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História

"Lenda é lenda, lenda surge"

História de: Cléa Maria Machado Brum
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/02/2009

Sinopse

Cléo nasceu em Vassouras, zona rural do Rio de Janeiro, em uma família de treze irmãos. Ela nos conta como se tornou escritora, tendo já escrito contos, crônicas e até uma lenda sobre Massambará, bairro onde mora. 

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História completa

P/1 – Pra começar, queria que você dissesse seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Cléa Maria Machado Blum, nasci no município de Vassouras, dia 18 de setembro de 1953.

 

P/1 – Qual o nome dos seus pais?

 

R – Valdomiro e Francisca.

 

P/1 – Eles são de Vassouras também?

 

R – São.

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho, somos treze irmãos. Mas são apenas dez vivos.

 

P/1 – Desses treze irmãos, você é a mais velha?

 

R – Não, tem a caçula, depois outra e eu.

 

P/1 – O que seus pais faziam?

 

R – Meu pai era lavrador. Minha mãe era merendeira desse mesmo colégio.

 

P/1 – E o que seu pai plantava?

 

R – Quiabo, tomate.

 

P/1 – Na infância, como era a sua casa?

 

R – Era muito pobrezinha. Eu morei numa casa de sapé. Quando eu comecei a me lembrar da infância, [com] quatro, cinco anos.

 

P/1 – Você dormia com seus irmãos?

 

R – Sim, um quarto pra todo mundo. Tinha duas caminhas muito ruinzinhas e aquelas esteiras trançadas no chão.

 

P/1 – E vocês moravam...

 

R – Não tinha luz elétrica, era lamparina a querosene.

 

P/1 – Como era o dia a dia?

 

R – Era bom porque a gente brincava muito. Era uma coisa ingênua. Tomava banho no córrego, a água era bem limpinha. Subia nas árvores, comia frutas. Meu pai plantava muita verdura. Era uma coisa muito boa.

 

P/1 – A sua mãe trabalhava de merendeira? E seu pai?

 

R – Isso mais tarde. Quando eu era pequena ela só cuidava da gente. Meu pai trabalhava na roça.

 

P/1 – E tinha amiguinhos ali perto pra brincar, na infância?

 

R – Não, perto dessa casa não tinha. Era um espaço muito grande entre um vizinho e outro. Tinha uma casa lá longe. Era difícil a gente ter contato, só quando a mãe levava a gente pra passear.

 

P/1 – E você lembra-se desses passeios?

 

R – Eu lembro. Ia à casa do vizinho, porque não tinha cidade perto. Uma coisa que eu lembro muito é que eu detestava café de caldo de cana e na casa do vizinho a gente não podia recusar, tinha que beber. Então eu bebia aquilo obrigada, porque senão a gente apanhava. Tinha que beber, não podia recusar porque era falta de educação.

 

P/1 – O que é café de caldo de cana?

 

R – Ao invés de você botar água põe o caldo de cana. O pó no caldo de cana e ferve. Às vezes a gente tomava em casa porque não tinha dinheiro pra comprar açúcar, o caldo de cana já era doce. A gente tomava em casa e tinha que tomar na casa do vizinho.

Passava também uma rodovia ali perto, a BR, a rodovia federal. A gente gostava muito de ficar olhando os caminhões passar.

 

P/1 – Lá era zona rural?

 

R – Era bem roça, mesmo.

 

P/1 – Vocês iam para o vizinho a pé?

 

R – É, a pé. A gente pegava leite no curral, tomava leite cru, das vacas. Tinha um rapaz que tinha um curral lá perto e ele dava leite pra gente de graça. A gente ia ao curral beber, levava o café, jogava o leite ali dentro. Nem fervia o leite. Era muito forte.

 

P/1 – Me descreva um dia do seu cotidiano. Seu pai ia trabalhar na terra, sua mãe ia cuidar da casa?

 

R – A gente tinha que ajudar no serviço de casa. Às vezes a gente até brigava. Meu pai criava as minhas duas primas e tinha que separar: você hoje lava a louça – era na bica, não tinha torneira, bica de bambu – e você hoje limpa o fogão. Fogão a lenha. E a gente brigava muito porque quem era menor não gostava de fazer. E as mais velhas gostavam de jogar em cima da gente. Mas era bom.

A gente subia muito em árvores, mangueira, fazia balanço. Quando minha irmãzinha caçula nasceu, era negócio de parteira da roça, então a gente não podia ficar dentro de casa porque minha mãe estava tendo neném, a gente tinha que ir para o pé de manga. Quando ela nasceu a gente ficou o dia inteiro no balanço no pé de manga. Não podia entrar em casa porque estava demorando. E a gente esperando o avião passar porque diziam que ia trazer o neném. Esperava e nada. (risos) Tinha que ficar o dia inteiro nessa mangueira e no balanço porque não podia entrar em casa para não escutar gemido, essas coisas, senão a parteira brigava com a gente à beça.

 

P/1 – E a parteira era vizinha?

 

R – Era, a gente a chamava de Dindinha. Ela já faleceu. Buscava-a longe, a cavalo, pra fazer os partos.

 

P/1 – E os irmãos todos nasceram com ela?

 

R – Só a minha irmã depois de mim que nasceu em hospital porque teve problema. Estava com seis quilos, aí teve que ser retirada.

 

P/1 – Você comentou que vocês ajudavam seu pai no campo também. Como era essa ajuda?

 

R – A gente acordava cedo, detestávamos. Acordava às cinco horas pra ajudar meu pai a colher quiabo, tomate. A gente não capinava com a enxada, mas a gente tinha que colher - eu, minha irmã e meus dois irmãos. Às vezes fingia que estava dormindo, mas meu pai me chamava assim mesmo.

Eu detestava a colheita do quiabo. Tem uma lixa que passa na gente, que arrebenta. Eu botava blusa de manga comprida. A gente era bem novinha, com oito, nove anos. Meu pai criou a gente basicamente com essa lavoura, que era cara na época.

 

P/1 – O tomate é difícil de plantar?

 

R – É. O meio de vida hoje em dia lá é o tomate.

 

P/1 – Você se lembra das comidas que a sua mãe fazia?

 

R – Geralmente era coisa que colhia ali mesmo: verduras, alface, chicória, mostarda. Fazia com angu. O fubá era trocado no moinho, não comprava: pegava o milho que colhia e trocava pelo fubá pronto. Carne só às vezes, aos domingos. A gente criava galinha, comia ovos. Carne de porco, carne de cabrito que matava lá mesmo. Fritava e colocava naquelas coisas de banha – não tinha geladeira, aquilo conservava vários meses, então ia tirando e esquentando. Tudo mais ou menos de casa, não comprava quase nada, só o arroz mesmo que comprava.

 

P/1 – E tudo feito no fogão a lenha?

 

R – Sim, gente ainda tinha que pegar lenha no mato.

 

P/1 – Quando você era pequena escutava algumas histórias?

 

R – Lendas, essas coisas? Tenho muitas. A gente tinha pavor de saci, de caboclo caipora. Tínhamos muito medo. Tinha um pássaro que cantava na matinha, quando ele cantava todo mundo corria. Tinha uma moita de grão de galo, ela faz assim e faz tipo uma caverna, a gente brincava ali, muitas vezes se escondia. Mas quando esse pássaro cantava, ó, “pernas pra quem te quero”!

 

P/1 – Aí você começou ir à escola. Seus irmãos já iam?

 

R – Eu comecei com sete anos. Tinha que andar, passar perto de uma pedreira que diziam ser assombrada. Era um sacrifício, eu tinha pavor. Até hoje tem essa pedra, ela é muito grande e alta e diziam que aparecia uma mulher em cima dessa pedra de dia. O problema era meio-dia, três horas ou seis horas da tarde.

 

P/1 – Você estudava de manhã?

 

R – Era. Naquela época o colégio não dava merenda. A gente levava merenda, sentava no caminho e comia tudo antes de chegar ao colégio.

 

P/1 – Todos os seus irmãos iam nessa mesma escola?

 

R – É, mas eu tenho um irmão que até hoje não sabe ler. Ele ia com a gente e “rapava” fora. Ele não estudava, chegando a casa e ia para roça. Com isso ele foi crescendo, meu pai não incentivou muito, então ele ficou sem aprender a ler.

 

P/1 – Foram seus pais que decidiram colocar todos vocês na escola? Como foi isso?

 

R – Foram eles, sim. A gente ajudava, mas tinha que estudar. Eles achavam assim: eles não sabiam ler e a gente não podia ficar sem saber.

 

P/1 – E essa escola era legal? O caminho era longo?

 

R – Era legal. A gente tinha que andar a pé uns quarenta minutos; atravessava essa rodovia, pegava um trilho. Tinha boi pra caramba, vaca que corria atrás da gente. A gente rasgava nossas roupas porque quando a vaca corria a gente entrava embaixo da cerca. Eu tinha pavor desse pedacinho da pedra. Uma vez eu fui levar café pro meu pai, passei dentro da pedra e escutei a voz falar pra mim: “Não passe por aqui.” (risos) Entornei café, entornei tudo e quase apanhei do meu pai. Cheguei lá sem café.

 

P/1 – Que medo!

 

R – Quando a gente não ia pra roça, de qualquer maneira tinha que ir lá levar o almoço ou café e passava naquela trilha. Até hoje eu conto pro meu filho: “Aquela pedra é assombrada.” E ele já gosta dessas coisas.

 

P/1 – Vocês moram lá até hoje?

 

R – Moramos, mas essa casa não existe mais. Agora a casa é um pouquinho mais confortável e está no centro da vila, essa era lá longe.

 

P/1 – Essa escolinha que você estudava tinha uniforme?

 

R – Não, a gente ia de roupa comum. Agora ela tem uniforme, é a mesma de agora. Naquela época eram duas salas, aprendia só o básico. Hoje em dia ela cresceu.

 

P/1 – E você gostava da escolinha?

 

R – Eu gostava. Mas teve uma época que a professora era muito má. Tenho más lembranças.

 

P/1 – O que ela fazia?

 

R – Puxava a orelha, sangrava. Botava a gente no caroço de milho. E eu era injustiçada sempre. Não estou falando porque era eu, mas eu não fazia coisa errada assim. Era tímida, mas ela cismava comigo: “Foi você que fez isso!” Mas tem muita gente lá que se lembra dela. Hoje em dia ela está doente e quando precisa a gente vai ajudar. Mas tem muita gente que tem mágoa dela.

 

P/1 – E quando sua mãe foi trabalhar na escola?

 

R – A gente saiu dessa casinha na beira da rodovia e fomos pra uma mais perto da escola, que era perto da igreja onde é o centro pastoral. A gente morou, minha mãe tomava conta da igreja e foi trabalhar de merendeira no colégio. Meu pai continuava plantando.

 

P/1 – A sua mãe deve ser boa de cozinha.

 

R – Ela morreu, coitadinha, no ano 2000. Quando começou a ter merenda no colégio ela foi fazer, porque antes não tinha. Ela começou como merendeira. Fez um concurso rápido.

 

P/1 – Você estudava na escola que a sua mãe era merendeira?

 

R – Isso, e hoje meu filho estuda também, meu outro filho estudou.

 

P/1 – Você aprontava muito? Como era na escola?

 

R – Não, era tímida, era boba. Eles escreveram uma besteira e falaram que tinha sido eu, tive que escrever cem vezes: “Não devo fazer isso.” Não fui eu, jamais ia escrever aquilo, era um palavrão. E ela conhecia minha letra, mas ela fez com que fosse eu e me fez escrever.

 

P/1 – Você continuou estudando depois?

R – Lá terminei só o quarto ano primário, na época só tinha até o quarto ano. Depois eu vim trabalhar aqui no Rio uns tempos e comecei a estudar o quinto ano. Parei no sexto e voltei pra lá. O meu sonho era voltar pra lá, não gostava daqui. Depois fiz supletivo e tirei o certificado da oitava. Hoje estou estudando ainda, tentando fazer o segundo grau, mas estou parada em Matemática.

 

P/1 – Quando você veio pro Rio foi muito difícil?

 

R – Eu queria vir pra trabalhar, estudar. Sabe aquele sonho na cabeça? Mas eu senti muita falta do interior. Eu fiquei aqui dez anos, de 1971 a 1982. Era como se eu fosse uma estranha aqui. Mas trabalhei no comércio, me tornei tesoureira da firma. Mas meu sonho era voltar e voltei em 1982.

 

P/1 – Como foi esse retorno?

 

R – Nossa, foi bom! Abriu uma filial da firma lá e eu consegui transferência. Meu menino pequeno ficava com minha mãe e eu estava doida de saudades.

 

P/1 – Firma de que?

 

R – Era comércio, Casa da Banha.

 

P/1 – Seu filho tinha ficado lá?

 

R – Ele estava novinho, eu não podia ficar com ele.

 

P/1 – Você tinha casado?

 

R – Não, eu estava morando com o pai dele. Eu fui pra lá, mas ele queria que eu voltasse, e a gente se separou.

 

P/1 – Ele ficou aqui. E como você o conheceu?

 

R – Ele trabalhava também na firma, na parte de escritório.

 

P/1 – Quando você voltou você trabalhou na Casa da Banha?

 

R – É, Casa da Banha. Em 1989 eu saí; ela quebrou, pediu concordata, e fui trabalhar como agente de saúde. Trabalhei no IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], no censo. Sei que foram 27 anos de trabalho e dez meses.

 

P/1 – E a sua família, como estava quando você voltou?

 

R – Quando eu trabalhava aqui eu mandava dinheiro pra lá. Quando fui pra lá continuei ajudando. Aí meu pai já tinha arrumado a aposentadoria.

 

P/1 – Esse tempo que você saiu de lá e voltou, a cidade mudou?

 

R – Cresceu um pouquinho, mas quando eu voltei não tinha crescido tanto como está crescendo agora. O lugarzinho, a vila. Não tinha água, a água lá era poço, mina. Depois que a Cedae [Companhia Estadual de Águas e Esgotos] entrou, as pessoas começaram a vir comprar tomate, comprando terra e ficando por lá.

 

P/1 – Como se chama essa vila?

 

R – Vila Massambará.

 

P/1 – E depois que você trabalhou como agente de saúde, IBGE, como você foi chegando próximo a estudar de novo?

 

R – Eu tenho uma colega que trabalhava no posto comigo e falou: “Por que você não tenta fazer o supletivo?” Aí eu tentei. Na primeira vez eu passei em seis matérias, fiquei em três. Acabei ficando em Matemática e estou “agarrada”.

 

P/1 – E esse supletivo, foi bacana? Entrar de novo na sala de aula.

 

R – Foi bom. Eu gosto muito de estudar. Eu escrevo poesias, escrevo contos. No colégio tem dois livros que eu ajudei. Foram vários alunos e pessoas da comunidade. Eu entrei com uma parte. O colégio fez dois livros.

 

P/1 – O que lhe motiva a escrever?

 

R – Desde os doze anos eu já escrevia. Só que o primeiro caderno que eu escrevi sumiu, desapareceu. Fiquei sem minhas escritas. Alguma coisa eu tinha na cabeça, alguma coisa não. Mas isso já faz vários anos. Não sei, aparece e eu tenho que escrever rápido. Gosto de fazer música também. Mas só que eu tenho que gravar rápido porque depois que eu faço a música eu só lembro-me da letra. A música põe na hora, mas depois, se não gravar...

 

P/1 – Você canta?

 

R – Em casa, no banheiro. (risos)

 

P/1 – Declama poesia?

 

R – Sim.

 

P/1 – Você lembra-se de alguma sua?

 

R – De vez em quando as escolas me chamam pra fazer palestras. Quando é pra incentivar as crianças a ler eu participo. Tenho que declamar para as crianças de primeira a quarta. Eu tenho umas duzentas poesias.

 

P/1 – Você não quer declamar uma pra gente?

 

R – Tem uma que eu fiz pra minha mãe, mas eu choro à toa. Vou falar um pedacinho. Deixa ver se me lembro... Ah, esqueci!

 

P/1 – Vamos deixar mais pra frente, quem sabe ela volta.

 

R – Vou falar o final: “Se é verdade que quando uma estrela morre e outra nasce talvez esse peito consolasse, pensar que cada estrela que brilhasse, morasse a alma de alguém”. Era da minha mãe.

 

P/1 – E a sua mãe? Fala um pouco mais dela. Ela lhe influenciou a escrever?

 

R – Eu senti muita falta dela porque eu lidava direto com ela, eu cuidei dela até o final. Eu era uma pessoa mais radiante. Depois que ela morreu perdi um pouco do brilho porque senti muita solidão. (choro)

 

P/1 – Sua mãe era sua parceirona.

 

R – Em casa com ela era só eu. Ela me ajudou muito com meus filhos. Tomava conta, dava mamadeira, banho.

 

P/1 – Qual o nome dos seus filhos?

 

R – Cléo e Vagner. Cléo é o mais velho. Cléo homem, porque tem Cléo mulher.

 

P/1 – Eles estudaram também nessa escola de Massambará, que se chama?

 

R – Abel Machado. Eu estudei, o mais velho estudou e agora está o menor.

 

P/1 – E o supletivo que você faz é lá?

 

R – Não, é na escola Carlos ___, em Vassouras. Geralmente eu peço só o ___ quando tenho dúvidas. É escola a distância; pego os módulos pra estudar.

 

P/1 – E esse projeto que você falou que faz parte, de incentivar os alunos a ler. Conte um pouco disso.

 

R – Não, as escolas me chamam. Já sabem que eu escrevo, que eu gosto e às vezes me chamam pra dar palestra para as crianças. As crianças começam a fazer pergunta, eu acabo chorando também; as crianças choram. Porque é pra fazer as crianças tomarem gosto pela leitura.

 

P/1 – Você se lembra de como tomou gosto pela leitura?

 

R – Ah, eu comecei com a revista Seleções, pegava emprestado dos outros. Tinha doze anos. Tinha um senhor que era pai da professora, ele era assinante da revista Seleções e emprestava. Eu sou devoradora de livros. Leio muito, jornal...

 

P/1 – O que você tem gostado de ler nos últimos tempos?

 

R – Eu gosto de ler o Coelho (Paulo), O Alquimista, essas coisas. Eu leio muito jornal e a revista Seleções eu continuo a ler.

 

P/1 – Como se chamam os livros que você publicou?

 

R – Em 1980 e pouco eu entrei numa cooperativa, foi até no Circo Voador que eu vim pra a entrega dos prêmios. Eram poetas brasileiros; acho que foi em 1986. Eu entrei nesse da Editora Showroom e depois entrei em outra editora também. A gente dava um pouco de dinheiro pra editar o livro, depois eles devolviam em livros; uma vez recebi um cheque, coisa pouca. Chamaram-me pra ir ao palco declamar, mas eu não fui. Foi aqui no Circo Voador o lançamento dos livros.

 

P/1 – Deve ter sido ótimo.

 

R – Foi, mas isso foi em 80 e pouco. A do colégio foi a parceria que ele fez com o Instituto que bancou o livro. Foram dois: o primeiro podia ser paródia, podia ser poesia. Eu fiz um rap homenageando a escola. A Rede Sul foi lá, filmou as crianças cantando. E o segundo eu entrei com uma poesia sobre a roça.

 

P/1 – Você não se lembra delas?

 

R – O rap eu lembro um pedacinho: “Olha aí, rapaziada / vamos tirar os óculos escuros da ignorância / estudar é esperança / Cresceu, cresceu e se transformou no orgulho dos que vivem por aqui / é como estrela cadente brilhando os olhos da gente / um sonho que é meu e seu / Abel Machado, esse rap é pra você”.

As crianças cantaram e a Rio Sul foi filmar. Eu só fiquei perto, dei entrevista. Esse foi o primeiro livro. O segundo livro foi de poesia, acho que era tema livre, eu coloquei sobre amizade sertaneja. Deixa ver se eu lembro... Ah, não estou lembrando.

 

P/1 – Você está sempre de alguma forma chegando perto da escola onde você estudou.

 

R – Eu gosto muito da escola, gosto muito do meu lugar.

 

P/1 – O que você gosta de lá?

 

R – Eu gosto de tudo, das pessoas. Aprendi a conviver muito com as pessoas; todo mundo me conhece. Eu visitava as casas como agente de saúde; visitava como pesquisadora do IBGE, fazendo censo. Então andava por aquilo tudo, em todas aquelas estradas; às vezes sozinha, às vezes acompanhada. Eu conheço muito o pessoal de lá.

Como agente de saúde eu levava médicos para visitar as pessoas doentes, levava remédios. Tinha muita coisa que me deixava deprimida naqueles cantinhos lá pra dentro. Uma vez eu fui num lugar muito longe, tinha que pedir autorização para entrar, o fazendeiro era bravo. E a moça falou: “A senhora não trouxe nada de comer?” Aquilo me cortou o coração. Falei: “Não, só vim fazer pesquisa.” As pessoas lá pra dentro são muito pobrezinhas.

 

P/1 – Você deve ter visto muita gente diferente.

 

R – Tem pessoas que moravam em cocheira de cavalos, com criança pequena. Eu fui uma vez visitar umas crianças que moravam muito longe, eles tinham uma criança cheia de feridinhas. Então fui ver na cama e era a formiga que estava comendo a criança, porque a criança entornava o leite, aquilo ficava ali, a mãe ficava muito parada. A gente ia, dava banho nas crianças; trocava para tirar a formiga de lá; levei o médico. Essas coisas me deixavam triste. Mas ao mesmo tempo você tinha contato com um _____ que acontecia.

 

P/1 – E do tempo que você estudava para o tempo de hoje, do qual você participa e visita, mudou muita coisa?

 

R – Nossa, mudou muito. No meu tempo eram duas salas de aula, os bancos, mesmo. Era tudo diferente. Hoje em dia a escola está muito moderna, reformada. Tem muitas salas, cresceu muito. Tem quadra; cercou tudo.

 

P/1 – Lá no Abel Machado, além do rap e palestras de incentivo a leitura, você já se envolveu em outras coisas?

 

R – Eu já participei do conselho de merenda: a gente fiscalizava a merenda que ia para lá, com o conselho municipal. Fiscalizava a compra e a qualidade da merenda. Às vezes me chamavam em casa pra ver: “Acho que isso aqui que chegou está estragado!” Aí você tem que mandar devolver. E sempre me chamavam pra ver isso. Tem outras coisas que participei. O do FUNDEF [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério], que fiscaliza um dinheiro que o governo manda para o colégio. Tinha que ver o que a diretora gastou, o material que comprou. E eu sempre fiz parte.

 

P/1 – E você, que avaliou a questão da merenda, o que você acha que tem que ter numa merenda adequada?

 

R – Acho que tem que equilibrar. Por exemplo, tem que ter verdura. Tem criança que não gosta, mas tem que ter um equilíbrio. A nutricionista que cuida direitinho: verdura, arroz, feijão, uma proteína, carne.

 

P/1 – Você conhece os alunos?

 

R – Conheço bastante. Agora mudou muito, cresceu muito, são 600 alunos. Mas eu ainda conheço bastante; conheço as mães. Tem festinha lá que gente ajuda.

 

P/1 – Que tipo de festa?

 

R – Festa caipira. Meu filho já foi rei? Sei lá. Príncipe? Esse negócio de caipira. Tem princesa e príncipe da primavera. Tem barraquinhas, quermesse, comida típica. A outra diretora incentivava muito esse lado, agora mudou um pouco a direção, mas ela incentivava esse lado da cultura local. Ela fez teatro de cordel. Ela fez; eu participei. Fez com os moradores antigos, contou a vida dos moradores. Os alunos fizeram.

 

P/1 – E você acha que os alunos se interessam por isso? Você acha bacana esse tipo de atividade?

R – Não todos, mas a maior parte se interessa. Fazendo as crianças se interessar por isso, elas não ficam pensando bobagem. Outro dia eu participei de um projeto que eles fizeram sobre crônica e poesia. Eu, uma professora e outra mãe julgaram os trabalhos. Ninguém sabe que foi a gente que julgou. A gente foi separar. Uma coisa muito bem feita, das crianças. Uns fizeram em rima, outros fizeram crônica. Você vê que a criança se interessa por esse tipo de coisa. Eles têm um projeto de horta orgânica. A escola passou um vídeo lá do Canadá, acho que era pioneira. A escola já tem a horta, inclusive o meu filho vai fazer uma lá em casa, orgânica. Para não usar agrotóxicos.

 

P/1 – Você está participando a algum tempo das atividades do Abel. Pelos seus filhos estarem lá você vai se relacionando ou mesmo antes de seus filhos entrarem você ingressou pra dar esse apoio?

 

R – Meus filhos sempre estudaram lá, só o mais velho, que depois que saiu foi estudar fora. Mas eu sempre gostei, de qualquer maneira ia ajudar. Gosto muito do meu lugar. Parece que dentro de mim tem um compromisso com aquilo, entendeu?

 

P/1 – Quais são os seus planos? Tem algum de fazer mais palestras? Lançar uns poemas?

 

R – Eu tenho o plano do meu livro. Estou atrás de patrocínio. Uma das diretoras que trabalhou no Abel está indo atrás pra mim. Vai ver com a Casa da Cultura e o Rotary [Club], instituto que patrocina. Aí eu vou lançar um de poesia e depois um de crônicas. Eu participo também dos concursos da Academia de Letras de lá. De vez em quando eu ganho.

 

P/1 – Tem uma Academia de Letras lá?

 

R – Em Vassouras, na cidade maior.

 

P/1 – E você participa?

 

R – Esse ano não entrei porque: “Ah, Cléo, a gente vai estudar um prêmio pra você de hors concours porque você ganha todo ano. Aí deixaria os outros de fora?

Esse ano eu falei: “Não vou entrar pra ver o que vai dar.” Mas eu já ganhei quatro vezes, primeiro e segundo lugar. Porque eu entro com duas crônicas, duas poesias. Às vezes o tema é livre e às vezes eles dão o tema.

 

P/1 – Quais autores que escrevem crônicas e poesias você gosta, incentivam?

 

R – O que mais me incentivou no começo foram os livros do Castro Alves, eu gostava muito, Machado de Assis.

 

P/1 – Esses livros você que escolheu e comprou?

 

R – Na época eu pegava emprestado, lá na escola mesmo.

 

P/1 – Qual o sentimento você tem de escrever? De ver as coisas sendo publicadas?

 

R – Eu gosto muito de escrever, me faz ficar relaxada, ser outra pessoa. Porque às vezes você tem problemas, mas quando começa a escrever você esquece tudo. Vai fluindo e você vai escrevendo.

 

P/1 – E até cordel você já fez?

 

R – Já, com esse do colégio.

 

P/1 – Qual é a importância de você mostrar para os alunos que são bacanas ler, escrever?

 

R – Na última escola em que fui chamada, aqui no centro da cidade, eu falei pra eles que cada um tem um talento e que precisam conhecer esse talento para desenvolvê-lo. Eu acho que meu interesse com eles é que desenvolvam esse lado. Até dei um exemplo de uma propaganda sobre o Talento. “Tem Talento aí?” aí a mulher começa a dançar, pensando que é o talento dela pra dança, mas o talento era o chocolate. E eu: “Vocês sabem fazer o quê?” E eles respondiam: “Ah, tia, eu sei fazer isso”, “Eu sei fazer isso.” Para ver se eles se desenvolvem. Porque eu também tenho muita preocupação com as crianças de se desenvolverem para o lado ruim. Eu queria que eles fossem todos bons. Sempre tive preocupação que meus filhos tivessem bom caráter, então fico preocupada. Se a criança não tiver um envolvimento com outras coisas pode sair para o lado ruim.

 

P/1 – E os seus filhos? Quando nasceram, foi de parteira também?

 

R – Não, foi no hospital, cesariana. Quando ele nasceu já estava passando da hora, podia até ter morrido. Mas eu conheço muita gente que nasceu com a parteira. Ela era brava, fazia um caldo de pirão pra pessoa que tinha o neném e ela comia o frango todo. Toda vez que fazia um parto tinha que matar um frango. A gente ficava mexendo com ela, ela comia tudo e não deixava pra gente. Quando meus filhos nasceram foi em hospital mesmo, cesariana.

 

P/1 – E como foi para eles crescerem? Você continuou trabalhando?

 

R – Por isso que eu digo que a minha mãe me ajudou muito. Meu filho ficava com ela; eu saía para o trabalho de manhã e chegava à tarde. E ela me ajudou muito. Nos primeiros meses fiquei em casa, mas depois tinha que dar mamadeira, trocar as fraldas. Tinha uma tia também que morava com a gente que me ajudava muito.

 

P/1 – Hoje em dia você trabalha com o quê?

 

R – Estou aposentada. Ás vezes eu faço um “bico”, alguém me chama pra tomar conta de alguém. Eu vou.

 

P/1 – Mas você ainda está escrevendo?

 

R – É. E às vezes ganho prêmio. Às vezes prêmio em dinheiro. Mas eu não vivo esse lado, eu escrevo mesmo por prazer.

 

P/1 – Alguma criança já pediu pra você ensinar a fazer poesia?

 

R – Não, a não ser quando eu dou palestra que eles perguntam: “Tia, como a gente faz pra escrever?” Eu falo: “tudo vem de dentro.” Porque não é uma coisa que a gente pode forçar pra fazer. Vem de dentro e você tem que escrever.

 

P/1 – Seus filhos gostam?

 

R – Gostam. Meus filhos gostam. Incentivam. Até, de vez em quando eles falam: “mãe, vou escrever um pouquinho”. Há pouco tempo teve um projeto no colégio sobre poesia, sobre o aniversário da cidade. Eu ajudei meu filho a fazer uma, só que ele botou o nome dele sozinho.

 

P/1 – Você falou que a sua mãe era merendeira. Você cozinha também?

 

R – Cozinho, mas não gosto. Nada de cozinhar. Cozinho pra mim só, mas pra muita gente não gosto.

 

P/1 – Você se lembrou de alguma poesia que queira contar pra gente?

 

R – Não estou conseguindo lembrar. Eu queria falar sobre o segundo livro do colégio, da amizade sertaneja, mas não estou conseguindo lembrar.

 

P/1 – Você se lembra da primeira que escreveu?

 

R – A primeira estava justamente nesse caderno que sumiu. Falava sobre solidão, alma vazia. Mas eu não lembro mais.

 

P/1 – Bastante sentimental.

 

R – Eu gosto muito de aproveitar o momento. Você está passando por certa situação, aí desabafa na poesia.

 

P/1 – E hoje, com quem você está morando?

 

R – Eu moro só com meu filho e minha tia. Enquanto eu estou aqui minha tia vai pra casa de outro parente pra não ficar sozinha, porque ela tem 90 anos.

 

P/1 – Você chegou a conhecer o programa “Tô no Mundo” que tem lá no Abel José Machado?

 

R – É isso que eu estou falando pra ela, não conheci por esse nome. Não sei se em 2005 ele já tinha esse nome; era Telemar projeto.

 

P/1 – PTA, né?

 

R – Eu participei de um curso de informática.

 

P/1 – Como foi?

 

R – Eu não terminei, mas teve outras pessoas que terminaram. Ainda tem curso para a comunidade. Eu tenho vontade de voltar.

 

P/1 – Curso de que?

 

R – Foi uma parceria com a universidade, porque em Vassouras tem uma universidade grande, e eles mandaram um professor vir dar aulas pra gente. A comunidade tinha o dia certo, a hora certa.

 

P/1 – Conta pra mim sobre o seu processo de criação de poesia?

 

R – Eu coloco assim: às vezes tem uma situação, pego a caneta e papel e vou escrevendo. Na doença do meu pai mesmo: eu estava dentro do ônibus, aí começou a vir e eu comecei a escrever pra ele. Mas é uma coisa que surge e você tem que anotar logo.

 

P/1 – Você leu para ele?

 

R – Não deu tempo, ele estava no CTI [Centro de Terapia Intensiva]. Para minha mãe eu fiz duas. Fiz essa da estrela e a outra: “Sinto a presença na casa / te procuro e não te vejo / o vento no fim da tarde parece soprar-me um beijo”. Vou chorar. (risos).

 

P/1 – Você comentou que é um pouquinho chorona, mas que gosta muito das coisas da vida.

 

R – Eu gosto. Alegria; tem que estar bem alto astral.

 

P/1 – Me conta o que você gosta de fazer, então.

 

R – Eu gosto de escrever, de ler, de passear. Não passear em grandes centros, mas andar, fazer caminhada, natureza, pássaro. Gosto muito.

 

P/1 – Gosta da escola também?

 

R – É, isso.

 

P/1 – Você falou que fez um curso no “Tô no mundo”.

 

R – Sim, mas não terminei. Tem pessoas lá estudando até hoje.

 

P/1 – Você fez outros cursos também? Você busca fazer?

 

R – De vez em quando eu faço curso rápido de alguma coisa: artesanato, costura, de foto. Eu gosto muito de fotografia, de tirar fotos dos outros. Hoje em dia não gosto mais de tirar minha. Eu engordei muito.

 

P/1 – Você andou tirando umas fotos boas?

 

R – Tenho muitas fotos em casa. Eu gosto muito de fotografia. Fiz um curso pela Kodak um tempo atrás.

 

P/1 – Você então é escritora, fotógrafa.

 

R – Fotógrafa, não. Agora tem muita câmera atualizada, digital. Mais práticas.

 

P/1 – O que você gosta na fotografia?

 

R – Gosto de pegar assim, de repente. Coisa bem natural. Tenho retratos de vacas pastando, de pessoas tirando leite, pessoas na roça. Eu gosto de coisas bem naturais, nada de pose. Caminhar com uma máquina, tirar retrato de um pássaro. Tem um tucano que vai ao meu quintal que eu não consegui pegar ainda na foto, ma vou pegar. Tem um casal de tucanos que vão lá.

 

P/1 – Tem mais bichos perto da sua casa?

 

R – Tem micos. Comem todas as bananas, as frutas. Há pouco tempo a gente viu um mico que não é do lugar, não é característico daquela área, mas ele apareceu lá. Ele é tipo um macaco prego, aquele maior. Porque lá é miquinho que aparece. A gente conta, ninguém acredita, mas é verdade: eu e meu filho vimos. A gente anda pescando no lago e [às] três horas da tarde, quando o sol está muito quente, ele foi beber água.

 

P/1 – E lá em Massambará, como está hoje pra você? Mudou muito?

 

R – Cresceu bastante. Tem algumas pessoas que mudaram pra lá há pouco tempo, que eu não tenho muita amizade. Todo lugar, quando vai crescendo, muda. Eu gostava de andar descalça, bem relaxada pela rua, já não ando mais porque tem pessoas que eu não conheço. Tem muita gente que passa e fala: “Oi, Cléa, está sumida”. Mas tem muita gente que nem cumprimenta.

 

P/1 – E os amigos, continuam lá?

 

R – A maioria. Tem muita gente lá. O colégio cresceu muito, então vem muita gente de fora. Tem mãe que não tenho muito contato como tinha antes, que vai para as reuniões, participa.

 

P/1 – Tem outros escritores lá também?

 

R – Em Massambará, não, mas na cidade tem o pessoal que faz parte da Academia de Letras.

 

P/1 – E agora? Qual a expectativa da Cléa para o futuro?

 

R – Eu quero publicar o meu livro, depois fazer outros. Quero fazer o de crônicas, além de outras coisas. Aprender a tocar violão, que eu não consegui. Comecei e parei, porque a gente começa certos projetos, mas tem que parar para cuidar dos filhos. Agora que eles estão maiores eu já posso botar pra frente.

 

P/1 – E esses cursos, que nem esse de informática?

 

R – Eu quero fazer informática de novo. Quero entrar e ir até o fim. Eu também comecei a fazer Enfermagem e parei. Na época eu trabalhava com a saúde, mas fica difícil com filho pequeno. Tem que cuidar de filho, estudar, chega em casa tarde para levantar cedo. Mas agora eu [me] aposentei também.

 

P/1 – Você quer contar mais alguma coisa pra gente, que a gente não tenha perguntado? Ou declamar alguma poesia que você tenha lembrado?

 

R – Se eu declamo começo a chorar, então tem que deixar pra lá.

 

P/1 – Não.

 

R – Voltando no tempo eu me lembro das vezes que a gente pegava carona de carro de boi pra ir ao colégio. Eu gostava muito disso. Ou então a gente apanhava o carro de boi, ia certo tempo e depois voltava a pé, só para andar no carro de boi. Na época tinha um galpão em que o pessoal que plantava levava e os feirantes iam comprar. E a mercadoria ia toda nesses carros de boi, então a gente fazia a festa.

 

P/1 – Era você e seus irmãos todos?

 

R – É. E às vezes a gente sentava pra conversar – tinha um seriado na televisão que lembrava muito a gente – e você vai pra conversar nas fogueiras de São João, sentar em volta, e começava a contar as lendas do lugar. Tinha uns que quase choravam de medo. Tinha uns que tinham muito medo. Meu filho adora ouvir essas histórias, mas depois ele fala: “Mãe, não dá pra dormir sozinho.” (risos) Era muito bom.

Eu escrevi lendas também sobre Massambará. Tem uma que está na internet, foi um projeto sobre lendas do lugar e eu ganhei um prêmio com ela, da rádio Três Rios, peguei terceiro lugar. Até meu filho diz que é verdade, isso é uma lenda. “Mas quem contou isso pra senhora?” “Lenda é lenda, lenda surge.” Fui eu que escrevi; veio na cabeça e eu escrevi. Quer ouvir?

 

P/1 – Claro.

 

R – Existia um índio num lugar antes da terra ser habitada, como se fosse uma cidade. Ele se chamava Bará. O sonho dele era ganhar asas e voar, então ele sempre pedia a Deus um par de asas. Mas ele morreu antes do tempo e foi para o céu. Quando ele chegou ao céu, Deus disse que ia fazer dele um anjo, mas ele tinha que cumprir uma missão para ganhar as asas. Ele tinha que ir pra um lugar distante na terra e plantar várias espécies de frutas, de plantas. E deu as sementes pra ele.

Ele foi. Depois que ele voltasse ele ganharia um par de asas. Ele chegou ao lugar e semeou as sementes, foi nascendo todos os tipos de fruta. Ele plantou uma árvore que tinha um fruto saboroso, perfumado, mas ele não sabia o nome. E perguntou a Deus: “Qual o nome dessa árvore que eu plantei?” Ele falou: “Bará, você me desobedeceu, você roubou a semente da fruta do paraíso!” “Mas Senhor, que fruta é essa?” “É maçã, Bará.” Deus ficou irritado com ele e gritava: “É maçã, Bará! É maçã, Bará!” Foi aí que surgiu o nome Massambará.

E eu coloquei no final: “Você pode perceber nos livros antigos que Massambará era escrito com cê-cedilha. Hoje em dia é Massambará com dois esses.”

Eu não acabei de contar. Quando o Bará começou a jogar as sementes vinha um gênio do mal e tapava tudo com um lençol pra semente não cair ao solo. Mas Deus mandou umas estrelinhas pra furar esse lençol e a semente perfurar. Por que em Massambará tinha uma lenda que dizia ter um lençol perto de uma figueira, quando a gente passava lá à meia-noite aquele lençol ficava assim na frente da gente. Muita gente diz que viu. E tinha um cavaleiro que puxava a ponta nesse lençol. Então aproveitei a lenda do lençol e juntei a essa. Foi onde o nome ficou.

Quando Deus se irritou com Bará e gritou, começou a brotar vários capins. E tem um capim chamado capim massambará, que é de onde veio o nome. A lenda se resume nisso, a história de Massambará. Todo mundo [pergunta]: “Mas de onde você ouviu?”. “Ah, eu ouvi de alguém.” Entendeu? Lenda a gente tem que deixar no ar porque não tem autor. Ela vai passando de geração pra geração.

 

P/1 – E tem alguma outra lenda que você tenha inventado que queira contar pra gente?

 

R – Não, lenda, não. Eu faço crônica sobre rio, sobre a água. A primeira, que eu entrei da Academia de Letras foi sobre a água, o tema eles que deram. Então eu falei sobre o riacho, que a gente tomava banho quando era criança, que era puro na época, vinha da nascente. A gente tomava banho, mas quando chegavam as chuvas de verão ele crescia tanto que entrava água na nossa casa. Mesmo assim, a gente não ficava com raiva porque sabia que depois que a água baixasse a gente ia tomar banho ali de novo.

A água era muito importante na minha vida. A casa que eu moro começou a dar uma infiltração - até coloquei isso na crônica. Debaixo do quarto eu descobri uma nascente, tem uma nascente lá. Até as paredes racharam por causa da infiltração da água. Aí eu fiz uma crônica sobre isso, ganhei em primeiro lugar.

 

P/1 – Você gosta muito de estrela também, né?

 

R – É. E a segunda foi sobre a praça - a praça lá de Vassouras, a Praça Matriz. O jardim é muito famoso, é bonito, tem muitas flores. Fizeram uma sobre o jardim também.

 

P/1 – Parabéns! Espero que tenha uma longa carreira como escritora, boas crônicas, muitos poemas. E você gostou de contar a sua história?

 

R – É bom contar. A gente se sente mais. Porque a vida do dia a dia é muito corrida então você acaba nem prestando atenção em você mesma. É bom a gente parar e falar alguma coisa da gente.

 

P/1 – Tem mais alguma coisa que você queira falar. Ou sobre a sua relação com a escola, ou alguma história sua?

 

R – Assim, não.

 

P/1 – Então a gente quer agradecer em nome do Museu da Pessoa.

 

P/2 – Você já pensou em escrever a sua história em uma crônica?

 

R – Não, eu até comecei uma vez. Queria escrever contos também, mas seria mais difícil. Eu não tenho computador, faço à mão e na máquina de datilografia. Eu entrei em um concurso do jornal O Globo também, “Contos do Rio”, quem digitou pra mim foi uma professora. Não ganhei porque não respeitei os espaços, eu ultrapassei. Mas eles citaram no jornal, que era sobre o mar. Eu contei uma passagem de quando eu estava aqui no Rio, na época, aí eles falaram que pessoas do interior que escreveram. Só que eu ultrapassei muito as linhas, os parágrafos.

 

P/1 – Obrigada, Cléa.

 

R – Obrigada vocês.

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