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História

Lembranças de uma mãe amorosa

História de: Rubens Kutner
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/09/2011

Sinopse

Rubens foi criado em família judaica e, apesar da pouca religiosidade, conviveu bastante com tradições e em ambientes de cultura judaico-cristã aqui no Brasil. A família era sócia do Clube Hebraica, ele estudou no Bialik e fez intercâmbio para Israel aos dezessete anos. Um homem de poucos amigos, mais reservado, Rubens é um amante do cinema e da música clássica, paixões que herdou de seus pais. Lembra da infância no insurgente bairro de Pinheiros de forma saudosa. Acabou cursando Publicidade na faculdade, e é Ouvidor do ensino superior, profissão em que necessita calma e clareza, segundo ele. A relação com a mãe foi a coisa mais marcante em toda a sua a vida, e quis contar a sua história para deixar registradas as lembranças da mãe amorosa e presente que teve em toda a vida. 

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História completa

P/1 - Então, pra começar vou pedir pra você falar o seu nome completo, a data do seu nascimento e o local do seu nascimento.

 

R - Ok. Tá. Olho pra lá?


P/1 - Tanto faz, fica à vontade.

 

R – É, meu nome é Rubens Kutner, eu nasci em São Paulo, na Pró-Matre Paulista. É...em 15 de dezembro de 1962, por tanto lá se vão quarenta e oito anos, né.


P/1 - E você conheceu seus avós? Teve convívio com eles?

 

R – Convivi com os quatro avós, felizmente. Com os paternos, sobretudo com o meu avô paterno, menos tempo. Ele morreu em 1970, por tanto eu tinha sete pra oito anos, mas lembro bem dele. Com a minha avó, ela morreu em 1979, então eu já convivi mais, mãe do meu pai. E com os meus avós maternos eu convivi bastante. Até, sei lá, até 1994 é...1991 a minha avó materna e 1994 o meu avô. Eram bastante presentes, ficavam com a gente em casa e...tanto meu pai como a minha mãe são filhos únicos, né. E eu tenho um irmão mais velho, Saulo, com cinco anos de diferença. Então a família, o núcleo central é bastante reduzido, assim, eu não tenho a figura de tios, primos. Era sempre uma coisa muito restrita, quer dizer, em termos de números de pessoas. Nós somos judeus, eu nasci aqui em Alto de Pinheiros, né. Quando os meus pais construíram a casa, eles mudaram em abril, eles foram pioneiros aqui no final da Natingui. Não existia nada aqui, quer dizer, eles vieram realmente porque foram obrigados a vir, porque eles moravam de aluguel e aí chegou uma hora que...resolveram construir a casa, com muita dificuldade, mas conseguiram construir e tiveram a sorte de construir em um local que depois ficou super valorizado e em um bairro bom, onde a gente pôde crescer, enfim. Mas de qualquer maneira eles foram pioneiros e vieram pra cá...Eles tinham até uma história engraçada que um casal de amigos também se comprometeu a morar próximo e construíram na mesma época, só que a mulher desse casal, ela disse que só mudaria se minha mãe mudasse. E aí minha mãe mudou e ela não mudou, ela mudou muito tempo depois quando o bairro já estava, é, de certa forma mais constituído, né. Pra vocês terem uma idéia, a minha mãe, naquela época não tinha telefone, ela ia a pé até a Pompéia, subia a Pereira Leite, pegava a Heitor Penteado, ia até a Pompéia pra poder fazer um telefonema, quer dizer, só existia telefone na Pompéia. Então, eram outros tempos, né. Hoje é uma época que você entra numa loja e compra um celular, você imagina...Tô falando dos anos 1962 especificamente. Tem um dado curioso também com relação a casa, que eles plantaram dois pés de Jacarandá, Jacarandás e...eles fizeram um cerco e...esse cerco era comido porque tinha os...tinha o gado, né, como aqui tem a Estrada da Boiadas, Macunis aqui em baixo era conhecido com Estrada da Boiadas. Então aqui era uma região onde tinha, tinha bichos, né? Difícil de acreditar hoje em dia em 2011, mas foi uma região também povoada pelos bichos, né.


P/1 - E seus pais eram daqui de São Paulo mesmo?

 

R - Minha mãe não. Minha mãe era de Pirajuí. Minha mãe já é falecida há dois anos e oito meses, meu pai é vivo ainda. É...Meu pai nasceu em São Paulo, mas morou a primeira infância na Argentina. Ele ficou dos seis aos treze anos na Argentina. Minha mãe é do interior de São Paulo, de Pirajuí, perto de Bauru. Ela veio com dez anos pra São Paulo.


P/1 - E seus avós eram migrantes?

 

R - Meus avós nasceram na Polônia, com exceção do meu avô paterno que nasceu na Hungria. Eles vieram fugidos da guerra, naturalmente, né, e acabaram...Os meus avós maternos vieram pro interior porque já tinham uma cunhado da minha avó que morava lá. Então você pode imaginar nos anos 1930, ter saído da Europa; eles tinham uma condição razoável na Europa, vieram sem nada pra cá. Quer dizer, com uma "mão na frente e outra atrás" e tiveram que começar em um país novo, com língua nova e tudo mais. E foi lá onde minha mãe nasceu. Até, diz que tem algumas pessoas famosas que nasceram em Pirajuí: Minha mãe que é a mais famosa delas; a Carmen Mayrink que veio, que é uma socialite aí dos anos 1950 e 1960; o Raul Martel que foi governador do Estado de São Paulo e um cantor chamado Tito Marte. Então, são as pessoas mais famosas de Pirajuí. Pirajuí hoje virou um cadeião, quer dizer, uma cidade onde tem lá as cadeias. Eu não vou pra lá há trinta anos. Nós voltamos uma única vez para tentar rever a casa onde minha mãe tinha nascido e morado, enfim. Ela falava com muita...esse registro afetivo da primeira infância, ela tinha pés de manga, é uma pessoa que sempre gostou de manga porque toda vez que comia manga se transportava para a infância dela, né. E...mas também com, sempre com muita dificuldade e tudo mais, mas nunca, nunca foi uma pessoa de ter, assim, registros tristes, apesar de todas as dificuldades, uma pessoa bastante positiva com a vida.


P/1 - E seus avós passaram a trabalhar no quê? Que que eles faziam?

 

R - Eles trabalhavam, assim, como mascate, quer dizer, tinham um pequeno comércio. E...o meu outro avô, por parte do meu pai, também trabalhou como sapateiro, trabalhou como violinista em cinema mudo, essas coisas que hoje são profissões que já não existem mais, mas que de alguma maneira para um senhor que nasceu em mil e oitocentos e alguma coisa eram possíveis de serem feitas. Mas o meu pai era um cara que se formou, o meu pai é Engenheiro Civil da POLI, da turma de 1949, então ele já, já foi a primeira geração que pôde estudar. Minha mãe fez só secretariado na Armando Álvares Penteado, trabalhou muitos anos em uma empresa que era, que fazia agenda, chamava Brindes Pombo do Ernesto Rothschild. E meu pai trabalhou durante muitos anos em uma empresa chamada SOBRAF, que era a Sociedade Brasileira de Fundações. Ele é especialista em, em mecânica dos solos, em pré-moldados, então, nós tivemos uma infância bastante feliz, assim, sem grandes recursos, mas também sem grandes privações. Então, eu pude estudar em bons colégios, eu tive acesso à coisas boas, então, nesse sentido a gente foi bem educado, né, tivemos essa sorte. Se é que isso tem algum valor. Quer dizer, tem valor pra gente, né, individualmente, não sei se isso é valorizado por alguém a não ser por nós mesmos, né.


P/1 – E Rubens, me conta um pouco da lembrança que você tem dessa casa. Porque a casa na qual você nasceu foi essa casa em Pinheiros?

 

R - É, essa casa foi construída e,. como eu falei antes ela, é...concluída em abril de 1962 e eu nasci em dezembro de 1962. Portanto, quando eu nasci eu já vim direto pra essa casa. O meu irmão morou no Bom Retiro e depois veio pra cá com quatro, cinco anos. É...eu tenho uma história muito forte com essa casa, né, porque eu cresci nela e eu morei até três anos atrás. Quer dizer, eu não morava, mas eu voltei a morar depois nos últimos anos aqui também. Eu morei até os vinte e cinco anos na casa, depois fui morar sozinho, morei muitos anos sozinho. Depois quando minha mãe adoeceu, eu voltei a morar com ela. Eu fui cuidador da minha mãe, né. A gente teve alguns problemas familiares e aí eu tive que voltar. Mas essa casa era uma delícia, é uma delícia, é uma casa muito confortável, é uma casa grande, então a gente tinha quintal, tinha jardim, tinha espaço. A rua, é, se contava o número de carros que passavam por ela porque era uma rua absolutamente tranquila até bem pouco tempo atrás. É...sei lá, era um clima muito de interior, acho que as pessoas se conheciam, não é? Tinham uma relação próxima, sem muita intimidade, mas próxima com os vizinhos, cumprimentavam, quer dizer, havia um relacionamento. Eu pude andar muito de bicicleta, era o que eu gostava de fazer mais do que esportes coletivos, mas eu sempre andei muito de bicicleta, sempre corri. Do lado tinham terrenos baldios e a gente brincava de minas, porque a gente achava que, tinha pés de mamonas, então a gente brincava com mamonas, tacava mamonas, construções, fazia barracos. Eu quando brigava em casa fugia pra esses barracos que a gente fazia nesses terrenos. Eu acho que eu tive uma infância bastante feliz, assim, né, bem...bem alegre. Não me lembro de nenhum grande percalço assim. Os percalços infelizmente começaram a acontecer mais recentemente (risos) e aí, acho que vieram com força total, mas de qualquer maneira até então não me lembro, assim, de ter esse registro triste. Pelo contrário, né, pude ter acesso a muita coisa como eu falei.


P/1 - Você comentou um pouco sobre coisas como a passagem dos bois, dos animais aqui pela Rua dos Macunis, que outras ruas que eram muito diferentes no bairro que chamam atenção?

 

R - Olha, eu lembro da figura do sorveteiro que quem morou em Alto de Pinheiros lembra desse sorveteiro que era um cara que vinha de fato à cavalo e ele fazia um sorvete de massa e tudo mais. Ele até recentemente tinha. Na própria Natingui tinha um cara, no qual o que, inclusive o pessoal que fazia filmes e tudo mais, alugava com ele, que era um homem que alugava cavalos, até anos dois mil e alguma coisa ainda tinha esse senhor aqui próximo da Natingui. É...na Alame...na Rua das Corujas aqui, né. Que era um senhor que parecia uma figura de circo, assim. Então esses personagens sempre existiram. Sorveteiro da Kibon tradicional, vendinhas de bairro, né, essas coisas eu acho que alguns lugares ainda resistem bravamente, né. Não lembro de coisas tão esquisitas, mas esse sorveteiro em especial, que vinha à cavalo, eu lembro bem, né. Enfim, essas coisas, não sei se eram tão exóticas assim, mas hoje pode ser que pareçam exóticas, né.


P/1 - Rubens, você já falou um pouco dos seus avós, mas eu queria entender sua freqüência, as viagens...as visitas aos avós na infância. Que lembranças você tem?

 

R - Tá. Os meus pais, eu lembro...eles saíam aos sábados basicamente. Nós somos uma família que...eu herdei isso dos meus pais, o meu irmão também, nós gostamos muito de cinema, então desde sempre...e das artes em geral. O meu pai e a minha mãe são, minha mãe não porque é falecida, mas enquanto viva era uma apreciadora de música Clássica. Meu pai, toda vez que terminava o jantar ele, como programa oficial, ao invés de ligar a televisão, ele ouvia música. Quer dizer, o ouvir música e o ouvir música Clássica sobretudo, era um programa na minha casa. Então a gente cresceu muito envolvido e se valorizava muito isso. Então os meus pais saíam aos sábados e os meus avós ficavam com a gente. A gente não tinha a figura de babás ou empregadas, quer dizer, os avós é que cuidavam. E eles dormiam lá. Então de sábado pra domingo os avós dormiam, então, esse convívio ficou sempre muito próximo. Sobretudo com os meus avós maternos. Eu me lembro depois já depois dos dezoito anos eu levando eles pra casa deles no final de semana. O meu avô tinha uma particularidade, o meu avô tinha um problema...ele era surdo, mas era um alguém que esquecia a surdez porque ele tinha um atividade, ele trabalhava em uma loja na José Paulino durante anos. E eu lembro dele como um homem bastante forte, religioso e muito...lia o Estadão de ponta à ponta e...era um homem boníssimo, assim, super generoso e...e brigava com a minha avó que era uma mulher baixinha, de estatura assim e ela gritava com ele, enfim, eles acharam um jeito de conviver durante sessenta anos apesar da surdez dele, o que era muito engraçado e divertido, né, essa convivência. É, o meu outro avô como eu disse convivi menos porque quando ele morreu eu tinha oito anos. Convivi com a minha avó. A minha avó mãe do meu pai, ela teve uma trajetória um pouco mais triste porque ela ficou internada durante muitos anos em um lar de velhos, né. E...ela tinha esclerose então, quer dizer, a relação era de visitas semanais, a gente ia todo final de semana, sobretudo aos domingos, mas já era uma...um convívio mais restrito, já não havia um diálogo, quer dizer, era uma coisa afetiva, mas, mas pela própria doença uma coisa mais restrita. Ela era uma mulher muito interessante, né, assim, antes da doença, porque ela tinha dois irmãos que moravam na Argentina, em Buenos Aires. E ela sempre teve uma relação muito forte com a Argentina. Um dos irmãos era médico e o outro era farmacêutico. Daí o meu pai ter passado essa primeira infância na Argentina porque foi uma das tentativas de se...ganhar dinheiro um pouco. E ela tinha uma qualidade de vida muito boa quando ia pra lá, quando vinha pra cá, o meu avô era um homem de poucas posses e ela reclamava muito disso, então ela preferia ir lá porque ela era paparicada pelos irmãos e pelas cunhadas. Então ela fazia esse trajeto. Tanto é que uma vez ela ficou uma grande temporada lá, assim, ela ficou vários meses lá porque ela não era boba nem nada, sabia que todo mundo gosta do, da coisa mais confortável e aqui a coisa era mais dura, né, quando ela tinha que voltar pra cá. Ela sempre foi uma mulher muito vaidosa, tudo mais e depois teve esse final de dez anos de uma doença bastante grave e teve uma limitação. Mas eles foram...eu cresci ouvindo que, tanto de um lado quanto do outro, eles receberam dos pais, tanto a minha mãe quanto o meu pai, o que os pais tinham pra dar. Eles não eram pessoas, com o meu pai e com a minha mãe, muito afetivas, mas não eram pessoas ruins nem nada, né. Acho que era uma forma de se relacionar que naquela época, né. A gente aqui questiona mais, reclama, mas a gente quer afeto, carinho, dinheiro, muito dinheiro. Nós somos uma geração, vocês são mais jovens talvez sejam um pouco diferentes, a gente reclamou muito, questionou muito e exigiu muito dos pais, então eles...O que é natural também, né, acho que sempre há essa, essa...diferença entre gerações. Eu provavelmente recebi mais do que meu pai recebeu do pai dele e essa era a desculpa pra não dar mais também (risos). Mas de qualquer maneira estamos aí, né.


P/1 - Rubens, aproveitando a deixa, você já falou um pouco do seu pai, que ele se formou engenheiro, conta um pouco mais dessa relação com o seu pai e com a sua mãe.

 

R - Bom, eu sou um edipiano confesso, então a minha relação com a minha mãe é muito próxima porque por temperamento nós somos muito parecidos, então sempre estive muito mais próximo dela do que dele. Ao contrário do meu irmão que sempre foi mais próximo do meu pai. Também por temperamento, meu irmão seguiu a carreira do meu pai, também é engenheiro, também é politécnico, então cumpriu todas as expectativas. Eu como o mais novo não repeti essa expectativa que talvez ele quisesse ou gostasse, mas a gente tem que vingar de algum outro jeito, né. Eu sou uma outra pessoa e naturalmente é...até a proposição a gente acaba procurando outras coisas. Eu sou publicitário de formação, enfim...Mas eu tenho um temperamento muito diferente do dele. Então a minha relação com ele sempre foi uma relação muito complicada, mas com a minha mãe pelo contrário, sempre foi uma relação bastante...Há quem diga, sobretudo o meu irmão, que eu fui mimado pela minha mãe, né. Que essa é a queixa sempre dos irmãos, né, quer dizer que...Mas não é verdade, isso é...isso é uma reclamação que não procede. Havia sim essa proximidade por conta de interesses, de uma visão de mundo, relações muito próximas, mas não que houvesse qualquer preferência. Enfim, acho que essa é uma queixa entre os irmãos, sempre tem alguém que tem ciúmes, né?


P/1 - É. E você falou um pouco das rotinas, por exemplo, da coisa ouvir música. Que outros programas? Que outros aspectos?

 

R - Olha, eu lembro muito quando eu era pequeno que tinha que cumprir a...tinha que voltar, interromper a brincadeira pra tomar o lanche da tarde, isso era uma coisa que sempre, assim, minha mãe não deixava barato, tinha que voltar, podia estar onde estivesse, fazendo o que fosse, mas tinha que voltar pra tomar o lanche. Minha mãe era muito...rigorosa com essa coisa de horários, tanto é que ela sempre disse que a gente enquanto pequeno não dava trabalho. Tinha lá, uma rotina, a gente cumpria horários e tudo mais. Esses problemas viram quando a gente se transformou em adultos, não é. A reclamação dela era não quando a gente era pequeno é... Mais ouvir música, a música sempre envolveu a casa. É...uma coisa que se fazia muito se, numa época de calor, por exemplo, se abria a janela da sala que era uma janela muito grande, se apagava as luzes e sentava-se e ouvia música. Esse era um programa. Se fazia todas as noites, o que era uma coisa engraçada. Não que não assistisse televisão, a gente assistia televisão, mas a música estava sempre presente, né, e música Clássica, sempre... Eu por exemplo sou um ignorante em música, sou apreciador, mas não conheço. Meu pai e minha mãe eram apreciadores e conhecedores de música. É...então era uma rotina tranqüila, assim, era uma casa, não me lembro nada assim de brigas, nada muito fora do normal, né. As brigas aconteceram depois. Acho que tudo que aconteceu com a nossa família, foi uma família que talvez tivesse escondido as coisas durante anos...aquela história das migalhas de baixo do tapete que um dia começam a aparecer as, as baratas, né. Mas não, não havia. Meu pai e minha mãe tinham uma relação estável, tinham uma relação afetiva entre eles, quer dizer, não existia é...nenhuma grande animosidade, o que veio a acontecer depois no final da vida. Mesmo entre os irmãos também, nós éramos companheiros eu e o meu irmão, mas não éramos, assim, das, de gangues próximas, assim, cada uma tinha os seus amigos. Ele não, não fazia com que eu participasse da roda dele nem nada, né. Mas a gente tinha algumas brincadeiras juntos, a gente fazia campeonatos de, de futebol, de bicicleta, carrinho-de-rolimã, enfim, todas essas coisas, kart, tinha uns vizinhos que tinham kart, então a gente andava de kart que era o máximo. E...enfim.


P/1 - E as lembranças de escola agora, né. A primeira escola? Foi aqui na região? Como é que...

 

R - É, eu estudei no Bialik que é aqui em Pinheiros, na Simão Álvares, é...quando eu entrei ainda tinha o que se chamava prezinho, né, Pré-I, Pré-II, que eu nem sei se hoje existe mais, era Educação Infantil e lá fiquei até o Ginásio, até a oitava série, a... E só saí de lá porque na época não tinha ainda o, o que era o antigo Colegial, hoje o Ensino Médio, né. É... acho que dois ou três ano depois é que a escola abriu o seu Colegial. É...eu gostava da escola, era uma escola pequena, eu tinha um problema muito sério porque eu não era um bom aluno, apesar de nunca ter repetido, eu sempre fui um aluno mediano e o meu irmão sempre foi o melhor aluno do colégio, então as comparações eram inevitáveis. Então eu tinha a cobrança também, porque se um era muito bom, eu tinha que ser também muito bom. As pessoas se esquecem sempre de que eu sou uma outra pessoa, não sou (risos) o meu irmão. Mas eu nunca repeti nem nada, quer dizer, mas essa cobrança sempre foi muito forte, assim. E depois é... a gente acabou convivendo com essas pessoas muitos anos, né, quer dizer, eu fiquei lá quatro de primário mais quatro, oito, uns dez anos, né, entre o pr...bastante tempo. Mas são amizades que eu mantenho até hoje, quer dizer, a gente tem encontros anuais e são amizades fortes assim, né. A gente não tem convívio diário, mas a gente quando se vê tem um registro afetivo bom, positivo. Tinha o...o integral, né. Duas vezes por semana a gente passava o dia inteiro, tinha doze disciplinas e aí era um saco, né, porque tinha que ficar lá o dia inteiro, das sete da manhã até das seis da tarde. Tinha, lá, todas as disciplinas tradicionais, mais Educação Artística, Contabilidade, Educação Musical, Ginástica, enfim, todos pra preencher uma jornada de várias horas, né, quase doze horas. Francês, Inglês...eu tive uma boa formação, assim, e por ser um colégio judaico então tinha também a história judaica presente, então, muito forte. Não era um colégio religioso, era um colégio com orientação judaica, sem ser religioso, né, porque dentro da instituição existem uns que são fundamentalmente religiosos. Não era o caso. É...que mais?


P/1 - E aí desse período escolar você, acho que você falou do cinema que também era muito forte. Que outras atividades? E o que você lembra do cinema, primeiro, né?

 

R - Eu lembro do cinema desde, desde muito cedo, em Clube na Hebraica, que a gente era sócio, né. É...não me lembro exatamente que filme, mas era alguma coisa de submarino, alguma coisa de mar, essa é, é o primeiro registro, assim. Devia ter, sei lá, uns sete anos, pode ser até que eu tivesse ido antes, mas essa imagem do clube é a imagem mais...a primeira imagem com relação ao cinema. E desde então eu, nós somos ratos de cinema, assim, a gente vai e… A minha formação eu poderia dizer que está muito mais ligada ao cinema do que aos livros, né. Proporcionalmente eu li menos do que vi filmes, então a informação está toda ela...é cinematográfica. Então eu tenho um bom registro, isso graças aos pais que iam também, eles sempre foram. É...


P/1 - E na Hebraica também existiam atividades? Qual eram as....

 

R - É, eu fazia a escola de esportes lá, mas eu nunca fui ligado ao esporte. Eu fiz, tive um ou outro episódio assim, de, de nadar com campeonatos, mas eu...nunca...a minha atividade sempre foi muito mais intelectual do que esportiva. Ao contrário do meu irmão que também sempre gostou, sempre fez, fez rugby, participou da seleção de rugby, de remo, enfim, estudou na USP, fez...Eu nunca fui ligado ao esporte, infelizmente até, eu nunca tive esse especial interesse, né.


P/1 - E você falou um pouco agora, tinha falado da orientação judaica, do colégio. Eu queria entender um pouco como que era a rotina em realização à religião, vocês tinham determinadas...?

 

R - A gente sempre respeitou as grandes festas, né. Nós íamos à Sinagoga só nas grandes festas, portanto no Yom Kipur, no Rosh Hashaná , no Dia do Perdão, no Ano novo. E ia nessas cerimônias, eu fiz o Bar-mitzva que é a maioridade religiosa judaica aos treze anos, mas nada muito, assim...Porque os meus pais não eram...eles respeitavam em função do meu avô... Do lado do meu pai é um desastre essa questão da religião porque ninguém nunca...éramos, sempre fomos judeus, nunca negaram isso, mas não, não tinham essa coisa da religiosidade. O meu avô materno, o meu avô José sim era um cara religioso. Então minha mãe por conta disso fazia, né. Mas não era uma casa cuja alimentação era Kosher, nada disso. Quando eles vieram, já bem mais tarde, morar com a minha mãe, aí ela respeitava porque eles eram...faziam isso. É só a alimentação, não fazia essas coisas das louças nem nada. E eu frequentei esse ambiente, né, que dizer, tô sempre próximo disso. Hoje, até menos próximo do que eu gostaria. Então...


P/1 - Você falou um pouco dos grupos de amigos que você começou a fazer na escola, né. E quais são outras rotinas além da escola? Que lugares vocês iam aqui no bairro? Tinha, além da Hebraica?

 

R - A gente ia...shopping, né. Na época era o Iguatemi mais quando éramos pequenos, né. É...e assim, eu não me lembro de...agora você me pegou, assim, de...algum lugar específico eu não, não sei. Se não a gente tinha, um dos amigos tinha, fazia campeonato de botão então a gente ia na casa dele. É...íamos a festas todos os finais-de-semana, né, tinha aquela, tinha gangues, né, desde sempre, tinha...Eu lembro que tinha um...se falava muito na gangue do...como é que era o nome do cara? Tinha o Rato Ortan ou alguma coisa assim. Começou-se naquela época com os Chacos que eram as, os armamentos, né, então, a gente achava o máximo quem ouvisse falar de alguém que soubesse manusear isso, porque a gente muito mais tarde é que foi manusear e não sabia, naturalmente porque não tinha nenhuma tradição nisso, né. Não existiam essas academias que tem hoje, que fazem esses treinamentos inclusive com a introdução de alguns equipamentos. É...mas eu nunca fui briguento, eu era uma cara...bastante bagunceiro, era um cara muito falastrão, bancava as minhas coisas, nunca...sempre assumi diante da coordenação, da direção, nunca tive problemas com relação a isso. Quer dizer, não tinha problemas ao encarar, depois tinha os problemas, as conseqüências de ter encarado (risos)...em casa naturalmente. Os colégios judaicos eles são, não existem donos, eles são como se fossem associações de pais que os administram e o meu pai participava da administração então, naturalmente pra ele, ver o filho dele envolvido em qualquer problema disciplinar não devia ser alguma coisa muito satisfatória. Ele chegou a ser diretor, não diretor acadêmico, assim, mas fazia parte do conselho e tudo mais, então...como voluntário, né. Então vira-e-mexe eu era chamado à direção acadêmica com possibilidades de suspensão e, enfim, aquelas coisas. Nunca fui expulso, né, nada disso. Eu acho que talvez por ser um colégio pequeno, eu me comportava de maneira mais exacerbada, assim. Depois eu fui pra outros lugares e não tive nenhum grande problema, não era um aluno encrenqueiro.


P/1 - E desse período tem algum professor marcante?

 

R - É, é engraçado, né. Na figura dos professores, eu hoje trabalho com educação e acho que talvez a figura do professor seja...aliás a profissão, uma das mais nobres. Pouquíssimo valorizada infelizmente, porque o professor hoje está destituído de poder em sala de aula, né, mas eu acho muito importante. Mas eu nunca tive um professor que tivesse, assim, uma influência a ponto de poder representar uma, um caminho a seguir ou um estímulo em especial. Eu lembro com carinho de alguns professores, mas nenhum assim, que dissesse: "Puxa, aprendi a gostar de Matemática por conta desse professor.Ou de Física ou de Francês”. Nada disso. Eu acho que eram todos míseros, eu acho, acho que era muito entediado com essa vida acadêmica. Eu nunca vi muito sentido nela, eu não era alguém que...Então talvez por isso que também eu tenha sido um aluno mediano, porque eu não, não via muito sentido naquilo que eu estava estudando. E eu sou um cara que preciso pra me sentir motivado, precisa fazer algum sentido, né, senão não tem. Então eu acho que eu transcorri esses anos todos meio entediado, assim. Gostava das relações, das pessoas com as quais eu convivia, mas do estudo e dos professores, eu não tive nenhum grande professor marcante. Me lembro de...professores engraçados, né, professores mais simpáticos, menos simpáticos, mais violentos, enfim, lembro de... E sempre fazendo muita bagunça, sempre fazendo muita bagunça. Sempre andava com a turma do fundão e era muito provocador nesse sentido. Mas não lembro, acho que não existiu esse grande mestre. Eu acho até legal, acho bonito quando você ouve alguma pessoa dizendo: "Puxa, eu escolhi Biologia porque o meu professor de Biologia era uma cara fascinante, me fez...facilitou o entendimento dessa disciplina". Eu acho que eu não tive isso, assim, não tive essa figura, infelizmente! O grande mestre, né.


P/1 - Agora, por outro lado você falou um pouco da, da turma do fundão, das bagunças e o que que vocês faziam? O que que...

 

R - Eu acho que a gente falava e hoje eu vejo que a gente desrespeitava também muito os professores. Mas era um outro desrespeito, quer dizer, era...eu nunca xinguei, eu nunca, é...acho que eu conversava, basicamente era isso. Acho que tinha uma indisciplina, uma insubordinação meio natural de qualquer adolescente. Hoje, é, eu percebo que as pessoas tentam taxar, né, dizer: "Bom, o cara é hiperativo, não pára, ou tem déficit de atenção". Todas essas nomenclaturas que são modismos da pedagogia moderna, né, e que são uma bobagem na verdade, porque se a criança é muito quieta tem alguma coisa de errado nela, não é natural que a criança seja... Eu acho que era dentro dos limites, é claro que pro professor aquilo talvez fosse um exagero. É...fazia algumas coisas, provocava turmas de séries mais acima pra mostrar que éramos poderosos também, a gente, mas nada assim, nunca coloquei uma bomba por exemplo (risos). Jogava-se papel no teto, essas coisas, né, que acho que hoje são até banais, né, porque tem neguinho que coloca fogo na escola e depreda. Eu não tinha essa coisa contra o patrimônio, né, acho que tinha a bagunça, isso sim. Não destruía porque acho que talvez tivesse essa noção de que aquilo também era meu, fazia parte, quer dizer, eu estava usufruindo enquanto aluno, então, nesse sentido eu nunca fui um depredador, não me lembro de ter feito nenhuma grande...A única grande, é...um grande evento que talvez tenha acontecido; Na época nós almoçávamos fora da escola uma vez por semana, quando a gente tinha aula de Bar-mitzva, num lugar que não existe mais que era em pinheiros na Cunha Gago. E um dos amigos uma vez resolveu furtar lá um chiclete, alguma coisa assim, e aí tivemos que sair por conta desse roubo dele, todos correndo em direção ao colégio, né, porque se não os seguranças...Imagina que absurdo, né, roubar um chiclete, né, era uma coisa tão...É...então essa talvez esse tenha sido...E quando pegou fogo também, onde hoje funciona o Pão de Açúcar, lá na Mourato, que era o antigo Bazar Treze. Que a gente ficou lá porque conseguimos escapar porque vimos que, soubemos que estava tendo esse incêndio e uma mãe de um dos colegas nos denunciou porque a gente estava próximo..e com razão, né. Corria-se o risco de estar num lugar onde estava tendo um incêndio. Então não me lembro, assim, de nenhum grande evento a não ser esses dois assim, o episódio desse roubo e o incêndio. É, só.

 

P/1 - E o período de Colegial, já mais velho, traz muitas mudanças?

 

R - É, no Colegial eu fui pro Objetivo. Onde lá sim era tido como um lugar onde as pessoas aprontavam muito e eu ao contrário, fiz de forma absolutamente...Talvez porque lá eu era um número e não o Rubens Kutner irmão do Saulo e filho do Marcelo. Daí eu tinha a possibilidade de ser um ninguém e isso me acalmou um pouco, então eu tive três anos no Objetivo absolutamente tranqüilo, sem, sem grandes tropeços e foi super sossegado. Também é...é...engraçado porque é um lugar onde eu não revia muita gente, quer dizer, ao contrário do Bialik onde as pessoas se, se freqüentam, alguns convivem com mais intensidade...no Objetivo não revi quase que ninguém. Isso é tranqüilo também.


P/1 - E a sua opção depois pela faculdade, já surgiu nesse momento?

 

R - É, não, eu fiz um ano de Direito. Aí, não gostei, pouco freqüentei. E aí depois eu fui fazer Publicidade que realmente aí foi tranqüilo, que era aquilo que eu quis fazer e estudei quatro anos super na boa, assim, sem, sem grandes... Mas eu não, eu não fazia...inclusive eu fiz duas vezes cursinho e não ia ao cursinho também, porque eu tinha essa, sempre esse tédio com relação, nunca...Como não sabia muito bem o que queria, então também é...falava: "Estudar pra quê?" Então, boicotava. Isso eu fiz, eu fiz muito. Em duas oportunidades meu pai me deixava no ônibus e eu ia embora, assim, cabulava aula, não assistia aula. Só se pagava, né, hoje eu, não me responsabilizava, mas de qualquer maneira eu fiz isso também (risos). Acho que por conta dessa, acho que não maturidade, não é, quer dizer, se obrigar aos dezesseis ano a definir uma profissão, acho que é muito cruel com qualquer pessoa. Tem gente que nasce já dizendo: "Bom eu vou ser médico. Vou ser médico". E de fato vai lá e concretiza esse sonho, né, não era o meu caso, eu não tinha essa definição. E também tive uma família muito...ao mesmo tempo que era muito solta nesse sentido, né, não tinha muito essa coisa de me orientar, de dizer: "Bom, tenta por aqui." Eles deixaram meio solto isso, né, não...Então, tem gente que reclama porque os pais impõem uma determinada profissão, eu acho que reclamo pela ausência dessa imposição, não que funcionasse, ou que iria funcionar, mas enfim. Então, basicamente é isso.


P/1 - Rubens, então, você falava agora que já tava em uma fase maior e...agora depois no Colegial e mesmo no cursinho você teve mais autonomia também para circular pela cidade, ir para os amigos. Acho que isso foi um pouco importante pra você também, porque você fala desse tédio com a escola, eu queria entender quais eram as outras atividades. O que te alegrava?

 

R - É, acho que a coisa cultural. Sempre achei que um bom cinema é o programa. Quando é bom, é bom e aí... Eu gostava de viajar, eu aos dezessete anos tive a experiência de ir pra Israel, quer dizer, fui trabalhar no Kibutz, que no famoso...no programa de colheita de laranjas, né. Então você vai, fica dois meses e em troca de casa e comida você trabalha. E esse grupo que eu fui é um grupo que tinham vinte paulistas e vinte cariocas e nós fomos em um Kibutz brasileiro e essa experiência foi muito importante, né, eu tinha dezessete anos. É, alguns ficaram lá, quiseram se mudar e moraram em Israel, estudaram. É...eu não fiquei, mas a experiência pra mim, hoje eu vejo que foi uma experiência bastante importante. Primeiro por conhecer um país que desde sempre, é... você cresce ouvindo e aprendendo a gostar e a respeitar. E depois como experiência de uma sociedade que vive de uma forma diferente da que a gente vive, né, quer dizer, a experiência dos Kibbutz, assim, é uma experiência bastante interessante, né, socialista, né, essa coisa das pessoas de fato terem cada uma a sua casa, mas de qualquer maneira espaços comuns como o refeitório, atividades comuns, sobretudo ligado à terra, lá, no caso, eram laranjas, grapefruits. Tinha outras tarefas também, tinha feno e tudo mais. E foi muito importante. Eu mantenho contato com algumas pessoas dessa, dessa experiência, sobre tudo amigos do Rio, dois amigos: uma amiga e um amigo.  Desde então a gente se acompanha, lá se vão trinta e poucos anos já, né, trinta e três anos. E...


P/1 – Como funcionava o programa de intercâmbio? Era comum?

 

R - É, a gente ia na época das férias, né, e nós fomos em dezembro e voltamos no finalzinho de fevereiro, começo de março. E...foi muito legal, assim, porque é...a gente trabalhava em Israel como é um país de dimensões muito pequenas, né, a gente trabalhava meio período, a gente preenchia as nossas cotas lá que eram X caixas de grapefruits ou de laranjas, eu não me lembro agora quanto que era isso e depois a gente viajava para outras cidades. Então a gente pôde conhecer o país todo nesses dois meses. Então foi muito legal. A gente ia e voltava, ia e voltava e é...um país muito diferente, né, com a presença sempre de soldados, sempre na iminência de uma possível guerra, essa coisa da, da guarda das fronteiras. Então tudo isso pra gente era muito novo, né, o convívio com os árabes. Mas foi muito bom, foi muito... Eu não voltei, mas tenho muita vontade, mas...em Israel especificamente não é o lugar que eu gostaria de voltar depois desses anos todos para ver. Israel ainda tem tudo para aprender, sobre tudo nessa coisa de gotejamento, quer dizer é um país...Dessalinização da água, né, que tudo, são questões ambientais que está se falando hoje, Israel está já desde a sua criação, já vivendo essas experiências e com muito êxito, né. A área de tecnologia é uma área bastante desenvolvida, além dessa questão religiosa que também está, é muito presente, né, então, muito forte, né.


P/1 - Você falou um pouco que chegou a conhecer várias cidades em Israel. Conta um pouco pra gente como é que era Israel nesse período. O que você lembra?

 

R - É eu fui, felizmente, numa época em que não havia nenhum grande conflito, mas sempre...a possibilidade de, né. É...Jerusalém é uma cidade bastante interessante, tanto é que tá na pauta e na disputa como sendo a cidade de três religiões monoteístas, né, muito é... a história de você ir no Muro das Lamentações, você vê na Mesquita de Omar, enfim, é...percorrer o caminho onde teoricamente Cristo...a Via Dolorosa e tudo mais, quer dizer, é impregnado de histórias e de acontecimentos importantes, tanto é que hoje o turismo religioso é muito forte lá. Acho que só não é maior por conta do medo que as pessoas têm de estarem lá numa possível guerra. O que não é improvável (risos). Então, de qualquer maneira é um mercado, um nicho. E...mas foi muito bom, assim, eu trago boas lembranças de lá.


P/1 - Foi a primeira oportunidade que você ficou tanto tempo longe?

 

R - É, longe de casa, né. Foi a primeira experiência, assim, dois meses com uma certa autonomia, aos dezessete anos, tanto quanto é possível ter autonomia, porque na verdade você tem um líder que coordena esse grupo, que é um pouco mais velho, que são os gerentes daquele grupo. Então tinha uma que era responsável pelo grupo do Rio e um outro que era responsável pelo grupo de São Paulo. Houve uma boa integração, a gente... No quarto a gente ficava com gente do Rio e de São Paulo, né. E foi muito bom, foi muito interessante, assim, essa experiência.


P/1 - E você falou de, particularmente de dois amigos do Rio de Janeiro, né.

 

R - Com os quais eu me relaciono até hoje, que é o Sami e a Bia. É... a gente...Eu durante muitos anos, depois que nós voltamos, fui muito pro Rio por conta disso, por essa amizade. Passei alguns anos sem ir e agora eu tenho ido de novo, assim, retomei um pouco esse contato. Mas sempre por e-mail, por telefone, a gente tá sempre se falando pelo menos uma vez a cada quinze dias e sempre se vendo, participando de momentos, né. O Sami já tem dois filhos, tá no seu segundo casamento. A Bia tem um filho, também tá no seu terceiro casamento, enfim, mas é muito interessante a gente se acompanhar desde então. São dois bons amigos, assim, que eu prezo muito e gosto. Os de São Paulo tenho algum contato com alguns que por um acaso estudaram comigo no Bialik e também foram para Israel na mesma época. Hã...só.


P/1 – E aí você, queria que você contasse um pouco da opção por Direito, como é que foi isso, ter feito um ano...

 

R - É, eu, eu tinha uma idéia...acho que talvez, eu tinha muita admiração pela figura da Bertha Lutz e é...essa coisa da justiça...E eu como judeu, a gente tem essa coisa com um senso de justiça muito apurado. Talvez como a gente foi vítima de grandes injustiças ou de uma grande injustiça, não só pelo fato de não sermos arianos e sermos judeus, de uma outra religião, na cabeça de um maluco, né. Então, eu trago isso acho que, já no DNA. Então, achei que isso pudesse ser um bom indício de que poderia dar certo, mas aí, ao freqüentar as aulas, TGE, Direito romano, achei tudo aquilo um porre e não era aquilo que eu queria fazer, ainda mais com um curso longo, né, um curso de cinco anos, então também desisti, assim. Pouco frequentei, também não me, não me interessei e eu fui pra Publicidade, quer dizer, na Publicidade acho que me encontrei, né. Mas não vi nenhuma possibilidade de ter alguma coisa. Eu acho até, na minha atividade eu faço alguma coisa, que é mediação de conflitos, quer dizer, que teria alguma, algum paralelo com a coisa do Direito, mas muito longe também, né, por uma coincidência.


P/1 - E você foi fazer Publicidade onde?

 

R - Fiz na Alcântara Machado, na FIE. Eu como não era um bom aluno, também não me esforcei muito e aí foi, foi tudo, assim, entrei, mas fui muito bom, assim. Estudava à noite, trabalhava durante o dia e...assim, achei muito interessante e os dois primeiros anos...É Comunicação Social, o curso. Então os dois primeiro anos são básicos e o terceiro e quarto você opta ou por Jornalismo ou Relações Públicas ou Publicidade. E...eu gostei, achei interessante, apesar do curso ser mais focado pro pessoal que faz criação mesmo em Publicidade. E eu sempre gostei mais da área de Marketing, Marketing em relacionamento e tudo mais. Mas de qualquer maneira acho que foi, como formação foi interessante.


P/1 - Você falou um pouco de trabalhos, você começou a trabalhar cedo?

 

R - Eu comecei a trabalhar com dezoito anos, não muito cedo, mas...É, o meu primeiro emprego foi em Hotelaria. O meu pai conhecia na época um cara que era dono de um hotel que acho que até existe hoje, que é o Eldorado, lá da São Luís, na cidade. Eles tinham o de Higienópolis, o de São Luís, de Atibaia e tinham em mais alguns outros lugares. E eu fui trabalhar com isso e trabalhei com turismo alguns anos. Comecei na recepção, fiz alguns estágios é...trabalhei sobretudo na área comercial de, de hotéis, trabalhei muitos anos com isso. Mas não era uma coisa que eu gostava, assim...em especial, mas trabalhei, trabalhei com isso. Então, na verdade eu comecei por conta dessa indicação, né, então, foi um jeito de eu, de eu entrar no mercado.


P/1 - E aí quando você tava na faculdade você estava trabalhando ainda em...

 

R - Trabalhei com isso também. Não só lá porque aí depois trabalhei no Cesar' Park, fui pra outros hotéis, né, que também não existe mais hoje, né, hoje é o Blue Tree trabalhei diretamente com a Tiecoke inclusive. É...tá ainda na, na atividade, né. Assim, acho que o meu sonho era ser milionário, sabe, nunca fui muito interessado com essa coisa de...é...de trabalhar muito (risos). Ah, eu tenho um episódio que eu acho interessante registrar. Eu talvez...nunca tinha ouvido falar em gente que foi contemplada com, com algum prêmio, com alguma coisa assim. E eu sou alguém que ganhei um carro em um sorteio uma vez. Eu acho isso uma coisa interessante porque isso foi um divisor de águas na minha vida. É...na verdade tem gente que diz: "Pô, eu nunca ganhei nem rifa, nem nada, né!" Há uns anos atrás, em 1997 para ser mais específico, existia uma rede de postos chamada LavaBem e eles sorteavam, como tem em algumas outras redes hoje, carros, né. E eu fui sorteado. Eu ganhei um carro que até que era um carro bom, zero, um Tempra, na época, né, um carro grande. E...e aconteceu um episódio muito engraçado, quer dizer, era engraçado e trágico ao mesmo tempo, que sempre vem acompanhado dessas, desses grandes prêmios, né. Que foi: Eu ganhei o carro e eu saí da premiação, aliás foi entregue por aquele Deputado Celso Russomanno que na época tinha a LavaBem como patrocinadora do seu programa. Ele tinha um programa de TV Gazeta se eu não me engano. E aí levei pra uma loja e vendi o carro na hora, imediatamente. E aí eu queria viajar, nessa, com a possibilidade do dinheiro que eu arrecadei, né. E aí eu tive uma crise que eu falei: "Bom, não quero mais trabalhar" Por isso que eu me lembrei desse episódio, porque eu falei eu não, é...eu falei: "Ah, acho que agora eu vou ficar um tempo sem fazer nada". Imagina! Como se alguém pudesse sobreviver só comendo o carro. E foi o que aconteceu, eu nem fui viajar, não fiz nada porque eu fiquei na expectativa de que pudesse aparecer alguma coisa, a pessoa com quem eu queria viajar não podia na época e aí acabou que eu literalmente comi o carro, né, porque tinha que sobreviver de algum jeito, então fiquei alguns meses com isso. Então foi um prêmio que é...não foi usufruído nesse sentido, né. A coisa...Mas achei engraçado porque todo mundo diz assim: "Ah, eu não conheço ninguém que ganhou um carro." Falei: "É, você tá conhecendo, porque eu ganhei um carro. É verdade, algumas pessoas podem ganhar o carro". Tem gente que nunca conheceu ninguém que ganhou na Mega Sena, mas deve ter gente que ganha na Mega Sena, provavelmente. Então é isso, só pra fazer um adendo aí (risos).


P/1 - E você não chegou a viajar? Você realmente...

 

R - É, eu fui viajar depois, mas não por esse episódio especificamente. Eu gosto muito de viajar. Eu sempre que posso gosto de viajar e...nem sempre posso, né. É cada vez mais difícil. Eu viajei agora no final do ano, fui pra Portugal. Já fui algumas vezes pra Europa, eu gosto, assim, gosto do frio sobre tudo, gosto de ir no inverno. E... fui pros Estados Unidos algumas vezes, enfim, né. Eu se pudesse viajaria com mais freqüência. Isso, isso acho que é uma coisa que eu acho que vale a pena, não é.


P/1 - A gente estava falando um pouco da faculdade. Você não chegou a ter o convívio da faculdade em si, de...?

 

R - É, eu fiz é...você diz com amizades da faculdade? É, eu fiz pontualmente, quer dizer, eu andava com as pessoas na época da faculdade depois também. Então, tanto o, o único círculo de amizade que ficou, foi o do Ginásio justamente, Primário e Ginásio, porque acho que é o mais forte, né. O da faculdade e o do Colegial ,do Objetivo, a gente tromba com algumas pessoas eventualmente, mas, assim, pouco tenho relacionamento com eles.


P/1 - E nesse período que você fazia faculdade você ainda morava aqui na, na casa de Pinheiros?

 

R - Sim, eu morei na casa até há...três anos atrás. Quando eu voltei, inclusive foi o que eu te falei, né, quer dizer, eu...


P/1 - É, porque você tinha falado que tinha ido.

 

R - É, eu morei sozinho durante muitos anos. Aí, quando a minha mãe adoeceu eu...e as coisas na minha família estavam meio complicadas, assim, questões de grana e de saúde, mesmo brigas familiares e tudo mais. Eu voltei pra ficar com ela, pra poder cuidar. Tanto é que eu cuidei dela durante, fui cuidador dela durante três anos, três anos e pouco, né. Ter ficado com ela mesmo.


P/1 - E esse período que você morou sozinho você morou aonde?

 

R - Morei na Frei Caneca. Ao lado do Shopping Frei Caneca, que é onde meu pai mora hoje. Por um acaso tá morando onde é o meu, era o meu apartamento. Eu fui, quando eu fui pra lá, era um lugar que não tinha nem o shopping, era um lugar bem mais sossegado, aí foi crescendo, crescendo, crescendo. Aquele, aquela região é uma região que tinha casas de prostituição, na Augusta especificamente. E a Frei Caneca era uma rua tranqüila, uma rua bem sossegada, próximo de metrô, que foi o que me levou pra lá, porque era uma possibilidade de me deslocar. Não tão longe daqui, eram seis quilômetros, mas de qualquer maneira não era tão...É acesso fácil, né. Eu morei lá dezoito anos, um bom tempo.


P/1 - Mas quando você mudou, você mudou...Como que foi a mudança?

 

R - Não, eu um dia... Um dia. É um processo, né, mas eu vinha já manifestando um desejo de morar sozinho. Morava com eles, com os meus pais, o meu irmão tinha casado um ano antes e eu falei: "Eu quero ir embora, quero morar sozinho, quero ter essa experiência". E acabei concretizando, né. É, e...só voltei depois porque teve esse episódio da doença e aí houve essa necessidade, né, de ficar próximo da minha mãe.


P/1 - E desse período de trabalhos de Publicidade que outros lugares você trabalhou?

 

R - Eu trabalhei muito com hotelaria como eu te falei, sempre na área comercial, em hotéis e agências. É...e fiz poucos estágios na área de Publicidade. Eu trabalhei em produtoras de vídeo. Na época tinha uma produtora chamada Mikson que eu também não nem se existe ainda hoje, era uma produtora grande e aí estagiei lá um tempo. Eu fiz coisas muito largadas, assim, minha trajetória profissional é uma trajetória muito confusa e sem, sem nenhuma linearidade, assim, uma coisa muito...é... Eu fui fazer um curso de locução no SENAC porque diziam que eu tinha uma boa voz e podia fazer locução. Depois fui fazer dublagem, aí depois trabalhei...tudo nessa mesma época, assim, trabalhei com vídeo, com o Tadeu Diango, na academia de vídeo, de cinema. Foram experiências, assim, soltas, né, sempre como estagiário, mas nunca, enfim, nunca me entusiasmou muito, né. Trabalhei como corretor de imóveis, então a minha experiência é bastante diversificada e agora eu trabalho na área de Educação, já há alguns anos.


P/1 - E quando você fala de Educação, já é uma coisa que te dá mais prazer? Você...

 

R - É, me cansa porque eu trabalho em um lugar onde tem muitos alunos eu sou o ouvidor e como ouvidor eu só resolvo pepinos, quer dizer, o meu departamento é colher, as demandas são essas né, reclamações, reclamações e reclamações, né. Eventualmente aparece alguma sugestão, alguma denúncia, mas basicamente só reclamações (risos). Então, você precisa ter estômago e precisa ter ouvido pra, pra aguentar. E é uma instituição muito grande, são quinze mil alunos, então não é fácil, não é nada fácil. Mas eu gosto do segmento, eu acho muito interessante o segmento de Educação. Apesar de estar hoje bastante desvirtuado do que eu entendo como sendo educação, mas de qualquer maneira é interessante. Mas até chegar aí eu tive uma trajetória bastante tumultuada digamos, né, ou diversificada. Não sei se tumultuada, mas diversificada. O que é bom também, né. Porque te dá uma certa canja, te dá uma certa autonomia em várias frentes aí. Você não é, você é especialista em generalidades, né, quer dizer, você não tem nenhuma função específica. Eu não sou "O" biólogo, "O" cara ortopedista que dizer, você é um cara que já teve muita vivência em algumas áreas e isso te dá uma certa desinibição e autonomia. Traquejo, né, digamos.


P/1 - (risos) Rubens, você falou que gosta muito de viajar. Tem viagens que são marcantes, que você se recorda que...Você falou de ter ido pra Europa, a primeira vez que você tenha ido pra Europa...

 

R – É. É. Olha, eu fiz uma viagem pros Estados Unidos muito interessante, uma vez. Eu também fui encontrar com essa minha amiga Bia que morava lá. Ela morava em Nova York e...é, eu fiquei um mês nos Estados Unidos, mas eu fiquei basicamente em Nova York, Boston e Atlantic City. Porque eu trabalhava com hotelaria e trabalhava em hotéis de jogadores, de players, né. E aí eu fui conhecer, não conheci Las Vegas, mas conheci Atlantic City, então fiquei um pouco. E nessa viagem que eu fui pra Boston, eu acho que talvez tenha sido um das viagens mais bonitas que eu fiz, assim. Eu me lembro de ter visitado o Fan Arts de Boston, assim, como um lugar, é tava tendo...Nos Estados Unidos é muito comum ter amigos do museu, né, então eles estavam celebrando, lá, um almoço com a alta sociedade de Boston para arrecadar fundos. Então estava tendo música Clássica e eu me lembro de eu andando...Então eu me lembro de ter sentido a sensação de felicidade, se é que existe felicidade, ou fragmentos de felicidade, assim, dizer: "Puxa vida! Que privilégio estar aqui com essa música rondando e eu percorrendo o Museu com gente sofisticada, vendo um acervo interessante". Então, eu tenho esses fragmentos, desses registros, né, de ter podido passar por isso, né. Claro, tem outras viagens também boas. Essa viagem que eu fiz agora, eu fiz com duas amigas, que também foi bastante interessante, a gente foi dez dias, eu fui encontrar um amigo meu que casou-se com uma portuguesa e mora no Porto e a gente foi passar o Natal com eles. Então foi uma viagem rápida, assim, foram dez dias, mas foi também muito legal, tudo deu certo. Então, cada viagem tem uma característica, dependendo das pessoas com quem você vai, a dinâmica dessas pessoas, né. E eu sou um cara bastante aberto quando eu tô viajando, assim, eu não tenho esse compromisso de se pegar guias e falar: "Eu tenho que visitar tantos Museus, tantos bares, tantas livrarias". Tem gente que tem...vai ticando, né. Eu não sou assim, então eu tô aberto, se você me disser: "Vamo sentar e tomar um vinho e ficar contemplando a paisagem". Eu tô achando o máximo, entendeu? Ou "vamos na livraria que tem o estilo Gótico" ou lá no Porto "vamos lá ver" ou "vamo, sei lá, fazer qualquer coisa, andar de barco", tá tudo certo. Eu não tenho muito um programa, porque eu deixo a coisa acontecer, entendeu? Convivo com as pessoas locais, né. Quando você tem a facilidade da língua, essa, por exemplo, de Portugal, é muito legal porque você pode conversar com as pessoas. Eu já estive em Portugal duas vezes, essa foi a segunda vez. Então dessa vez eu tinha uma preocupação de conviver mesmo com as pessoas, né, desde pedir uma informação até, bater na casa das pessoas pra ver como as pessoas vivem, moram, o que que acham do Brasil ou de Portugal. Eu fui numa época de crise, né, agora eles tão vivendo um super crise, mas mesmo assim as pessoas gentilíssimas...Então, essa também foi uma experiência...foi a última, né, grande viagem, quer dizer, grande, né, pra fora, né, pelo menos. Mas eu gosto. Eu fui um precursor de Trindade aqui com essa minha amiga. Eu ia pra Trindade há trinta anos atrás quando não tinha nem a "Deus me livre" lá, a estrada, né. E eu vou há trinta anos para Trindade. Hoje todo mundo vai lá para Trindade, já virou uma outra coisa. A gente ia quando não tinha luz, quando a gente deixava o carro em cima, a gente...sabe. O pessoal acha que era o paraíso dos maconheiros naquela época, né, mas a gente ia tão... Aquilo realmente era tão bonito, né. Aquela vegetação intocada, assim. Hoje já tá com acesso fácil, já tem construções. O centrinho já virou uma maloca, né, já virou uma coisa meio, assim, descaracterizou o local, né. Eu acompanhei toda a movimentação dos pescadores em defesa da terra, né, eles tiveram a possibilidade perder por um, uma empresa de fora que queria transformar aquilo em um Resort. Então, a gente conviveu com esses pescadores todos, então também são viagens interessantes, né. Não são para fora, mas são tão interessantes quanto. Então tenho essa, essa possibilidade e esse privilégio de ter vivido essas coisas.


P/1 - E Rubens, conta um pouco mais da sua vida pessoal, porque você falou bastante dessa diversificação, da, da vida do trabalho. Esse período todo que você morou sozinho, ainda antes de, de voltar aqui pra sua casa, aí depois a gente fala um pouco dessa, da volta.

 

R - Bom, a minha vida pessoal é uma vida também cheia de, é...encontros e desencontros, convívio com algumas pessoas, namoros... Eu nunca casei, eu não tenho filhos, mas gosto de namorar e enfim, acho que eu não gosto muito de manter relações muito prolongadas e estáveis (risos). Porque eu sou um cara bastante independente, né, desde sempre. Então, acho difícil, mas acho que vai chegando uma época da vida, e eu talvez esteja próximo disso, que você já começa a achar que é importante ter essas relações mais duradouras e mais estáveis, né. É...Eu sou um cara bastante, como eu te falei, eu não tenho grandes, é, um rol muito grande de amigos. Eu tenho uma, uma relação com alguns poucos amigos que eu prezo muito, né. Tenho até facilidade pra, pra fazer amizades e tudo mais, mas só que não, eu me desinteresso muito pelas, pelos vínculos, né, que, com algumas pessoas, assim, eu vou me entediando um pouco, né. É, não sei, minha vida pessoal é uma vida atribulada sob alguns aspectos, nesse sentido, assim, de não ter tido uma estabilidade, ou de ter ficado com alguém sempre, não é. Então talvez nesse sentido ela tenha sido meio é, assim, cheia de altos e baixos. É...não sei, o que tem mais...


P/1 - E você teve que, teve períodos que você teve que retornar, realmente você optou por vir cuidar da sua mãe?

 

R - Era, não é...Teve um único período, né. A minha mãe, ela teve uma doença, ela teve um câncer de mama é...quinze anos antes de ela morrer, quer dizer, ela teve uma doença que evoluiu durante quinze anos. Sendo que num determinado momento dessa doença, ela teve que...houve a recidiva da doença e aí ela teve que se submeter a uma mastectomia, né. Neste momento ela teve...Ela que era uma mulher com bastante ligação com a vida, ela teve uma depressão profunda e não saiu dessa depressão até morrer. Então ela caminhou com as duas doenças, quer dizer, com o câncer e com a depressão. E isso aliado com a briga familiar que a gente viveu, né. A família ficou, infelizmente, cindida e tudo mais, então, foi uma combinação explosiva. Então isso fez com que eu voltasse pra casa e ficasse com ela, né. Houve essa necessidade, né. Eu tentei, é...talvez por temperamento, por conhecê-la e tudo mais e talvez porque eu já tivesse passado por algo, não semelhante, mas também já tive um momento de, não foi uma depressão, mas enfim, um momento complicado também...próximo disso. Então havia um entendimento, né, pra poder auxiliá-la. O que não aconteceu por parte do meu pai e do meu irmão que ficaram muitos desesperados, né. Você sabe que tem algumas pessoas que lidam muito mal com, quando, com a esposa no caso do meu pai, né, quer dizer, era um mulher muito viva, muito independente, muito esperta e rápida. E ela era, na verdade, o esteio da família, o esteio emocional pelo menos, não o financeiro, mas o esteio emocional. Ela que fazia a família funcionar. E aí, quando esse personagem acaba adoecendo e por tanto, tendo que se recolher, como foi o caso dela, as pessoas ficam um pouco perdidas, ou muito perdidas como foi o caso do meu pai. Então, ele, ele não soube como lidar com a doença dela, com a fragilidade, com a finitude. E eu, digamos, tive mais facilidade. Não que seja fácil para um filho também conviver com isso, né. Nunca é. A doença ela é uma coisa que desintegra qualquer família. Doença, briga e falta de dinheiro são combinações explosivas que fazem qualquer família ruir, né. Qualquer um desses ingredientes isoladamente já é uma, já é uma merda, os três juntos é uma combinação que (riso) implode qualquer família. E...então, eu vim pra dar um pouco de alento pra ela e acho que consegui, né. Também fiz com as minhas limitações que não eram poucas, mas de qualquer maneira acho que pude ajudá-la e transformar esses últimos anos em uma coisa mais palatável, se é que se pode usar essa expressão pra um, pra alguém que está bastante doente, mas enfim, então, esse foi o motivo de eu ter voltado. É...


P/1 - E desde então você continuou vivendo na casa?

 

R - Não, não, eu saí. Assim, a gente, dois meses antes de ela morrer a gente foi pra um apartamento, porque a casa estava muito grande...e aí fomos para esse apartamento onde eu moro hoje, que é perto da USP, né. A casa estava subutilizada e já sem condições de uso. Fechou-se um ciclo, né, infelizmente, assim, né, porque a casa, como eu te falei, ela foi cenário de uma família que teve uma história de quase cinquenta anos, quer dizer a gente, eles moraram lá quase cinquenta anos, então você pode imaginar. Criaram dois filhos, os netos depois vieram, né, do meu irmão e, a...todos os acontecimentos familiares, a casa serviu como um cenário. Então essa casa tem um valor bastante grande pra gente. E é isso.


P/1 - E já um pouco finalizando, eu queria que você contasse mais um pouco agora da experiência na escola hoje em dia, que você explicasse mais um pouco.

 

R - É, eu, o projeto de ouvidoria eu que apresentei no colégio. Hoje existe por parte do MEC uma obrigatoriedade. Todas as instituições de Ensino Superior precisam da figura do ouvidor. E eu quando entrei lá há alguns anos atrás, já entrei com a idéia de fazer a ouvidoria. Aí eu fui fazer outros projetos e há dois anos atrás me permitiram criar a ouvidoria. Então eu apresentei e criei a ouvidoria. E desde então eu estou trabalhando lá. É uma experiência bastante interessante, bastante rica porque você é, na verdade, o canal de, de comunicação, você faz a interface entre a Instituição e os alunos. Acontece que lá o público é um público muito agressivo. Lá, estamos falando de um público classe C e D, que tem acesso à faculdade, muitas vezes, muitas vezes não, a grande maioria são as primeiras pessoas da família cursarem uma faculdade. Os pais nem ensino tiveram, né. E é, então, é uma...é um público bastante difícil no trato. Porque falta a informação, mas existe um poder bélico bastante presente, né, eles têm uma pulsão bélica muito presente. E no trato diário, isso se transforma em uma coisa muito difícil. É um desafio ao mesmo tempo, mas é muito difícil. Então você precisa achar caminhos para poder conviver com esse público. E internamente também é complicado porque eu sou alguém que mexo com as...com professores, coordenadores e a parte administrativa em geral. E sou alguém que digo para um coordenador que acha que o curso dele é algo excepcional e maravilhoso e que o curso dele talvez não seja tão bom quanto ele está imaginando. Então, as pessoas ficam muito melindradas, então eu tenho que fazer todo um trabalho de sensibilização com os meus dois públicos que são os alunos, professores e coordenadores. Então não é fácil, então eu levo bomba de todos os lados, por isso que eu sou gordinho, pra poder aguentar o tranco, né, porque eu sou um pára-choque, tem que ser um pouco, assim, não é fácil, não é fácil mesmo, porque os professores e coordenadores me vêem como um auditor e eu não sou um auditor. Na verdade a gente, o que a gente quer é melhorar os processos era uma ou...uma coisa bem diferente disso. E os alunos me usam como último recurso, quer dizer, "Já que lá não se resolveu, eu vou na Ouvidoria porque lá..." E eu não resolvo nada, eu só colho as demandas e encaminho para os departamentos reclamados e cobro, naturalmente, os departamentos reclamados. Então, eu vivo um pouco isso, mas é uma experiência bastante rica, né, assim, quer dizer, é bastante interessante pelo volume inclusive, né. Porque você tem quinze mil pessoas, você tem os familiares, no caso do colégio, que lá é um colégio e uma faculdade. Tem a comunidade no entorno, então é muita gente, eu tenho muitas demandas, né, tem coisas cabeludas, coisas mais simples. Então não é fácil. Então basicamente é isso.


P/1 - Rubens a gente está encerrando, eu queria saber se eu deixei de te perguntar alguma coisa. Ou se tem alguma coisa que eu não perguntei que você gostaria de registrar?

 

R - Eu não sei. Eu ao falar um pouco sobre a minha vida, né, quer dizer, me dá a sensação um pouco de é...né, quer dizer, se eu tive capacidade de deixar algum registro que pudesse ser interessante pra alguém. "Ao ouvir, será que me interessaria pela história desse cara". Então agora tá me ocorrendo um pouco isso.  Se você deixou de colocar alguma coisa? Acho que provavelmente muita coisa, né, mas isso...


P/1 - Mas algo...

 

R - ...nesse registro eu acho que fica talvez é... Eu acho importante que haja essa possibilidade desse registro. Menos importante do que tentar captar tudo, porque isso é humanamente impossível, mesmo porque, é, um dia você refazer esse registro e aí as histórias serão outras, né, as memórias, as lembranças serão outras, mas de qualquer maneira, acho que como motivação primeira, eu queria deixar um registro é... da lembrança da minha mãe. Como minha mãe é falecida, mais do que falar de mim, é... É uma pena inclusive, talvez quando ela estivesse viva eu tivesse manifestado o desejo de vir aqui, por qualquer motivo isso acabou não acontecendo. Porque na verdade era essa a intenção, né, de deixar o registro dela também, não só o meu. Então, não sei, acho que o importante talvez é deixar...é...esse registro afetivo pra ela, né, quer dizer, como lembrança de uma mãe amorosa e uma mãe presente. Nesse sentido acho legal poder ter esse espaço, essa, essa tribuna para poder deixar registrado mais até do que minha própria história. Minha própria história pode ter eventualmente algum interesse, né, mas não sei, quem sabe em um outro dia com mais inspiração a gente faça uma segunda parte aí, né.


P/1 - Você respondeu um pouco a minha próxima pergunta que era o que que te motivou a vir contar a sua história. Foi um pouco a...

 

R - É, essa possibilidade de talvez homenageá-la, né, que acho que, é... Eu acho que é muito triste quando você perde alguém querido, mas ao mesmo tempo quando você tem boas lembranças dessa pessoa querida isso te serve como alento, né. Acho que é o caso dela, então acho que motivação, se é que tem uma única motivação, talvez tenha sido isso, poder deixar, quem sabe, um agradecimento à ela (risos).


P/1 - E pra finalizar, como é que foi passar por...Você já fez um pouco dessa auto-análise, mas como é que foi passar por isso tudo? Contar essa história toda?

 

R - É, engraçado. Eu não sei. O tempo todo me vem a coisa de que talvez não fosse tão interessante, mas eu acho que cada vida tem a sua importância, né, tem a sua...É, tem gente que talvez tenha a capacidade de lembrar de coisas mais engraçadas ou de mais, é...sei lá, mais importantes, mas eu acho que cada um tem a sua vida. Não dá pra eu reproduzir uma que não seja a minha. De qualquer maneira é um fragmento dela e o que pôde ser registrado acho que tá tudo certo, tá tudo, tudo, tudo bom (risos). Tá bom?


P/1 - Tá certo. Obrigado.

 

R - Obrigado vocês.

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