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História

Liberdade: Um Novo Tempo para a Música de Ivan Lins

História de: Ivan Lins
Autor: Valdir Portasio
Publicado em: 12/06/2021

Sinopse

Ivan Lins fala da sua história de vida e do novo momento de sua produção musical, marcado pela liberdade de fazer o que gosta: explorar todos os tipos de música e a criatividade da cultura brasileira. O artista destaca a importância de iniciativas como as da Unimed, para o incentivo da arte como valor à vida e se revela um torcedor apaixonado pelo Fluminense.

História completa

Projeto Memória Unimed Rio Depoimento de Ivan Guimarães Lins Entrevistado por Carla Vidal Rio de Janeiro, 29 de setembro de 2005 Realização Museu da Pessoa Código: UMRJ_ HV021 Transcrito por: Susy Ramos Revisado por: Patricia Brasil Massmann P/1 – Ivan, queria que você dissesse seu nome completo, a data e o local do seu nascimento. R – Bom, meu nome é Ivan Guimarães Lins, nascido no Rio de Janeiro, em 16 de junho de 1945. P/1 – E o nome dos seus pais? R – Meu pai, Geraldo José Lins, engenheiro naval, depois engenheiro econômico, economista, e minha mãe, Leia Frazão Guimarães Lins, professora primária e, depois, do lar. P/1 – Em quantos irmãos vocês... R – Somos cinco irmãos: Sônia, a mais velha, eu, depois vem a Lúcia, arquiteta – Sônia é das línguas, professora de inglês – eu, depois Lúcia, arquiteta, Márcio, engenheiro metalúrgico e Geraldo Guimarães Lins que é médico ortopedista. P/1 – E você nasceu em que bairro do Rio de Janeiro? R – Eu nasci, na verdade, nós moramos na Tijuca. A gente morava na Tijuca quando eu nasci, mas nasci em uma casa de saúde, Arnaldo Moraes, em Copacabana. Minha mãe foi até lá e depois voltou, então, quer dizer, eu não me considero um cidadão de Copacabana, me considero um tijucano mesmo. Aos dois anos de idade, saímos da Tijuca, a família toda foi para Boston, nos Estados Unidos, onde moramos por 3 anos. P/1 – Você lembra desse período? R – Não. Lembro muito pouco, lembro das músicas só. A minha grande referência de lá são exatamente as canções e, já no finalzinho, os filmes, a televisão, os filmes de cowboy que eu adorava. Chegamos em 1950 e aí começa, realmente, começo a travar conhecimento com a música brasileira, com a realidade brasileira. Não consigo lembrar do Brasil antes de cinco anos, porque com dois anos de idade você não lembra de nada, eu não consigo lembrar de nada. Minha memória começa nos Estados Unidos, e aí musicalmente acho que foi o meu começo, as músicas de Walt Disney, as músicas de Stephen Foster, que era um compositor folclórico. E eu lembro das canções até hoje, as minhas favoritas. Meu pai e minha mãe tocavam piano e as canções por partitura. Meu pai tocava mais tango e sempre foi apaixonado por tangos e boleros e minha mãe tocava as canções de Stephen Foster no piano. Eles compravam os disquinhos porque viam que a música realmente me paralisava. Eu já cantava desde aquela época, andava no berço cantando e sacudindo, já tinha muito ritmo e gostava muito de cantar. Eles compravam os disquinhos de Walt Disney e do Stephen Foster e botavam na vitrolinha para tocar, e ali era o meu mundo, o meu mundo era em volta de música e de cowboy, tanto que eu gostava muito daquelas, que eles chamavam de _______(?) que eram aqueles Forte Apaches. Eu assistia àqueles filmes de cowboy na televisão, que eram minha grande paixão, de Roy Rogers, Hopalong Cassidy, todos os cowboys da época. Já tinha roupa e tudo, pedia para a mamãe comprar roupa de cowboy para mim, e a minha paixão era essa, eu brincava fazendo forte apache com aqueles... Tanto que depois, quando eu construí minha primeira casa, isso praticamente há uns dez anos, eu fiz uma casa inspirada, madeiras e troncos, que era o grande sonho da minha vida: “um dia, quando eu fizer uma casa, quero uma casa com os (lobbies?) e tudo”; e fiz, quer dizer, são coisas que depois da infância saem, e a música também. De uma certa forma, eu acho que a minha música, o berço da minha música começa pela música americana, não pela música brasileira. P/1 – E na sua família tinha músicos profissionais já ou só essa coisa mais informal? R – Não, eu tinha um primo que tocava clarinete, piano muito bem, tocava na banda do colégio militar. Quando eu fui para o Colégio Militar, quando eu vim para o Brasil, em 1957, entrei no colégio militar. O meu primo já estudava lá e me levou para a banda do Colégio. Sabia que a minha musicalidade já era famosa dentro da família, ele me levou para tocar. Eu resolvi tocar trompete. Eu não consegui tocar, não deu certo, arrebentava a boca, eu não queria aprender música, eu ia muito pela intuição, decorava os dobrados e o sistema militar, quer dizer, o sargento que comandava a banda, obrigava a gente a estudar: se não lesse, tinha que sair: “Não pode tocar, tocar de ouvido aqui ninguém toca!”, aí descobriu que eu tocava de ouvido. Me fez sair porque eu não estava a fim de aprender música. Minha mãe tentou uma vez me colocar em uma escola de música para aprender as notas musicais, eu não, e a professora ficava impressionada com a minha musicalidade, com meu ritmo, mas eu não queria aprender nada de nota musical, nada. P/1 – Conhecimento informal? R – É, eu desenvolvi toda a minha musicalidade por intuição mesmo, eu tinha o dom, uma coisa que nasce com você. Meus irmãos não foram abençoados com isso, fui eu o escolhido. E quando resolvi aprender piano, aprendi em dois anos, de ouvido. P/1 – E o que você tocava? R – Eu não tocava nada, só ouvia. P/1 – Só reproduzia? R – Escutava, era viciado em comprar discos e ouvir. Parava, ligava a rádio, ficava ouvindo música na rádio e comprando discos e botando discos. Quando eu fui para o Colégio Militar, comecei a me apaixonar muito por bandas, aquela sonoridade de metais e tal, e aí, disso para as big bands foi um pulo. Eu comecei a me apaixonar pelas big bands, _______, ______, Billy May, aí começaram todos eles, New Jung, todas as grandes bandas americanas. Comecei a comprar discos e discos e tal. Dali para o jazz, para a bossa nova foi um pulo, porque eu já tinha a familiaridade da harmonia e já tinha uma coisa já de berço que vinha da música americana dos anos 1940. Quando cheguei no Brasil, eu lembro que eu ligava o rádio todo dia, minha mãe ficava: “Esse menino não estuda!”. Eu vivia ouvindo música. Tinha aqueles programas da Rádio Nacional, e já tinha um gosto diferenciado, já saía, por exemplo, todo mundo naquela época tinha seis, sete, oito anos, então todo mundo ficava ouvindo aqueles programas da Rádio Nacional, então os ídolos eram Emilinha Borba, Marlene, Cauby... Eu não. Gostava de Nora Ney: (entrevistado canta) “Ninguém me ama/ ninguém me quer...”. Eu já ia para um Carlos Galhardo, porque o Carlos Galhardo era a voz do príncipe da Branca de Neve. Quando eu cheguei, compraram um disco da Branca de Neve em português, porque meus pais sabiam que eu gostava das músicas da Disney. A voz do príncipe era o Carlos Galhardo. Um dia eu ligo o rádio e ouço a voz do príncipe cantando samba-canção [risos]. Meus ídolos eram esses, Carlos Galhardo e Nora Ney. Vai explicar! P/1 – Será que isso também não tem um pouco a ver pelo fato do teu pai tocar boleros? R – Pode ser também, de uma certa forma, mas meu pai não tocava muito. Papai não tinha muito tempo para tocar, ele tocava no fim de semana. Sabe, no fundo, quem tocava piano mesmo eram minhas irmãs, que aprenderam piano daquela forma chata “tãnãnãnãnã _______, ______”, aquele exercício. Eu achava aquilo chatérrimo. P/1 – E na escola, você era bom de matemática, por exemplo? R – Na verdade, o seguinte, me colocaram na escola com um ano à frente, eu fiquei defasado um ano, então eu não conseguia ir bem em nada, entendeu? Me dava muito bem era em desenho, essas coisas... Aliás, minha família toda desenhava bem, meu pai, meus irmãos desenham bem, meus filhos, meus sobrinhos, todo mundo desenha bem. Isso é um dom, também, de toda a família, todos desenham bem. Tem vários designers, arquitetos na família, porque todos são bons de desenho. Eu era apaixonado por geografia, história, essas coisas assim. Eu lia muito, isso também por influência paterna; aquelas coleções, Júlio Verne, policiais, Agatha Christie, Conan Doyle, Sherlock Holmes, essas coisas... Então, lia-se muito na minha casa. Todo mundo tinha o hábito de ler, devorar aqueles livros do papai, aquelas coleções encadernadas, antigas, e a gente devorava. Tinha essa coisa da história, meu pai era um bom, é até hoje, um grande contador de história, e como naquela época não tinha novela na televisão, a não ser as de rádio, quando papai chegava contava as histórias. Nossa novela, depois do jantar, da hora do jantar, era o meu pai, e os filhos ficavam esperando o pai chegar para continuar o próximo capítulo das novelas que ele criava. Então, essa coisa de contar história, história e geografia eram as matérias assim. E ciências também, eu era muito bom em ciências, adorava. Eu tinha muita curiosidade, todos os meus irmãos eram muito curiosos. P/1 – E como era o ambiente familiar? Cinco filhos, pai militar? R – O ambiente era ótimo. P/1 – Seu pai não era repressor? R – Não, a minha mãe que era [risos]. R – Eu falo, minha mãe jogava mais duro que meu pai. Meu pai, quer dizer, porque meu pai era muito ausente. Trabalhava durante a semana, chegava sempre às sete da noite. E a gente só tinha mesmo convívio com meu pai aos sábados e domingos, quando a gente saía, ia fazer piquenique, que é um negócio, um hábito que já veio da época que a gente morou nos Estados Unidos, onde tinha muito isso... P/1 – Então o pai ficava ausente aí a mãe tinha que segurar? R – É, e a mãe segurava ali no tranco. Ela veio de uma educação portuguesa rígida, de uma linhagem bastante tradicional. Então naquela educação rígida portuguesa, minha mãe, ela era o general da casa, na verdade. Ela que ficava com a tropa. E ela segurava ali, no tranco mesmo, ela não era fácil. Eu fiquei até, tenho que, quer dizer, coisas de terapia, resolver meu problema com a minha mãe, porque minha mãe pegava pesado comigo. E eu também, por temperamento. Eu era uma pessoa mais dócil, minha irmã mais velha já se revoltava, encarava, peitava; eu não, já engolia seco, sozinho, ficava guardando as coisas para mim. Temperamento, muito tímido, eu já era o tímido. E assim foi... e a relação,.... mas foi uma educação muito boa, os valores humanos foram éticos, foram fundamentais na nossa formação como seres humanos. Na nossa família, meu pai e minha mãe passaram valores éticos maravilhosos. E toda a família tem um comportamento ético incrível e nós passamos isso para os nossos filhos. É muito bacana isso, a gente tem que agradecer, acho que é uma ligação muito bacana nesse sentido. P/1 – E a sua cidade de menino? Tijuca, você tem imagens dessa infância? R – Meu bairro foi a Tijuca, onde eu realmente aprendi praticamente tudo. Houve um período que eu morei em Niterói, de 1953 a 1956, foram três anos, mas assim que nós chegamos dos Estados Unidos, em 1950, já fomos para a Tijuca. Moramos na Rua Garibaldi. Estivemos depois na chácara do meu avô, no Andaraí, depois voltamos para a Garibaldi, aí fomos para Niterói, de 1953 a 1956, depois voltamos para a Rua ____ da Tijuca e daí, até eu sair de casa, morei na _____ da Tijuca. P/1 – E como era a sua vida de rua? R – Vida na rua. A Tijuca era um bairro maravilhoso que ainda não era essa favela de concreto que hoje existe, onde os prédios encobriram os morros e os morros foram ocupados pelas favelas. Naquela época já existiam favelas, mas eram muito pequenas, o convívio entre as pessoas da favela e as pessoas da cidade ainda era bastante cordial. Eu me lembro que eu tinha colegas, eu fiz escola primária, e o convívio era maravilhoso, a gente se dava muito bem. P/1 – Mas você manteve esses amigos? R – Tinha muitos amigos e alguns moravam até em favelas. Nos sentíamos todos iguais. Fui criado na Tijuca, ainda havia muito isso. Não havia essa coisa da diferença social, a gente convivia, ninguém se dava conta disso. Pelo menos as crianças, nós convivíamos na escola primária, e todos misturados e todos gostavam e todos conviviam, como se fôssemos iguais, não existia essa coisa. Se bem que em casa, de vez em quando, para levar um colega ou outro assim, minha mãe era mais dura, jogava mais pesado, mas aí eu saía, eu ia para a casa dos meus amigos e a gente ia para casa de pessoas muito mais pobres do que a gente. A gente também não era rico, meu pai era da Marinha. A Marinha não dava, a gente era uma classe média média mesmo. Depois que meu pai saiu da Marinha que a vida dele começou a melhorar, quando ele partiu para engenharia, engenharia civil e econômica. Aí a vida dele melhorou, se tornou um homem muito brilhante, um homem muito capaz, muito respeitado dentro da profissão dele. E nós fomos criados dentro de um ambiente familiar que a gente, apesar do jogo duro da minha mãe, conseguia ainda ir para a rua, brincar e tal. Tive uma infância muito bacana, aprendi a fazer pipa, botão. Eu era o artesão da minha rua, fazia botão para os outros, pipa, balão, naquela época podia se fazer balão. P/1 – Você já era torcedor do Fluminense? R - Não, não. Eu comecei como torcedor do Vasco quando eu fui para Niterói, em 1953. Eu morava em um prédio, só tinha outro vascaíno, só tinham dois vascaínos: eu e o menino que era três anos mais velho do que eu e batia em mim. Tomava as bolinhas, ele era mau, ele tinha uma índole – hoje talvez não seja mais, mas naquela época ele tinha, talvez até por problemas familiares, era também uma família grande, só de homens, então havia muita competição entre os filhos. Ele era, digamos, o grande rebelde da família, e ele era vascaíno. Ele me batia, me tomava as bolinhas de gude. Era o (pele?) dele, entendeu? Como ele não podia bater no irmão mais velho, que era tricolor, então ele se aproveitava de mim. O irmão mais velho namorava a minha irmã, o primeiro namorado da minha irmã. Morava no mesmo prédio. Era o único prédio de Niterói, o Álvares de Azevedo, só tinha esse prédio lá na Praia de Icaraí. O prédio cheio de tricolores. A gente tinha um campeonato de botão no terceiro andar, aí um dia, os tricolores, em um campeonato daqueles de botão, fizeram uma oferta para mim: “Ivan, se você não quiser que o fulano te encoste o dedo, seja tricolor. Nunca mais vai encostar o dedo em você, porque a gente não vai deixar.”, aí eu fui para a casa pensar. No dia seguinte, no campeonato seguinte, voltamos para jogar botão, eu falei: “Ó, a partir de hoje eu sou Fluminense.”, foi uma festa. Deixaram eu ganhar o campeonato naquele dia, ganhei, me carregaram nos ombros até lá, morava no décimo andar, saiu do terceiro pela escada, cantando o hino do Fluminense. Nunca mais ele encostou o dedo em mim. Nem o irmão dele. O irmão dele era mais velho, eu ia reclamar, eu falava: “Pôxa, Sônia” – Sônia, minha irmã – “Pôxa, fala para o coisa me defender porque eu não agüento mais apanhar.”, ele falava assim: “Isso é coisa entre vascaínos, os vascaínos é que se...”, entendeu? P/1 – Que vira-casaca, hein? R – É, porque naquela época todos eram, tinham 12, 13, 14 anos; eu tinha sete, oito. Não dava, menos até, sete anos. Então ele falava: “Isso é coisa de vascaíno. Vascaíno é que se vire aí.”, ninguém me defendia. Todo mundo assistiu o cara me dar balão, jogar dentro da água, me dar rasteira, tomar minhas bolinhas de gude, minha pipa, aí quando eu virei, pronto! Resolvi meu problema. Nessa época, o Fluminense estava com um time muito bom, e aí os tricolores me chamavam para torcer junto, aí comecei a gostar porque comecei a torcer para um time que tinha um monte de gente torcendo junto. A farra era legal, eu comecei a gostar. Eu era um vascaíno solitário, entendeu? Só tinha um cara para me bater. Então, a mudança foi fundamental e comecei a me apaixonar pelo Fluminense e, até hoje... Tornei tricolor, e a família toda minha é tricolor. Quer dizer, na verdade, meu pai e minha mãe eram tricolores, tenho mais dois irmãos tricolores. Os outros dois são rubro-negros, a mais velha e o mais novo. Não podiam ser seguidos. P/1 – Uma equilibrada também, né? R – Uma equilibrada, mas são rubro-negros. P/1 – Então você fez o Colégio Militar até os 18 anos, é isso? R – Eu fiz de 1957 até 1964, foram oito anos porque repeti o primeiro ano. Foi engraçado quando você falou de matemática porque eu fui reprovado em matemática, exatamente foi a matéria que me reprovou em 1957. Eu não passei em matemática. Aí aconteceu o que precisava ter feito, eu estava era defasado, aí eu entrei, me assentei. P/1 – Voltou para o teu espaço. R – Aí eu fiquei, aí eu peguei a série certa. Eu estava, eu era muito novo sempre, eu estava muito adiantado. P/1 – É que músico, quem compõe, tem uma ligação com a lógica e o raciocínio matemático que é interessante. R – É. Aí eu virei o matemático da turma. Eu não estudava nem mais matemática, eu já passava direto, me tornei oficial aluno. Eu fiquei, eu que tinha repetido virei tenente aluno. P/1 – Como era esse negócio de estudar no colégio militar? Era legal? R – Era legal, era legal. Ali você tinha, naquela época, principalmente, a questão da solidariedade, da amizade, da disciplina. Te põem um pouco em ordem, eles te obrigam a ser organizado com as suas coisas, tudo. Você aprende uma série de coisas, especialmente a solidariedade, entendeu? As pessoas se unem. Quando um fazia um negócio e a turma dizia assim: “Olha, se nego não disser quem foi, a turma toda vai ficar aí até às...” – a gente estudava de manhã – “Vai ficar aí até às 6 horas da tarde, presa!”. A turma subia, na boa, ficava todo mundo, só para ... não tinha negócio de dedo-duro, não tinha nada disso. P/1 – Você teve formação política? R – Não, dentro do Colégio não tinha. P/1 – Na sua casa? R – Não. Meu pai era militar, na verdade, quando veio a revolução em 1964, meu pai era a favor da revolução. Mas ele era por causa de uma questão mais, muito mais ética, do que qualquer coisa. P/1 - ________? R – Então, aí depois ele descobriu que a própria ética desapareceu, porque havia interesses dentro da própria revolução. Certos militares, a questão do Costa e Silva irritou meu pai profundamente. A Dona Yolanda e aquela história dela. O Castelo Branco, quando saiu, que era um homem honrado na verdade, e o meu pai gostava muito dele. E, quando entrou o Costa e Silva, deveria entregar o governo aos civis, mas quem não deixou foi a Dona Yolanda. “Agora que nós estamos bem, agora que nós temos o poder na mão, agora que nós podemos fazer...”, e era o maior contrabandista, então nada disso. E, no fundo, as mulheres são importantes para o bem, mas às vezes são importantes no mal também. Essas histórias meu pai sabia porque o assessor do Costa e Silva era o meu tio, direto, o General (Alves Pinto?) era assessor direto do Costa e Silva., Era um homem muito íntegro o meu tio, muito íntegro, e não gostava disso, tanto que ele não ficou depois. Ele saiu, mas ele sabia de tudo, como General, ele sabia e meu pai sabia. Lógico, militares, meu pai não era mais da Marinha, mas eles tinham uma ligação muito forte dentro da família. Todo sábado e domingo a gente se encontrava, a família toda se reunia, os irmãos da minha mãe, a família, grande parte da minha mãe, para um almoço, os primos se encontravam, eles conversavam, eles sabiam de tudo. Eu soube muita coisa através do meu tio, indiretamente através do meu tio, pelo meu pai, pelos meus primos, eles me contavam. E você vê, e naquela época eu não me metia muito em política. Eu entrei para a faculdade em 1965, fui fazer química na Universidade Federal do Rio de Janeiro, me formei em Química Industrial, quatro anos depois. P/1 – Como foi isso, estudar química? R – Fui pelos colegas. No Colégio Militar eu tinha um professor que era maravilhoso, de química, realmente era muito criativo e as pessoas criativas me atraem profundamente, porque eu sou uma pessoa muito criativa, estou sempre criando. Então, as pessoas criativas ou que despertam, ou que fazem com que você use a sua criatividade, essas pessoas me atraem muito. Os professores mais criativos ou que despertavam a nossa criatividade, incentivavam a criatividade, eram meus professores favoritos, e o de química era assim. E eu tinha uns colegas que queriam seguir química e eu estava entre arquitetura e química, porque eu era bom de matemática, de geometria e desenhava bem. Meu caminho correto era arquitetura, mas aí os meus melhores colegas de turma foram para a química e esse professor, de uma certa forma, aguçava, empurrava a gente para isso. Quando eu saí do Colégio Militar, eu fiz vestibular, fiz o exame vestibular, não fiz nem curso, passei direto, em 60º lugar, na faculdade. E fui com meus colegas, passou todo mundo. Todo mundo para a química. Eu fui para a química achando que era aquela química criativa que a gente tinha nas aulas práticas do colégio militar, com esse professor, e não era nada disso. Depois eu fui descobrir que a química era uma ciência quase exata, quer dizer, não tinha muito o que inventar. P/1 – Você se formou? R – Eu me formei, mas eu só fui descobrir que estava na faculdade errada quando a minha irmã logo, a Lúcia, entrou para arquitetura. Então, nós morávamos em uma casa, eu estudava no quarto e ela estudava com a prancheta no outro, e toda hora eu saía do meu, ia lá ver ela estudar e falava: “Ah, meu Deus do céu!”, e já estava no terceiro ano da faculdade, só faltava um, eu não ia começar tudo de novo, sair da química para fazer arquitetura. Me formei, fechei, mas aí a música já andava, já praticava muito esporte e a música já estava... Dentro da faculdade você entra para o diretório, tem aqueles festivais, aqueles movimentos todos de músicas, espetáculos e... P/1 – Que esporte você praticava? Você tinha treino? R – Eu comecei, quer dizer, minha família foi muito esportista, meu pai foi esportista. Ele fez atletismo na Marinha e depois fez no Fluminense também, e ele sempre despertou isso na gente; todos os meus irmãos, todos nós praticamos esporte. Meu esporte foi voleibol, mas eu jogava futebol, basquete, tênis, eu praticava tudo, tinha facilidade para todos os esportes. E a minha família toda saiu assim também, meus irmãos, minhas irmãs, meus primos, meus sobrinhos, todo mundo praticava algum tipo de esporte. E tínhamos muita facilidade. Tivemos uma vida muito saudável, também nesse sentido. Joguei voleibol no Tijuca Tênis Clube; fui do time, desde os 15 anos até os 18. Depois ainda joguei na primeira divisão, fui convocado duas vezes para a seleção carioca juvenil, mas me machuquei antes de começar. Porque eu jogava futebol, e no futebol arrebentei o joelho jogando pelada. Não podia ver bola. Eu era fanático por vôlei, jogava bem e tudo, cheguei a jogar bem, aí depois misturava música, estudo e esporte. Você tinha que treinar, ir para o clube, ensaiar de noite e tocar em um lugar ou outro, de manhã acordava cedo, ia para a faculdade, aí saía, ia treinar e depois ia para a noite. Aí não deu, eu tive que começar a optar. Eu comecei a fazer o esporte ficar mais hobby, comecei a me dedicar mais à música. O estudo, evidentemente, por pressão paterna e materna, principalmente meu pai. Ele achava que eu tinha que ser químico, não músico, até que, em 1970, depois de festivais, estava começando a ficar muito conhecido, aí eu resolvi optar pela música, mas até lá eu ia ser químico. P/1 – Podia trabalhar na Rhodia, já pensou? R – Não, eu ia trabalhar em cimentos. Eu fiz um ano e meio de pós-graduação. P/1 – Você chegou a fazer pós-graduação? R – Fiz um ano e meio em cimentos portland. P/1 – Nossa! R – Eu não sei como eu consegui. P/1 – Alguma utilidade deve ter na sua vida. R – É, mas... P/1 – Alguma coisa oculta. R – Você sabe quando você está fazendo uma coisa e você sabe que você está no ar, você não sabe se aquilo vai te levar a algum lugar: “Eu sei que isso não vai me levar a lugar algum, mas...”, meu Deus do céu! Aí eu fui fazer, eu lembro que no ano de 1970 foi quando eu tive uma música gravada: (entrevistado canta) “Eu me lembro/ noite adentro/ eu me lembro...”, da ______. depois veio o Festival Universitário, era o terceiro que eu concorria, as pessoas já falavam de mim, falavam: “Olha o compositor Ivan!”. E veio o Quinto Festival da Canção, não, a Elis gravou Madalena, estourou Madalena, e veio o Festival da Canção, fiquei famoso com Amor ao Meu País, que foi uma canção inclusive polêmica e tudo. Eu estava procurando emprego nessa época, botava terno, gravata e ia fazer entrevistas e tal. Lembro, teve aquele Movimento Artístico Universitário, os compositores universitários que se reuniam na Rua Jaceguai 27, ali na Maracanã e a gente formou um grupo porque a gente participava dos festivais universitários, não acontecia nada. Participava do Quinto FIC [Festival Internacional da Canção] e todos nós nos demos bem, principalmente, o César Costa Filho e Gonzaguinha ficamos mais conhecidos. A gente saía fazendo teatros, e eu procurando emprego ao mesmo tempo. Eu me lembro que, acho que foi em novembro, dezembro, eu fui no escritório de uma fábrica de cimento cujo presidente era muito conhecido do meu pai, e eu fui lá, levei meus trabalhos de cimento, teve aquela entrevista, aquela coisa toda, aí acabou a entrevista: “Você vai para Barbacena, nossa fábrica é em Barbacena, o salário não é muito bom porque você está começando, mas com os teus trabalhos você vai crescer dentro da companhia.”, e eu já: “Meu Deus, lá vou eu para o interior de Minas!”. Acabou a entrevista, ele tira três folhas de papel, põe assim na minha frente: “Agora, por favor, dê três autógrafos, para minha mulher e minhas duas filhas que adoram.”. Quando eu acabei, dei os autógrafos, eu já fui descendo o elevador: “O que eu vou fazer com esse troço? Já dei meus autógrafos, todo mundo me conhece, eu não vou seguir em química coisa nenhuma!”. Cheguei em casa, já preparei meu, quando papai chegar já vai saber a notícia. Não gostou, tentou botar os amigos dele para me convencer, amigos de família: “Fala para o Ivan que...”, não houve jeito. Em janeiro de 1971, quer dizer, a TV Globo contratou o MAU [Movimento Artístico Universitário] inteiro para comandar junto com a Elis e tudo, Mutantes, o programa Som Livre Exportação, que estreou em janeiro de 71. Foi ali meu primeiro emprego; ali começou minha carreira profissional como artista, como músico, até ali, até dezembro eu ainda estava... P/1 – Mas o que você considera o marco na tua carreira? Foi a participação nos festivais? O marco de início, a hora que você falou: “Eu tenho essa opção de ser músico.”, foi quando você estava na universidade ainda? R – A opção foi em 1970, quando eu percebi que as coisas estavam todas acontecendo ao mesmo tempo. Estavam atrás de mim como compositor, as pessoas estavam pedindo música como compositor. Veio Nelsinho Motta, chegou e falou: “Queria uma música para Elis.”, eu falei: “Puxa, para Elis!”, eu jamais podia imaginar que um dia eu fosse ter uma música gravada pela Elis. P/1 – Que é uma música que é atemporal, porque... R – A Elis escolheu Madalena. Eu a conheci pessoalmente, fui à casa dela, não podia imaginar. Tudo isso aconteceu em 1970. Foi um ano que as coisas foram violentamente me levando para a música mesmo, mas eu ainda com aquela: “Meu pai quer, meu pai não vai gostar.”, aquelas coisas. P/1 – E como nasceu Madalena? R – Olha, Madalena foi uma letra que o Ronaldo Monteiro de Souza, que foi meu parceiro, meu primeiro grande parceiro, ele me entregou e eu fiz a música. Fiz a música em Teresópolis, em uma casa que a minha tia alugava lá em um lugar, uma casa que meu pai alugava, em um piano que tinha ali embaixo. Botei a letra e fiz, tinha aqueles gravadores ainda, apertava aquelas teclas, e gravei, fiz a música lá. P/1 – E quando você viu a Elis pondo a voz naquilo... R – Foi uma... Nossa senhora! Até antes, quando ela quis fazer, quando ela quis me conhecer já foi. Quando entrei na casa dela já foi um negócio assim. Pela primeira vez, ela morava ali na Niemeyer, meu Deus do céu, eu não sabia o que fazer. Quando ela apareceu e eu vi assim, na minha frente, e ela percebeu logo que eu era o tímido dos tímidos, eu não sabia onde enfiar a cabeça, ela foi super legal comigo, super carinhosa, e foi o resto da vida, sempre me tratou muito bem. Ela sabia que eu era uma pessoa do bem, que eu não tinha, e ela sempre me tratou maravilhosamente bem. Eu me lembro que na segunda vez que eu fui, quando eu apresentei a ela o Ronaldo Monteiro. Aí tem uma história engraçada [risos], foi um dos momentos terríveis assim porque a gente chegou, bateu na porta, veio a empregada, e nessa época ela estava brigada com o Ronaldo Bôscoli, estavam às turras os dois. P/1 – Na décima briga. R – É. E a empregada abriu e perguntou quem era. Eu falei: “Diz que é o Ivan e o Ronaldo.”, eu não sabia o que dizer, Ivan Lins e Ronaldo. Ela não entendeu Ivan Lins, eu falei meio “Lins e Ronaldo.”, devo ter falado assim. Ela não entendeu muito bem, chegou lá, não sabia dizer o meu nome, disse só que era o Ronaldo. A Elis já veio de lá achando que... A Elis deve ter perguntado: “Quem é que está aí?”, ela falou: “O Ronaldo.” “Aquele...”. Já veio descendo o nível, a gente veio ouvindo: “Eu vou falar...”, bicho, era um negócio assim terrível. Eu olhava para o Ronaldo: “O que eu fiz?” [risos], eu não fiz nada. P/1 – E o pobre Ronaldo? R – E o Ronaldo olhando para a minha cara [risos]: “Você me botou nessa?” [RISOS] R – Quando ela viu que era a gente, ela foi dar uma bronca na empregada. Ela foi dar uma esculhambada _________, mas naquela hora, foi um minuto de horror, nem, 30 segundos de terror. P/1 – Pimentinha, né? R – Pimentinha. P/1 – E os festivais? Esse ambiente dos festivais? Você cruzou com um monte de gente que também estava ali começando como você, né? R – Ah, sim. Ali a gente fez um grupo muito forte de amizade. Havia uma competitividade muito forte também, todo mundo competia com todo mundo, mas era um negócio muito positivo porque, na verdade, havia espaço para uma música de melhor qualidade na mídia, a gente sabia que tinha alguma possibilidade de se dar bem fazendo uma coisa bem feita. O que nos obrigava a todo dia ir para a casa fazer uma nova e ir aprimorando, e chegava lá na Jaceguai 27 para mostrar. Todo mundo chegava com uma novidade, para mostrar um para o outro. Foi um período bastante rico e porque também tinha uma geração que veio antes da gente que participava dos festivais, em quem a gente se espelhava e partia deles. Eu, pelo menos, me deixava influenciar por todo mundo. Eles eram muito importantes, porque já estavam na mídia, eram bem-sucedidos: “se eles já estão na mídia é porque já passaram por uma coisa que a gente ainda vai passar”. E a gente se espelhava muito na música deles e era muito bonito o que eles faziam, desde a bossa nova, ______Furton, Tom Jobim, Carlos Lira, Roberto Menescal, foram as primeiras influências brasileiras, digamos assim, na minha música, principalmente como compositor, e depois vieram, vem Marcos Valle, veio Milton Nascimento, Edu Lobo, Francis Hime, Caetano, Gil, Chico, aquela geração logo anterior à nossa. E a partir daí, Egberto, todos eles... P/1 - ________, instrumental. R – Eu bebi aquilo desesperadamente, botava tudo no saco. Era um negócio engraçado porque havia, naquela época, como a gente tinha uma certa competitividade entre a gente, havia o que chamava de mercado negro de harmonia. A gente sempre tinha alguém que ia na fonte. Eu tinha um cunhado, na época ainda não era casado com minha irmã, a Lúcia, a arquiteta, ele era um colega de faculdade, e ele tocava muito bem violão. Ele estudou com Danilo Caymmi, com Paulinho Jobim, então ele conseguia frequentar a casa do Tom, ou então frequentar a casa do Paulinho, tinha o Danilo, muito ligado ao Milton, então eles iam para Três Pontas. Iam lá, conheceram o Milton pessoalmente, e ele já voltava com as harmonias originais. Ele falava: “Ivan! Todo mundo aqui.”, aí eu já pegava, sabe quando você ficava assim, guardava as harmonias e ficava, só para mostrar para os outros que chegavam? “Olha aqui, olha aqui!” “Toca de novo!” “Não, não, não.” [risos]. R – Havia um mercado negro de harmonia porque, a original, aquilo: “Mas essa daqui é original do Tom, cara!”, a gente passava no violão. Eu, na verdade, tive que aprender a tocar violão porque onde a gente ia não tinha piano, naquela época não tinha piano em qualquer lugar, então, tinha que ser no violão. Foi uma época que eu cheguei a tocar direitinho. Mas depois eu ia para a casa e passava para o piano, porque era onde eu realmente compunha. E depois eu tinha que adaptar para o violão para levar para os lugares, para mostrar para as pessoas. Mas havia sim, um mercado negro mesmo de harmonia, tudo muito escondido: “Olha, tenho aqui o original. O original, maneiro, o original! Travessia, eu tenho toda ela aqui!”, mostrava [risos]. R – Era maravilhoso, maravilhoso isso, era uma coisa fantástica. O que a gente aprendeu de música e se desenvolveu. Eu acho que nós, eu fui muito privilegiado, eu fui muito feliz porque eu não tenho o que reclamar. E eles preenchiam a nossa musicalidade, eles vinham com tudo, eles são músicos extraordinários, compositores extraordinários. Nunca apareceu tanta gente fazendo música boa em um país, como naqueles anos 1960, segunda metade dos anos... Os anos 1960 todos, a bossa nova, Durval Ferreira e todos aqueles compositores da bossa nova, Emílio Odato e todo mundo, Oscar Castro Neves, e vieram os outros. Quando entramos nos anos 1970, era tanta gente e coisas maravilhosas, fazendo coisas... Era muita música, muita música boa. P/1 – Uma bagagem incrível, né? R – Eu acho que eu fui muito privilegiado, muito privilegiado. P/1 – Com certeza, de uma geração muito produtiva. E o seu primeiro disco, como foi gravar? “Agora sou Ivan Lins! Me pedem autógrafo, vou entrar no estúdio.”? R – Aí foi. Foi quando eu comecei a gravar, já estava gravando isso desde setembro, outubro, em 1970. Tinha essa, procurando emprego e gravando o meu primeiro LP, achava que era só uma coisa “Ah, legal, vai ser legal!”, sabe? Em janeiro de 1971 saiu o meu primeiro disco. A primeira vez que eu entrei no estúdio foi no começo de 1970 e eu não tinha coragem, não me achava cantor porque, na verdade, as pessoas me descobriam cantando porque eu, naquela época, final de 1969 – por causa do Woodstock começaram a aparecer _______, o pessoal, Leo Russel, Joe Cocker, e aí tinha os negros, o Stevie Wonder, que já faziam uma música, Elton John, quando apareceu também; os caras que faziam rock pianístico, mas já tinham coisas, Jimmy Webb, já tinham uma harmonia mais elaborada, os caras arriscavam mais, misturavam um pouquinho de jazz no rock. Então aquilo começou a influenciar muito a minha música e os caras cantando daquele jeito, voz rouca – então eu começava a compor música imaginando para esses caras cantarem. Eu ficava imaginando, eu fui um sonhador, essa é uma particularidade, desde criança, eu brincava sozinho, eu tinha os meus próprios brinquedos; eu tinha um universo, me fechava dentro dele e me bastava. Botava a minha música, botava meus brinquedos, minhas coisas, ficava inventando coisas, eu conseguia... P/1 – Canceriano! R – Não, geminiano. P/1 – É, você é geminiano! R – Eu ficava imaginando esses caras cantando a minha música. Então eu ficava lá em casa cantando, tentando imitar eles só para ver como soaria na voz deles, para eu ver: “Essa música na voz do Joe Cocker... Como é que, do David Clayton Thomas, do ______, como isso vai ficar na voz daquelas cantoras negras, Thelma Houston, na voz do Stevie Wonder, como vai ficar isso?”, e eu ficava tentando imitar os caras. Eu não conseguia, não cantava. Eu forçava e saía um outro som, mas na minha cabeça... Eu tentava mostrar minhas músicas para as outras pessoas tentando fazer com que elas, entendeu? Imaginassem o que eu estava imaginando, mas como saía completamente diferente, saía uma outra coisa, as pessoas ficavam ouvindo: “Esse cara canta diferente, esse cara tem uma voz rouca.”, que não era minha, eu estava forçando. E quando me botaram no estúdio pela primeira vez, me levaram para o estúdio, que o Paulinho Tapajós conseguiu convencer o André Midani, na época, que era o presidente da Phillips, e falou assim: “Você tem que ouvir o...”, aí me levou na casa do André, e o _____ cantando com aquela voz diferente, e eu aqui: “Eles estão ouvindo, estão imaginando a minha música como Joe Cocker.”, e não estavam; estavam só me vendo porque saiu outra coisa. Ele disse assim: “Vamos, vamos botar ele no estúdio.”, cadê que eu tinha coragem para tomar no estúdio? Eu lembro a primeira vez, eu enchi a lata de coragem. Não consegui cantar! [risos]. R – Tive que marcar outro estúdio de novo para eu poder gravar e tudo. Naquela época tomava muita batida de limão, nossa mãe! Aquela que a gente tomava muito lá na _______. E eu comecei a cantar lá: “Legal!”, aí pegou, só que a voz era forçada. O bicho arrebentava as minhas cordas vocais todas, eu não sei como eu agüentei um ano e tanto cantando desse jeito até que um dia alguém falou: “Não, se você continuar assim, vai estourar tudo!”. Saltava uma veia, tem até uma foto de um disco meu, na capa, que tem aquela veia saltada assim, parece um tronco aqui assim. P/1 – É uma característica bastante sua. R – Naquela época era uma coisa meio agressiva, enfiava a mão no piano, toda aquela influência, Leo Russel, Elton John, aquele pararan, nego tocando, então era para enfiar a mão mesmo no piano. Já não era mais “jazzístico”, já era rock’n’roll mesmo. Cara, não deu não, a voz não aguentou, eu tive que começar a baixar a bola. E aí tinha as influências vocais brasileiras, tinha Elis, cantava lá, Milton Nascimento, cantava lá; aí não tinha jeito, eu jogava, meus tons eram todos lá em cima, todos berrados, aí a voz começou a ir embora, começou a não agüentar, isso aqui não foi concebido para esse tipo de performance, não foi e nem me treinei para isso. Se eu tivesse pego uma professora, tivesse estudado canto em corais, como fazem nos Estados Unidos - você começa desde pequeno já preparando o teu material - aqui, não, foi no berro e de repente, então não deu certo. Aí eu tive que começar a cantar com a minha própria voz, a tirar o rouco, os tons, mantive ainda, comecei a perder a voz nos shows, eu fumava e o cigarro era altamente prejudicial para a garganta, eu não sabia. E depois, quando veio aquele Rock in Rio, em 1985, que eu perdi a voz na segunda música, tive que pedir para o povo cantar. Aquilo lá, na verdade, foi uma coisa que acabou sendo a meu favor, mas na hora que acabou a voz eu me arrependi de ser fumante naquele dia, tanto que depois eu parei de fumar exatamente para não passar aquele sufoco: 200 mil pessoas na sua frente, você na segunda música “Aah, aah, ahh” [risos ], é fogo! Mandei o cigarro para o espaço. Graças a Deus parei, parei naquela época. Já faz 20 anos que eu não fumo mais. P/1 – E correu atrás do prejuízo? R – Mas a minha voz, cara, deu uma melhorada! Foi o seguinte, eu comecei a dar as notas agudas naturalmente, mas eu não me preparei, eu não estudei canto, eu não estava preparado para continuar cantando. Eu estava cantando fora da minha textura, eu sou tenor, você vê pela voz falando normalmente, eu sou tenor. “Lálálálá” e cantava aqui, tudo lá para cima, queria ser o Milton. Meu ídolo, a minha voz era o Milton e o Milton no auge cantando: “Lálálálálá”, mandando lá em cima e eu: “Vou lá também, eu quero ir também!”. Poxa, eu botava meus tons todos para cima, aí chegou uma hora que a garganta, mesmo sem cigarro, começou a avisar, comecei a ter problemas de afinação, comecei a ficar preocupado, procurei uma professora, Ana Lúcia Valadão. Essa mulher me salvou a vida, é uma das que me salvaram. Várias pessoas me salvaram a vida, mas essa foi. Um dia, cheguei lá, a primeira aula, ela mandou: “Canta!”. Eu cantei, fui cantar o Começar de Novo, já cantei lá em cima. Ela: “Pode parar! Não é nada disso, você está louco!”, deu uma espinafração: “Você é louco! Como você pode cantar fora? Você já canta aqui em cima, você já começa aqui em cima. Se você quer ter extensão, você tem que cantar aqui e usar a subida como um ás na manga, mas se você já canta aqui, você não tem mais para onde ir!”. P/1 – Imagina a voz de quantas pessoas você não prejudicou, que quiseram te imitar [risos]. R – Ah, pode ser. Mas aprendi, baixei os meus tons todos. Fui morar nos Estados Unidos, e teve uma coisa interessante porque eu sou carioca, e eu não sabia que eu era tão carioca. Eu só fui saber que eu era um carioca viciado no Rio de Janeiro quando eu fui morar fora, quando realmente morei, em 1992, em Los Angeles. Fui para ficar dois anos, fiquei 8 meses! Morria de saudade do Rio de Janeiro. Morria de saudade e foi um momento de reflexão na minha vida que é como se, de repente, eu fosse buscar todas as minhas origens cariocas, tudo que o Rio me deu. Eu descobri, eu descobri o tom, de novo, na minha vida. A bossa nova, todas as minhas origens musicais que tinham sido na bossa nova, na época da faculdade, tudo. E a minha voz, João Gilberto. Fui descobrir João Gilberto, Caetano cantando: “_________________”, é lindo isso. Peguei o disco Domingo, aquele primeiro disco do Caetano com a Gal, aí eu descobri como eu amava aquele disco, foi um dos mais importantes na minha vida. Foi um disco que me manteve sempre com o elo na voz, na informalidade, essa coisa muito leve, na leveza; e foi um disco, aliás, foi bacana porque eu fui tornando a minha música mais leve a partir dos anos 1980, exatamente por causa desse disco, porque ele vivia na minha vitrola. Tanto que eu regravei, acho que regravei umas três canções desse disco por causa daquela coisa linda, daquela sonoridade linda. Eu descobri Dori Caymmi, estava descobrindo os arranjos. O Dori também foi uma importância fundamental, como compositor e como arranjador também. Esse momento foi quando veio tudo de volta, quando veio o disco Domingo, veio Tom Jobim todo de volta, toda aquela coisa. E o Rio de Janeiro estava todo ali, o Rio de Janeiro inteiro ali, e a minha música começou a ficar toda bossanovista de novo, começou a voltar, eu comecei a compor minhas “jobinianas”, aí a minha voz foi lá para baixo. Fiquei cantando tudo “Ãaaah”, como é bom cantar assim, você descansa, a intimidade assim. P/1 – Amadurecimento isso também, né? R – É, claro. Na verdade, foi um amadurecimento, foi voltar para mim e tornar natural. Hoje eu canto com a voz natural e não com a voz, eu não canto (fora?), eu canto na minha tessitura e quando eu quero subir, eu posso. Porque eu tenho um espaço para ir, mas eu canto aqui embaixo, eu adoro cantar aqui embaixo. P/1 – Sem se sacrificar tanto, mais autêntico. O Altay Veloso, ontem, falou para a gente que ele reza a música diariamente. Como é sua relação afetiva, espiritual com o seu trabalho? R – Olha, é uma coisa meio espiritualizada porque é uma coisa inexplicável, em certo sentido, para mim, porque a música vem e eu, muitas vezes, me surpreendo com o que eu faço. Meu processo de compor, é um processo assim: eu componho cantando as canções, como se eu estivesse ao vivo. Essa coisa da fantasia mesmo, eu sou um cara que fantasio as coisas, eu começo a fantasiar, eu entro, não escuto mais nada, as pessoas começam a falar, eu não estou ouvindo, não escuto nada. Até curioso, porque é uma coisa que está acontecendo agora, todo mundo fala: “Ivan, você tem que fazer show de 1 hora.”, e eu só faço show de 1 hora e meia e eu penso que eu fiz de uma hora. Os caras ficam, eu uso aquele monitor de ouvido, o técnico de som chega: “Ivan, 50 minutos.”, eu não escuto. Eu não escuto porque eu já estou. Quando eu faço música, eu vou para um outro nível, eu estou em outra, energético, espiritual, não sei, eu vou para um outro espaço. Eu saio, eu levito, eu estou em outra, estou em alfa, beta, sei lá onde eu estou, mas eu estou em outra. Eu não escuto, os caras cansam. Ontem me botaram uma tabuleta dizendo assim: “Já tem 1 hora”. Botaram uma tabuleta desse tamanho, e eu não sabia o que queria dizer aquilo, eu continuei o show, ainda fiz mais meia hora e aquela tabuleta ficou em cima do teclado ali. Eu olho e não vejo, o cara fala e eu não escuto, eu estou em outra, completamente em outra. E compondo é assim também. Eu entro em uma, eu vou parar não sei para onde, cantando e tocando, e já me vejo cantando em algum lugar e acabou, sumiu! Daqui para cá não sigo mais, aí eu paro e desligo o gravador, está lá gravado, registrei, e vou embora. Vou ______ embaixo, escuto alguma coisa, alguma coisa acontece, logo começo a fazer outra. Muitas vezes eu vou escutar isso, um mês depois, três meses depois, eu pego e vou rever a fita. Eu escuto: “Eu não fiz isso! Isso não pode ser, eu não posso ter feito isso.”, eu tenho que tirar, eu tenho que começar a tirar a música como se estivesse tirando uma música que estava ouvindo pela primeira vez, aprendendo, pegando a música. Eu falo: “Da onde veio isso?”, aí eu fico achando que alguém manda. Entendeu? Baixa a turma lá de cima: “Manda para o Ivan.” [risos]. P/1 – Abençoado! R – Os caras [risos]! P/1 – Você tem horário, é espontâneo, ou você tem uma rotina de trabalho? R – Não, não tenho rotina nenhuma. P/1 – Você não acorda, escova os dentes: “Vou para o escritório!”, não é assim? R – Não, agora sim, me obriguei a fazer isso porque, na verdade, eu sempre tive estúdio em casa, sempre tive instrumento em casa, piano em casa. Então, o que acontece? Eu começo, sento e aí esqueço a família, esqueço tudo, esqueço hora de almoço, acabou! E começa a ter, começa a criar confusão em casa. Agora eu fiz, estou com estúdio fora de casa, vou para lá, tenho horário, saio, almoço e vou. De manhã, não mexo com música, com raras exceções, por exemplo, agora como vou gravar, aí você começa, é o único momento, quando começam as gravações, as gravações têm que começar mais cedo, evidentemente, por causa dos músicos e tudo, é quando a parte da manhã entra na história, mas é sempre fora de casa. Mas quando não estou gravando, só depois do almoço. Almoço, vou para o estúdio trabalhar, componho. P/1 – Entra a madrugada? R – Não, tem hora para acabar. 8 horas, fim! P/1 – Executivo! R – 8 horas, fim. Porque senão, cara, a música tem um problema, a música é muito ciumenta, a música quer você só para ela. A música não gosta de dividir você com ninguém. Essa é a verdade. P/1 – É uma musa! R – E todas as pessoas que são casadas com músicos, você pode fazer uma entrevista, acho que dá uma boa matéria para entrevistar, mulheres de músico, de compositores, para ver o que elas falam. P/1 – É uma divindade da Grécia, ela está ligada a Zeus, é uma das musas. R – É uma cachaça terrível. Ela toma você e você não vê o tempo passar, quando você olha no relógio: “Aquele jantar!”, você nem liga para avisar, entendeu? P/1 – Mas musa vem de museu, o museu, o que é? O espaço onde os homens vão se perder, e lá vivem as musas. A música é isso, é uma loucura, e também fascinante, o canto da sereia! R – É exatamente isso. É o canto da sereia, fascinante. P/1 – Você foi um dos artistas brasileiros que logo fez uma ligação com músicos de fora rápido. Razoavelmente... R – Não tão rápido. Eu não acho não. P/1 – Você não acha? R – Não. P/1 – Sua história com Quincy Jones... R – Mas isso foi, foi em 1980, eu já tinha dez anos, nove anos de carreira, e só tinha realmente, até aquele momento, só tinha uma gravação importante que foi Ella Fitzgerald quando gravou Madalena, em 1971 e lançou 1972. P/1 – Que também é outra loucura você ter essa (canção?) gravada por ela. R – É, mas foi um caso isolado porque ela veio fazer um concerto aqui no Rio de Janeiro quando a música estava estourada. Só tocava Madalena no rádio e ela só ouvia Madalena, aí ela achou legal a música e ficava perguntando, ela já cantarolava a música e tudo. Ela fez o concerto e as pessoas: “Vamos apresentar o compositor.”, me levaram lá, autografou a foto dela e tudo, e falou que ia gravar a música, eu não acreditei. Teve até, depois, uma festa; nesse mesmo dia, eu conheci ela no camarim, brevemente, e depois do concerto nós fomos para a casa do Jorginho Guinle que fez uma festa para que ela me conhecesse bem. Aquela festa e tal, os músicos dela tocaram, toquei Madalena para ela. Ela falou que ia gravar a música: “Gostei, vou gravar.”. Simpática, está no Brasil, primeira vez, sei lá se é primeira vez, era para ser agradável com os brasileiros, não acreditei não, não levei fé. P/1 – E aí? R – Aí, 1972, estava dirigindo meu karmann-ghia na Lagoa – karmann-ghia chamava-se Amor ao Meu País, comprei com o meu dinheiro do Amor ao Meu País – tinha o nome de Amor ao Meu País [risos]. P/1 – Virou uma polêmica danada. R - Estou lá dirigindo o meu karmann-ghia, pá! No rádio, aquele disc jóquei, Big Boy, - falecido Big Boy - : “Diretamente de Nova Iorque, Ella Fitzgerald, Madalena!”, aí botou. Cara, eu parei o carro, comecei a tomar buzinada, fechei a janela, e nego atrás: “Eieieieieie”, falei: “Não é que a moça gravou? Gravou mesmo!”. Mas foi assim, passou, isso foi em 1972, só foi realmente começar a acontecer coisas internacionais a partir de 1980, com o Quincy. Foi quando o Quincy se interessou pelas minhas músicas. Meus discos foram levados para a casa do Quincy pelo Paulinho da Costa, que é um percussionista que, naquela época, estava radicado nos Estados Unidos, ele foi com o Sérgio Mendes, era muito meu amigo. Ele tocava na boate Number One com Dom Salvador e Abolição. P/1 – Hum, maravilhoso! R – Eu morava pertinho nessa época, eu ia a pé, toda noite eu estava lá e a gente ficava tocando. A gente ficou muito amigo, ele virou fã meu. Quando ele (Paulinho) foi com o Sérgio Mendes, ele levou, começou a levar. Toda vez que vinha ao Brasil, comprava meu disco e levava. Depois ele saiu do Sérgio Mendes e começou a gravar com os americanos, entrou para, digamos assim, para o time do Quincy, das pessoas do Quincy. Começou a gravar com Michael Jackson, com todos os produzidos do Quincy. Ele falava de mim, um dia foi na casa do Quincy, levou meus discos e mostrou. O Quincy ficou maluco: “Vamos ligar para ele!”. Ligaram e, uma semana depois, eu estava lá. Ele estava pré-produzindo o George Benson; o George Benson gravou duas músicas, depois a _____, depois ele mesmo, o Quincy, e começou. E o Quincy mesmo fez, fizemos um contrato, ele pegou 12 canções minhas, 12 ou 14, e começou a distribuir, e aí todo mundo, com o aval do Quincy, comecei a ligar para as pessoas: “Ó, tem um brasileiro e tal.”. P/1 – Sarah Vaughan! R – É, Sarah Vaughan, todo mundo começou a gravar, todo mundo. Eu tirava _______, começou, começou. Manhattan Transfer, Take Six, nossa senhora, um monte de gente. P/1 – Você imaginou que você fosse chegar? R – Nunca, nunca. P/1 – Você desejou isso naquele comecinho? R – A gente sonha. P/1 – Sonha? Mas nunca imaginou que fosse ter uma... R – Sonha. Eu fazia com aquele negócio, como eu falava, eu fazia música imaginando, nos anos 1970 os caras cantando: “Aqui o Joe Cocker cantando isso, hein?!”. Eu sonhava, eu vivia no mundo da fantasia, eu virava aquele filmão e eu lá tocando e o cara cantando. Eu tentando imitar o cara para, de repente, tornar mais real o meu sonho, a minha viagem. Me lembro que minha mãe batia na porta 30 minutos, 20 minutos, ela desistia, voltava, batia. Eu não abria, e eu não escutava, juro por Deus. Não escutava! P/1 – Transe mesmo! R – Transe, transe! Quando eu estou nessa, é transe mesmo, saio fora, é impressionante! P/1 – E sua relação com a televisão, Ivan? Você compôs muitas trilhas, temas de novelas e tem o clássico da Malu Mulher. Como é essa relação sua? R – Isso foi legal. Isso tem muito a ver também, quer dizer, eu sempre quis fazer música para cinema. Eu, na verdade, quando eu fui morar em Niterói, ao lado da minha casa tinha um cinema, Cine Icaraí. Eu vinha com aquela coisa da televisão. Naquela época, a televisão ainda não passava os filmes. Eu já tinha uma certa paixão por tela, por cinema, por filme, e tinha dois cinemas, tinha o Cine Icaraí e o Cassino, três cinemas a pé da minha casa. Eu vivia andando no cinema, gastava ou era com música ou ia ver filme. Tinha aquela coisa da música do cinema, eu fui começando a pegar aquela coisa da música do cinema. Quando, eu me lembro que em 1969, eu já estava participando de festivais universitários, apareceu um cineasta querendo música minha. Foi a minha primeira experiência em cinema, foi um filme chamado Vida e Glória do Canalha, em que eu escrevi minhas três primeiras canções, para o filme. Alberto Salvá era o diretor, com Milton Rodrigues – falecido já -, Odete Lara – não me lembro mais quem eram os outros atores – e eu escrevi três canções minhas com o Ronaldo Monteiro, que já era meu parceiro na época, e os arranjos do Mário Castro Neves, que era primo do Oscar. Depois, nunca mais, mas foi uma experiência, me realizei ali. Eu alimentava esse sonho, eu acompanhava, por exemplo, aqueles filmes; nessa época, Peter ______, Herman _____ era um dos meus ídolos, as trilhas que ele fazia para aqueles filmes do Blake Edwards, para as séries do Peter Gunn, Mister Lucky, e eu tinha todos em casa, tudo dele. Já alimentava esse sonho de escrever para, e a minha música é uma música muito visual. E alimentei. Aí vim de lá e nunca mais. Quando apareceu a televisão e minhas músicas começaram a entrar nas novelas, para mim foi uma realização como compositor. Se bem que naquela época houve períodos em que as músicas já entravam prontas na novela, que foi exatamente as primeiras. Madalena fez parte de uma novela, e naquela época você não fazia música, a não ser quando era a abertura da novela, onde tem os letreiros. Aí sim você compunha, mas o resto eram músicas incluídas já prontas. Depois de uma época, não sei quem lá dentro da Globo mudou, resolveram fazer com que as pessoas escrevessem para novela. Me convidavam também para fazer, era uma delícia fazer. P/1 – Você recebia os personagens? R – Recebia, para escrever, e a gente escrevia. Veio Malu Mulher, eles mandaram a sinopse, o Vítor escreveu a letra e eu fiz a música, em cima da letra dele. P/1 – A sua relação de parceria com o Vítor Martins começa aí? R – Começou em 1974. Isso já foi em 1978, quatro anos depois. O Vítor já é outro capítulo, esse também, assim como a minha professora de canto, o Vítor também foi uma pessoa fundamental na minha vida. P/1 – Te salvou? R – Foi um dos meus salva-vidas. Esse me salvou também, mesmo. Esse foi, uma das pessoas mais importantes da minha carreira, continua sendo ele. Ele está vivo, continua sendo porque muitas das coisas que ele me falava na época, ainda continuam valendo até hoje. Certas lições que a gente aprende na convivência de uma pessoa mais experiente, mais centrada do que eu. Eu era sempre sonhador, romântico, sempre fui, e não sabia administrar, não tinha estratégia para a minha, e ele colocava as coisas, arrumava, um cara que arrumava as coisas. Mas terminando a questão do cinema, só vim fazer música para cinema a convite do Carlos Reichenbach. Foi agora em 1997, com Dois Córregos, foi o primeiro filme que eu fiz mesmo, toda a trilha e tudo. Mas a música para novela foi assim, e foi muito importante para mim, talvez eu seja um dos compositores que mais tiveram músicas em novela. Se contar todas as trilhas de novela, vocês vão descobrir muita música minha. Até músicas que eu nem sabia que tinham entrado em novela, entraram. P/1 – Manoel Carlos usa muito. Nas novelas do Manoel Carlos têm muito você ali também, né? R – Sim. P/1 – Ele tem toda a coisa da Helena, de criar essa... R – Eu conheci o Manoel Carlos em 1972, começo de 1970. Ele ainda era casado com a Cidinha Campos e era muito amigo do Juca Chaves, com quem eu tive uma relação muito bacana naquela época. O Juca morava também na Niemeyer, pertinho da casa da Elis. Eu frequentava a casa da Elis e do Juca, e eu conheci o Manoel Carlos daquela época. Era o pessoal de São Paulo que tinha vindo para o Rio. O Manoel Carlos foi um dos diretores que usou muito minhas músicas, mas também tinha o Boni, que gostava muito das minhas músicas. O Boni foi um cara muito bacana nesse sentido, porque ele gostava de ter música boa na novela, exigia que os diretores e os produtores colocassem música de qualidade nas novelas, e ele pediu muito canções minhas. Eu soube que ele pediu muitas canções, até um dia que ele pediu para eu fazer uma música em cima de um poema da Maysa. Ele chegou para o diretor, era o – um dos grandes diretores de televisão, agora me deu um branco – que veio a mim, eu musiquei um poema da Maysa para uma novela, e fiquei muito feliz de ter feito isso. Essas coisas, você fazer música, isso tudo tinha muito a ver com cinema, só vim fazer cinema realmente em 1996, 1997, quando o Carlos Reichenbach me convidou a primeira vez para fazer Dois Córregos. P/1 – E foi do jeito que você imaginava? R – Foi maravilhoso! Ele veio com um roteiro lindo, poético, e aí eu arrasei. Eu viajei mesmo. Agora já fiz o segundo filme dele também, que é Bens Confiscados, é uma coisa que eu realmente... Quando eu fui morar em 1992, em Los Angeles, eu fui para tentar fazer música para cinema. O David _____ é muito meu amigo, e o David _____ já fazia – também um dos meus ídolos – música para cinema, e ele me colocou com o empresário dele, me indicou para o empresário dele e fui. Teve uma reunião com os empresários do David _____, que ao mesmo tempo eram do John Willians, só tinha fera ali. Os caras chegaram e falaram: “Olha, meu filho, você, tudo bem.”, ouviram meus discos, eram todos fãs meus como compositor, “Mas música para cinema, você vai precisar de pelo menos uns dois anos trabalhando com publicidade.”, falei: “Eu não vou começar tudo de novo não.”, me deu uma ducha de água fria, eu falei assim: “Entrar nesse clube vai me custar isso tudo? Eu vou voltar para o Brasil!”. Já estava doendo a saudade, foi mais um empurrãozinho, mas o Carlão veio e, de repente, eu realizei meu sonho. Eu lembro quando eu fui assistir. Primeira sessão do Dois Córregos: eu chorava porque foram 30 anos com aquilo assim, ó! Eu chorei os 30 anos, pelos 30 anos de sonhos que eu tive. Eu alimentava fazer música para cinema. Passei o filme todo chorando. Ao meu lado estava o Geraldo ______, grande músico gaúcho, muito meu amigo, grande músico, grande compositor gaúcho. Ele estava ao meu lado, ele falava: “Ivan, você vai ter um troço! Pára de chorar, cara, você está me deixando nervoso!”. Eu vi em Gramado, em uma sessão especial. Eu nunca tinha visto meu filme, um filme com a minha música, abertura com aquela orquestra, Nelson Ayres escreveu os arranjos. P/1 – Música de cinema tem um impacto. R – Nossa! E eu tocando piano com orquestra, meu Deus do céu. Incrível! P/1 – Que bacana poder celebrar as vitórias. R – Essas coisas são maravilhosas! P/1 – Bom, cinema, a gente estava nessa viagem de você poder ter vivido coisas maravilhosas em uma carreira. R – Vivi coisas maravilhosas. P/1 – Intérpretes, concretizar a ideia do cinema. R – Os intérpretes, assim, uma coisa, porque na verdade o seguinte, o que eu gosto mesmo de fazer é compor, quer dizer, eu gosto de tocar, comecei tocando como pianista, aos 18 anos eu me sentei realmente ao piano para começar do zero. Eu via o Tamba Trio na televisão pela primeira vez em 1963, em um programa da Bibi Ferreira. Eu falava: “É isso que eu quero, quero fazer isso que esse cara está fazendo!”. Aí comprei o disco Tamba Trio, botei na vitrola. O piano lá em casa é um piano americano que minha família trouxe dos EUA, é um piano Acrosonic, ele era um semi-tom mais baixo e aí eu botava e os tons só dava notas pretas, só dava nota preta ________ tocava, e eu comecei a aprender tomar nas pretas. Então, tirava música e dava nota preta à beça. Eu desenvolvi uma técnica, não tinha professor, eu fui desenvolver tudo errado, esse dedo entra aqui, ali, uma técnica para tocar para usar as pretas; e os tons todos. A primeira música que eu tirei foi Festa (do Jorge?) do Carlinhos Lira: “Pobre _____ tarararan”, inclusive com a própria introdução do _____: “Pararanan taran pararan _________________”, e a mão esquerda, eu tentando fazer a mão esquerda do ______ (Lessa?), como era difícil, cara! Eu botava aquilo lá e tentando tirar... Bom, eu comecei a comprar uns trios na época, Bossa Três, Donato, aquela mão esquerda do Donato – viciei em Donato também – Sambalanço, Zimbo Trio... Zimbo Trio era muito mais difícil, era o mais difícil de todos porque tinha muito, como ele chama? Cachorro, muito: “Parará tum tim _____________.”, então ali, para fazer aquilo, meu Deus do céu, a gente apanhava. Em dois anos eu já estava tocando, já trios na Tijuca, tinha uma febre de trios na Tijuca, a gente ia tocar nos colégios e tal. Comecei na verdade assim, com 18 anos; aos 20 já estava com trios tocando, só nas pretas! Tudo nas pretas. Os baixistas, os meninos iam tocar baixo, falavam: “Pô bicho, mas que tom!”. Eles desafinavam também o baixo para poder tocar nas brancas, eles tinham que fazer, eles faziam o cálculo para poder tocar, senão ninguém tocava comigo não; e os outros pianistas chegavam perto: “Pô, aquele cara ali, fica de olho. Tocando nas pretas sem tocar nas brancas, ele vai acabar com o baile!”. Eu não conseguia tocar em dó maior, em fá maior, eu não conseguia; tinha uma dificuldade nas brancas porque eu criei o vício de tocar nas pretas, e as pretas é aquele três, duas, três, duas, era mais fácil de decorar inclusive, visualmente era mais fácil. Me dava bem, aí me lembro que uma vez fui fazer um programa na televisão, um dos primeiros programas de televisão que eu fui fazer, Trio, e o meu contra-baixista era o Roberto Talma. P/1 – Poxa, Roberto Talma? R – Hoje diretor. É, ele tocava contrabaixo e cantava, ele que cantava, eu não cantava, só tocava. Ele tocava e cantava, a gente tocava bossa nova, jazz, e o Zé Carlos, que era um baterista, era genial. E a gente foi fazer os trios. Então as cantoras, eu me lembro da Clara Nunes, era um programa chamado Periscópio, na TV Rio, aí vinha, a Clara Nunes cantava bolero nessa época – não era sambista ainda – e ela veio e me deu a música pra tirar, eu me lembro que ela falou: “Sol maior”, o tom, eu falei: “Qual o tom?” “Sol maior.” “O que eu faço de música bacana!”, na maior cara de pau, né? Aí ela: “Isso é sol maior?” “É!”. Eu não sabia tocar em sol maior [risos]. R – Fá sustenido, sabia tudo! Ela começou a cantar e eu fui, aí ela falava: “Está meio baixo isso daí não?”, eu falei: “Não, não, deve ser o piano que às vezes está desafinado.” P/1 – E ela foi? R – Na maior cara de pau eu tocando em fá sustenido. P/1 – E aí ela seguiu. R – Ela foi! Acompanhei ela, o Silvio Aleixo, acho que Silvio César também uma vez, acompanhei também, é a mesma coisa, igual o tom, o cara falava: “Dó.”, eu, si ou dó sustenido, na maior cara de pau. P/1 – Bem cara de pau mesmo, né? Ivan, e os parceiros? Como é trabalhar em parceria? É sempre difícil a gente alinhar as parcerias, né? Você tem grandes! R – Olha, eu tenho muitos parceiros, mas o mais importante realmente foi o Vítor, continua sendo o Vítor. Não que os outros parceiros não sejam importantes, tenho parceiros maravilhosos: Aldir Blanc, Paulinho César Pinheiro, Ronaldo Monteiro foi meu primeiro grande parceiro, fizemos Madalena, ______, um dos primeiros grandes sucessos, e refizemos a parceria recentemente. Fizemos mais músicas juntos e tudo, e Celso Viáfora, os compositores novos, o Abel Silva e aí fui fazendo. Agora, Chico Buarque, foi um sonho realizado. Caetano, também foi um sonho realizado. Admirações antigas, achava que nunca na minha vida, um dia, ia ter uma letra do Caetano, uma letra do Chico. Sou grande admirador deles, continuo sendo. Sou muito admirador dos meus colegas, dos meus parceiros. Eu gosto porque eu me ligo muito na literatura, mas eu aprendi muito isso com Elis, a Elis me ensinou muita coisa, a Elis foi uma cantora espetacular nisso, ela foi quem me chamou muito à atenção para a questão literária. Eu, na época, não dava muita bola para letra. Achava as letras bacanas, casavam-se com a música, tudo bem, às vezes não queria saber muito bem o que estava dizendo, se estava bem-dito ou não, mas a Elis foi me levando para o... P/1 – Para o requinte? R – Para o requinte, para prestar atenção nas coisas que você diz e tal, e aí o convívio muito com o Aldir, principalmente com o Aldir e com o Vítor. Quando eu comecei minha parceria com o Vítor, essa coisa já estava começando a ficar séria em mim, foi a partir de 1974. Eu conheci o Vitor em 1973, mas começamos a parceria em 1974, com Abre-Alas, a primeira música que a gente fez junto, estourou logo aí. Foi por isso que a gente deu continuidade, mas foi uma época que a Elis já tinha recusado algumas músicas minhas por causa da letra, e eu falava: “Pô, a Elis não vai gravar minha música porque ela não gostou da letra, caramba!”. Elis fazia isso com você, a Elis era muito exigente e aí eu comecei mais a prestar atenção e, também, aquela questão da virada política mesmo, de você estar... P/1 – Suas músicas são bem temáticas nesse período, né? R – Mas elas começaram a ficar mais políticas a partir de 1973, por aí, quando a gente sentiu mesmo a barra pesar com o Médici, e aí elas realmente assumiram o aspecto político. Até por uma questão pessoal mesmo, eu tive problemas, tive que fazer terapia, me revoltei contra a família, contra o governo, contra TV Globo e editoras, gravadoras. Eu tive um ataque de crise no final de 1972 que eu rompi com minha gravadora, saí da Phillips, não queria mais saber, não queria mais saber de televisão. P/1 – Não estava segurando a onda? R – É, aconteceram coisas muito desagradáveis naquela época, eu não sabia dizer não direito para as pessoas, as pessoas me usavam. Eu vivia do meu sonho, eu tentava colocar, materializar sonhos só, sem pensar em, de repente, dar um sentido, digamos assim, filosófico ou político, eu não tinha isso não. Ainda naquela época, eu ainda era mais músico do que intérprete. As letras ainda... eu achava legal falar de amor, eu era uma pessoa muito romântica e a questão política para mim, apesar de ela incomodar, era uma coisa que eu não lidava muito bem, eu me sentia muito inseguro nisso. Foi uma época, exatamente em 1972, aconteceu um negócio bastante desagradável quando o Flávio Cavalcanti me expulsou do programa dele, uma grande safadeza da direção, ele e os diretores resolveram me usar para conseguir audiência, ia ser sensacional expulsar alguém no meio do programa. Eles combinaram uma coisa, me foi passado que eu ia lançar meu disco novo, tinha Me Deixa em Paz e tudo, e aí quando eu cheguei lá era outra coisa, o quadro chamava-se Pout Pourri do Sucesso. Eu estava com uma banda nova, não podia fazer nada e só tinha aquelas três músicas ensaiadas: Madalena, que eu sabia que tinha que cantar porque era sucesso, a música nova, que era Me Deixa em Paz e outra música também nova do disco novo. Duas músicas do disco novo e Madalena. O cara abriu o programa e chamava Pout Pourri do Sucesso, entre mim e um outro cantor, para saber quem é que tem mais sucessos. Era covardia, porque pegaram um cara antigo que já tinha muito mais estrada do que eu. Já fizeram para proteger, porque contavam que um dos diretores era muito unido ao meu concorrente no quadro, aí eu falei que eu não fazia, que eu ia embora, que eu não ia fazer porque tinham me passado outra coisa, a gravadora tinha me passado outra coisa, o meu empresário na época tinha passado outra coisa e eu cheguei na hora e era isso! Não tinha como ensaiar na hora, não tinha tempo para ensaiar inclusive. Na época, o Simonal estava no auge e o tempo dos ensaios era para o Simonal e eu era um cara que estava começando – não estava mais porque eu já tinha Madalena, Amor ao Meu País –, mas estava sendo tratado como: “Não, você tem cinco minutos para ensaiar.” Eu: “Como é que eu vou ensaiar meus sucessos? Vou ter que ensaiar do começo, eu não trouxe ensaiado de casa. Se vocês tivessem me dito que era isso, talvez eu até tivesse topado fazer o programa e tinha ensaiado.”. Então, arrumaram essa para cima de mim. P/1 – Constrangedor, né? R – Aí eu falei que não fazia, sabe o que eles fizeram? Mandaram alguém dizer: “Não, tudo bem, vai ser como você quer.”. Só que me botaram em um camarim sem televisão, eu não escutava nada; botaram a banda no palco, Flávio Cavalcanti? chegou e falou: “Agora, no ar, Pout Pourri de Sucessos!” E eu lá, sem saber o que era. Me trouxeram, sem eu saber o que era, aí: “Ivan Lins!”, e eu estava crente que estava no meu quadro, feliz da vida, a sorte foi que eu toquei Madalena primeiro. Quando eu entrei na segunda, ele parou a música no meio: “Pode parar, pode parar. Você está pensando que meu programa é o quê, você vem aqui para usar meu programa? Isso aqui é Pout Pourri de Sucessos!”. Quando ele falou Pout Pourri de Sucessos eu falei: “Caramba!”. E o gozado porque quando eu entrei a banda estava desesperada, nego fazendo careta para mim e eu, no meu mundo, nem prestei atenção, nem vi. P/1 – Flávio Cavalcanti sempre foi muito polêmico. R – É, ele foi um mau caráter, né? Falecido. Mas essa não passou. Aí me botou para fora do programa assim, sem treinar nem nada, na hora; e com os diretores, inclusive tem um vivo ainda aí, que eu não perdôo nenhum deles. Os outros já morreram, graças a Deus, mas esse também não perdôo porque eu acho que isso foi de um mau caratismo, de usar isso para conseguir audiência, fazer uma coisa dessa. Eu, bobão, coitado, entrei de gaiato ali, fui usado, o cara me expulsou do programa, “Pode sair.”, assim, e chamou o outro. O outro cantou e ele: “Palmas, palmas!”. Quer dizer, assim, cara, o que não fazem por trás das câmeras. P/1 – E agora parece que a tendência está pior, né? R – Aí foi a crise, começou a minha crise, a partir dali eu comecei a me tornar um animal, cara, comecei a perceber de onde a maldade vinha, de onde vêm as coisas, como sistema. Eu fui buscar respostas que eu nunca tinha parado para ir buscar. Fui buscar e tudo ia parar em Brasília, você vai entrando dentro das questões: pum! Brasília! me aprofundando, me aprofundando: pum! Brasília! Comecei a comprar os jornais alternativos, comecei a ler, comecei a pegar livros de filosofia, comecei a estudar filosofia e aí comecei a entrar em crise comigo e tive que ir para um terapeuta, porque senão, minha cabeça foi para o chão e foi aí que a política começou a entrar na minha música. Começou a entrar feio, entrou pesado, porque a primeira reação eu fiquei amargo, muito amargo, então as primeiras letras eu mesmo escrevia até, eram barra pesadíssima, vinha batendo em todo mundo, era um mau humor. Claro, não acontecia nada, censura não passava e não ia, não começou a ir. Os parceiros tinham mais jogo de cintura do que eu, começavam a costurar as coisas, o Ronaldo, a princípio, e depois o Vítor, e aí sim, minha música começou a deslanchar. O Vítor foi assim, um grande amigo nessa época, me ajudou muito, mas o terapeuta também [risos]. P/1 – Ajuda, né? [risos] R – O terapeuta foi espetacular comigo. Poxa vida! um cara espetacular! P/1 – Mas são crises que duram anos, você fica anos. R – Assim, a vida mudou, eu fico com uma coisa, veio a terapia e depois veio o Vítor, essas duas coisas ajudaram muito e viraram a minha vida. P/1 – Quando vieram os filhos na sua vida? R – Começaram em 1972 com o Cláudio, com a minha primeira mulher, a Lucinha. Veio o Cláudio e depois, em 1975, veio o João. São figuras espetaculares. E a Luciana que é de criação, junto com o Cláudio, também em 1972, ela veio em maio e o Cláudio veio em novembro. P/1 – E como é sua relação com seus filhos? R – Com eles é maravilhosa, são pessoas que mantém a linha ética da família, vindo da educação dos meus pais, passando por eles. Depois a segunda mulher, Valéria, já tinha a Carla e a Diana, que também obedecem a mesma linhagem de ética e tudo. Todos tricolores. P/1 – E a música, quer dizer, o Cláudio a gente ainda acompanha, está ligado à música, e os outros? R – Sim, abraçou a música na prática. Se bem que ele divide com o ator, pelo lado da mãe também, que é atriz, então ele tanto faz teatro, como música. Quando ele faz um musical, por exemplo, como ele fez a Ópera do Malandro, ele estava no ambiente dele, estava com as duas coisas. P/1 – Ótimo, por sinal! R – Ele fez muito bem. O João, por exemplo, já é abraçado à música, mas não gosta de aparecer, ele gosta de produzir, ele é produtor cultural, um excelente produtor cultural e muito antenado à realidade brasileira e apaixonado pela música regional brasileira, pelas tradições brasileiras, o folclore, estuda até hoje, realmente aficionado pelas raízes brasileiras. E os outros só gostam de ouvir. A Luciana é advogada. A Carla fez turismo e veterinária, hoje é casada, é mãe dos meus dois netos. E a Diana é a mais nova, está na Austrália estudando inglês e pedagogia, ela quer ser professora. P/1 – Você é muito jovem, jovial, o que você faz para ficar com esse espírito jovem? R – Acho que vem muito do esporte e da convivência com os mais jovens. Eu gosto de conviver com os jovens, eu não fecho. Na minha cabeça eu sou uma pessoa muito aberta, eu não discrimino música, acho que tudo que vem de novo me interessa. Eu escuto tudo para saber, pelo menos para saber o que está acontecendo. Evidentemente que eu não consigo hoje guardar as bandas de rock, a música que os jovens estão fazendo, eu não consigo guardar os nomes, saber quem é um especificamente, mas eu sei o que está acontecendo. E muita coisa me interessa porque tem muita coisa interessante que aparece porque, na verdade, a vida é essa, é você partir de uma célula e desenvolver essa célula para outra coisa, então quer dizer, mutações e muita miscigenação, diferentes tipos de arte e música que se fazem, através dos tempos. E os jovens têm essa, eu fui jovem também, misturava tudo, era uma salada de frutas, eles também misturam as coisas deles já com outras informações, com as coisas que eles escutaram dos pais, coisas mais antigas, já vêm com as novas e já saem umas terceiras coisas e aí as coisas vão se multiplicando, mas é tudo arte e tudo é criatividade, tudo que é ligado à criatividade me interessa. Eu tenho obsessão por criatividade, estou sempre pensando, até sou meio cientista louco, invento as coisas e busco soluções para as coisas, tenho isso na cabeça, por isso que eu gostava muito de ciências. P/1 – E essas viagens recentes, você foi para Buenos Aires, estava em Angola, você esteve também em Cuba, recentemente, em uma apresentação? R – Estive, estive em Cuba já. P/1 – Como é esse público de fora, como é sua relação com o público estrangeiro? R – Na verdade, é maravilhosa. É sempre assim, você levar sua arte, cantar a música do seu país para outros povos. Ensinar um pouco de Brasil, da coisa boa do Brasil, o que o Brasil nos ensina de melhor, porque o Brasil realmente é o país da música, talvez produza a música mais rica do mundo, miscigenação de raças e tudo, é um país basicamente ecumênico, por índole. P/1 – Você está sempre topando parcerias, entrando no disco de um monte de gente. R – Eu gosto. P/1 – Está sempre disponível, é a sensação que a gente tem. R – Eu gosto das misturas e é bacana isso, eu sou muito fã dos meus colegas, eu adoro a música do meu país, adoro o trabalho dos meus colegas, desde os mais velhos aos mais novos. Eu estou sempre antenado procurando achar onde é que está a beleza de cada um, para o meu gosto, evidentemente, mas eu estou sempre procurando a beleza de cada um. Porque o lado mais bonito das pessoas está exatamente nisso, quer dizer, não adianta você ir procurar o lado pior das pessoas, como tem muita gente que tem uma certa atração pelas coisas ruins; eu já quero saber onde é que está a coisa boa das pessoas, me atrai isso, bacana, e você poder admirar, bacana você gostar, eu adoro gostar dos outros. P/1 – Como você cruzou a Unimed, Ivan? R – Olha, eu acho que veio por coincidências, certas coincidências. Eu fui cliente da Unimed, na verdade sou até hoje cliente da Unimed, direta e indiretamente. E por coincidências de encontros, pessoas e mentalidades. Você encontrar, por exemplo, um homem como eu encontrei o Celso, que é tricolor, e que foi exatamente, o nosso elo foi primeiro o time, e de repente dei de cara com um cara que é um grande tricolor. Eu fui saber que aquele cara: “Você lembra aquele cara? O cara é o presidente da Unimed.” Eu falei: “Não brinca! Pô, ele não estava lá aaaahhhh?” Maluco, apaixonado, falando de música, porque as pessoas às vezes elas sabem quem eu sou, mas elas sabem que eu não sei... P/1 – Quem elas são... R – E elas também não chegam e não dizem! Você esbarra com as pessoas e aí, assim, através de contatos de pessoas. A Unimed mostrou um interesse muito grande pelo meu trabalho. Talvez porque eu trabalho de uma certa forma, eu acho que eu sou uma pessoa muito transparente, eu passo isso através da minha música, a pessoa que gosta da minha música gosta de mim como pessoa. A minha música reflete exatamente a pessoa que eu sou, eu acho que, de uma certa forma, como eu celebro a vida e como a Unimed também celebra a vida, até com a campanha que está fazendo agora, inclusive ela fala que o melhor seguro de saúde é viver, isso é uma celebração da vida. E a arte, na verdade, no exercer do viver, ela talvez seja uma das coisas melhores que a gente pode ter na nossa vida. E a Unimed é coerente, no momento que ela celebra a vida ela também apóia talvez uma das coisas que mais dão alegria à vida, dão prazer na vida que é a arte, a música em particular. O encontro, na verdade, foi uma confluência de filosofias comuns, na mesma direção, uma proposta deles de celebrar a vida, apoiando exatamente um dos melhores prazeres da vida que é a arte, uma coisa que a Unimed já faz há muito tempo. E essa forma como é lidado com isso. Quem conhece o Celso, a paixão que ele tem pela vida é tão forte e, talvez, até pelo fato da gente quando se conheceu assim, foi um eeeehhhh, aquelas coisas de torcedor, é na hora que a gente está exteriorizando e, na verdade, dando até uma limpada porque muitas vezes você torce é para se aliviar. Então, muitas vezes quando dizem assim: “o nosso time do coração”, muitas vezes pode prejudicar o nosso coração ou como pode, também, salvar o nosso coração. Nesses momentos que o coração está em jogo, a saúde está em jogo também, e quando você encontra pessoas que estão completamente olhando a vida de uma forma realista, mas de uma forma totalmente positiva, eu acho que o encontro não tem como dar errado, é impossível, as coisas vão se somar. O trabalho que a Unimed faz em apoio à arte é uma coisa maravilhosa, eles fazem um trabalho espetacular nesse sentido, e soma-se a isso esses pequenos encontros, essas energias, essas coincidências, essas confluenciazinhas de sentido, de olhar a vida, como enxergar a vida e até gostar de música e torcer para o mesmo time, uma coisa assim. Se bem que isso é uma coisa mais particularizada pelo fato de que o Celso é tricolor e eu também sou tricolor e, dentro da Unimed, evidentemente tem torcedores dos clubes de todo o Brasil e do mundo, mas tem um monte de tricolores, entendeu? [risos] P/1 – Tem que ter, né? [risos] R – Tem que ter! P/1 – E esse projeto que você está produzindo agora, o que você está fazendo? Estúdio, quais são os planos? R – Esse é um projeto quase como celebração dos meus 35 anos de carreira profissional no ano que vem e 60 anos esse ano, que eu fiz. Completei 60 anos e falei que eu queria agora tomar conta da minha vida e começar a fazer as coisas que eu, até por uma questão de ética profissional, obedecendo a contratos com gravadoras, essas coisas todas, você se permite, digamos assim, submeter a contratos e seguir. P/1 – Você criou um selo, né? R – Eu já tive um selo. P/1 – Velas? R – É, Velas, mas eu não consigo ser patrão dos meus colegas, é muito difícil. Eu sou apaixonado pelos meus colegas, pelo que eles produzem, são eles que fazem essa música maravilhosa desse país, aí você está do outro lado da mesa, entra um conflito que eu não suporto, para mim não dá, fica meio difícil, eu não consigo. E depois eu não sei lidar com dinheiro, eu sou o pior cara com dinheiro no mundo, eu não gosto de dinheiro, sei que preciso dele, mas eu tenho uma relação difícil com ele, ser empresário para mim é uma coisa complicada. Eu acho que o que eu ganho é para as coisas que estão mais próximas de mim, serve para sustentar minha família e meu dinheiro estava indo embora para uma coisa que eu não sei fazer. Eu achava que sabia, mas não sabia. No começo eu achei legal, mas depois eu vi que não sabia. Pedi desculpas ao Vítor, porque essa foi a primeira vez que a gente bateu de frente, não perdemos a amizade, de forma nenhuma, adoro o Vitor, continuo adorando ele, mas ele tem mais esse espírito para cuidar de uma empresa assim, eu não tenho, eu não consigo, eu disse assim: “Vou deixar, eu só sei fazer música, meu negócio é fazer música e cuidar da minha família, então vou ficar só com isso.”, e aí foi bom ,porque ficou tudo bem e aí, eu me perdi onde eu estava, na questão do... P/1 – Do projeto. R – Então hoje eu resolvi ser dono de mim, eu não estou abrindo uma empresa para mim, eu apenas vou gravar as coisas que eu quero gravar, com quem eu quero gravar e fazer os encontros que eu adiei durante esses últimos 20, 30 anos. Eu quero estar com as pessoas que eu gosto, quero fazer a música que eu gosto, todas as formas de música que eu gosto, quero fazer desde do rock’n roll ao fado, fazer boleros, tangos, sambas e tudo porque eu sou eclético. Sou brasileiro, brasileiro é eclético, nós somos um povo miscigenado! Você vai para qualquer lugar do Brasil, você vê uma coisa nova. No Nordeste, a quantidade de manifestações folclóricas é incrível. Esse país e a gente não conhece nada, e olha que eu já conheço muito, eu não conheço nem 20% do que se faz de música nesse país e o que existe realmente por aí. Eu quero dar vazão a isso, eu tenho sonhos de poder viajar mais pelo Brasil, de um dia poder gravar in loco todas essas manifestações. E um dia eu ainda vou fazer isso, quero fazer uma porção de coisas, quero fazer fados, quero fazer um disco de fados, quero fazer um de jazz mesmo, bem string jazz mesmo, quero fazer instrumental, fazer música total. P/1 – O fado é uma homenagem à mãe portuguesa? R – Não à mãe, talvez ao lado materno sim. De certa forma porque tem essa influência, já se escutavam fados quando eu era garoto, na casa do meu avô, principalmente. E quando os primeiros fados começaram a fazer sucesso no Brasil, Francisco José: “Teus olhos castanhos...”, o cara vendeu isso, vendeu “para burro” no Brasil nos anos 1960, começo dos anos 1960, nossa, como vendia, vendia que nem água aquilo. E eu gostava, adorava aquilo, hoje eu faço fados, tenho fados gravados em Portugal pelo ______, Paulo de Carvalho, grandes fadistas e tal, e adoro fazer fados. Tenho não sei quantos fados, é que eu quero fazer meu disco, também, com fados brasileiros que não são os fados portugueses. Evidentemente que eu não posso reproduzir: “Faço fado tão bem quanto os portugueses”, não. Meu fado é diferente, meu fado é brasileiro, então, é quase um brasifado, eu não sei como é que se pode chamar, a gente pode até inventar, e no fundo são canções, na verdade, eu sou um compositor de canções. Eu quero fazer isso tudo, chegou a hora, 60 anos, agora sou eu, agora vou fazer o que eu quero. Esse disco, por exemplo, a gente está gravando 28 músicas, canções novas, com exceção de uma, talvez, que eu estou regravando que é o Roda Baiana, mas todas as outras são coisas que estão já guardadas ali e coisas que eu venho fazendo, sambas, tudo, e convidar as pessoas que eu gosto, pessoas com quem eu ouvi ou tive uma relação legal, musical, estou convidando. Não dá para convidar tudo, porque é independente, mas vou filmar tudo e vou começar agora a colocar, a fazer música livremente. P/1 – Liberdade. R – Liberdade, eu já era livre, de uma certa forma, mas ainda tinha essa questão ética contratual que você precisa para distribuição, você entra para uma gravadora, entra para outra. Agora não, agora eu faço para mim, com o meu dinheiro, com os meus recursos e licencio, essa é a ideia. E fazer assim, eu vou para Portugal, vou para a Romênia fazer música eslava, pronto, vou lá para Tchecoslováquia! Não sei, quero fazer de tudo, música é uma coisa fascinante. Quero fazer rock também, eu tenho uns rockzinhos, ninguém sabe meu lado roqueiro, faço minhas bossas novas, mas tenho meu lado roqueiro. P/1 – Mas jogam pesado. Bom, Ivan, a gente precisa encerrar até porque você tem que voltar. Eu queria, antes da gente finalizar, saber o que você achou, se você gostou de conversar aqui com a gente? R – Eu adorei. P/1 – E saber o que você acha desse movimento da Unimed de estar ouvindo essas histórias, da preocupação com a memória, do outro, do grupo? R – A memória é importante. P/1 – Para o bem ou para o mal. R – Ou para o mal, mas é muito importante. Eu acho que a Unimed está cumprindo sua função fazendo isso, a função de preservar a memória, de apoiar a arte, a música desse país, eu acho que a gente precisa tanto disso, você não imagina como, eu acho que o Brasil merece isso. Nós, como brasileiros, precisamos disso e merecemos isso, que nos dêem apoio, que nos sustentem, porque isso é o que a gente sabe fazer de melhor, essa é uma vocação natural do povo brasileiro, criar, já existe o jeitinho brasileiro, o que é o jeitinho brasileiro? As expressões “dar nó em pingo d’água”, essas coisas, isso nada mais é do que a grande criatividade, essa grande vocação que nós temos para a arte, para a criatividade. Eu acho que a Unimed, simplesmente, está sendo mais brasileira do que nunca, ela está fazendo justiça ao país onde ela nasceu com os cidadãos, com as pessoas que realmente fazem a arte, e isso é um presente para todas as gerações que vêm por aí, porque são essas que vão fazer o país que a gente está querendo, que é o Brasil que a gente realmente merece. Eu acho que já não vou ser eu, mas será exatamente, para quem a Unimed está fazendo todo esse trabalho que vão consumir isso, vão usar isso e vão entender esse país muito melhor do que muita gente que já passou. P/1 – Você podia dar uma palhinha para gente só para, com sua voz calma. R – Como assim voz calma? P/1 – Você falou tanto do seu sacrifício para pôr sua voz no lugar. R – Ah tá, cantar uma coisinha. P/1 – Uma coisinha, só para a gente fechar. Sei lá, pode ser do seu disco que você está produzindo e gravando. R – Deixa eu falar uma coisa aqui, eu gosto de cantar: (entrevistado canta) “Desesperar jamais/ aprendemos muito nesses anos/ afinal de contas não tem cabimento/ entregar o jogo no primeiro tempo/ nada de correr da raia/ nada de morrer na praia/ nada, nada, nada de esquecer...”, memória, nada de esquecer. P/1 – _____ para o Planalto! R – [risos] [fim da fita] --- FIM DA ENTREVISTA ---
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