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História

Loucura é não acreditar

História de: Sandra Juliana Sinico
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/05/2005

Sinopse

Fruto da imigração dos pais, que vieram da Itália para o Brasil no período pós-guerra, Sandra tira das experiências da ida à Europa e do curso de Jornalismo o ativismo político, social e ambiental. Dentre os movimentos dos quais fez parte, os ideias moveram os obstáculos do caminho, mesmo tendo sido chamada diversas vezes de louca. Entre a loucura dos ideais e a sanidade de se concretizar os sonhos, acreditou e construiu não apenas sua carreira, mas uma causa que leva em conta o todo: o meio ambiente, a existência humana.

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História completa

P/1- Sandra, obrigado pela sua presença. Eu queria que você começasse falando o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R- Meu nome é Sandra Juliana Sinico, eu nasci em São Paulo em 25 de agosto de 1953.

 

P/1- Qual o nome dos seus pais, Sandra?

 

R- Silvano Sinico e Bertila Toscani Sinico.

 

P/1- Seus pais são...

 

R- Italianos de Údine, é uma região no norte da Itália, a 50 km da fronteira com a Iugoslávia.

 

P/1- E quando eles vieram para o Brasil?

 

R- Eles vieram para o Brasil em 1951, 52, por aí.

 

P/1- Um pouco antes de você nascer?

R- Um pouco antes de eu nascer. Na verdade eles moravam em Buenos Aires, se encantaram com o país e acabaram ficando aqui, e eu nasci aqui.

 

P/1- E você sabe por que eles vieram para América do Sul?

 

R- Bom, depois da guerra... Meu pai foi partizan comunista na época da guerra, ele era jovem, tinha 21 anos, 20 anos, e depois da guerra, a Itália do norte estava totalmente destruída, então você não tinha alternativas de trabalho, não tinha muitas chances. E pessoas como ele, que não paravam quietas e viviam com muita energia, esportistas, etc. e tal, acabavam migrando em busca de outras oportunidades. Alguns foram para a Venezuela, outros foram para os Estados Unidos, Austrália, e ele acabou indo para Buenos Aires, por conta sempre daquela história: tem um parente na Argentina e acabou indo pra lá. Ficou ele estudou Engenharia e Mecânica. Então ele foi pra lá, a Argentina não tinha muitos recursos nessa época. Rapidamente ele virou diretor de uma empresa na Argentina, por conta disso, muito jovem. Mas ele não se acostumou muito com o país, com Buenos Aires, não gostou muito, minha mãe não gostou muito. Aí vieram visitar uma irmã que tinha se casado com um italiano e que acabou indo morar em São Paulo. Ficaram encantados com o Brasil, adoraram, e daqui não saíram mais.

 

P/1- E seus pais já vieram casados da Itália?

 

R- Ih, essa história... Meu pai casou com a minha mãe sem ela saber.

 

P/1- Como?

 

R- Em Buenos Aires ele fez uma procuração e mandou para ela, dizendo que ele tinha se casado com ela, se ela aceitava se casar com ele. Eles tinham brigado, eles eram namorados, tal. Ela ficou uns seis meses sem falar com ele. Depois ela resolveu que então não ia ficar na Itália, casou com ele lá. Eles têm três datas de casamento, é bem estranho.

P/1- E você é filha única?

 

R- Sim, como mulher sim. Mas eu sou a mais velha, depois tenho dois irmãos.

 

P/1- Dois irmãos. Também todos brasileiros?

 

R- Nascidos no Brasil. Um mora na Suíça e o outro voltou para o Brasil, mas morava na Itália.

 

P/1- Você nasceu em São Paulo?

 

R- Nasci em São Paulo.

 

P/1- Em que bairro você nasceu?

 

R- Eu nasci em Santo Amaro. Na época, Santo Amaro era assim, um mato, um grande mato. Tinha muita mata, era desocupado, vamos dizer assim. Era uma região muito distante. O centro era o centro da cidade onde seria o núcleo hoje. Não existia a Paulista nessa forma como hoje a gente tem vários núcleos. Um tempo depois, com 14 anos, eu acabei indo morar no Jardim Marajoara, que é ao lado da... Um bairro semifechado na Chácara Flora.

 

P/1- Então sempre zona Sul?

 

R- Sempre zona Sul, é. Eu estudei em colégio Alemão, o Humboldt. Puseram-me em colégio alemão, apesar de eu ser italiana. Não tinha nada a ver, vivia brigando com os alemães o tempo todo.

 

P/1- Me fala uma coisa. O seu pai veio para o Brasil; ele trabalhava com o quê?

 

R- Meu pai veio para o Brasil, então, trabalhar com a indústria mecânica e desenvolvendo... Meu pai é inventor também, então ele inventava ferramentas, maquinários. E dali ele foi se desenvolvendo muito na indústria de sinalização, acabou montando uma empresa que se chama Indicações Visuais. Ou seja, sabe esses (Ms?) do McDonald’s, Banco Safra, tal? Essas indústrias que constroem essas letras, vamos dizer assim? Ele viveu sempre de letrinhas (risos), a gente falava. Eu tinha um amigo que era músico, ele falava assim: "nossa, mas ele sustentou a família toda com as letrinhas.”.

 

P- Com letrinhas!

 

R- Com a letrinha. E ele acabou montando uma indústria, [que] depois, com o tempo, se capitalizou, vendeu patentes, etc.

 

P/1- E sempre... Isso em São Paulo?

 

R- Sempre em São Paulo.

 

P/1- Vamos voltar então lá para Santo Amaro. Em Santo Amaro você ficou até os 14 anos?

 

R- Até os 14 anos, mais ou menos.

 

P/1- Toda a sua infância você passou lá?

 

R- É, basicamente lá.

 

P/1- E quais são as suas lembranças de infância? Como era ser criança em São Paulo nesse período? A urbanização não tinha tido esse boom e tomado conta da cidade como um todo?

R- Onde eu morei na infância, eu não gostava nem um pouco, pra dizer a verdade. Apesar de ser um local, vamos dizer... Não tinha muito trânsito. Era um local meio misturado, aonde você [tinha] fábricas e tinha residências. Eu, pessoalmente, nunca gostei muito do lugar onde eu morava, não sentia segurança, esteticamente não gostava.

 

P/1- Não te fazia bem?

 

R- Não, porque era tudo mal arrumado. E eu sempre tive essa coisa, desde que eu me conheço por gente, da arrumação estética, então se o fio está fora do lugar, pra mim é demonstração de bagunça, e eu não gosto. Não combinam as coisas, ou então não tem aspecto cultural, assim, a gente via muita deterioração de memória. Por exemplo, se uma igreja foi construída de determinada forma, eu não acho que tem que pôr alumínio depois pra... Ou grades na janela, não é por aí. Isso sempre me irritou muito. Quando eu fui morar no Jardim Marajoara, já era uma estética um pouco mais... Era um bairro tipo City [América], urbanizado, com uma preservação do local um pouco maior. Apesar de ser... Tinha sido alagado, vamos dizer assim, que foi todo tomado por eucaliptos, aí virou um local muito gostoso de morar. Embora distante de todos os lugares, mas eu achava que tinha mais harmonia, do ponto de vista estético. Essa questão estética, pra mim, ela foi sempre muito forte em toda a minha vida. A coisa das pessoas perderem sua identidade, pra mim, sempre foi muito agressivo, assim. Acho que se você, por exemplo, mora numa favela, você pode morar numa favela com a sua estética, com a sua dignidade. Não é preciso, pra isso, ficar se endividando pra comprar uma bolsa importada. Eu acho que é isso que, é uma coisa de Santo Amaro que eu não gostava, na época. Tanto que eu sempre... Depois, quando fundei a Associação de Bairro lá no Jardim Marajoara, fiz parcerias com várias associações de Santo Amaro. Buscando a independência de Santo Amaro, participei de um movimento de separação de Santo Amaro da cidade de São Paulo. Pra quê? Pra que a gente tentasse ir de resgate, por exemplo, o Largo Treze de Maio, que não virasse aquela bagunça que virou. Resgate mesmo da estética e da memória local. Então isso sempre foi assim... Então, na minha infância, não é que eu tenha uma lembrança muito boa, eu vivia...

 

P/1- Santo Amaro, essa parte de Santo Amaro.

 

R- Não é, não é muito boa não, eu não gostava não, pra dizer a verdade.

 

P/1- Aí vocês mudaram pro... Aos 14 anos?

 

R- É, para o Jardim Marajoara, 13, 14 anos.

 

P/1- Lá já é outra coisa, como você acabou de dizer?

 

R- É, lá você tinha espaço. Embora fosse mais ermo, mas eu me sentia mais segura. Era um bairro muito interessante, porque é um bairro que metade dele tem um muro e a outra metade não, então ele é semifechado. E ao mesmo tempo você tinha toda uma coisa local, tinham algumas casas sendo construídas. Tinha, sei lá, as prostitutas do ponto de ônibus da Washington Luís, que a gente já conhecia de tanto pegar ônibus, virou amiga, sabe? Então tinha um povo assim, meio uma... Não sei te dizer, uma vida local um pouco mais autêntica. Eu achava, embora...

 

P/1- A relação entre as pessoas ainda não tinha se...

 

R- Eu achava mais legal, eu gostava mais, me sentia melhor no... Eu nunca parei pra pensar nisso, mas é, eu gostava mais. Harmonicamente... Tinha certa harmonia, embora fosse distante, fosse chato para ir em festas, essas coisas, era muito complicado.

 

P/1- Era difícil se locomover?

 

R- Muito difícil, porque, no caso, eu ia de ônibus, né?  Eu vivia andando de ônibus. Não aquele esquema de pai e mãe levando.

 

P/1- Não tinha isso?

 

R- Não, nunca teve, na minha família.

 

P/1- Ah não?

 

R- Não, nunca teve.

 

P/1- Você nunca foi, então, muito paparicada, nesse sentido?

 

R- Não, não. Tanto que eu sempre peguei ônibus de tudo quanto é jeito. É completamente diferente do esquema que minha filha vive hoje, que tem motorista. Hoje ela não anda de ônibus, eu, com essa idade, já andava de ônibus e a pé, e era diferente.

 

P/1- E a sua adolescência, como foi? Como eram as festas, os passeios, os programas, o que você fazia para se divertir?

 

R- Também não era assim... Na verdade eu sou meio um peixe fora d’água, nesse sentido. Eu nunca me encontrei muito nesse ambiente que eu vivia. Eu não sei te explicar, mas eu, assim, as coisas que eu gostava de fazer não eram exatamente as coisas que todo mundo gostava. Então assim, eu gostava de... Não sei, me preocupar com a questão do mundo, com 15 anos ficava lendo todos os psicólogos famosos e discutindo psicologia com amigas bem mais velhas. Eu não sei, eu não era muito ligada nessa questão, gostava de ir em festa, tal, mas também... Porque não podia muito ir por causa da locomoção difícil, de morar num bairro... Então eu não tinha muito uma vida – eu acho que – social muito grande.  Meus pais iam muito num clube que chama Indiano, aqui em Santo Amaro, que eu também não gostava. Eu gostava de jogar tênis, fazer algumas coisas, mas eu não tinha uma identidade com essa... Na verdade, sabe um peixe fora d’água? É meio isso. Aí, quando eu fui para a Europa, comecei a redescobrir o Brasil, porque na verdade eu acho que até os 15 anos, 16 anos, eu não via as favelas, não via a pobreza, não enxergava isso na forma como eu enxerguei quando eu voltei para o Brasil.

 

P/1- Só quando saiu?

 

R- Parecia que eu vivia assim... Eu estudava num colégio alemão, que era extremamente... Que se falava só alemão, praticamente, lá dentro. Aí eu voltava pro Brasil, vamos dizer assim, na rua, e em casa o italiano. Eu não sei te...

 

P/1- Por que você estudava num colégio alemão?

 

R- Boa pergunta (riso). Porque era perto de casa, acho que era isso (riso).

 

P/1- Essa era a explicação?

 

R- Essa é a explicação, a locomoção (riso).

 

P/1- A facilidade de acesso.

 

R- Alguma coisa assim.

 

P/1- E você já falava alemão quando entrou no colégio?

 

R- Não, aprendi lá.

 

P/1- E alemão para uma criança deve ser muito...

 

 

R- Era, era bem complicado pra mim, tinha muitas brigas.

 

P/1- E era bom, o ensino?

 

R- Sim, era uma escola, tecnicamente falando, fantástica. Bom, a gente era muito de vanguarda, tinha experiências pedagógicas, realmente, que eu vejo que fazem a diferença. Mas era, ao mesmo tempo, uma escola que vieram pra ela nazistas. Tinha gente, aquele pessoal que veio do pós-guerra, então você tinha, ao mesmo tempo, uma grande... Uma coisa que eu brigava muito também, da discriminação, né? A gente via pessoas mais morenas ou de cabelos mais, "olha o brasileiro." A gente se referia a um brasileiro assim, era uma coisa distante da realidade brasileira. Eu não tinha convivência com brasileiros, e sim [com] filhos de alemães. Os alemães... Era uma coisa muito fechada, e por não ser alemã, eu não me integrava muito na cabeça deles, obviamente, porque eu não era alemã, era uma "italiana macarron", que eles chamam. E eu os achava “alemães batatas”. Então ficava aquela coisa assim, de muito... Também do pós-guerra, tinha toda, ainda, esse... Era muito sensível isso, alemão, italiano, era muito forte essa diferença, né? Depois, no clube, eram brasileiros que frequentavam, mas gente mais assim, uma classe média, vamos dizer assim, mais industrial, mais... Não sei te explicar, um povo classe média, mesmo. E bom, e aí tinha o bairro, que era classe média um pouquinho mais alta.

 

P/1- Você conviveu com diversas coisas nesse período.

 

R- Diversas coisas, é. Eu ficava muito interessada em conhecer, mas não me identificava, não era um povo que eu me identificava, nenhum deles.

 

P/1- Aí, quando você acabou o colégio, você já entrou pra fazer curso superior ou foi fazer outras coisas?

R- Não, eu fui... Bom, a decisão da faculdade. Eu achava que o turismo era uma grande coisa que precisava ser incentivada no Brasil, porque era um absurdo que os trens não existiam no Brasil, e que a gente tinha que viajar de trem o Brasil inteiro, que isso era uma integração nacional e tal. Então eu escolhi a faculdade de Turismo, na época, porque eu achei que eu ia me especializar no desenvolvimento da indústria ferroviária no Brasil (risos). Isso com 18 anos, eu me lembro que eu era... Mas eu frequentei uns seis meses, falei: "não, não é isso." Eu acho que era o primeiro ano de Turismo, se não me engano lá no Morumbi. Era ainda precária, a faculdade. Depois... Eu sempre tive paixão por arte, então fizeram uma Escola Superior de Crítica de Arte, muito interessante, o projeto. Foi uma faculdade hiper americana. Me inscrevi nesse curso, achei maravilhoso. E esse curso fechou por falta de gente capacitada a frequentá-lo, pra você ter uma ideia. Por quê? Porque as classes eram pequeníssimas, não tinha gente com condições de ter uma cultura básica mínima para poder estudar História e Crítica de Arte. Então você lidava com coisas difíceis. Um dos professores Radha Abramo, tinham professores maravilhosos. Gente que conhecia, mas estavam falando, vamos dizer, pra maioria, grego. Porque você não tinha base cultural pra poder enfrentar um curso de História e Crítica de Arte. E a ideia do curso era muito inovadora, estudar história da Grécia na Grécia, estudar Roma em Roma, quer dizer, fazer essas viagens de reconhecimento no local. Quer dizer, preparar a gente, estudar música no Teatro Municipal, né?

 

P/1- Que proposta!

 

R- Uma proposta incrível, muito. Aí essa proposta se esgotou, porque não havia recursos, não havia... A ideia era muito boa. Bom, aí eu comecei a gostar mais, a perceber a área de Comunicação, a área de Jornalismo. E também porque essa coisa de querer mudar o mundo, de querer interagir, eu achei que o Jornalismo era um caminho. E aí fui indo, prestei vestibular, entrei em Faculdade de Jornalismo. Quando foi no meio do curso eu parei e fui pra Europa fazer o estágio, que eu mesma me formatei, porque eu achei que aqui não ia ser suficiente pra mim, pra o que eu queria, então eu fui pra Itália. Fiquei na Itália, Suíça, França, Inglaterra, fiquei fazendo estágios em jornais, em revista, televisão, aprendendo a trabalhar com jornalismo. Isso foi no ano de 79 a 81.

 

P/1- Você ficou três anos?

 

R- Não, um ano e meio, dois.

 

P/1- E como foi essa experiência no exterior?

 

R- Bom, foi marcante. O marco foi quando fui a primeira vez para a Europa, eu tinha uns 15 anos, que quando eu voltei, eu descobri: o Brasil tem pobres, tem ricos, por que está acontecendo... Eu não tinha noção de ditadura, não sabia nada, não tinha informação do que se passava no Brasil. Apesar de morar no Brasil, eu tinha uma informação muito fraca. Foi na Itália que eu conheci, com 15 anos, gente que lia Pablo Neruda, que lia não sei que, aí que eu fui descobrir que existia uma ditadura, o que era essa ditadura e que fazia isso. Eu voltei muito encafifada com essa história. "Espera aí, eles estão passando tudo isso por baixo dos meus bigodes, e eu não tomei nenhuma decisão. E como é que eu não me mexo, como é que não sei o quê, tal..." Quando eu, já com... Mais tarde eu acabei, depois vem todas essas experiências, aí eu vou pra Europa e lá eu me envolvi, o primeiro jornal que u fui trabalhar foi a Gazzetta Mezzogiorno, que é um jornal no sul da Itália, em Bari. É uma cidade muito interessante, na Pulha. E ela tem esse jornal que tem uma tiragem, era enorme, na época, um milhão de exemplares. Todo mundo lê o jornal de manhã, de tarde, de noite. E aí eu comecei fazendo os títulos da Internacional, depois me puseram na parte Política, investigação, corrupção, não sei o quê. Eu comecei a aprender o jornalismo mesmo. Eu fazia desde a reunião de pauta, participava até o fechamento da edição, ainda a diagramação era paste-up, era ainda... Não era eletrônica, em 1979, 80. Depois fui pra revista Panorama, que seria como seria a Veja daqui, italiana, na época. É a uma revistona. Fiquei lá também fazendo matérias. Ali eu aprendi um tipo de jeito de fazer jornalismo muito interessante. O editor era uma figura memorável, assim, um comunista convicto muito interessante, e que me ensinou as reuniões de pauta. Então, das reuniões de pauta na revista, participavam o motorista, a faxineira, todo mundo participava. Você tinha reunião de pauta realmente muito rápidas, uma dinâmica muito bem desenvolvida e onde interagiam vários níveis sociais. Então várias pautas que surgiam eram indicadas às vezes pela faxineira, pelo motorista, que tinham outras leituras das coisas. Então era bem interessante. Foi bem diferente, quando eu voltei pro Brasil, eu achei uma ditadura do editor, né? Eu achei completamente diferente isso, mas foi um choque assim, cultural. E essa revista Panorama foi muito importante pra mim em termos de trabalho, também porque, quando eu cheguei na revista, é a sede da  Mondadori, que é um projeto do Niemeyer em Milão. É Brasília, é o Palácio do Itamaraty, então eu falei: “O que o Niemeyer está fazendo aqui?" Então já foi chocante dali, depois toda a dinâmica deles, bem legal. Depois fui pra ONU [Organização das Nações Unidas], pra Organização Mundial de Saúde, e lá eu trabalhei com a campanha Água Potável para Todos até o ano 2000. E foi muito... Eu já estava muito nessas discussões das questões urbanas, água, território, zoneamento, isso já vinha. Em Milão, na própria Itália, isso é muito forte. Então a ONU foi embora, seja um organismo estatal – vamos dizer quase que estatal –, já é interessante aquela coisa da utopia, das grandes ideias. Foi muito interessante, me despertou muito para a questão ambiental.

 

P/1- Você acha que foi esse o ponto que te despertou para as questões ambientais?

 

R- Acho que foi muito importante. Eu acho que sim, acho que essa experiência na ONU foi, porque os estudos e quantidade de publicações que você tem lá em Genebra são muito grandes. Está tudo lá, não precisa inventar a roda, sabe? Tem muita coisa, que nem essa campanha Água Potável para Todos, até o ano 2000... Ano 2000 já passou e a gente não tem água potável para todos. Quer dizer, são programas mega, macro, com discussões muito complexas e que não dependem só de uma vontade. Isso depende de uma conscientização mundial e dos governos, de uma questão de sobrevivência. Então eu vi palestras, vi... Isso acabou me... Eu acabei me apaixonando por esse tema, né, da água, especialmente. Depois eu fui pra França, e França, normal. E Inglaterra também, no Time, Sunday Time. Aí eu voltei pro Brasil.

 

P/1- Com essa sua passagem por esses diversos países europeus, foi exatamente um época onde o movimento ambientalista estava começando a despertar.

 

R- É, se falava em Petraccelli, exatamente.

 

P/1- Como é que era isso? Fala pra gente desse final da década de 70, início de 80, o movimento ambientalista no exterior.

 

R- Então, mesmo no exterior, a sensação que eu, pessoalmente, tinha, era grupos de... Para mim, como eu fiquei mais tempo na Itália, na verdade o movimento comunista, o Partido Comunista, os movimentos de esquerda é que tinham mais atuação do ponto de vista de massa, é obvio. Os ambientalistas entraram com ações de, vamos dizer, não terrorismo, mas de ação pontual, de ataque. Eles vinham com propostas que pareciam uma loucura, pareciam coisas do... Pareciam doidos falando. Então eram vistos como umas figuras meio loucas, assim como seriam os hippies, um pouco, né? Mas não pegavam ainda, não tinham pegado.

 

P/1- Não eram levados a sério?

 

R- Não tanto, como, por exemplo, você tinha... Mesmo os partidos de esquerda eram meio  ridicularizados, não era logo de cara assim. Depois a coisa foi tomando um corpo, mais pessoas foram aderindo, especialmente na Alemanha e tudo. Então você [vê] a coisa começando a pegar um amálgama, pegando um corpo firme. Mas precisou de campanhas, porque a Europa é toda destruída, na verdade. Então você tem uma lógica da reconstrução, do resgate, da memória e da questão de sobrevivência ambiental. Até é natural você falar em preservação, porque é uma questão de sobrevivência. Você não tem... O espaço é pequenininho lá. Você vê uma casa, de repente você vê agricultura ao lado da casa, no meio da cidade, produzindo milho. Então é diferente, quando você vem pro Brasil pra falar de meio ambiente. Ficou ridículo, porque aqui é território enorme, tem uma mata pujante, né? Até ficava... Parecia um bando de doidos.

 

P/1- E quais eram os principais nomes desse movimento ambientalista?

 

 

R- É a Petraccelli, pra mim era simbólica, era ídolo, uma coisa... Achava: "nossa, um dia eu queria ser que nem ela." Achava agressiva, interessante. Tinha também pensadores que escreviam livros e tudo, mas ela era uma coisa mais... Eu me identificava com essa coisa da ação. Sempre gostei de resolver as coisas, nunca fiquei numa discussão muito teórica, isso nunca foi muito minha praia, era mais de ataque, vamos dizer assim.

 

P/1- Pôr a mão na massa.

 

R- Era bem isso, estava nessa fase, então não ficava nas grandes elucubrações. Inclusive nos partidos lá, Partido Comunista, não era minha praia ficar discutindo. Por exemplo, pra você ter uma ideia, em Milão eu fiquei na casa de uma pessoa chamada Amanda Parra, cujo marido foi o Paulo Parra. O Paulo Parra foi até motivo de um livro chamado O Homem que Morreu Três Vezes. Ele é o braço direito do Chacal, até aí eu não sabia nada disso. Eu fiquei na casa deles, eles eram chefes do movimento Anistia Internacional, mas era uma outra Anistia, e numa noite ela falou assim: "olha, hoje vem uma pessoa muito importante dormir aqui em casa. Você vai conhecer uma pessoa muito importante pro Brasil." Eu falei: "quem, o Lula?" Porque era 81, eu falei... Pra mim era o Lula. Ela falou: "não, não, mais importante que o Lula." E era o Luís Carlos Prestes. E pra mim aquele senhor, o Luís Carlos Prestes, dentro da minha ignorância, né? Porque eu vinha de uma cultura brasileira praticamente zero. Era um velinho, não sei, não tinha muita noção de quem ele era. Assim, eu sabia mais ou menos, mas não era... Quer dizer... E ela fez um jantar maravilhoso pra esse Luís Carlos Prestes, que estava voltando pro Brasil naquele dia. Eu dormi no mesmo quarto que ele, e eu briguei a noite inteira com ele, falando que era um absurdo, "que o Brasil," não sei o quê. Porque ele ficava defendendo o jornal Voz Operária, ou alguma coisa assim, um jornal lá que eu achava um lixo, que eu falava que isso não era comunicação, não sei o quê, que esses comunistas tinham um diálogo antigo, tal. E ficamos discutindo. Ele falava: "você é muito petulante", e não sei o quê.

 

P/1- Que noite maravilhosa!

 

R- Maravilhosa, fantástica. Mas, você vê, eu não tinha noção do que era aquilo.

 

P/1- Aquilo que você falou, você só tomou consciência...

 

R- Depois, exatamente.

 

P/1 - No Brasil, no seu retorno?

 

R- Exatamente. E essas discussões teóricas que os comunistas, por exemplo, viviam tendo sobre a morte da bezerra, e não sei o quê, e como que é, la misura in cui, na Itália isso é muito, né? O Italiano discute. Pra mim não tinha muito, não colava muito, porque eu estava muito interessada em "tem que mudar logo, nós temos que fazer alguma coisa, alguém tem que fazer alguma coisa.” (riso).

 

P/1- Queria ação.

 

R- Ação. É, ação. Então estava nesse pique.

 

 

P/1- E sobre as catástrofes ambientais que tiveram lugar nas décadas de 70, 80? Como foi isso pra você?

 

R- Não, eu assim, quando eu voltei pro Brasil, em 80, a primeira coisa que eu fiz foi... Me lembro que eu voltei pra casa dos meus pais e tinha esse bairro muito lindo, tal, mas as praças com mato dessa altura. Eu falava: "mas..." E os caras moravam bem do muro pra dentro, aquilo me irritava profundamente, eu achava aquilo o fim da linha. Como que você não pode andar numa praça se tem uma praça ali, linda, que poderia ser maravilhosa? Eu comecei a ir de casa em casa, chamar as pessoas pra uma reunião, porque nós tínhamos que fazer alguma coisa. Bom, daí resultou, saiu a Associação de Bairro. Nessa época, qualquer coisa que fosse ligada a meio ambiente, morte de pássaros, derramamento de óleo não sei aonde, matança de... Era assim pra mim, como se estivessem me matando. Eu levava a nível pessoal, assim, sabe, era uma coisa muito de... Talvez, por não ter militado na esquerda na ditadura, acho que eu joguei toda a minha militância pra isso aí, acabei...

 

P/1- Pra essa causa?

 

R- É. Então assim, tudo me afetava muito, eu ficava o dia inteiro só pensando nisso, quer dizer, como fazer. Tanto que eu conheci o Fábio Feldmann, porque eu fui contratar ele para ser meu advogado, indicação de uma amiga minha, que também era presidente, também, de uma associação de bairro, no Alto da Boa Vista. E ela me apresentou o Fábio pra ser meu advogado na defesa, que eu queria que parassem de, não sei, era alguma coisa, prédios que construíam e... Eu não me lembro direito, tinham várias lutas. Uma que construíam prédios e diziam que era Jardim Marajoara, usavam uma propaganda enganosa. Então, pra encher a paciência deles, eu entrava com uma ação no Procon [Programa de Proteção e Defesa do Consumidor]. Todo dia entrava uma ação. Tinha os olheiros, o moradores-olheiros, bom, tinha uma confusão lá. E outra coisa era como montar uma comissão de bairro legalmente. Então o Fábio foi muito... A gente...

 

P/1- Foi assim que você conheceu o Fábio?

 

R- Foi assim que eu conheci o Fábio. E a gente se aproximou muito, porque a gente tinha a mesma cabeça nesse sentido, de que a gente estava muito preocupado, e ele estava muito preocupado com questões ambientais, "não é possível." E eu: "bom, achei finalmente alguém que fala a minha língua." Então, assim, eu estava... Ali eu me encontrei, realmente, aí eu estava feliz, porque o Fábio pra mim foi um achado, assim.

 

P/1- E nessa sua volta ao Brasil você já tinha tido contato, como você disse, com esses movimentos ambientais já em curso.

 

R- Sim, na Europa, mais com os comunistas do que com os ambientalistas, na Europa. Porque os ambientalistas eram muito esparsos, assim. Não é que você encontra, não era uma coisa... Você se encontrava, mas era meio assim, como que células. Não era uma coisa institucional como você tem hoje, você vai lá, "eu sou do...".

 

P/1- E no Brasil, como é que estava a situação?

 

R- No Brasil eu lembro que, quando eu conheci o Fábio, tinha a Associação para Proteção da Natureza, do... Como é que era? Eu não lembro muito o nome das pessoas, mas era uma associação que era a mais... Tinha a B Polar, que era bem antiga; tinha essa associação, a PPN, que fez o protesto contra a construção do aeroporto de Caucaia. Tinha o início da OIKOS, quer dizer, o Fábio já estava ali pensando na OIKOS, montando. E a gente... Não só ele, tinha o Roberto Klabin, o Fábio, o Pietro Luoni, que era o dono de uma gráfica. E tinha outro pessoal, assim, discutindo isso, querendo fazer alguma coisa pelo Pantanal, pela questão da Mata Atlântica. Bom, enfim, acabar com essa deterioração e acabar com o “azulejamento” das coisas, passar o azulejo em tudo, a gente era contra os azulejos. Tinha alguns grupos esparsos que eram tão poucos que se conheciam, e eram muito voluntariosos assim, mas também era a fim... Nós estávamos na ditadura ainda, não tinha terminado, era o fim da ditadura. Então volta e meia esses grupos enfrentavam problemas com polícia, com os militares. A gente tinha problemas com essa... A gente acabava se encontrando, vamos dizer, não era institucional, muito descarado, assim. E a gente aparecia muito por conta do apoio que a gente tinha da imprensa, né? A imprensa foi, especialmente o Estado de São Paulo, o Rodrigo Mesquita foi fundamental. Os espaços que ele dava pra gente no Jornal da Tarde era uma coisa... Páginas e páginas.  A gente podia escrever o que quisesse, e as Forças Armadas realmente ficavam muito bravas. E ele aguentava o tranco.

 

P/1- Como era então essa relação entre esses diversos grupos? Há troca de experiência entre vocês?

 

R- Não, a gente se encontrava assim, nas manifestações, pra ajudar, mas a gente não tinha uma articulação. Era muito ego, tinham muitos egos.  A OIKOS, depois posso falar um pouquinho da experiência da OIKOS, porque eram vários egos. Muitos egos, por isso que ela não continuou, eu acho. Mas as outras todas tinham gente voluntariosa, com um super ideal na mão. Mas, por terem conseguido algumas coisas, já tinham experimentado o gostinho de ter o poder na mão, de mudança, e aí tinham seus seguidores. Então era assim a turma do... A fulana do... Era meio assim, não era muito unido, não era um movimento unido.

 

P/1- Não era coeso?

 

R- Não, não era coeso, era bem esparso, assim, bem... Mas a gente se encontrava em coisas comuns, todo mundo lá. Tinha o Abelar, que se vestia sempre com umas camisetas de algodão cru, assim, escrito uns negócios, era artista, não sei quê. Esse era uma figura que sempre... O Fábio deve ter muita foto dele, eu não tenho. Era uma figura emblemática do movimento, sempre estava lá, era um senhor já, devia ter uns 60 anos, na época. Ele andava, sempre aparecia com aquela camiseta com dizeres super fortes, distribuindo seus próprios panfletos. Desde esse cara, até... É, e muito corajoso, porque ele irritava as pessoas que eram mais conservadoras.

 

P/1- Quais eram as principais ações que vocês desenvolviam nesse período?

 

R- Então, a gente, a OIKOS, eu acho que ela é um marco, porque, pra mim, eu não me lembro de outra organização. Posso estar enganada, certamente devem ter outras, mas eu não conheci [outra] que estivesse junto. Tão poucas pessoas e tão grande agilidade e habilidade para fazer confusão, que eram um dono de gráfica, ou seja, a gente tinha o poder das rotativas: o Randau Marques, que era o jornalista do Jornal da Tarde, com carta branca pra escrever o que quisesse sobre meio ambiente, um apaixonado por meio ambiente e um louco, louco literal, louco no bom sentido... Quer dizer, ele jogava o coração nisso; o Fábio, que era advogado e tinha condição de aparecer, sendo porta-voz do grupo, porque o jornalista não pode, o outro da gráfica era estrangeiro; o Roberto Klabin, que tinha o dinheiro e tinha vontade, sempre foi apaixonado por isso. Mas pra nós, a gente se sentia forte tendo o Roberto ali perto, era sempre uma segurança. Vamos dizer assim, uma sensação de segurança; eu, minha parte era mais contra-informação, estratégia junto com as ONGs, falar com a imprensa, explicar o que era determinada coisa, outra, e estabelecer estratégia de campanha. Tinha a Neuci, que era uma espécie de super secretária, fazia a coisa andar, o tráfego, vamos dizer assim, e acabou. Era isso a OIKOS.

 

P/1- Seis pessoas.

 

R- Eu me lembro, eram pouquíssimas pessoas. E a gente se reunia acho que semanalmente. Eu me lembro que a gente se reunia muito. E toda semana falando o que a gente ia fazer e isso e aquilo. E brigas homéricas e confusões, discussões, mas tudo... Quando a gente saía era bastante coeso. A gente tinha logotipia, a gente tinha logomarca, a gente tinha... Eu trouxe pra você o adesivo aí da, né... Tinham as camisetas, a gente tinha marketing. Tinha a irmã do Fábio, que tinha uma loja de camisetas, então lançava as camisetas na Oscar Freire. Então era chique, vamos dizer assim, a OIKOS era uma coisa assim.

 

P/1- Que ano foi isso, o início da OIKOS?

 

R- Foi em 81, acho que 81, uma coisa assim. Logo depois que eu voltei ela começou a ter mais visibilidade.

 

P/1- Na OIKOS, o que vocês encabeçaram logo de cara?

 

R- Tiveram campanhas memoráveis. Eu acho que a do Pantanal foi naquela época, se falar em Pantanal, preservação nos anos 80.

 

P/1- Era muito recente pra população geral?

 

R- É, porque hoje a população fala: "o Pantanal tem que ser preservado." Mas quando a gente falava em preservar dois milhões de jacarés que eram mortos por ano, todo mundo ria, mas ria sem a. Eu me lembro, na minha família as pessoas falavam: "Você é boba mesmo, você fica defendendo jacarés. O que adianta isso?"

 

P/1- Tem uma história com seu pai, né, com jacarés? Conta pra gente?

 

R- O Fábio, que numa das entrevistas, das várias entrevistas, quis fazer, como sempre, uma brincadeira, deu o telefone da minha casa no Jornal Nacional pra quem quisesse defender os jacarés. E começaram a ligar lá, tal, e meu pai atendendo: "Mas o quê? Aqui não vende jacaré não, não entendo. Sandra, de novo jacaré, que caramba você está fazendo?" E ficava louco da vida comigo, né, brigando, por que eu tinha me metido a defender jacaré, só me metia em encrenca, por que eu não ia fazer alguma coisa de útil, né? E era assim, era o tempo toda essa discussão, porque os jacarés eram, assim, a nossa grande coisa de preservação. E eu nunca... Uma coisa que foi muito engraçada, eu e o Randau: havia um lugar que era muito importante, a SBPC [Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]. A gente se encontrava nessas reuniões SBPC, e realmente dali você fazia uma grande articulação. A SBPC era um local ainda de encontros seguros, vamos dizer assim, e a gente foi pra SBPC em Belém do Pará, eu e o Randau Marques, e nós pedimos uma audiência como governador Gilberto Mestrinho, que era o governador lá do estado. E ele... A gente estava falando por que é que estava havendo matança, estava falando das questões ligadas a meio ambiente, eu não lembro bem qual era a pauta, eu sei que o Randau estava pelo Jornal da Tarde e eu aproveitei pra pegar, pra fazer matéria também, freelance. E a gente perguntou pra ele: "mas por que o senhor quer derrubar a floresta? Por que o senhor está aprovando determinados desmatamentos?" Ele falou: "veja bem, eu sou um homem da floresta. Veja bem, você já viu essas grandes árvores..." – como é que chama? Castanheiras. – "Você já viu castanheira grande. Você corta, no dia seguinte tem outra lá, é rápido, o negócio. Eu sou um homem da floresta, eu conheço. Por exemplo, o jacaré é um bicho antigo, tem que morrer. É que nem dinossauro, sabe dinossauro? Acabou um dia. Jacaré vai morrer também." Aí o Randau Marques, chegou uma hora, perguntou: "o senhor tem mãe?" Só isso. Aí fechou o tempo. "Tenho sim senhor, mas por que você está...". Falei: "aí meu Deus, pronto agora vão os dois in jail de novo." E foi indo, mas foi muito engraçada essa história. Quer dizer, o jacaré era um bicho obsoleto, a castanheira, você cortava, nasci no dia seguinte, eram umas coisas...

 

P/1- Essa era a visão que se tinha da questão ambientalista no período, digamos, da população em geral? De que nada iria acabar?

 

R- Era muito. Não, e era ridículo, folha era sujeira, então: "ah, deixa eu limpar a calçada pra tirar essa sujeira." A folha no chão era uma sujeira. Não sei se isso vem da nossa cultura, da época dos portugueses, onde você tinha que limpar. O europeu falando isso, eu não sei, mas enfim, toda uma cultura que não tem nada a ver com a nossa cultura do índio, ou de quem realmente é brasileira, de quem morou sempre nessa terra. Então assim, essas coisas eram extremamente... Tinham que ser combatidas, então a gente, em cada atitude, tentava ser o mais rigoroso possível. Era muito radical, a gente não admitia e brigava com todo mundo, era muito assim, do lado também, too much. Mas era um jeito, porque a gente era muito... Tinha a vidraça, e a gente era pedra. Jogava, jogava , jogava, até que a coisa foi evoluindo e depois as ONGs foram se formando, foi se profissionalizando. Hoje o movimento ambientalista se disseminou, como um todo. Desde o consumo: você vê nas lojas, o cara fala, eu faço, produzo com conceitos ambientais, eu tenho a ISOs, os 14 mil. Então tudo isso acho que é um resultado um pouco do esforço de cada um de nós aí.

 

P/1- E nesse seu período de OIKOS, quais foram os fatos mais marcantes do universo ambientalista, nacional e internacional?

 

R- Bom, a campanha do Pantanal é nível nacional, foi fundamental, assim. Pra mim, um dos grandes editoriais escritos pelo Randau, na época do Jornal da Tarde, é “Onde Estão as Nossas Gloriosas Forças Armadas?”, que aí eu me lembro que o ministro Maximiliano da Fonseca ligou pro Fábio perguntando onde está a OIKOS "que nós precisamos conversar um pouco mais." Porque foi assim, um soco na cara das Forças Armadas, que não patrulhavam o Pantanal. Aí tinha a família Rondon, que era muito importante dando informação. A campanha do Pantanal eu acho que foi um marco no ambientalismo mesmo, embora não se tenha muito documento disso. Mas realmente, pra mim foi, porque em torno do Pantanal se trabalhou uma região inteira, se trabalhou um conceito. Trabalhou fora dos grandes centros, se trabalhou fora de São Paulo. Então, quando você trabalha aqui repercute muito e tal, mas você está falando de uma coisa que as pessoas nem conhecem, tinha muita gente que nunca tinha ido ao Pantanal. Hoje é até comum o cara ir pra Bonito, acha até bonito, achar chique, sei lá. Mas na época era um lugar que ninguém prestava atenção, era lugar de tráfico de drogas de, enfim...

 

P/1- O ecoturismo estava longe, né?

 

R- Longe, longe. Inclusive abriu o mercado pra isso. Outra campanha que eu achei memorável foi a do bicudo, da pulverização do bicudo nos algodoais paulistas, que tinha época que você... Isso aí foi um trabalho que eu fiz com o João da Costa, que hoje está nos Estados Unidos. Ele é professor lá na Universidade de Massachusetts, eu acho, não sei. Mas enfim, ele não está no Brasil, não mora mais no Brasil. Era uma cabeça, era um consultor do Globo Rural. E ele foi meu mestre, assim, na explicação, o que eu tinha que fazer, traduzir pra imprensa o que era pulverizar o bicudo, a praga do bicudo nos algodoais paulistas, que existia essa praga com o Malathion, que era um produto da Bayer extremamente tóxico. Então nós pegamos isso como ponta de lança da questão, e a gente conseguiu impedir, a gente fez um caos tão grande... Com o apoio da Unicamp, com apoio do Globo Rural, com apoio de várias entidades. Mas só duas pessoas, o Fábio e a OIKOS repercutindo. E conseguimos que um juiz impedisse o sobrevôo dos helicópteros com esse Malathion, porque o Malathion... Iam pulverizar em cima das pessoas, as pessoas iam morrer, era uma coisa. Dali a um tempo você tinha um problema de saúde pública mesmo, um negócio gravíssimo. E tinha todo um jogo político, etc., que acho que não vale a pena mencionar aqui, mas foi muito importante, a Unicamp foi fundamental. Foi muito legal, isso deu muita repercussão. E foi um marco também trabalhando com agricultura, aí já o meio ambiente e a agricultura e a questão das pragas naturais. Sabe aquela... Você desenvolver um determinado bichinho pra comer o outro e trabalhar? Eram dois conceitos. Você tinha a pulverização de agrotóxicos e o desenvolvimento do predador natural. Então essa era a questão, isso deu bastante ibope. Aí tinha a Mata Atlântica, a questão da Mata Atlântica também foi fundamental, a Juréia [Itatins], né, a Juréia é um marco. A questão do Parque da Juréia, da área de preservação, que foi uma luta muito grande. E a Mata Atlântica, ela não dava pra ser tratada, assim, como uma coisa, é como o Pantanal, ela precisava de um organismo que cuidasse só da Mata Atlântica, porque é muito grande e muito específica, é um bioma do Brasil. Então foram bem interessantes as campanhas que a gente fez. Cubatão, Cubatão foi...

 

P/1- Fale um pouco de Cubatão, porque é...

 

R- Cubatão era o nosso point de fim de semana. A gente ia para lá todo fim de semana, ficava indo, [nos] encontrávamos. Nós fundamos a Associação das Vítimas da Poluição de Cubatão. Aí tinham os operários que eram vítimas daquelas indústrias, e a gente, junto com um padre lá da região... Foi fundada essa associação. Então a igreja dava um apoio fundamental ao ambientalismo, engraçado. Tinha uma...

 

P/1- Existia uma comunicação?

 

R- Uma comunicação interessante, tinha muito a ver, a Nova Igreja, vamos dizer assim. A gente interagia muito com os padres, muito com os padres mais de vanguarda, assim. E davam uns apoios legais nos sermões. Vai mudando aquela coisa de “tanto bate, até que fura”. É bem isso, e a associação das vítimas, a gente ia todo fim de semana ou a cada dois fins de semana pra Cubatão pra ver como é que estava, pra saber quantos anencefálicos tinham nascido, quantas crianças sem cérebro, quantas pessoas estavam morrendo de câncer no pulmão. E a gente ficava tentando monitorar isso. Também era o Randau, eu, o Fábio, o Pietro. O nosso programa de fim de semana, em vez de ir pra boate, a gente ia pra Cubatão, a gente ficava lá. E tinha aquela coisa das encostas caindo, o assoreamento, vamos dizer, a derrubada das árvores por conta da poluição era enorme. Aí teve... Se entrou com uma ação contra as indústrias de Cubatão querendo onerá-las por esse desastre. Aí teve... Caiu um pedaço da serra. E assim, todas essas coisas tinham a ver com zoneamento, qualidade de vida e integração com meio ambiente. Onde tinha grandes focos, a gente estava lá, Lagamar, Cananéia. Nós éramos cinco, seis. Assim, não sei como a gente fazia.

 

P/1- Mesmo com um número tão pequeno, vocês conseguiam trabalhar...

 

R- Eu acho que a gente tinha muito foco. A gente se dedicava muito, apesar de cada um de nós ter sua atividade. Isso era uma militância, a gente não ganhava dinheiro com isso, obviamente. Ninguém vivia disso, mas a gente se dedicava muito, acho que pensava e vivia [isso] 24 horas por dia. Isso era quase que... Parecia uma seita, não sei explicar. Era um negócio... Pelo menos pra mim, foi muito importante.

 

P/1-E nesse início você acha que havia muitas influências do modelo de ONGs internacionais ambientalistas na construção das ONGs brasileiras?

 

R- Olha, depois, quando as ONGs estrangeiras acabaram vindo pro Brasil, que nem WWF, Conservation, mais tarde... Mas isso é bem mais tarde. Eu vejo que elas causam impacto no sentido da administração, do profissionalismo, da forma de gerenciar as coisas. Vem com uma estrutura, tem o escritório, tem uma pessoa. Nós não tínhamos nada. No começo a gente tinha o apartamento do Fábio, que a gente se reunia em algum lugar. Depois nós alugamos, aí acho que nós fomos uma das primeiras ONGs a ter um aluguel pago por mês num predinho na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, onde era a nossa central, vamos dizer assim, de operações, que era uma salinha com um banheiro. Então por quê? Porque a gente sentia, "nós temos que nos profissionalizar." Foi paga uma secretária pra ficar, pra despachar as coisas, porque vinham muitas cartas, a gente não conseguia dar conta das pessoas que ligavam, que telefonavam. Não tinha e-mail naquela época, era telex, o fax estava começando, era carta mesmo. Então você tinha quer abrir, tinha que responder, a gente não conseguia dar conta. Por exemplo, nós fizemos uma campanha também – que foi memorável – da Ilha de Calor na Metrópole Paulistana. A gente conheceu uma professora da Geografia da USP [Universidade de São Paulo], chamada Magma Lombardo. Ela tinha uma tese, uma teoria, de que o corte de árvores aumentava a temperatura na cidade. Ela fez medições e comprovou que tinha uma defasagem em São Paulo de dez graus entre uma área e outra, na defasagem é maior, e que a árvore é um refrigerador importante, um ar condicionado natural importante. E aí eu peguei essa tese, pela OIKOS a gente bolou uma cartilha onde tinha o diabinho e esse diabinho contava para as pessoas o que ele ia zonear em São Paulo, como ele ia fazer pra aterrorizar a gente. Essa cartilha, em vez de fazer a cartilha num papel xexelento, numa coisa de papel de pão, eu fiz em papel couché, quatro cores, rodei no máximo do top da gráfica, num tamanho tipo um mini pôster. A gente distribuiu não sei quantas mil cartilhas. Eu tenho algumas aí, posso até te mandar. Mas é impressionante, nas favelas a gente via, o cara guardava, sabe, pendurava na coisa. Quer dizer, a gente tentou trabalhar uma informação através de um jeito mais sofisticado de se comunicar. Não é porque era militante que tinha que ser feio e mal feito. Então todo esse conceito, acho que isso é um embrião de uma ONG mais organizada, já estava indo. Quando vem... Mas aí já foi fundada depois a S.O.S. [Mata Atlântica], que já veio dentro de um conceito mais estruturado, já foi feita uma fundação com uma estrutura de ONG de gente grande. Isso é um marco, vamos dizer assim, como ONG, de um tamanho respeitável.

 

P/1- A S.O.S. seria um marco nessa questão de ONG brasileira?

 

R- É um marco, eu acho. Agora, logo em seguida, eu não tenho bem os tempos reais na minha cabeça, mas tem WWF, a Conservation International fazendo parceria. Mas eu acho que a Fundação S.O.S. se estruturou do seu jeito de ser. Ela aprendeu com os outros, mas manteve o seu jeito brasileiro, vamos dizer, de trabalhar. Quando eles fizeram aquele acordo com o Bradesco pra pegar os cartões de crédito, as mensalidades, já foi um negócio... Eu achei supermoderno, um jeito diferente de captar recursos, com Henrique Sarkis, as ideias... (pausa).

 

P/1- Sandra, retomando ainda questão da OIKOS, eu queria que você falasse sobre esse finzinho da OIKOS. Por que a OIKOS chegou ao fim?

 

R- O fim da OIKOS foi bastante sofrido para todos nós, porque nós tínhamos formado um amálgama muito forte. Imagina, poucas pessoas convivendo diariamente, praticamente durante anos, três, quatro anos, não me lembro exatamente o período, tenho que olhar nos papéis. Mas, quando a gente começou a se desentender, porque foi por conta exatamente de começarem a haver interesses diferentes. A gente não conseguia se entender mais, um tinha uma opinião outro tinha outra, e todos com um ego muito forte, todos mais ou menos tinham o seu jeito de liderar a coisa. Porque como éramos poucos, cada um tomava conta de um pedaço. Então, pra se juntar, com o tempo foram surgindo diferenças. A própria candidatura do Fábio, quando a gente resolveu que tínhamos que ter um representante no Congresso, alguém pra mudar as leis. Só aí nós íamos... Vamos dizer, mudar de verdade, porque não adiantava mais ficar só atirando, atirando, já não dava mais. A gente tinha que ficar mais adulto na questão. Foi uma campanha muito sofrida, onde a gente se envolveu muito. Teve muita discussão, muita briga, muito ressentimento, muita coisa. Porque acaba envolvendo outras pessoas, aí a pessoa muda de interesse. Enfim, é muito difícil você manter uma aglutinação de tão pouca gente, mas ao mesmo tempo gente tão forte. Aí a coisa começou a patinar. Quando eu vejo que a coisa está meio ruim, eu já sigo a minha trilha. Não gosto de ficar com ressentimentos, não tenho muito esse espírito. Eu tento um pouco, depois eu vejo que não dá... Porque você não pode obrigar uma pessoa a ficar casada com você, você não obriga. E eu já tinha, na minha cabeça, muito forte essa vontade de montar uma ONG que fosse uma ONG que trabalhasse com jornalismo ambiental, porque eu via que a imprensa brasileira era muito mal formada na área ambiental. Então eu parti pra ideia de formar a Ecopress, que é uma ONG que existe até hoje, que monitora tudo que sai sobre meio ambiente no Brasil há dez anos. A gente tem um banco de dados imenso, com tudo catalogado. E isso vai indo, treinando jornalistas em início de carreira. Então ali trabalhou a Regina Scharf, que hoje está no ABN. Enfim, ela foi assessora, trabalhou na campanha do Fábio Feldmann comigo e assessorando um pouquinho o Fábio na questão ambiental. Depois teve a Cristina Pinheiro Machado, que depois largou tudo e foi ser Hare Krishna lá em Pirenópolis. Agora voltou para o jornalismo, que era do Estadão, que era muito importante. Foi fundadora comigo da Ecopress. Tiveram vários que estão aí na imprensa hoje, na Folha, no Estado, que passaram pela Ecopress, na Veja. Tem vários jornalistas que começaram lá, seu primeiro emprego foi na Ecopress, estagiando, monitorando as notícias, tentando entender o que se passa e entendendo que a Folha as vezes fala uma coisa, o Estado outra, o Diário do Grande ABC outra, a TV Globo outra ainda.  E ninguém se entende, e os números... É um milhão de mortos, dois mil, é uma confusão danada.

 

P/1- Quando você acha que se dá essa virada, que o meio ambiente passou a fazer parte dos meios de comunicação com mais frequência?

 

R- Bom, a grande vanguarda foi o Estado de São Paulo, ainda na década de 80, fazer as matérias – pra mim – com o Randau. Era o único que dava espaço para meio ambiente. Depois a gente teve quase que, na Eco-92, um over de meio  ambiente, onde você tem o meio ambiente coberto, de 85 a 87 pra frente, esparsamente. Na Eco-92 você tem um over, too much, onde se fala de tudo, também de uma forma despreparada. A própria capa da Veja, com aquele índio, aquilo foi simbólico. Enfim, querendo desprestigiar os ambientalistas, etc. E depois você tem uma cobertura regular, você começa a ter uma introdução do meio ambiente e as empresas, com a Gazeta Mercantil, que aí começa a fazer um trabalho, uma editoria de meio ambiente. A gazeta Mercantil foi precursora – em minha opinião – tendo uma editoria de meio ambiente. Depois você tem alguns outros jornais absorvendo um pouco isso, mas até hoje acho que a Gazeta Mercantil é, apesar das dificuldades dela, um jornal emblemático na questão ambiental, trabalhando...

 

P/1- E hoje?

 

R-... De um ponto de vista empresarial, de números sérios, coisas que afetam ações na bolsa. Isso é fundamental, acho que é um trabalho... E a Regina tem um bom papel nisso, a Regina Scharf.

 

P/1- Você faz parte desse mundo do jornalismo, das comunicações, hoje. Como é que você enxerga o tratamento dado à questão do meio ambiente? Aumentou, diminuiu, a seriedade está maior, aspectos  técnicos também, como você avaliaria?

 

R- Eu acho, assim, não dá pra falar de meio ambiente sozinho, sem falar da qualidade da imprensa no Brasil. Você tem uma imprensa boa em algumas editorias que, vamos dizer, que tem historicamente uma memória. Editoria de política é bastante boa, cobrindo com memória, mas não é crítica. A gente não sente a crítica aflorando nos jornais, então o mesmo se reflete na questão ambiental. Só que a questão ambiental tem um pouquinho mais de “complicômetro” que o jornalista não tem a formação pra perceber algumas coisas. Então você fala alguma coisa ligada a um determinado tipo de gás, às vezes ele não tem informação técnica pra poder avaliar aquilo. Faltam jornalistas formados em Biologia, em Química, que tenham essa formação pra poder compreender o que eles estão escrevendo. Você tem o jornalista repórter. E o editor também, menos ainda. Ele às vezes não dá a importância devida a reuniões que nem essas do Protocolo de Kyoto, que acabam aparecendo num pé de página ou lá dentro, sendo que são fundamentais. Onde você tem posturas políticas, tem coisas por detrás que são históricas, muito importantes, e que passam ao largo como se fosse uma coisa menor. Mas a gente, daqui uns 20 anos, vai sentir o impacto disso. Eu acho que falta crítica, falta uma visão mais agressiva da imprensa. A imprensa está muito cordeirinho, na minha opinião, especialmente nos últimos dois anos, eu acho que ela está muito mansa depois que o PT [Partido dos Trabalhadores] assumiu.  Eu gosto muito do PT, não tenho nada contra, mas eu acho que ela deu uma amansada. Ela deu um, "ai, vai dar certo, vai dar certo." Mas perdeu o senso crítico. Eu acho que ela tinha, antes, um pouco mais... A sensação que eu tenho é que ela está... É difícil você pegar um jornal hoje, pra você: "vamos ver o que acha fulano" com consistência. Tem uns articulistas, poucos, e sempre os mesmos. A gente não vê coisa nova. Então eu sinto uma falta enorme de raciocínios novos, gente até mais inexperiente; não faz mal, mas que traga ideias novas. Eu acho que isso, olha, está precisando respirar. Acho que está tudo muito mofado.

 

P/1- Eu imagino. Falta quem faz notícias.

 

R- É, eu acho.

 

P/1- Sandra, agora, voltando um pouquinho mais, teve o final da OIKOS, né? E como foi o início da Fundação S.O.S. Mata Atlântica?

 

R- Então, a gente, com a questão da campanha de Cubatão, a questão da preservação das matas naquela região, a Cantareira, tudo isso foi formando, dando a noção de que havia necessidade de se criar uma organização que defendesse os remanescentes, porque não ia sobrar mais nada, ia ficar tudo azulejado. Então essa noção, e a decisão estratégica de fazer uma fundação também foi muito importante. Fundação tem outro tipo de legislação, uma coisa mais respeitável, tem patrimônio, tudo. E tem um conselho mais rígido, etc., um tipo de gestão mais complicada. Isso fez com que a coisa tomasse um vulto maior, e a decisão estratégica, uma das coisas fundamentais foi a Juréia, que o movimento da Juréia foi integrado à Fundação S.O.S. A S.O.S. foi integrando, serviu de aglutinador de um monte de momentos que estavam surgindo ou já estavam atuando nas questões da Mata Atlântica. Então se uniu um cluster de ONGs que trabalham com a questão da educação ambiental, da preservação, da pesquisa. Então a ideia foi muito boa, eu acho que por bioma. Na verdade hoje, pra mim, está claro que precisaria ter por biomas, fundações.

 

P/1- Especificar um pouco mais, né?

 

R- Fundação de S.O.S. Caatinga, S.O.S. Cerrado, sei lá. Já tem, mas vamos dizer, com a estrutura da S.O.S., que é uma estrutura privilegiada, porque tem pessoas que nem o Klabin dentro, que têm uma visão empresarial. É um misto, ele fez um corte, uma leitura empresarial da Fundação e ao mesmo tempo, junto com isso, é terceiro setor, e é militância. Então é muito interessante, com todos os problemas que possa ter claro, ninguém agrada todo mundo, toda hora, mas é respeitável o trabalho que foi feito ali dentro. Eu acho, pra mim é um marco.

 

P/1- Além do Klabin, que você citou, quais são os outros nomes desse período de formação da S.O.S.? Quem é que estava em torno da criação?

 

R- Tinha o Fábio, o João Paulo Capobianco, o Aron Belinky. Eu lembro pela pró-Juréia, essas são as pessoas que eu mais lembro. Tem vários pesquisadores, o José Pedro Costa, que foi uma pessoa muito importante também, o... Como ele chama... Wilheim, o Wernes Laupf, todos esses, de alguma forma, contribuíram, foram todos se aglutinando. Isso que eu achei legal, acho interessante. Acabaram os grandes nomes, aqueles ícones. Só Fábio, só fulaninho, só Valdemar, não sei, e a Fundação S.O.S. já é uma Fundação S.O.S., tanto faz o grupo. No começo foi bem complicado, porque tinha muitas brigas, mas depois... Acho que, com tempo...

 

P/1- Como é que era a Fundação S.O.S. nesse início, como vocês atuavam?

 

R- Olha, eu, especificamente, fiquei muito focada, eu não atuei diretamente na Fundação, no dia-a-dia dela, o que eu fiz foi trabalhar em alguns projetos de lançamento daquele Mapa da Degradação da Mata Atlântica, que todo ano a gente monitorava com o Atlas. Divulgação de projetos de acordos. Sempre focando, sempre com a Ecopress. Então eu acabava, com a Ecopress, desovando toda a informação. Ou ia para reuniões, às vezes da Juréia, de campanhas, sempre na área da comunicação. Na área de decisão política eu não tive muita atuação não, porque nessa época eu já estava muito concentrada em desenvolver a Ecopress. Ela ficava próxima e ia tentando se desenvolver e monitorar, passar as notícias, a resenha diária, etc. e tal. Então, quando eles me chamavam, eu estava presente, mas eu já não era, eu não arregacei as mangas para a Fundação S.O.S. Mata Atlântica nesse nível.

 

P/1- Mas e publicamente, como é que a Fundação era vista nesse início pela população?

 

R- Logo na fundação... O início foi um estardalhaço, bem lançada, com todos os requintes. Depois ela teve uma... Ela tinha que mostrar a que veio, então começaram com as campanhas, acho que isso foi dando uma credibilidade. Depois teve o problema que tinha um excesso de militante pra pouca desova, você não sabia o que fazer com aqueles militantes. Todo mundo queria ajudar, mas a gente não sabia o que fazer com eles. Depois os acordos com o INPE [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais]. Então teve uma época que ela fez assim, andou patinando, depois se reestruturou. Passou por crises como uma empresa, a mesma coisa. Hoje, pra mim, ela está chegando num processo de maturidade. Acho que ela já pode passar essa preocupação com planejamento, reuniões de board, estruturada mesmo. Acho que a imagem da S.O.S. sempre foi de muita credibilidade, acho que ela conseguiu passar incólume em todas as crises, como ONG, de todas as coisas em termos de imagem. Ela não esteve envolvida em nenhum escândalo, nenhuma corrupção, nenhuma coisa que pudesse ter denegrido. Ao contrário, ela levantou muitas coisas, fez acordos interessantes, com a própria Conservation International. Eu acho que é uma entidade que... Claro, você tem altos e baixos. Você tem militância, no começo tinham todos aqueles militantes dos cartões de crédito, depois foi baixando isso, aí subiram outras coisas. Eu acho que ela é tratada de um jeito muito maduro. Eu acho que ela tem planejamento, ela passa uma sensação de segurança. E isso é o que... Ela é uma referência dos jornalistas, é um point de referência.

 

P/1- Das campanhas da S.O.S. existem campanhas que marcaram as pessoas de uma forma gigantesca. No seu caso, qual mais te marcou?

 

R- Tem várias, aquela da bandeira perdendo o verde, “Estão Tirando o Verde da Nossa Terra”, esse eu achei maravilhoso, achei uma sacada. Acho legal essa coisa simples, direta. E aquela que é a da patinha da onça que ela cortava, ela fazia um braço de ferro com o cajado, o matador. Não sei se isso foi pro ar, mas eu participei da aprovação da campanha, que foi a Full Jazz que criou várias campanhas. Eu não lembro se era essa daí, porque agora eu já estou confundindo, porque eu sempre trabalhei... A gente foi muito próxima do WWF também, da Conservation, então eu acho que esse era do WWF, desculpe. Mas essa da bandeira acho que é mais marcante pra mim.

 

P- E dos projetos e programas que a S.O.S. desenvolveu ao longo desse 18 anos, qual foi o que mais te marcou?

 

R- A campanha do Tietê pra mim foi... Eu achei... Quer dizer, claro que conheço os outros, mas o Tietê, aquele trabalho do Mauro Mantovani eu achei muito bom, porque ele tinha que mover uma maçaroca de pessoas muito grande pra conseguir aquele um milhão e duzentas de assinaturas. E é muito difícil fazer isso sem muito dinheiro. Você tem que mobilizar uma quantidade de apoios absurda. Só um cara louco com o apoio de outro louco faz uma loucura daquelas. E eu acho que o Tietê, pra mim, está bom. Demora, mas olha aí, o rio está sendo trabalhado, está sendo feito. É uma obra gigantesca, e essa quantidade de ações que foram feitas até o esgotamento. Eu acho que, pra mim, foi marcante. Tem, claro, Cananéia, fizeram um trabalho lindo de educação ambiental. Tem várias coisas que a S.O.S. faz legais, nos parques lá, Ibirapuera, algumas campanhas, mas pra mim o Tietê foi uma ação... Porque é uma ação de base. Ela acabou se disseminando de tal forma que a população hoje está acompanhando atenta o que é que acontece, o Projeto Pomar. É uma coisa marcante na história da cidade. A hora que inaugurar isso, terá um monte de vovôzinhos que vão falar: “Está vendo, eu não disse... Eu também assinei, não sei o quê." Porque demora.

 

P/1- E a seu ver, Sandra, quais são as perspectivas, a médio e longo prazo, pra Mata Atlântica, pro bioma Mata Atlântica?

 

R- Assim, eu continuo achando que há perigo, e um perigo muito forte. Eu não vejo ainda, na população em geral, uma consciência da preservação no nível que a gente precisaria ter, pra tipo assim, o vizinho dedar o outro de que está cortando. Tem um pouco em determinados locais, mas o bioma Mata Atlântica é muito grande. E você tem uma área de litoral onde tem especulação imobiliária, hoteleira, num nível que o controle teria que ser muito mais rígido. O nível de corrupção mais baixo, porque assim, dá para fazer hotéis maravilhosos sem você azulejar tudo. E preservando mangues, preservando áreas muito importantes, delicadas, desse bioma. Não só na litorânea como dentro também, dá pra desenvolver projetos de ecoturismo fantásticos, com cavalgadas, com coisas que não vão deteriorar locais maravilhosos, mas eu acho que falta decisão estratégica governamental. A Mata Atlântica, eu acho que ela, pra mim, é um ponto de alerta. Ela tem que ser sempre um sinal vermelho, tem que ter sempre um Greenpeace de olho, uma fundação de olho. Não é pra um só. É um negócio muito grande, muito perigoso. Por estar no litoral, é muito atacado de todos os flancos. Então eu ainda tenho medo, eu sempre estou pronta pra me engajar onde for possível, porque eu acho que cada vez mais gente não devia ficar com a... Vamos dizer, ficar sempre em alerta, sempre em estado de alerta, porque pra mim ainda não está garantido não.

 

P/1 - E qual o maior problema que você acha que tem em relação à degradação?

R- Eu acho a corrupção. Porque você tem leis, você tem legislação protegendo. Aliás, lei é o que não falta nesse país nesse país. Você não tem aplicação da lei. Então não se aplica por quê? Porque alguém não olhou ou fingiu que não viu. Pra mim, a corrupção é um grande problema no Brasil, um grande vilão, e a educação, vamos dizer, a cultura, óbvio que é a cultura de deixar fazer. Vem um especulador ‘x’, faz um projeto de hotel maravilhoso... Pra ele, porque vai lotar três mil pessoas naquele local, todos passando férias, um em cima do outro, como se isso fosse uma coisa boa. Não é por aí. E acaba induzindo a cidadezinha, "vai ter desenvolvimento, nós vamos então...". Por isso que eu tenho um projeto, na minha empresa tem uma área chamada Casa Brasil, que é Projetos para o Desenvolvimento Econômico, Projetos de Cultura para o Desenvolvimento Econômico, e são projetos exatamente focando isso, usar nossa cultura, patrimônio, história, para desenvolver economicamente aquela região, e não deixar deteriorar só porque trouxe dinheiro, não é isso. Tem outras moedas.

 

P/1- Criar consciência sobre esse aspecto também.

 

R- É, então o grande perigo pra mim é esse, porque a Mata Atlântica, pra mim, não está salva não.

 

P/1- Tem que ficar esperto!

 

R- É, pra mim ela...

 

P/1- E Sandra, na sua opinião, existe um ponto que necessite de reformulação em relação à Fundação S.O.S Mata Atlântica?

 

R- Eu acho que ela deveria se desburocratizar um pouco mais, talvez. Eu acho assim, ela cresceu, cresceu, cresceu, depois encolheu. Ela tem uma metodologia de trabalho que eu acho interessante, mas não sei, eu acho que isso é um desafio de todas as empresas. Na verdade, de todas as organizações, hoje. Como atender, replicar, fazer uma onda de militância? Você ter os militantes na sua porta a hora que você precisa, e prontos pra te ajudar, e prontos a agir e criar esses vírus? Essa atividade viral que precisa ser criada na Fundação, eu acho que ela ainda é... Ela existia um pouco no Tietê. Agora não tem mais no nível que estava antes, mas por causa de um empuxo muito grande pessoal, de quem estava envolvido. Saem as pessoas, a metodologia não é suficiente pra continuar essa atividade. Então eu acho que talvez a área de militância... Porque a área de estudo, de links com o governo, fazer isso... Eles são perfeitos. Eu acho que eles fazem bem, estão sempre atentos e tal, mas eu acho a militância... Eu talvez tentasse discutir uma nova estrutura de fazer isso, mas isso não é só lá, é em várias ONGs que existe o mesmo problema. Existe problema na Fundação Abrinq, em outras ONGs que a gente participa e que é uma grande discussão: "como monitorar e como gerenciar as pessoas à distância, mantendo-as ativas e acreditando naquilo, acreditando que você pode fazer a diferença? A hora que você precisar, você está lá, um exército meio invisível, assim?”. Acho que isso é fantástico.

 

P/1- Sandra, como você enxerga a Fundação hoje?

 

R- Eu acho que é uma entidade sólida. Vejo lá... Vamos dizer madura. Jovem ainda, não madura no sentido de “já está precisando de reformas”, e eu acho que ela é um marco. Pra mim ela é como se fosse um patrimônio brasileiro. A Fundação, pra mim, na área ambiental, é um patrimônio que precisa ser preservado e lutar pra que ele não suma. Ele não pode sumir, ele tem que estar aí, preservadinho no algodão - no algodão assim, sempre vivo, não morto. E ela tem que continuar, pra mim é uma coisa que deu certo, uma ação que deu certo e que é muito boa, inclusive.

 

P/1- E daqui a dez anos, como você vê a Fundação, onde você vê a Fundação?

 

R- Eu acho que daqui a dez anos a Fundação vai continuar muito atenta à deterioração da Mata Atlântica. Acho que ela, nessa coisa da militância, vai ser reestruturada, vai ser ampliada. Não tem outra alternativa, e você vai ter outros tipos de gestões por conta da tecnologia mesmo. A tecnologia de monitoração à distância, isso tudo vai estar muito mais acessível daqui a uns anos. Então eu acho que o ambientalismo vai mudar também, a questão de como você monitora. Você vai ter gente com micro celular, computador, dando dicas, pontos de apoio. Por isso que eu falo da militância ativa.  Então o cara tem um plug ali que está te avisando: "ó, estão cortando tal coisa, estão...". Isso você tem uma central de informações, você fica um grande irmão daquela área, vira um preservador daquela área, usando tecnologia. Acho que ela vai usar muita tecnologia, e ela vai desenvolver técnicas de participação diferenciadas. Mas eu acho que ela precisar continuar muito alerta. Acho que...

 

P/1- Pra tomar conta desse patrimônio todo.

 

R- É, pra tomar conta desse... É porque não...

 

P/1- Natural...

 

R- Acho que não, continua assim.

 

P/1- Sandra, o que a Fundação significa pra você?

 

R- Pra mim, eu me sinto assim, parte. É uma coisa que concretiza um monte de ideias, que eram ideias que começaram sendo tachadas de malucas nos meios aonde eu vivia e que se transformaram numa coisa concreta, que é esse rio que está sendo trabalhado, os programas de educação ambiental de ponta que eles fazem. A concretização e a disseminação de um conceito de preservação ambiental com educação, com consequência. Não é um bando de malucos, é a concretização de um sonho, na verdade. Então eu acho que transformar em realidade aquelas ideias que a gente só imaginava... Quer dizer, é muito legal pensar isso, que você, um dia... Não é que você imaginou a Fundação logo no início da OIKOS, por exemplo, a gente não imaginou nada. A gente só queria. A gente não concordava com que existia. E dessas ideias, desse não concordar, desse querer fazer, você acaba concretizando e construindo coisas. Quer dizer, se você for pensar, é uma revolução isso, é uma força incrível. Basta você ter uma ideia, você acreditar nela, se sacrificar por ela, que você concretiza isso e muda a vida de muitas pessoas. Então acho que muita gente acabou montando agência de ecoturismo, abrindo negócios, vivendo melhor ou vivendo de outra forma que não pensavam e preservando, por conta de um grupo de loucos, que começaram a uns dez, 20 anos atrás, fazendo essa maçaroca, o tempo todo maçaroca verde aí. Falando, falando, falando até que... Pra mim é um orgulho, eu tenho orgulho da S.O.S., eu tenho muito orgulho mesmo.

 

P/1- Sandra, eu fiquei sem perguntar alguma coisa que você acha importante de deixar registrado?

 

R- Eu acho que só uma coisa, a questão, pra mim, hoje... Não sei se entra aqui nesse depoimento, mas a questão da integração da cultura, a tecnologia e o meio ambiente, pra mim são... É a fase onde eu estou agora. Então eu não consigo entender o meio ambiente sem a questão do agente cultural.  A cultura tem um papel fundamental na preservação de valores e de coisas importantes para a nossa vida. Então preservar significa memória, qualidade de vida, lutar por nossas identidades. Para mim, hoje, é a coisa mais importante. Eu vejo esse mix se fazendo hoje, de cultura, meio ambiente e tecnologia... Porque sem a tecnologia você não consegue chegar nisso. Eu consigo ver que o movimento ambiental vai estar muito próximo, em breve, da cultura. Eu não consigo ver ele dissociado mais disso, e era uma coisa que eu não via há anos. Era o ambientalismo, e o pessoal da cultura, que tinha a ver com teatro. Mas hoje não, hoje eu vejo um link muito forte entre essas duas pontes, e eu acho que isso vai acabar formando, aglutinando um tipo de pessoas que vão trabalhar projetos em várias áreas, mas que tem que ser uma vertente a ser levada em consideração na hora de tomar uma decisão.  Então o cara vai construir um prédio não sei aonde, tem que ouvir esse sujeito, que não sei como vai se chamar, que é o preservador cultural, o urbanista que vai ter que falar: "Sim, não. Olha o perigo aqui.", que seria uma espécie de olheiro e garantidor do todo. É como um ombudsman, mais ou menos, mas com essa vertente. Então não tenho isso muito claro ainda, mas eu vejo que algumas pessoas estão partindo pra isso.

 

P/1- Você acha que é para aí que caminha?

 

R- Pra mim, eu vejo assim, eu acho que o meio ambiente e a tecnologia estão andando numa linha só agora.

 

P/1- Vai chegar num ponto em que elas vão, efetivamente, se cruzar.

 

R- É, elas vão. Você vai partir para um patamar mais sofisticado, eu acho que é isso.

 

P/1- Vamos torcer. Muito obrigado, Sandra.

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