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Leomira: uma história de realizações e de fé

História de: Leomira de Camargo Nunes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/05/2019

Sinopse

Dona Leomira, sétima de nove irmãos, nasceu - e mora até hoje - no interior de São Paulo, na cidade de Itapetininga. Por toda a vida, procurou seguir a luz divina e viver na fé. Enfrentou obstáculos para chegar a se formar professora - em seu tempo, a mulher estudante não era bem aceita. Mas sempre procurou ir adiante, iluminada, apoiada, guiada por uma força superior; sua vida foi um misto de fé e gratidão. Passou esse legado de acreditar e agradecer para os filhos. Tem filha com os enfermos, tem filho na Liturgia, tem filho na Eucaristia. Mas, enfim, sempre foi de ir em frente, emendava uma faculdade com a outra, um curso com outro. Tem histórias na Educação que se confundem com solidariedade e assistência social. Mas a história mais bonita foi o casamento, feliz e duradouro. Agora, tem um sonho: beijar a mão e abraçar o Papa.

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História completa

Nasci em Guareí, interior de São Paulo, uma cidadezinha encostada  em Itapetininga - 37 quilômetros apenas - e é em Itapetininga que moro hoje. Aliás, há mais de cinquenta anos, mesma rua, mesma casa. Sou de 1942, dia 7 de novembro. E, como curiosidade, aprendi no livro que a própria Anne Frank escreveu, que, no instante em que eu nascia, ela estava com os pais e a irmã no portão da casa, preparando o seu diário.

 

Eu sou uma pessoa muito independente; minha mãe falava que quando eu nasci, foi só cortar o umbigo e eu saí correndo.


 

Eu continuo independente e sempre fui muito “de seguir a luz divina, o propósito de Deus”. Por outro lado, cresci entre oito irmãos - fui a sétima filha dos nove que meus pais tiveram. Estudei - e morei - tanto na cidade quanto no sítio. O sítio era roça, era plantação - feijão, milho, arroz, melancia - meus irmãos plantavam. Até hoje me questiono porque tive que estudar na escola da cidade e na escola do sítio - um pouco lá, um pouco cá. Eu ficava com saudade de casa, da minha mãe, e meus irmãos não podiam me levar, porque eles trabalhavam, não é? Eu sempre fui boa aluna e, por exemplo, a minha segunda professora reclamava muito deles me retirarem da cidade, da escola dela. Além disso, era perigoso - teve um episódio lá de uma carona que eu peguei com a professora, na charrete, e eu caí lá de cima, estatelada no chão.

 

A partir da quinta série, eu fui estudar em Itapetininga; tinha 14 anos, fui fazer o ginásio, denominação da época. Estudei na Escola Peixoto Gomide. Formei-me na oitava série, depois fui fazer o Magistério, lá mesmo. E, por coincidência, foi lá também que eu ensinei durante 20 anos. No Ginásio, ia e vinha todo santo dia. Aí uma prima ofereceu-me para cuidar dos filhos dela e morar na casa, em Itapetininga. Aceitei, mas não deu muito certo. Pedi ajuda ao meu pai, mas, naquela época - há 60 anos - o estudante, principalmente a menina que estudava, não era vista com bons olhos. Diante da negativa do meu pai, fui trancar a matrícula: a diretora não deixou, indicou-me uma pessoa amiga que me acolheu até o fim do Ginásio. Porque era muito sofrido viajar todo dia da minha cidade até Itapetininga; o Ginásio era à tarde e duas vezes por semana tinha Educação Física. Resultado: ou eu tinha um convite para almoço ou tinha que me contentar com o lanchinho no banco da praça. Antes disso, quando eu precisei fazer o teste para ingresso no Ginásio - o chamado Admissão que havia - eu já esbarrei com a negativa da minha mãe e a oposição do meu irmão, que dizia:

 

“Não, não vai, porque mulher estudando não é bom, não é aceita”


 

Mas, na minha vida, eu sempre fui seguindo o que foi aparecendo - e eu sempre agradecendo - e, na verdade, sempre seguiu sem eu pedir nada. Nessa época, eu me lembro, recebi o apoio de uma comadre da minha mãe, que me mandou escondido a Itapetininga para fazer a matrícula. Mas não era tão fácil assim. Quando chegou lá na frente, na sétima série, no segundo semestre, minha mãe, alegando precisar muito de mim, mandou que eu parasse de estudar. Felizmente foi só uma interrupção, porque mais adiante eu concluí o Ginásio e passei a estudar à noite, já no primeiro ano do Magistério. Bom, mas aí eu casei, estudei grávida e a vida seguiu. Daí veio o Magistério, tornei-me professora, fiz curso de aperfeiçoamento; em seguida, o de Administração. E fui aproveitando a possibilidade de terminar um curso e entrar no segundo ano do outro. Aí, fiz Pedagogia, depois História. De História, eu fiz Educação Moral e Cívica; curso de Supervisão Escolar e, por fim, PIP - Programa de Informação Profissional.

 

Meu marido, nesse meio tempo, compôs a primeira turma das Faculdades Integradas da FKB, lá em Itapetininga mesmo, dedicando-se, a seguir, à advocacia. Então, estudamos muito, lutamos com muita dificuldade - criança pequenas, três filhos, ele bancário, não é? - mas superamos. Ganhando pouco, dormindo pouco, mas tudo correndo como Deus havia planejado. Sendo encaminhados e prosseguindo. E entre tantas recordações dos primeiros tempos de magistério, destaco um episódio, assim, formidável. Num domingo, eu e meu marido fomos a uma exposição que estava sendo apresentada no Sesc Pompeia, em São Paulo. Uma exposição inteira com material de papelão. Tudo, tudo feito com papelão - uma mesa de jantar quilométrica, vinte cadeiras, pratos, talheres, copos. E o mais surpreendente: as personagens! Mulheres com brincos, colares, chapéus; homens com gola alta, gravata borboleta... Tudo feito de papelão! Essa ideia eu levei para a sala de aula. Não como mesa de refeição, por uma questão de espaço, mas adaptando - um avião, com piloto e tudo; colocava as crianças em cima da folha de papelão e recortava, formava a família em papelão… Então, é uma profissão que transcende o aprendizado das matérias; às vezes, o que eu ia ensinar não tinha nada a ver com a sala de aula - era a família escovar os dentes, era um aconselhamento, era uma assistência social.

 

E assim foi a minha vida - com luta, mas com bênçãos. A bênção de um casamento duradouro, filhos maravilhosos, netos incríveis. E assim… Todos estudaram. Minha filha é assistente social, um filho é professor de educação física, o outro é biomédico. E, certamente, eu passei um pouco da minha fé para cada um deles. Minha filha oferece orações confortadoras para os doentes; tenho um filho que é ministro da Eucaristia - por sinal é o que mais demonstra essa vertente de fé. E o caçula está na Liturgia, envolvido com as festas do Santuário. Aliás, essa questão de festas religiosas está na origem de minha atividade cultural - um hobby que me insere, profundamente, no mundo da cultura. E que começou quando eu e meu marido éramos festeiros na paróquia e levamos 46 pessoas para assistir, em São Paulo, ao show da Dercy Gonçalves, comemorativo dos seus 80 anos. Aí não parou mais, ou seja, eu não parei mais. Já são, sei lá, 30 anos. E é uma bênção, porque tem gente que eu trago de graça - é um trabalho social, de caráter cultural. Porque posso dizer que, desde menina, sempre tive uma inclinação artístico-cultural. Quando eu tinha nove anos, ganhei um prêmio pelo desenho que fiz: gastei tudo em doces. E essa é uma das lembranças da escola. A outra é que a professora lá do sítio me dava incumbências, tipo abrir a escola nos feriados, ensinar os colegas, etc, e depois, como recompensa, trouxe-me para passar um fim de semana em Itapetininga. E claro que há outras recordações, como o casamento, os preparativos, a festa, os primeiros tempos, a casa que compramos a Notas Promissórias, os filhos, a doença do meu marido, as internações, os tratamentos, todo o sofrimento e angústia, a perda dele. Mas, principalmente, a última conversa. No necrotério.

 

Fiquei conversando com ele, só eu e ele, a sós com ele. Daí, tudo o que a gente passou. Pedi perdão por alguma coisa, agradeci.

 

E agora, tenho um sonho! Quero conhecer o Papa, Francisco. Beijar a mão dele. E dar um abraço no Papa… Porque eu admiro muito o atual Papa. Este é o meu sonho.   

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