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Legado: a médica da família

História de: Rosiane Mattar
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/11/2017

Sinopse

Embora a família seja formada por muitos médicos - pai, tio, irmão e primos -, coube a Rosiane cumprir o legado do pai: cuidar da família. Ainda que desestimulada pelos homens (descendentes de libaneses, do lado paterno), a determinada menina Rosiane se formou em medicina. A vontade, logo no início, era ser uma neurocirurgiã, inspirada num personagem literário. Mas, na prática, descobriu que “pouco se consertava” na tal especialidade. Na obstetrícia e ginecologia, encontrou a beleza e incerteza do parto. Numa breve passagem pela cirurgia plástica, passou a compreender a estética e a lidar com as mãos, o que mais tarde refletiu positivamente na sua volta à obstetrícia. A tia Rosi carrega não só na família, mas em toda a Escola Paulista de Medicina uma série de sobrinhos - alunos e ex-alunos que a admiram e reconhecem nela uma figura especial, que exala humanidade e muita dedicação naquilo que escolheu para fazer.

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História completa

Eu não me lembro de algum momento em que eu quisesse ser outra coisa a não ser médica. Muito por influência do meu pai: eu achava maravilhoso vê-lo trabalhando! Ele era aquele médico que ia fazer parto na fazenda, vinha a charrete para buscá-lo e ele voltava trazendo saco de batata, peixe, fruta que ganhava. Então ele sempre foi um médico pobre, afinal, ganhava batata, não dinheiro, né? Nossa casa era de esquina e tinha duas entradas: uma dava para o bloco onde morávamos e a outra para o consultório dele. Tenho a lembrança de que as pessoas o admiravam muito. Na época, em Cambará (PR), tinha quatro, cinco médicos e meu pai era um deles. Uma pessoa muito bem conceituada e respeitada.


Quando eu era adolescente, romântica, li o livro Noites de vigília, do autor A. J. Cronin, que contava a história de um neurocirurgião, o Bob Prescott, que era o máximo! Ele consertava tudo! Depois que li, decidi: “Quero ser neurocirurgiã”. Aí, quando eu entrei na faculdade, na Escola Paulista de Medicina, e conheci essa área, vi que não era exatamente o que eu queria. Porque a neurocirurgia conserta pouco, na verdade.

 

A minha época foi bem diferente de agora: dos 120 alunos, éramos em 19 mulheres. Na residência, fui a única mulher que entrou em Cirurgia Geral. Quando eu cheguei para dar plantão na Ortopedia, o cara que fazia o gesso, o Geraldo, falou: “Se a senhora for dormir no quarto, os outros médicos vão ficar constrangidos. Então vou arrumar aqui a cama pra senhora dormir”. Dormi 40 noites numa cama de gesso. Se fosse hoje em dia, eu ia falar: “Eu quero que eles se danem!”, mas naquela época não era assim.

 

Do primeiro ano de residência para o segundo, se tivesse sido bem classificada, você escolhia uma especialidade. Eu escolhi  e fiz Ginecologia e Obstetrícia, porque já tinha feito plantões em  maternidade como acadêmica e já tinha sido monitora de Obstetrícia na EPM, e já gostava muito da especialidade,  mas era a única mulher também! A carga de plantão da residência era muito pesada, muito mais do que hoje em dia. Vascular eram 36 horas de trabalho e 12 de descanso. Nos fins de  semana, um domingo sim, um domingo não, eu dava plantão pra ganhar dinheiro. Então eu dava plantão uma semana aqui, uma semana fora, uma semana aqui, uma semana fora. Foi muito sacrificado. Quando chegou em setembro daquele ano, eu não tive maturidade para entender que aquilo era um período da vida que ia passar. Eu estava exausta e infeliz. Não queria ter esse tipo de vida. Quando teve um caso grave na Obstetrícia, desci pra tomar café e encontrei um médico, o Zé Miguel, que fazia Cirurgia Plástica. Ele falou pra mim: “Boba, vem fazer Plástica, é muito mais tranquilo, mais gostoso!”. E eu, cheia que estava, larguei Obstetrícia e fui pra lá. Entendi muito melhor as mulheres, a relação com a beleza. Quando o Zé Miguel morreu, uma morte aos 31 anos, inesperada, a Plástica ficou uma coisa muito complicada. O primeiro ano depois da morte dele, fiquei em ausência, só continuei fazendo as coisas, porque no ano que eu convivi com ele a gente fazia tudo junto. Sabe quando você vai na inércia? Já estava no terceiro ano: “Não estou realmente feliz nisso.” Acabei a especialidade, fui na Obstetrícia e pedi pra voltar. E nela fiquei.

 

Como obstetra, tive muitos momentos felizes, ajudei muitas crianças e mães. Tive uma crise com a Obstetrícia somente dez anos atrás. Sempre tive a família da minha irmã como uma segunda família pra mim, senão a primeira! Eu estava fazendo o pré-natal da esposa do meu sobrinho mais velho, o Erich. Quando estava no quarto mês, falei pra ele: “Erich, eu fico muito emocionada de ver o Thomás no ultrassom, você me permite chamar uma colega?”, parece que eu estava adivinhando o que viria. Com 25 semanas, eles foram para a Alemanha. E rompeu a bolsa. Comecei a chorar naquele dia e choro até hoje. Porque quando eles me ligaram de lá, eu tive certeza que era bolsa rota. Orientei que  eles voltassem na hora. O Thomás nasceu com 25 semanas, um prematuro muito grave: seis meses de UTI, traqueostomia, gastrostomia, hipotonia. Quando ele recebeu alta, veio pra minha casa. Nessa ocasião, minha mãe já tinha tido um AVC, então eu tinha o home care da minha mãe e o home care do Tomás. Fiz um quarto pra ele, dei meu quarto para meu sobrinho e sua esposa. Em todas as manhãs, antes de ir trabalhar, punha o Thô no colo com aqueles fios e dançava com ele. Estamos lutando por ele até hoje. E ele está cada vez melhor e mais íntegro.

 

Por causa desse sofrimento tive uma crise com a minha profissão, pois quando eu ia fazer um parto eu pensava porque com o Thomas não foi assim. Eu consigo ajudar tantas mães e crianças e com ele não houve aquela felicidade do nascimento, mas sim tanta dor e sofrimento. Mas o tempo ajusta tudo. O Thô foi melhorando, muito, os pais dele agarram o problema e estimularam o Thomas. Nossa família se uniu na luta por ele e gradativamente consegui achar novamente a alegria na minha profissão. Até o parto de filhos de outros sobrinhos já fiz e consegui resolver dentro de mim, fazer as pazes com essa profissão que amo tanto.

 

Tambem sou professora na Escola Paulista de Medicina e a mesma alegria  que sinto ao ver nascer uma criança, sinto ao ensinar um aluno ou residente ou pós-graduando. Aqui sinto a alegria de ver um profissional, médico ou docente, se formar e estar junto conosco nas maternidades, cursos e congressos. Muito boa a sensação de ver alguém que você ajudou a formar se tornar um bom profissional.

 

Hoje posso dizer que fiz as escolhas certas: ser obstetra e ser docente. As duas me completam e sou feliz, me divirto na EPM e no consultório. Eu tenho uma rotina de muito trabalho. Hoje, quando sou chamada às duas, três da manhã… “Ai meu Deus, já estou velha”. Penso: “É pelo Thomás”. Levanto e vou numa boa. Tudo na vida depende dos objetivos que a gente tem. Então eu vou fazer uma coisa que é pesada, que é dura, mas tem o objetivo. Se o objetivo é bom, o caminho não é difícil. O meu pai era o médico da família inteira! Agora esse legado é meu.

 

 

 

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