprias características, eu sou muito de briga, muito de luta, são os fundamentos dos meus orixás, eu sou muito de brigar mesmo. As pessoas dizem que "Nossa, a Lúcia é um bicho", e eu sou mesmo. Mas é até que eu to melhorando porque a idade vem chegando você vai começando a pensar, "pô, eu vou morrer mêu, quero ir para o céu, né". Também não sei se quero muito ir para o céu porque no céu não sei se tem cerveja. Fico pensando né? Então as vezes eu fico falo, ah gente, não tem problema nenhum de morrer e ir para o inferno, ne, no inferno eu posso continuar brigando pela vida, com todo mundo, eu brigo mesmo. Eh...e aí também como eu já tinha comentado com vocês outro dia, em outro momento, eh...se eu morrer de hoje para amanhã eu quero um enterro de sambista e quero também que seja cantado o samba do Noel no meu enterro, né. B: Qual samba do Noel? L: "Noel, Noel, Noel. Essa linda noite é sua, Noel vai estar em festa nesse carnaval de rua" (cantando). Porque um sambista, quando ele morre, isso em qualquer das situações, eh...durante o velório né, além da gente querer lá o pavilhão que a gente defendeu a vida inteira-- tem gente que defendeu a vida inteira--eh...no, no nosso velório . Eh...chega um determinado momento em que as pessoas ali estão reunidas, elas saem e vão para um bar, e isso não é uma maneira de desrespeito nem nada, muito pelo contrário. Elas vão beber a ida... ou a chegada daquele ser, daquele sambista na sua morada eterna. Na maioria, boa parte dos sambistas eles são realmente do candomblé, então é...é um festejo né, e não um negocio, "oh acabou", não é nada disso. Então as pessoas vão beber, então eu quero que elas continuem bebendo em minha homenagem, que não sofram, eh...nunca porque embora seja uma pessoa bastante briguenta, muito de luta, muito de discutir, é...eu sempre fui uma pessoa que vivia apaixonada. Tudo aquilo que eu faço na vida, eu faço com muita paixão. Eu fiz filho com muita paixão, eu fiz com muita samba com muita paixão,. Eu fiz trabalhos com muita paixão. É...meu momento profissional talvez seje um dos melhores porque eu consegui me encontrar porque hoje eu consigo trabalhar tudo aquilo que eu aprendi, é...dos meus ensinamentos técnicos, ao meu ensinamento universitário, eu continuo ainda, eh...desenvolvendo tudo isso dentro das comunidades da onde eu tenho muito, da onde eu sai né. B: Oque você faz em termos de trabalho Lúcia? L: Então hoje eu trabalho no movimento de Economia Solidária sou militante do movimento. É...porque eu acredito que o povo merece outras saídas né que não sejam o, o capitalismo selvagem. E...que e o povo tem o direito de mostrar a sua cara, a sua própria cultura, o seu próprio aprendizado porque pra mim o povo pensa. É...esse pais só chegou aonde ele está devido a esse povo que tem, devido a...a nossa própria nação sabe, a nossa própria formação. Eh...brasileiro é um povo muito corajoso, muito verdadeiro... que às vezes ou ainda, ainda hoje passa por mãos de governantes escrúpulos, corruptos, é...e só são eleitos talvez pela ingenuidade, pela enganação... que eles exercem sobre essa nação. Mas, ainda assim, esse povo é um povo feliz.Eu sou um povo feliz, eu sou um povo de luta. Eu acredito no potencial de cAda pessoa que eu conheço. É...que são pessoas que às vezes palam pra mim, “ah mas eu não sou letrada”, mas que eu considero muito mais letrada do que eu, assim...Isso eu aprendi muito jovem na política em acreditar, eu posso ser uma ingênua... mas eu ainda quero saber lá na frente, que a minha neta, que os meus bisnetos, eh...construíram uns pais muito mais justo, do que aquele que a gente vive hoje em dia... E é isso. B: É...você podia falar um pouquinho como é que foi a experiência de voce ser mãe? L: (pensativa) Mas é...quando eu... decidi de fato ter a minha filha... eu já não tinha mais esperança de viver, né. Lembra lá ? Menstruei aos sete anos...eu sofri muito a vida inteira enquanto mulher. Perdi ovário, enfim, até perder ovário, eh eu até tive minha filha antes disso, mas até então a coisa foi muito brava. Então, eh...o que diziam é que talvez se eu tivesse um filho, é, eu me currasse... porque eu tinha um desvio de trompas, de distúrbio, sei lá, enfim, é...no, no ovário. Então...até eu tive minha filha aos 32 anos porque até então nada de amores na minha vida dava certo, eu também não queria arriscar. Mas aos 32 anos eu já era dona do meu nariz. Eh...acho que bem estabelecida, já tinha todas as decisões, já era mulher, não era mais uma menininha, não devia mais grandes satisfações à humanidade, ou à sociedade. Então eu resolvi e aí eu costumo dizer e digo até hoje que a minha filha, ela , não fui eu que dei a luz a ela. Ela é quem me deu a luz, a luz da vida, porque se eu não, seu eu não tivesse tido a minha filha, talvez eu não estivesse hoje aqui contando a minha história. Então, eh...pra mim não importava mesmo de ter o pai da minha filha junto comigo. Eu já tava muito conformada muito com vida que eu ia ter um filho sozinha mesmo. Uma questão de, sei lá, lance espiritual, coisas de destino, enfim. É...era, eu, eu até mesmo antes dela nascer, antes de saber sexo dela, eu já sabia que ela era minha filha mulher, que ia ser uma menina, que ia me ajudar a encontrar uma fórmula de vida um pouco mais saudável, menos sofrida. Que ia me realizar enquanto mulher, como me realizou mesmo. Que ia dar maior segurança avó, minha mãe que é...a cada mês achava que ia morrer por uma hemorragia ou outra, né? E...enfim, que eu ia deixar um pedaço de mim pro mundo, não é, porque eu sou filha única. Com a morte da minha mãe, como aconteceu no final das contas. Aí, poderia acontecer a minha também e que não ia ficar nada, né, desse pequeno núcleo familiar, do meu pai, doidinho, da minha mãe, uma mulher rum pouco mais séria, eu mais ou menos, uma mistura dos doidinhos. Enfim, eh...foi gratificante, foi um, uma luz que Deus colocou no meu caminho, que depois de alguns anos que vim aprender que não nasceu apenas para me dar de volta a minha vida. mas também para me ensinar algumas coisas que eu ainda não tinha aprendido enquanto ser humano, né. E é isso, minha filha veio só para me ensinar, talvez a gente até nem tenha conseguido no final dos nossos ensinamentos, chegar num acordo, mas...que fique de eterno. Se eu tiver que retornar... a essa vida, num futuro, tomara que não seja tão próximo, a gente recomeça de novo, refaz de novo. Se encontra de novo e termine a nossa missão ( ). B: E Lúcia você tem netos? L: eu tenho só uma neta porque a minha filha tem só 21 anos, 20, vai fazer ainda. Então eu tenho uma neta que tem um ano e...quatro meses, um ano, quatro ou cinco meses. Que também é linda. B: Como é que ela chama? L: Gabriela Mariano, não...Gabriela Araújo Marino. É...e...talvez esse seje o meu é...eu ainda estou em pé talvez, por ser mais um dos focos da minha vida que eu ainda tenho algumas coisas a fazer por essa criança. Embora ela não seja de total responsabilidade minha, mas eu acompanhei essa gestação, eu acompanhei o nascimento, e...se ela veio, nasceu dentro da minha família é porque a gente tem alguns laços para "perpessuar", né. Se eu eu tive a oportunidade dada por Oxalá de acompanhar esses dois anos de vida dela, mesmo que ela não tenha dois anos de idade, mas esses dois anos de vida entre gestação e nascimento, é porque a gente tem alguns laços a se firmar, algumas coisas a resolver e eu sinto que eu tenho alguma obrigação com ela, isso espiritualmente falando. Então, algumas das minhas obrigações, se houver tempo, eu vou cumprir. Hum..nossa, Gabriela é um doce, uma criança que não chora, que não reclama, que...é de uma paz que... só por Deus. B: É...Lúcia, quais são seus sonhos? L: Eh...dizem que o importante é você continuar sonhando né? Então eu tinha sonho de me formar na faculdade, me formei em 2010. Eh...eu tenho um, eh...um sonho de... retornar ao samba, fazendo agora eh...um trabalho... que fique... que fique...GRAVADO paras futuras gerações e eu vou fazer isso. Eu vou conseguir atingir esse sonho. É...eu estou lançando agora meu blog e...e se eu tiver que, que sonhar um sonho tão sonhado, esse sonho é isso, eu vou recontar a história de pessoas que eu quero rever e novas pessoas também que tão aí e que a mídia não da muita importância. Eh...eu gostaria muito de ver a minha neta crescer... né, e não é só crescer só no físico não. Crescer mesmo, eh...saber que tipo de personalidade ela vai ser, que tipo de caráter ela vai ter, eu gostaria muito de ver isso. Se eu tiver essa oportunidade, se a divindade lé em cima achar que de bom, bom, seria bem legal. Eh...eu gostaria de ver o mundo mais justo... para tantas pessoinhas que eu conheço e que eu gosto muito, que elas atingissem de fato um patamar muito melhor na vida, o que ela sonha também, porque às vezes a gente soNHAR muito é importante mas também você partilhar dos sonhos alheios às vezes é muito mais importante do que você sonhar. PARTE 4 B: Então Lúcia, a gente tava falando sobre os, se você tinha algum sonho. Você comprou para gente que tinha vários sonhos. Tem mais algum que você gostaria de nos contar, de colocar? L: Eh...além de minha neta. B: Você falou de um mundo mais justo, ver o crescimento da sua neta...de lançar seu blog... L: lançamento do blog. Gostaria muito que minha escola não saísse lá do Bexiga... que ela permanecesse lá, mas se ela tiver que sair...eh...eu também quero acompanhar esse processo de uma nova construção, de uma nova sede. Acompanhar de fato, querendo ou não algumas pessoas atualmente que estão na escola. É...deixem.. porque eu sou componente da Escola, eu volto, ensaio e durmo na Escola a horas que bem entendo. Ninguém vai me colocar esse tipo de ( ). Eh...o que mais que eu quero? Ah, eu acho que eu quero ser feliz. Que almejar minha casa própria é difícil, não tem muito onde ir, tem que ficar a coisa mudar né? Casar não quero mais não. É...eu acho que realizar, é...um, as minhas paixões, meus grandes amores, também não é mais tão importante. Acho que é...minha maior paixão, meu maior amor foi ter minha filha, foi criar minha. Criar e muito bem criada. É...Criar minha neta eu não tenho obrigação, eu tenho alguns deveres de auxiliar naquilo que for necessário mas não é minha obrigação. Então...não têm muitos esses sonhos. Agora amor marital...noivado, casar, não, essas coisas eu não tenho mais sonho disso. É...me basta viver alguns paixões secretas. Já me é o suficiente...pode ser ("creta) também...e se tiver que deixar de ser secreta, vai deixar também. Mas, uma coisa que eu não quero, e não sou ainda hoje, mesmo que secreto porque dizem os meus amigos que eu sou uma amiga chamada de Papa Anjo né. As minhas relações sempre foram com, com pessoas mais novas do que eu. Então isso complica pro lado da família das pessoas, mas pra mim não complica em nada, mas pra eles complica. Então, por isso que eu falo de ser secreta, mas eu não...é...o bom de tudo isso é que não sonho, pelo menos eu não tenho essa intenção na vida de ser a outra. B: Lucia, agora para a gente encerrar. Como é que foi para você contar essa, a sua história de vida para nós? L: Nossa, emocionante viu gente...porque você...a gente consegue perceber...que parece que você não fez nada na vida né? Mas você fez mUIta coisa, é que não dá para você contar tudo nos mÌnimos detalhes. Mas diziam assim né, eu já é...para você dizer que você passou pela vida, você tem que plantar uma arvore, não é? Escrever um livro. Eu acho que já plantei, muitas, não foram pouca não. Eh...escrever um livro, eu não escrevi, mas eu fiz um filminho da minha vida, isso é bem legal. É...uma coisa pequena e...mas que pra mim é muito grandiosa, fiz muita coisa pela vida. Parar para recordar, lembrar de pessoas tão importantes né? Eh...que não são nem parentes, pessoas que...amigas mesmo, muita gente passou pela minha cabeça, aqui. Vocês né? Que me deram essa oportunidade também, acho que é bem legal. Eh...eu me senti importante, verdade, porque...através de vocês eu vou conseguir ser perpétua. Olha que legal. Um negócio que eu jamais esperei. Eh...eu sempre quis fazer é...deixar um legado, de lembrar das pessoas, das coisas que as pessoas fizeram, que para mim sempre foram tão importante. De repente, eu me sinto com o mesmo peso de importância diante da vida porque já fiz alguma coisa, por muita gente, como muita gente fez por mim também. E...eu sou muito grata, grata...porque vim de momentos, em momentos na vida ame que sofri bastante, mas momentos também em que fui muito feliz. E...por mais dificuldade que eu tenha passado, eu não me tornei uma pessoa amarga. Eu sou uma pessoa feliz e contente, mesmo. Porque... eu não passei pela vida, eu vivi de fato. É isso. B: Lucia queria te agradecer muito voce ter dado essa entrevista pra gente, porque pra nós é extremamente gratificante. Cada história que a gente escuta é uma renovação pra nós, é um aprendizado, e também uma confiança muito grande e o fato de você ter dado esse, falado tudo, muitas coisas a respeito da sua vida para nós. A gente agradece bastante você ter sido essa disponiblidade. Obrigada mesmo de coração. L: Eu que agradeço.

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