Busca avançada



Criar

História

Lembranças que soam como música

História de: Pedro de Oliveira Freire
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/04/2014

Sinopse

Pedro de Oliveira Freire nasceu em uma casa diferente, seus pais o deixaram ser o que queria ser e não o que precisava ser, e isso o fez se desenvolver como pessoa e como músico. Estudou baixo acústico e trabalhou a vida todo como baixista, contribuindo com diversos artistas e também em seus próprios projetos. Pedro conta sobre sua infância e juventude, elucidando uma época em que as crianças brincavam na rua e o início do movimento Rock'n Roll no Brasil. Uma vida voltada para a cultura e repleta de imagens da vida musical do país.

Tags

História completa

P/1 – Vamos começar pedindo o teu nome, local e data do nascimento.

R – Pedro de Oliveira Freire, nasci no Rio de Janeiro, em 1954.

P/1 – Seus pais são do Rio?

R – Não, meu pai é paulista e minha mãe é de Campos, Estado do Rio de Janeiro. Se conheceram na faculdade de medicina da Praia Vermelha [Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro]. 

P/1 – Como foi? Conta a origem dos seus avós por parte de pai e mãe.

R – Origem dos meus avós? A família do meu avô, por parte de pai, acho que era de Piracicaba. Minha avó é paulistana. Da minha mãe, os pais dela são de Campos de Goitacazes, no Estado do Rio. Do lado do meu pai tem origem portuguesa e da minha mãe é bem variada: tem negro, índio, português, aquela mistureba tão brasileira.

P/1 – E eles se conheceram na faculdade de medicina?

R – Se conheceram na faculdade de medicina da Praia Vermelha.

P/1 – Como é o nome da faculdade?

R – Acho que é... 

P/1 – Praia Vermelha no Rio?

R – No Rio, é, eles foram estudar medicina e foi lá que se conheceram. 

P/1 – Aí eles se conheceram e casaram.

R – Conheceram, namoraram... minha mãe morava num pensionato lá e aí se casaram logo depois que se formaram. Um ano, um ano e meio depois, já comigo, vieram para São Paulo.

P/1 – Você é o primeiro filho?

R – sou o primeiro filho, nasci em Botafogo.

P/1 – Aí você veio com um ano para cá.

R – Um ano para cá.

P/1 – E onde vocês vieram morar aqui?

R – Primeiro perto do SESC Consolação, na Rua Doutor Vila Nova, depois na [Rua Dr.] Cândido Espinheira, nas Perdizes. Eu passei a infância inteira nas Perdizes, perto do Parque da Água Branca, na Rua [Dona] Germaine Burchard. A gente foi se mudando para algumas casas em Perdizes, sempre alugadas. Com dezesseis, dezessete anos eu saí de casa.

P/1 – Em quantos irmãos vocês são?

R – Três. Eu sou o mais velho.

P/1 – É escadinha?

R – Não, eu e o Paulo somos mais próximos e o Beto tem uns oito anos de diferença.

P/1 – E como era a sua casa da infância?

R – A primeira, na Rua [Dr.] Cândido Espinheira, era um sobradinho geminado, quase na esquina da Rua Cardoso de Almeida. Era uma casinha legal, destas compridinhas, com uma garagem embaixo e uma escadinha que sobe, aí tem um terracinho e dois andares, super simpática. Eu lembro pouco dela. Estudava ali perto, a gente ia a pé para escola. Tinha uma sapataria que ainda existe lá, porque trabalho num estúdio que é ao lado de onde a gente morava. Era legal, mas depois a gente se mudou para uma casa maior na esquina da Germaine Burchard com a [Rua Dona] Ana Pimentel, e foi lá que eu passei...

P/1 – É a casa que você lembra.

R – É a casa que eu lembro mesmo, que era o "point" da molecada da rua. A gente jogava futebol bem em frente, o pique do acusado era no muro lá de casa. Como os meus pais eram gente fina, então foi sempre centralizador, a molecada ia toda para lá, era lá que a gente se reunia e saía para fazer as brincadeiras. 

P/1 – Como era Perdizes?

R – Era muito diferente. Eu tinha um amigo que jogava futebol com a gente na rua, o Zé Américo, que era filho de uma empregada doméstica, e eles moravam numa favelinha que tinha num córrego onde hoje é a Avenida Sumaré. A gente ia andar de bicicleta lá, foi lá que eu conheci o Zé. E era diferente, a criançada toda solta, a gente andava de bicicleta por São Paulo toda.

P/1 – E no parque?

R – Ia bastante, o Parque da Água Branca era super legal. Era um quintalzão para a gente. E tinha as exposições agropecuárias, tinha feiras, parques de diversões, que montavam lá. A gente pulava o muro do parque para montar nos cavalinhos de aluguel, que eles levavam nestas feiras. Eles ficavam num cercado logo ao lado da Ana Pimentel, uma Rua sem saída que tinha uma porta de serviço para o Parque da Água Branca. E era super legal. A gente tomava umas corridas dos guardas, coisas de moleque.

P/1 – Como era a convivência na sua casa? Quem exercia a autoridade, seu pai ou sua mãe?

R – Meu pai sempre foi mais boêmio.

P/1 – Como é o nome de seu pai e da sua mãe?

R – Meu pai é o Roberto Freire, Joaquim Roberto Correa Freire, psicanalista, escritor, jornalista, teatrólogo. Minha mãe, Gessy de Oliveira Freire, agora Gessy Batista de Oliveira Aranha, que ela se casou de novo depois da separação do meu pai, e ela é médica.

P/1 – Como era a autoridade lá? Como era o convívio familiar?

R – Meu pai sempre foi mais tranquilo, a minha mãe pegava mais no pé, mas ela ficava no hospital o dia inteiro, então tinha uma responsabilidade meio conversada. Você tem que se virar, um tomar conta do outro, principalmente eu e o Paulo, que somos mais próximos. Aí ela chegava no fim da tarde do hospital e cobrava as lições, mandava parar de brincar, tomar banho. Aquelas coisas, normal. Mas a autoridade mesmo era a minha mãe, meu pai era mais pra...

P/1 – E as conversas em casa? Formação religiosa, política, espiritual? Como repercutia este trabalho do teu pai na sua casa?

R – Nunca foi uma família tradicional, porque meu pai foi preso político em 1964 e 1968. A gente ia à igreja dos dominicanos aos domingos, eu odiava, eu preferia ficar jogando futebol a ir à missa, mas tinha que ir, minha mãe ainda vai à missa até hoje, é bem religiosa. Meu pai tinha um envolvimento mais político também. Na época, vários amigos e os dominicanos também tinham um movimento ali também, mas logo depois desta época negra, 64 e 68, onde meu pai foi preso várias vezes, aí a gente não tinha mais obrigação de ir à missa. 

P/1 – Você tinha quantos anos? Vocês viram ele ir preso?

R – Via, via. Os caras paravam na porta de casa e enquadravam. Em 1964 eu tinha dez anos, em 68, quatorze.

P/1 – A primeira vez que ele foi preso você viu ele ser preso?

R – Vi. 

P/1 – Como foi?

R – A gente estava sentado num muro, dessa casa que eu falei para vocês, e parou um camburão, tocou a campainha. A molecada toda curiosa, não sabia o que era. Aí eu vi o meu pai sair tranquilamente, entrar no camburão, acompanhado de um guarda. Minha mãe vinha com aquela conversa que ele foi viajar e tal, mas não convencia muito, porque em 1964 a gente via os tanques na Rua. No Parque da Água Branca teve um movimento meio de exército ali. Tinha no ar esta história. E  ao mesmo tempo era uma época que meu pai deixava disco dos Beatles para a gente no pé da cama, a gente acordava tava lá o LP. Tinha todo um movimento cultural e por ele estar sempre muito ligado à cultura, tinha sempre uma efervescência. A gente ficava sentado na escada ouvindo a conversa dele com os amigos.

P/1 – Quem ia lá?

R – Nossa, um monte de gente. O meu pai era muito amigo do Wesley Duke Lee; tinha o pessoal da [revista] Realidade, que são os grandes amigos dele, o Sérgio de Souza, Narciso Caribe, um monte de gente. Eu vou me esquecer de citar nomes aqui... E era super efervescente, um ambiente culturalmente muito rico. Em 1964 acho que ele lançou o primeiro romance dele, o “Cléo e Daniel”, e daí já trabalhava na revista Realidade também. Tinha um movimento bárbaro. Depois ele fez o filme, teve a época do Tuca (Teatro da Universidade Católica de São Paulo), que meu pai montou o Morte e vida Severina, que depois ganhou o prêmio em Nancy, na França. Ao mesmo tempo teve outra peça dele, que foi censurada, chamada O&A. a gente convivia muito com esta história da censura da época, em casa nada foi muito censurado, sempre foi tudo muito conversado, tinha por um lado uma abertura que nos fez não sentir tanto esta época negra.

P/1 – Você falou deste lado da censura, mas vocês tinham esta convivência cultural. Vocês participavam do trabalho dele? Ele dividia com vocês?

R – Não, a gente era moleque. Era o universo dos adultos. Nesta época não tinha o que tem hoje, que a gente divide as coisas com os nossos filhos, a gente ficava em cima da escada só espiando. Meu pai tinha um escritório em cima da garagem, numa edícula, que a gente só via o movimento. Ao mesmo tempo a gente tinha os nossos interesses, que era brincar na rua, andar de bicicleta, jogar futebol, tinha que fazer um monte de lição, não dava muito tempo de prestar muita atenção nisso. Mas tudo era muito explicado, conversado. Só esta parte de preso e tal, que minha mãe tentava dar uma aliviada, mas acho que ela nunca conseguiu muito. 

P/1 – Com quantos anos você entrou na escola?

R – Tem a foto aí, externato Assis Pacheco. A primeira eu não lembro o nome, era na Avenida Pacaembu. Pequenópolis, acho que chamava, era um maternal, uma coisa assim. Depois eu fiz o primário todo no Externato Assis Pacheco, que era na esquina da [Rua] Cardoso de Almeida com a [Rua] Itapicuru.

P/1 – Como era? Você ia à escola a pé?

R – A gente ia a pé para a escola. Tinha também um vizinho que estudava lá e o pai dele às vezes nos levava, mas era perto, coisa de seis quarteirões.

P/1 – Você se lembra de algum professor?

R – Lembro das diretoras, das professoras.

P/1 – Qual o nome delas?

R – Dona Lurdes, dona Mercedes, dona Celeste, dona Glória, que era inspetora de recreio, bedel, brava para caramba. Já tinha a professora de música, que eu não lembro o nome dela, mas era muito legal a aula de música que tinha na escola. As músicas que a gente cantava, por exemplo, tinha aquela formação no começo, a gente cantava todos os hinos: Hino Nacional, Hino da República, até o Cisne Branco a gente cantava. Foi legal, foi muito bom o primário lá, era pertinho de casa. Eu tinha uma cadelinha que ia comigo até a esquina da Rua Turiassú, depois ela percorria todos os açougues do pedaço, e quando eu voltava, ela estava me esperando na esquina. Depois ela sumiu, desapareceu. Foi até legal, porque ela não teve fim trágico, ela só sumiu.

P/1 – E de estudar, qual a coisa que você mais gostava?

R – Sempre fui mais das humanas, gostava muito de História, Geografia. Até que fui bom aluno no primário, depois no ginásio a coisa degringolou.

P/1 – Como era? Os amigos da escola eram seus vizinhos?

R – Não, eram turmas completamente diferentes. Os amigos da escola, tinha uns que eram meus vizinhos, que até participavam das brincadeiras, dos jogos, mas não eram muito próximos. O legal desta época é que havia uma mistura bem grande de classes sociais, tinha gente que tinha mais grana e tinha gente que não tinha grana nenhuma, mas todo mundo jogava bola em frente à minha casa, as brincadeiras aconteciam todas lá. E vinha este amigo meu, que era filho da empregada doméstica que morava na favelinha, ao mesmo tempo tinha o cara da mansão lá de cima, que participava, jogava. Então havia uma integração sem a menor ideia de classe social. Eram todos amiguinhos do bairro.
P/1 – E o ginásio, você fez na mesma escola?
R – Não, no ginásio eu fui para o Santa Cruz, fiz os primeiros três anos lá e aí começou a minha peregrinação em várias escolas, até parar de estudar. 

P/1 – Você foi para o Santa por quê?

R – Porque meu pai era amigo do Padre Charbonneau, que na época... e era uma escola muito legal e ele conseguiu uma bolsa para mim. 

P/1 – Tinha exame para entrar, como hoje?

R – Tinha exame de admissão.

P/1 – Como é hoje?

R – Não sei como é hoje, tem ainda?

P/1 – Hoje é impossível...

R – Ah, não. Havia um número limitado de vagas e para mim, que era candidato à bolsa, precisava entrar até tal lugar, porque senão não conseguiria. E eram as escolas mais procuradas na época: Santa Cruz, Santo Américo. Foi muito legal ter estudado no Santa Cruz.

P/1 – Teus irmãos também foram para lá?

R – O Paulo foi e o Beto, não. O Beto já foi para o Equipe direto. Temos oito anos de diferença, que é bastante nesta idade.

P/1 – Como foi no Santa Cruz?

R – Foi muito bom, só que daí eu fui crescendo e tendo outro interesses; na época eu trabalhava com artes plásticas, era desenhista.

P/1 – Você começou a trabalhar com quantos anos?

R – Quatorze, quinze anos.

P/1 – Você fazia o quê?

R – Eu era assistente de arte. Trabalhei primeiro como assistente do Eduardo Barreto e depois com o Polé, na A&C Comunicações, no começo, que era onde meu pai trabalhava com o Sergio de Souza, Narciso, uma turma toda do Eduardo Barreto, que fazia as revistas Bondinho, Novidade Fotótica e depois começou a lançar o Grilo, Jornalivro. Eu era assistente, lavava pincel... A arte era prancheta, era tudo desenhado, não existiam computadores na época. E eu trabalhava; eu gostava de desenhar, eu achava que ia ser pintor, desenhista. E ao mesmo tempo começou aquela época do Rock’n’roll, namorada.

P/1 – Qual foi a sua primeira namorada?

R – Foi a Vivian, uma americana que eu conheci num show de rock no Teatro Vereda, que era super legal, foi onde conheci a maioria dos meus amigos. 

P/1 – Mas aí você já tinha saído do Santa Cruz?

R – Não, acho que ainda estava lá, no terceiro ginasial. Foi quando eu comecei a ratear, não querendo mais estudar. Aí resolvi parar de estudar. 

P/1 – Com quantos anos? Você não queria fazer colegial?

R – Eu não fiz o colegial

P/1 –. E seu pai e sua mãe?

R – Eles confiavam, falavam: “Se você não quer; você já está trabalhando e tal. Você quer ser artista?”. Falei: “Quero ser artista”. “Então você tem que se preparar, precisa estudar, precisa fazer alguma coisa”. Meu pai me mandava ler História da Arte... Minha mãe ficava uma arara, lógico, mas eu já estava com catorze anos, este tamanho. Já argumentava, já discutia, já tinha ideias. Comecei a namorar, minha namorada foi morar nos Estados Unidos, que ela era meio americana. Foi uma época que foi bem... isto era 68, 69, eu adorei. Tive uma adolescência super legal, fiquei super solto.

P/1  – Você ficou quanto tempo sem estudar?

R – Anos, anos. 

P/1 – Você parou com dezesseis e não retomou?

R – Retomei, deixa eu te contar. A perspectiva da vida diante de uma prancheta... Chegou uma hora eu comecei a ficar apavorado com este negócio de ter que ir pro escritório, de ter que ficar dentro. E eu já estudava violão clássico com meu irmão; meu irmão começou a estudar e eu fui na dele, e o violão clássico não era muito a minha praia, eu gostava mais de tocar rock’n’roll. Eu já ouvia jazz, meu pai, este lado musical sempre foi muito forte lá em casa, meu pai escutava o que minha mãe escutava; minha mãe tem aquela cultura musical bem brasileira, de modinha, de samba. E meu pai é mais sofisticado, com jazz. Já tinha isto no sangue, eu tocava já violão. Aí eu conheci uma moça que era atriz e trabalhava numa peça ali no Bexiga, na Rua Treze de maio, acho que chamava Teatro Treze de Maio, comecei a namorar e eles estavam montando uma peça que alguém precisava tocar baixo. Eu falei: “Eu vou”. Estava namorando a moça mesmo, a atriz da peça, depois a gente morou junto, foi quando eu saí de casa para morar fora de casa de vez. Primeiro eu dividi o apartamento de um amigo, que me apresentou esta moça, e depois eu morei uns anos com ela. Mas eu comecei a tocar baixo na peça e fui conhecendo o pessoal do meio, do teatro, vários músicos. Ao mesmo tempo eu já tinha os meus amigos do rock’n’roll, da época que eu ia no Teatro Vereda. Até eu estava conversando outro dia sobre isto, como a gente se conheceu, porque eu tenho vários amigos, o padrinho do meu filho eu conheci nestes shows de rock, quando a gente tinha quatorze, quinze anos. Aí comecei a tocar, fui criando gosto e montei uma banda de rock, tocava com os amigos, queria seguir carreira. Aí veio o lado legal da minha família. “Você quer? Quer tocar? Legal”.

P/1 – Mas aí você tinha quantos anos?

R – Uns dezoito, eu acho. 

P/1 – Nesta época do Vereda você tinha dezesseis?

R – Quinze, dezesseis anos. 

P/1 – Foi quando você parou de estudar?

R – Foi quando eu parei de estudar. Aí eu comecei a estudar com o Luís Chaves, no CLAM [Centro Livre de Aprendizagem Musical], comecei a estudar baixo, música mesmo. 

P/1 – Você fazia aula?

R – Fazia aula, que foi uma coisa legal que meus pais fizeram. “Você quer ser músico? Vai estudar música. Você quer ser artista plástico? Vai estudar História da Arte”. Meu pai me empurrou para a Escola Brasil, uma escola de arte, mas eu fiquei um pouquinho só lá, eu já estava nesta transição de não saber direito o que eu queria fazer, eu só sabia que eu não queria ficar fechado dentro de um escritório, de uma sala, esta foi a principal motivação. Nesta época eu tinha vários amigos que estavam estudando fora do Brasil, que foram estudar música nos Estados Unidos, eu sempre gostei de jazz e rock e tal, deste lado mais “jazzístico” da música, e resolvi que queria estudar lá. Meu pai estava trabalhando na Globo, então ele tinha grana para poder me mandar pro exterior, mas para estudar lá eu tinha que terminar tanto o ginásio quanto o colegial. E aí eu fiz Madureza, que era o supletivo da época. Então eu estudei, entrei no INDAC, fui retomar as matérias todas. Então eu primeiro fiz madureza do ginásio, fui fechando as matérias, viajando pelo Brasil. Fiz exame em Vitória.

P/1 – Por quê? Você já tocava?

R – Não, porque você ia eliminando as matérias e fazendo exames onde tinha os exames. 

P/1 – Ah, eu não sabia disto. Como que é? Conta.

R – Era interessante. E tinha lugares que falavam que era mais fácil, então falavam: você vai prestar lá que é moleza. E era meio lenda isto, porque as provas eram provas mesmo, com conteúdo e tudo. Se você sabia a matéria, você passava, se nãos sabia, bombava. Era normal, você ia eliminando. Humanas eu eliminei no primeiro exame, depois tive que dar um gás legal, estudar bastante. E o engraçado foi na época que eu tive uma doença chamada mononucleose, e tive que voltar para a casa da minha mãe. E eu já estava estudando baixo acústico e o meu professor, que foi o Gerson, ia me dar aulas na casa da minha mãe, e ia o professor particular para me ensinar matemática, física e química para eu poder eliminar essas matérias também. Então primeiro eu fiz a Madureza do ginásio e depois do colegial. E prestei exames em Vitória, Três Lagoas, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, outro lugar, em Minas Gerais também. Você eliminava duas aqui, uma lá. Eu me preparando para a prova e eliminando. E quando peguei o diploma do colegial eu já estava namorando outra moça, com quem me casei, e fui com ela para os Estados Unidos estudar música, que é a mãe da minha filha. 

P/1 – Ela é música também?

R – Não, na época ela era bailarina. Fiquei lá uns anos e voltei.

P/1 – Quanto tempo você ficou lá?

R – Quase três anos. 

P/1 – Você foi estudar, mas trabalhava também?

R – Eu tocava lá também. Logo fui pegando uma bandinha aqui, uma bandinha ali.

P/1 – Você tocava na noite? 

R – Nos bares, nos clubes de jazz.

P/1 – A carreira estava crescendo.

R – Estava indo super bem.

P/1 – E por que você voltou?

R – Ela queria voltar, queria voltar, queria voltar. Eu queria ficar. A minha ideia era voltar e uma hora retomar os estudos, mas eu nunca voltei. Eu voltei, a vida continuou e foi embora. 

P/1 – Vocês se separaram logo depois?

R – Não, depois nasceu minha filha e uns anos depois a gente se separou.

P/1 – A sua filha nasceu quando?

R – Em 1981, ela está com trinta anos.

P/1 – Nasceu aqui no Brasil?

R – Nasceu em São Paulo. 

P/1 – Como é o nome dela?

R – Alice.

P/1 – E vocês vieram morar onde, quando vocês voltaram?

R – No Brooklin, numa travessa da Rua Bartolomeu Feio, legal lá, uma casinha muito agradável. E nesta época eu tocava na noite aqui em São Paulo, em vários lugares.

P/1 – E como você pensava em encaminhar a sua carreira?

R – Eu fui fazendo contatos, retomando contatos antigos e tal. E aquela coisa de músico, o telefone começa a tocar, você começa a ser requisitado, começa a pegar um trabalhinho aqui, um trabalhinho ali. 

P/1 – Que trabalhos você fez?

R – Eu tocava em vários lugares da noite: Sanja, Penicilina, Lei Seca, Casablanca. Estes lugares onde a gente tocava mais um jazz funk, um jazz rock, que era na época... Tinha alguns trabalhos em hotéis. Aí comecei a acompanhar artistas fazendo shows pelo Brasil, vários.

P/1 – Que artistas? Você não tinha banda?

R – Não, sempre fui “freela”.

P/1 – Que músicos?

R – Maria Alcina, Perla, Manolo Otero, um monte.

P/1 – Qual foi o primeiro que te chamou? Como foi?

R – O primeiro foi a Maria Alcina, era muito legal trabalhar com ela. Quem me chamou foram amigos, chegados, que faziam parte da banda dela. O baixista saiu, foi morar em Paris, e aí me chamaram para entrar nessa banda, aí eu fui e trabalhei uns anos com ela. Viajei o Brasil umas dez vezes fazendo shows. 

P/1 – E a Perla?

R – Eu também fui substituir um grande amigo, foi muito legal. Ela fazia muito sucesso na época. Com o Manolo Otero também, trabalhei alguns anos com ele, foi ótimo, a banda era super legal. Ixe, mas um monte de gente.

P/1 – Qual foi um trabalho que te marcou?

R – Foi com o Manolo Otero, que foi onde eu conheci a Jô. A Jô era vocalista e a gente viajou junto. A gente já estava namorando, já estávamos praticamente casados, morando juntos, então foi super legal unir o útil ao agradável: além da gente viajar, trabalhar, estava sempre junto, fazendo o que a gente mais curte fazer.

P/1 – Quando você conheceu a Jô?

R – Em 1987. 

P/1 – Como foi?

R – A Jô era super amiga do baterista que trabalhava comigo, o Viana, e ele apresentou a gente um dia. E papo vai, papo vem, começamos a namorar e um mês depois a gente já estava morando junto.

P/1 – É mesmo? Aí pegou este trabalho de viajar.

R – Aí pegamos este trabalho de viajar e ano que vem vai fazer vinte e cinco anos que a gente está junto.

P/1 – E vocês estabeleceram uma parceria?

R – A gente tem o nosso dueto, Jô e Tuco. E dez anos depois nasceu o Tom, nosso filho. A gente deu um pulão, hein?

P/1 – Voltando lá atrás, você, nos Estados Unidos, tinha esta perspectiva de ficar.

R – Eu tinha a perspectiva de continuar estudando, me formar, mas no final tive que interromper. Mas eu interrompi pensando em voltar e terminar, mas nunca rolou, nunca aconteceu.

P/1 – Quando chegou aqui você nunca teve vontade de criar uma banda?

R – Eu até participei de várias bandas, mas não me sentia membro da banda mesmo.

P/1 – Quais bandas?

R – Teve Coisas do Gênero, que foi uma banda muito legal, que era o Danilo, o Marcinho, o Werneck, o Nico, o Gigante. Foi quando eu conheci esta turma. Foi muito bom, a gente trabalhou anos; fizemos um projeto muito bacana, era mais pop rock. Ao mesmo tempo era um pessoal que... O Marcinho trabalhava em publicidade, nesta época comecei a entrar para publicidade, fazer trilhas. Eu trabalhei também com uma banda legal, chamada Pé Ante Pé, que era o jazz brasileiro, um trabalho de música instrumental. Toquei muitos anos com o Bocatto, gravei os primeiros discos dele; trabalhei uma época com A lua meia meia, que era muito bacana também. Que aí já era na época do AeroAnta, Dama Xoc, uma época super legal de São Paulo, porque havia lugares super bacanas para a gente tocar, a noite era bem animada.

P/1 – Você tocava nestas casas?

R – Tocava.

P/1 – Sempre tinha trabalho?

R – Sempre tinha trabalho. Foi uma época que eu acompanhei a Patrícia Marques. Se rodar o carretel vai aparecer muita coisa.

P/1 – Você gostava dessa coisa de trabalhar na noite?

R – Gostava bastante e ainda gosto, eu gosto do que eu faço. E é bem interessante esta história de ter optado por alguma coisa, que eu sabia que não queria ficar fechado num lugar. A minha natureza sempre foi de sair, viajar, mudar, trabalhar com várias pessoas diferentes, vários tipos de música diferente. E sempre toquei com meu irmão, o violeiro Paulo Freire, a gente está junto desde moleque.

P/1 – Ele só tocava, antes lá com você. Destas bandas que você ia...

R – O Paulo começou tocando violão clássico, foi para Paris estudar violão clássico. Mas quando ele voltou para o Brasil, acho que foi na época que eu estava nos Estados Unidos, ele fez aquele trajeto do Guimarães Rosa pelo interior de Minas e levou a viola. E foi aprender viola lá em Urucuia e ficou morando lá, aprendendo viola com os violeiros de lá. Quando eu voltei ele já estava violeiro e desde então eu trabalho com ele. O Paulo Freire Trio, que é com o Adriano Buzzo também, há uns anos atrás a gente fez trinta anos tocando juntos. Gravamos vários discos.

P/1 – Que momento você começou a viver da música?

R – Quando eu voltei dos Estados Unidos. 

P/1 – Você se sustentava com o dinheiro da música?

R – Depois, quando eu comecei a fazer publicidade, a fazer trilhas comerciais, estas coisas, foi onde deu mais grana. Trabalhar com os artistas dava uma grana boa também, às vezes era complicado, mas dava um dinheiro legal. Mas desde os anos 80... Aliás, a minha carteira da Ordem dos Músicos, eu tirei quando voltei para o Brasil.

P/1 – Vocês voltando dos Estados Unidos a sua filha nasceu.

R – Nasceu quando a gente voltou para o Brasil. 

P/1 – O que mudou no seu cotidiano?

R – O cotidiano mudou, porque a vida muda depois que a gente tem filho. Ela nasceu, eu ainda passei um tempo legal com a mãe dela e depois começou a nascer um conflito. A nossa separação foi ideológica, eu queria uma coisa e ela outra. A minha filha ficou morando com ela, lógico, ela tinha três anos. Bastava eu ser pai para manter os laços de pai e filho. A coisa foi melhorando, mas foi bem duro na época da separação. Muda tudo depois que a gente tem filho, aquela ideia de você estar solto no mundo acaba. Tudo bem, eu posso até me sentir solto no mundo, mas eu tenho uma responsabilidade, acompanhar aquela figurinha lá.

P/1 – Quem exercia o cotidiano, mais sua mulher ou você?

R – Olha, eu fazia o possível. Na época eu viajava muito e era muito jovem, eu tinha vinte e sete anos, mas estas coisas de separação... é bem complicado. Ela sempre estava comigo, viajava comigo, ficava os fins de semana. E a gente tem uma relação legal até hoje.

P/1 – O que ela faz?

R – Ela é artista plástica. Mas foi bem marcante na minha vida a paternidade, eu gostei, achei legal. 

P/1 – Quando você saiu você continuava sempre viajando.

R – Foi uma época que eu estava viajando muito. 

P/1 – Você se separou e foi morar onde?

R – Primeiro na casa de um amigo, rapidamente, um casal de amigos geniais, que me receberam super bem.

P/1 – Que amigos?

R – A Malu Oliveira e o Sabona, Marco Botino. Já foi também. Mas a Malu sempre que eu encontro a gente lembra desta época e é super legal. Eu passei uns meses aqui com eles e depois o meu pai me deu uma força e eu aluguei um apezinho na Rua Monte Alegre, em frente à PUC. E fiquei um tempinho lá até me enroscar de novo, casar, daí, de lá eu fui morar na Avenida Rouxinol, depois da Monte Alegre.

P/1 – Como você foi parar no Ibirapuera?

R – Quem vive de aluguel é assim: procura, acha, vai para um lado, vai para o outro. E ali era um prédinho que... sempre tive esta ideia, além de ter pouca grana precisava morar num lugar mais baratinho, eram aqueles prédinhos antigos, de três andares, sem elevador. A gente alugou um apê no terceiro andar.

P/1 – Você e a Jô?

R – Não.

P/1 – A gente quem?

R – Era eu e a Niobe, que eu fiquei casado com ela dois anos ou três. A gente se separou, eu continuei neste apartamento, chamei um amigo para dividir as despesas comigo, o Tino, que hoje em dia... Quer dizer, o Tino, que eu conheci no Teatro Vereda, nos shows de rock, quando a gente tinha quinze anos, que hoje em dia é meu grande amigo, padrinho do meu filho. A gente dividiu anos apartamento lá na Rouxinol. Quando a Jô começou a namorar comigo ela foi morar lá neste apartamento da Rouxinol. Aí a gente saiu da Rouxinol e fomos morar na Oliveira Dias, perto do parque, uma travessinha da Brigadeiro, perto da São Gabriel. Também num prédinho sem elevador, estes de três andares. O Tom nasceu lá e de lá a gente veio morar aqui em Pinheiros, onde a gente está até hoje.

P/1 – Vou voltar tudo. Agora queria que você falasse um pouco destes shows do Vereda, como eram?

R – O Teatro Vereda, teatro Paiol, era o começo do rock’n’roll aqui. A gente era os poucos cabeludos que havia na cidade e, putz, era muito legal. Foi quando eu conheci todo este pessoal do rock que está aí.

P/1 – Você se conheceu no teatro. O pessoal se apresentava e você era público?

R – Era público, eu era artista plástico na época, eu trabalhava com artes plásticas.

P/1 – Mas você conhecia o pessoal?

R – Eu conhecia um ou outro, mas como sempre tive muita facilidade de comunicação, eu fui me apresentando. 

P/1 – Quem se apresentava lá?

R – Made in Brazil, nossa, era muito legal. O Lanny tocava nesta época, eu era muito fã do Lanny Gordin. Tinha várias bandas que faziam cover de Led Zeppelin, Mc5, Black Sabbath, o repertório era este. Eu sempre fui roqueiro, na minha adolescência toda, fui completamente fã de Hendrix, Led Zeppelin, eu me identifiquei totalmente com esta praia. E éramos poucos, a gente via um cabeludo na rua, já podia ir bater papo. A gente comprava disco no Museu do Disco, eu trabalhava na João Adolfo e aí eu ia a pé até a Dom José de Barros, onde ficava o Museu do Disco, ficava lá até fechar a loja e daí eu voltava para casa. Meu amigo Miguel era vendedor na época. E o Miguel sumiu, ele foi para um lado e eu pro outro, desde aquela época, e nos encontramos de novo no facebook (risos), foi a maior festa este reencontro. Gente importante na vida da gente. 

P/1 – E no Teatro Paiol você ia também?

R – Ia, porque tinha os shows de rock lá e era sempre a mesma turma, sempre o mesmo... Tinha os Mutantes, que eram os mais famosos, mas eram amigos pessoais da gente, tudo garotada.

P/1 – Você conheceu os Mutantes lá?

R – Não, eu conheci através de amigos. Eu era muito amigo da Lucinha __, do Jonas, que tocava com meus amigos numa banda chamada Distorção Neurótica, o Jonas é primo do Liminha. Foi juntando tudo. Eu era muito amigo do Leo, o Leo era um cara que foi “holding” do Tutti Frutti, dos Mutantes. Acho que foi um dos primeiros “holdings” do Brasil. Mas a gente se conhecia mais pela afinidade musical, pelo jeito de se vestir, pela idade, não tinha muito esta história de... Eu era muito amigo do Polé, de quem fui assistente de arte, era um cara muito ligado nesta área, era amigo do Alain Voss, que era um grande artista plástico, que fez a capa de vários discos dos Mutantes. No final era uma turma só esta galera desta época, hoje em dia as tribos são muito variáveis, vai muita gente.

P/1 – Naquele começo você tocava rock’n’roll.

R – Tocava rock’n’roll, tocava baixo elétrico e rock’n’roll. Quando eu resolvi estudar música estava mais ligado, procurando mais pro lado do Jazz.

P/1 – Que culminou na sua ida para os Estados Unidos.

R – Antes, que eu já estava fazendo aula, já comprei um baixo acústico, fui estudar com o Luís Chaves. Já houve uma transição para aquilo que eu ouvia quando era moleque, que eu adorava, que era o que meu pai escutava.

P/1 – E seu pai e sua mãe acompanhavam a sua carreira?

R – Sim, sempre juntos. Eles se separaram quando eu tinha quinze, dezesseis anos. E eu me separei também. Foi a época que eu conheci a [Mitota] e fui morar com ela.

P/1 – Você tinha quantos anos?

R – Dezesseis, dezessete anos. 

P/1 – Como que era o universo das drogas?

R – Sou desta geração sexo, drogas e rock’n’roll. Total. Universo das drogas era pequeno, assim, a gente fumou maconha, tomou bastante LSD, que eram as drogas da época.

P/1 – Você lembra da sua primeira viagem de ácido? A que mais marcou?

R – Foram várias. Eu já lia o Ginzberg, tinha uma formação. Eu sempre gostei de ler, sabe, antes de tomar eu já tinha uma noção do que era. E a primeira vez que eu tomei foi um amigo que chegou de Londres e trouxe vários ácidos de Londres e deu um de presente para a gente, a gente tomou na praia. Foi super legal até o ponto que um destes meus amigos teve uma “bad trip” e a gente teve que sair da nossa viagem para tomar conta dele. Foi um negócio que me deu uma percepção de que não é para qualquer um, não é para qualquer hora. Diferente da maconha, a maconha era light. Eu sempre me dei muito bem com ela, inclusive, até poucos anos atrás.

P/1 – Você fumava em casa com seus pais?

R – Fumava.

P/1 – Seus pais usavam drogas?

R – Olha, na época eles já estavam se separando, meu pai ficava muito tempo fora de casa, os amigos dele fumavam também, ele nunca foi do ramo. Ele gostava de bebida mesmo, de uísque para falar a verdade. Mas teve uma época que a minha casa virou o único lugar do bairro onde a gente podia fumar sossegado, ouvindo música. Meu pai já tinha saído de casa, então a gente se fechava onde era o escritório dele, ficaram lá a vitrola e os discos, tudo, e onde eu tinha a minha prancheta também, onde eu fazia os meus desenhos. A minha casa continuou um “point”, onde os amigos se encontravam. Foi muito legal também por isto. Nunca fui preso, nunca aconteceu nada de drástico na minha vida.

P/1 – E você comprava com que grana nesta época? Com seu dinheiro mesmo, você já trabalhava?

R – Eu trabalhava e meus pais sempre me ajudaram, né? Sempre que eu ficava duro, “ah, estou duro”. “Tó, quanto você precisa?”, “Isto tudo eu não tenho”. Nunca teve uma pressão.

P/1 – E quando você namorava, quando você foi morar com a sua namorada, com dezesseis anos, vocês que se sustentavam?

R – Imagine, a gente ganhava mesada.

P/1 – Vocês moravam em casa sozinhos ou com mãe e pai?

R – A gente alugou um apezinho.

P/1 – Com dezesseis anos?

R – Primeiro a gente morou junto, eu dividia um apartamento com um amigo, na Rua Augusta. Este amigo, que já foi também... Na época eu já estava trabalhando um pouco e meu pai me ajudava com uma grana também, para pagar a minha parte do aluguel. A gente foi morar neste lugar com o meu pai me ajudando. Na época o meu pai começou a ficar famoso como terapeuta e ele sempre me deu a maior força para eu fazer as coisas que eu achava que eu tinha que fazer. A minha mãe também sempre me ajudou, mas ela era mais: “Meu filho, o que você está fazendo?”. Meu pai já...

P/1 – Quantos anos você tinha quando seu pai começou a fazer sucesso na terapia?

R – Como terapeuta? Olha, acho que eu já tinha uns vinte anos. Ele começou a fazer a área de psicanálise. Já começou a desenvolver o que ele veio a criar depois, a somaterapia e tal, já começou dali a ser um cara diferenciado no meio. 

P/1 – Você participou de alguma sessão? Você tinha amigos que participaram?

R – Não, mas tinha amigos que participavam. Teve uma época, entre uma separação e outra, que eu passei morando no quartinho onde ele tinha consultório.

P/1 – Onde era?

R – Era na Rua Guarará, nos Jardins, travessinha da Pamplona. Eu lembro que eu passei uns meses morando no quartinho dos fundos da casa dele. Foi aí que eu vi que eu tinha amigos que faziam terapia com ele, pais de amigos que faziam terapia com ele. Mas eu nunca fiz análise, ou talvez tenha feito a vida inteira, não sei, mas não ocorreu isto. 

P/1 – Você lembra das viagens? Tipo grupos que se formaram depois?

R – Nunca tive a menor relação. Nunca participei mesmo. Eu viajava com meu pai, às vezes, ele fazia os grupos dele lá em Mauá, mas eu ia para o outro lado.

P/1 – Você não ficava lá?

R – Não, imagina. Se tivesse um grupo em Mauá, no nosso sítio, eu ficava em outro lugar.

P/1 – E o sítio era de vocês?

R – O sítio era do meu pai.

P/1 – Vocês iam sempre para lá? Vamos falar do sítio.

R – Desde que a gente ficava em hotel lá. Putz, é uma lembrança bem no começo mesmo. Eu devia ter o quê? Uns dezoito anos.

P/1 – E ele comprou o sítio para o trabalho?

R – Não, ele ia porque gostava e porque ele escrevia lá. Ele ficava em Mauá para escrever. Depois que ele começou a desenvolver a somaterapia, que ele começou a levar grupos para lá. No começo ele ia para se divertir e para trabalhar. Tem a casa da Ilhabela, que ele teve durante muitos anos, foi também para isto. Tinha a casa para escrever, morava lá e ficava lá escrevendo. 

P/1 – Os seus irmãos iam? Também não participavam?

R – Também não, também não. 

P/1 – Era um trabalho, uma “trip” dele.

R – E a gente sempre teve a nossa “trip”, nossa viagem, nossos amigos, nossos trabalhos, nossos interesse, completamente fora deste universo.

P/1 – Quanto tempo teve o sítio?

R – A gente vendeu o sítio agora, para pagar os últimos anos de vida do meu pai, que foram bem complicados, ele teve que morar num lugar com uma assistência.

P/1 – O que aconteceu?

R – Ele teve vários problemas de saúde, e ele sempre falou: “Quando eu ficar velho, e começar a dar trabalho, não quero filho meu cuidando de mim”. Ele sempre foi muito independente por este lado. Quando ele começou a ter problemas físicos, de precisar de cuidados e mais, ele mesmo achou um lugar, que era muito bacana, um recanto de idosos que tinha o apartamento dele no meio de um bosque. Super legal, super bem tratado. Aí ele quebrou o fêmur, já morando neste lugar, e neste lugar ele começou trabalhando, recebia as pessoas, saía, voltava, viajava um pouco. 

P/1 – Ele continuou trabalhando?

R – Ele trabalhou até o final da vida quase. Mas aí quebrou e nunca mais levantou. E ainda ficou mais uns três anos deitado. Aí foi tendo várias complicações, câncer, e no final faleceu lúcido, mas já não andava há alguns anos, há alguns anos que ele estava deitado numa cama. Mas sempre lúcido, bem humorado, divertido.

P/1 – E os pacientes o procuravam?

R – Não, os amigos, só os amigos. Ele formou três assistentes e os últimos anos de relação deles foram neste recanto. Eles iam lá, o João, a Vera e o Goya. 

P/1 – E a sua mãe, como foi a relação com ele? Eles se encontravam? Mantinham algum tipo de relação?

R – Sempre foi muito bacana a relação deles. Depois da separação, não demorou muito tempo, a minha mãe casou de novo, com um médico, cirurgião, que faleceu agora, este ano. Ficou casada mais de trinta anos com ele.

P/1 – Seu padastro.

R – É, estepe do pai. Não era padrasto.

P/1 – Não, porque existia o seu pai. Mas vocês se davam bem? Ele assumiu a família?

R – Eu não morei com ele. A gente se dava super bem, ele tinha sete filhos, então foi super tranquilo. Este lado sempre foi muito tranquilo, muito honesto, então facilita muito as coisas. Não tinha dramas familiares, nada muito fora do... Ficava triste, ficava contente, com certos acontecimentos, mas tudo muito conversado, tratado. Muito companheirismo na história toda da família.

P/1 – Este legado do seu pai tem acervo?

R – Toda a obra do meu pai, os livros de literatura, ele fez em péssimos contratos com editoras no final da vida dele. E estas editoras sumiram, faliram, não sei o que aconteceu, e então a família, eu e meus irmãos, nós somos os herdeiros da obra, que está com a gente, mas não temos editora ainda, estamos procurando há anos. Meu pai ainda era vivo quando a gente estava procurando a editora. Então só se acha livros dele em sebos, que são livros que foram “best sellers”.

P/1 – Por que não acha editora?

R – O mercado editorial é bem complicado, eles estão buscando novidades, lançamentos, novos autores... Pelo menos até agora a gente já tentou várias, mas não houve interesse nenhum. Todos adoram: “Ah, o livro do seu pai foi muito importante para a minha vida, conheço, li tudo”, mas no final ninguém abraça.

P/1 – O que você acha que, do pensamento do seu pai, conscientemente falando... porque dá para perceber na trajetória, mas você fala assim “isto é uma marca dele, isto ele passou para a gente”?

R – O respeito pela vida, pela individualidade, pela criatividade espontânea. Este lado que ele tinha, de respeitar e de estimular um cara que não compactua com este jeitão imposto pela sociedade, de viver; de buscar dentro de você mesmo uma originalidade, uma coisa que é só sua. E se libertar destes conceitos impostos por pai e mãe, sociedade, que são umas regrinhas bem esquisitas, que eu vejo, e a gente conversava muito, que o maior criador de neuroses, o que mais atrapalha a vida, é a expectativa dos pais, da mãe, para o filho ser alguma coisa que eles querem e não aquilo que ele naturalmente quer ser, ou tem tendências a ser. Então isso atrapalha muito. Foi uma sorte que eu tive de ter nascido neste meio, onde foi estimulado aquilo que eu conseguia ser, e não aquilo que eu precisava ser. Esta é a ideia que fica, mais forte.

P/1 – E a sua mãe compactuou.

R – a minha mãe compactuou mais ou menos, porque a minha mãe é mais conservadora. Ao mesmo tempo sempre foi uma pessoa muito amorosa, e que do jeito dela confiou que ia dar certa. Ela era mais medrosa, mais dentro deste... mas ela confiou que isso ia dar certo, este jeitão aí. A gente foi educado muito solto, essa época propiciava isso. Hoje em dia as crianças, se ficam soltas demais se perdem, se ficam presas, não sei, não sei explicar, mas na época que a gente cresceu esta liberdade que a gente tinha foi muito importante.

P/1 – E seu pai teve outras mulheres?

R – Teve várias outras mulheres.

P/1 – Alguma que marcou mais?

R – Para mim? Não. Porque no final se tornaram todas minhas amigas, são minhas amigas até hoje. 

P/1 – Você estabeleceu este contato de virar amizade.

R – Depois de certa época da vida da gente você tem afinidades com pessoas, tem gente que nunca mais você vai ver também. É super interessante isto. E meu pai sempre gostou de pessoas mais jovens, então a maioria das namoradas dele, das mulheres dele, são pessoas da minha geração. Continuo encontrando, vendo. É sempre bacana o contato.

P/1 – Na sua adolescência você fazia aquele trabalho de artes plásticas, você parou de estudar. O seu cotidiano era o quê?

R – Namorar, passear, viajar. Ouvir muita música, coisa normal de adolescente, jovem.

P/1 – Tinha festas?

R – Tinha festas. As festas que tinham eram antes, na época que eu estudava no Santa Cruz, os bailinhos. Adorava os bailinhos.

P/1 – O que tocava nos bailinhos?

R – Ah! Imagina! O que tocava era Joe Jeffrey Group, [The] Archies, e o pessoal da soul music, que era super forte na época, Ray Charles, Wilson Pickett, Aretha Franklin, começo de Stevie Wonder, My Cherie Amour. E já era um começo de Led Zeppelin, de Beatles, para caramba, Stones. Eu sempre estive muito ligado à música. Eu adorava os bailinhos que, além das meninas, tinha sempre a oportunidade da música, sempre envolvido com isto.

P/1 – Seu pai te ajudou na carreira musical. E sua mãe?

R – Também. Uma coisa que foi bacana é que eles respeitaram o que eu me propus a fazer, e acho que demonstrei seriedade quando eu resolvi estudar. Eu não tinha aquele negócio de autodidata, eu fui até certo ponto tocando sozinho e depois fui estudando, que eu consegui desenvolver mais a minha profissão. 

P/1 – Você falou que quando você começou a tocar com os músicos, o Manolo te deu a régua e o compasso. Depois da Maria Alcina teve a Perla. 

R – Não. Nenhum deles, nenhum deles.

P/1 – Qual te deu a régua e compasso?

R – Foram os próprios músicos, os companheiros de trabalho. Dentro da música o artista é um... é legal, ele tem um repertório e tal, mas a gente aprende mesmo é trabalhando com outros músicos. Eu, como sou contrabaixista, não sou solista, eu vivo de acompanhar as pessoas, eu vivo de entrar numa banda e me adequar àquele repertório, àquele artista. Eu sempre gostei disso, de fazer parte do grupo, não tenho este negócio de ser o cara lá da frente, muito pelo contrário. Gosto de ficar bem discreto onde estou. Mas a ideia da música vem do grupo, da banda que eu to tocando. Com estes caras que eu aprendi, eles que... cada um dos músicos com quem eu toquei na minha vida foi quem me deu realmente a direção. E continuam dando. A gente vive muito da generosidade de quem a gente está trabalhando. Se o cara é meio regulado, meio viadinho, meio fresquinho, você já fala: “deixa eu fazer logo o que eu tenho que fazer aqui”, agora, se a pessoa é envolvente, generosa, troca uma ideia, é bacana, aí a música faz “fiiiu”. Não tem segredo, isto é alquimia mesmo. 

P/1 – No seu encontro com a Jô vocês resolveram fazer um duo. Como foi isso?

R – Afinidade, a gente gosta das mesmas coisas, a gente gosta do mesmo estilo de música. A música que nos uniu, a gente se conheceu através da música. Aí fomos trabalhando, trabalhando, trabalhando. No começo foi só namoro, depois a gente começou a trabalhar junto acompanhando... Um dia chegando e casa, um olhou para cara do outro e falou: vamos tocar. Aí começamos a tocar e estamos tocando até hoje.

P/1 – É uma parceria que dá certo? Vocês se apresentam? Como é?

R – Ah é. A gente faz poucos shows. Agora a gente gravou este novo disco. Nós tentamos Proac [Programa de Apoio à Cultura do Estado de São Paulo], estes editais, não conseguimos nada. Então nós montamos um triozinho e vamos começar a fazer um shows agora. Queria lançar este disco de um jeito, com cenário, iluminação, mais músicos, mas não rolou nenhum edital para nos proporcionar dinheiro para fazer isto. Então estamos montando um pequeno trio: eu ela e mais um baterista. Quando tiver grana a gente chama um solista, mas vamos fazer os lançamentos. Vai começar o mês que vem. 

P/1 – Quem faz os contatos para tocar?

R – Nós mesmos. Aliás, a gente começou com um quinteto. E ficou tão difícil chamar os músicos, sem grana, né? Quando você tem grana você fala: tem ensaio dia tal, estamos pagando tanto. Fica tudo beleza, todo mundo precisa trabalhar, então a gente virou dueto rapidinho. E era bárbaro este quinteto, era com o Gigante Brasil, o Jarbas Barbosa e o Marcelinho Maita. A gente desenvolveu um trabalho bacana, mas no final a gente virou dueto e quando tem grana a gente chama os músicos para nos ajudar e quando não tem vamos só nós mesmos. É gostoso trabalhar em dueto, a gente toca por osmose mesmo. Já virou uma coisa natural

P/1 – Vocês têm uma relação tranquila, bem tranquila.

[Pausa]

P/1 – Aí você casou com a Jô e nasceu seu filho Tom. Depois de quanto tempo?

R – Dez anos. A gente ficou dez anos convivendo e tal e aí resolvemos que tinha chegado a hora, foi super legal. Ele está com treze anos. 

P/1 – Ele também mudou a sua realidade, seu cotidiano? 

R – Mudou o cotidiano total. A gente não tem empregada, a gente cozinha, leva na escola. Vira um processo muito legal.

P/1 – Vocês passam o dia inteiro juntos, você e a Jô?

R – A gente fica. Uma coisa que nos uniu bastante foi esta capacidade de ficar em silêncio juntos. Os dois são quietos, a gente fica quieto junto e está tudo bem, não tem desconforto nenhum. Fica um fazendo uma coisa aqui, outro fazendo uma coisa ali, dentro de casa. E às vezes a gente faz junto, como cozinhar junto, conversar, cuidar do Tom junto, tocar. Mas temos a vida separada também, sempre respeitada e estimulada. A gente gosta das mesmas coisas, então facilita muito.

P/1 – Que coisas?

R – Literatura, arte. A vida gira muito em torno disso, muito em torno de cultura. Os interesses culturais são os que realmente fazem a casa, além das coisas do cotidiano, que a gente faz junto com o maior prazer. Eu sou louco por futebol, sempre fui. Até operar a coluna jogava duas, três vezes por semana. E sou super são paulino, então assisto todos os jogos do São Paulo, arrastava ela pro estádio comigo. O Tom também gosta muito de futebol, minha filha é super são paulina, a gente tem este negócio em casa. E a Jô não liga muito para futebol, como eu não ligo muito para algumas coisas que ela tem interesse. Então chega esta hora e vai cada um para um lado. Ou então, por exemplo, ela não vai assistir a final do campeonato comigo, mas no estádio ela já foi algumas vezes prestigiar e fazer companhia. Isto é super legal, tem este lado que facilita muito a vida, que é um curtir o que o outro faz, independente de ser a mesma coisa.

P/1 – E o Tom, como ele é?

R – O Tom é uma figurinha. Super legal; vai super bem na escola, moleque esperto, interessado. Está estudando guitarra agora. É super comunicativo, é ótima companhia. Se dá super bem com a irmã dele... É engraçado, porque são de mães diferentes, mas põe um do lado do outro e você fala: é farinha do mesmo saco.

P/1 – Se encontram, convivem?

R – Se encontram, convivem super bem. É super engraçado ver os dois juntos.

P/1 – Qual o teu maior sonho hoje?

R – Ter saúde. Bastante saúde para todo mundo. Continuar vivendo esta vidinha normal, sem muita coisa, não precisa de muita coisa não. Você falar em sonho, assim, não tenho; eu vivo muito no dia a dia. Por isso que eu falei saúde, poder prestar atenção no que está acontecendo comigo, com as pessoas que estão em volta. Eu gosto muito desta tranquilidade de poder estar fazendo as coisas. Neste momento é a coisa mais legal que tem.

P/1 – Se você pudesse mudar alguma coisa na tua trajetória de vida, você mudaria?R – Se pudesse... esta loucura que você me perguntou agora, se eu pudesse ter mudado alguma coisa na minha vida, eu mudaria... Não sei até que ponto eu posso me abrir com vocês, falar uma coisa muito pessoal. 

P/1 – Total.

R – A questão do alcoolismo. Eu não gostaria de ter passado o que eu passei.

P/1 – Você foi alcoólatra?

R – Eu sou alcoólatra. Mas estou há onze anos sem beber, graças ao Alcoólicos Anônimos. Eu passei uma época negra da minha vida.

P/1 – Já casado com a Jô?

R – A Jô me deu a maior força. A Jô ingressou no Al-Anon um ano e meio antes de eu entrar.

P/1 – Al-Anon é parente?

R – Amigos, familiares, gente que convive com alcoólatras. E o alcoolismo é uma coisa que você não fica alcoólatra de uma hora para a outra. Você desenvolve durante anos. Demora uns vinte anos para você chegar no ponto que eu cheguei e não morrer.

P/1 – Por quê? Você bebia todo dia?

R – Todo dia, muito.

P/1 – Desde a manhã?

R – Desde a manhã. O dia que eu acordei e precisei beber foi quando eu entendi que eu era alcoólatra. 

P/1 – Não era só vontade, era o corpo pedindo?

R – A diferença é a seguinte: no começo eu bebia porque queria; depois eu precisava. Eu precisava beber para poder fazer barba, para sair na rua para conversar com alguém. E aí eu conheci o Alcoólicos Anônimos e frequento até hoje. Coordeno reuniões, abro a porta pro grupo, recebo as pessoas.

P/1 – Você ficava agressivo?

R – Não. 

P/1 – Como você ficava? Deprimido?

R – Não, eu ficava muito bêbado mesmo. (risos). Tinha apagamentos, não me lembrava do que eu tinha falado, do que eu tinha feito. Mas eu sempre fui pacífico, nunca briguei com ninguém a minha vida toda. Acho que eu briguei uma vez no jogo de futebol, quando eu estava no ginásio, no Santa Cruz ainda. Mas eu não tenho este lado violento, não tenho este negócio de sair na mão. Nunca saí na mão com ninguém. Mas a intoxicação pelo álcool leva a uma loucura, né, e a uma falência física total. Eu estava quase morrendo quando eu parei de beber. 

P/1 – Você bebia muito?

R- Muito.

P/1 - Durante quantos anos você ficou bebendo muito?

R – É um processo, mas nos últimos dois anos... A coisa pegou mesmo foi em 1996, 1997. Meu filho nasceu em 1998 e eu parei de beber em 2000. Eu ainda vejo filmes dos primeiros aniversários do meu filho que tem um gordo com um copo na mão e um cigarro na outra, que eu não gosto muito. Este cara sou eu. Então a pergunta que você fez sobre se eu pudesse ter mudado alguma coisa, eu tiraria esta parte do alcoolismo. Realmente não foi nada agradável. Hoje em dia está tudo certo, eu não tenho o menor problema em contar esta história e eu acho que eu ajudo muita gente também, falando que dá para sair desta. Mas tem que ter uma puta sorte.

P/1 – Sorte e determinação, né? 

R – Eu considero uma sorte porque, por exemplo, eu frequento os alcoólicos anônimos há onze anos, eu já vi um milhão de pessoas entrarem e umas duas ou três ficarem. A maioria ou continua a beber ou morre ou vai em cana, ou fica louco. Por isso que eu considero sorte.

P/1 – Você não toma uma gota hoje? Onze anos que você não toma nada?

R – Nada. Guaraná, sorvete, eu virei um...

P/1 – Baseado?

R – Não, baseado parei de fumar faz uns seis anos. Hoje em dia sou um careta limpeza. (risos) Então esta parte só que eu tiraria.

P/1 – E as reuniões são semanais? 

R – Diárias.

P/1 – Você vai todo dia lá?

R – Se eu puder, vou, se eu não tiver trabalho, estou lá. Para um cara que acordava e ia beber, pegar uma reuniãozinha de uma hora, duas horas por dia, não faz nada. E ainda assim eu tenho a chance de além de fazer o meu tratamento, assim, aliviar a minha barra, eu posso ajudar alguém que está chegando.

P/1 – E você acha que isto te ajuda até hoje a manter a não beber?

R – O espírito é este.

P/1 – Cada dia um dia.

R – É. Antes de ingressar nos Alcoólicos anônimos eu já tinha esta perspectiva de viver um dia de cada vez, isto já foi meio uma coisa que eu trago desde moleque, mas agora reforçou, agora reforçou bem. Tem aquela história do evite o primeiro gole, mas isto é para quem está chegando. Porque na verdade não pode beber, não é evitar. Se você evitar o primeiro gole, você não vai tomar o segundo. Porque o alcoólatra, quando ele toma o primeiro, tem que beber pelo menos uma garrafa. Se ele não tomar o primeiro, no começo vai ter aquela crise de abstinência bem forte, vai sofrer para caramba e tal, mas depois passa e vai melhorando. É complicado, mas eu tive muita sorte. Eu tive a ajuda que eu tive e de ter parado mesmo. Porque, por exemplo, com outras drogas, teve uma época da cocaína que eu falei: “não quero mais cheirar esta porcaria”. E parei. Parei. Eu achava que com a bebida ia ser a mesma coisa, mas não foi. Porque a bebida está aí, onde você vai está todo mundo bebendo, você entra no boteco e pede, entra no supermercado e compra, é completamente diferente de qualquer outra droga. Foi muito legal, foi muito legal eu ter conseguido escapar desta. Eu me considero um sobrevivente.

P/1 – Quando você parou seu filho tinha quantos anos?

R – Dois. Ele não pegou. A minha filha pegou, a minha filha pegou. Inclusive ela passou a adolescência morando com a gente, ela pegou uma fase braba do meu alcoolismo. Mas ainda não era o finalmente. Eu estava bebendo muito, mas ainda trabalhava.

P/1 – Você deixou de trabalhar por conta disso?

R – Não fazia nada, um cara que acorda e vai beber não faz porcaria nenhuma. 

P/1 – Quanto tempo você ficou assim?

R – Fiquei uns dois anos assim. Terminal.

P/1 – E a Jô segurando a onda de grana, de trabalho.

R – Tudo, tudo. E não me deu um pé na bunda também. Que é o mais normal acontecer, que seria natural que acontecesse. Mas ela acreditava, ela tinha aquele pensamento “adiantativo”, intuição. 

P/1 - Intuição.

R - Só pode ser. Ao mesmo tempo também, as coisas que a gente passa na vida te ensinam. É muito difícil a gente não ser aquilo que a gente imagina. A gente só consegue ser aquilo que a gente é, e o que eu sou hoje em dia tem esta parcela do alcoolismo dentro do pacote. Eu tinha que passar por isto.

P/1 – Você tinha que passar, você acha?

R – Se eu vivi isto é porque eu tinha que viver isto. Eu não fiz esta opção, mesmo. Tem uma história que eu acho engraçada...

P/1 – Você é religioso?

R – Nada. Minha espiritualidade… Por exemplo, se levar em conta o que se chama de espiritualidade aí, posso dizer que a minha espiritualidade é zero, agora, o que eu consigo pensar nestes termos é que se eu for um cara legal, um cara bom com os outros seres humanos, eu já estou fazendo a minha parte, já está muito bom. Porque eu não consigo pensar em nada mais além disto. Nível superior, espiritual, não. Eu vejo uma coisa muito simples, que está na capacidade de você ser honesto e legal com quem está do teu lado. Se eu conseguir fazer isto para mim já tá ótimo. para mim isto é espiritualidade, não tem mais... E religião não tenho nenhuma. A minha mulher é budista, filosofia budista, né, ela já foi bem praticante, mas hoje em dia está menos. Ela estudou muito, isso é uma coisa que... A gente até fazia uma brincadeira na época porque o pessoal chegava para mim e falava: “E você, é budista também?”. Eu falava: “Não, eu sou baixista”. (risos). Então tem bem este lado mais simples, pode se chamar até de raso. Sei lá.

P/1 – O que você achou da experiência de dar este depoimento pro Museu?

R – Super legal, tranquilo. Tem estes cinquenta e sete anos de história que eu contei para você, pulei muita coisa, omiti muita gente, mas o legal é que quando a gente conta essas histórias vêm as imagens das Perdizes, das pessoas com quem eu trabalhei, as pessoas com quem eu convivi, as namoradas, as mulheres. Você dá uma levantada nesta turma toda. Principalmente os ambientes. Cheiro me lembra de coisas, músicas me lembram de coisas. 

P/1 – Que cheiros que te lembram assim, de cor?

R – Jasmim me lembra coisa da infância; cheiro de mandioquinha me lembra o pavor que eu tenho de tomar sopa de mandioquinha. Cheiro de mandioquinha eu vou pro alto da montanha total, fujo. Música me traz muitas lembranças de época. Eu ouço umas músicas e me lembro das namoradas que eu tinha, a época que eu vivia. E passam uns filminhos na cabeça. 

P/1 – Fala de uma música específica.

R – Sketches of Spain, do Miles Davis e Bill Evans, é um disco que me lembra esta edícula que meu pai trabalhava. Fire, do Hendrix, também me traz a lembrança de um lugar onde eu encontrava um pessoal, que era super legal. Um monte de músicas que me remetem a um lugar específico. Pink Floyd me lembra uma viagem de ácido. Tenho um monte de memórias deste jeito.

P/1 – Que bom que te deu esta realizada.

R – É sempre bom. Eu olho para trás, eu olho pouco para trás, mas eu gosto do que eu vejo. Tudo até agora foi bem legal, bem legal. E é uma coisa que eu prezo mesmo, ter tido a liberdade que eu tive. Quando eu estava no ginásio, na época o mundo proporcionava isto. Eu falava para minha mãe que ia para a escola, mas eu ia para Santos e voltava no fim da tarde com a maior cara de pau. “E a janta? Já tá na mesa?”. “Como foi sua aula?”. “Foi ótima”. 

P/1 – Você fugia para Santos?

R – Eu tinha amigos lá, a gente ia comprar cigarros importados. 

P/1 – Ia ao porto?

R – Ia no porto, ficava passeando na orla, tomava banho de mar, tinha umas namoradas lá, umas paquerinhas. Outro mundo.

P/1 – Vocês iam de ônibus?

R – Ia de ônibus, pegava o ônibus na rodoviária e descia na Ponta da Praia. Eu viajei muito de carona. Teve uma época que eu já estava trabalhando e tal, eu tinha uns amigos que tinham casa na Barra do Sahy. Eu pegava um ônibus na Ponta da Praia e ia de carona até a Barra do Sahy e voltava no domingo de carona com alguém que estava lá na praia.

P/1 – Como era a Barra do Sahy?

R – Era bárbaro. A gente ia pelas praias, não tinha a Rio Santos ainda, demorava um dia para chegar e um dia para voltar. Fazia parte. Outro dia eu fui para a casa deste mesmo amigo, a gente lembrou os velhos tempos, da época que a gente ia. Eu tenho esta facilidade de fazer amigos, eu tenho amigos que continuam amigos, a gente fica décadas sem se encontrar, mas parece que quando se encontra o papo continua de onde parou. Isto é muito legal. Conheço muita gente. As viagens que eu fiz são coisas que eu gosto muito de lembrar.

P/1 – Estas pelo Brasil? para fora também você fez bastante turnês?

R – para fora eu ia mais viajar sozinho, não foram tantas assim. Eu ia viajar com meu pai, mas não lembro o que aconteceu, se ele teve algum problema de saúde. Era uma viagem que ele queria fazer para me mostrar uns lugares na Europa, que ele conhecia. Ele gostava muito disso. Com o Paulo ele fez, com o Beto também, comigo ele não conseguiu fazer. A gente já tinha as passagens compradas, e foi logo que eu conheci a Jô. E eu fui sozinho e fiz uma viagem super bacana. Eu sempre fiquei bem sozinho, tudo bem ficar sozinho, eu gosto de ficar quieto sozinho, e esta viagem foi super legal, porque eu comprei um "Europass", viajei de trem sozinho pela Europa inteira. E era aquele negócio, não tinha que falar com ninguém “E aí, onde nós vamos agora”. Eu pensava e ia; dava vontade de comer, eu comia; dava vontade de dormir, eu dormia. Não tinha negociação nenhuma. Então foi bem interessante. Eu acho que foi a última vez que eu fiquei sozinho. Depois foi ou viagem a trabalho, ou em família ou com namorada, com esposa. E eu fazia muito isso, sair sozinho. Mas depois voltava e encontrava tudo de novo do jeito que eu tinha deixado. Eu sempre gostei de fazer isto.

P/1 – Você ainda viaja bastante a trabalho?

R – Viajo.,esta profissão realmente faz bastante viagens. Eu gosto, eu gosto de ficar em hotel, de andar de avião, de carro, de ônibus, de qualquer jeito. Acho legal esta história. Como eu falei no começo, a perspectiva da vida no escritório era tudo que eu não queria. Esta história de sair, ir para cá e para lá, eu estou na minha praia. Quer dizer, agora não, agora já cansa. Eu viajava muito e tal, passava em casa só para trocar de roupa às vezes, trocar de mala. Agora quando pego umas empreitadas com uma série de shows, quando eu volto, demoro uns dois, três dias para ficar bom de novo. Deve ser a idade, né? (risos)

P/1 – Que bom. Deve ter milhares de coisas que a gente não falou.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+