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História

Longe das cidades

História de: José Moreira dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/09/2011

Sinopse

José nos conta como é viver em sua comunidade, os kalunga, remanescentes de quilombolas. Costumam plantar e viver do que plantam, vendendo parte para conseguir o restante que precisam. Ele também nos conta dos costumes locais e dos impactos que sofrem sem infraestrutura, como hospitais e escolas.

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História completa

P/1 – Então, seu José, primeiro boa tarde. Pra começar, eu queria que você me dissesse seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – José Moreira dos Santos. Sou de 68, de agosto.

 

P/1 – E qual o nome dos seus pais?

 

R – Denetino e Eva.

 

P/1 – E o senhor vivia onde? Onde o senhor nasceu?

 

R – Ah, a gente... Meus avós... Eu nasci no Vão de Almas. Meu avô foi nascido lá, o pai de meu avô foi nascido lá. E nós vivemos lá até hoje. Agora essa história da onde meu avô veio, o pai do meu avô, até hoje a gente tá sendo descoberto diretamente. Diz que foi vindo da mina de ouro, outro fala que é da África, mas até hoje nós mesmos não sabemos de onde nós somos.

 

P/1 – E qual é a origem da comunidade, como ela surgiu?

 

R – Surgiu lá, tipo assim: nasceu, ninguém não sabe contar. Não sabe se é da África... É Kalunga. Mas esse nome de Kalunga foi por uma grota, um pé de árvore, aí nasceu por esse pé de árvore, nós pusemos os nomes nos kalungas todos, no pessoal.

 

P/1 – E como é a comunidade lá, você pode descrever pra gente?

R – Ah, na comunidade a pessoa trabalha: planta arroz, mandioca... E aí a gente come do que produz. Aí vende a farinha e compra um óleo, um feijão, açúcar... Feijão lá é muito lugar que não dá. Dá aquele de corda, mas aquele de arrancar ele não dá. E aí a gente vive daquilo que produz.

 

P/1 – E desde criança você vive lá?

 

R – Diretamente.

 

P/1 – E quando o senhor era criança, o senhor convivia com quem?

 

R – Meu pai.

 

P/1 – E qual é o nome dos seus pais?

 

R – Denetino.

 

P/1 – Denetino? E o que vocês brincavam quando criança? Que lembrança o senhor tem da infância...?

 

R – Ah, lá era luta, jogar caco de barro nos outros. Diretamente a gente brincava muito tempo. Lá a gente brinca todo mundo: criança, gente adulto, pode brincar... Igual aqui. Aqui só não dança quem não quer, mas a gente tá cantando lá, pode pular todo mundo.

 

P/1 – E o senhor tem irmãos?

 

R – Tem, nós somos nove.

 

P/1 – Nove irmãos? E o senhor é o filho mais novo?

 

R – Não, eu sou assim: eu tô com 36 e tem irmão já de cinquenta.

 

P/1 – E como era a infância com todos esses irmãos? Como você convivia...?

 

R – Ah, lá é igual eu tô falando: só na luta, brincando, rolando no chão, que era muito difícil lá pra nós. Era e é, porque lá na comunidade nossa não tem estrada ainda, tem uma parte da comunidade Kalunga – Riachão –, mas no Vão de Almas não tem. O governo promete todo ano e nunca chega. E a gente carrega pessoalmente, diretamente na rede, distância longe. Agora, esses dias mesmo, quase uma mulher morre lá. Se a gente não carrega na rede... E agora nasceu também lá um telefone, eles conseguiram uma torre de telefone. Aí que tá, ligamos pro carro que vai diretamente, duas horas, três horas. É o socorro melhor que a gente tem agora.

 

P/1 – E do que o senhor sabe da sua cultura, quem ensinou foi o seu pai e o seu avô?

 

R – Tem, meu avô me ensinou muita reza também, bendita. Levantava três horas da manhã pra me ensinar a rezar. Dava um sono, uma preguiça... Me levantar de noite pra ensinar a rezar!

 

P/1 – E que outras lembranças você tem do seu avô, do convívio com ele...?

 

R – Outra lembrança é que ele pegava o sal em Formosa, ia de cavalo. Porque antigamente não tinha sal por aqui, aqui não tinha cidade por esses locais. Ele ia em Formosa pegar o sal lá, gastava um mês de viagem no cavalo.

 

P/1 – E a casa de vocês, como era...?

 

R – É de palha, até hoje.

P/1 – E você vive na mesma casa da sua infância?

 

R – Não, eu já casei, aí eu tenho a minha, meu pai tem a dele... Todos que vão casando vão saindo de casa, da casa dos pais.

 

P/1 – E o senhor frequentou escola?

 

R – Não estudei, quase... Nessa época, da minha idade não tinha escola lá por perto. A escola mais perto era a duas, três léguas de distância.

 

P/1 – E tudo o que o senhor aprendeu foram os seus pais que ensinaram?

 

R – Eu aprendi um pouquinho, assim, um estudinho, mas fora. Assim, eu andando mesmo.

 

P/1 – E o senhor se recorda da primeira vez em que o senhor saiu da comunidade, a primeira vez em que vocês foram pra fora de lá?

 

R – É, eu… A primeira cidade que eu conheci não era cidade, era uma estrada de rodagem igual essa aqui, na Ponte Paraná. A primeira vez em que eu vi carro, nós vimos aquele trenzão, aí eu rasguei no mato... Meu pai correu demais pra me pegar. Não conhecia e o bicho lá “uhhh”, “Ó, o bicho aí”! Rasguei no mato! Não conhecia...

 

P/1 – E tem outros episódios? Desde então, o senhor começou a frequentar a cidade? Com que frequência vocês iam visitar a cidade?

 

R – Ah, a cidade, [quando] eu comecei a vir eu tava com uns oito anos, por aí.

 

P/1 – Vocês sempre falavam português na comunidade ou vocês tem alguma língua?

 

R – Nós só falamos normal, igual eu tô falando. Às vezes tem hora que a gente fala outra linguagem, que a gente é meio tonto.

 

P/1 – E quando o senhor se casou?

 

R – Ah, o casamento... Casamento, eu casei na fogueira. É tradição nossa lá mesmo. No padre não tem, meu documento é virgem até hoje. Eu posso casar a qualquer hora!

 

P/1 – E como é essa tradição do casamento...?

 

R – Lá você faz uma fogueira, tem o padre de lá mesmo da comunidade Kalunga, aí casa, aí entra. Uns trinta minutos tá casado.

 

P/1 – E o senhor se recorda de quando conheceu a mulher?

 

R – Não, lá você casa sem se conhecer. Você namora. Mas não tem nada a ver, só de beijo. A não ser que ela dê muita chance, aí você já... Você já casa sabendo da fruta.

 

P/1 – E o senhor tem filhos?

 

R – Tenho.

 

P/1 – E como foi pro senhor ser pai pela primeira vez?

 

R – Ah, ali foi... Eu fui amigado. Amiguei com a dona, aí ela engravidou. E aí eu larguei. A primeira mãe do meu filho. Eu casei com outra, ela tornou a me tomar da outra, aí eu tô com ela até hoje.

 

P/1 – Os seus filhos hoje já são grandes?

 

R – Tem uma grande, tem dois grandes: tem uma já casada já, com dezoito anos. Tem outra de quinze anos que vai casar agora, dia quatro de setembro, Ana Paula.

 

P/1 – E tudo o que seus avós te ensinaram, os seus pais te ensinaram da cultura, o senhor passa pra eles?

 

R – A-ham.

 

P/1 – O que é que o senhor se recorda de ensiná-los? De você ter passado, que elementos importantes da cultura, você acha?

 

R – Ali, mais a gente... Eles passaram só rezinha, boca da noite, dar um conselho pra não brincar na água que afoga. Isso aí a gente sempre não esquece, que é uma coisa muito perigosa. A gente mora na beira do rio, tem que estar ralhando com eles direto: “Vocês não vão pra água não, só vão quando nós formos!” Se deixa eles irem sozinhos, o pequeninho não sabe nadar, aí chega lá e “tchum” e afoga. Isso aí eles nos ensinaram e a gente passa pra eles direto. E a reza bendito, pra poder dormir, fazer o “Em nome do pai”...

 

P/1 – E qual a importância que o senhor acha que tem de preservar a cultura, de ensinar pra todo mundo... Que importância o senhor acha que tem?

 

R – Ah, na cultura eu acho muito importante não estar desmatando as árvores. Porque a chuva fugiu muito da terra por causa do desmatamento. Não é no Kalunga, mas aqui fora, no Kalunga pra aqui... Tem local que você anda uns cem quilômetros e você não vê um pé de árvore, a mata assim, igual nós temos lá. Então acho que a chuva fugiu mais da terra e o sol baixou. Porque pra nós, lá, tem ano que nós perdemos muita roça por falta de chuva.

 

P/1 – E de quando o senhor era criança pra hoje, que diferenças o senhor vê na comunidade, o que é que mudou?

R – Ah, mudou muita coisa. Eu não conhecia as pessoas mais brancas. Eu nunca tinha... Tem hora que a gente sai, dá uma namoradinha com uma mulher mais branca escondido...  Então você conhece mais coisas... As coisas mais inteligentes, importantes.... Uma gravação... Porque pra nós lá, a gente ouvia falar no rádio. As crianças lá queriam quebrar o rádio pra ver se tinha gente lá dentro. E hoje todo mundo já tá sabendo que não tem ninguém lá dentro, só a fala deles, então a gente aprendeu muita coisa.

 

P/1 – Que mais que o senhor se recorda que chegou da cidade e que o senhor vê que é muito diferente de quando era criança?

 

R – Lá pra nós não tem esse monte de casa assim, perto da outra. É uma casa de uma légua, uns doze quilômetros... Tem um povoadinho de cem em cem metros, mas uma cidade igual casa amontoada assim, em cima da outra, lá nós não temos. Então a gente viu aquele povão: será que vê todo mundo, todo dia, vendo uns aos outros? Porque lá nós passamos mês, dois meses sem ver os parentes... Tem parentes que a gente passa ano. A gente vê de ano ou outro. Só pra dar festa em agosto.

 

P/1 – E que festas são essas?

 

R – Nossa Senhora da Abadia!

 

P/1 – E que outras festas vocês tem durante o ano?

 

R – Ih, lá tem muita: tem do Divino, Senhora das Neves, São João, Santo Antônio... São Gonçalo...

 

P/1 – E durante as festas, normalmente, o que é que vocês fazem? Se reúnem?

 

R – Não, se fez uma festa lá, a gente já tá indo. Não precisa nem chamar, não!

 

P/1 – E aí tem comida à vontade, tem de tudo...?

 

R – Comida todinha!

 

P/1 – O senhor comentou agora que vocês vivem muito distantes, as casas ficam distantes uma da outra. Cada casa tem o seu espaço de plantio?

 

R – Cada um planta pra ele. Só que tem homem que não honra a roça. A gente passa pra ele, dá uns dois, três sacos, outra hora vende... A gente convive assim.  

 

P/1 – E esse ano é o primeiro encontro em que vocês vem pro encontro, ou vocês vieram já outras vezes?

 

R – Ah, tem três anos que eu venho aqui!

 

P/1 – E como foi a primeira vez em que o senhor veio aqui pro encontro?

 

R – Ah, a primeira vez foi normal. Eu já viajei muito, já fui pro Rio, Espírito Santo, já... Achei diferencinha pra falar no microfone... A primeira vez lá, falar com deputado, senador, governador, tudo na minha frente... Eu falei normal, mas o amigo meu não conseguiu nem beber a água.  Aí eu [fiquei] tranquilo!

 

P/1 – E normalmente quando vocês viajam, vocês viajam pra fazer apresentação? O que vocês levam?

 

R – A gente só leva a fala mesmo, se paga tudo pra gente.

 

P/1 – E nas apresentações vocês fazem o que? Vocês fazem as rezas, como é? Conta pra quem não sabe...

 

R – Não, a gente vai apresentar e pedir força pra comunidade, pedir o que tá faltando... Só que não chega.

 

P/1 – Hoje os problemas da comunidade são quais? Se o senhor puder falar, o que vocês acham que são problemas sérios?

 

R – Ah, o que precisa mais é estrada. Água encanada... Porque a gente bebe água lá de qualquer rio... E pegando a água de uma serra nascente é muito melhor.

 

P/1 – Qual o seu sonho pro futuro, uma coisa que o senhor quer muito, que o senhor deseje pra os seus filhos de melhora para o futuro?

 

R – Pra os meus filhos eu desejo um bom estudo e tirar a gente desse sofrimento, com uma hora adoecer e estar levando pra cidade e vendo a hora de perder ele... Então o que eu quero pra eles é ter uma estrada e um posto de saúde lá dentro da comunidade.

 

P/1 – E tem alguma coisa que eu não perguntei pro senhor e que o senhor gostaria de falar? Eu queria abrir o espaço pro senhor ficar à vontade, se o senhor quiser falar alguma coisa.

 

R – ...Não, eu acho que.... Tudo que eu tinha pra falar, você fez a pergunta, tudo!

 

P/1 – Tá ok, Seu José. Muito obrigado, então!

 

R – De nada.




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