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História

Longevidade, atividade e serenidade

História de: Isaltina Uehara
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/10/2017

Sinopse

Órfã de mãe aos dois anos de idade, ganhou nova família e novos irmãos a partir do segundo casamento de seu pai. Isaltina guarda doces lembranças da infância, das brincadeiras com os irmãos e dos tempos de escola. E outras não tanto, como, por exemplo, o envio do pai para o interior do estado, por ocasião da Segunda Guerra Mundial. Mas foi por pouco tempo, pois ele era naturalizado e assim pôde estar de volta em alguns meses. Por sorte, sua irmã mais velha exerceu a guarda dos irmãos menores e, desta forma, ninguém precisou largar os estudos. O filho de uma amiga da família foi seu primeiro namorado. E o último. Em pouco tempo, estavam casados. Foram viver na casa dele, com a mãe já idosa. Como nos contos de fada, viveram felizes até a morte dele, aos 69 anos. Foram anos de muito entendimento, muito trabalho, muito movimento e muitos filhos - sete para criar, uma que se foi ao nascer. Isaltina, guerreira, deu conta de tudo: da criação das crianças; da casa grande; da carreira política do marido; do trabalho voluntário; do dia sagrado de cinema com o marido, seguido de jantar fora; da casa sempre cheia; das festas, aniversários, Natais… Amarga, no entanto, a perda precoce do filho médico - aos 52 anos - mas, em compensação, tem muito a agradecer a Deus porque todos eles se encaminharam, seja nas respectivas profissões, seja na vida pessoal, deram-lhe netos, que relutam, no entanto, em dar-lhe um bisneto, e, de tudo o que viveu, almeja apenas morrer em paz e deixar todos os seus também em paz. Afinal, paz é o que deseja para o mundo.

História completa

Nasci no dia 09 de setembro do ano de 1928, na cidade de Santos, litoral sul de São Paulo. Meus pais vieram de Okinawa, no Japão. Ele, Bunguru Naka e ela, Carmem Naka. Ela morreu quando eu tinha apenas dois anos de idade.

Como tantos outros imigrantes, meu pai veio, inicialmente, para trabalhar em lavoura de café, no interior do estado. Não se adaptou, fugiu sabe-se lá como, e chegou em Santos. Trabalhou nas docas, depois como chofer, e depois comprou barcos de pesca, pode-se dizer que, de certa forma, prosperou. Pelo menos não vivia com dificuldade.

Então, eu tive um irmão e uma irmã daquela união e, posteriormente, outro irmão e outra irmã, fruto de um segundo casamento de meu pai. Com as duas filhas de minha madrasta, foram sete crianças em casa. Com harmonia, entendimento, amizade, alegria. Minha madrasta cuidava da gente, e se preocupava também. Tínhamos uma vida com certas “regalias”, porque meu pai era um homem moderno. À medida que foi ganhando, foi suprindo a casa de coisas modernas, eletrodomésticos, etc. Só tenho boas recordações de minha infância, das brincadeiras na rua, da escola…

Meu pai se abrasileirou muito. Tanto que, por exemplo, meu nome é tipicamente português - Isaltina - sugerido por um amigo português dele, que, inclusive me batizou. Porém, como todo filho de japonês, tenho um nome do idioma - no caso, Ayako - só que registrado apenas no consulado do Japão. Meu pai, como disse, era profundamente vinculado à terra que o acolheu, o que, todavia, não impediu que, por ocasião da guerra, ele fosse “deportado” para o interior. Mas foram poucos meses, já que ele era naturalizado. Lembro de que, nesse período, fui criada por minha irmã mais velha - já com vinte e um anos - o que evitou que eu tivesse que abandonar a escola.

Meu primeiro e único namorado foi meu marido. Casamos numa festa muito bonita, num hotel, e vivemos muito bem até a morte dele com 69 anos. Eu estava com 65. Tivemos sete filhos, seis sobreviveram. Ele trabalhava em um escritório - não sei direito, mas acho que comercializavam bananas - e ele sempre foi muito ativo. Jogava basquete, onde foi craque, cestinha. Montou um clube, que meus filhos e todos nós frequentamos a vida inteira, e ele foi, durante anos, o presidente. Mantinha importantes relações no esporte, na Prefeitura e junto à colônia - ajudou muita gente recém-chegada. Até que entrou para a política: foi vereador por 29 anos.

Foi uma trabalheira criar sete filhos - a primeira perdi com um dia de nascida - mas valeu a pena. Exceção feita ao mais velho, que morreu com cinquenta e dois anos e que era médico, estão todos bem, graças a Deus. Nenhum deles me deu trabalho além do que era normal. Alguns foram para o exterior - teve um que ficou trinta anos na França - mas hoje sempre tem algum deles me visitando fim de semana. Cada qual com seu temperamento, sua profissão, sua vida, sua família, seus interesses, sua dinâmica. Um é ligado em futebol, o outro adora leitura, a outra fala pelos cotovelos…

E agora - aliás, praticamente desde que saíram para estudar em São Paulo, na USP - a casa perdeu aquele movimento febril de quando eram pequenos e ainda traziam os coleguinhas para dentro de casa. Hoje, praticamente, não saio mais sozinha, mas volta e meia um filho me pega para ir a um clube, um evento, uma festa. Andei participando de algumas homenagens - como os cem anos da imigração japonesa e algumas outras pelo trabalho de meu marido. Ajudei muito em trabalho voluntário, o que sempre gostei de fazer. Vivo hoje o único sonho de morrer em paz e deixar todos os meus filhos também desfrutando de paz, num mundo tão conturbado. Aliás, eu só peço a Deus que dê paz a esse mundo.

 

Editado por Paulo Rodrigues Ferreira


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