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Liderar, Viver, Construir

História de: Lúcia Helena de Carvalho
Autor: Ana Paula
Publicado em: 15/06/2021

Sinopse

A entrevista narra a história de líder sindical, de associações, de líder política, de uma vocação e desejo de atuar politicamente e melhorar a vida dos seus contemporâneos na cidade de Ceilândia, no Distrito Federal.

História completa

Projeto Memória Compartilhada Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Lúcia Helena de Carvalho Entrevistado por Lenir Justo. Brasília, 10 de março de 2009 Código: MDF_HV023 Transcrito por Maria Christina de Almeida Macedo Revisado por Marconi de Albuquerque Urquiza P/1 – Lúcia, boa tarde. Vamos começar com você nos falando seu nome completo, local e a data de nascimento. R – Meu nome é Lúcia Helena de Carvalho. Eu nasci em Londrina, Paraná. No dia 8 de abril de 1954. P/1 – E qual a sua atividade atual? R – Atualmente eu sou gerente do patrimônio da União. P/1 – E qual é o nome dos seus pais? R - Meu pai se chama Daniel Rodrigues de Carvalho. E minha mãe, Julia Marquesete de Carvalho. P/1 – E o nome dos seus avós? R - A minha avó chamava-se Antônia de Jesus Gomes. E meu avô João Batista Marquesete. Um italiano e outro português. P/1 – Esses avós são por parte de... R – De mãe. P/1 – E os de pai? R – E os de pai é Guilhermina de Carvalho. E o pai dele, não houve registro do seu pai. Não conheci. P/1 – Certo. E você conviveu assim com seus avós? Você sabe de onde eles vieram? R – Muito pouco, muito pouco. Só com uma das avós que morou com a gente até os meus 15 anos. P/1 – E ela era... R - Nacionalidade portuguesa, ela. Veio para o Brasil no início do século passado. E me lembro muito dela trabalhando, estando junto com a gente. P/1 – E a profissão dos seus pais? R - Meu pai inicialmente tentou ser trabalhador rural, mas não deu certo. E acabou indo pra cidade, se especializou na área de eletricidade. Então, eletricista. E minha mãe era professora. Inicialmente sem qualquer formação, depois conseguiu terminar o segundo grau. E era o que a gente hoje fala: professora primária. P/1 – Certo. E você tem irmãos? R – Tenho um irmão. P/1 – Um irmão. Fala um pouquinho dele. R – É. Ele mora aqui em Brasília, tem sua família constituída. Mas a gente tem algum tempo que não se relaciona muito próximo. Mas ele foi bancário do Banco do Brasil, atuou muito também nos movimentos. E hoje acho que ele toca a vida dele mais isoladamente. P/1 – E como era a cidade em que você passou a sua infância? Foi lá em Londrina? R – Londrina. P/1 – E como era Londrina na sua infância? R - Uma cidade muito bonita, uma cidade com muita árvore, muita área pra criança brincar. E quando eu retorno lá hoje ela é dez vezes, 20 vezes maior. Mas ela conserva muito a beleza daquelas cidades do norte do Paraná. Além disso, minha infância também foi na zona rural. Eu trabalhei e morei muitos anos, eu e minha família, tentando lavoura em parceria. Tinha o proprietário e a gente era meeiro, então a gente ajudava a plantar. As crianças ajudavam a plantar café, algodão, milho. Então eu trabalhei muito tempo na roça. P/1 – [Risos]. Isso foi na fase assim: sua primeira infância? R – De três. Isso. Me lembro muito bem disso. De três até seis anos. P/1 – Conta um pouquinho como era assim. R – Não. A gente trabalhava muito. Criança trabalhava muito [risos]. E as condições. P/1 – Mas não brincava? R – Não, brincava também. Mas assim: a gente lembra que tinha muita tarefa. Levava a marmita pro pai na roça, né? Limpar pé de café; colher algodão, que era uma coisa que machucava muito as mãos. Eu me lembro disso. Colher amendoim. Então, ao mesmo tempo que a gente trabalhava, a gente brincava. Então tinha a hora que a gente fazia as brincadeiras com as coisas que a gente colhia da natureza. Eu me lembro muito disso, eu não sei se as crianças no Paraná ainda brincam. Aqui a gente brinca de biloca. Vê os meninos pegam as bolinhas, né? A gente brincava com os felipes de café. Então quanto mais perfeitos os cafés colados, mais as crianças, né, colecionavam aquilo. E era um troféu. Então eram as nossas brincadeiras de campo. Além de fazer vaquinha com chuchu, né? [risos]. Com todos os tipos de produção agrícola, a gente também inventava todas as nossas brincadeiras. P/1 – Você falou de café, foi isso? R – Felipes, Felipes que chamava. P/1 – Explica pra gente o que é. R – É [risos]. É o café um coladinho no outro. Assim, os grãos que nascem germinados. Então aquilo era o troféu. P/1 – E a casa que você morava nessa época? Você lembra como era? R – As casas que nós moramos no sítio, eram casas bem, eu diria, simples, né? Na tentativa de ter tudo limpinho. A gente teve sempre uma cultura muito organizada, né? Eu acho que era da tradição italiana e portuguesa e tal. Mas eram aquelas casas de madeiras bem simples. O chão muito enceradinho, tudo muito limpinho, mas tudo muito simples. P/1 – E quando você mudou pra Londrina. R – Isso. Aí eu já estava com sete anos; idade de ter que ir pra escola. Eu, e meu irmão e minha irmã, que já faleceu. E enfim, fomos pra cidade. Minha mãe foi trabalhar como professora na cidade e meu pai como eletricista. E nós tivemos uma infância e uma juventude lá bem, eu diria, também com muita luta. Muito trabalho. P/1 – E quais eram as brincadeiras dessa época de cidade? R – Da época? P/1 – Eram muito diferentes daquelas que vocês... R - Ah, muito. Muito, com certeza. Não, aí a gente começou a fazer mais coisas no quintal, né? Brincadeiras tradicionais de casinha, boneca, bola. A gente jogava muita queimada. Que era bola, né? Aquele jogo que tem até hoje. Entre meninos e meninas. Então eu me lembro de muito jogo na rua. Mas ali em Londrina também tinha uma já, crescendo, a gente começou a participar de atividades culturais lá pela década de 1960. E se envolver com o movimento estudantil. Então eu me lembro já aos 15 anos, 16, me organizando com o pessoal da UNE [União Nacional dos Estudantes], da ULES [União Londrinense dos Estudantes Secundaristas]. Então já havia, né? Eu me lembro de um diário meu - eu ainda tenho até hoje, de 1964, quando eu descrevi o golpe. “Nosso país hoje”. Aí tem o dia, né? Primeiro de abril. “Está acontecendo um golpe militar; houve destituição do presidente”. Eu tenho esse diário até hoje. Então eu acho que a minha participação sempre foi muito presente na política. Eu me lembro da campanha Jânio Quadros; ele distribuía umas vassourinhas em 1959, por aí. Acho que foi. A gente aí em comício, aí tinha aqueles shows de fogos e tinha as vassourinhas. Ele ia limpar o Brasil, né? [Risos] Então eu acho que é uma coisa muito marcante na minha vida política, que política sempre foi uma coisa muito legal [riso]. E deixar de fazer política; você vê, em 1964 também, eu com dez anos, eu já colocava que era uma coisa ruim o que os militares estavam fazendo. E não havia influência do meu pai e da minha mãe. Era uma análise da criança de dez anos. Eu tenho isso escrito, por isso [risos]. P/1 – Voltando assim um pouquinho, quando você iniciou lá seus estudos. Você lembra da primeira escola que foi? Como foi? R – Lembro. A primeira professora foi a minha mãe, né? Era muito difícil juntar o A com o E, o I com o O, aquela confusão, aquela cartilhazinha pequinininha que só tinha as letras, não tinha uma figura. Então aos seis anos ela tentou me alfabetizar, foi muito difícil. Mas aos sete anos eu fui para um colégio muito bom, chamado Hugo Simas, já na cidade. Então eu gostei muito, né? Da minha professora Ieda; a mãe dela era assistente dela. E foi muito importante pra mim a minha alfabetização, minhas notas; eu tenho as provinhas, tudo, até hoje. P/1 – Você tem alguma lembrança marcante desse período? R – Não, que foi muito bom aprender a ler. [Risos]. Só isso. P/1 – E como você acha que os estudos, claro, depois você prosseguiu, né? R – Tem uma coisa marcante que hoje eu vejo as pessoas preocupadas. Eu pegava ônibus, eu lembro que eu morava na Vila Brasil e o colégio ficava acho que uns dez quilômetros. Então eu ia de ônibus e voltava com sete anos de idade. Eu ia sozinha e voltava sozinha. Então assim é uma coisa que hoje você comparando com o grau de violência, né? É tão difícil as mães permitirem que seus filhos façam isso, né? E a minha mãe permitia e eu nunca me lembro de ter sofrido nenhum tipo de violência por parte de ninguém. Então realmente os tempos são muito diferentes. P/1 – E depois você continuou, você chegou a continuar seus estudos? R - Eu estudei em Londrina no Hugo Simas. Depois eu fui pra o Instituto de Educação de Londrina, me formei professora. E aos 17 anos vim pra Brasília. Então eu estou aqui desde 1971. E vim pra trabalhar. Vim pra fazer o concurso de professora aqui e me estabelecer. Minha irmã já tinha vindo pra cá; meu irmão. E nós então tínhamos, assim, essa saga de sair, tudo. P/1 – Você nem chegou a trabalhar lá. R – Não. Não, você sabe que eu cheguei a trabalhar lá de manicure; eu aprendi a profissão. Eu ia pra um salão pra ganhar um dinheirinho. Então de manhã eu estudava e à tarde arranjava um tempo para fazer as unhas. É, fazer as unhas dos outros. P/1 – E você lembra o que você fez com o primeiro dinheirinho que você ganhou? R – Não especificamente. Eu me lembro que a gente tinha muito, assim, de comprar algumas coisinhas em épocas de comemorações. Como Natal, aniversários, né? Mas não teve nada de especial. Nunca me lembro assim de: o primeiro dinheiro que eu ganhei com trabalho o que eu tenha feito. Não. P/1 – E aí você veio pra Brasília. R - Vim com esse objetivo: estudar. Eu queria fazer arquitetura; em 1972 eu fiz o primeiro vestibular da UNB [Universidade de Brasília]. Desisti porque eu tinha que trabalhar pra sobreviver. Então eu comecei a trabalhar no Sesi, Serviço Social da Indústria; onde trabalhei durante seis anos. P/1 – Como professora. R - Não. Aí eu até atuei como professora nesse período, mas eu também tive outras funções. Por exemplo, foi um período muito bom que eu fui pra estabelecer a biblioteca do Sesi. Então eu aprendi a trabalhar com a classificação e ao mesmo tempo eu tinha muito tempo pra leitura. Então foi quando eu passei todos os clássicos: Jorge Amado, Machado de Assis, José de Alencar. Eu fiz uma leitura, assim, porque fiquei um bom tempo fazendo a montagem dessa biblioteca e em algum momento eu... Que a biblioteca inclusive ficou pronta, a gente tinha tempo pra leitura. Então foi muito importante pra minha formação também essa fase. E eu comecei a me interessar por teatro também. Eu vim, eu tive várias coisas paralelas. Uma coisa trabalhando, montando uma biblioteca, tendo filhos porque já em 73 eu tive o primeiro filho, a primeira filha. E ao mesmo tempo ajudando a minha irmã e o meu cunhado na reorganização da associação dos professores. Brasília sempre teve uma vida política muito intensa. Ela não foi concebida pra isso. Ela foi concebida pra ser uma cidade administrativa. Mas eu senti assim que cheguei que era uma cidade da liberdade; que as pessoas não ficavam como em Londrina, por exemplo, se importando com a sua vida, os seus vizinhos e tal, né? Existia assim uma aceitação das diferenças. Um era casado, outro era divorciado, outro era... Enfim, todas aquelas definições que naquelas cidades mais tipicamente conservadoras de interior te classificavam; no interior de São Paulo, no interior do Paraná e você conhece bem isso, né? Como mulher deve ter vivido muito essa situação. Qualquer coisa que você fazia ficava falada, qualquer namorado que você trazia no portão. Brasília não. Brasília era uma cidade libertária. Você podia ir à festa, e então não tinha essa história de saberem da sua vida. Então pra eu vir pra Brasília em primeiro de dezembro, caminhando contra o vento, no mês que estava sendo lançada essa música [risos] do Caetano Veloso, né? Sem lenço, sem documento, com o dinheiro da passagem. Foi assim a passagem pra liberdade, né? P/1 – E a sua primeira impressão, assim, de Brasília enquanto cidade, qual foi? R - Diferente. Aquela coisa no ermo, né? Aquelas áreas espaçosas. Então foi assim, foi deslumbrante. Mas como eu fui pra periferia, eu logo me encontrei com os problemas sociais e dali [risos] os movimentos sociais e sempre me acompanharam. Então o teatro; nós construímos o Teatro Favela Popular, o Oficina do Sesi que gestaram algumas pessoas como a Silvia Orthof, o Ney Matogrosso. Que são pessoas que foram oriundas desse mesmo berço. Então eu me entrosei e a gente tinha muita dificuldade, muita censura. E eu então tinha um grupo, nós participávamos de um grupo de teatro que fazia peças populares e viajava pro interior de Goiás. E o MEC [Ministério da Educação] na época comprou esse show então a gente ia. Então vivia um pouco mambembe, né? Além de filhos, essa atividade que a gente desenvolvia. Filhos, luta sindical, né? A construção da associação dos professores e também esse trabalho no movimento cultural. Eu sempre tive. P/1 – Você falou que foi pra periferia. Em qual lugar você foi morar inicialmente? R - Inicialmente eu fui pra Tabatinga, depois eu me mudei pra Ceilândia, logo depois. Que a Ceilândia é uma cidade aqui que significa Campanha de Erradicação de Invasões. Todas as pessoas que vieram construir Brasília, que moravam na periferia, em volta de Brasília, estavam começando a incomodar. Então viviam em favelas. Essas favelas foram removidas; foi a primeira grande remoção em Brasília, em 1972, eu já tinha chegado. E aí era uma cidade que foi construída assim: fizeram as ruas e jogaram as pessoas lá. Era obrigatório ir pra lá. Tiravam e levavam. A 45 quilômetros do Plano Piloto. Então lá nós construímos tudo: o movimento dos incansáveis, a união e luta do _____, né? E todo o entrosamento, o próprio sindicato dos professores nasceu naquela região e depois se espalhou pra outras. Federação de associações de moradores, luta pela representação política. Tudo foi assim, um entrelaçamento de atividades e de compartilhamento com os outros movimentos. P/1 – Esses foram assim os primeiros movimentos sociais que você teve contato, digamos assim. R - Eu quero voltar um pouquinho quando eu te disse que quando eu cheguei aqui em 1971 eu senti que Brasília tinha um ar libertário, né? Sempre vocacionada a movimentos de massa. Então assim, quando Juscelino Kubitschek morreu, que era um grande ídolo, se transformou aqui numa grande manifestação contra a ditadura. Eles tentaram abafar, mas não conseguiram. Então assim, eu acho que foi um dos grandes movimentos de massa e de protesto contra a ditadura. Voltando um pouquinho, na construção de Brasília também nós tivemos vários movimentos que significaram o protesto contra qualquer arbitrariedade em relação ao ser humano, maus tratos, etc, condições de trabalho. Na representação política houve sempre muita luta pra que nós pudéssemos escolher os nossos representantes. E em 1986 eu me lembro de um movimento que a gente caracterizou como, quer dizer, foi caracterizado, né, como um grande badernaço. E que simbolizava a nossa luta pelas liberdades. Então assim: a gente estava sempre muito sintonizado com o que acontecia no ABC Paulista, o nascimento de partidos, né, o nascimento da Central Única dos Trabalhadores. Brasília sempre foi sendo construída em consonância com isso. E não era pra ser. Era pra ser uma cidade fria, administrativa e sem vida. Mas acho que a alma do povo brasileiro fez uma centrífuga aqui e a gente protagonizou. Eu estive junto em movimentos, assim, de massa. Tanto da área da periferia, por interesses de moradia; como dos incansáveis, como dos sindicatos, como da construção da Central Única, como do partido. Então era assim: diuturnamente na militância. P/1 – Então, aqui fala que você se envolveu com a associação dos moradores de Ceilândia, né? R – Os incansáveis moradores de Ceilândia. P/1 – Ah, esses que são os incansáveis. R – Isso. P/1 – Então. E como se deu esse seu envolvimento assim? A tua participação. R - A gente já estava lá fazendo teatro e aí nós sentimos que só o teatro não bastava, que era preciso também fazer uma luta reivindicatória. Porque a terra prometida era pra ser de graça para os moradores. Depois, em 1979, mandaram os carnês com valor altíssimo. Então aí que surge o movimento dos incansáveis, todo mundo revoltado. E nós nos unimos a outros lutadores que nos ajudaram a construir as associações, né? De moradores, tanto os incansáveis da Ceilândia, como a União e Luta pra que a gente pudesse batalhar contra essas injustiças. Tanto de falta de condições da cidade, como do esquecimento praticamente das autoridades. Que estava lá a 45 quilômetros longe do poder, do poder Brasília central, como também de terem prometido que os lotes seriam de graça. Com aquela remoção absolutamente dura, forçada, retirando as pessoas de próximo dos seus locais de trabalho; tendo sido construtores de Brasília, e sendo removidos para áreas tão distantes. E depois vindo cobrar preços tão altos. Então a Ceilândia é um foco de luta até hoje. É uma cidade com muita mobilização, com muita luta, com muita, né, com muita história. E a associação dos incansáveis existe até hoje e eu fiz parte dela; ajudei a fundar outras associações também lá. P/1 – Você falou também do sindicato dos professores que você ajudou a fundar com seu cunhado. R - O sindicato dos professores foi paralelo a isso porque eu era professora. Isso. Ajudei a organizar a associação. Em 1979 nós transformamos a associação em sindicato. E eu fui a primeira presidente mulher do sindicato dos professores em 1985. Então a gente ajudou a construir, depois pegou o filho no colo e presidiu em 1985. Até 1990 eu fiquei no sindicato dos professores. E é um dos sindicatos hoje, eu diria, assim com alto grau de mobilização e de atuação. P/1 – E nessa época você já estava dando aula, já era... R – Sempre. A minha vida o tempo todo foi professora com várias atividades paralelas: mãe, cultura [risos], associação de moradores. A minha atividade principal era ser professora que demandava oito horas por dia. As outras horas que o dia me deixava [risos], eu era mãe e sindicalista do movimento popular, cultural e sindical. P/1 – E a vida pública assim de Brasília, nesse período como era? R - Como você está perguntando? O que se coloca como vida pública? P/1 – Como se davam as coisas assim nesse plano de Brasília mesmo; os políticos, essa coisa toda. Bom, você já falou que você... R – Até 1990 nós éramos representados no Senado por uma comissão no Senado. Não existia, né? Em 1986 nós tivemos, quer dizer, a primeira Constituição nos permitiu fazer, ter representação política, né? E aí, a partir daí, nós começamos a eleger nossos representantes. P/1 – Então, e essa luta pela representação política de Brasília, você teve um papel assim... R - Fazia parte das comissões de mobilização. A gente fez abaixo assinado, apresentou emendas, né? Assim, pra Constituição, pra que tivesse referendo popular. Então a gente colhia assinaturas na rodoviária, fazíamos parte de um comitê pela representação política. Fazíamos atividades mesmo de rua com panfletagem, interpartidária, né? Eu já era do Partido dos Trabalhadores, já estava no sindicato. Já era também da direção do Partido dos Trabalhadores, fui dirigente da Central Única dos Trabalhadores também. E a gente organizava através dessas instituições as mobilizações populares que eram grandes comícios, que eram atividades de rua. P/1 – E você falou que já era nessa época, já era da Central Única também? R - É. A CUT [Central Única dos Trabalhadores] nasceu em 1983. Então a partir daí ela unificava todos os sindicatos. E era muito em cima da Central Única dos Trabalhadores que a gente fazia essas mobilizações. Ela tinha um papel preponderante. Embora a Igreja Católica, também num determinado momento, veio pra luta pelas diretas, a OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] tinha uma comissão. Então várias instituições da sociedade civil, não só os trabalhadores através dos seus sindicatos e da central sindical, mas várias organizações. A luta pela representação política e pelas liberdades democráticas, elas adquiriram no nosso país um sentido muito grande em todas as instituições. Liberdade de eleger seus representantes, eu acho que ele foi algo construído. Eu não sei se nós estamos sabendo eleger direito até hoje, né? [Risos]. A gente elege muita gente mau caráter. Mas de qualquer maneira existe uma coisa muito, assim, consolidada que é isso: nós queremos liberdade de escolher e queremos poder escolher. Então acho que os militares, diferentemente de outros países quando você compara, né? A luta nossa foi muito de raiz, muito de base; não foi... Ela iniciou realmente com guerrilheiros, com um grupo menor de estudantes. Mas depois, que já é o meu período, é um período que é de construção dentro das instituições; dentro dos movimentos de Igreja, né? Eu conheci no interior de Goiás a luta de Dom Tomás Balduíno, que é aqui de Goiás Velho, né? A terra de Cora Coralina. Em que a gente fazia muitos encontros do movimento popular. Ele abria, né, a arquidiocese de Goiás Velho, que é próximo aqui a Brasília, pra que a gente se unisse os trabalhadores da cidade, do campo. Então os movimentos no Brasil pela democracia são movimentos, na minha visão, muito consolidados. Por isso que os militares não tiveram [riso] absoluta condição de se rearticular, como em vários outros lugares eles tentaram. E conseguiram. P/1 – E como foi a primeira eleição dos representantes do DF [Distrito Federal] para o Congresso Constituinte em 1986? R – Olha, nós elegemos uma representação aqui que, eu diria, foi muito pequena, colaborou, né? E que não teve assim, a não ser conseguir incluir a representação plena, que foi eleger governador e a Câmara Legislativa, né? Que eu acho que é esse o papel fundamental daqueles oito primeiros, os deputados e senadores que nós elegemos. Então foi o papel deles, né, na Constituinte. P/1 – E como se deu a sua eleição pra deputada distrital em 1990? R - Olha, foi a campanha mais barata que eu fiz [risos] a primeira. Que ela foi fruto de todo esse acúmulo de... Era assim: tinha que ir Lúcia. Porque era do movimento social, era do movimento social, era, enfim, ligada a toda atividade. Era quase que natural ir ser candidata naquele momento, em 1990. Então foi muito fácil, muito simples pra mim. E a partir de 1990, eu fiquei até 2002 na Câmara Legislativa. Fiquei 12 anos e fui a primeira presidente mulher também de Câmara Legislativa no Brasil em 1997, 1998 no governo que nós tivemos aqui em Brasília. Daí eu vivi toda a experiência, tanto de conquistar a representação política, como de ser parlamentar e de estar no maior cargo que qualquer político, no Distrito Federal, desejaria estar. Aqui no Distrito Federal. Inclusive substituindo Governador em algumas ocasiões. P/1 – E assim, nesse período, você quer contar assim alguma coisa, alguma coisa mais relevante que aconteceu, algum... [risos]. R - Não. Eu acho, que até hoje eu conversava com uma amiga, eu fui uma parlamentar que construiu em torno de 80 leis que vai do exame gratuito do DNA, eleição de diretores em escolas, não fumar em ambientes fechados, contra o assédio moral, contra o assédio sexual. Eu demarquei muito o campo, né? Das polêmicas, e da criação e da constituição de leis. Fiz parte da primeira lei maior do Distrito Federal que foi da primeira legislatura. Então assim: fiz tudo com tanta leveza, assim como saí e hoje faço uma outra atividade. Demonstrando que político não é para sempre, né? E você tem que fazer qualquer negócio para se perpetuar. Que existem pessoas que vão assumir. Hoje essa pessoa que me procura dizia se eu ia voltar a ser distrital. Eu falei: “Eu não desejo”. Quero fazer outras coisas. Quero principalmente cuidar dos meus netos. Eu acho que eu quero viver uma outra fase que é cuidar da minha família. Que sempre eu acho que, não é que deixei em segundo plano, mas que na verdade dividi, partilhei muita política muito, né? Eu gosto de ser avó, quero, né, ter mais tempo com a minha família. Hoje eu tenho outros projetos de vida. Então eu quero que outras lideranças venham a ser escolhidas. Não quero voltar. Porque ela dizia o tanto que é difícil, né, se eleger. Eu falei: “É muito difícil. Difícil”. Agora, não faço qualquer coisa para estar e me perpetuar. Então eu me sinto uma pessoa que passei 12 anos na política, que alcancei o mais alto posto, que substitui o Governador do Distrito Federal na época, Professor Cristóvão. Foi inclusive, me lembro um dia, dia três de maio de 1997, que foi a morte do nosso educador Paulo Freire; e eu estava no governo e decretei luto no Distrito Federal. Então ele sempre foi pra mim uma figura muito significativa. Mostrando o seguinte: que a gente tem que estar em todos os lugares e fazer o melhor que a gente pode fazer e que nada é para sempre. Eu acho que a história mostra isso pra gente. E que nós somos um fio condutor da história como aquela corrida do bastão. Você vai passando, né? E os netos. E você tem que deixar as gerações mais novas irem pegando e você vai ter que... Então pra mim isso é muito tranqüilo esse fio condutor. E acho que esse trabalho de construção da história que vocês estão fazendo, eu quero que fique isso marcado, né? De que a gente faz parte de um processo. Nós não somos insubstituíveis e a gente tem que fazer o melhor da gente em todos os espaços. E sair. E nada me faz saudade, o melhor momento é o que estou vivendo agora [risos]. O melhor momento é agora. P/1 – Nesse teu período lá, uma das coisas significativas que aconteceram foi a votação da lei orgânica, né? R – Isso. Foi. P/1 – Então, o que você acha que isso significou pra cidade? R - Eu acho que significou a certidão de nascimento. Você escreveu sobre um pedaço, um quadrilátero que nada existia. Era uma terra praticamente governada com leis de cima pra baixo. Então ali veio a representação onde você construiu, normalizou a forma das pessoas ocuparem as áreas públicas, a definição do que se poderia constituir dentro das áreas. Parques, né? O que você poderia fazer com os rios, os lagos. O que você tinha que preservar. Então ela foi pra mim um mapeamento, ela foi a descrição desse quadrilátero de 415 mil hectares que constitui Brasília e que tem hoje milhões de pessoas morando. Lá foi a base pra organização social. Assim, a organização de toda, de toda estrutura que depois se segue. Os órgãos públicos, né? Quais os que existem; o poder Judiciário, né? O Executivo, o Legislativo. Então a Lei Orgânica, ela trata de toda organização do Distrito Federal. Eu me senti fazendo nascer um Estado. Assim, legalmente constituído. Uma unidade da Federação. P/1 – E de uma forma mais ampla, o que significou a autonomia você acha, pra política do Distrito Federal? R - Olha, significou uma consolidação da democracia. Consolidou que o debate tem que ser feito pela representação, dos problemas que vão aparecendo e das soluções desses mesmos problemas. E é um processo de construção. O que eu te digo que eu me sinto ainda muito, eu diria, frustrada enquanto pessoa que sempre se preocupou com educação popular, é o nível de representação que a gente elege. As pessoas não se recordam em quem votaram pra distrital, elas não se recordam em quem votaram pra Federal, quem elas escolheram pra Senado, o que essas pessoas fazem. Então eu acho que o nosso país, o Distrito Federal também é consequência de toda essa deseducação ou dessa falta de educação política, ainda é um país analfabeto politicamente. Ele construiu a democracia, é um país que dá muito valor a sua liberdade, mas não sabe quem escolhe. Não se importa muito. E olha, eu estou falando da capital que é um lugar que o pessoal tem acesso a todas as informações, a televisão, etc. Então o Brasil só não é melhor por isso: porque o seu povo não se preocupa com o poder. Mas não é ele estar no poder, é quem está no poder. Então elege um grileiro, elege um fazendeiro que vai se preocupar com a sua fazenda, um banqueiro que vai se preocupar com seu banco, né? Um grande empresário que vai se preocupar com as suas empresas. Mas não pensa num cidadão pleno que tem propostas realmente de mudanças. Então a minha grande frustração, enquanto cidadã, ainda é ver que educação pública, educação particular, educação no Brasil ainda não prepara cidadãos cônsul de ter um Brasil melhor. P/1 – E você falou que foi a primeira mulher, né, que foi eleita presidente da Câmara. O que isso significou pra você? R - Uma luta. Porque de 24 parlamentares, quatro mulheres. Então a gente sempre foi minoria nos parlamentos. Não só de Brasília, Brasil, mundo, sempre a gente significou dez, 20, né, 30, 40 por cento no máximo. Onde já existem as cotas como na Argentina, né, na Holanda, em outros países em que já existe a exigência, né, da cota para as mulheres, para o gênero feminino. Então isso ainda não alcança a igualdade. Pra mim foi uma vitória pra mostrar que nós somos capazes de dirigir. E foi, e tenho assim dos meus pares contemporâneos os melhores elogios, no sentido de ter feito uma gestão participativa, uma gestão compartilhada, uma administração em que a gente discutia quantos projetos de cada um ia entrar. Quantos do Executivo, né? Não fazíamos aquelas, né, eu diria, ações que tanto nos envergonham, às vezes, o Parlamento de toma lá dá cá, né? “Não, não voto enquanto não aprovar tal coisa”. A gente tinha realmente uma atuação diferenciada e nós tentamos levar isso com muita seriedade. Então o pessoal lembra com saudade da gestão. Eu acho que foi uma das melhores gestões. Inclusive os próprios servidores da Câmara também sabem da nossa forma de agir. E eu gosto muito de ter sido a pessoa que mostrou que além de mulher, pra superar uma série de dificuldades, a gente tem muita paciência pra construir, tecer um espaço mais igual. P/1 – E que mudanças você acha que a Câmara Legislativa trouxe para a vida dos cidadãos de Brasília? Do Distrito Federal. R - É uma caixa de ressonância dos nossos problemas, é um espaço que você pode interferir. Por exemplo, se não existisse a Câmara Legislativa onde é que eu ia falar do Plano de Ordenamento Territorial que está concluído agora? Lá; que tem que ser revisado de dez em dez anos. Com quem eu iria, né? Se determinadas áreas o Governo não está atendendo o rádio, a TV. Eles ajudam. Mas a Câmara é uma caixa de ressonância dos interesses. Seja da população, seja de segmentos, seja da minoria que ainda gestiona esse país, né? Dos grandes grupos, etc. De qualquer forma precisa ser aprimorado, precisa ser melhor equacionado os nossos representantes. Mas pra mim ela tem esse caráter de ser uma caixa. Tanto a Câmara Federal, como a Distrital, como o Senado. São espaços de protestos, são espaços de mudanças, né, a partir das leis. E de poder contribuir pra uma sociedade melhor. P/1 – Quais os maiores desafios que você vê assim no Distrito Federal? R – Desafios? P/1 – É. R – Em termos de problemas sociais? P/1 – Sim, sociais e em geral. R - Eu acho que é necessário equacionar o problema, por exemplo, de trânsito. A gente tem, ele está ligado a questões nacionais. Equacionar problemas de moradia, nós temos um grande número de pessoas ainda que não tem condições mínimas de viver, de morar. Eu acho que tem problemas estruturais como qualquer outra cidade que nós temos que resolver. Então são problemas ainda em pauta que advém da concentração, né, de pessoas aqui. Nós temos em torno de dois milhões de pessoas aqui dentro do quadrilátero e quatro milhões em volta; que acabam sobrecarregando todo o sistema. Então são esses os desafios. E eu estou inserida dentro deles. Que eu trabalho numa área que gestiona política habitacional. Então eu acho que é isso: a gente tem que ter resolver os problemas da cidade, fazer com que as pessoas se sintam melhor aqui em Brasília, que elas possam... Mas essa cidade é muito boa. Ela tem uma energia e uma sintonia, né, com as mudanças. Quem mora por aqui alguns anos não deixa de viver aqui. Eu me senti assim, abraçada por essa cidade e não me vejo morando em qualquer outra cidade do Brasil ou do mundo. Embora ame todo esse país, goste muito de diversas regiões. Ela é uma cidade diferente, né? Você se encontra com a solidão, com os espaços abertos ainda. Mas tem todos os dramas das grandes cidades, né? Que são as demandas sociais. Esse é o desafio. Então espero que os que vão receber o bastão da minha luta continuem a resolvê-los [risos]. P – E pra você quais são os marcos históricos de Brasília? R – A sua própria construção, que era uma visão administrativa e desenvolvimentista. E mais que isso, ela surgiu como uma cidade contemporânea, né? Que gesta o rock, que gesta a moda, que gesta, né, costumes. Brasília, ela é formadora, né, de opinião do Brasil. Então o marco foi a sua própria construção, depois a luta pela representação política e hoje o salto de qualidade que é resolver os seus problemas, os problemas contemporâneos de viver melhor e de eleger melhor seus representantes. P/1 – E como você vê o futuro de Brasília e do Distrito Federal? R - Com otimismo [risos]. Com otimismo de quem leva a vida com otimismo, né? Eu sou uma pessoa extremamente assim. Tenho muita fé na vida, nas pessoas e acho que a gente só tem caminhado pra melhor. Se você estudar a história da humanidade você vai ver que há dois mil anos as pessoas viviam bem pior que nós. Então, por mais que a gente esteja com grandes problemas, problemas sociais, né? De crianças marginalizadas, de homens e mulheres desempregados; esse desafio a ser vencido não nos remete a ter saudosismo. Tem que ter olhos pro futuro e é esse o desafio. Então eu acho que Brasília é uma cidade contemporânea, é uma cidade capaz de fazer suas mudanças; e só tem que se envolver mais na política e na representação. P/1 – Lúcia, qual o seu estado civil? Você é casada, tem filhos? Como é? Conta um pouquinho disso pra nós. R - Eu estou em Brasília já há quase 40 anos. Eu fui casada duas vezes; dez anos com uma pessoa, tive dois filhos. E estou casada há 27 anos com outra pessoa, tenho outros dois filhos. Então tenho quatro filhos nesse período, dois casamentos. E todos dois militantes, né, dos movimentos comigo. E os nossos filhos foram criados nessa conjuntura de muita dificuldade constituindo a vida e ao mesmo tempo construindo idéias, né? Partilhando revoluções. Então meus filhos são pessoas que eu gosto muito. Todos nasceram aqui, os quatro. Tenho duas filhas e dois filhos. Todos eles já com mais de 18 anos; então todos encaminhados. E tenho uma netinha de cinco anos que é a minha alegria assim. Passa os finais de semana com ela, que é a Beatriz. E é uma pessoa muito inteligente, eu espero realmente que todas as crianças que estão nascendo dessa geração possam fazer um Brasil bem melhor. P/1 – O marido então você conheceu na militância? R – É. Todos os dois [risos]. O primeiro que eu casei dez anos e o segundo também foi na militância. P/1 – E os filhos, você falou que eles já são todos maiores, adultos. Mas fala um pouquinho sobre cada um deles. O que fazem atualmente. R – Olha, a mais velha é advogada, trabalha no Tribunal de Justiça do Distrito Federal. É uma pessoa que já assumiu a carreira jurídica e pensa em ser desembargadora, que pensa ser juíza, enfim. E está nessa linha, nesse caminho. Eu tenho um outro filho que é o Pedro, que tem 28 anos, que constrói vídeos e trabalha mais nessa área [riso] que você já está bem acostumada, né? Que é a TV, que é a internet, edita, produz vídeos, etc. E mora comigo ainda [risos]. E tenho a Mariana que é a filha, as duas meninas já saíram de casa, se casaram. Faz Artes na UNB, tem mais uma veia assim de criação. E tem o Lucas que é mais objetivo, eu acho que muito parecido comigo assim na vida; ele é muito, né? Já passou num concurso, está tentando outro. E é uma pessoa que faz japonês, é uma pessoa que quer viajar o mundo. Então todos eles são seres humanos muito bacanas. E aí eu quero te dizer uma coisa: outro dia eu li uma coisa sobre filhos que eu acho que inconscientemente eu passei. As crianças precisam aprender a respeitar os mais velhos, a não jogar lixo na rua, né? E a tentar construir, portanto, um mundo melhor. Se importar com os outros. E eu acho que essas três coisas eu consegui fazer com eles, né? Não são idéias, todos eles tem falhas, né? Mas eu acho que o núcleo familiar é muito importante. Em toda essa luta que a gente viveu, dizer isso. P/1 – E desde que você veio pra Brasília, né, enfrentou N desafios, né? Qual, assim, a tua avaliação? R – Eu vou [risos] eu vou repetir Oscar Niemeyer: “A vida é muito pequena, a vida é um sopro”. Ele fala, né? Então acho que a gente faz tanta coisa e é um ser humano simples como qualquer outro, né? Que precisa de todos os outros fazendo pra gente se realizar [choro]. P/1 – E agora fechando só; o que você acha desse projeto? R - Desculpa. P/1 – Não, não tem problema. Quer parar? R – Não. Pode ir. P/1 – O que você acha desse projeto que está se esforçando pra recuperar a história da autonomia política do Distrito Federal? R - Olha, quando eu estava na Câmara a gente tinha um negócio que chamava assim: cidadão honorário de Brasília. Ou então: diploma emérito, né? Então do cidadão que fez alguma coisa. Então a gente ficava procurando médico, jornalista, sociólogo, alguém que tenha feito em Brasília alguma coisa. Então a gente chamava, homenageava e, enfim, registrava na história. Eu acho que é importante, né? Eu acho que tudo que a gente é, é exatamente esse mosaico de aptidões, de habilidades que cada um de nós tem. Então construir isso é um mosaico, né? Nós somos a nossa história, é um mosaico de todas essas pessoas que ajudaram. Então o projeto, né, Memória, que vocês estão fazendo das pessoas que viveram Brasília, que ajudaram a construir a sua história até agora, é muito importante por isso. Porque mostra que é uma diversidade entre operários, professores, médicos, pessoas das mais diversas categorias, profissões e empreendimentos que fizeram. E em geral você vê os edifícios cheios de nomes e todos eles são de figuras com grandes posses. Registrar a história dos que fizeram a história da maioria despossuída erraram. Então parabéns. Porque eu acho que vocês estão usando exatamente as figuras e as pessoas que trabalharam mais com o movimento popular, com o movimento social. Que é o movimento que não tem dinheiro pra se projetar. Não tem dinheiro pra se divulgar. Então construir essa memória significa dizer: Brasília tem uma história que foi escrita por determinados atores que não têm seus nomes registrados nos prédios públicos. P/1 – E o que você acha de ter participado dessa entrevista? R – Eu achei bom Lenir. Agora, [risos] eu só não gosto de falar coisas muito pessoais porque eu sou muito sensível com isso, né? Então falar da minha neta, esse lado pessoal pra mim [risos] é muito difícil, sabe? A gente tem um lado pessoal que todo militante sofre muito porque deixou de viver. P/1 – Então está bom. Então a gente agradece em nome do Museu da Pessoa, da Abravídeo e da Fundação Banco do Brasil a sua participação. Obrigada. R – Eu que agradeço. -- FIM DA ENTREVISTA --
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