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História

Líder pai, líder filho

História de: Rubens Muszkat
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/06/2013

Sinopse

A entrevista de Rubens Muszkat foi gravada pelo Programa Conte Sua História no dia 02 de maio de 2013 no estúdio do Museu da Pessoa, e faz parte do projeto "Aproximando Pessoas - Conte Sua História". Filho de imigrante judeu da polônia, Rubens conta que seu pai veio para o Brasil, especificamente são Carlos à procura de emprego. Mesmo de família super extremamente religiosa, seu pai não seguia a risca a religião e também era comunista que gostava de participar de manifestações e teatros. Rubens também conta que sofreram muito com o pós guerra e perdas da família, cartas de alguns poucos sobreviventes e fotos dos campos de concentração. Por isso, quando a família tinha oportunidade de conhecer alguém, eles iam atrás para tentar manter contato, já que muitos familiares foram perdidos e isso era muito triste. O depoente conta que a escolha de sua profissão junto com a dos seus irmãos foi ditada pelo pai que privilegiou os pontos positivos de cada um. Rubens foi formado em engenharia pela Universidade Mackenzie, porém hoje trabalha como advogado mediador.

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História completa

Eu sou Rubens Muszkat, eu nasci em São Carlos, estado de São Paulo, no dia oito de julho de 1934. Porque São Carlos? Meu pai veio da Europa como imigrante e foi para lá, trabalhar como imigrante. Tem toda uma história. Eu morei em São Carlos até 1944. Embora o meu pai pertencesse a uma família muito religiosa, ele não era. Era comunista, gostava e participava de teatro. Diz ele que em uma manifestação de primeiro de maio, teve que sair correndo dos cossacos, que vieram com aquelas espadas e ele ficou assim, entre um portal e uma casa. O cossaco passou, mas cortou o casaco de couro dele. Todo comunista usava um casaco de couro. Ele não conseguia fazer escola, não conseguia faculdade e não tinha trabalho, isso pelo fato de ser judeu e também por ser comunista. Então resolveu ir embora. Nisso ele tinha 18 anos. Chegou ao Brasil com 19 anos e começou a trazer os irmãos, que também não tinham nenhuma chance lá. A minha mãe comentava muito pouco sobre os meus avós maternos, mas o meu avô materno também era uma homem muito religioso, daqueles que você vê aqui em São Paulo, usando aquelas roupas tradicionais. O trabalho dele consistia em vender raspadinha nas ruas. A minha avó cuidava da casa para que a tradição judaica fosse respeitada. Os meus vizinhos eram Sírios e tinham filhos e filhas perto da minha idade. Eu vivia lá comendo quibe e coalhada. Era uma festa! Era um terreno muito grande que saia na outra rua. A loja principal era na Rua General Osório e a entrada na rua Episcopal. Tinha um pé de laranja lima lá que a gente vivia trepando no pé para comer as frutas. Lá você fazia muita amizade com o pessoal da escola. Tinha uma piscina pública na cidade, onde eu ia todos os dias nadar com o meu pai. A gente jogava futebol na rua, era gostoso. A gente sofreu muito com o pós guerra, com a divulgação das imagens dos campos de concentração e algumas cartas recebidas de poucos sobreviventes da família que foram para Israel. Era muito triste não ter conhecido a família e os parentes. Quando surgia a oportunidade de conhecer alguém, a gente ia atrás para tentar manter contato. Ficava-se sabendo de casos, por exemplo, da minha avó materna, que foi queimada deitada pois não conseguia se movimentar. Bom, e aí chegou a minha hora de escolher a profissão. Na realidade essa escolha teve influência do meu pai, que dizia: “eu tenho quatro filhos e você vai ser engenheiro, porque tem cabeça boa para matemática”. Para o outro, dizia que seria médico, porque não fica impressionado com sangue e nada disso. Para o terceiro, que já faleceu, ele dizia ser muito malandrão e que seria advogado. E ele foi mesmo, da faculdade São Francisco! O caçula não se formou mas é o milionário da família. Foi o que mais deu certo! Eu fiz engenharia, no Mackenzie. Isso quando já morava em São Paulo. Como o meu pai também era líder comunitário, ele me puxava junto. Eu fazia isso com prazer e aprendia muito. Tinha uma associação da qual o meu pai fazia parte que distribuía para esses imigrantes iniciarem a vida. Muitos as vezes vinham com dinheiro, mas outros não. Também tinham os que diziam não ter, mas tinham dinheiro. E dizia isso para o meu pai, sobre o fato dele dar dinheiro para pessoas que não conhecia e não sabia se estavam mentindo ou não, e ele me dizia que isso não importava, que a gente deveria ajudar. Que esta pessoa deveria formar na cabeça dela que aquele dinheiro recebido deveria ser devolvido, pois isso ajudaria outras pessoas. Se não devolvesse, nós não iríamos fazer nada. Isso realmente ficou marcado em mim, dar sem a expectativa de retorno. As vezes eu ia com ele fiscalizar a pessoa que tinha chegado, se as coisas estavam funcionando ou não, foi um grande aprendizado. Eu tinha um vinte e poucos anos. Eu aprendi muito com o meu pai. Não sei se pelo fato dele também ter sido um militante ou por ter saído as dezoito anos do seu país sem nunca mais ver os país. Ele dizia que era mais brasileiro do que eu, porque havia escolhido o país e eu nasci aqui. Hoje eu exerço a presidência de uma instituição também de auxílio, Associação Cemitério Israelita; quando a pessoa falece e não tem condição de ter um enterro decente, ou um local no cemitério, a gente auxilia. Na religião judaica, para que um enterro seja completado dentro da tradição, cada pessoa deve ter o seu lugar, que não é uma gaveta, é um lugar único, corpo colocado deitado e uma pedra de mármore. Isso não pode deixar de ter, é quase uma obrigação da família. E quando esta não pode, a sociedade faz tudo. Existem quatro cemitérios judaicos, dos quais a gente cuida: Vila Mariana, Butantã, Embu e Cubatão, que era das prostitutas da baixada santista. É um cemitério pequeno, deve ter uns sessenta, setenta túmulos, que também contam com o nosso auxílio.

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