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História

Lembranças da Colônia do Carandina

História de: Guido Landucci
Autor: Centro de Memória de Cosmópolis
Publicado em: 25/01/2016

Sinopse

Essa história faz parte do e-book Baú de Memórias (http://issuu.com/memoriacosmopolis/docs/ba__-de-mem__rias) Por Marilei Terezinha Barbosa Quando soube do projeto do Centro de Memória de Cosmópolis, apesar de morar em Artur Nogueira, me interessei de imediato. Participei da oficina de História Oral e falei com meu tio Guido Landucci sobre a entrevista que queria fazer com ele. Prontamente ele concordou em falar sobre os fatos vivenciados durante sua juventude, época em que morou na colônia Carandina, no município de Cosmópolis. Resolvi fazer a entrevista com meu tio Guido porque queria saber um pouco mais sobre a vida do irmão mais velho da minha mãe Catarina Landucci Barbosa e, através das suas histórias, saber também como ele, minha mãe, meus tios e meus avós viviam na colônia Carandina onde eles moraram durante muitos anos. Outra motivação para fazer a entrevista foi o fato da colônia Carandina, que hoje não existe mais, ter marcado muito a minha infância e adolescência, época em que meus avós ainda moravam lá. Foram muitos os domingos, feriados e Natais que eu passei com meus pais e meus irmãos, bem como meus tios e primos na casa deles. Lembro-me com saudades daqueles grandes almoços em família e das brincadeiras com as crianças embaixo das enormes árvores Flamboyants, que enfeitavam as ruas da colônia. Ainda me recordo do colorido das flores, da alegria ruidosa das crianças e da tranquilidade daquele lugar. Através destas lembranças também me recordo de várias pessoas que não estão mais entre nós e de outras que não tenho mais contato. Assim, marquei um dia e fui até a casa do meu tio e tivemos, na verdade, uma conversa em que ele me contou tantos fatos interessantes, que eu não tinha conhecimento, a respeito da colônia Carandina e do dia-a-dia de seus moradores. Fiquei admirada em perceber como a vida, naquela época, era diferente de hoje. O trabalho era muito mais difícil e as condições dos trabalhadores também, mas eles trabalhavam satisfeitos. Pude perceber como a vida era muito mais simples e tranquila, não havia as facilidades e os meios de comunicação que temos hoje, mas as pessoas se satisfaziam com aquilo que tinham e eram felizes assim. Percebi, especialmente, o grande respeito que as pessoas tinham pela família, pelos amigos e por todos que conheciam. Os vizinhos eram mais amigos e solidários e se encontravam mais para conversar, praticar esportes e se divertirem juntos. Fiquei admirada quando meu tio contou sobre o time de futebol do Carandina, que foi um importante meio de diversão e socialização não só para os jovens como para adultos e crianças. Ele contou que o time venceu vários campeonatos realizados na região e ganharam muitos troféus, que ficaram expostos na sede da colônia. Ele não sabe com certeza, mas acredita que esses troféus foram preservados pela Usina Ester. Outra coisa que me deixou admirada foi perceber o carinho que os moradores tinham pela colônia, onde formaram uma comunidade que procurava melhorar sempre mais as condições de vida e, quando os pais se aposentavam, muitos filhos permaneciam morando no lugar e trabalhando na Usina Ester. Meu tio Guido, hoje com 84 anos, continua apaixonado por futebol e pelo jogo de bocha com os amigos da terceira idade, grupo que se encontra todas as terças-feiras no Cosmopolitano Futebol Clube. Ele confessou que sente saudades da época que morou na Colônia Carandina e acha que as casas deveriam ser preservadas como um patrimônio histórico do município. Acredito que assim como eu, através da entrevista, muitas pessoas terão belas recordações da colônia Carandina e as novas gerações poderão conhecer um pouco deste singelo lugar e da vida de seus moradores.

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História completa

Meu nome é Guido Landucci e tenho oitenta e quatro anos. Meu pai se chama Maineto Landucci e minha mãe Virginia Rodrigues Landucci. Minha esposa é a Iraci Bueno Landucci, com quem tenho quatro filhos, Ângela, Neuza, Sônia e José Roberto. Vim morar na Colônia Carandina aos vinte anos; éramos nove irmãos. O décimo irmão nasceu no Carandina. Quando nos mudamos para a Usina Ester primeiramente moramos numa casa no meio do canavial por dois anos, porque não havia nenhuma casa vazia na colônia. Depois, nos mudamos para Americana e só depois viemos para o Carandina. Até então a gente nunca tinha pegado em um podão 1 para cortar cana, a gente só tinha trabalhado em fazenda de café. Tivemos que nos acostumar. Trabalhávamos em seis pessoas na Usina Ester: meu pai, eu, e meus irmãos Francisco, Ângela, Clarisse e Catarina. A lida era na roça e os irmãos pequenos ficavam em casa e ajudavam a nossa mãe nas tarefas domésticas. O trabalho nessa época tinha duas modalidades de serviço, uma era na formação de cana-de-açúcar. A gente trabalhava no horário da manhã e minha mãe não precisava levantar tão cedo para fazer o almoço, porque por volta das nove horas da manhã meu pai levava o almoço para quem estava na roça. Quando era a época de safra, mudava o nosso sistema de almoço. Saíamos de casa às cinco e meia da manhã, caminhávamos por uma hora até chegar ao serviço, então a gente já levava o almoço de casa. Como a gente chegava um pouco antes do horário de serviço, a maioria dos trabalhadores já comia uma parte da comida, aproveitando que a marmita ainda estava quentinha, isso às seis da manhã. A segunda parte do almoço era às nove da manhã, com meia hora de descanso. Por volta das 13 horas tínhamos um cafézinho com um pedacinho de pão ou bolo, com mais meia hora de descanso. O corte da cana era o segundo tipo de serviço. Tanto o corte quanto a limpeza da palha eram feitos com o podão, não havia queimada da cana para facilitar o trabalho, era tudo manual. Depois de alguns anos é que começaram queimar a palha da cana, mas só um pouco, ainda limpávamos a folha da cana com o podão. O trabalho terminava às 16h30. O corte de cana dependia da pessoa. Tinha trabalhador que cortava até três, quatro carros, o que significava 100 feixes. A gente trabalhava direto, mesmo com chuva ninguém parava, só se caísse uma tempestade brava. A folga era só no domingo. Quando chegávamos do serviço, a gente tomava um banho, trocava de roupa e logo jantava, ninguém ficava até tarde na rua. Eram duas colônias próximas, então às vezes alguém saía para bater um papo, mas até nove horas já voltavam para casa. Precisava descansar para o outro dia, pois o trabalho não era nada fácil. Nessa época a cana era transportada no carro de boi, usando um conjunto com quatro ou seis bois. Tinha o carreiro que conduzia o carro e mais dois ajudantes para carregar a cana na palhada. O carreiro levava até na trilha do trenzinho que vinha da Usina Ester e carregadores levavam a cana nas costas para descarregar no vagão. O trem da Usina tinha dois ramais, um que vinha perto da Colônia do Carandina, chamado de chave dez, e outro ramal que parava para cima do Carandina, a chave oito. Tinha outra parada chamada de Maria Lopes, onde também faziam carregamento e o ponto na Nova Campinas. O carregamento de cana era realizado por equipes, por exemplo, para cada vagão era uma turma de quatro pessoas. Essa turma fazia o carregamento de cinco vagões. Então se tinham quatro turmas trabalhando, eram vinte vagões que seriam carregados. O maquinista do trem vinha por volta das dez horas da manhã, depois vinha outro às 13 horas e outro no final da tarde. Naquela época a Usina Ester tinha uma cooperativa, onde os colonos e funcionários faziam a compra dos mantimentos. A gente fazia uma lista do que precisava, entregava na cooperativa e depois eles iam entregar na nossa casa. Era raro uma família que fizesse suas compras no armazém em Cosmópolis. Era tudo fornecido pela Usina e as compras eram descontadas no pagamento. Tinha um limite para gastar por mês. Era bom esse esquema porque ninguém gastava mais do que podia. A comida do dia-a-dia de família pobre era muito simples. Era o básico e uma misturazinha. Naquele tempo a maioria não tinha condições de se vestir bem, de ter um calçado bom... Eram famílias muito grandes, todos trabalhavam, mas as despesas eram muitas. Era tudo muito simples, mas mesmo assim os filhos ficavam contentes com o que tinham. Colônia do Carandina Não me recordo muito bem, mas eram dezenove casas. Eram grupos de casas (casas geminadas), a divisão da casa era feita por uma parede e em cada grupo moravam duas famílias. Era uma colônia grande e havia uma escola rural. As crianças estudavam ali até o terceiro ano. Havia um campo de futebol e uma pequena sede com um salão de festas. As casas do Carandina eram todas iguais e todos moravam em condições iguais, não havia inimizade, todos se davam muito bem. Naquela época tinha nascente de água e algumas casas tinham poço. O grupo que tinha poço compartilhava a água entre as duas famílias moradoras daquela casa. O poço ficava no local onde tinha a separação dos quintais. Para tomar banho, quem tinha poço pegava água com balde e tomava banho de bacia. Com o passar do tempo a Usina encanou a água dessa nascente (tinha um tanque) e canalizou para as casas. Aí tínhamos água na torneira e no chuveiro! A energia elétrica era fornecida pela Usina também, mas era uma luz fraquinha. Foi desenvolvendo aos poucos. Quando morei lá não tinha bar. Um morador, um senhor de idade, que tinha um quartinho reservado e montou um barzinho, vendia guaraná, doces, mas bebida alcóolica era difícil vender, quase não tinha. Também existia um time de futebol bom, mas bom mesmo! Era o Esporte Clube Carandina. No começo eu jogava no time dos “aspirantes”, com o passar do tempo comecei a jogar como titular, onde fiquei até terminar minha carreira, foram muitos anos. Os jogos sempre aconteciam aos domingos. Jogávamos no nosso campo e também fora, em Americana, Limeira, Campinas e no campo de Cosmópolis. Disputávamos campeonatos amadores. O time ia de caminhão, não tinha ônibus. Todos subiam na carroceria do caminhão! Era muito gostoso! Nessas disputas em cidades da região ganhamos o campeonato duas ou três vezes. As taças ficaram na sede da colônia, penso que elas devem estar com a Usina. O nosso Esporte Clube Carandina era realmente um time bom. Muita gente assistia: pessoas da cidade, bairros vizinhos e muitas moças que gostavam de torcer pelos jogadores! Pena que acabou e tudo virou canavial. Uma vez por mês tinha baile na sede da colônia. Iam moças, rapazes, casais, toda a vizinhança, bairros vizinhos. Até o pessoal da sede da Usina Ester comparecia. Era bastante divertido, as músicas tocadas eram valsas, sambas, rancheira, aquelas danças mais antigas. O baile começava às nove da noite e seguia até aproximadamente às quatro horas da madrugada. Eu ia ao baile com minhas irmãs. Se alguma moça da família vizinha quisesse ir ao baile, só poderia ir se fosse conosco. Os casais também, as famílias só permitiam que fossem aos bailes se estivessem acompanhados. Os pais tinham essa exigência. Os bailes inicialmente aconteciam na escola, só depois passaram a ser na Sede do Clube, que era na verdade uma parte da casa geminada que foi transformada em um salão, então do lado tinha uma família que morava na casa. Fizemos um barzinho e toda renda ia para o nosso Clube. O pessoal da colônia parecia uma família só. Tinha muita amizade na forma de viver daquela época, todos se ajudavam. Tenho saudades, porque hoje é bem diferente. Os vizinhos eram companheiros. Se alguém matava um porquinho, dava um pedaço para o vizinho e vice-versa. A gente repartia, era uma vida mais animada e cheia de amizade. Morei nove anos no Carandina e depois me mudei para um sítio, cerca de três quilômetros de distância da Colônia. Meus pais e meus irmãos continuaram no Carandina até a aposentadoria. Como continuei por perto, todos os domingos eu estava no Carandina. Aos domingos jogava bola e nos dias de semana, durante a noite, visitava minha família. Demolição Aos poucos as famílias foram saindo do Carandina. Meus irmãos ficaram lá até a aposentadoria porque os filhos ainda trabalhavam na Usina. Depois de certo tempo eles conseguiram casa na cidade e se mudaram. Alguns filhos conseguiram emprego na cidade ou na refinaria de petróleo em Paulínia. Aos poucos, a maioria veio embora e as casas foram ficando vazias. A Usina começou a demolir essas casas. As poucas famílias que restaram foram transferidas para as colônias mais próximas da sede da Usina. Quando isso aconteceu, aí todas as casas foram demolidas, a sede, o campo de futebol... Isso aconteceu por volta de 1983 ou 1984. A colônia virou um canavial. Ainda existe um lugar na área, perto de onde morava o Armando Rodrigues, o administrador da colônia, é uma caixa d’água. Perto da casa do Armando tinha a nascente, um tanque de água, umas touceiras de bambu... Quando era domingo, o pessoal ia brincar nesse tanque, na nascente. Hoje o mato tomou conta do lugar, está tudo fechado de campim. Não existe mais nada, foi uma pena. Acabaram também com outras seções como a Granja, que era muito grande. Tenho lembranças daquele lugar! Naquele tempo o serviço era pesado, tudo feito com sacrifício, mas a gente se sentia bem. Passamos por perto de onde era o Carandina e lembramos a nossa mocidade, o que a gente viveu, o tempo que trabalhamos, quanta saudade!
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