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Líbero dos projetos sociais

História de: Alexandre Carvalho Ferreira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/06/2021

Sinopse

Alexandre relembra da história de seus ascendentes, conta a importância do seu avô para a família, sobre as suas experiências escolares, sempre pontuando a importância da arte na sua vida. Relembra que após terminar o colegial conheceu a Fundação Gol de Letra, pois ficou interessado em participar de uma oficina que eles ofereceram sobre audiovisual. Conta como começou a participar da Fundação Gol de Letra, como trabalhavam, e a importância dessa Fundação em sua vida e como um projeto social, mudando a história de muita gente, como mudou a dele.

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História completa

P/1 – Bom Alexandre, começar nossa entrevista vou pedir pra você falar de novo o nome completo, local e a data do seu nascimento.

R – Meu nome é Alexandre Carvalho Ferreira, eu moro em São Paulo na Zona Norte, bem próximo ali da Vila Albertina, mas é mais Serra da Cantareira e eu nasci no dia treze de novembro de 1982.

 

P/1 – Nome dos seus pais?

 

R – Meu pai é José Vitor Ferreira e a minha mãe é Carla Maria Carvalho de Araújo Ferreira, é grande.

 

P/1 – E você tava falando que eles vieram de Três Corações...

 

R – É, na realidade o meu pai, a família do meu pai é de Três Corações, ele vem de uma família de construtores de casas de madeira, então boa parte dos tios do meu pai seguiram essa área, alguns trabalham ainda com isso. E lá em Três Corações a informação que eu tenho mais próxima é essa que o meu bisavô trabalhava com casas dessas. Existe um projeto de produção e ele ia lá numa empresa que ele trabalhava e ele montava a casa em questão de trinta dias, sessenta dias, enfim. Daí esse conhecimento foi passando de família em família, então a minha família por parte de pai é de construtores, essa é a linha. Existe uma ideia, existe uma discussão muito grande em relação a origem, porque eu acho que os cartórios, principalmente em Três Corações, às vezes, invertiam os nomes, então a gente tem uma suspeita até por características físicas de que existe aí uma origem ou do Oriente Médio ou por parte dos judeus, da imigração, enfim, mas com essa troca de sobrenomes o meu avô é o único Ferreira, os outros irmãos dele são todos Borges, então você vai em Três Corações, por exemplo, você vê o açougue Borges, a rua fulano de tal Borges, mas ele recebeu esse nome que na realidade era o nome do avô dele, José Vitor Mafra Ferreira, por parte da família da mãe dele, então vai se perdendo essas informações. Eu sempre tive muita curiosidade de fazer esse resgate, até por uma questão de saber da onde a gente veio, como é que a gente chegou aqui. Então existe esse ruído que é uma grande dúvida que eu quero ainda um dia ir lá num cartório lá em Três Corações e buscar essas informações.

Por parte da minha mãe, minha mãe na realidade é carioca, mas a família dela toda é de Alagoas e aí tem uma coisa mais clara, específica que foi com a questão dos escravos. Então com a questão da parte dos escravos veio uma família de franceses, uma empresa francesa construiu uma linha férrea e dali surgiu um relacionamento junto com a linha férrea que nasceu a minha bisavó, então existe uma mescla de franceses com africanos daí nasceu o meu avô que é negro, músico, que fazia muitas coisas ligadas a cultura brasileira. E aí ele casou com uma branca que é a minha avó por parte de mãe que era lá de Alagoas e eles tiveram a minha mãe e vieram pro Rio e de lá ela estudou, enfim, não deu muito certo morar por lá e ela se mudou pra São Paulo. Aqui em São Paulo ela acabou fazendo cursos, ela morava no Centro muito próximo ali do Mercadão e por lá ela entregando currículo e procurando um emprego, ela conheceu o meu pai no escritório que ele trabalhava ali, trabalhava na parte contábil de um escritório, dali começou tudo. Eles se conheceram, se casaram, se mudaram, a minha mãe na realidade se mudou do Centro pra, é até a casa que hoje eu moro, na Zona Norte, e ali eles foram construindo, meu pai foi aos poucos construindo a casa que hoje eu moro e eles tiveram mais dois filhos que são meus irmãos o (Yuri?) e a Érica. Aí por volta do final da infância quando eu já tava começando a entrar em alguns projetos na escola, feira de ciências, essas coisas todas, o meu pai falou: “não, por aqui eu já cansei, eu cansei de morar na Zona Norte, eu não aguento mais, já conheço tudo, já sei tudo que vai acontecer”, o meu pai era muito conhecido no bairro e ele tinha uma certa preocupação, ele não irritava, ele era popular, aquilo não irritava ele, mas ele sentia necessidade de ser desbravador, assim como meu avô que veio pra São Paulo, saiu de Minas porque a situação estava muito complicada, eles tinham uma sorveteria lá que era a minha avó que cuidava, e os filhos ajudavam e meu avô trabalhava nessa área de construção por lá, seguindo a linha da família. Ele viu que aquilo, meu avô viu que lá já não dava mais, não era mais o que ele queria e ele veio pra São Paulo e meu pai meio que replicou esse processo, porque aí ele percebeu que ele já tava ali no bairro há 35 anos, ele já conhecia tudo, então ele queria conhecer São Paulo. Daí ele arrumou emprego na Zona Sul, ele mudou radicalmente, então aos dezesseis anos os meus pais resolveram sair de casa, foi assim, ao contrário.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É, foi ao contrário. Então tá bom, eu vou desmontar o quarto de vocês e foi assim, foi ao contrário...

 

P/1 – E vocês ficaram com a casa?

 

R – Exatamente, ficou eu e a minha irmã do meio, a Érica, ela tinha uns... Eu tinha lá os meus dezessete, ela dezesseis anos e a gente tava começando essa coisa de primeiro emprego, enfim. Eu sempre gostei muito de arte, sempre muito ligado a arte, a desenho. Até hoje no meu trabalho eu tenho um pouco a mão nisso, porque eu trabalho com desenho industrial, uma coisa mais técnica. Aí eles viram essa oportunidade de mudança, compraram um terreno em Embu, a família do meu pai, como eu disse, são de construtores e a família da minha mãe é constituída grande parte por artistas, a minha avó pinta quadros, a minha mãe pinta quadros e a gente sempre teve uma afinidade muito grande com Embu das Artes, lá é uma coisa maluca em relação a isso. Então o Centro é muito forte isso e aí eles conseguiram comprar um terreno próximo ao Centro de Embu das Artes, e aí o meu pai ta lá aos poucos, construindo uma casa lá, tá construindo... Realizando um sonho da minha mãe que é ter um ateliê pra ela poder fazer os quadros dela, enfim, ter um espaço na feira de Embu e eles tão com esse projeto. Construíram a família, criaram os filhos, meu pai sempre muito rigoroso em relação aos estudos, ele tinha uma preocupação muito grande pela dificuldade porque o pai dele não teve acesso, praticamente zero, só ler e escrever mesmo. A minha avó muito básico mesmo a questão da escrita e dos conhecimentos gerais, enfim, e o meu pai se esforçou muito e nessas mudanças todas com muito custo conseguiu concluir os estudos e o grande interesse dele era fazer faculdade. Tanto é que ele até por uma atitude nobre, bom, vamos ver quem que pode fazer uma faculdade, minha mãe ta começando a fazer faculdade agora.

 

P/1 – Ah, é? Olha que legal.

 

R – De Contabilidade, era um sonho dela.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho. Os nomes dos seus avós maternos e paternos? Lembra?

 

R – Vitor Mafra Ferreira, o meu avô, e Dalva da Silva Ferreira...

 

P/1 – Lá em Três Corações?

 

R – Por parte do meu pai são os pais dele. Por parte da minha mãe, o meu avô eu não cheguei a conhecer, Carlos Araújo, uma coisa assim, não tive mesmo muito contato e eram nomes gigantescos, eram maiores do que o da minha mãe e a minha avó era Núbia de Oliveira.

 

P/1 – Alexandre, você percebe alguma influência dessa nacionalidade francesa na sua família, o jeito de ser, alguma comida?

 

R – Em relação a escolha das profissões mesmo. A minha avó pinta quadros, toca piano, ela é muito ligada, a minha avó por parte de mãe é muito ligada a essa coisa da arte, principalmente do Renascentismo, então a minha mãe pinta, gosta muito, eu falo: “pinta alguma coisa sua”, mas ela pinta Monalisa, todos esses quadros que são ícones mesmo do Renascentismo, então eles têm essa raíz européia expressa na arte que eles desenvolvem. E isso foi meio que passado de geração em geração. E eu não pinto quadros, mas na realidade admiro muito, sempre brigo com a minha mãe, vou lá, guardo todos os quadros que ela sai pintando e vai deixando espalhado, aí eu peguei um cômodo em casa e falei: “aqui é a sua galeria”, desmontei um quarto que tinha sobrado, coloquei todos os quadros dela e dei até uma motivada, vê quanta coisa ela tinha.

 

P/1 – Alexandre, como foi a sua infância no bairro da Zona Norte, que lugar vocês moravam especificamente, onde é a casa hoje? E como é a sua infância no bairro?

 

R – A Vila, na realidade, é um bairro muito... É uma vila muito pequenininha que não tem muitas opções de lazer. A gente tem o Horto Florestal que é um parque muito bonito, muito verde, muita fauna e flora presente, mas no caso da minha família a gente... Meu pai tinha uma preocupação muito grande em relação a segurança, então a minha irmã e eu, a gente basicamente tinha a escola, às vezes a gente ia pro Horto alguma coisa, mas muito passeio familiar. Tinha receio muito grande até dentro da vila, porque é a comunidade que a Fundação Gol de Letra atende e se propõe a desenvolver um projeto pra desenvolver a comunidade, existia essa preocupação a gente não tava tão próximo, mas existia essa preocupação com segurança muito forte.

 

P/1 – Porque era um lugar, digamos assim, de risco?

 

R – Era uma área, como eu disse, é uma área muito próxima do verde, então a minha rua é uma avenida, Avenida Nova Cantareira, então dificilmente tinha essa coisa de sair pra rua pra jogar bola, essas coisas, porque era uma avenida que dava acesso a Mairiporã, a outros bairros distantes, então a gente não tinha essa coisa de estar na rua, o nosso espaço do brincar era a escola, eram os parques, era muito essa coisa de juntar os amigos pra fazer algum projeto da escola, tinha sempre um pano de fundo, nunca tinha essa coisa de sair pra rua pra brincar com o vizinho, por exemplo, porque a área onde eu moro existe uma distância entre as casas, porque como eu comentei, tem muitas áreas verdes. A Avenida Nova Cantareira é muito fragmentada, então eu não tenho vizinhos nas laterais, por exemplo, é uma outra...

 

P/1 – Ah, não?

 

R – Não! É uma outra... É um outro esquema ali que funciona. Então as pessoas são um pouco mais distantes até fisicamente. Era na escola o ponto de encontro, os passeios da escola, enfim, eu não tive uma infância tão dinâmica, talvez até gostaria que fosse um pouco mais interativa, mas na infância foi mais entre os familiares mesmo, foi uma coisa mais família pode-se dizer, primos, irmãos...

 

P/1 – E porque vocês foram morar na Zona Norte?

 

R – O meu avô foi morar na Zona Norte pelo seguinte: quando ele resolveu sair de Três Corações ele tava em busca de um terreno, uma casa em São Paulo onde ele pudesse vender o imóvel que ele tinha lá e a sorveteria, e dali tirar o recurso pra comprar um terreno, uma casa por aqui, só que ele não tinha nenhuma referência, a referência era a irmã da minha avó que morava já na Vila, aí eu já não sei como ela foi parar lá e aí quando o meu avô decidiu vir pra cá quem acolheu, fez a acolhida deles aqui foi essa irmã da minha avó por parte do meu pai, que acabou cedendo parte da casa até que eles pudessem comprar uma casa aqui. Aí eles conseguiram vender essa casa em Minas e dali eles... Pra você ver essa coisa da desvalorização do dinheiro, o dinheiro que eles pegaram lá eles conseguiram dar entrada na casa que a gente mora, no terreno tinha uma casinha azul, pequenininha, é um terreno bom, é um terreno grande e dali começou a vida do meu avô, foi pagar essa casa, esse terreno. E foi muito difícil, foi muito dificultoso essa transição, não foi uma coisa totalmente bem sucedida.

 

P/1 – E ele continuou trabalhando com construção aqui em São Paulo?

 

R – Continuou trabalhando com construção, só que aí teve essa questão da industrialização mesmo da coisa, ao invés dele construir casas pré-fabricadas com madeira ou projetos mais específicos, ele entrou mesmo em empresas que trabalham com construção civil de grande porte e aí a vida dele foi meio que trabalhar pra comprar, pra pagar esse terreno. Foi uma vida muito difícil do meu avô, ele deu um passo muito grande pra família, mas foi uma coisa penosa, é sempre o que a minha avó comenta.

 

P/1 – Ela fala isso?

 

R - Fala que sempre foi muito difícil conseguir e era a meta deles era garantir que tivesse aquela casa ali, em paralelo o que estava acontecendo? Era a grande preocupação do meu avô, no bairro existiam muitas chácaras, muitas plantações, uma coisa mais de subsistência, não era uma coisa de gerar grandes lucros e ele viu ali que na realidade por conta da formação geográfica mesmo da Vila, existe a Vila Albertina e o Tremembé, o Tremembé é um bairro tradicional, com famílias italianas, com famílias alemãs, as ruas todas têm nomes difíceis, nome de pessoas que a gente não conhece, mas conhece os filhos, os netos. Tem aquela história na igreja, tem um centro, tem uma espécie de um centro cultural onde tem fotos dos antigos moradores, da associação... Na distribuição dos terrenos o Tremembé era mais plano, era mais fácil, mais acessível, passava o trem no meio. A Vila era um morro, ela é, na realidade, um vale, e os terrenos são muito inclinados, muito inclinados e daí o que aconteceu? O valor desses terrenos foram caindo, o que aconteceu? Na Vila começou o quê? A ter invasão, começaram essas construções irregulares, então meu avô ficou muito preocupado com isso, de ter que de repente, até por uma necessidade, ter que fazer uma invasão, ter que sair dali, não conseguir arcar com as prestações do terreno, da casa, enfim... Então essa era uma coisa que ele já via que não tava sendo uma coisa muito bem estruturada, a criação do bairro, porque quando ele foi pra Vila ele comentava isso, era só mato, era um morro verde, muito alto, íngreme, que ninguém via como construir. Daí vieram as pessoas, começaram a construir e algumas coisas foram legalizadas, até hoje algumas não conseguiram, são irregulares, acho, vocês mesmos chegaram a observar lá na Vila que existe esse problema sério de construção irregular e a área é uma área muito próxima ao verde. Então as pessoas, às vezes, têm muito interesse em construir lá, e esse interesse ele permeia todas as classes sociais. Existem muitas construções irregulares que são mansões, por exemplo, não são só, a gente pensa que é só o pessoal que vem e de repente não tem condições, mas não tem muita construção irregular de grande porte, posso dizer assim.

 

P/1 – E Alexandre, o seu período de escola onde você estudou?

 

R – Eu estudei numa escola muito tradicional lá no bairro que chama-se EEPG, agora mudou com essas siglas, enfim, mas é o Maria Paula Marcondes Domingues, é uma escola que fica na divisa entre os dois bairros, o Tremembé e a Vila Albertina, mas ela tem tradição de acolher as crianças da Vila Albertina. Colégio muito próximo do verde, o apelido é ‘Macaquinho’ porque aparecem lá macacos, muito próximo do parque do Horto Florestal e foi a melhor escola que eu estudei, porque tinha muito essa cara de interior, de todo mundo conhece todo mundo, todo mundo muito próximo, a escola muito próxima da casa da gente. Então eu tive a oportunidade, por exemplo, de ter aula com as professoras do meu pai de tão tradicional que era essa coisa, do tempo passando e as pessoas permanecendo nas organizações, muitos dos professores que eram novinhos lá pro meu pai eles chegaram a dar aula pra mim. É meio complicado pro meu pai e aí como é que era ele na escola? Eu conseguia puxar a ficha dele lá.

 

P/1 – E você só estudou nesse Maria Paula?

 

R – Eu estudei nesse Maria Paula, eu fiz o Ensino Fundamental nele daí com aquelas mudanças que houveram alguns anos atrás de... Até das nomenclaturas que antes era primário, ginásio e colegial, com essas mudanças as escolas foram reorganizadas, e o Maria Paula era uma escola de primário e ginásio que ia até o terceiro ano na época, então tinha o ginásio e o colegial que era noturno. Então foi, acho que a primeira causa social que eu defendi, porque nós não queríamos que a escola fosse só primário, então a gente foi a última geração, a gente não conseguiu, enfim, teve todo um processo junto com os professores que também tinham o interesse que a escola permanecesse oferecendo todas as séries, mas foi meio que padrão pra que todas as escolas definissem qual a faixa etária iriam atender. Daí a gente mudou pra um colégio do Tremembé que foi Arnaldo Barreto e foi meio complicado essa mudança porque os bairros são meio segregados, na Zona Norte...

 

P/1 – São bairristas.

 

R – São bairristas mesmo, então o pessoal do Tremembé... O colégio Arnaldo Barreto era um colégio muito tradicional de pai pra filho, pra neto, era uma coisa muito mais antiga até do que era o Maria Paula. E quando a gente foi pra lá a gente não foi muito bem visto, a Vila Albertina não é muito bem vista pelo Tremembé por conta dessas invasões, por conta de fatores históricos mesmos, e a gente sentiu um pouco essa dificuldade de adaptação.

 

P/1 – Quando você foi pra outro colégio você foi fazer o Colegial?

 

R – Isso, e aí foi lá que eu acabei conhecendo a Fundação Gol de Letra.

 

P/1 – Como é que foi isso?

 

R – Na realidade eu tinha concluído já os estudos, tinha terminado o terceiro ano do colegial e eu sempre gostei muito de vídeo, de cinema, de audiovisual, e na Zona Norte não existe oficina, curso, são coisas que são mais do Centro pra Zona Sul que tem essa cultura de oferecer esse tipo de oficina. E aí eu terminei o colegial, já tinha feito algumas coisas muito caseiras mesmo de projetos da escola, de filmar, folclore, lobisomem, essas coisas todas a gente fez uma brincadeira com amigos e eu fiquei com aquela ideia na cabeça. Terminei o terceiro ano do colegial, aquela coisa de procurar emprego, tava tentando ver que profissão eu ia seguir, se ia prestar pra fazer vestibular na USP, e cinema é maluco, tentar fazer Cinema na USP é tão difícil quanto, sei lá, Medicina, porque... Aí eu fui começando a esbarrar nessas dificuldades dos meus interesses pela arte. E aí a minha irmã que ainda tava no colégio ficou sabendo, o pessoal da Fundação Gol de Letra foi lá pra divulgar as primeiras oficinas focadas pra jovens, porque a Fundação começou mais com projetos mais pra educação infantil e aí eu fiquei sabendo, só que já não tava muito dentro da faixa etária, já tava meio que fora, tava prestes a sair da idade limite pra ingressar. Mas mesmo assim eu fui lá e falei que eu tinha interesse e que achava essa questão da idade uma bobagem, porque eu queria fazer a oficina. Aí eu entrei... Não tinha vaga, já tava lotada, eu entrei na de Hip Hop, foi a mais próxima que tinha de vídeo, porque você vê essa coisa da adaptação, da insistência da pessoa de querer uma coisa e de estar pelo menos ali do ladinho, aí eu fiquei um pouco lá.

 

P/1 – Mas quando você foi lá você falou com quem?

 

R – Falei com a Edir que era uma assistente da Sônia London...

 

P/1 – Edir Fonseca?

 

R – Isso. E na mesma época eu conheci a Sônia London também, esse projeto era muito experimental, tinha uma coisa muito nova de o que vai acontecer agora, porque a gente tem jovens aqui e eu logo, opa, por aqui é interessante pra mim, eu to afim de entrar nisso daqui. E aí eu conversei com ela muito, expliquei muito essa minha ideia de fazer vídeo e ela falou: “olha, a oficina de vídeo tá lotada, realmente tá lotada, mas eu vou colocar o seu nome na lista de espera porque sempre acaba um desistindo, saindo, indo pra outra oficina e eu tenho vaga na de Hip Hop, você quer?” eu falei: “quero!”, entrei, gostei, achei legal, fiquei uns dois, três meses na oficina, aí surgiu, abriu uma vaga... Porque era de sábado, não tinha essa coisa, aí passou um tempo ela: “ó, surgiu uma vaga, você ta interessado?” “lógico, com certeza”, aí entrei na oficina de vídeo. Foi o meu primeiro contato com o Gol de Letra, comecei na oficina, era aos sábados, aí logo falaram da turma da Vila que era um grupo de jovens, era um outro projeto dentro... Muito experimental, de jovens que dentro da Fundação colaboravam com todas as áreas lá e também tinha mais ou menos como uma espécie de sede não oficial, a biblioteca. E a ‘Turma da Vila’ tinha como principal objetivo garantir que aquela biblioteca tivesse uma funcionalidade maior que não fosse só uma sala, que ela tivesse vida, que atendesse não só o público interno, as crianças, enfim, os funcionários, mas também a comunidade. E aí com essa intenção muito ousada da ‘Turma da Vila’ ela acabou fazendo links com todos os outros projetos da organização. Então eu acabava indo aos sábados pra oficina de vídeo e durante a semana comecei a aparecer uma, duas vezes pra ver como é que tava a ‘Turma da Vila’, tinha uma reunião no final do dia e aí a gente começou com a pesquisa do bairro, porque a ideia de todas as oficinas era que ao término cada oficina apresentasse um resultado final que fosse um pouco da história do próprio bairro.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho. Na oficina de vídeo quem que dava a oficina? Quais eram os conteúdos? O que vocês trabalhavam nas oficinas?

 

R – A oficina era dada pela Mônica (Nicardim?), era uma educadora da oficina de artes, dentro do projeto focado pra crianças aos sábados, ela começou, ela topou o desafio também de desenvolver essa oficina de audiovisual e ela sempre tinha suporte de outras pessoas que ela articulava, tinha uma outra educadora que agora eu não me recordo, mas que participava em algumas aulas específicas sobre roteiro, enfim. E depois de algum tempo a Miloca que era de uma produtora era parceira da Fundação, ajudou com os vídeos da Fundação, a Miloca assumiu o compromisso de finalizar a oficina, a parte de edição, a parte mais mecânica da coisa, de finalização do material foi com ela, então foram essas duas referências que a gente teve dentro da oficina do audiovisual. Foi uma oficina muito boa porque deu uma liberdade pra gente também se identificar dentro do bairro, então a Vila não tem esse hábito tão... Porque é bacana de outros bairros locais conviver com essa história. E aí dali a gente começou a ver, pesquisar a oficina de vídeo, sempre esbarrava em histórias sobre o bairro, em personalidades do bairro, então a gente sabia que antes o nome do bairro era Esmaga Sapo, porque era um brejo e as pessoas passavam de carroça e esmagavam os sapos, aí daí com o tempo era uma filha de fazendeiro que chamava Albertina e aí ali a região virou Vila Albertina. E aí foram... A gente também foi vendo um quebra cabeça de pessoas com essas histórias de como essa coisa da habitação era uma discussão latente muito forte pra todo mundo. E como eu via aquilo na minha história de como aquilo influenciava a forma como eu via o mundo e como (citar?), agora eu cheguei aqui, meu avô veio, enfrentou todos esses desafios que eu vejo algumas pessoas ainda enfrentando, meu pai já até viu que é isso mesmo e foi pra outro lugar pra enfrentar outros desafios e quais são os meus desafios? E aí eu comprei muito a ideia da Fundação de mudar alguma coisa, tava juntando muitas coisas pra mim, acontecendo certo. A minha ideia de mexer com o vídeo, a minha ideia de ter um ideal, e a coisa de ser jovem, de estar ali participando de um movimento. Então isso tudo pra mim brilha muito quando e penso, eu acho, eu tive a sorte também de ter pessoas, outros jovens que tinham esse mesmo interesse, a gente conseguiu fazer muita coisa.

 

P/1 – Vocês entrevistavam as pessoas? Como era isso?

 

R – Nós entrevistávamos, inclusive tem um vídeo que é a ‘Cara da Vila’, não sei se você chegou a ver, provavelmente a Miloca tem esse vídeo, é muito bom porque como a Sônia, como o projeto tinha um pouco algumas ideias do que era, a gente já ouvia falar do Museu da Pessoa, já tinha algumas coisas seguindo pra esse caminho que depois surgiu até um projeto mais forte dentro da Fundação, a gente meio que seguiu essa linha, então a gente entrevistou vários moradores antigos, pessoas responsáveis por instituições, restaurantes tradicionais da região e dali a gente foi montando um quebra-cabeça do que é a Vila Albertina, do que é a Vila Albertina hoje, inclusive.

 

P/1 – Quando você faz essas entrevistas que histórias que você descobriu além do Esmaga sapo, do nome da Albertina, que outras histórias você descobriu?

 

R- Principalmente a força do trem, como o trem influenciou de forma muito grande na evolução do Tremembé que é um bairro do lado e como, também, a Vila de alguma forma cresceu meio que ali do ladinho, mas se tinha o trem como uma referência muito forte. E essa coisa de ser um bairro mais ligado a parte, como eu posso dizer, de interior mesmo, não tanto periferia, mas mais interior, a gente percebeu que as pessoas antigamente tinham plantações, plantavam chuchu, plantavam árvores frutíferas, tinha uma cara maior de bairro do interior, de cidade interiorana. Isso eu achei legal porque as cidades do interior elas têm uma história mais forte, elas têm uma história mais presente e a dificuldade, às vezes, dos moradores mais antigos, passar isso pras novas gerações. Então a gente sempre foi muito bem acolhido pelas pessoas, os idosos, principalmente, claro, tinham um interesse muito grande de falar sobre a origem do bairro e o que eles fizeram em prol do bairro, porque a gente tinha alguns problemas muito sérios antigamente, bem do lado ali onde a gente... Da Gol de Letra tinha um antigo lixão e o bairro inteiro fedia e aí houve todo um movimento, eu lembro dessa folha de abaixo assinado passando na minha casa pra que fosse desativado, e hoje as questões ambientais são muito mais fortes, mas naquela época até por um desagrado, por uma coisa que influenciava diretamente na vida das pessoas era uma pedreira que foi desativada e começaram a encher de lixo, mas eram uns caminhões, era uma coisa oficial, eles faziam isso e era um lixão oficial que tinha lá. Isso foi desativado com muito custo, até hoje é um terreno muito grande que fica do lado da Vila Albertina mesmo, e que foi desativado e que muitos moradores antigos falam muito dessa história, porque foi uma conquista muito grande ter desativado aquilo, porque era uma coisa que causava um desagrado pra todo mundo, tanto visualmente como no convívio na questão da saúde. Então eu acho que o bairro sempre é marcado por situações críticas que os moradores se organizaram e conseguiram alguma coisa.

 

P/1 – Alguma melhoria?

 

R – As linhas de ônibus têm alguns líderes locais muito antigos, alguns ligados até a esse movimento pra desativar esse lixão foram conquistas, muito difícil colocar as linhas de ônibus dentro do bairro, porque existia uma cultura chamavam também de ‘Morro do piolho’, o bairro era o morro do piolho, então as pessoas...

 

P/1 – Por quê?

 

R - Eram mal vistas. Porque as crianças, como as creches... Não existiam creches dentro do bairro como existem hoje, já existem uma quantidade muito maior, mas existiam creches em bairros aos arredores e as crianças que vinham da Vila tinham uma quantidade maior de piolhos, aí era o morro do piolho, “onde você mora?” “No morro do piolho”, daí tem esse conflito, sempre a gente esbarra na história do bairro nesse conflito de como ele surgiu, da simplicidade das pessoas, das dificuldades das pessoas. Então era o morro, foi ‘esmaga sapo’, depois passou pra ‘morro do piolho’, hoje em dia é a Vila Albertina é muito, é um lugar que é visto como bairro, a gente não tem mais a rua de barro, a gente não tem mais... O meu pai chegou a ver a favela de madeira mesmo. Com muito custo acabou a Vila Nova que era uma invasão muito triste de se ver, porque existiam uns terrenos íngremes e aí existia a Vila Nova que era uma parede mesmo, aí muitas vezes o noticiário na TV falando sobre pedras, pessoas que morriam porque pedras rolavam em cima delas. Então o bairro foi construído muito com base historicamente nas dificuldades e as pessoas superando. Antigamente tinha a pedreira, muitos moradores trabalhavam na pedreira, tiveram problemas respiratórios, têm uma líder lá, eu não me recordo o nome dela, mas que é responsável por esse espaço do lixão que virou um centro de reciclagem lá e lá ela comenta que quando era pedreira o marido dela faleceu por conta do pó durante todos os anos, enfim. Então pra você ver, e aí foi a mesma pessoa que brigou pela questão das linhas no bairro e por aí vai.

 

P/1 – Que bacana. E tudo isso você descobriu pela oficina de vídeo?

 

R – Pela oficina de vídeo e ao mesmo tempo isso foi me dando informações pra eu entender como é que o bairro funcionava, aí na Turma da Vila a gente acabava usando aquele conhecimento como uma forma de criar coisas dentro da Gol de Letra.

 

P/1 – Quem que fazia parte da Turma da Vila?

 

R – Era um grupo de jovens grande, bem grande. Tinha a Devalnir, que era uma jovem que morava bem do lado do bairro, na verdade era um grupo de irmãos que era Devalnir, Devalcir, Gesivaldo, Genivaldo e a Gesileide e a Maria Sandra eles eram uma família do lado do... Então eles participavam tanto quanto a minha família do... É que a minha família não tinha tantos irmãos, e de repente a minha família também tinha uns nomes mais fáceis, então a gente conseguiu se estabelecer ali com mais tranquilidade. Essa família tinha uma participação muito grande, eram irmãos quase na mesma idade, o Devalcir e a Devalnir participavam mais desse grupo da Turma da Vila, eu, o Kiko que na verdade o nome dele é Anderson, também seguiu mais ou menos a ideia do vídeo, até hoje trabalha um pouco com essa coisa do audiovisual; a Damaris fez muita coisa dentro do projeto, cuidou da biblioteca, viajou pra França, representou a Fundação até fora do país depois de algum tempo; o Marcelo, o Luis Marcelo, a mãe dele trabalhava na cozinha do projeto e que também tinha uma história muito forte de querer saber, curiosidade, hoje ele trabalha com informática, essas coisas todas que a gente nem sabe direito qual que é o nome, mas eu sei que ele ta muito bem. E tinham outros jovens, mas que eram mais próximos, eram esses que eu mencionei, e tinha o Sidney que entrou pro grupo do Ivaldo Bertazzo, viajou o mundo inteiro, e muitos deles são amigos até hoje, não foram só colegas de projeto, eles marcaram uma época e até hoje tenho contato com eles, vão na minha casa algumas vezes...

 

P/1 – É?

 

R – É, não tenho tantos amigos de escola, mas o Gol de Letra conseguiu criar essa socialização das pessoas.

 

P/1 – A Turma da Vila começou a ideia de potencializar a biblioteca?

 

R – A principal ideia era essa.

 

P/1 – E quais as outras coisas que vocês conseguiram fazer?

 

R – Na realidade as outras coisas no início eram muito informais, então alguns jovens acabavam se identificando com alguma coisa que acontecia dentro da Fundação, e a Turma da Vila era meio que a justificativa pro jovem ta lá dentro do projeto e “Ah, eu sou da Turma da Vila! To aqui nas artes visuais, to ajudando a professora”, era uma forma de ter aprendizes, digamos assim, em vários setores dentro da Fundação, essa era a ideia. Porque a Turma da Vila não era especificamente da biblioteca, mas a biblioteca cresceu muito pelo fato de ser o principal objetivo, então surgiu, logo em seguida, um projeto da Fundação Abrinq chamado Mediadores... Formação de Mediadores de Leitura, um projeto muito legal onde os jovens eram capacitados pra fazer mediação de leitura com as crianças. Jovem era a ponte entre o livro e a criança, isso deu muito certo, muito certo, as crianças começaram a ler livros, a biblioteca cresceu de uma forma muito legal. Era um projeto que a gente fazia de coração mesmo e que a gente sentiu o resultado muito forte, de uma forma muito prática, chegava no final do dia a criança podia levar um, dois livros pra casa e a gente via no papel que isso era crescente e a própria Fundação Abrinq deu esse retorno depois pra Fundação. Nós não éramos apenas jovens que estávamos no projeto, nós fazíamos o projeto, e muitas vezes a gente conseguia ter uma voz ativa de fato, porque falava-se muito na época de protagonismo juvenil. Eu lembro que tinha muito essa coisa de… Projeto tem muito modismo também, então na época era o tal do protagonismo juvenil não sei o quê, mas a gente: “ah, mas o que a gente tem que fazer?” “ah, a gente pode falar aqui o que a gente acha que deve ser e de repente conseguir alguma coisa” e aí a gente com muito custo foi conseguindo com essa parceria com a Fundação Abrinq a gente teve essa formação, depois a gente virou multiplicador e é engraçado que hoje eu vejo jovens que a gente fazia, poprque nós fazíamos mediação, eram crianças e hoje são mediadores, então isso virou um ciclo multiplicador. Eles viam mais sentido em alguém que era lá do bairro, que eles encontravam na padaria, encontravam na rua, andando de bicicleta, viam essa transformação mais fácil num jovem que tava lá dentro e dando aula, do que num professor que vinha de outro bairro, que vinha também com conhecimento, mas ele se sentiam mais próximos. “Poxa, se ele conseguiu eu também consigo! Eu vou ser mediador de leitura, eu vou ser dançarino, vou trabalhar com vídeo. Ele conseguiu, porque eu não posso?”. Então isso foi muito legal, gerou uma onda muito forte, muito forte, muito legal, até hoje eu encontro crianças que já não são mais tão crianças, já são adolescentes falando: “poxa, foi muito legal”, alguns que eram uns pestinhas, mas esses que a gente lembra, esses que reconhecem também muito.

 

P/1 – Alexandre, ontem a Célia comentou de vocês trabalhando numa ilha de edição, conta dessa ilha de edição?

 

R – A famosa ilha de edição. A oficina não tinha um espaço físico definido, porque o projeto a princípio tava muito focado na educação infantil e os jovens eram uma coisa muito nova que tava começando lá, e a oficina de vídeo deu uma disparada, digamos assim, porque os jovens estavam muito interessados em fazer vídeo. E aquilo acabou virando uma justificativa de uma forma muito bem construída pelo grupo de jovens. Se tem um evento na Fundação, se tem algum projeto acontecendo, “vamos fazer um vídeo”, porque aí a gente tem mais um material pra relatório. Projeto social sempre tem relatório, relatório, relatório, foto, vídeo, nossa, então deu certo a ideia. Então o que aconteceu? A gente não tinha uma ilha de edição, como eu disse, o próprio vídeo da oficina... Existiam as câmeras que nós utilizávamos ali, mas o material foi editado numa produtora que é a MV vídeos, é uma parceira da Fundação. E a gente não tinha condições desse material interno ficar a todo instante indo lá, batendo na porta, porque a produtora também tinha a sua grade de edições. Com muito custo a Fundação sempre recebia doações, doações de eletrodomésticos, TV, vídeo cassete ainda não tava tão forte essa coisa do DVD, ainda tinha muita coisa em fita VHS e a gente queria editar vídeo, não interessava como, a gente pegou lá dois vídeos cassetes que tinham chegado lá de doação, pegamos uma TV e aí tinha um banheiro que tava meio que em reforma, tava desativado, tava meio que parado e muito descaradamente a gente foi lá e montou no último Box, tinha todos os boxes no banheiro no último Box, a gente foi lá e montou uma ilha de edição. E como a gente tinha editado o vídeo, todo mundo assistiu ao vídeo. “E aí, vocês gostaram?”, eles não sabiam que a gente tinha feito isso, então a gente fez com dois vídeos cassetes no banheiro, era eu e o Kiko. E a gente sempre aprontava dessas, porque não existia uma célula dentro, não existia um espaço, porque tava tudo muito novo, não era nem uma falta de atenção mesmo, as pessoas até achavam engraçado, gostavam da ideia de alguém fazer alguma coisa diferente ali. E aí a coisa foi ficando mais forte.

 

P/1 – Mas como que vocês aprenderam a mexer com os dois vídeos, a televisão e fazer a edição?

 

R – A gente tinha algumas ideias de como fazer isso, porque a gente mexia muito, a gente sempre... A Fundação dava espaço pra gente criar, acho que essa é a melhor resposta, a gente tinha espaço, porque não tinha nada, não tinha uma regra estipulada, então se não tinha uma regra a gente não tava fazendo uma coisa errada, não tinha regra, então a gente pegou, e o que fez? Ah, acho que se ligar um vídeo cassete no outro, colocar a TV, pegar aquele cabo assim e tal dá pra gente colocar uma fita, gravar um pedaço da forma mais arcaica possível, aí tirava um canal do áudio, porque era estéril, tirava um cabinho lá do áudio colocava a trilha sonora e quando acabava puxava o cabo, era a forma mais simples possível e caseira, mas feita... Porque tinha que ser feito, então a gente fazia e ficava legal. Os GC’s eram da própria câmera, então tinha que apertar o botão na hora certa pra aparecer o nome da pessoa, aí apertava de novo pra sumir o nome da pessoa, era da forma mais simples possível e imaginável. E foi a melhor ilha de edição pra mim que teve lá, porque ela foi a que deu origem a todas as outras ideias que começaram. Isso sensibilizou muito o pessoal internamente, daí a gente ia, a gente também fazia muita coisa. A gente começou a produzir os vídeos internos da Fundação, mas em paralelo aconteceram outras coisas, o projeto foi acabando e o vídeo a gente tava editando nessa produtora e aí surgiu... Porque tinha uma oficina de escrita lá, de leitura escrita que era difícil pro pessoal participar. Eu sempre gostei muito de escrever, de ler, e fazia parte...

 

P/1 – Difícil por conta do desafio?

 

R – Por conta de uma realidade, de que as pessoas não lêem, não escrevem, isso é um fato no país e lá dentro da Fundação não tinha ainda essa coisa muito forte da presença do jovem e ainda mais do jovem escrevendo, mas a oficina foi um desafio que foi levada até o final porque a ideia era que tudo isso também se tornasse um livro chamado “Um olhar sobre a Vila”, não sei se você chegou a dar uma olhada, mas é um material muito legal que conta todas essas histórias do bairro e de como esse movimento todo dentro da Fundação dos jovens começou a ser construído e registrado nesse livro, então tudo também tava meio que amarrado pra que esse livro acontecesse. Então o projeto tava chegando no final, o vídeo tava chegando no final, a oficina de texto já tinha coletado boa parte dos textos, daí surgiu um grupo que foi o grupo que foi pra agência Pitti Brant, um grupo de jovens foram selecionados, muitos deles que tinha esse perfil, ah, quem participa de um, dois, três projetos, aí foi e criou-se esse grupo de jovens que eram representantes dessas oficinas. Eu era do vídeo, junto com a da turma da Miriam...

 

P/1 – Você trabalhou com esse grupo do Pitti?

 

R – Sim, a capa foi feita em conjunto, a capa do livro na realidade é uma pintura feita em conjunto que eu organizei junto com os outros jovens, como eu tinha essa afinidade com desenho o pessoal falou: “ah, o Alexandre faz esses desenhos”, dentro do livro pra cada oficina eu peguei o bonequinho, o logo da Fundação e a oficina de vídeo, aí eu desenhei o bonequinho com uma câmera dentro, tentando respeitar a identidade visual da Fundação, pra cada oficina quando você vê o livro tem isso, o hip hop, o bonequinho com o microfone, e por aí vai. E a capa foi feita em conjunto, a gente fez uma representação artística de como a gente via o bairro, das coisas que representavam o bairro...

 

P/1 – As oficinas com o Pitti também aconteciam aos sábados?

 

R – As oficinas aconteciam aos sábados, depois que já havia...

 

P/1 – Acabado a de vídeo?

 

R – Isso, então a gente começou a trabalhar em cima do livro quando o vídeo já tava meio que finalizando edição, essas coisas todas, então foi meio que um ritmo mais acelerado. Nesse meio tempo a gente também já tava envolvido... Recebendo uma bolsa de auxílio pra ser esse mediador de leitura dentro do projeto, boa parte era… Era meio que o mesmo grupo fazendo várias coisas ao mesmo tempo. Então durante a semana a gente trabalhava com mediação, a gente trabalhava organizando a biblioteca, aos finais de semana a gente tava finalizando esses projetos. Quando esses projetos foram finalizados houve um evento tanto no aniversário da Fundação como também de lançamento desse livro, daí nós completamos uma fase legal e agora o quê que vai acontecer? Aí começou a surgir a discussão do que é o FAC, a Formação de Agentes Comunitários, dali surgiu a semente do que hoje existe de projetos direcionados não só pra juventude, mas os agentes sociais ligados a área social, foi dali que a gente não pode parar, a Fundação não pode simplesmente finalizar com a cara da Vila ou fazer uma cara da Vila dois sendo que na realidade o dois nunca seria igual ao um, nunca seria um só, oficinas ao sábados e jovem (acabaria?)...

 

P/1 – Vamos voltar só um pouquinho desse período que você conviveu lá com o Pitti na agência, tudo, essas reuniões, o que você aprendeu que te marcou?

 

R – De lá mudaram o meu nome, acho que foi uma coisa que aconteceu lá, a gente começou a escrever muitas coisas sobre o bairro e, também, muitas coisas sobre perspectivas de futuro, o que cada jovem via como seu possível futuro. E dali começou a amadurecer um pouco mais a minha ideia de trabalhar com comunicação, com audiovisual, que é uma coisa que eu gosto muito e tenho isso como hoje um pouco mais ligado ao hobby, uma coisa que eu faço mais por lazer, mas que eu tenho interesse muito forte de desenvolver muito mais. E também era muito discutido essa questão da família por incrível que pareça, porque muitas vezes a gente tinha que correr atrás de fotos, tinha que acessar os nossos pais e pra alguns jovens isso era meio complicado. Pra gente era difícil explicar em casa que a gente tava fazendo um livro, por exemplo, era muito difícil, era uma fase de procurar emprego. Muita gente, muitos jovens acabavam tendo de sair das oficinas pela necessidade real de ter que ajudar com a família. Isso era um outro conflito que cada um [lidava] do seu jeito, com a sua história, teve também que enfrentar... É muito difícil. Hoje em dia quando eu vejo um jovem participando de um projeto, alguma coisa, eu sei o quanto é difícil pra ele fazer isso, porque ele enfrenta muita coisa pra ta ali. E eu enfrentei, os meus amigos enfrentaram essa questão de ingressar no mercado de trabalho.

 

P/1 – Tinha essa pressão na sua casa?

 

R – Sim, mas a gente sempre tinha argumento também, acho que foi uma turma muito... Não de resistência, de ser uma coisa muito dura da gente brigar por aquilo, fazer uma revolução, era muito conversado, era muito bem explicado, os jovens eles tinham... A gente conseguiu desenvolver muito essa articulação, de negociação, poder de negociação com os pais, com os projetos, com a vida. Então essa oficina ajudou muito a gente a se ver como um grupo mesmo mais próximo, porque a gente se via muito… E a oficina era quase o sábado inteiro e a gente já se via durante a semana e a gente acabava conhecendo mais a história da família dos outros jovens, isso ajudou muito pros próximos passos, com certeza.

 

P/1 – Como é que seus pais viam a presença da Fundação Gol de Letra no bairro, na sua vida?

 

R – No começo a Fundação tinha um estigma muito forte, porque sempre foi uma briga muito grande da gente, de não ser uma... Vista como uma escolinha de futebol, isso é um desafio que eu acho que até hoje as pessoas que estão lá enfrentam, pelo histórico do país, pelo nome do projeto que eu gosto muito, mas que acaba intuitivamente fazendo... E o instituidor é o Raí, aí pronto, acabou, acaba criando essa sensação. Então os meus pais viam assim: “ah, é uma oficina que ele ta fazendo no final de semana” “Ah, agora ele começou ir durante a semana, mas é a oficina que vai acabar no livro” “Ah, agora ele conseguiu uma vaga lá dentro como monitor”, a coisa foi acontecendo muito devagar, então o espaço foi sendo conquistado aos poucos, não foi uma coisa: “ah, ele agora ta lá 24 horas por dia”, chegou a quase ser esse nível, mas não foi de um dia pra outro.

 

P/1- E essa evolução pro FAC você participou também?

 

R – Aí o FAC tinha uma outra... Não tinha um desenho, não tinha uma proposta formalizada do que era o FAC. O FAC era uma coisa que todo mundo esperava que “nossa se chegou até aqui o que vai ser daqui pra frente? Porque junto com esse projeto de juventude tinha um grupo chamado ‘Mulheres em ação’, era um grupo muito forte dentro da Fundação e dali também... E dali o que a gente vai fazer também com as ‘Mulheres em ação’, com os pais que são voluntários, o projeto era muito novo então todo mundo tinha uma expectativa muito grande sobre o que aquilo podia, no que aquilo podia dar. Daí surgiram... Começaram as discussões do que seria o FAC, surgiram as oficinas culturais focadas pra juventude e os agentes sociais e o FAC esporte que hoje é uma estrutura bem grande aqui, cresceu muito nesses anos dentro da Fundação...

 

P/1 – O que é o Jogo Aberto?

 

R – Isso. E cada uma delas caminhou pra um lado e foi se moldando de acordo com a necessidade, criou o que cada um foi achando o seu espaço dentro da comunidade. Nisso eu me tornei um monitor que ao mesmo tempo tratava da continuidade do que seria lá o núcleo de audiovisual, que era essa ideia já, já não era mais uma oficina, já tinha crescido, já tínhamos uma sede. Já tinha um espaço, um banheiro, enfim. E também eu lembro que na época pra mim era meio que decisivo ou eu to dentro desse barco ou eu não to. E aí como eu tava muito envolvido com a oficina de vídeo eu me tornei uma referência, um jovem, digamos assim, um jovem monitor da oficina e aí surgiu uma oportunidade pra eu fazer um estágio na MV, eu fui estagiário dentro da MV, de um programa...

 

P/1 – É a agência da Miloca?

 

R – É, digamos que o tiro deu certo, mas não da forma como eu esperava, porque “ah, então legal, eu gosto do audiovisual então agora eu to no audiovisual”, gostava muito da equipe lá, aprendi muita coisa, tive a chance de ir pro Rio e ser responsável pela equipe que foi filmar a inauguração da unidade de Niterói e muitas coisas, a Miloca por estar muito próxima ao projeto ela via, se via como uma educadora, então eu tive muitas possibilidades de aprender mais sobre a área técnica que eu queria seguir. Só que aí eu era estagiário, uma espécie de aprendiz, estagiário, não tinha muito um nome fixo, eu ia lá todo dia, só que existia um projeto específico que tava sendo desenvolvido naquele mesmo ano que era o programa “Boa Notícia”, era um programa focado no terceiro setor, então quando eu digo que o tiro não deu muito certo foi porque? Aí muitas vezes eu tava ali na produção, aí a ideia era o quê? Achar projetos pra fazer matérias, explicar, falar sobre as iniciativas sociais do país, ou seja, eu fui lá pra aprender a parte técnica, porque eu aprendi muita coisa lá dentro, mas aí eu conheci o movimento do terceiro setor no país, porque eu ligava pra Bahia, pro Rio, aí eu comecei a conhecer projetos no país inteiro. Via as matérias, tinha que decupar, enfim, aí eu poxa, legal terceiro setor é uma coisa muito maior do que... eu to participando de um pedacinho aqui na Zona Norte, mas existe um movimento muito maior de pessoas também, de outros jovens ligados a outras projetos. Aí eu saí da MV, voltei pro Gol de Letra, falei: “eu entendi, eu quero fazer isso, eu quero trabalhar com social também e deixa o audiovisual lá um pouquinho”, eu já vi como é que funciona, sei como é, mas eu não tinha interesse em trabalhar com televisão, eu tinha interesse em continuar fazendo mais ou menos aquilo que eu já tava fazendo, então era uma coisa mais idealista. E aí na Fundação Gol de Letra eu era monitor do FAC que tava sendo construído aos poucos, então começaram com uma área social que conseguiu recursos de um parceiro, aí teve um processo seletivo entre as ‘Mulheres em ação’, mães da comunidade e criaram os agentes sociais que eram meio que de uma forma simples de explicar, padrinhos de todas as crianças ali dentro. A ideia era que eles fizessem visitas nas casas dessas crianças, soubessem como que ta o andamento do estudo, muitas mulheres demonstraram interesse em se tornarem assistentes sociais, pedagogas, algumas eu até fiquei sabendo que entraram na faculdade, se profissionalizaram na área, outras não, eram voluntárias mesmo, senhoras de idade que tinham tempo e gostavam muito do projeto e iam lá e faziam e aconteciam muita coisa lá dentro. E houve essa mescla entre esse grupo de jovens e essas mulheres e deu muito certo, foi muito adotado, tinham várias mães, antes tinha uma e de repente tinham várias. E eu era monitor, eu era monitor dentro do FAC e estavam querendo me colocar como agente social porque foi o primeiro projeto que conseguiu recurso “ah, o quê que a gente faz com o Alexandre?”...

 

P/1 – Aí você teria uma bolsa?

 

R – Eu teria uma bolsa melhor, porque eu ficaria lá, provavelmente, o dia inteiro, tinha essa coisa de período integral e meio período, eu era monitor ficava lá meio período. E aí com esse financiamento a ideia era ficar lá o período integral. Mas aí eu fiquei sabendo que dentro dessa formatação, desse projeto da área social que tinha conseguido um recurso bom, que daria pra dar um pontapé inicial na área social, existia uma vaga pra estagiário e eu era um dos jovens mais velhos de todos os jovens que estavam na Fundação. A diferença era mínima, um ano, um ano e meio, mas dentro da Fundação pra projetos isso é muito criterioso, às vezes vem projeto pra doze anos e onze meses, tem essas dificuldades e aí eu vi, poxa, estagiário dentro da área social e aí eu via o perfil, qual era o perfil esperado, aí eu lancei um desafio pra Fundação: “se eu prestar vestibular e passar eu posso concorrer a vaga?”, eu fui e questionei a Célia, aí ela ficou sem resposta, porque era uma coisa inesperada até então, eu tava seguindo pra entrar na MV, de repente, ficar no audiovisual e era isso, tava ótimo. Tava bom demais até, mas eu resolvi fazer esse retorno ao ninho e aí ela falou: “bom, vamos negociar”, nessa mesma época teve uma comitiva da Fundação que foi pro Fórum Social Mundial que foi muito legal...

 

P/1 – O primeiro Fórum?

 

R – O primeiro Fórum, segundo eu acho, 2004... não me recordo, não foi o primeiro, primeiro não, mas foi o segundo que aconteceu repetidamente, acho que foram três anos, eu não sei, no Sul. E a gente foi com um grupo pra lá, eu prestei vestibular e fui, não sabia resposta nem do vestibular, nem do que eu tinha falado com a Célia, quando eu voltei eu fique sabendo que eu passei pra Pedagogia, prestei pra Pedagogia e Psicologia numa universidade que era meio ONG, era um projeto pioneiro também, muito legal a ideia, mas que não foi pra frente, mas eu conto depois porque que não foi pra frente. E aí eu passei, aí quando eu voltei, na viagem mesmo eu falei: “olha, eu passei” eu mandei um email, liguei, comuniquei que eu havia passado, aí quando eu voltei e teve uma reunião e eles acharam que seria interessante sim me ter como um estagiário. Pra mim foi acho que a grande virada, porque a gente era muito mal visto, não pela Fundação, mas pela mídia despreparada, porque eles não tinham essa... A Fundação sempre teve uma visibilidade muito grande e a gente, às vezes, ficava meio chateado porque a gente saía como jovem marginal na mídia, jovens criminalizados e aquilo tudo era uma bobagem. A gente era um grupo de jovens como qualquer grupo de jovens que se reúne, seja de uma escola particular ou de um colégio público, a gente era um grupo...

 

P/1 – Tinha um estigma?

 

R – A gente era um grupo de jovens, ninguém ali tava envolvido com problemas com a polícia, nem nada disso, existiam sim jovens na comunidade com esse tipo de problema, alguns nós conhecíamos e a gente fazia sim por meio de tentar trazê-los pro projeto, muito difícil, mas alguns conseguiram transformar, a gente tem casos lá, muito específicos, de mudanças radicais mesmo, de transformação nesse sentido. Mas esse grupo específico era especial mesmo, ele não tinha esse tipo de dificuldade, a gente sofria muito com essa coisa da pressão familiar pra emprego, mas fora isso ninguém ali ia sair e roubar um banco. Então a gente carregava muito esse estigma, e era uma coisa que irritava a gente às vezes, de ser visto dessa forma, impresso numa revista, às vezes sua foto lá, e aí ta lá jovem marginalizado, acontecia muito isso, muito, demais, jornal, esses jornais da tarde assim, às vezes Globo, grandes canais passavam lá, jovens marginalizados, jovens...

 

P/1 – Atendidos pela Fundação...

 

R – Um despreparo da mídia, né? Pra mim foi legal também assumir um cargo mais oficial na Fundação, porque foi uma conquista grande, eu já não sou também, apesar de não ser, eu não sou só um jovem que to aqui dentro, eles já me reconheceram como alguém que ta colaborando aqui, alguma coisa eu fiz e deu certo pra me colocarem aqui como estagiário, então foi uma virada. E aí eu virei estagiário da área social, que não tinha nada a ver com vídeo, não tinha nada a ver com a Turma da Vila, mas que ao mesmo tempo tinha, porque a ideia da área social era fazer como sendo a primeira área que teve um grande financiamento que dali a gente não ficasse, então agora virou um setor, não tinha isso, a ideia era fazer com que pelos recursos da área social muita coisa acontecesse dentro da Fundação e foi um ano muito produtivo, a gente realizou muitas ações...

 

P/1 – Quando que foi isso?

 

R – 2001, 2002, porque o financiamento era grande, era de um, dois anos, era uma coisa renovável, enfim, o parceiro era Johnson & Johnson, se não me engano permanece, não sei como, em que nível, mas eu sei que permanece em alguns quesitos… E aí a gente dentro do social a gente realizou muitas ações na comunidade, a Célia deve ter falado de várias dela, o dia de fazer a diferença, muitos outros que deram uma visibilidade de caráter social pra Fundação, pra comunidade, foi muito bom pra construir a imagem da Fundação dentro da comunidade, de não ser a escolinha de futebol, de não ser só jovens que estão indo lá pra fazer oficina, “opa, tem um evento aqui que ta acontecendo que são jovens que estão organizando”, a minha esposa que ta lá. Começaram a surgir os pais em ação, a gente até brinca. Porque ali realmente virou um centro comunitário, foi o social que acabou dando esse caráter que era mesmo a função dele de ser um espaço comunitário, não só pra crianças ou pra jovens, mas espaço comunitário de prestação de serviços pra comunidade.

 

P/1 – Quem coordenava a área social nessa época?

 

R – A Célia, era a Célia que também apostou muito na juventude e via esse movimento com bom grado, teve o desafio de fazer essa junção de mulheres da comunidade com jovens, mas foi legal, foi bacana, acho que até podia continuar sendo assim, essa mistura de gerações deu muito certo.

 

P/1 – Vamos abrir um parêntese aqui, eu queria que você falasse um pouco do Fórum Social.

 

R – O Fórum Social foi uma experiência muito legal pra gente no seguinte sentido, da gente ver que a nossa ação que tava sendo realizada ali num cantinho do bairro, na Vila Albertina ela fazia parte de um movimento muito maior. Mas que ao mesmo tempo a gente percebia que o Fórum era um fórum, era um espaço de discussão, mas que dali a gente tinha que levar coisas pra que elas acontecessem de fato dentro do bairro, da comunidade, do próprio projeto. Acho que o Fórum foi importante pra gente no sentido da amplitude da nossa ação, foi legal pra mim, específico, porque eu comecei a não só ver os eventos que a Fundação realizava como eventos, mas como um marco, aqui a gente ta tentando mostrar pra comunidade que a Fundação ela é um espaço que as pessoas podem visitar, as pessoas tinham um medo de entrar, tinha um receio, o portão, passar ali, entrar ali, essa coisa de propriedade mesmo que é forte na Zona Norte. Propriedade. Essa é a propriedade, ali só entram crianças, enfim. Então o Fórum deu essa visão de coisa, de espaço aberto pra discussão e que esse espaço aberto pra discussão fosse levado pra dentro da Fundação. Nessa mesma época, um pouco até antes do Fórum, em 2001, eu lembro até hoje, a gente teve uma oportunidade de intercâmbio com a França, a gente foi o primeiro grupo de várias visitas que até hoje tem intercâmbio com outros países, o Raí teve, foi muito pioneiro nisso de não só trazer coisas da França, mas também poder levar pessoas, ideias pra lá também, existem associações lá que colaboram com a Fundação Gol de Letra também. Então a gente foi o grupo, tudo era muito beta, muito experimental, a gente era os astronautas, vamos ver o que acontece, manda lá o pessoal. E a gente foi pra participar de um festival...

 

P/1 – Na França?

 

R – Na França, pra levar os vídeos que a gente havia produzido e pra conhecer também alguns centros culturais que existiam lá, projetos focados pra criança e pra juventude e trazer esse conhecimento pra Vila. Eu lembro que até um dos centros culturais que nós visitamos depois surgiu uma parceria bem maior, onde jovens foram pra lá e receberam uma bolsa, estudaram. Legal ver que deu frutos positivos. Mas o meu passaporte é de onze de Setembro de 2001, a hora entre o primeiro e o segundo avião...

 

P/1 – Seu passaporte foi emitido...

 

R – Eu fiquei sabendo pelo cara da banca, ele foi tirar Xerox e ele: “ah, você viu que bateu um avião?”, eu: “ah, não vi”, e foi muito difícil pra gente lá, essa coisa de chegar e sair, porque o mundo inteiro tava em choque...

 

P/1 – Tremeu nas bases, né?

 

R – É, é um fato histórico isso. E eu tirei o passaporte bem no intervalo do...

 

P/1 – Você tirou passaporte no dia onze de Setembro?

 

R – É, ele tem a data do dia doze, uma coisa assim, mas porque eu tava lá na Polícia Federal e tudo mais, foi isso, e a gente viajou na semana seguinte pra lá.

 

P/1 – Foi bem no auge da...

 

R – Bem no auge, bem forte, tanque de guerra, essas coisas todas a gente viu. Tinha uma coisa...

 

P/1 – No aeroporto como é que era isso?

 

R – Tinha um tanque no aeroporto, tinha muitos soldados, arma pesada, essas coisas, a gente não teve um problema direto com isso, mas a gente sentiu que o clima era tenso.

 

P/1- Ficou com medo?

 

R – Não, a gente não tinha, a gente era muito corajoso, acho que hoje em dia eu talvez teria uma prudência maior, porque a idade também traz... Mas a gente era muito aventureiro, a gente tinha essa coisa de ir e ver o que acontece. E aí a gente foi pra lá e foi uma experiência muito boa que a Fundação me ofereceu, porque eu conheci pessoas muito legais lá que trabalham com audiovisual, que defendem projetos sociais, a gente vê uma sociedade que se organizou com base nos princípios que a gente defendia dentro da Fundação, e um pouco também pra entender o que o Raí queria com a Fundação, acho que ficou mais claro pra gente. Porque ele foi pra lá pra jogar e acho que ele sempre foi muito motivado com a questão social, estando na França, o berço de toda essa discussão sobre o que pode ser uma sociedade, e acho que isso foi legal pra mim. Conheci alguns amigos dele e projetos que quando a gente voltou até surgiu uma parceria com o Museu da Pessoa, um intercâmbio entre o Brasil e a França. Isso tudo foi registrado, tinha depoimentos de mães, então eu vi resultado, eu gostei por causa disso, a gente sempre tinha uma preocupação em relação às viagens, de ter resultado, não ser só turismo, é bom você ir conhecer uma cultura, mas a gente sempre tinha esse compromisso muito pesado de trazer coisas e replicar, tudo virava vídeo também.

 

P/1 – Fora essa tensão que você percebeu no aeroporto, tem algum lado pitoresco da viagem? Você saindo pela primeira vez pra fora, o grupo?

 

R – Essa coisa da comida, da água, a água tem gosto. A gente ta acostumado aqui a achar que as coisas são fáceis, os recursos naturais, e lá não são, são mais escassos, não tem tanta fruta, a comida... A gente não é acostumado com o tipo de tempero, tinha muitas coisas boas, muitos restaurantes, cafés, a gente também explorou isso, eu lembro que uma vez eu comi carne de pato lá e tinha um restaurante que só vendia carne de cavalo, eles são muito carne e vinho, carne, queijo, vinho, carne, pão, baguete, eles têm essa coisa da cultura do que eles comem ali do local, o histórico que a comida tem que é muito forte lá. Mas a água tinha gosto, a gente não gostava, a gente comprava, às vezes, água pra beber porque nos lugares a gente sentia que a água tinha gosto, não era como a água daqui, foi uma curiosidade, digamos assim. E o frio, era um frio diferente, a gente sentia que não era o mesmo frio que a gente sente aqui, era... Às vezes tava um sol, mas tava frio, tava de jaqueta, de blusa, porque o vento era muito forte, tinha um vento muito forte a todo instante, a noite a temperatura caía muito e eu fiquei, nós ficamos duas semanas no máximo. Então essa coisa da diferença de horário deixou a gente meio, foi meio bagunçado os três primeiros, os três, quatro primeiros dias a gente tava meio atordoado assim. Ah, a gente perdeu a câmera num castelo lá, o Kiko, eu falei “Kiko, cadê a câmera?”, ele já tinha andado, entrou num castelo que eu não lembro o nome, acho que era o de Chantilly, e a gente já tinha ido em muitas salas, “cadê a bolsa da câmera com o equipamento?” A câmera tava na mão dele, ele tava filmando, mas aquela coisa, parou, deixou a câmera, deixou o casezinho com as fitinhas e tudo que a gente já tinha gravado, saiu filmando, “cadê o case?” Aí ele: “não sei”, a nossa sorte é que a gente conseguiu dar uma disfarçada com o monitor e a gente foi, nós voltamos umas duas, três salas enormes lá e a gente achou ela lá, quietinha, a bolsa quietinha no chão, guardadinha, é tudo meio que guiado, não tem como você sair, você não vai pra qualquer lugar dentro de um castelo, tem um lugar certo. Então a gente foi voltando, voltando, graças a Deus a gente achou, porque tinha muita coisa lá dentro, a gente ficou muito preocupado esse dia, muito mesmo. Graças a Deus ninguém passou mal, era mais essa coisa da comida que foi muito forte e eu acho que foi um período muito curto, então até a gente adaptar o organismo, a gente conhecia projeto, projeto, projeto, projeto, tinha uma agenda de lugares que a gente ia, então a gente não tinha muito tempo de processar informação. As vezes eu pergunto pra quem foi assim: “ah, o que aconteceu naquela vez que a gente foi em tal lugar?”, porque era muita informação pra guardar de uma vez só. Mas a experiência foi boa, pra mim foi boa, mas eu conheci pessoas, tive contato, repliquei ideias dentro da própria Fundação, mas outros jovens chegaram a ir lá outras vezes, desdobrou pra outros lados, pra outros jovens, pra mim não, foi legal ter ido, mas eu trouxe mais coisas que aconteceram dentro do projeto. E essa coisa de aeroporto, a gente chegou a fazer aulas de francês, tinha uma voluntária que ia uns três meses antes da viagem que a gente ficou sabendo e dava aula lá pra gente de francês.

 

P/1 – O que vocês aprendiam?

 

R – Ah, se apresentar ________ Alexandre, onde eu to, o que eu faço, quanto custa, o básico do básico do básico, muita coisa eu já esqueci, mas era bem básico, porque não dava, era muito puxado, a nossa rotina já era muito puxada e a gente só tinha um encontro de uma hora por sábado. Era mais pra dar umas bases, pra sobreviver lá na França, e a gente não ficava sozinho a todo momento. Mas aí eu lembro que na volta, no aeroporto, eu achei que tinha entendido que o cara tinha perguntado e oui, oui, oui, achei que ele tava perguntando se eu tava com todas as malas e tal. Ele tinha perguntado se eu tava com alguma faca, algum objeto pontiagudo, metal perigoso e eu “oui, oui, oui”, aí o Nelson, coordenador, “é, você ta com faca, metal, estilete?” ele foi fazendo a lista ele tem algum estilete, alguma coisa pontiaguda, tesoura, porque naquela época... Já era normalmente crítico, aí eu “oui, oui, oui” aí eu acho que o próprio rapaz viu o pânico do coordenador que tava ali “ah, você ta mesmo com isso tudo aí?”, aí ele entendeu que eu não tinha entendido nada, foi a minha última tentativa de falar francês, entender francês foi essa. Aí a gente voltou, outros grupos foram, teve os voluntários que vieram pra cá, criou um vínculo assim, tem o (Jeremy?) que até hoje ta lá, foi isso, em relação a França foi bem bacana a experiência mesmo como um todo.

 

P/1 – E aí como se desenvolve a sua relação?

 

R – É, então, eu voltei, aí surgiu o Fórum logo em seguida que foi no começo do ano, tava muito forte essa discussão do onze de setembro, a gente fez vários vídeos dentro da Fundação falando sobre isso. Era sensação de uma guerra eminente. Aí teve em seguida o Fórum, aí eu voltei, aí começou o social. Era começo de ano, tinha que começar, aí eu virei estagiário da área social. Fiquei lá como estagiário uns oito, nove meses, aí eu fiquei como estagiário e fazia faculdade de manhã e a tarde eu ia como estagiário pra Fundação. Passaram-se alguns meses e aí a gente continuou, eu como estagiário, continuei responsável pela produção dos vídeos, dos eventos, das ações, tudo que a Fundação precisava de relatório sempre seguia com algum vídeo, isso era legal. Na época ainda era uma coisa difícil de um projeto social, além de apresentar um relatório com fotos, ter um vídeo e um vídeo produzido por jovens do projeto, isso era muito legal, pra gente e também pros próprios coordenadores do projeto dizer isso, explicar isso era muito forte, era muito bem visto pelos próprios parceiros da Fundação. Nessa época a gente começou com uma parceria com a Alcoa, Fundação Alcoa, que ela realiza muito ‘dias de transformação’, pega uma creche que ta detonada, vai lá, pinta, coloca mesa, tudo, em um dia. E a gente fez um dia assim na Fundação, foi com a Unilever, mudou a Fundação em um dia assim, foi o dia que eu dormi na Fundação, a Célia sempre fala. E aí com a Alcoa como ela fazia essas ações a Célia articulou com eles a possibilidade de além da gente registrar os eventos internos que nós também fizéssemos, fossemos uma espécie de prestadores de serviços pro Instituto Alcoa. Surgiu uma parceria a gente conseguiu primeiro a Mac pra edição de vídeos, então pra você vê a consciência coletiva, ao invés de cada jovem de repente, porque a Alcoa falou: “o que vocês querem?” Ao invés da gente falar: “ah, um curso de vídeo, ou uma bolsa de estudos em algum lugar”, não, pega um computador, coloca aqui que a gente dá um jeito. Aí eles compraram um Mac pra gente e aí não tinha, aí a gente não podia ficar mais no banheiro, não dava, tinha que crescer mesmo. Aí tinha uma escadaria que dava acesso... A Fundação tem dois prédios e os prédios tinham várias escadarias que ligavam o primeiro com o segundo andar, tinha no mínimo duas escadarias e nesse prédio tinha uma por dentro e uma por fora, e a por dentro não era utilizada, porque não usavam, usavam por fora, essas coisas de lugar que vai construindo seus caminhos. E aí a gente pegou, o pessoal da área administrativa tinha colocado uma divisória dessas de madeira com uma porta isolando aquele espaço, cancelando aquela escada e lá dentro eles começaram a guardar coisas, a escada faz um, ela tem a primeira leva, um patamar e a segunda leva. Aí a gente nessa mesma época, era 2004 já, a gente pegou e o que a gente fez? Tinha uma parceria, em 2004, com Instituto Ayrton Senna, comemorava dez anos de existência e existia... A Fundação começou com financiamento inicial do Instituto Ayrton Senna, foi um dos primeiros financiadores. Quando na pesquisa nós consultávamos os antigos moradores sempre tinha alguém que falava alguma coisa do Ayrton Senna, Ayrton Senna morou ali próximo...

 

P/1 – Ele era da Zona Norte?

 

R – Ele era do Tremembé, é esse bairro vizinho e o pai dele era dono de uma fábrica que tem até hoje muito próximo a Fundação Gol de Letra, hoje o terreno é alugado pra uma outra empresa, mas o terreno, se eu não me engano, permanece sendo da família. Primeiro kart dele foi feito lá na Vila, dentro dessa fábrica, foi o primeiro lugar que ele começou a andar de kart, que ele começou a treinar foi lá. Então toda vez que a gente perguntava pra alguém alguma coisa “ah, o Ayrton Senna uma vez veio aqui!!”, “ah, que o Ayrton Senna isso... nã, nã, nã...” e aí tinha esse histórico na Fundação também, de que a Fundação tinha começado, tinha dado o pontapé inicial com essa parceria.

Então a Fundação começou com esse financiamento com o Instituto Ayrton Senna e aquilo ficou na minha cabeça, poxa, a gente, toda vez, até no livro tem um capítulo falando sobre o Ayrton Senna, dele ter morado lá no bairro e o pessoal falava muito que ele andava de carrinho de rolimã pra cima e pra baixo lá, eu falei: “ah, com certeza ele andava na Vila, porque a Vila é um morro e necessariamente um carrinho de rolimã no Tremembé, é reto, ele precisava vim aqui de vez em quando pra descer de carrinho de rolimã”. E aí o Instituto tinha um projeto muito grande que a gente ficou sabendo de criar o ano Ayrton Senna do Brasil com vários eventos, ações grandes e tal. Nessa época, dentro da Fundação teve uma mudança muito grande em relação ao FAC, a reorganização do FAC, e aí com esses reajustes todos surgiu a vaga pra assistente da área social, assistente de coordenação da área social, a Célia saiu do projeto, da Fundação, e surgiu essa oportunidade. Como eu era um dinossauro lá dentro eles falaram vamos dar a oportunidade pro Alexandre, porque ele vai ter condições de acolher a nova coordenadora e manter ali ainda alguma afinidade entre a equipe de mulheres e jovens e essa nova coordenadora que ta chegando, porque ela não tem esse histórico gigantesco de como as coisas aconteciam, é a Olga. E daí eu virei assistente da área social. E era tranquilo essas transições. Aí assim, a transição mais penosa pode-se dizer foi quando eu virei estagiário, aí quando eu me tornei assistente era mais em caráter de suporte, de apoio mesmo a uma nova fase que a Fundação tava passando de mudança, de pessoa saindo, de pessoa chegando e aí a dupla deu certo. A Olga chegou, já conhecia ela porque existia um trabalho em rede que a Célia com certeza falou, da rede Vila Albertina, a Olga já conhecia o projeto, a Olga já coordenava um projeto na Vila que era o Promove, onde hoje acontece o Jogo Aberto, permanece sendo Promove, mas também tem o Jogo Aberto simultâneo. E aí eu era um assistente dessa área social, assumi mais responsabilidades, mas como eu tive tempo pra digerir tudo isso, porque em 2002 eu virei estagiário, fiquei um bom período como estagiário, daí surgiu a oportunidade em 2003 de virar um assistente de coordenação e aí eu tava feliz, porque quer queira, quer não, eu tava construindo uma história grande dentro do projeto, e aí eu era muito ligado a essa célula que tinha surgido dentro da Fundação que era o Núcleo de Comunicação, o NUCOM, onde jovens faziam parte de oficinas de audiovisual, mas eu cuidava mais, tinha os educadores de outras oficinas de fotografia, de vídeo também, mas eu cuidava mais dessa produção interna, era uma produtora interna, e eu cuidava um pouco disso. Então eu vi que a oportunidade de apresentar pro Instituto Ayrton Senna e nós criamos já com outro grupo de jovens, porque esses que eu fazia parte já tinham ido pro mundo, alguns ainda estavam lá dentro, fazendo a sua história lá dentro, outros viraram dançarinos, outros viraram estagiários na MV, cada um foi migrando pra sua especialidade e eu fiquei lá e surgiu um novo grupo de jovens, porque eu fiquei sozinho. E esse novo grupo de jovens a gente criou um vídeo chamado “Heróis de Verdade”, conta a história de um menino que era do nosso bairro que virou estrela, era o Ayrton Senna. Então a gente contou a história de um menino, fez um paralelo entre a história de um menino que morava no bairro, uma ficção de um menino que morava no bairro, na Vila Nova, que era essa invasão que eu comentei no início, que andava de carrinho de rolimã e que ele não conhecia o Ayrton Senna, fiz uma espécie de um trailer, um clipe animado, e aí fez o paralelo com o Ayrton Senna, porque o primeiro carro que ele dirigiu foi um carrinho de rolimã, não foi o kart, veio depois, ele começou com isso. E aí a gente voltou a fazer pesquisa no bairro, perguntar pra outros moradores, agora focados nisso, no Ayrton Senna. Calhou tudo também conspirou a favor porque era o ano que iam ser celebrados vários eventos, enfim, e aí eu apresentei isso pro Raí, ele gostou muito da ideia, ele era muito próximo da Viviane e ele conseguiu marcar uma reunião pra mostrar o vídeo, ver o que eles achavam. Lá eles tinham uma agência publicitária muito grande, a Mccann Erickson que tava responsável pela produção de todo material audiovisual, identidade visual, de tudo e eles viram o vídeo e falaram: “era isso que a gente queria, a gente queria um vídeo assim”, aí eles compraram a ideia do vídeo, eles, digamos, patentearam uma coisa que era amadora, feita com Mac, mas no Imovie, é um programa com recursos muito básicos, mas a gente sempre fez muito com muito pouco, sempre foi uma característica muito forte da gente, da Gol de Letra, dos profissionais da Gol de Letra, sempre foi isso. Tinha um pouquinho “ah, vamos ver o que a gente faz”, e a gente fazia muita coisa. E com esse vídeo a gente conseguiu um recurso, o Instituto achou certo que ao invés de pagar a Mccann pra fazer um vídeo, já que já existe o vídeo que a gente queria, vamos então direcionar o recurso pra esse núcleo de comunicação, daí dessa escadaria eu virei engenheiro, voltou lá as minhas raízes familiares de construções de madeira, falei: “isso aqui dá alguma coisa. Aí eu desenhei um mezanino que anulou a escada, a escada ficou sendo embaixo um depósito da área administrativa e onde não existia nada, no mesmo nível do nível superior de madeira, ficou muito legal, virou um mezanino e ali a gente colocou uma porta e virou o núcleo; tinha umas janelas que eram altas e essas janelas ficaram no nível dos outros andares todos, tinha futuro viu, Eu não segui a área, mas tinha futuro. Eu desenhei aquilo e como eu era do social, já tinha um pouco mais de contato com a parte administrativa da Fundação eu fui gerenciando todo esse processo de construção física do núcleo de comunicação, criou-se o núcleo de comunicação, aí lá dentro tudo era ligado ao audiovisual, comunicação, as oficinas pra novos jovens aconteciam lá dentro...

 

P/1 – Só lá?

 

R – É. E aí a coisa cresceu, ganhou um porte, porque a Fundação também foi criando outras células, então daí nasceu a área, já existia a área de comunicação da Fundação, já existia a área social, a área pedagógica, área administrativa. Então a Fundação, essa celulazinha foi crescendo junto com organismo bem maior que também foi ganhando corpo e aí eu comecei a pôr o meu pezinho de novo na área de comunicação. Chegou a um ponto que com esse financiamento eu migrei novamente pra área de comunicação da Fundação Gol de Letra. Então existia a coordenadora na época, a Fernanda Nobre, com o Daniel que era o assistente e tinha eu que era responsável direto por esses vídeos em parceria. Aí a gente começou a produzir coisas pra parceiros da Fundação e os recursos vinham pra Fundação; ao invés de contratar uma produtora era a Fundação que fazia o seu próprio material, isso já era bem determinado dentro do projeto. E aí eu já não era mais tão jovem assim, então eu era uma referência muito forte para os jovens que estavam chegando e crianças que saíam do Virando o Jogo e queriam fazer vídeo porque viam e achavam o maior barato, sempre era muito legal nos eventos, no aniversário da Fundação a gente sempre fazia um vídeo, um vídeo retrospectiva e saía todo mundo chorando porque era uma coisa, não era apelativo, mas as pessoas sempre fizeram o projeto com muito esforço. Porque nunca era uma coisa feita pras pessoas chorarem, mas acabava acontecendo porque era uma coisa que quando a gente trabalha num projeto social não é pelo salário, definitivamente, hoje trabalhando um pouco mais no segundo setor eu sei que existe um fim que é você ter um salário lá no final do mês, se não tiver o salário no final do mês não dá pra você continuar lá dentro de uma empresa, não é nem uma coisa ideológica, não dá, você precisa de dinheiro pra viver. Mas a Fundação tinha muito forte essa questão ideológica das pessoas expressarem lá dentro a forma como elas viam o mundo mesmo e os vídeos ficavam muito legais, a pessoa sempre elogiava muito, principalmente nos eventos, no aniversário, era uma coisa muito forte pra gente. E aí eu saí da Fundação, eu achei que eu tinha...

 

P/1 – Encerrado um ciclo?

 

R – Aí eu achei que bateu um pouco aquela coisa do meu pai de… Aqui eu sei como as coisas acontecem, eu acho que aqui eu já contribuí muito, eu já tava na terceira ou quarta geração de jovens que iam pra lá pra fazer vídeo essas coisas todas, e eu também tava um pouco cansado, porque eu queria outras coisas pra mim, a minha família... Eu tava muito nessa, no caminho todo, você vê que a minha família tava em Embu, e eu ia visitar muito pouco, porque muito evento de final de semana e essa coisa de já não ter mais dezoito, já tava na casa dos vinte, e eu consegui, a última coisa que eu consegui na Fundação foi uma parceria com o projeto chamado Vida Bela pra financiamento de bolsas pra universidades pra jovens, que essa era a grande questão dentro da Fundação, bolsas pra universidade e aí jovens... Dali começou uma parceria muito boa onde jovens prestavam vestibular, participavam de um processo seletivo e ingressavam na faculdade e eu me inscrevi. Porque quando eu mudei pra comunicação eu também tive as minhas crises, lógico, não foi tudo mil maravilhas, foi assim, eu to fazendo Pedagogia, eu to na área social e tal, mas também não é isso que eu quero, eu quero trabalhar com comunicação social mesmo, de verdade, eu quero usar o projeto Heróis de Verdade que deu certo como uma experiência que pode acontecer mais vezes. E na época tinha o Cidade de Deus, eu lembro que no dia eu tava editando lá, fiquei até a madrugada fazendo coisas na Fundação e foi todo mundo assistir Cidade de Deus, assistir Carandiru. Tinha uma grana todo mês pra um passeio cultural e o pessoal sempre gostava de ir ao cinema e tinha os dias específicos que o valor do ingresso era mais acessível,  a gente ia de dia e juntava todo mundo e ia o Raí também, não tinha, tinha que ir o Raí, mulherada ficava louca da vida. Mas era legal, era normal, não era uma coisa celebridade e tal, porque o Raí nunca alimentou isso lá dentro da Fundação. E a gente, eu queria voltar às minhas raízes cinematográficas e aí eu fui lá, falei com o ________ que o meu pai tava com uma dificuldade também, ele teve um problema na perna com as varizes, e ele é muito descuidado com a saúde. E eu fui com ele no médico, eu lembro muito bem dessa cena, e ele tava com uma ferida na perna “ah, mas essa ferida vai sumir”, aí a gente foi no Hospital das Clínicas aqui, e eu lembro que mandaram a gente pra um setor pra aguardar pra ser atendido, e aí tinha na mesma cadeira, na mesma fileira de bancos ele lá com aquela ferida, aí mais pra frente um rapaz com uma ferida maior, aí o outro com uma um pouco maior, aí o outro sem a perna. Aí eu olhei e falei assim: “você entendeu?” (risos), aí ele ficou assim...

 

P/1 – Assustou?

 

R – Assustou, porque ele viu que se ele não tratasse daquela ferida ele ia perder a perna, talvez, corria o risco, porque ele tava sendo atendido pelo mesmo médico que o cara sem a perna tava sendo atendido e ele viu a escala, não era nada difícil de entender aquilo, aquela imagem já dizia tudo e eu falei: “não, tenho que voltar aqui e dar uma força pro meu pai e resgatar um pouco da minha história pessoal, to muito institucional, to muito Alexandre Fundação Gol de Letra, tem que ser mais Alexandre, Alexandre por ele mesmo”. Até o meu nome mudou, o cara surgiu do Pitti Brant, o pessoal via o email, eu criei lá Alexandre ______ aí mandava muita foto, essas coisas e tal, ah, o Pitti falou: “ficou legal!”, aí trocou, a gente trocou todas as assinaturas de texto, aí ficou Alexandre _______, aí o pessoal viu o livro, achou legal, aí o meu livro de ponto era Alexandre ________, tudo era Alexandre _____, então tá Alexandre _____ legal, ficou meio nome artístico pros vídeos, feito por Alexandre ______, ah legal, beleza. Então essa parte artística, o meu nome artístico já tá feito. Mas foi meio que assim, a Fundação foi mais do que um projeto que eu fiz parte, ela foi a minha família durante um bom tempo, com essa saída dos meus pais de casa não tinha muito, os meus irmãos eram o pessoal de lá, minhas referências eram lá, de tudo, e a minha família do meu pai é de Três Corações, não tem muitos irmãos aqui, tios, essas coisas todas não são muito próximos aqui, a gente não tem essa afinidade, então a minha família era meio que a Gol de Letra mesmo. Daí eu saí da Fundação, no final de 2004 eu fui convidado por um outro projeto pra ir de novo num Fórum Social Mundial que era o projeto Casulo que fica na Zona Sul. E aí eu fui, acompanhei um grupo de jovens, fui como voluntário, acompanhei um grupo de jovens aí eu fiz lá, dei continuidade como voluntário, a uma oficina de vídeo, comecei tudo de novo em outro lugar. Aí fiz uma oficina de vídeo lá, nesse ano eu tava prestando vestibular, esperando a resposta desse projeto de bolsas e aí saiu no meio do ano a minha bolsa pra Marketing, por isso que eu digo que a última coisa que aconteceu na Fundação foi isso. Aí eu comecei a estudar a noite, procurar alguma coisa pra fazer pela manhã, dar um suporte pro meu pai, mas eu não tava tão “vou achar um emprego”, eu vou dar um tempo pra eu poder respirar, mas no meu tempo, eu tinha uma vaguinha no sábado pra ir fazer uma oficina lá no Casulo de vídeo. Aí eu fiquei esse um ano me dedicando aos estudos, me dedicando ao primeiro semestre dos estudos, na faculdade, o que foi bom, é bom. O primeiro semestre numa universidade ele é mais puxado e eu consegui tirar boas notas, eu precisava, eu não pagava, eu consegui uma bolsa integral, mas o critério é você tem que ter boas notas. Então ainda tinha um vínculo com a Fundação, essa parceria e aí eu fui pra Zona Sul, morei com o meu pai lá e aí eu comecei com essa oficina voluntária no Casulo, de audiovisual e aí nesse meio tempo tinha o Instituto Criar, do Luciana Huck, há muito tempo atrás quando a gente tava ainda no banheiro, uma menina foi lá, uma menina novinha foi lá e falou: “ah, a gente tem interesse, o Luciano Huck tem interesse em fazer uma ONG, a gente veio aqui conhecer o que vocês fazem”, a gente tinha acabado, ainda bem que a gente já tava meio que saindo do banheiro, mas a gente mostrou o banheiro pra ela, hoje ela é a superintendente do Instituto Criar que capacita jovens pra audiovisual e é uma organização enorme que fica no Bom Retiro só focada em audiovisual. Nessa época que eu tava no Casulo como voluntário, eles criaram lá um prêmio, prêmio Criando Asas, uma parceria com a Red Bull, e os meninos lá também a mesma coisa, interessado em fazer um monte de coisa aí eu então tá, vamos sentar aqui e vamos escrever isso tudo. Ajudei, a gente criou um projeto, a gente ganhou o prêmio, e aí a gente fez uma série de vídeos, o recurso era pra fazer vídeos e foi legal pra mim porque foi o primeiro reconhecimento oficial na área do audiovisual, ter um prêmio já no currículo, pra mim era legal, e eu tava começando a faculdade de Marketing, ainda tava em dúvida, porque como eram bolsas, a gente não podia escolher qualquer área, ou é isso, ou é isso, ou é isso, falei: “bom, eu não vou ficar pensando muito, vou pegar uma coisa mais próxima do que eu gosto que é cinema, é comunicação, mas que tem um caráter comercial também, porque se eu precisar trabalhar eu vou ter área e Marketing, tudo é Marketing hoje em dia”. E me ajudou, eu fiquei muito feliz porque eu escolhi em dúvida, mas depois eu gostei do conteúdo, foi legal pra mim, melhorou a minha parte escrita, parte de comunicação, de enxergar os projetos que eu escrevia como um produto, uma coisa mais comercial, mas que era necessário fazer isso. Então me ajudou a própria escrita desse prêmio que a gente ganhou, e esse ano transcorreu dessa forma. E em paralelo eu ficava sabendo dos jovens que também entravam no Criar, eu me fechei um pouco mais no audiovisual, continuei com a oficina, fiz parte de um grupo de teatro dentro do próprio projeto Casulo pra fazer o registro e aí no ano seguinte tudo indicava que de repente eu ia voltar a entrar no Casulo, fazer parte do Casulo e cuidar do audiovisual, mas eu não tava tão engajado, eu tava mais envolvido com os jovens, com a comunidade do que com o projeto, o projeto era meio que a sede pra aquilo acontecer. Daí eu comecei a ter uma ideia que era o Cine Possível, é um projeto que até hoje existe, é de oficinas de audiovisual básicas, porque eu não sou um técnico formado nisso, mas pra identificar gente que gosta de vídeo. E aí o Casulo foi o meu laboratório fora do meu ninho, do lugar onde eu conhecia todo mundo, que era mais fácil, Zona Sul, Real Parque, não sei se você conhece, fica ali do outro lado daquela ponte que fizeram e era uma coisa mais puxada mesmo, essa coisa do tráfico era mais intenso, na Vila tinha também, tem todas essas coisas erradas que a gente sabe, mas era um pouco mais velada, não era uma coisa tão declarada. E existia um pacto mais tranquilo entre a Fundação e esses movimentos, eles no canto deles e a gente no nosso, não tinha um conflito direto, no Casulo já tinha uma coisa um pouco mais rasgada mesmo, de ter jovens que eram envolvidos com isso e participando do projeto mesmo e todo mundo sabia e era isso aí,isso mesmo. E aquele modismo do Cidade de Deus, aquilo dentro de uma comunidade e a gente fazendo vídeo, sempre esbarrava nesse filme, na discussão desse filme, não sei o que e eu sempre fugi desses estereótipos, eu não gostava, eu queria saber o que era lá o bairro, aí eu fiquei sabendo que era uma plantação de chá antigamente. Eu fui nessas raízes do que a própria Gol de Letra, intuitivamente, instintivamente fez com que eu buscasse. Daí o mesmo processo foi acontecendo lá, só que no final do ano de 2005 o pessoal chegou a me chamar e falou: “olha, a gente quer que você faça parte da equipe aqui e tal, porque você tem feito um projeto muito legal, jovens têm muitos interesses e você consegue fazer vínculo entre outras oficinas, você não fica isolado na sua linguagem”, tem o pessoal do teatro, vinha e fazia personagens nas ficções, a gente participou do Festival do Minuto, todos esses festivais menores eu já consegui fazer alguma coisinha, diretamente ou ajudando um grupo de jovens. E aí eles falaram: “a gente só tem dificuldade mesmo de recurso” eu falei: “não, pra mim ta tudo bem, eu to dando uma força pro meu pai, ele ta me dando uma força porque ele sabe também que eu to num momento de começar a faculdade, eu to fazendo a oficina aí de audiovisual e se vocês de repente quiserem legitimar ela já tem uma identidade, vocês já sabem como ela funciona e legal, vai ser legal, eu preciso de dinheiro também, com certeza”, mas aí acabou que no ano seguinte quando eu já tava no segundo ano da faculdade eu fui convidado a coordenar um núcleo de comunicação no projeto chamado Arrastão, fica na Zona Sul, é um projeto muito antigo, tem quarenta anos, fez quarenta anos ano passado e aí o desafio era muito maior. E era a mesma coisa, algumas pessoas que eu conheci na Fundação Gol de Letra e a Célia era uma dessas que estavam entrando no Arrastão e eles fizeram esse convite pra mim e aí eu fui pra lá, e aí nada era novidade também. Começou da mesma forma, já existia uma oficina forte de vídeo que era feita por voluntários e aí lá eu comecei a incentivar isso e na realidade deixei de ser somente, não fui somente um coordenador do núcleo de audiovisual, mas assistente de uma área cultural, era enorme, era um projeto muito grande que atendia mil pessoas por dia. Tinha um refeitório que era uma cozinha industrial, não era um refeitório como era na Fundação, então as proporções dos números eram enormes, eu tinha uma dificuldade muito grande porque eu queria conhecer todo mundo, e todo mundo me conhecia e eu tinha Orkut e o cara tinha lá a fotinho de um desenho animado “oi Alexandre, e aí como é que você tá?” nossa eu nem sei quem é esse desenho animado que ta me adicionando aqui. Então era um projeto que ganhou proporções... Já era grande pela sua história, tinha uma força muito grande na Zona Sul, é um projeto muito visto na Zona Sul, não tem a mesma visibilidade da Fundação na mídia assim Gol de Letra, isso causa algumas dificuldades pra financiamentos, mas lá eu fiquei dois anos. E lá dentro como assistente eu acabei coordenando a nova modinha do social que era jovens que criam os seus projetos, já não eram só protagonistas, agora eles eram empreendedores sociais, eles tinham o próprio negócio, eles já eram protagonistas da vida deles, agora eles já tinham os próprios negócios deles. E eu cuidei desse núcleo, eu ajudei a implantar esse núcleo que é uma parceria com a Ashoka que existe até hoje. E a Gol de Letra em paralelo também correu por esse mesmo caminho, então foi muito legal, depois num torneio, numa espécie de liga de estudantes com projetos eu encontrei os jovens da Fundação que fizeram parte do núcleo, que criaram a rádio ovo, era uma rádio com as ideias que eles criaram no NUCOM, buscaram recursos pela Ashoka, eu fiquei feliz com aquilo, porque eu vi que eu fiz parte de um lugar, eu ajudei a criar uma célula e ela permanece, não precisa do Alexandre lá ou de alguém, essa coisa do autor, o autor depende... A obra ta lá e o autor ta em outro lugar, ninguém sabe onde ta, sei lá, fiquei feliz disso. E pessoalmente nesse processo todo foi muito puxado essa coisa da faculdade, então eu não tive pessoal nesse período, faculdade ocupava muito do meu tempo, eu me dediquei mais aos estudos e ao meu pai, a minha família, ao meu irmão que eu não via tanto, ele era o caçula, então ele chegou a fazer parte desse projeto e tal. E a minha mãe pintando quadros, eu também não deixei ela desvirtuar disso por causa da necessidade de voltar a trabalhar, porque o meu pai tava meio doente. Então eu consegui resgatar a minha família nisso tudo...

 

P/1 – Nesse processo todo?

 

R – Nesse processo de sair da Gol de Letra eu voltei, bom, já que vocês me ensinaram e resgatar as minhas raízes eu vou resgatar as minhas raízes, já que a minha família se mudou eu vou atrás deles. E aí eu fiquei dois, três anos na Zona Sul morando lá com eles, aí eu saí do Arrastão no começo do ano passado, eu sai do Arrastão porque eu também já tava dois anos dentro de um projeto, já tinha participado de vários ciclos e nunca em nenhum projeto eu fui, por exemplo, mandado embora, sempre foi assim: “ah, tá bom já; pra mim já foi assim, já ajudei, já fui ajudado, já missão cumprida”, essa sensação de missão cumprida e aí eu saí do Arrastão, mas não abandonei a minha ideia do Cine Possível. O Cine Possível hoje é um projeto social que não tem CNPJ nem nada disso, mas é de oficinas itinerantes, e a minha ideia esse ano... Eu voltei a participar de um projeto que chama-se Partners, é um projeto internacional, Partners of the America, é de voluntários do Brasil com voluntários dos Estados Unidos em várias áreas, segundo, terceiro setor que mobilizam recursos pra desenvolver projetos legais, é isso, e intercâmbio. Ano passado um jovem que fez esse projeto, independente de Arrastão ou qualquer coisa que eu conheço, foi pra Chicago, participou de um festival de filmes latinos lá, trouxe material, trouxe contatos e a minha ideia não é criar uma sede e ter uma estrutura dura, fixa, pregada no chão, essa ideia é ser... Continuar sendo... Eu sou meio mochileiro...

 

P/1 – Uma rede mesmo.

 

R – Você passar por onde passar, deixar vestígios, algumas coisas dão certo, outras não tão certos, mas fazer alguma coisa que mude uma realidade num local e aí esse ano eu to engajado nesse projeto, eu sou secretário, eu comecei só como membro, aí hoje eu já sou secretário dessa organização social e to tocando esse projeto que é o Cine Possível, esse ano já ta desenvolvendo oficinas com jovens de novo, aí são jovens, alguns são recortes de projetos que eu já fiz parte que hoje são atores, começam a sua carreira profissional, outros estão começando do zero mesmo e a gente vai fazer alguma coisa no audiovisual, a gente não sabe especificamente o que é. Eu tenho equipamentozinho básico de vídeo e a minha ideia nunca é ter uma câmera do Fernando Meirelles e fazer um filme que custe milhões e milhares, não, muito pouco, mostrar “ó, dá pra fazer, não precisa ser uns dois vídeos cassetes também, não precisa ser tão radical, mas com o mínimo, com o softwares livres, tem o Linux que oferece programas de edição, de animação, então a minha ideia é pegar essas ferramentas baratas e ir em algum lugar, fazer alguma coisa e depois sair e deixar o pessoal lá fazendo o que eles quiserem. E eu fazer outras coisas, isso é mais pessoal do que institucional, é o meu ideal, digamos assim. Em paralelo a isso eu tenho uma produtora de vídeo que faz alguns vídeos mesmo, mais ligado a entretenimento, muito vídeo pra banda, vídeo empresarial e eu cuido mais da parte de produção, não fico lá diretamente ligado a isso, fazendo, tem alguns amigos meus que eu construí durante esse tempo todo, essa história toda que trabalham diretamente com câmera, com edição, que vão lá e fazem isso e eu tenho esses contatos. E hoje eu trabalho também, presto serviço pra uma empresa de desenho industrial, eu trabalho com desenho industrial e cuido também da parte digital de marketing deles, então eu conheço muito essa coisa do Google, links patrocinados, ficar sempre em primeiro lugar, essas coisas de divulgação pela internet, eu trabalho muito com isso; e faço cursos nessa área, gosto muito do youtube, dessas ferramentas que são rápidas, ágeis, Twitter, essas coisas todas são novidades que eu sempre tento me plugar pra sempre estar em acesso a novos meios de comunicação. A minha ideia é fazer link disso também com o próprio projeto. Então são coisas que apesar de ser mais pra sustentabilidade, voltei a morar na casa vazia da Zona Norte e reencontrei muitos amigos da Gol de Letra também, mas eu tenho essa outra forma de atuação social. Dificilmente, eu acho, eu voltaria a trabalhar diretamente com isso, por vários fatores, acho que o primeiro deles é que eu já fiz assim, já dei um gás nisso diretamente e é uma carga muito intensa de energia, porque uma coisa é você trabalhar numa empresa que faz salsicha, você vai lá e faz salsicha, dá algum problema você deixou de fazer cem salsichas, mas num projeto social você vive muito, quer queira, quer não, com uma intensidade muito grande, uma realidade local, a vida das pessoas é muito exposta, eu gostei muito de fazer parte da vida de outras pessoas, e muitas pessoas também me ajudaram e eu ajudei muitas pessoas no que foi possível. Mas eu quero um pouco mais de estabilidade, ter as minhas coisas, conquistar o meu espaço no mundo também e fazer esses projetos de uma forma mais, um pouco mais paralela nesse momento da minha vida.

 

P/1 – Esses são os seus desafios. Agora pra começar a encerrar essa entrevista, se você fosse definir a Fundação, o que essa Fundação significou e significa pra você? O que você falaria pra gente?

 

R – Acho que significou o principal capítulo da minha história de revolução, de mudança, a Fundação foi responsável direta, digamos assim, por não determinar nada, não determinou nada na minha vida, mas ela garantiu que o espaço, que uma bolha mágica fosse criada ali e que lá dentro nós pudéssemos criar, não deixou morrer dentro da gente a pessoa criativa capaz de ver outras realidades. Não só aquelas que são claras e específicas, mas poder sonhar dentro de uma bolha, eu acho que essa é a melhor definição da Fundação quando eu penso, eu penso de uma forma mais lúdica até pelos projetos que eu fiz parte. Eu vejo dessa forma assim. Eu tenho muito a agradecer a muitas pessoas lá, com certeza, e sinto até falta de, às vezes, aparecer lá, ver como as coisas são, até pela rotina, mas é isso.

 

P/1 – A Fundação ta completando dez anos fazendo esse livro, o que você acha da Fundação ta registrando a sua trajetória através das pessoas?

 

R – Dez anos ainda é uma criança, tem muita história pra contar pela frente com certeza e eu acho que a todas as pessoas que passaram pela Fundação com certeza tem muitas histórias boas pra contar a respeito daquele espaço, é um espaço que com certeza continua sendo novo pra todo mundo e continua sendo um lugar misterioso, porque as pessoas, na realidade, fazem parte dos projetos da Fundação, mas elas não sabem necessariamente onde aquilo vai dar, na realidade é o grande desafio de todo mundo. Eu que participei dos projetos vejo dessa forma, quem ta lá dentro sonha com a possibilidade de acontecer coisas totalmente inesperadas, eu acho que todo projeto social tinha que ser um pouco assim, pouco determinante, mas muito amplo nas possibilidades.

 

P/1 – E você que entrevistou tantas pessoas começando com o vídeo, o que você achou de ter deixado sua história registrada aqui pra história da Fundação?

 

R – Ah, fiquei feliz, eu sempre tive uma afinidade muito grande e uma preocupação muito grande em garantir a história, não só a minha, como dos lugares onde eu fiz algum capítulo, eu fico muito feliz de também colaborar não só como entrevistador, mas como entrevistado e deixar registrado que realmente faz sentido existir um projeto social como a Fundação Gol de Letra, definitivamente eu acho que é importante, continua sendo muito importante e pode ainda mudar a história, como mudou a minha, mudar a história de muita gente.

 

P/1 – E você ter passado pelo processo de rememorar sua trajetória como é que foi isso pra você?

 

R – Difícil, porque na realidade eu fiz parte de tanta coisa dentro da Fundação Gol de Letra, uma época a gente até brincava que o único grupo que eu não fiz parte foi o grupo Mulheres em Ação, por motivos óbvios, e aí é difícil, às vezes, porque as histórias não acontecem de forma linear, elas se entrelaçam, a história do projeto é entrelaçada com muitas outras histórias, das pessoas, das comunidades, da situação no país, do momento histórico no país. Então eu me senti fazendo parte, fazer parte da Fundação também foi se sentir fazendo parte de algo maior, um movimento maior que tava acontecendo ali naquele momento do país, do mundo, com certeza fez muita diferença pra mim.

 

P/1 – Você achou que ficou faltando falar alguma coisa Alexandre?

 

R – Ah, eu acho que sempre é importante quando a gente lembra de um projeto social, é que ele não é só parede, ele não é só o espaço físico ou até a própria marca, mas são pessoas, e a Fundação é feita principalmente por pessoas, porque se o prédio for arrancado dali é bem provável que as pessoas continuem indo ali no local, montando tendas e fazendo coisas acontecerem. Então eu acho que é sempre importante valorizar e respeitar as pessoas que fizeram parte dessa história do projeto e também mostrar pras pessoas que hoje estão lá de que elas fazem parte de um ciclo bem maior e que elas também um dia, de repente, vão passar esse bastão pra frente e que é uma rede de pessoas que está dando certo, senão não teria dez anos, a gente sabe que vai chegar nos vinte, nos trinta, nos cinquenta, enfim, é isso.

 

P/1 – Maravilha. Então queria te agradecer em nome da Fundação Gol de Letra e do Museu da Pessoa, gostaria de agradecer você ter vindo até aqui e ter deixado essa história registrada.

 

R – Fico muito feliz de ter registrado essa longa história aí.

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