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Léa quis estudar Serviço Social para ajudar mais e mais pessoas

História de: Léa Nila da Silva Muniz
Autor:
Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Léa conta ter fugido pra casar, contrariando suas irmãs. No meio da fuga, ela volta pra buscar a sua panela de pressão, uma recordação conjugal lembrada com carinho. Conta também, de forma engraçada, o seu processo de aprendizagem no artesanato.

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História completa

Meu nome é Lea Nila da Silva Muniz, nasci em 17 de agosto de 1971, em Manaus. Meu pai era muito trabalhador e sempre passou pra gente coisas boas, Apesar de ser doméstica, [cuidava de casa], ter uma vida difícil, minha mãe era muito animada, ela não tinha medo da vida. Ele trabalhava como pedreiro para sustentar oito filhos, sempre deu o que pode, o melhor pra gente. A minha mãe, ela era o avesso do meu pai, ela era muito divertida, apesar da vida ser muito difícil. Sempre vivemos em Manaus.

 

As nossas brincadeiras eram legal. Eu não gostava de brincar de casinha, nem comidinha, eu gostava de jogar bola (risos)! Pegava bola, corria, a mamãe ficava atacada, porque quando eu chegava em casa, tava toda lameada: “Uma menina assim!”, mas eu sempre gostei do que era ao contrário: futebol, esse pega, que a gente corre um atrás do outro e gostava muito de brincar com menino. Não gostava muito de brincar com menina, não, porque elas eram muito bobas, tudo chorava! E menino, não, a gente era bem legal… Era assim: se fosse menina, a mamãe colocava o nome e se fosse homem, era o papai. Então, o nome da minha mãe começava com L e do papai começava com N. Ele colocou um “N” em mim: Lea Nila... Acho que brinquei até os meus 15 anos de futebol, com menino. Eu me lembro que mamãe tinha feito um bolo pra mim nos meus 15 anos, tava aqui a família reunida, caiu no final de semana. Só que fui primeiro pra aula de catecismo, que era um domingo, eu não sabia que a mamãe ia fazer esse bolo pra mim, e fiquei me danando lá, jogando bola com eles, quando eu cheguei, meus irmãos já estavam todos aqui, que era um almoço. E eu cheguei toda suja, meus convidados todos aqui e eu toda suja (risos).

 

[Conheci meu marido] numa fábrica. Na época, eu trabalhava lá e ele também. Engraçada essa história, que a gente ia ser compadre (risos). Porque quando eu conheci, eu tava grávida, e era pra ele ser meu compadre. A gente conversava e, ainda hoje, o pessoal duvida, mas ele ia ser meu compadre mesmo, não tinha nada a ver. Porque quando a gente trabalhava, ele era noivo, e na época, eu tinha uma outra pessoa. E a gente se dava muito bem, conversava: “E ai, vai casar mesmo?” “Vou. E ai, quando vai nascer?” “Em abril” “Olha, então, vou ser padrinho” “Tá bom”, e começou essa amizade, apesar do pessoal desconfiar, era amizade mesmo. A gente, às vezes, se encontrava quando ia bater o cartão“... na hora do almoço, a gente conversava muito, eu, ele e a noiva dele (risos). Mas quando eu tive a Pati, a minha filha mais velha, fiquei de licença quatro meses. E quando eu retornei, ele não tava mais de aliança do noivado. Eu perguntei: “Você não vai casar mais?”. Ele disse: “Não, porque não deu certo”. “Poxa, que pena. “Nós estamos na mesma; não sei se é sorte, o meu também não deu certo” “É mesmo?”... A gente continuou sendo amigo e começou a brincar, porque eu era da produção e ele era do setor de qualidade, ele falava: “Menina só vive no banheiro, tu não vai trabalhar não, tu vai pro banheiro pra enrolar, né?” e era verdade mesmo (risos)! Porque ficava sentada ali, passando peça... Com o tempo, essa minha filha mais velha já tava, acho que com um aninho e a gente conversava muito, nós dois, o que é que ele queria da vida dele, e o que é que eu queria… a gente convivia muito, o que eu tinha vontade de falar pra ele, eu falava. Não tinha aquele negócio de coisa restrita, porque eu sempre fui assim, quando eu quero falar, eu falo logo. Ai, ele falou: “Não quer ficar comigo? Porque eu sei que tu ainda não gostas de mim, eu também ainda não gosto, assim, de ti ao ponto da gente ficar, mas se a gente ficar junto, o amor vem depois e o que vale é o respeito, se a gente fizer isso, vai dar certo”. E eu achei, assim, muito interessante, porque no primeiro, eu não queria nem saber, era amor e uma cabana. E dele, não, já foi assim, uma coisa diferente. Eu aceitei, só que na época, as minhas irmãs achavam que eu já tinha uma filha: “Essa menina vai ficar se enchendo de filho, fica com um, quer ficar com outro”.

 

Eu falei pra ele: “Minhas irmãs acham que não vai dar certo, porque eu já saí de um relacionamento”, ele: “Mas vou te buscar” “Tá bom”. Ia ser aniversario da minha irmã, eu ainda fugi dia primeiro de março. Era o aniversário dela no outro dia, elas vieram aqui, tudinho, ai eu combinei com ele: “Olha, quando elas saírem, tu vem me buscar” “Tá bom. Tu vai mesmo?”, disse: “Vou”, ele veio. Era acho que quase uma da manhã, eu fui, minha maleta já tava arrumada. Nessa casa. Eu saí, e quando chegou quase no final do bairro, eu me lembrei, porque ele era solteiro, então ele não tinha panela de pressão: “Volta, volta, que a gente tem que pegar a panela de pressão” (risos). Voltamos, pegamos a panela de pressão. Hoje em dia, depois de 22 anos, ele fala: “Meu Deus, o quê que eu fiz? Se eu não tivesse há 22 anos, feito essa loucura e pegado a panela de pressão, tinha escapado”, é brincadeira dele. E a gente vive até hoje.

 

Os meninos já tavam grandinho e eu fui fazer curso com ela. Primeiro, entrei no biscuit, não acabava, porque é um processo muito lento, E eu quero tudo rápido na escola... Eu montei um urso, me lembro benzinho, quando foi no outro dia que fui ver, o urso tava todo escorrido. Não dei pra fazer biscuit, fui pra pintura em tecido. Eu fazia cada coisa, tava usando, na época, umas calças com desenhos de flores... fui pintar, quando olhei aquela calca, meu Deus, escondi debaixo da cama! O meu filho mais novo, ele é muito brincalhão: “Tia Leila, a senhora viu a calca da mamãe?” Pareciam as flores que tem aqueles miosótis no meio, parecia um monte de olho te olhando, horrível aquela calça (risos). Também não dei pra pintura em tecido. Ai, fui pro jornal e tive mais paciência... mas, ela se estressava comigo, que eu fazia tudo torto, quando cortava o papelão, tem que, depois, olhar as duas partes e ver se tá certo. Pra mim, tava certíssimo e quando ela montava o dela, saía bem, o meu saía meio assim (risos), mas a gente foi aperfeiçoando...

 

“Alô, eu estou entrando em contato se você não quer fazer uma oficina, o Consulado vai mandar te buscar e ver quais são os preparos que você precisa”, eu disse: “Tá bom”. Quando soltei esse telefone, liguei pra minha irmã: “Leila, e agora? Eles me chamaram mesmo!”, ela: “Agora tu vai ter que aprender a fazer isso direito!”. Só que ela me chamou como se fosse numa terça e quinta-feira eu tinha que tá lá. Quando chegou, fazem apresentação da gente e falam: “Qual vocês querem aprender primeiro?”, eu tinha levado uma sacola, e tirei pra mostrar, levei só coisa bonita, levei baú, levei abajur… Essas meninas ficaram encantadas. Uma disse: “Eu quero fazer esse”, que era o mais difícil e eu ainda não tava dominando, disse: “Não, meu amor, vamos fazer primeiro esse quadro, porque você não tá acostumada, tem que começar primeiro, pelo mais simples e depois, você faz o baú. Vamos fazer assim?”. Escapei, mas treinei como fazer e foi assim que eu aprendi, porque pra gente passar pra outra pessoa, a gente tem que passar coisas boas. Aí, que eu fui entender o quê [minha irmã] tava passando pra mim. Mas depois de muito tempo dela se estressar comigo.

 

Outra vez, a minha irmã fez uma boneca pra dar pro Paul Singer, que inventou a Economia Solidária no Brasil, e quando as meninas do Consulado falaram se a gente podia doar, eu fiquei tão feliz daquela boneca parar na mão do Paul Singer, que era um trabalho feito pela gente, ele tava entendendo daquilo. Mas o desafio é esse, é você sempre levar adiante, firme, ali, ser sempre honesta, digna com o seu trabalho mesmo, fazer aquilo direito, que tem que ser feito, boa qualidade, porque pra gente estar indo pro mercado, a gente tem que bater de frente com eles, sendo bom também. A gente não pode levar qualquer coisa. Depois diz assim: “Não deu certo, porque o mercado tá ai, eles produzem muito”, não é não, se você tiver qualidade no que você faz, você vai longe.

 

Vou ser assistente social, é uma forma de contribuir mais com eles, para que possam ver o direito deles de fato, saber que têm direitos, que eles estão ali porque eles são cidadãos de bem e desde que eles nasceram, têm direito, assistente social tá lá in loco e vê a realidade do que tá acontecendo.

 

Na verdade, o que tava acontecendo ali, [na roda de histórias], a gente tava trocando saberes. Ela falou de um povo indígena que eu não conhecia, eu não precisei ver jornal, nem ler, eu aprendi ali. E isso me chamou muita atenção. E aquele momento ali, eu achei que foi muito rico em conhecimento... Quando a gente tava resgatando a identidade, parece que eu fui lá e voltei. Então foi muito bom, fazia tempo que eu não resgatava esse meu lado infância, minha família mesmo, como eu era. Então, isso foi muito bom. Eu gostei muito.

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