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História

Libra com ascendente em Libra

História de: Yone Sepúlveda Chastinet
Autor: Valdir Portasio
Publicado em: 09/06/2021

Sinopse

Infância no Rio de Janeiro. Férias na Bahia. Reflexões sobre relações familiares. Lembranças sobre a vida e a morte de seu pai. Lembranças sobre infância. Faculdade de biblioteconomia. Mudança para Brasília. Projetos de disseminação de informação. Retorno para o Rio de Janeiro. Experiências como mãe e avó.

História completa

Projeto Memória Unimed Rio Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Yone Sepúlveda Chastinet Entrevistada por Carla Vidal e Roberta Gonçalves Rio de Janeiro, 29 de setembro de 2005 Código: UMRJ_HV020 Transcrito por Écio Gonçalves da Rocha Revisado por Maria Vittoria Voltarelli Regini de Andrade P1 – Bom, eu vou ter que pedir pra que você se apresente dizendo o seu nome completo, a data e o local do seu nascimento. R – Muito bem, Yone Sepúlveda Chastinet. Eu, graças a Deus, nasci no Rio de Janeiro em 27 de setembro de 1939 e... P1 – Seu aniversário foi anteontem. R – Foi, fiz 66 anos anteontem e quero registrar que foi no dia de São Cosme e Damião. P1 – Yone, e o nome dos seus pais? R – Djalma Chastinet Contreras, razão pela qual estou aqui, e Maria Sepúlveda Chastinet. P1 – De onde é a origem desses nomes, Chastinet, Sepúlveda? R – Tá vendo, eu sabia que você ia fazer pergunta complicada. Sepúlveda é espanhol, Chastinet é francês. Então, quer dizer, é o espanhol e o francês da Bahia. Parece que... o meu irmão sabe a história da família, eu não sei. O Chastinet foi um Chastinet que veio da França e chegou na Bahia e aí teve seus descendentes, mas na verdade eu não sou a pessoa ideal pra ser entrevistada porque realmente eu só me lembro de coisas subjetivas, as objetivas eu não me lembro. P1 – Mas seus pais nasceram na Bahia? R – Todos dois em Salvador. P1 – E eles vieram pro Rio casados? Como que é isso? R – Papai se formou em Medicina, foi para um trabalho em Belém do Pará. Acabou esse trabalho, ele voltou pra Salvador e fez um concurso. Resolveu fazer concurso pra ter emprego, e abriu um concurso pra médico do exército. Ele fez, foi aprovado e foi trabalhar em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, onde o meu irmão nasceu. Então, eles se casaram no Rio e moraram talvez uns três anos em São Leopoldo no Rio Grande do Sul e meu irmão nasceu. Depois eles foram pro Rio, transferência militar, aquela coisa de militar que é transferido de um lugar pro outro, e onde eu nasci. E eles passaram a vida inteira no Rio. P1 – E seu pai se formou na Universidade da Bahia? R – Universidade Federal da Bahia. P1 – Tradicionalíssima na Medicina. R – É. P1 – E você nasceu no Rio de Janeiro. Em que bairro você cresceu? R – Eu nasci em Santa Teresa. Um barato, né? Nasci no Morro de Santa Teresa, numa ruazinha lá que eu sabia o nome mas já esqueci. P1 – E você cresceu lá? R – Não. Eu nasci lá na casa de uns tios, Tio Otávio e Tia Neném, que eram tios de mamãe. Agora, eu não sei porque que mamãe estava lá ______. Mas, aí eu sei que foi assim, que papai tinha um amigo, Mário Pacheco, que era Ginecologista, não... P1 – Obstetrícia. R – Obstetra. P1 – Obstetra. R – Aí papai chamou e disse: “Olha, venha ver Maria, que o neném pode nascer.” Ele chegou, olhou e disse: “Não, esse neném não vai nascer.” E foi embora, e eu puft. Papai fez o parto. Eu sempre fui muito ansiosa. Eu acho que esse negócio de ficar esperando pra nascer... pulei fora, pro bem ou pro mal. Papai fez o parto no dia de São Cosme e Damião. Quer melhor que isso? P1 – Maravilhoso, heim? Nasceu pelas mãos do pai... R – É, papai que fez o parto. P1 – E quantos irmãos vocês são? P1 – Só o mais velho, Carlos Alberto, que é médico também, Gastro. Depois, tipo 1970, 70 e pouco, ele foi chefiar o Serviço Médico da Chesf na Bahia, em Vale do Rio Doce. É? Não sei, da Chesf. Depois foi pra Salvador. Então agora ele tem três filhos, vários netos e moram em Salvador. Quer dizer, em Salvador está a minha família. No Rio na realidade ficou o irmão de mamãe que veio estudar lá em casa pra fazer um, sei lá, depois de médico ficou lá em casa um tempo trabalhando. Então temos esse tio e meus três filhos, e quatro netos. P1 – E você passava férias na Bahia? R – Sempre. P1 – Sempre? Como que é a sua relação com a Bahia? R – Ah, eu gosto muito da Bahia porque papai e mamãe... eu cresci muito nesse ambiente que a Bahia era melhor que tudo. Aí, depois de muito tempo... e achava então a Bahia assim, porque a primeira vez que eu fui pra Bahia eu tinha acho que 11 anos. E papai e mamãe sempre viveram com dificuldade financeira. Como que vai pra Bahia, tomar um avião? Então isso não foi à toa não. Então lá fui eu pra Bahia com 11 anos. Então, à partir daí eu ia todas as férias. Mas pra mim a Bahia era assim o melhor dos melhores. Um belo dia, não sei precisar com que idade, eu descobri que o Rio era bonito. Mas foi uma das maiores emoções que eu tive. De repente eu digo: “Mas não é a Bahia não, é o Rio mesmo. O Rio é melhor que a Bahia.” Mas olha, ______. Eu descobri isso, ninguém me contou. Pelo contrário, era a Bahia. A Bahia era tudo. De repente eu digo: “Mas, será? Eu acho que o Rio é melhor que a Bahia, o Rio é mais bonito, o Posto Seis.” Foi uma grande descoberta, eu descobri o Rio através da Bahia, e por conta própria, o que é mais importante, por conta própria. Ninguém me disse que o Rio era bonito. Eu fui vivendo aqui. P1 – Em que bairro que vocês moraram quando você era criança? R – Papai resolveu ir pra guerra. Nós morávamos em Botafogo. Aí papai era médico do exército e ele fazia as entrevistas com os militares, sei lá, militares, e ele os declarava militares ou não pra ir pra guerra. E nisso ele se sentiu obrigado a ir pra tal da guerra, e ele foi espontaneamente. Papai não foi convocado pra ir pra Itália, ele foi. E quando papai foi pra guerra, eu devia ter cinco anos talvez, aí papai foi para a Itália, mamãe pegou os dois filhos e levou pra Salvador pra ficar com família dela. Quando nós voltamos, voltamos de novo para Botafogo, e com 13 anos... porque minha avó, a mãe de papai, morava junto. Era apartamento de três quartos e eu já crescendo, parará. Quando eu tinha então 11, 12 anos, papai, eles se mudaram para Copacabana, que era um apartamento de quatro quartos. ____________. P1 – Então vamos lá. Seu pai foi pra guerra por conta própria? R – Por conta própria porque, olha, se você perguntar assim: “O que você acha do seu pai?”, eu acho papai assim, em primeiro lugar é um ser social. Papai era assim, a preocupação dele era o social, nunca o individual. Então era um pouco chato. Bom, depois era assim, honestidade. Uma honestidade enorme o papai. Eu nunca consegui conhecer uma pessoa tão visceralmente honesta. O papai era uma pessoa honesta e muito inteligente. Quer dizer, a coisa da inteligência, uma pessoa muito inteligente é uma pessoa perigosa. É uma pessoa perigosa porque uma pessoa muito inteligente pode ir pro bem ou pode ir pro mal, não é? O papai era desesperadamente inteligente. Não brinca não, não brinca. E, como eu tinha uma identidade muito grande com ele, tinha coisas da minha vida que eu não gostaria que papai soubesse e num dia sentava e dizia: “Sabe que eu não gosto desse procedimento assim, assim, assim?” Não dizia nada porque nem confessar eu não ia. Mas era impressionante o papai, uma capacidade de perceber a realidade muito grande. E eu sei, quando eu digo um ser social, o papai nunca se importou muito com essa coisa do individual. Ele era assim, desenvolvimento social, de sindicato, que foi esse pensamento que certamente o levou pro cooperativismo médico, aquele negócio de atender a todos. Sei lá, meio complicado esse negócio de cooperativismo, que de Unimed aliás eu não entendo bulhufas. Agora, mamãe... outra coisa, eu sou meia lenta. Mamãe era dona de casa. E eu levei muito tempo pra perceber que mamãe era o dínamo. Porque papai era muito brilhante, ele ofuscava qualquer coisa. Então, depois de muitos anos eu consegui compreender que quem mexia na tomada de decisão ali não era ele, era ela. Uma pessoa incrível a mamãe, mas eu descobri isso muito tarde. Apesar de desde menina eu percebia isso, papai nunca queria, papai só trabalhava. Ele nunca ia a um cinema, nada disso. Aí chegava... isso morava em Botafogo, eu tinha menos de 13 anos. Mamãe ficava: “Djalma, vamos ao cinema?” Ele dizia: “Não.” Aí ela dava uma voltinha: “Djalma, vamos ao cinema.” E então o Djalma ia ao cinema, e ele não queria ir não. Teve uma vez que, aí ele ficava enrolando e minha mãe em cima: “Tá na hora.” Aí uma vez ele foi, chegou no cinema, sentou assim, aí começou um casal a rir do lado. Ficou olhando, eles rindo, olhando pro papai, a calça do pijama do lado de fora. Ele botou a calça em cima do pijama. E ele era muito distraído. Quando eu digo que às vezes eu não me lembro das coisas, eu tiro isso de papai. Papai era muito distraído. Ele saia com o sapato um pé marrom, outro preto. Nem tava aí, não era com ele. Uma vez ele chegou e disse assim: “Ah, minha filha”, porque no elevador tinha um espelho, que é muito comum. Ele abriu a porta do elevador e falou: “Bom dia, Chastinet, como vai?” Aí o vizinho entrou. “Esse homem estava me cumprimentando, entrou o vizinho eu fiquei tão sem jeito.” [risos] P1 – Como que era o seu ambiente de casa? Essa mãe dínamo... R – Em que faixa etária? P1 – De menina. Seu pai brincava com vocês, tinha livro, como é que era? R – Papai trabalhava e me intelectualizava. Se isso foi bem ou mal eu não sei, pero foi. Ele, por exemplo, papai, isso já 14 anos, em Copacabana já, ele comprava livro pra mim. Eu lia. Pergunto, sabe que eu gostava de ler aqueles livros? Mas era meu pai quem me dava os livros. Eu acho que eu me senti obrigada a ser intelectual também porque, além de eu ter que ler o livro, ele pedia pra eu fazer um resumo. E como é que eu ia recusar ao meu pai fazer o resumo? Aí eu lia o livro e fazia o resumo, entregava pra ele o resumo. Eu nunca soube o que ele fazia com aqueles resumos, vai ver que nem lia. Bom, mas aí eu virei intelectual, mas eu acho que eu fui uma intelectual muito forçada, eu fazia assim. Tinha mesada, eu guardava a mesada toda pra comprar livro na Bolívar. Atualmente é uma casa de óculos. Era uma livraria. Eu me lembro até hoje, um sujeito vermelho, grande, e ele sabia tudo que eu já tinha lido. Eu chegava lá pra comprar, desesperadamente, com 14, 15 anos. Mas, Nossa Senhora, é Guimarães Rosa. Agora, eu não sei até que ponto eu lia por prazer da leitura. Eu lia porque eu tinha uma admiração enorme por papai. Pode ser isso também, né? Eu tenho dez anos de análise e ainda não procurei isso. Dez anos de análise, 66 anos e ainda não concluí, quer dizer, não vou concluir mais. Mas então é isso, uma admiração muito grande por ele. Eu lembro que eu passei, Brasília né? De vez em quando eu vinha ao Rio, vinha a trabalho. Aí eu adorava porque o papai acordava e chegava o Jornal do Brasil, ele ficava sentado na cama, lendo. Eu lia também. Aí ficava eu e ele lendo, e mamãe marginalizada. Sempre eu tive uma relação com papai muito forte, muito voltada eu acho que pra imitá-lo intelectualmente. E mamãe, eu adorava mamãe, mas não era uma relação tão forte porque não era intelectualizada. No fim de tudo isso não sei o que deu. Aí um belo dia eu comecei a perceber isso. Mamãe era uma mulher incrível porque meu irmão, em 1972, tipo foi pra Bahia, Paulo Afonso, Vale do Rio Doce, Chesf, sei lá, Paulo Afonso. E eu fui pra Brasília em 1974. Então eles ficaram. Não tinha família aqui. Eles ficaram os dois sozinhos e _____ já tinha neto. Quer dizer, deve ter sido pra eles, e certamente pelo menos pra mamãe foi, um impacto muito grande. Eu acho que foi aí que ela passou pra Unimed. Mamãe adorava a tal da Unimed. Ela participava de tudo. E a Unimed tinha, não sei se ainda tem, reuniões nacionais, congresso, sei lá que diabo era, nacional. Todo ano os grandes empresários, não sei, tinha essas reuniões, cada vez em um estado do Brasil. Então aquilo mamãe se preparava o ano todo. Ela fazia roupa nova, e ela liderava o movimento social, entende? “Onde é que vai ser?” “Vai ser em tal hotel.” “E a festa como é que é?” E ela com as amigas. Quem eram as amigas? A Maria Helena morreu. A mulher de Celso Ramos, a mulher do Bonfim, a mulher do Castilho, ___________ mulher do Castilho, eu já esqueci o nome dessa mulher. E era ela que liderava, que dizia como é que ia ser, como é que não ia ser, o tal dos encontros sociais. E ela adotou. Eu acho mamãe, quer dizer, ok, eu acho que ela fez o seguinte, ela substituiu a vida da família porque a família não existia mais, pela Unimed. Então, uma vez por semana ela jogava bingo com as senhoras da Unimed. E a Unimed pra mamãe era como uma filha, ela sabia de tudo da Unimed. Nossa, ela conhecia todo mundo, ela conhecia as secretárias, os problemas da Unimed. Quando tinha uma reunião difícil, não sei o que está acontecendo porque o Castilho chamava papai de Guru. Porque? Ele tem as explicações dele. Agora, a minha é a seguinte, porque eu acho que papai era um idealista, ele realmente era idealista. Ele tinha um ideal na cabeça, e ele marchava pra ele. E eu me lembro muito que ele dizia assim: “Agora eu tenho de ir não sei aonde que tem um problema lá, o Castilho me pediu pra ir.” Eu acho, isso interpretação minha, nada científica nem comprovada, mas eu acho que era assim, quando tinha um problema um tanto quanto complexo, político-complexo, o Castilho pedia a papai pra ir porque ele tinha um ideal atrás disso tudo. Ele tinha, o negócio do cooperativismo que absolutamente eu sei ________, ele tinha um ideal enorme. Esse era o objetivo da vida dele. A gente volta ao social. Então ele saia por aí pregando uma doutrina. Eu diria assim, papai foi um bom neurocirurgião? I hope, espero que sim. Mas papai foi acima de tudo acho que um filósofo da medicina e da medicina cooperativa, da medicina do povo. Foi isso que ele fez na vida. E, em sendo isso, o objetivo principal nunca foi a família. A família era a mamãe. Então na minha cabeça eu tinha mamãe, a família e papai intelectual pelo qual eu optei, certo ou errado. E, com o passar do tempo, eu consegui juntar os dois. Na medida que eu descobri que mamãe era uma pessoa inteligente e que, na realidade, na medida do possível, dentro da estrutura doméstica, ela o manipulava. Papai, sabe como é que era? O papai acordava, tomava banho. Quando ele saia do banho, em cima da cama já estava a calça, a cueca, a meia, o paletó, a gravata. Nunca papai escolheu uma roupa pra vestir, nunca. E quando ele morreu? E quando mamãe morreu? Mamãe morreu, fomos pra casa papai e eu, meu irmão e minha cunhada. Nesse tempo eu acho que eu estava solteira, não me lembro. Aí eu sei que papai sentou e disse assim: “E agora, quem vai morar comigo?” Marli, minha cunhada, disse assim: “Ah, Dr. Djalma, a gente mora na Bahia, a gente não tem condições.” Eu olhei pra ele e falei: “Papai, deixe comigo.” Eles tinham se mudado pra um apartamento, eles sempre moraram num apartamento alugado na Aires Saldanha, Copacabana. Dois anos antes de mamãe morrer eles compraram um apartamento. O sonho de mamãe era ter um apartamento, era ter... como é que a classe média gosta? Casa própria. O sonho de mamãe era a casa própria. Aí finalmente eles compraram a casa própria, que era um apartamento na mesma rua, apartamento grande de quatro quartos. _____. Eu estava em Brasília, mas coincidentemente eu fui ao Rio e ela estava, porque esse jogo dela com as senhoras da Unimed era toda semana, e cada vez na casa de uma. Então, o jogo da Unimed na casa nova, você não imagina o que é que foi. Ela estava com uma bermuda de linho rosa, uma blusinha de seda toda pra dentro, recebendo as senhoras e mostrando a casa, a minha casa. Mas um barato. E ela tinha uma vizinha, no apartamento que era alugado, que era decoradora. Essa história está interessando a vocês? P1 – Sim, vai, continua. R – É pra isso que eu estou aqui, vamos embora. Aí a Licinha era decoradora. Então mamãe, classe média da Bahia, chamou a Licinha pra decorar o apartamento. Olha, tudo no seu lugar. Eu me lembro que assim que o apartamento ficou decorado eu vim ao Rio e aí eu fui lá no Shopping da Gávea, e eu estava procurando uns tapetes pra banheiro importados, que naquela ocasião não tinha tanto, aqueles que têm uma borracha em baixo. Eu achei, comprei pra mim, falei: “Vou comprar pra mamãe.” Cheguei lá, falei: “Olha, comprei esse cinza e esse marronzinho pra você.” Ela disse assim: “Ai, minha filha, eu tenho que perguntar à Licinha se pode”, a decoradora. Fantástico, fantástico. Aí, nesse dia que ela inaugurou a casa, com as amigas do jogo, e claro que elas não chegaram todas na mesma hora, né? Então batia a campainha, ela ia, abria a porta e dizia: “Agora eu vou mostrar o apartamento.” Aí ela mostrava. O quarto deles era todo de papel e tinha uma coisa de rosas assim, o papel lá da parede. Aí ela mostrava: “Aqui é a minha escrivaninha, aqui o Djalma...” Olha, aquilo foi a glória da vida dela. P1 – Sua mãe era uma mulher vaidosa? R – Totalmente diferente. Muito. Ela dizia assim: “Minha filha, porque que você não bota um batomzinho, minha filha? Não faz assim.” Muito vaidosa. Mamãe todo dia se vestia toda. Quando era possível, ainda há bastante tempo atrás, andar com joias, botava as joias e saia em Copacabana. Todo mundo conhecia, era queridíssima, Madame Chastinet. P1 – Tem uma história com o nome dela, não tem? R – Não sei. P1 – Que ela tinha um sobrenome, ela mandou tirar. Como que é essa história? R – Ahhhhhh... Ah, não sei. Maria, é, Maria Isaltina. Papai fez um verso pra ela. P1 – Fez até um verso? R – É. P1 – Isaltina. R – Se não te exaltas, porque te chamas Isaltina? Porque papai é um poeta. Você lê os discursos dele? P1 – Não. Porque o nome dela era Maria Isaltina... R – É, aí ela tirou Isaltina e ele fez o verso: “Se não te exaltas...” Papai era um poeta, os discursos de papai. Ah, se você não tem eu vou te dar. As peças literárias... ele fez... houve um concurso pra contos, contos escritos por médicos. Ele ganhou o primeiro lugar. Ele fez, eu acho que era sobre minha festa de 15 anos, o conto que ele ganhou em primeiro lugar. Os discursos de papai, muito estranho papai, porque essa fixação profissional com essa coisa do social que era muito maior do que a família. P1 – Isso veio de onde, Yone? R – O que? P1 – Essa formação política dele veio de família? R – Eu não sei porque, os pais dele eram pessoas simples. Agora, meu avô era intelectualizado, ele tem diversos livros publicados. Então não sei, mas sempre pessoas simples. Se dizia até que papai, pra estudar medicina, ele ia pra casa dos colegas copiar os livros, que não tinha dinheiro pra comprar os livros. Ele dizia que era assim também, que a Maricota era a mãe dele. Diz que vovó Maricota fazia assim, as meias novas eram pra Mansinho (?), que era o irmão dele querido. As meias usadas para Mansos (?), que era o marido, e as meias rasgadas pra Djalma. Então, quer dizer, essa coisa de família. Sempre ficou a reboque isso tudo, porque tio Mansinho (?) foi o primeiro Radiologista de Salvador, que importou os primeiros equipamentos. E ele era todo ao contrário de papai, todo elitizado. Ele era comodoro no Iate Clube, elegantérrimo, se vestia bem, não sei o que, e papai não tinha nada disso, uma pessoa muito simples. Porque você perguntou, porque eu estou falando isso mesmo? P1 – Porque estava perguntando da formação política dele. R – Ah, então eu acho que talvez dessa intelectualidade do pai, não sei. E papai teve uma vida muito difícil. Me lembro quando a gente morava em Botafogo, ______ costa. Fruta, não tinha nada disso em casa. ______, meu Deus do céu. Nada. Era difícil. Ganhar uma bicicleta, nossa, ganhar uma bicicleta... P1 – Você estudou onde, de criança? R – Eu estudei num colégio fantástico, eu adorava, era Brasil América. Aí, um belo dia, na minha fantasia eu acho que papai e mamãe resolveram conversar e disse: “A nossa filha tem...”, porque era um colégio muito simples, um colégio pequeno. Aí um dia eles, infelizmente devem ter tido uma conversa terrível e resolveram, de uma maneira totalmente equivocada, me botaram no Saint Claire de Marie (?), que não tinha nada comigo. Então eu passei três anos num colégio de freira que eu acho que a maior parte dos problemas que eu tenho vêm daí, de ter passado três anos com aquelas benditas freiras. Eu me lembro que uma vez, isso foi terceiro, quarto _____, portanto eu não sabia que idade eu tinha, mas certamente era pequena, quinta série. Eu sei que uma vez, eu me lembro assim... rezava toda hora aquela porcaria daquele colégio. Aí chegava no recreio, fazia um círculo pra rezar e descia pro recreio. Fazia um círculo com as meninas todas pra rezar. Aí a tal da freira disse assim, como é que você não esquece as coisas, ne? “Posição na oração.” Eu achei tão bonitinho, eu acho que... eu sempre gostei muito de poesia, da rima, eu repeti: “Posição na oração.” Oh... Sabe o quê que essa freira fez? Não vou esquecer isso. Ela me mandou procurar a Merbazan, bazin, sei lá como que era o nome dessa freira, dentro de um ônibus. Me mandou procurar a Merbazin no colégio pra pedir desculpas. Eu encontrei a freira dentro de um ônibus, ela estava numa vistoria, sei lá que diabo ela estava fazendo lá, pra pedir desculpa. Um colégio... eu sou libra ascendente libra. Bota uma libra libra num colégio de freira. Terrível, né? Bom, aí meu pai me salvou. Um dia aí tinha lá uma procissão. Aí papai contava que um dia ele foi lá. Procissão era festa. Então ele foi, me viu andando, ele me olhou assim: “Maria, acabou, Yone não vai continuar nesse colégio aí.” Quer dizer, mas levou três anos, né, pra ele tomar consciência que não era a minha praia um colégio de freira. Jamais eu poderia estar em um colégio de freira sendo libra libra. Se eu fosse leão... mas eu não era leão, eu não sou leão. P1 – E filha do Djalma, que é quase comunista. R – Olha, voltando a papai então, assim, aí mamãe morreu, aí papai foi e fez a trágica pergunta: “Quem vai morar comigo?” Bom, aí, porque mamãe passou 40 dias em coma, uma coisa horrível. Bom, aí eu já tinha sabido, eu moro no nono andar, aquele prédio que você conheceu, que no décimo andar tinha um apartamento vazio à venda. Aí mamãe morreu, eu fui lá perguntar, que eu falei: “O ideal seria então papai morar perto de mim” porque eu, nessas alturas, eu acho que eu já estava no ____, eu passava 15 dias no Rio, 15 dias em Brasília. Aí eu digo: “Meu Deus, como é que vai ser?” Aí eu fui lá, aí ela disse: “É tanto.” Não se tinha dinheiro porque papai, dois anos antes ele tinha comprado o apartamento, esse grande de quatro quartos. Então, não se tinha dinheiro. E como é que ia ser? Aí eu tive uma idéia, eu digo: “Já sei.” Eu não gosto de joias, não uso nada, mas eu tinha poucas joias. Mamãe tinha bem mais joias do que eu. Aí eu digo: “Nossa Senhora.” E eu sabia que a Gaster (?) fazia leilão de joias, eu digo: “Ah, mas vai ser isso. Espera aí.” Aí meu irmão ______, eu falei: “Carlos Alberto, e as joias de mamãe?” Aí ele falou: “Papai já disse que é pra dividir pra gente.” Eu falei: “Em vez disso vamos juntar com as minhas, que são poucas, e vamos fazer um leilão? Vamos botar no leilão da Gaster (?) e vamos tentar comprar o apartamento?” Porque papai tinha um dinheiro. O dinheiro que papai tinha dava pra comprar 40% do apartamento. Aí o pessoal ficou, eu me lembro que Babi, essa minha prima filha de ______ Teixeira, disse: “Yone, mas você vai leiloar as joias da família?” Eu falei: “Babi, qual a importância das joias da família? Eu preciso ajudar papai e resolver a minha vida também. Eu não posso ficar morando, eu tenho a minha casa, eu não quero morar com papai, eu quero...” Aí fizemos o leilão, mas coisa incrível. Olha, o apartamento chegava a 92 mil dólares. A gente tinha não sei quanto. Eu só sei que, vocês acreditam que foi exato? Exato. Com o leilão das joias nós compramos o apartamento. Aí tinha um problema, o apartamento estava abandonado há muito tempo. Fazer o que, né? Aí, o que eu vou fazer aí? Eu digo: “Não, aqui nós vamos ver o que é importante, né?” Aí eu digo: “O importante é pintar as madeiras. As paredes, paciência. Importante é botar um sinteco. Então via assim o que era fundamental pra papai entrar no apartamento, mas era assim fundamental. E com o meu salário, sem dizer a ele, eu ia fazendo aquilo até que ele entrou no apartamento. Agora, papai, quando mamãe morreu, eu acho que papai começou a morrer. Ele... Eu pensei, como viver? Como que uma pessoa... Quantos anos ele tinha quando ela morreu? Eu não sei. Mas como é que ele ia viver? Papai nunca tinha se vestido sozinho, papai nunca tinha se servido numa mesa. Você sabe o que significa isso? Chegou o almoço diário, o jantar, Maria servia. E se ele quisesse mais purê, ele dizia: “Maria, purê por favor.” Ele não sobreviveria. Isso era uma catástrofe pra pessoa. Agora, muito interessante, quer dizer, uma pessoa, um líder, e totalmente, domesticamente, familiarmente, totalmente dependente da mulher. Então, ele começou a declinar física e mentalmente. Chegou um ponto, que ele saiu da Unimed pelo, isso interpretação minha, vocês com a história... Como é que fala isso, a história que é verdadeira e a história que não é verdadeira? Como é que é? A história real, né? Não fala? Bom, a história real eu não sei, eu sei a minha. Eu acho... P1 – História real é a nossa, né? R – É. Eu acho que papai deixou a Unimed porque ele reconheceu. E como é que você se reconhece? Você se reconhece através do outro. Você se conhece, né? Então, pra você dizer assim: “Eu sou ruim, sou boa, sou ____”, você se reconhece através do outro, é através do outro. Mais do que no espelho, você se reconhece com o olhar dos outros. Eu acho que é isso, não é não? Como é que você se reconhece? Reconhece? Você se conhece, re... Você se conhece através do olhar dos outros. Como os outros olham pra você te levam ao seu próprio reconhecer. Eu acho que talvez papai tenha reconhecido que ele tinha de sair, não que ele quisesse sair, porque ele não estava mais com a capacidade mental e física de trabalhar na Unimed. Então isso pra ele, Nossa Senhora... lá ficou ele em casa então. Olha, papai era uma peça de vontade. Eu acho que ele resolveu então viver. Vocês vão selecionar esses troços todos, não vão botar besteira aí não, né? Bom, isso mesmo agora que eu vou dizer eu não gostaria. Aí o que é que ele começou? Ele começou, ele morava no décimo andar e eu no nono, e acho que ele começou a fazer uma transferência da vida conjugal pra vida com a filha. Mas a filha, infelizmente, era muito parecida com ele, não tinha nada com a mãe. Aí ele dizia assim: “Temos de ir a um casamento.” Eu dizia: “Mas eu não vou.” Eu digo: “Ah, pai...” “Mas como é que eu não vou, como é que eu vou ao casamento sozinho?” Eu digo: “Ah, papai, então você não vai porque eu não vou a um casamento.” Eu, na minha vida, fui a uns três casamentos e não suporto casamento. “Você vai ao casamento.” Eu digo: “Não vou.” Então eram coisas assim que pra ele também não deve ter sido fácil porque ele sempre foi acompanhado. E como é que eu ia acompanhá-lo? Nunca acompanhei ninguém na minha vida, nunca acompanhei nem os meus filhos, como é que eu ia acompanhar meu pai? Quer dizer, porque eu acho, a gente aprende tudo na vida, tanto o homem quanto a mulher. Você pega o gênero feminino, você aprende como ser adolescente de uma melhor forma, não é? A primeira menstruação. Você aprende a vida da mulher, filho. Você aprende, você ouve falar como se transa, você ouve falar como é a menopausa. Mas... não pode dizer palavrão aqui não. Mas, puxa vida, ninguém me disse como é que você reage quando você se torna pai dos seus pais. Esse é o grande problema, porque de repente isso acontece com 90% das pessoas, você se vê na _______. Como é que você se transfere da condição de filha pra condição de mãe? Eu acho que isso é uma das coisas mais traumáticas que uma pessoa pode enfrentar, porque você não tem um passado. Ninguém tinha me contado assim: “Olha, Yone, um belo dia você vai ter de adotar o seu pai ou a sua mãe.” Nunca eu tinha ouvido falar isso. Nem na literatura eu tinha encontrado, nunca tinha ouvido falar disso. De repente papai exigia de mim o que ele exigia da Maria, mas eu não tinha nada com a Maria. Nossa, aquilo foi um trauma pra mim, foi um trauma. Coitado de papai, meu Deus do céu. Aí, lá perto de casa até hoje tem o Bingo Arpoador. Papai inventou de tudo para viver. Papai era muito inteligente. Quando ele viu que não tinha mais jeito a Unimed, então vamos pro bingo. Aí ia pro bingo. Ele gostava do bingo, eu odiava o bingo, eu odiava. Não tinha paciência. 44, quatro quatro, 66, meia meia. Aquelas pedrinhas. Ai, mas pra mim era um drama. Eu fui uma vez, duas vezes, três vezes, “Papai, pelo amor de Deus, eu não vou mais ali não.” Daí ele não ia ao bingo sozinho, desistiu de ir ao bingo. Depois ele fazia assim, todo sábado ele se aprontava todo e descia. Foi assaltado umas duas, três vezes. Não descia mais. Ele descia... fechou ali onde é o Banco Itaú. Ao lado tinha uma casa de disco boa. _____________________________________. Ele comprava mil reais de CD, e muita coisa já tinha. O que eu faço? Eu vou lá, que não está certo quem está vendendo fazer isso com um idoso. A pessoa via. Então, o fim da vida de papai, ele tentou muito se estabelecer, entende? Agora, o que foi que aconteceu? Porque ele não conseguiu. Ele não conseguiu porque ele não soube parar. Ele parou de trabalhar na Unimed, muito pouco lhe restava. Se ele tivesse conseguido parar antes ele teria tido um tempo onde ele teria chance de, em plena sanidade mental, em plena potência, se dedicar a outras coisas que não fosse essa tal de Unimed, pelo amor de deus. E como eu sofri muito com a morte de papai, que papai passou anos, era uma coisa horrível, meu Deus do céu. Eu ficava em Brasília. Cada vez que o telefone tocava era infernal. Dois enfermeiros, três enfermeiros e eu ali. Um sofrimento enorme esse negócio de papai. E muitos... porque que eu não quis vir aqui? Porque eu vejo muito papai ainda na desconstrução da sua imagem. Eu desconstruí a imagem de papai, eu passei... quer dizer, eu construí uma imagem, eu segui aquela imagem para o bem, para o mal, não tenho a menor idéia, mas era o meu herói. E de repente, puxa vida, aquele herói não conseguia mais falar, não pensava, era uma coisa... e eu acompanhei tudo isso e eu acho que um pouco eu me transferi. Era como se fosse também a minha falência, junto com ele eu também estava indo. Junto com a debilidade dele, com a demência dele, eu também ficava um pouco demente porque na realidade eu era ele também, eu me fazia ele também. Aquilo foi uma coisa horrível. Aí eles falavam assim: “Vamos falar do Dr. Djalma.” Eu não quero falar do Dr. Djalma. Eu nunca consegui, eu desconstruí a imagem de papai neste período de anos de doença dele, e que foi minha também, e eu não consegui até hoje reconstruir a imagem dele, entendeu? Se você pensa assim, eu digo, a imagem que eu tenho de papai é uma coisa horrível de dizer. Vê lá o que vocês vão botar nesse troço aí. É porque você quer lembrar de seus pais ou lá de qualquer perda que você tenha tido, lembrar das coisas boas. Eu não consigo. Eu me lembro de papai naqueles anos, meu Deus, eu não acreditava. Nono andar. Ou eu estava em Brasília ou eu estava no Rio trabalhando. Subi a escada, nossa, e aquele dia ele me disse, mas isso muito antes dele ficar lá meio perdido: “Vai acontecer comigo a pior coisa, a única coisa que eu não queria.” “O que é?” “É ficar dependente de vocês.” Foi isso que aconteceu. Agora, a Unimed foi muito boa nisso. Eles mantiveram os enfermeiros, mesmo porque, sei lá, essas coisas de plano de saúde, você só tem direito a home care, não sei o que. Eles mantiveram os enfermeiros pra papai. Nessa parte eles ajudaram muito, que nenhum de nós poderíamos ter dado pra papai o fim de vida que ele teve, de ter, sei lá, três anos com não sei quantos enfermeiros. E eu tive muita sorte porque tinha uma, a Dili (?). A Dili (?) foi babá da Mariana minha filha, e ela estava trabalhando pro idoso. Então ela ficou tomando conta da casa. Eu fechei a cozinha de papai. Lá em casa a gente cozinhava, mandava a comida pra cima e ficava lá. A Dili (?) que tomava conta e dois enfermeiros que se revezavam. E isso foi até ele morrer. P1 – Yone, mas vamos então sair um pouco dessa sua história difícil, mas muito trabalhada aí. A sua reflexão é muito trabalhada, você está bem. Esses dez anos ajudaram, heim? Você foi pro colégio, aí você foi escolher uma profissão. Como é que foi? R – Aí foi, eu sempre fui muito assim, papai. O quê que eu disse de papai? Eu falei de papai do social, eu falei do papai da honestidade, inteligência. Se eu for falar de mim eu digo uma coisa, eu sou neuroticamente independente. Eu tenho uma coisa de independência, não consegui ficar casada, eu nunca consegui ter relações muito profundas, eu nunca entendi muito nada disso porque eu sempre estou saindo. Quando as pessoas pensam que eu estou chegando e parando, eu já quero voar. Isso eu esqueço, eu digo: “Mas o que é que você está fazendo?” “Eu já esqueci, eu já estou fazendo outra coisa.” Então, com isso... Qual foi a sua pergunta? P1 – Que carreira que você foi escolher, né? R – Aí, com isso, eu com 16, 17 anos, eu só ficava pensando nisso, tinha um quadro lá em casa, o Cavalheiro Sorridente, não sei que fim teve. Era uma cópia. Eu fiquei muito assentada numa poltrona com as pernas em cima olhando o Cavalheiro Sorridente e pensando: “Eu quero é me mandar, eu quero sair daqui, eu quero morar sozinha.” Aí eu tenho um tio que se casou com uma bibliotecária, Zezé. Aí eu disse: “Zezé, o que é que é isso?” Eu nunca tinha ido numa biblioteca. Aí ela disse assim: “Ah, é ótimo.” Aí eu falei: “E o emprego?” “Ah, no dia que começa a estudar já tem emprego.” Vestibular de Biblioteconomia. Nunca tinha entrado numa biblioteca, nunca. Papai tinha uma biblioteca ótima, eu comprava os meus livros todos. Aí eu vou fazer Biblioteconomia, não sabia nem o que era. E nisso _____, e pouco me interessava. O que eu queria era ganhar um dinheirinho. Aí fiz Biblioteconomia. Aí eu fui trabalhar nessa biblioteca popular, aí foi uma coisa assim, eu fiz um concurso interno. Ia fazer esse concurso, eu tirei primeiro lugar. Era assim, era um negócio dos prefeitos, eu não lembro, eu sei que tinham muitas pessoas que iam entrar, mas todos assim amigos dos prefeitos, era aquele negócio. E a chefe do meu ____ fez um acordo com o diretor e falou que tinha um pessoal lá fazendo estágio, que se ele se importava que eu fizesse o teste de seleção também, junto com os outros, e que ela pediria que caso eu tivesse um aproveitamento, uma classificação, bom, fosse pra lá. E eu tirei primeiro lugar, aí eu consegui trabalhar lá no tal do setor de bibliotecas populares. Eu catalogava os livros das bibliotecas e estes livros eram distribuídos pelas bibliotecas do bairro. Depois, pronto, o tempo foi passando, eu fiz essa pós-graduação em Ciência da Informação e aí resolvi ir pra Brasília. É isso que você quer saber? P1 – Você chegou a se envolver com questões políticas também na sua juventude? R – Não, absolutamente, e pelo contrário. Mas eu perturbava muito o meu pai, muito. O papai era Brizola, aí eu dizia assim, e mamãe também. Eles iam sempre juntos em tudo. Aí eu dizia assim, eu vim de Brasília e a mamãe, porque eu votava no Rio, “Você vai votar no Brizola?” Eu digo: “Ah, não sei mamãe.” O papai do lado. Aí eu disse: “Mamãe, eu só vou votar no Brizola se você me der um óculos.” O papai quase morreu. “Como é que você tem coragem de dizer uma coisa dessa?” “Porque eu estou precisando de um óculos.” Eu provocava muito o papai, muito, com essas coisas, com essa coisa socialista dele. Eu chegava e dizia exatamente o contrário: “Ah, não, eu não vou votar não, vou votar em outro.” Mas ele ficava exasperado comigo. Então essa questão de se envolver com o social eu nunca tive. Eu tenho assim, por exemplo, quando era bem mais moça eu ia pro Benjamim Constant, eu ia pra Sé (?), tudo isso, mas a dedicação como foi de papai à causa social eu nunca tive, e agora com o Lula muito menos ainda. Agora, pra desespero... Não vou dizer essas coisas não, depois vocês botam. Não, você está doida? Memórias de papai ele vai ficar lá tremendo de eu dizer estas coisas. P1 – O seu pai, o que ele acharia desse governo? R – Ah, ele estaria profundamente desiludido, mas ele me diria que não há outra opção, eu acho. Ele diria isso: “Realmente esse é um problema que tem que ser corrigido mas não encontro uma outra opção a não ser essa”, eu acho. P1 – E você arrumou o seu empreguinho e foi morar sozinha ou ficou lá? Como é que foi esse seu... R – Não, aí eu casei com um médico, Francisco Duarte, Proctologista. Casei com o Chico, depois me separei, depois eu fui pra Brasília. Eu fui pra Brasília num projeto internacional que era a sede em Roma, então eu fazia muito Brasília-Roma. Eram muitas reuniões, consultorias. P1 – O quê que era esse projeto? R – Esse projeto era implantação de uma rede mundial de informação agrícola, e um dos pólos, um dos centros era esse programa no ambiente do Ministério da Agricultura, que irradiava pro Brasil inteiro, um sistema de informação nacional, Sistema Nacional de Informação Agrícola. Aquilo foi muito bom, um aprendizado muito grande, porque tudo aquilo que eu inventava e fazia sozinha, eu de repente descobri, com esse contato com o pessoal de Roma, que tudo aquilo era muito conhecido e era feito de uma maneira muito melhor daquela que eu inventava. Então foi um aprendizado muito grande. O grande aprendizado que eu tive, na formação científica, foi com esse pessoal de Roma, _______. Foi muito importante pra mim. Depois eu fui pra Brasília, depois de Roma. Um belo dia eu estava no ônibus indo trabalhar. Aí, de repente, que coisa, de repente eu pensei assim, falei: “Ah, eu não quero ficar mais em Brasília não.” Porque eu digo, né, aquela coisa de: “Quem é essa terceira pessoa que está me dizendo isso?” “Ah, não quero ficar em Brasília mais não.” Você sabe o que eu fiz? Quando eu voltei de Roma eu parava no Rio e fazia uma palestra lá no fundão, UFRJ. E tinha um órgão no qual posteriormente eu fui diretora, que estava em fase de mudança, o diretor já tinha vindo em Brasília para conversar. Esse órgão que estava promovendo essa reunião que eu ia fazer a palestra. Eu fiz a palestra, não, eu cheguei para o Paulo de Souza Morais e disse: “Paulo, o seguinte. Eu quero voltar pro Rio e quero trabalhar com você.” Ele disse: “Yone, mas eu não tenho um lugar pra você. O quê que você vai fazer aqui?” Eu digo: “Não importa isso, se você tiver uma equipe honesta vai importar tanto ter cargo ou não ter cargo. Eu quero voltar.” Ele me disse: “Você quer voltar _______?” Eu digo: “Absolutamente com tudo, Paulo. Eu quero voltar pro Rio.” Ele falou: “Fechou, pode vir.” Aí eu voltei pro Rio nesse impulso. __________”Ah, vou voltar pro Rio.” Não falei com o filho que ia voltar, não falei com nada. Cheguei no Rio de Janeiro, renegociei minha volta, liguei pra Brasília e disse: “Gente, nós vamos agora morar no Rio de Janeiro, pronto, acabou, não tem conversa.” Numa dessas minhas “não tem conversa” uma filha minha mais velha ficou. Ela disse: “Ah, mãe, eu não vou não. Eu estou acabando...”, ela estava acabando Educação Artística, “Eu não vou não.” Aí eu aluguei um apartamentozinho pra ela, ela ficou e eu digo: “Mas eu estou indo, vou-me embora.” P1 – E quando vieram os filhos, Yone? Como é que foi ser mãe? R – Ah, ser mãe foi meio complicado porque libra libra é muito chegado. Então aquela coisa daquelas crianças como uma extensão de mim mesma, complicado. Agora, mas por um outro lado, um barato. Eu lembro que, antes de Brasília, eu fui botar os meninos pra dormir, eu contava história, Sérgio e Mariana. Aí, de repente assim, baixou uma coisa, uma certeza absoluta que só aquilo justificava a morte. De repente assim, eu dizia: “Pô, eu encontrei a justificativa da morte, é o filho.” A única coisa que justifica a morte é a sua permanência através de outro ser que você gerou. Nossa, quer dizer muito importante. Eu acho que filho é uma coisa que todo mundo deve ter. Todo mundo deve ter, solteiro, casado, viúvo, que importa. Mas deve ter um filho. Eu acho que é uma experiência muito boa. Depois eu fui pra Brasília e eu fui viver com um cara aí, __________, e surpreendentemente fiquei grávida e tive um filho. É o Rodrigo, esse que é jornalista da Globo News. Ah, foi aí uma experiência, que eu digo muito isso, é o filho da maturidade, totalmente diferente. P1 – Quantos anos você tinha quando você teve ele? R – 40. 39, 40, 41, por aí. Quando eu digo assim minha filha fica danada. Ela diz: “Tudo que você diz é errado, mãe.” Porque outro dia a mulher desse menino, do Rodrigo, era aniversário dele e ela fez um filmezinho pra ele. Filmou, entrevistou as pessoas: “O quê que você acha do Rodrigo?” Aí todo mundo dizia. Iam me entrevistar, aí eu falei do Rodrigo. Aí depois a família foi ver o filme. A Mariana disse: “Mãe, não tem uma coisa certa. A idade do Rodrigo não é essa, você não teve o Rodrigo com essa idade, a minha idade não é essa, a idade do Sergio não é também.” Eu digo: “Ah, minha filha, porque você não tentou dizer isso no meu lugar?” Então eu tive assim, vamos dizer, aos 40 anos. Mas então o filho da maturidade é outra coisa. Gente, pra mim era assim, o Rodrigo, Sergio e Mariana eu botava pra dormir, e ele ______ terrivelmente. Ah, eu contava aquelas malditas histórias, essas histórias não acabavam e eu sofria _______. O Rodrigo, de repente eu dizia: “Cadê o Rodrigo?” Estava dormindo debaixo da mesa. Eu digo: “Menino.” Pegar e botar no berço. Era assim. Uma outra coisa, maturidade. Não sei, eu acho que Mariana e Sergio me pegaram... filho pega mãe? Não sei... numa fase muito conflitiva, de formação de personalidade ainda, uma ansiedade muito grande. Tanto que os dois são ansiosos. O Rodrigo, é a própria tranqüilidade, o Rodrigo. P1 – E você hoje está fazendo o que da vida? R – Ah, nada. Eu, bom, então eu criei o Prossiga, né? O Prossiga foi assim. O ______ era Presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico [CNPq], eu não o conhecia. Eu estava no Rio, estava aposentada e fazendo consultoria. Aí me telefonou, disse que era o Presidente do CNPq, que gostaria de conversar comigo. Aí eu fui lá pra almoçar. Aí ele me fez uma proposta, ele disse: “Ah, porque eu fiz no Ministério da Educação e Cultura [MEC], o Plano Nacional de Bibliotecas Universitárias. Foi uma coisa muito boa, o Brasil inteiro. Bom, e aí me aposentei.” Aí ______ me chamou e disse: “Ah, Yone, você, eu soube que você criou esse negócio desse plano, eu tenho muito interesse em apoiar as bibliotecas, então eu queria ver se você queria ficar numa sala do meu lado pra me assessorar porque eu era do Comitê de Assessoramento [CA] do CNPq e eu vejo em todos os lugares, não só na Oscar, como no Brasil inteiro através desses CAs. A dificuldade de acesso, parará, parará.” Então eu digo: “Faz o seguinte, você me dá 24 horas, eu faço uma proposta.” Aí, 24 horas depois eu levei uma proposta que não tinha nada com as malditas bibliotecas de universidade, porque na minha cabeça eu acho muito assim, as instituições e suas missões. MEC, biblioteca universitária, Instituições de Ciência e Tecnologia [ICT], ciência e tecnologia, é outra coisa. Ele trabalha com a informação em ciência e tecnologia cuja base, o input, pode vir das bibliotecas, mas as bibliotecas universitárias _____. Aí eu fiz a proposta pra ele do Prossiga, que era assim a maluquice das maluquices. Nem eu entendia muito o que eu estava propondo porque ninguém trabalhava com informação e internet. Então quem que trabalhava com informação? Em 1995 ninguém trabalhava, e eu cismei de trabalhar com informação e internet. Eu tinha umas idéias assim, mas eu não sabia o quê que era. Ele dizia assim: “Mas o quê que é mesmo?” E eu falava, ele não entendia nada. Eu também não entendia o meu discurso. P1 – O Uol é de 1995 né, 1994? R – É, era o começo da internet. Eu digo: “Ah, não. Nós vamos fazer bibliotecas virtuais.” “O que é que é isso?” Eu também não sabia, mas aquele discurso pronto. Eu dizia: “Sabe o que é que é, _____? É porque...” Aí eu digo: “Ah, é ótimo, pode deixar?” Aí comecei o Prossiga em 95. Foi muito bem o Prossiga, todas as universidades, cinco mil visitas por dia. E essa coisa da neurose pela independência. Então o quê que eu dizia pro Pacheco? Pacheco era Secretário Executivo do Ministério de Ciência e Tecnologia. Eu dizia: “Pacheco, não adianta. Ou a gente vai oficializar, institucionalizar, o Prossiga,” porque era um programa sem pé nem cabeça, “ou a gente institucionaliza isto num órgão independente, não um órgão da administração direta, tipo uma Organização Não Governamental [ONG], uma ___, uma coisa assim, ou não vai dar.” E aí a gente brigava à bessa. Mas a coisa ia indo. Quando chegou... aí eu escrevia muito sobre isso dizendo, eu até tinha uma bibliografia sobre isso, que as idéias novas, as inovações, elas têm de ser protegidas. Você não pode pegar uma inovação, uma idéia inovadora, e jogar dentro de uma instituição velha, porque o que acontece? Você mata a inovação. Se você tem uma ideia inovadora, mesmo que seja conduzida por poucas pessoas, mas que estejam decididas a defendê-la, a ideia inovadora, você tem que ter proteção. Você não pode pegar uma inovação e botar na administração direta do Ministério da Ciência e Tecnologia. E tem de criar uma coisa, mas é fora do governo. Porque o ICT tem _______________ Instituto Brasileiro de Formação e Tecnologia que eu já dirigi aquele troço lá. Passei anos dirigindo aquilo. Mudou o governo. Eu saí com a mudança de governo e depois disso me convidaram n vezes pra voltar, eu digo: “Nunca mais.” Porque não tem chance porque a informação no país ______ até hoje é fraca, quanto mais há quantos anos atrás. Então é um pulo muito grande, é queimar muitas etapas que a administração direta do governo não pode estar disposta a isto, porque envolve recurso. Informação envolve recurso e infra-estrutura, não é? Então as grandes estratégias não envolvem a informação. A informação, quanto mais você implanta, ela fica cara, é caro disseminar informação. Então, geralmente é aquilo com o que, como qualquer infraestrutura, você tem duas grandes infraestruturas, você tem informação e laboratórios. Os laboratórios são mais prestigiados, quer dizer, “Não tem dinheiro, acabou o recurso.” Ainda tenta se salvar os laboratórios, mas a informação não. Então eu escrevia muito sobre isto, porque eu sou muito ousada. Mandava pra ministro, mandava pra tudo ______. Eu mandava mesmo dizendo que eu não concordava com o que eles estavam fazendo, que isso, que aquilo, que achava que tinha que ser assim, e mandava dizendo porque na China, porque no Japão, porque na Austrália, porque veja isso, anexos. E isso o Governo Fernando Henrique suportou bem. Muita briga. Eu levei aquele Prossiga sete anos, mas debaixo de uma tensão... Uma vez eu tive uma discussão com o Pacheco, Nossa Senhora. Ele quase me botou pra fora da sala dele. Ele disse assim: “Então...” Eu pedindo mais dinheiro, ele dizia assim: “Eu era afim de me envolver, eu estava envolvida com o Partido dos Trabalhadores [PT]” Olha, aquilo foi um drama. Bom, aí chegou o PT. E em primeiro lugar porque eu não ia me desdizer porque não é o meu temperamento. Eu não sou uma pessoa que tenho medo. Eu tenho medo depois, antes não. Bom, então eu não podia me desdizer porque estava tudo escrito. _____ Ministro pegou tranqüilo porque tudo que eu pensava estava escrito. E eu dizia isso tranqüilamente. Foi quando, no Ministério, alguém falou assim: “Ah, Yone, você sabe que o Ministro já declarou que todos os programas personalizados, ele vai acabar.” Eu digo: “Ah, então já devia ter acabado com o meu porque não há nada mais personalizado. Fui eu que criei, cada coisa sou eu que bolo, sou eu que contrato as pessoas, mais de 100 pessoas, e eu botei. Eu arrumei dinheiro de fora, eu captei recurso, o governo não paga nada aqui. Tudo o que eu fiz não foi o Ministério da Ciência e Tecnologia a não ser através de suas agências, por concorrência que existe. Porque quando eu entrava no CNPq pedindo 20 bolsas não sei de que, eu concorria. Não eram bolsas administrativas, eram bolsas que iam pro CA. Quando a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) me manteve em equipe _____ aqui a Faperj queria uma sala no Prossiga escrito Faperj. Porque eu criei aqui uma coisa que deve interessar a vocês, eu criei o Prossiga, e a Faperj que pagou isso tudo, Biblioteca de Personalidades. Ah, meu Deus, mas é linda a Biblioteca de Personalidades. Você podia criar uma biblioteca da Unimed. Uma coisa que eu sempre tive vontade era de sair do individual, Biblioteca de Anísio Teixeira, biblioteca de... ah, sei lá, eram umas dez bibliotecas, que era a história da pessoa com os links. Aí eu criei normas, que nada disso existia. Aí a primeira biblioteca que eu fiz foi de Anísio Teixeira que era o meu tio. Aí contratamos uma pesquisadora que tinha um doutorado, uma tese de doutorado em _______Teixeira. Você já ouviu falar em ________Teixeira, educador? Não me lembro o nome dela. Aí ela dizia: “Mas como é que é, Yone?” E eu sabia como é que era? Um barato, sempre foi um barato a minha vida. E eu não sabia. Aí ela dizia assim: “Mas como é que eu tenho que escrever?” O quê que eu vou dizer para ela escrever? Eu falei: “Você escreve assim, capítulos.” Ela falou: “Como?” Eu falei: “Não sei, do tamanho de um ofício.” Aí eu criava a norma, eu digo: “Um capítulo tem que ter o tamanho de um ofício. Sabe porque? Porque um ofício? Pra tela não rolar. Aí você vai trabalhar com links. Mas você não pode trabalhar com mais de dois links porque clica uma vez, clica outra, já fica muito longe do texto original. Então mais do que duas não façam. E então assim criamos essas bibliotecas virtuais. P1 – E elas estão no ar ainda? R – Elas estão no ar mas não estão no ar, estão muito escondidas. Mas se você quiser ver eu te dou um endereço qualquer. Elas ainda estão no ar, mas não é fácil acessar não, eu acho. É uma beleza a Biblioteca de Anísio Teixeira. Quando eu lancei, eu lancei na Academia Brasileira de Ciência, as pessoas choravam na época porque ____ fez um teatro. Chamei neto, li as cartas dele, os retratos todos da família. A morte de Anísio Teixeira, que ele foi encontrado morto em um poço de elevador. Aí eu encontrei, eu fui na casa de _____, a viúva dele. Sei lá por que cargas d’água eu peguei a pasta dele, que foi encontrado no fundo do poço do elevador. Aí eu abri, tinha uma porção de coisas escrito. Eu falei: “Mas o quê que é isso?” “Não sei.” Eu falei: “Peraí.” Eu fui lá pra casa, comecei a digitar aquilo. Então eu consegui recompor o último escrito dele que falava em ciência e tecnologia. É lindo, é lindo. E a gente fecha a biblioteca com a última coisa que ele tinha escrito, muito bonita. Essas bibliotecas vocês deviam ver porque eu sempre pensei que podia fazer essa biblioteca virtual, em vez de fazer de indivíduo, de pessoa, fazer de uma instituição. Ia ser um barato fazer uma biblioteca virtual da Unimed. P1 – Vamos fazer. A gente vai fazer e você vai ser nossa consultora. R – Eu posso... Bom, aí sabe o quê que eu fiz? Aí eu me aposentei. Eu me aposentei do Prossiga não, me mandaram embora. Foi uma coisa horrível. O fim do Prossiga foi uma coisa incrível. Então eu trabalhando eu tinha duas equipes, uma no Rio e outra em Brasília. Eu ia pra Brasília tipo três horas da tarde, aí eu telefonei pra Brasília e falei com uma pessoa lá que trabalhava comigo, Lílian. Eu digo: “Lílian, veja isso assim, eu estou chegando tal hora, bebebê bebebê.” Ela disse: “Ta bem, pode deixar que eu vou fazer tudo isso, mas tem uma coisa mais importante. Olha o que está na rede.” Era uma mensagem texto do diretor do ____, esse órgão que eu tinha sido diretora, acabando com o Prossiga, acabando com o meu contrato. Ele botou toda a minha equipe, 100 pessoas, na rua. Mas assim, pumba, acabou. E depois eles botavam assim: “O Prossiga acabou”, como se fosse uma grande glória. Uma coisa de uma mediocridade, _______. Eu levei um susto tão grande porque, de repente você tem 100 pessoas, porque a minha responsabilidade com o pessoal era muito grande porque eram pessoas que só tinham aquilo _________ renovação de _____ dois anos. Eu tinha que renovar aquelas bolsas. Podia chegar e dizer: “Tenho 100 pessoas na rua agora porque eu não consegui renovar as bolsas do CNPq, o apoio da __________.” Era infernal, vou te contar. Sabe aquela coisa de perder ganhando? Eu perdi, aí que eu saí de papai. Porque papai foi até o fim, eu não. Eu tive essa sorte de perder. Eu não queria que o Prossiga acabasse. Eu já não agüentava mais aquilo. Até criativamente eu já tinha me revoltado. Eu criei tudo que eu podia criar, a minha cabeça já não dava mais. Eu estava criando subproduto já, eu já estava indo trabalhar com a fome, lá com os Sem Terras. Aí eu fiz uma biblioteca de fome. Era uma coisa muito estranha. Bom, aí acabou. Acabou o Prossiga, pronto acabou, todo mundo na rua. Então eu não tive essa coisa que papai teve de se comprometer até o fim da vida. Bom, depois do Prossega então eu fiz duas consultorias, apenas duas consultorias de um ano cada, sei lá, e nas duas eu diria que eu não me dei bem. Eu não me dei bem porque, quer dizer, o produto do trabalho foi bom, mas eu não me dei bem, eu não fiquei contente, eu não trabalhei feliz e nem fiz ninguém feliz porque eu sou muito executiva. A primeira consultoria que eu fiz, essa tal que foi, e eu dizia, gente, eu trabalhava com informação pra aquele objeto final. Eu dizia: “Mas o programa de vocês tem que ser adequado.” Ninguém gosta de ouvir isso. Você pega um consultor, fala assim: “Olha, eu estou fazendo a história da Unimed.” ____ “Ah, vou chamar a Yone para ser a consultora de informação.” Aí a Yone vai e diz assim: “Sabe qual é? Eu acho que você não está fazendo bem a sua história da Unimed.” Era isso, entende, porque é muito executivo, muita experiência em Brasil e exterior, muito conhecimento, independente e chata. Então foi muito difícil. O trabalho de consultoria pra mim é muito difícil. P1 – Você tem que pôr a mão na massa. R – Eu tenho de pôr a... a questão não é nem dar ordem, é, eu sou executiva, eu sei fazer. Quer dizer, todo lugar que eu trabalhei, Diretora, mas se você dissesse: “Yone, agora você vai lá no cargo menos importante, vai fazer”, eu sabia. Eu sempre soube ______, eu sempre soube fazer. Fazer é comigo. Eu não posso fazer tudo, ________. Agora, pra sair disso pra uma consultoria, me dei mal nas duas, sabe, assim, enfrentamentos totalmente desnecessários. A ciência, aí tinha que explicar, meu Deus do céu, o que é que é informação na internet. Eu não queria mais explicar nada. P1 – E o quê que é informação pra você, essa caixa de Pandora? R – Olha, é um conjunto de dados. Você pode trabalhar com dados ou informação, não é? Você pode trabalhar, por exemplo, dados estatísticos. No Prossiga a gente tinha lá um bando de dados estatísticos, que você passa para o usuário os dados estatísticos com a possibilidade deles, com a tecnologia adequada pra ele ou reorganizá-los da maneira que eles quiserem e tirarem as suas conclusões. Então, são dados. E algumas vezes você transfere informação. Quando você trabalha, por exemplo, flora, Projeto Flora. O Projeto Flora é um projeto que existia, eu não sei como me lembrei disso, que pegava todas as plantas do Brasil e as descrevia: “Essa planta foi registrada, descoberta, não sei, ela é assim, ela é assado”, sei lá. Escrevia cada planta. Isso é informação porque você tem alguém pra fazer o Projeto Flora. Ele falava: “Eucalipto.” Ele teve de estudar o eucalipto através... estudar ele ou consultar fontes secundárias pra ele poder botar aquela porcaria ali. Ele transfere então informação sobre o eucalipto. O dado estatístico é um dado mais seco, que exige elaboração. P1 – E o quê que é isso pro mundo, quer dizer, qual que é? R – É fundamental, poxa, é você não ter de repetir experiências. Isso que é, quer dizer, você, quando você quer fazer um desenvolvimento, uma coisa qualquer, se você parte de uma base de informação você só vai repetir o que for interessante repetir. Porque evidentemente existem determinadas áreas do conhecimento que exigem a repetição. Se você está fazendo um experimento agrícola no Pará ou no Rio Grande do Sul, são condições climáticas, de solo diferentes, você repete os experimentos. Mas se você está trabalhando com matemática, não há nenhuma necessidade de você repetir uma pesquisa em matemática porque ela é universal. Ela não é regional, é universal. Então eu acho que informação é a base de tudo. É a base, é aquilo que me leva à consolidação, à transferência e à consolidação do conhecimento. Agora, em vez de informação, _____ da educação ela mesma. Então há que reconhecer que o fato da informação sofisticada ser cara é um grande inibidor pra investimentos do governo. O governo não tem dinheiro nunca. _________. Mas não precisa nem falar em informação. Você pensa assim, na sua universidade . Toda vez que há um problema em uma universidade de redução, o MEC não está mais repassando, um inferno, o quê que acontece? Cancelam determinado percentual dos periódicos de assinatura, os periódicos estrangeiros, que são quase dois mil dólares. É isso que cancelam, não é? É infraestrutura. Infraestrutura é uma coisa frágil. Em toda atividade você tem infraestrutura e você tem objetivo. Você defende o seu objetivo, é aí que você investe. Evidentemente que pra que aquele objetivo se concretize você precisa da infra-estrutura. Mas você não quer mexer naquilo do objetivo finalístico, você prefere mexer na infraestrutura. Então é muito difícil nesses países em desenvolvimento. E outra coisa, essa coisa que eu sempre tive muita consciência. Você trabalha pra frente de pesquisa, agora saiba o seguinte, que quando você está na frente da frente da pesquisa não há nem um sistema nem serviço de informação que vá lhe ajudar, porque você participa de fóruns internacionais, você está na ponta. Quando você está na ponta você gera conhecimentos, e esses conhecimentos são input para os sistemas de informação para serem divulgados por outros pesquisadores que não aquele supra sumo, porque pra quem está na frente da frente da pesquisa, que freqüenta todos os fóruns internacionais, ele não vai pra uma biblioteca porque ele tem a informação primária do ______ visível, que são seus colegas. Então ele vai, todo ano ele está na Europa com o qual lá da área dele nos Estados Unidos, ele está lá, ele conhece toda a frente de pesquisa do mundo. Evidentemente ele sabe o que está em andamento no mundo inteiro. Qualquer descoberta, claro que o cara vai passar um e-mail pra ele: “Pô, olha, consegui.” Então ele não precisa do sistema formal de informação, não é? Então o sistema formal de informação é quando... esse por exemplo que eu trabalhava, que eu digo que é altamente sofisticado e elitizado, mesmo assim ele não vai ______, não vai, porque quem está no alto da pesquisa, quem lidera o movimento de pesquisa, o conhecimento de determinada área, ele vai, claro, ele vai fazer um paper, claro que ele tem que ter uma bibliografia, mas tudo que ele tem é informal. P1 – Yone, você consegue entender, nessa sua história aí, porque que você foi pra essa área? R – A área de Biblioteconomia porque eu queria ganhar dinheiro e minha tia disse que ganhava. P1 – Não, porque você foi pra essa coisa do conhecimento? Você está na lida ali do... R – É, porque? Ah, isso está ligado à pós-graduação, talvez, _____. E eu fiz uma pós-graduação boa porque foi começo da Pós-graduação em Informação no país e toda ela era dada por estrangeiros. E no Brasil ninguém conhecia. P1 – Você fez na Universidade Federal? R – Não, eu fiz numa instituição de informação que eu dirigi depois que fez uma pós-graduação junto com a UFRJ, que dava diploma. E foi muito bom por isso, os professores eram da Inglaterra, dos Estados Unidos, que não tinha know-how no Brasil, não tinha ninguém formado nessas coisas no Brasil. Então foi uma pós-graduação. _______________ determinada. “Olha, _____, sai da minha frente que eu vou passar.” Mas passo. Eu boto uma coisa na minha cabeça e não tem jeito. Eu fui fazer esse Mestrado em Ciência da Informação com esses estrangeiros. Sabe o que eu fazia? Eu era chefe de não sei o que aí. Aí olhava, o cara chegava lá e eu dizia: “Eu quero ver o currículo.” Aí eu tinha um projeto que era uma base de dados. Bom, não interessa. CNT (?), uma base de dados CNT (?), pegava pesquisa, bibliografia, tinha funções de pesquisa, uma coisa bacana. E eu queria aprender aquilo. Então, quando vinha o professor eu queria saber papapapã. Não interessa, eu ia lá pra trás, ficava respondendo o ofício. Se o cara me interessava porque eu queria aprender, ah, aí eu chamava ele pra ______ sócia do Clube do Exército. Ia com os filhos, cuidava, ia pro clube, recebia em casa. E aí eu fiz a minha dissertação de mestrado absorvendo as pessoas. A pessoa chegava, eu queria ______ não me interessa, eu não queria nem saber. ______ americano, eu me lembro, que era importante, Deus me livre, eu sei que foi horrível, ah, o negócio do registro da catalogação, o registro automático, como é que era, como é que não era, tinha uns negócios assim que tinha que preencher. Eu disse: “Ai meu Deus.” Quase que eu levei bomba nesse negócio. Eu disse: “Ai que saco isso tudo, mas o que me interessava eu me virava e extraia. E foi assim, quer dizer, é isso. Então eu acho que a pós-graduação teve uma interferência muito boa nisso. P1 – A sua dissertação foi publicada? R – Publicada formalmente não. Uma dissertação como outra qualquer. Agora, eu dava aula também num curso de especialização de documentação científica. Eu gostava disso. Então tinha, como é que chama isso? Currículo, pauta, a disciplina. P1 – O currículo, a grade... R – A grade. Bom, aí tinha que dar aquilo, mas eu não dava nada. Como eu estudava muito, eu só dava o que eu estudava, o que eu gostava. Aí um dia a Diretora me chamou e me falou assim: “Yone, tem um aluno aqui, disse que não tem nada que você está dando, gosta das suas aulas, não tem nada com aquilo. Ele quer aprender o negócio de picabú (?)”. Eu digo: “Célia, então você vai ter que arranjar outro professor porque eu não vou... em primeiro lugar, eu não sei isso e eu não quero aprender, não quero.” Era um negócio, eu lembro até hoje, que eu nunca aprendi, é que estava no programa. Era umas fichas grandes, fichas perfuradas na margem. Você perfurava aquela porcaria e enfiava uma coisa como se fosse uma agulha de crochê assim, e caiam umas fichas. Aquilo que caia era o que servia pra você. E eu odiava aquilo, eu dizia: “Eu não vou aprender aquilo, eu não sei, não vou aprender. Então não vai ensinar. Então, Célia, vamos fazer o seguinte, eu acabo esse ano e depois eu não vou mais dar aula pra você, acabou.” “Não, pelo amor de Deus.” “Então eu vou dar o que eu quero, serve?” “Serve.” Aí eu dava o que queria. Mas eram umas coisas fantásticas que eu descobria na biblioteca. Eu estudava, preparava aula. Isso era no curso de especialização. Eu dei curso também, e fui bem. Eu sei que eu fui bem. Eu sempre tive muita consciência de quando eu vou bem e quando eu vou mal em uma palestra. Estava fazendo uma conferência. Eu sei, olha, qualquer pessoa que tem experiência em falar sabe, né? Em cinco, dez minutos eu sei: “Eu não vou conseguir.” E não há quem faça, não consigo. Ou: “Peguei a platéia, vai.” Ou quando eu não consigo, mas um negócio assim, não consigo, pronto, acabou. Não há nada que eu possa fazer aqui pra pegar essa gente. Então, pra mim foi sempre isso. E como eu dava boas aulas nessa especialização, mas eu fui professora de graduação. As minhas aulas eram péssimas. Menina, mas aquilo era muito louco, eu trabalhava o dia inteiro, saia da aula pra Biblioteconomia, no porão da Biblioteca Nacional. Aquilo acabava 10 horas da noite, eu ia pra fila do ônibus, mas ____. Os alunos comendo sanduíche _____ . Porque? Porque estudavam, e estudavam o dia inteiro. Eles trabalhavam o dia inteiro. Quando eu ia pra lá eu queria mais era morrer, e eles mais do que eu. Ficava tudo comendo sanduíche assim. ___________ Aí teve, mas eles forçavam até, sabe? Aí eu, às vezes eu preparava uma coisa num congresso, naquele tempo era transparência. Aí eu levava pra lá, ficava todo mundo olhando assim. Aí teve um dia, eu tinha de dar, nessa minha graduação aí, normas da Associação Brasileira de Notas Ténicas (ABNT). Quer dizer, imagina. Então eu fazia. Aí eu inventava assim: “Olha, se vocês quiserem, então se vocês prepararem um texto, vocês não façam um texto. Eu não vou analisar a qualidade do texto, mas vocês fazem um texto que vocês quiserem, qualquer coisa que vocês quiserem escrever, dentro do padrão. Quem fizer o texto já sai com um tanto de nota. Quem for padronizar um texto já pronto... Eu tentava. Aí um belo dia, nessa aula da ABNT, eu cheguei: “E não sei o que, hoje eu vou ditar.” Duas horas. Tinha um intervalo, eram duas horas de aula. Eu passei duas aulas ditando e eles escrevendo. Aí quando acabou, dez minutos antes eu disse: “Bom, eu queria fazer uma avaliação com vocês. Não sei se vocês perceberam, eu mudei o estilo desta vez. Eu nunca dei uma aula pra vocês como eu dei essa. Então eu queria fazer uma avaliação, saber se vocês gostaram.” Adoraram. Você veja, minhas aulas eram ruins. Adoraram. Sabe a única coisa que eles disseram? “Ah, professora, só falta a senhora marcar o assunto que pode mais cair na prova. [risos]. Aquele negócio não deu certo comigo, mas me esforçava. Menina, depois mudou. O porão da Biblioteca Nacional era uma sala assim, o dobro dessa, comprida, _____, e tinha que dizer pelo microfone. Aí lá ia eu com aquilo. Aí um dizia assim: “Não”. Eu queria ir pro meio da sala pra ver se eu chegava mais perto. Quando chegava no meio da sala os alunos tudo mudavam de cadeira, papapapapaa, aquele barulho. Ai meu Deus do céu, deixa eu voltar pra... Olha, aquilo uma desgraça... [PAUSA] P1 – Quando a Unimed foi criada, quer dizer, eles se reuniam muito, né, tinham discussões. O seu pai também participou da Sociedade de Medicina? R – Papai, bom, eu não sei, você vai ter de ver isso melhor. Mas papai era Presidente da Sociedade de Medicina, Sindicato, tudo isso. Aí ele criou uma coisa, acho que era Somerj (?), não sei, que foi embrião da Unimed. Era um movimento cooperativista, mas não era Unimed. Aí, em determinado momento, não sei como, ele entrou em contato com a Unimed de Santos que foi a primeira Unimed, do Castilho de Santos. E essa Somerj (?) talvez ele transformou na Unimed do Rio de Janeiro. P1 – E esse grupo é um grupo de fundadores jovens mas muito interessantes, inteligentes, cultos. Eles se encontravam pra discutir dentro da sua casa? R – Muito, muito, muito. Eles estavam sempre juntos. P1 – As famílias se relacionavam? R – A tal ponto que mamãe fazia o que um dia por semana? Ela fazia o tal do jogo do biriba com as senhoras, as mulheres do Bonfim, Celso Ramos. É que eu não me lembro mais o nome deles. P1 – Convivia com as filhas como a Denise Damian (?), Dina (?) Rocco? R – Nossa. Denise era muito amiga de papai, muito. Ela e o pai dela também. Eu me lembro, eu pequena, eu atendendo o telefone. Era a tal de Damian. E Denise, Denise era muito ligada a papai, muito mesmo. E o tempo todo ela visitou papai. Agora, o interessante de papai, voltando à personalidade dele, que quando a gente diz assim, eu falo dele o social, a coisa, sindicato, a questão mesmo do social, do cooperativo, do coletivo e não do individual, pode passar a impressão que papai era bonzinho. Papai não era bonzinho não, não tinha nada de bonzinho. Ele não era essa personalidade do bonzinho, entende? Papai, dentro de uma discussão era duríssimo. Quer dizer, é curioso uma personalidade assim, não é? Porque papai era duro. Uma discussão com papai, sai de baixo. Eu via lá em casa. Às vezes ia esse pessoal da Unimed, eu chegava a ficar constrangida. Enfrentar papai numa parada, evite. Duro. A ideia dele é aquela e ele vai defender até a morte. E, por outro lado, essa coisa não do individual e do coletivo. P1 – Você acha então que ele foi mais um filósofo do que um médico de prática? R – Eu acho. Quer dizer, é por isso que eu acho que o Castilho... Cadê o Castilho, heim? P1 – Está em Santos. R – Ainda está lá? O Castilho o chamava de Guru porque toda _____, porque eu tenho a impressão, vou me meter onde não devo. Não entendo nada de cooperativa médica, mas na minha cabeça houve um momento em que deve ter havido um choque entre a visão social de papai do cooperativismo e a coisa da empresa. A empresa tem de ganhar dinheiro, não é? Eu penso assim. Um dia desses eu vou voltar aos artigos de papai pra ver como ele reagiu a esse choque. Eu acho que deve ter sido, mas isso tudo é na minha cabeça, não é nada sobre isso. Não sei, papai e Castilho eram amicíssimos, mas eu fico pensando se não havia, em determinado momento, alguma dicotomia dado a isso, porque o Castilho sempre teve sucesso com a Unimed. Significa o que? Que ele fez uma empresa pra ganhar dinheiro porque senão tinha falido, não é? E papai do outro lado, o quê que... papai, olha aqui, deixa eu te contar uma coisa. Papai tinha um consultório ____ Porto Alegre, e ele não aumentava a consulta nunca. Era aquilo, acabou. De quem pode pagar ele cobrava um pouquinho. Depois de anos ele descobriu que a enfermeira dele, a que fica aí, aumentou a consulta. Ele cobrava tão baixo que a recepcionista aumentou a consulta e ficava com a diferença. Mas era uma coisa assim que a gente tinha, um fanatismo por essas coisas todas. Meu irmão conta uma história que eu não presenciei. Ele tirou a carteira de dirigir. Papai saiu com ele de carro e ele bateu num carro parado. Aí Carlos Alberto diz que ele pegou um cartãozinho e escreveu assim: “Lamentando o acidente, coloco-me a seu dispor.” E fez Carlos Alberto botar no buraquinho do vidro pra botar lá. Enfim, sabe, e Carlos Alberto nunca esqueceu isso. Quer dizer, devia ser um menino dirigindo, 18, 20 anos. Ele nunca esqueceu isso. Papai era assim a honestidade. Papai era incapaz de dar um jeitinho, coisa que eu sou. Nossa, o que eu mais fiz na minha vida foi dar jeitinho, senão eu não tinha conseguido sobreviver não. Vai lá pra Brasília enfrentar aquela gente, mulher, dentro de uma área de infra-estrutura. Se eu não desse o meu jeitinho não tinha sobrevivido, absolutamente. P1 – E o humor dele? Ele era bem humorado? R – Ele não. Ele era bem humorado, mas não é, por exemplo, você falou em bem humorado eu me lembrei da Maria Cassinha (?), uma pessoa acima de tudo bem humorada, adora contar piada. Papai não, era uma pessoa normal em relação a humor. Papai era totalmente obcecado por essa Unimed, totalmente. Ele só pensava em Unimed, e teve a grande sorte de encontrar Maria. Você tem de ler os discursos dele. Os discursos dele são lindos. Em todos eles ele diz: “Amei Maria.” Todos eles. E quando mamãe morreu com 84 anos ele foi o médico do ano da Sociedade Brasileira de Medicina e Cirurgia, sei lá o que era. E ele fala da partida dela: “Amei Maria.” Ele ____ porque todo discurso dele são peças literárias de uma beleza! Tem uma que, ele fala sempre nos filhos, na mulher dele, nos filhos. Curioso isso tudo. O último discurso dele, que eu acho que foi esse talvez, ele acaba dizendo que a coisa mais importante da vida é a amizade da família. Ele acaba assim o discurso dele de 80 anos, cara. E ele tem um discurso dele, ele foi também, um dos discursos mais bonitos dele, esse é lindo, ele foi agraciado, ele foi Cidadão Carioca, ganhou o título de Cidadão Carioca. Tem um discurso dele, ele falando da vida dele, mas é belíssimo esse discurso. E ele, quando fala dos filhos, ele fala assim: “Um par de filhos ímpares.” Pô, não tem mais nada pra dizer em relação aos filhos dele. Nada. Porque eu sou assim, vocês já perceberam, meu irmão era exatamente ao contrário. Uma pessoa equilibradíssima, sensata, cuidadosa. O que ele diz, ele tem certeza do que ele diz. Sabe, todo equilibrado. Um idealista mesmo da vida. Eu estou indo por aí. Não sei pra onde eu vou amanhã mas por enquanto eu estou aqui. Um par de filhos impares. P1 – Como era a relação do seu pai com o seu irmão? R – Bom, eu acho que era assim, eu era mais ligada a papai e Carlos Alberto era mais ligado à mamãe. Eles tiveram, eu acho... Eu sou libra, libra só acha as coisas assim, uma nebulosidade enorme. Eu acho que a morte de mamãe, Carlos Alberto é médico, Carlos Alberto assumiu muito. Eles fizeram uma sociedade afetiva muito forte naquela morte, porque a impressão que eu tinha era que papai delegou a Carlos Alberto o tratamento dela. Então ele ficava em torno ____. Aquilo criou um laço muito forte entre eles naquela ocasião. Agora, depois disso Carlos Alberto morando na Bahia e ele aqui, ele já dependente. E então eu passei a ser, a morte de papai foi assim. Um sábado eu subi e achei papai diferente. “Pai, pai.” Não olhava. Eu digo: “Ai meu Deus do céu.” Aí resolvi contar pra ele, olha que coisa interessante, eu resolvi contar pra ele a história da família. Eu digo: “Pai, eu estou aqui. Meu nome é Yone, sua filha, tem Carlos Alberto. Carlos Alberto tem tantos filhos. Os filhos de Carlos Alberto são os seus netos. Os meus filhos são meus, que são seus netos. Porque Mariana é assim, porque o Sergio é assim. Porque os filhos de Carlos Alberto _____assim.” Contei pra ele a história da família, de manhã, sábado. Mas não achei que ele estivesse bem. Telefonei para o meu irmão na Bahia e falei: “Carlos Alberto, papai está morrendo.” Ele falou: “O que?” Eu falei: “Está.” Aí ele mandou chamar o enfermeiro. Aí o enfermeiro disse: “Não tem nada disso, ele só não comeu hoje mas ele está como todos os outros dias, ele está bem.” Aí sábado de noite eu passei lá, ____, desci. Cinco horas da manhã a Dili (?), essa que tomava conta da casa, foi babá de Mariana, telefona falando assim: “A senhora pode dar um pulo aqui?” Ele tinha morrido. Eu cheguei, então estava uma enfermeira de um lado, ela do outro, ele mexendo. Aí eu falei, eu digo: “Paulo, você já tomou a pressão?” Ele disse: “Não tem pressão.” Aí eu disse: “Mas então ele morreu.” Ele falou: “Morreu.” Aí eu falei: “Eu faço o que?” __________________, eu preciso voltar à análise para contar. Você sabe o quê que eu falei quando o cara falou? Eu falei: “Então ele morreu.” Ele falou: “Morreu.” E eu falei: “Eu faço o que?” Um negócio compulsivo de tomar uma iniciativa. Há que se fazer alguma coisa diante da vida ou da morte. P1 – Tomar uma iniciativa ou sentir que tinha perdido realmente o pai? R – É incrível, né? Incrível. Aqueles espaços aqui. Aí foi também muito interessante porque eu comecei a telefonar, só que eu não dizia pra ninguém que ele tinha morrido. Eu telefonei pro meu irmão. Cinco da manhã ele estava dormindo, claro, domingo. “Carlos Alberto, venha pra cá, mas venha agora. Você está escutando que é pra vir agora? _____ Olha, tem de vir pra cá, heim? Tem de vir pra cá.” Não disse. Depois, aí eles custaram assim 15 minutos pra chegar, meia hora, não sei. Aí eu falei com elas, mas não disse que ele morreu. A negação da morte, né? Aí eu telefonei de novo pra Tombos (?) pra dizer: “Olha, papai morreu.” Incrível, né? P1 – Você passou a análise falando do seu pai tantos anos com ele vivo? R – Com ele vivo e depois a análise me ajudou muito nessa desconstrução dele, muito. Agora, quando o papai morreu eu já tinha parado a análise de novo. ____ faço quatro anos de análise. Agora eu interrompi a análise de novo, mas fiquei devendo R$ 100,00. Eu não voltei. Então pra mim _______ é tudo. Quer dizer... Você acha que eu posso abandonar um analista devendo R$ 100,00, uma pessoa honesta? Não tanto quanto meu pai, mas sou. Então... P1 – Você ficou devendo pra voltar, né? R – É. Aqueles R$ 100,00 me prendem, de qualquer forma eu estou presa a ele. Um belo dia a gente vai ter de conversar. Aí eu fico fantasiando que vai ser no natal. No natal eu vou ter uma conversa com ele, vou dar um presente de mais de R$ 100,00, vou escrever uma coisa. Eu propunha pra ele fazer análise por e-mail. Eu sei, mas não dá, estou mentindo. Se ele vier aqui a gente conversa. P1 – Yone, como é que é o seu dia-a-dia hoje? R – Ah, eu estou afastada, né? P1 – O quê que você faz, que você gosta? R – Agora eu estou dedicada à Casa da Alegria, Sala da Alegria, que já está quase pronta. Aí eu fui agora ao Capão. Capão é interior da Bahia, lá não sei aonde, um lugar de... você já ouviu falar em Capão? De, como é que é aquele nome em inglês? De trekking. P1 – De Trekking, caminhada. R – É. Então lá tem uma moça que faz cerâmica, é uma arquiteta, largou tudo. Lá só tem isso, né? Muitos estrangeiros, pessoas que largaram tudo pra não fazer nada lá, e essa faz cerâmica. Então eu encomendei pra ela uma placa que ela já fez mas ainda não pintou. Ela me mostrou, ia botar no forno: “Sala da Alegria”, minha última coisa que falta da Sala da Alegria. Então o quê que eu faço? Eu estou totalmente fixada acompanhando as coisas políticas. Virei grande especialista em política nacional. E eu levo meus netos... eu falei que eu nunca fiz, porque quando eu estava trabalhando a minha filha Mariana dizia assim: “Mãe, você quando viajar você pode pelo menos, você tem de dizer assim: ‘eu vou viajar pra tal estado.’” Foi isso. Que eu não voltava em casa, não me lembrava. Ficava todo mundo: “Mas cadê ela?” Ninguém sabe. Bom, então eu acho que, com essa coisa de papai, o que eu estou tentando é isso, é não ter o fim de vida que ele teve. Então eu estou curtindo os meus netos, mas não da maneira, que o analista falava muito isso, não da maneira que minha mãe faria. À minha maneira, entende? Eles ficam lá, de repente eu digo: “Chega, chega, vai todo mundo embora. Eu não quero nem saber, vocês saem daqui que eu não aguento mais. Sai, sai, sai e não volta mais.” Pronto, aí foi todo mundo embora e isso não os indispõe contra mim. Eu acho que é isso, que as pessoas são aceitas, por isso que elas se reconhecem através dos outros, como elas são. E quando há afeto então, então é isso. P1 – E ser avó, como é que é? Mãe você já falou, e avó? R – Ah, é um barato porque você não tem responsabilidade. A responsabilidade ou irresponsabilidade com os filhos não se transfere para os netos. Eu não quero nem saber. Ontem eu fui levar o Igor ao dentista, aí ele disse: “Não, porque agora tem botar um aparelho assim, assim, porque olha aqui. Quer ver?” Botou na unha e mostrou que o entre dente daquele moleque, eu ria tanto, eu ria. Eu falei assim: “Você acha então que eu vou estar preocupada se o nariz dele está batendo nos dentes?” Eu disse: “Isso é problema da mãe dele, eu não quero nem saber.” “Mas eu quero explicar de novo.” Não me explica, eu não tenho interesse por isso. _____, acabou. Eu vim aqui trazer, pronto, acabou, que depois a gente vai ao McDonald’s.” Por enquanto está muito prazeroso isso, porque eu não me obrigo. Eu recebo os meninos muito bem e eles vão lá espontaneamente. Quando eu começo a dizer que tem de tomar banho e escovar os dentes eles não vão mais. Aí eu chamo um dia e não falo nem pra tomar banho nem pra escovar dente. Aí eles vão mais. Então a gente fica nesse jogo assim. Mas está muito, muito, muito... Tem uma menina de dois anos, ou três. Ah, três. Ana é fogo, essa aí eu não curto muito não, muito pequena. Mas os outros são ótimos. Eles agora só querem se vestir de Rost (?) e umas marcas aí. Então eu quando posso vou pra eles na Galeria River, esse aí deve entender disso, que é de surfista, ah. P1 – E o filho que é músico? Você vai em shows, acompanha? R – Olha, ele fez um show agora lá na Ilha do Governador.” Eu falei: “Ah, Rodrigo, nesse eu não vou não.” Mas... P1 – Como é que chama a banda dele? R – Estranhos, Os Estranhos. Mas eu procuro... eu nunca acompanhei muito filho. Eu nunca fui a uma reunião no colégio de filho. O que é que você acha disso? Eu vejo minha filha, toda semana eu acho que ela vai a reunião de filho. Cada um... Eu me lembro que uma vez eu fui buscar os meninos, os dois eram pequenos, Sérgio e Mariana. Aí a moça falou: “Ah, nós queremos conversar com você.” Eu digo: “Ai meu Deus.” Aí ela disse: “Não, porque nós queremos saber as doenças.” Eu não me lembrava. Ah, as doenças da Mariana e do Sérgio. De repente eu me lembrei. Eu digo: “Ah, já sei. O Sérgio teve isso, isso, isso.” Aí eu fiquei toda entusiasmada. Ah, quando acabou o discurso eu me lembrei que não era o Sérgio, era a Mariana. Aí eu deixei por isso mesmo. Eu digo: “Ah, deixa ___”. Vocês vão publicar e com isso eu vou contar esse caso pra vocês e vou encerrar. Uma das vezes, porque eu passei 17 anos em Brasília, mas nesse período teve aquele negócio de Roma, que eu voltei e passei nove meses, voltei pra Brasília. E teve outra vez que eu passei nove meses na Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) também. Foi quando houve uma mudança de governo, eu perdi o cargo e resolvi passar nove meses na Finep. Aí eu voltei pra Brasília. Eu voltei pra Brasília sozinha pra arrumar um apartamento e fazer uma porção de coisa. Então, o meu apartamento, móveis e não sei o que, não sei o que, e mamãe e papai foram levando as crianças. Então o que é que eu fiz em Brasília? Durante uns três dias eu arrumei o apartamento, matriculei as crianças em colégio, em inglês. Aí o papai e a mamãe chegaram, levaram as crianças. Então estava assim eu e mamãe sentadas na cama, uma confusão, aqueles papéis todos. Eu estava tentando organizar aquela documentação toda, inscrição de criança, móveis, compra. A mamãe pega um papel, pra infelicidade minha. “O que é que é isso?” Eu digo: “É a matrícula do Rodrigo no colégio.” Aí ela lá, ela vê lá: “Yone, ____. Pai, Francisco Duarte.” Era o pai errado. O pai não era aquele. Menina, aí eu digo: “Mamãe, qual a importância disso? Eu troquei o nome do pai.” Aí ela diz assim: “Minha filha, se acontecer alguma coisa, como é que pode o pai errado?” Eu falei: “Mamãe, mas o que é que eu faço?” “Não, você tem que ir lá.” “Eu não vou no colégio dizer que o nome do pai não é esse.” “Vai. Você tem de ir porque eu não vou embora enquanto você não for. Você tem de corrigir. Se acontecer alguma coisa é muito desagradável.” Aí botei salto alto, linho, seda. Cheguei na secretária e falei: “Eu fiz uma matrícula aqui do meu filho, eu queria que você me desse a ficha pra eu corrigir um dado.” Ela falou: “Onde?” “Ta aqui.” “Você pode me dar pra eu corrigir?” Ela disse: “Eu corrijo.” Eu digo: “É mais fácil eu corrigir.” Ela: “Eu corrijo.” “Não.” “Me diga o quê que está errado.” “O nome do pai.” _________. É libra, libra é assim. ________, às vezes dá certo. Pronto, é isso. P1 – Yone, o quê que você achou dessa entrevista, da Unimed estar querendo contar a história da instituição, das pessoas? Você gostou? R – Divida a pergunta. Gostei da entrevista, adorei. Me fez bem e acho que vai me ajudar muito nessa minha confusão da imagem do meu pai. Eu falei, eu nunca mais falei de papai. Você viu como eu resisti a vir aqui. Eu vou dizer uma coisa pra vocês, a Unimed, Deus me perdoe, de Minas Gerais, foi lá em casa, pegou documentos, fez uma coisa de papai. Me mandou, eu nunca abri. Eu nunca li um livro sobre o papai. Eu nunca li, eu não sei o que eles fizeram. Eu nunca abri pra ler. Então isso pra mim, quando eu vim aqui, que eu vi que eu pude... quase que eu fui pra Bahia hoje mais cedo só pra não vir aqui. Então, eu acho isso muito bem. Agora, quanto à história da Unimed, eu não sei porque o Andorinha (?) fez um trabalho sobre indicadores numa singular, na Unimed de um estado. De alguma maneira muito minha amiga e eu acompanhei aquilo. Inclusive ela me pediu pra ir lá pra ver um negócio de informação. Bom, eu participei de algumas reuniões. Então, o que eu vi, isso é interessante pra vocês, foi o seguinte, nesta Unimed que eu fui, chama-se Unimed Singular de um Estado, uma visão muito e desesperadamente empresarial. Eu fiquei até meia inibida porque eu digo: “Pô, se esse pessoal sabe que eu sou Chastinet aqui não vai ser bom.” Porque eles faziam críticas, inclusive essa coisa, que eu acho que, sei lá se era a base da cooperativa, sei lá esse negócio de cooperativa. Mas eu via papai falando com muito orgulho da família dos médicos. Então a gente tem que ter um médico que entenda de administração pra ser administrador. Você tem. Então a Unimed, aquela que papai falava, era toda de médicos, é a casa dos médicos, onde os médicos aproveitam suas tendências para, além de fazer o que fazem na medicina, contribuírem pra essa tal dessa maldita dessa cooperativa médica. E nessa reunião eu via exatamente críticas a isso, entendeu? Isso aí não era nada porque assim, que a Unimed não podia nunca ganhar dinheiro, nunca ia ser uma empresa. Porque? Porque as pessoas eram voltadas, a formação das pessoas é da área de saúde. Como que o aspecto empresarial ia conseguir ganhar dinheiro, porque quem estava na parte financeira, na parte não sei de que, era um médico e não um profissional daquela área. Então eu fiquei com isso na cabeça. Até é bom papai ter morrido, porque eu acho que se isso é verdade... nessa Unimed é, porque eu fui lá e vi. Eu conversava com o Presidente, eu via as discussões, eu ficava constrangida de estar ali. Então, o que eu acho é o seguinte, não é nada disso. Então eu vejo uma coisa assim muito social e _____ empresarial. E agora, pelo que eu vi a dois anos atrás nesse estado que eu fui lá, é totalmente empresarial. Gente, eu pago mais de mil reais pela Unimed. Eu pago R$ 1200,00 só pela Unimed. Tenho 66 anos, eu e o Rodrigo. Pago R$ 1200,00. Que social é esse? Eu tenho impressão que por aí vocês vão ter de fazer alguma pesquisa, e que é uma coisa estratégica e política da Unimed, o quê que eles querem que diga? Porque aquela visão social, por essa experiência que eu tive nessa singular desse estado não tem nada a ver. Quer dizer, não tem nada a ver, gente, é o que eu acho, pode estar tudo errado, não tem nada a ver com os ideais de papai. Mas pode ser que esteja certo e pode ser que eu esteja equivocada. Mas é um bom objeto de estudo isso. P1 – Muito obrigada. Foi um prazer conhecê-la de frente. R – Eu gostei muito que eu falei de papai sem dramas. P1 – Você nem chorou. R – Pois é, mas eu fiquei com vontade, viu? ---FIM DA ENTREVISTA---
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