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História

Labuta e educação: caminho da transformação

História de: Maria Eulene da Silva Sousa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/01/2013

Sinopse

Maria Eulene da Silva Sousa conta como foi a sua chegada à cidade de São Paulo depois uma longa viagem partindo do Ceará, seus primeiros trabalhos em fábricas, a evolução profissional como vendedora executiva autônoma e o papel que o banco Santander teve nesta conquista. Aborda a importância da preservação do meio ambiente, que passou a valorizar mais com o seu trabalho, e do papel da educação. Desde cedo, ela e o marido incentivaram a educação musical dos filhos. Nesta entrevista ao Museu da Pessoa, Maria fala do orgulho e da emoção que sente pelo destaque que eles alcançaram como músicos do Baccarelli, instituto localizado na comunidade de Heliópolis.

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História completa

 

R – Meu nome completo é Maria Eulene da Silva Sousa, eu sou naturalizada de Independência, no Ceará, tenho trinta e cinco anos, sou mãe de três filhos e estou à disposição.

 

P/2 – Qual é o dia do seu aniversário?

 

R – 24 de dezembro de 1977.

 

P/1 – Qual é o nome dos seus pais?

 

R – Osmar Rodrigues da Silva e Maria Moreira da Silva.

 

P/1– E dos seus avós?

 

R – Estelino Rodrigues da Silva e Maria do Carmo da Silva são meus avós paternos e Josefa Moreira da Silva e Casimiro Moreira da Silva são meus avós maternos.

 

P/1 – A senhora disse que nasceu onde?

 

R – Independência, no Ceará.

 

P/1 – Lá nesta cidade, a senhora se lembra da atividade de seus pais? 

 

R – Agricultura.

 

P/1 – Sabe da origem da família? Como é que foi vir para cá? Quem é que veio, foi a senhora ou os seus pais?

 

R – Não, começou com os meus irmãos mais velhos. Somos em sete irmãos, sendo que destes sete, os homens vieram aqui para São Paulo e foram vindo os restantes e, agora, estamos morando aqui. 

 

P/1 – E a senhora se lembra quando mais ou menos? 

 

R – (risos) Eu vim para cá em 90, 1990. 

 

P/1 – E os irmãos, qual é o tamanho da família?

 

R – Bom, hoje todos têm filhos, aumentou bastante, mas nós continuamos todos morando no mesmo bairro e, graças a Deus, somos uma família unida.

 

P/1 – Então a senhora veio para cá em 1990 e já tinha...?

 

R – Eu tinha, na verdade, onze anos, ia fazer doze.

 

P/1 – Eu queria que a senhora nos contasse as suas memórias da infância, o que a senhora se lembra da infância lá no Ceará, como é que era? O que a senhora se lembra das brincadeiras?

 

R – A liberdade que a gente tem ainda lá nos dias de hoje e que aqui é difícil, ou é a correria, é muito agitado, então não dá para ter a liberdade que se tem lá, mas, em qualidade de vida, eu continuo preferindo aqui em São Paulo.

 

P/2 – Como era a sua casa, o que você se lembra de lá?

 

R – Era uma casa simples, com poucos móveis, muitos filhos para viverem todos da agricultura, não daria para ter aquela casa que os filhos gostariam que tivesse, mas, graças a Deus, necessidade assim de comida e vestimenta nós não passamos, mas era bem humilde.

 

P/2 – Do que você gostava de brincar?

 

R – (risos).

 

P/2 – Com sete irmãos deveria ter uma turma grande para brincar.

 

R – Tinha uma turma grande, eu brincava debaixo das árvores, eu amava brincar debaixo das árvores, e eu lembro que eu vim ter a minha primeira boneca quando eu tinha nove anos. A gente brincava com uma boneca, era uma pedra comprida e eu brincava como se fosse a minha filha até que um dia ela quebrou e eu chorei muito (risos).

 

P/1 – E a escola, a senhora se lembra da escola?

 

R – Olha, eu comecei a estudar não em colégio, em escola mesmo, os professores eram formados, porém, como poucos colégios tinham ali na época, nós começamos estudando na casa, fomos formados dentro da casa de um morador ali da região e depois é que eu comecei a ir para a escola. Estudei pouco, tenho sonhos, tenho projetos, quero realizar. Hoje, graças a Deus, eu já tenho esta oportunidade de dar continuidade, nunca é tarde para começar. 

 

P/1 – O que você aprendia? Como eram estas aulas dentro da casa?

 

R – (risos) Eram muito boas. Eram rígidas, as professoras, eu não tenho tantos anos, mas eu lembro que, se você fosse mal em Português e Matemática, que eram as matérias principais, a gente tomava umas “palmatoradas” na mão porque tinha que acertar, e ali os pais acompanhavam muito os filhos de perto, tinha tempo para isso e ficavam mesmo vendo se a gente ia para a escola para aprender ou para brincar. 

 

P/1 – Como era o grupo de amiguinhos, de colegas? Como é que funcionava isso?

 

R – Olha, o melhor horário da escola para mim era o recreio (risos), eu brincava bastante, mas eu sempre gostei de História, Estudos Sociais e Português, em Matemática eu sou um pouquinho devagar. Mas estas matérias eu lembro que eu gostava muito, passava bem nestas matérias e tenho paixão por Inglês, embora eu saiba muito pouquinho.

 

P/1 – Para se divertir neste momento de escola, ou não, fora da escola, fora da salinha, como é que eram as brincadeiras?

 

R – Bom, na escola tinha uma brincadeira que eu gostava muito, chamada Bola Campo. Era feito um círculo, acho que três círculos, e ali ficava um grupo de pessoas dentro de um círculo daqueles e tinha que um passar para o outro círculo sem ser carimbado, era com uma bola, uma bola feita ou de sacolas plásticas ou jornal enrolado com fita isolante. A gente tinha que carimbar, ou seja, nós tínhamos que jogar aquela bola e acertar em alguém. Enquanto você não fosse acertado, você continuava naquela brincadeira. Caso você fosse carimbado, você estaria fora. Era uma das minhas brincadeiras preferidas.

 

P/1 – E sair da cidade e vir para São Paulo, como é que foi este momento? O que a senhora se lembra? Como foi este trajeto?

 

R – Embora eu não conhecesse, eu até sonhava, eu tinha muita vontade de vir para cá. Até que, um dia, o meu pai me autorizou a vir, porque eu tinha não só os meus dois irmãos como, também, duas irmãs mais velhas do que eu. Aí ele me deixou vir para cá para fazer um tratamento. Na época, eu estava com anemia e com reumatismo, minhas juntas inchavam muito. Mas, graças a Deus, eu estou bem, deu tudo certo nos exames e, hoje, eu tenho uma vida tranquila.

 

P/2 – Como é que foi a viagem, você veio sozinha ou alguém te acompanhou?

 

R – Eu vim com uma vizinha de lá que já tinha vindo aqui outras vezes e ela me trouxe, viemos de ônibus mesmo, é uma longa viagem, muitos quilômetros, três dias e duas noites, então eu vim com ela, mas foi tranquilo. 

 

P/2 – O que você se lembra de quando chegou à cidade? O que você sentiu quando viu São Paulo, quando chegou aqui?

 

R – Quando eu cheguei aqui em São Paulo, eu lembro que eu fiquei um pouco frustrada com o lugar que eu fui morar, porque hoje eu defendo, eu amo, eu conheço muitas pessoas dali, sei o tipo de vida que eles levam, são trabalhadores honestos. Mas, como eu tinha sonhos, eu sonhava com muitos apartamentos, prédios altos como esta torre, por exemplo. E quando cheguei, eu fui morar em um barraco, aí eu me senti muito frustrada, muito, muito, eu me sentia decepcionada com os meus próprios sonhos, mas o tempo foi passando, eu consegui trabalhar. Desde quando eu cheguei aqui, eu comecei a trabalhar. Eu nunca fiquei parada, nunca dependi de irmãos, ou totalmente do meu esposo, eu sempre gostei de trabalho, trabalhar, ser independente nesta área e comecei a ver que não era só aquilo, aquele lugar que eu estava morando não era para sempre, poderia ser provisório como, realmente, foi. E acabei indo trabalhar fora. Hoje eu tenho minha casa, que é simples. O pessoal que trabalhou aqui e algumas pessoas já foram me visitar e até que gostaram. 

 

P/2 – Onde que você foi neste primeiro momento, que lugar é este?

 

R – De trabalho, você fala?

 

P/2 – De morar.

 

R – Eu moro no mesmo endereço, só que em números diferentes, que é na Rua Coronel Silva Castro e na época – hoje é construída uma grande igreja evangélica –, mas, na época, era um barraco de madeira, era muito difícil a situação, morava todo mundo, não tinha quartos individuais para homens, para mulheres, chegamos a morar em doze pessoas. Meu irmão dava abrigo para as pessoas que vinham do Nordeste e que não tinham onde ficar, então ali moravam de doze pessoas, tinha que fazer panelas enormes de comida para eles e era difícil. Mas deu tudo certo.

 

P/1 – Como é que foi este primeiro contato da senhora com o trabalho? Uma menina de dez, onze anos?

 

R – Acho que todo mundo quer ganhar dinheiro, só que poucos querem trabalhar. Eu gosto de trabalhar porque o trabalho não envelhece, pelo contrário, deixa a mente mais renovada, mais jovem. E assim eu comecei a olhar criança. A vizinha precisava trabalhar e perguntou se eu poderia ficar com o filhinho dela e eu comecei a ficar. Mas isso durou muito pouco tempo porque surgiu uma oportunidade em uma loja em final de ano e eu fui trabalhar nesta loja. Eu fiquei lá uns meses, eu não era registrada, eles não me registravam nem me mandavam, então eu preferi sair de lá porque não tinha muito futuro. Depois eu comecei a trabalhar em uma fábrica de produtos, mamadeira, chupetas, que mexe com látex. Depois saí desta empresa, fui para outra e assim fui mudando de trabalho.

 

P/2 – Como é que foi para você entrar nesta fábrica? Que trabalho você foi fazer? Como é que é participar ali no meio da produção?

 

R – Eu comecei a trabalhar, eu andava entregando currículos com umas amigas minhas e uma delas falou: “Eu soube de uma fábrica que ficava, na época, na Avenida Nazaré, que estava precisando e pegava de menores”. E ali eu fui, gostei de lá também, saí com uma proposta de emprego melhor no lado financeiro, era um salário melhor, quase o dobro que trabalhar de babá em um apartamento ali perto também. Só que eu não gostei muito, não da família, mas eu não ficava direto naquela casa, eu tinha que mudar do Ipiranga para a Vila Mariana com a mãe dessa minha patroa, ex-patroa, e eu não gostava muito deste trajeto porque eu não me sentia muito bem na outra casa, então eu decidi sair e foi então quando eu me arrependi por não ter ficado na fábrica.

 

P/2 – O que você fazia na fábrica, qual era o seu trabalho?

 

R – Na fábrica, era embalar, contar cada pacote que ia com estas chupetas de látex para bebês, tinha que contar cinquenta unidades. Destas cinquentas unidades, eu tinha que formar outro saco maior com cinquenta pacotes de cinquenta unidades. A gente montava a própria chupeta, verificava, fabricava as peças de látex para a mamadeira, o bico da mamadeira, tinham vários. Eu lembro que tinham uns que era com cheirinhos aromatizantes, outros eram só látex. Fazia também borracha para panela de pressão e nós tínhamos que tirar rebarba dela com estilete, contar e embalar. A parte que eu gostava era de selar os pacotes, tinha uma maquininha quente que a gente pisava no pedal e aí ela abaixava, fechava, então já estava separado e lacrado.

 

P/1 – E os locais destas fábricas que a senhora trabalhou, a senhora se lembra?

 

R – Uma era na Avenida Nazaré, outra ficava na Vila Carioca, na Rua Amadis, mas todas elas se mudaram. Essa Rua Amadis é uma rua que fica bem próxima das Juntas Provisórias, uma avenida bem conhecida. Eu também cheguei a trabalhar em Amparo, que é uma cidade do interior de São Paulo onde fiquei seis meses. Eu consegui mudar de cargo lá, o que eu achei interessante por ser tão pouco tempo, a experiência seria três meses e de um ano para frente que mudava de cargo. Lá, em seis meses, eu já tinha sido mudada de cargo. Eu achei interessante. Não fiquei lá, era uma fábrica de malharia, eu ficava no setor de fiação júnior, que também tecia, tinha tecelagem e tudo, mas eu saí de lá porque eu resolvi retornar para São Paulo mesmo, para o centro. 

 

P/1 – A que a senhora atribui esta facilidade, esta rapidez em trocar de cargo?

 

R – Lá eu achei diferença em relação a São Paulo pelo fato de ser empresas do interior, eles têm outro modo de ver o funcionário, eu acho que eles reconhecem mais rápido quando você se esforça do que aqui. Mas, uma das atribuições que eu acho é o ponto de vista de cada encarregado, que eu acho que conta muito, vale a pena você se esforçar e alguém reconhecer esta possibilidade de subir de cargo mais rápido.

 

P/1 – A senhora se lembra até que época a senhora trabalhou nesta condição de empregada da indústria e quando se deu a sua saída?

 

R – Até eu ter a minha segunda filha, a Júlia, depois foi a época que eu tive o terceiro filho e com o estudo que eu tenho, que é pouco, e também com os três filhos eu não iria encontrar um salário suficiente para eu pagar a perua, transporte escolar e também alguém para olhar o menor, já que eu não consegui também uma vaga na escolinha, foi quando eu preferi trabalhar por conta e estou contente, estou feliz.

 

P/1 – Como assim, trabalhar por conta, como é que foi esta experiência?

 

R – Olha, meu esposo fazia empréstimos em um banco e, na época, o rapaz, que é hoje do Santander, mudou de banco, ele era de outro banco e veio para o Santander e, vendo o meu esposo, ele falou que veio para outro banco em que eram melhores as formas de trabalhar, porque tinha um prazo maior. Esse banco era quinzenal, o anterior, onde eles faziam empréstimos, e ele veio para um banco que dava uma data que você escolheria, a data que era melhor para você fazer o seu pagamento. E nós, meu esposo falou que não, que já tinha saído e um dos integrantes desse grupo não quis participar mais. E foi aí que eu entrei, eu falei: “Vou arriscar”. Eu entrei com umas amigas minhas, era um grupo formado de três pessoas, consegui passar neste empréstimo, consegui o valor que eu queria na época e daí para cá continuei renovando meus empréstimos e estou até hoje.

 

P/1 – Quando a senhora começou era banco Real ainda?

 

R – Isso, banco Real na época.

 

P/1 – Então a senhora conheceu o Banco Santander a partir do Banco Real.

 

R – É verdade.

 

P/1 – A senhora lembra qual foi o período deste primeiro empréstimo?

 

R – Olha, a data mesmo eu não me recordo. Mas, na época, minha filha que hoje tem nove anos, ela tinha uns dois aninhos, então tem uns sete anos ou mais. 

 

P/1 – E estes empréstimos eram para o quê?

 

R – Eram voltados para o microcrédito. Este empréstimo nós fazíamos para empregar em mercadorias, ou seja, poderia ser para uma cabeleireira, uma empreendedora. E, na época, eu trabalhava com quadros pintados a mão, o rapaz fazia, deixava e eu ficava com uma porcentagem. Também, eu sempre trabalhei com cosméticos da Avon, Natura, essas coisas. E eu fiquei com os quadros, investi diretamente nos quadros. Depois, eu fui fazendo estoque de produtos de cosméticos. E, depois, eu resolvi sair dos quadros porque as pessoas que compravam os quadros eram moradores ali da região, então chegou uma hora que eu não tinha mais como vender dois ou três quadros para a mesma pessoa. Ia ficar feio, ao invés de decorar, ia deixar feio o ambiente. Aí eu resolvi dar uma paradinha nos quadros. O rapaz também viajou para o estado onde ele nasceu, em Alagoas. E eu mudei, eu continuei mudando, procurando outros produtos para vender. Eu trabalho com reuniões, eu trabalho com produtos de cosméticos, lingerie e também com utensílios para casa, é uma linha que tem me deixado bastante satisfeita porque, ao invés de eu passar no catálogo para alguém, eu vou à casa do vizinho, de alguém que eu conheço, do dentista e falo se tem possibilidade, se a pessoa tem como ceder o ambiente e convidar os vizinhos para participar desta reunião. Então o retorno é muito rápido, é diferente de você deixar o catálogo com alguém e esse alguém olhar, esquecer e abandonar, então ali eu demonstro, falo as qualidades que aqueles produtos têm, que vai ser útil, a durabilidade, também são coisas que contribuem para o meio ambiente e as pessoas com certeza. O produto não fala, então eu demonstrando é bem mais fácil de vender e é rentável também. 

 

P/1 – Como veio esta ideia de trabalhar com este tipo de produto?

 

R – Surgiu assim, como eu havia antecipado, eu achei que não daria mais para eu trabalhar fora porque eu iria trabalhar e repassar o dinheiro para quem olhasse ou levasse os meus filhos para a escola – são três filhos, não deixo eles muito à vontade, então eu preferi ficar mais de olho neles, me dedicar a eles, levar eu mesma para a escola. E aí o que aconteceu, eu resolvi que não queria ficar sem trabalhar, então eu adianto minhas coisas no meu lar, administro da forma que é possível, às vezes durmo tarde, acordo cedo para adiantar o meu lado de casa, de mãe, de esposa e sair para a rua nos horários que estiver tudo sob controle. 

 

P/1 – E a senhora mantém ainda estes empréstimos?

 

R – Mantenho. Estão prestes a renovar.

 

P/2 – O que precisa para ser uma boa vendedora? Você falou que faz as reuniões e fala dos produtos, mas o que você fala, como é que você criou esta abordagem?

 

R – Quando eu olhava este catálogo, eu pensava comigo: “Jamais eu vou comprar um produto deste que dá para eu comprar um kit completo de outra linha do mercado”. Aí eu fui, me convidaram para vir a uma reunião sem compromisso e eu fui. Quando a pessoa, a executiva começou a falar destes produtos, eu passei a ter uma noção totalmente diferenciada, diferente porque, às vezes, você compra algo barato e sai caro, porque vai quebrar rápido, porque você vai ver no lixo acumulando para o meio ambiente, e ela começou a demonstrar quantos anos duraria uma peça daquelas, as qualidades de manter. Eu trabalho com plástico mas que não é um plástico comum, é um plástico que é fabricado primeiro derivado do petróleo, não é eterno porque nada é eterno, mas que dura muito, compensa, você vai realmente pagar um pouquinho a mais que o tradicional do que os concorrentes, mas que o resultado está na durabilidade, na qualidade e na armazenagem. Foi quando eu passei a ver que se eu pegar, eu tenho uma facilidade muito grande para vendas, tudo o que eu pego eu vendo, eu só tenho um pouco de dificuldade de cobrar, ao invés de eu ir lá, eu quero o que é meu por direito, eu fico com vergonha de cobrar. Mas em todas as vendas não tem como você dizer que não tem essas pessoas que compram e não pagam no dia, porque faz parte do comércio. O certo é você ter um caixa dois. Por exemplo, estes empréstimos me auxiliam nesta parte de eu ter um dinheiro à parte para eu cobrir aquela fatura no dia certo para eu não tomar prejuízo, que seriam os juros, que seria minha comissão por exemplo. E assim, é, eu sempre estar em dia com as minhas faturas e eu sei que tem sido rentável porque a partir desta demonstração que eu assisti foi onde eu comecei a pensar: “Se eu falar para as pessoas que dizem que é caro da mesma forma que esta mulher me explicou, elas vão entender e automaticamente vão comprar”. E tem acontecido desta forma.

 

P/1 – Quem é a cliente da Dona Eulene?

 

R – São várias (risos). Eu anoto o nome das minhas clientes porque, àquelas que compram mais no mês, eu costumo dar um brinde. Isso é uma forma de conquistar. Cliente você consegue conquistando. Por exemplo, se a pessoa chega para mim – é onde tem diminuído este negócio de cobrança, de você precisar cobrar ou tomar calote –: “Como assim?”. “Este catálogo vai quatro vezes ao mês. Você olha aí.” Porque nem sempre eu posso fazer reuniões ao mesmo tempo, então eu pego vários catálogos e espalho os catálogos e falo: “A data que for melhor para você deste mês é a data que você vai pedir”. Porque não tem como eu mandar na data que a pessoa quer e se depois, se ela não tiver o dinheiro, eu vou ter que cobrir, então é assim que funciona.

 

P/1 – E alguém te ajuda em casa com esta administração toda ou é você mesma?

 

R – Eu mesma, eu tenho minha agenda e eu consigo marcar direitinho, eu tenho meus cadernos de anotação, eu tenho dez meninas que trabalham para mim. Ou seja, em menos de três meses, eu passei de vendedora para executiva dessa empresa pelo fato de conseguir um grupo de oito, que era suficiente, eu já tenho dez pessoas trabalhando graças a Deus.

 

P/1 – E como é que é gerenciar esta equipe?

 

R – Olha, tem hora que eu fico um pouquinho irritada, o telefone começa a tocar, não dá. Mas, por um lado, é legal porque você sabe que aquelas pessoas dependem de uma resposta sua para você tirar dúvida, orientar e você sabe que, se elas estão ligando, é porque vai ter retorno para você.

 

P/2 – E como é que você conseguiu reunir todas estas pessoas?

 

R – Então, eu consegui da seguinte forma: fazendo demonstração. Quando eu era vendedora, eu pensei o seguinte: de pegar... [interrupção]

 

P/2 – Então, você estava nos contando como reunir este grupo de dez pessoas, como foi todo este processo, você começou sozinha, então como é que foi este caminho?

 

R – Tudo começou quando – eu não tinha vontade, eu achava uma responsabilidade muito grande ser uma executiva. Um dia, a minha executiva da época marcou uma reunião na minha casa, e, ao mesmo tempo, marcou em outro lugar, em outro bairro. Eu convidei as pessoas e ela tinha que fazer este treino de capacitação, seria ela demonstrando, eu estava aprendendo com ela. Eu convidei as pessoas, meus vizinhos, meus clientes, meus parentes, e o pessoal foi chegando e cadê esta mulher chegar? Ela esqueceu que tinha marcado no mesmo horário em outro local. Eu liguei para ela e ela falou: “Sinto muito, desculpe se eu errei, mas para mim não tinha sido esta data, não está marcado na minha agenda”. E eu não tenho dúvida. Ela falou: “Então você me desculpe e você tem que pedir desculpa para o pessoal, mas eu não vou poder atender, eu estou longe, comecei agora”. Ela estava na Vila Prudente. E eu falei: “E agora?”. Eu pensei comigo na escada: “Eu não posso deixar este pessoal voltar porque, se eles voltarem sem assistir, esta reunião vai ficar difícil para eu convidar novamente e eles virem”. Aí eu pensei: “Será que eu consigo fazer esta reunião?” Como eu já tinha observado outra reunião, eu falei: “Olha gente, eu quero pedir desculpas porque a mulher falou que não vai poder chegar no horário. Se chegar, vai ser muito atrasada. Vocês já estão esperando há uns vinte minutos e eu mesma vou demonstrar para vocês”. Eu tinha o meu kit que eu tinha pegado com a vendedora por um preço acessível, eu comecei a expor, comecei a falar dos produtos, da qualidade, da durabilidade e, no final, as pessoas começaram a aplaudir. Falaram: “Para ser a sua primeira reunião, você foi muito bem. Eu creio que esta é a primeira de muitas”. Aí eu me empolguei e mostrei, no final, o total da venda. Eu lembro que, em menos de uma hora, eu conseguia vender cento e cinquenta reais, e fiquei feliz. “Se em uma hora eu consegui vender para este povo, que eram sete pessoas no máximo, eu consegui vender isso fora de data de pagamento, então eu tenho possibilidades de ir mais longe.” Eu falei para as meninas que estavam ali na hora: “Você não quer ceder a sua casa para ter uma reunião? Você tem a comissão, dinheiro, ou você tem em produtos conforme você escolha, de sua preferência”. E elas concordaram. Eu comecei a fazer e foram aumentando estas encomendas. Eu fazia questão de mostrar, no final, o total da venda, e eu falava: “Se vocês quiserem ser uma executiva ou uma vendedora, você tem que trabalhar pouco e o resultado é muito”. Elas começaram a se animar, eu consegui três no mesmo dia, depois eu consegui mais duas. Eu falava: “Você me ajuda porque eu quero ser promovida a executiva e falta só mais uma pessoa”. E eu fui falando: “Falta só mais uma” (risos). Até que elas ficaram no começo para me ajudar e hoje tem umas que vendem mil e trezentos reais sozinhas. Então eu me alegro porque, além de eu mandar o próprio pedido no meu nome, eu ainda recebo bônus de todas elas, então tem ajudado bastante no meu orçamento sem ser preciso eu abandonar os meus filhos para ir trabalhar em horários de sete às cinco, quem sabe – isto é horário de trabalho, fora o horário que você sai, dependendo do local, que é longe, e chega, às vezes, muito tarde. É muito estressante.

 

P/2 – E o que significou para você ser promovida a executiva? Como é que foi este momento, como você recebeu esta notícia?

 

R – Eu fui a uma reunião no bairro da Saúde e a mulher lançou um desafio: “Quem quiser ser executiva tem dois, quatro meses para conseguir oito vendedoras, cadastrar com o nome limpo, bonitinho, oito vendedoras e você tem dois meses para; conseguindo quatro vendedoras, você ganha uma peça enorme, que era no valor de mais de cem reais”. Eu olhei para o tamanho da peça e já pensei no Natal (risos) e eu consegui. Em menos de dois meses, eu consegui estas quatro vendedoras, foi quando eu lutei e nos quatro meses eu consegui mais quatro. Depois dos quatro meses, que com oito já seria executiva, foi quando eu consegui mais duas pessoas e eu não consegui mais porque eu não vou em horários certos, eu vou nos meus horários de folga, que dá, porque o resultado para tudo isso é pesquisa, rua, reunião. Se você fizer direitinho, funciona.

 

P/2 – Por onde que você anda nesta cidade? Nas reuniões, onde que você faz?

 

R – Eu faço, por exemplo, onde a pessoa quiser, eu entrego folheto com o meu nome, telefone, o salário que as pessoas podem ganhar que são variados – depende de quantas reuniões elas fazem por semana, ou por dia, depende. E eu vou entregando, visto o uniforme, a camiseta que tem o slogan da empresa e saio, por exemplo, fico ali na Rua Silva Bueno em um ponto em frente das americanas, por exemplo, e ali passa muita gente, uma rua bem movimentada e ali eu vou entregando catálogo, meu telefone e as pessoas ligam: “Tem como você fazer uma reunião?”. E a outra: “Você tem este produto à pronta entrega?”. E aí vai deslanchando, independente, se eu estou aqui em São Paulo, estou lá, é só me ligar.

 

P/2 – Teve algum lugar que você se lembra de ter ido mais longe?

 

R – Eu lembro. A data exata eu não lembro, mas foi no mês passado, eu creio que no comecinho do mês de outubro que uma das minhas vendedoras falou que ia fazer uma reunião na casa da sogra dela, o bairro fica depois de São Mateus, que para mim já é longe, e eu falei que ia, estava toda empolgada e no dia choveu muito, muito e eu falei: “Olha, se eu pudesse voltar atrás, eu voltaria. Mas tem o ditado que ‘quem está na chuva é para se molhar’”. E ela falou: “Você tem certeza que quer ir mesmo?”. Eu falei: “Olha, o pessoal está esperando, foi confirmada, nós vamos sim”. Fomos de ônibus, fomos lá, fizemos a reunião, deu certo e ali eu me senti realizada porque eu cumpri com o meu papel, com a minha palavra de que iria e vi mais uma pessoa sendo beneficiada por estes produtos.

 

P/2 – O que significa para você ser empreendedora? De ter dado este passo?

 

R – Olha, como eu falei agora há pouco na sala com vocês, meus filhos, eu tenho certeza, convicção de que eles vão ter um futuro brilhante e eu trabalho não só pensando em mim, mas principalmente neles. Os pais trabalham para os filhos. E eu luto, trabalho por eles. Já tem me ajudado bastante, porque nós temos um carro só. Eu tenho a carta, mas está quase inválida porque é um carro só. Meu esposo é autônomo, trabalha longe. E eu banco a passagem dos meus filhos porque eles não têm passagem de graça, eles não têm o cartão deste lugar onde eles fazem o curso. Eu pago ida e volta deles. Eu consigo comprar aquilo que, no momento, eles necessitam, que do lado do meu esposo, no momento, eu não posso mexer, e eu já consigo auxiliar eles no vestir, no calçar, em algo que eles precisem sem pedir para o meu esposo. Eu acho gratificante, é compensador você ser independente e dizer: “Hoje, eu vou comprar esta roupa, este sapato sem ter que pedir”. Para ser dona de casa hoje e conseguir fazer isso, eu me sinto vitoriosa.

 

P/2 – E você conseguiu esta ajuda, este suporte da sua relação com o banco. Como foi?

 

R – Foi importante porque é difícil, em outro banco, são tantos bancos que têm tantas opções, mas credibilidade é muito pouca que eles dão para a gente porque eu, conversando com uma amiga que também faz parte deste banco, trabalha com este banco, ela falou: “Se você não chegar escovada, maquiada, arrumada e for falar com o gerente sobre o empréstimo, a atenção é muito pouca e, ao invés de sair de lá com a autoestima lá em cima, você volta cabisbaixa”. E que realmente não tem muito sentido, mas com o Santander, além de eles abrirem esta porta que me auxiliou porque eu consigo ter estoque, porque eu consigo trabalhar com liberdade, eu não me aperto na data de pagar porque é um prazo bom que eles dão. Eu consigo ter uma família, o Santander para mim é uma família. Se eles vão à rua, no bairro onde eu moro, eles têm muito cliente naquele bairro, eles passam na casa do cliente, eles têm o cafezinho deles, às vezes convidam eles para almoçar, às vezes eles almoçam, às vezes não. É um pessoal muito simpático e que nos trata de nível igual para igual, não tem este negócio de fazer exceção. Eles te veem como uma pessoa íntegra, que trabalha e não como uma pessoa de baixa renda.



P/2 – Você falou do seu bairro em alguns momentos, que bairro que é este para deixar registrado?

 

R –(risos). Olha, hoje eu tenho orgulho de dizer que eu moro em Heliópolis porque, como eu, ali tem muitas pessoas dignas, honestas, trabalhadoras. É um bairro que tem evoluído muito, de favela, ou seja, acho que noventa por cento urbanizado, com redes de esgoto, com áreas de lazer para os nossos filhos, embora, no momento, eu ainda continue fazendo seleção, meus filhos só ficam em uma das áreas de lazer que dá este curso gratuito para eles, que é o Instituto Baccarelli. Então de todos, que são muitos e que têm as suas qualidades, eu prefiro deixar eles só lá.

 

P/2 – Você estava nos contando que é casada. Como é que a senhora conheceu o seu esposo, o que ele faz? Qual é o nome dele?

 

R – O nome dele é Cícero, Cícero Ferreira de Sousa. Ele é pedreiro, autônomo, já teve carteira registrada com esta profissão, mas ele acha mais rentável trabalhar por conta e eu o conheci aqui mesmo em São Paulo. Mas ele falou que já me conhecia no Norte, ele falou que trabalhava, na época, com fotos, ampliação de fotos, fazendo molduras e ele falou que tinha me visto na minha antiga casa lá do Nordeste. Mas, na verdade, eu o conheci aqui em São Paulo através de um amigo que era namorado da minha irmã na época. Nós nos conhecemos, namoramos mais ou menos, entre namoro e noivado, três anos e meio, nos casamos e hoje eu tenho os meus três filhos que são benção, que são tudo de bom.

 

P/2 – Como é que foi o casamento?

 

R – Eu casei só no civil, casei no civil e nós tivemos um almoço em um restaurante próximo ao cartório. Na época, eu não quis casar no religioso porque era muito gasto e eu preferi uma coisa mais simples.

 

P/2 – Conta para gente então, como é que foi este começo de vida de casada e acompanhar a vida dele. Você falou que teve um momento que ele era registrado e depois passou a ser autônomo, o que isso significou para a família?

 

R – Quando eu me casei com ele, eu trabalhava em uma fábrica de eletrodomésticos que fabricava churrasqueiras elétricas, ventiladores, aquecedores, muita coisa na parte de eletrodomésticos. Depois que eu me casei, continuei trabalhando nesta fábrica. Foi na época que eu tive o meu primeiro filho. Continuei trabalhando, mas, depois, a firma mudou de lugar e eu saí. E ele trabalhava registrado quando eu o conheci, só que, às vezes, o mandavam para muito longe, e eu, particularmente, não gostava que ele ficasse longe porque eu tinha criança pequena e preferia ficar por perto. Foi quando ele começou, ele saiu desta firma, a firma mandou e ele começou a trabalhar por conta já com bem mais experiência e viu que era mais compensador trabalhar como autônomo e continuou trabalhando. Ele é pedreiro, ele faz hidráulica, elétrica, tudo.

 

P/2 – Você falou que foi ele que começou a pegar os empréstimos do banco, como é que você acompanhava este movimento dele?

 

R – Na época, era um prazo muito pequeno, que era quinzenal quando ele começou, e um dos integrantes saiu porque lá tinha que ser –  eu não sei hoje –, mas, na época, tinha que ser de três pessoas o grupo, e uma dessas pessoas, não sei se não se deu bem no tipo de empréstimo, ou se não conseguiu evoluir como os demais, saiu fora e, por sair fora, eles resolveram desmontar o grupo. Foi quando eu entrei justamente com uma das minhas companheiras de empréstimo da época, é a mulher, esposa de um destes integrantes que compunha o grupo com o meu esposo. E, para nós, já foi diferente, ela trabalhava, cama, mesa e banho e eu trabalhava com estes quadros que vendi muito na época e nós continuamos e fomos mudando de pessoas do grupo, tiveram umas que resolveram não mudar de banco, mas mudar de tipo de trabalho e eu continuei, hoje eu pego este empréstimo com meu irmão mais uma amiga.

 

P/2 – Conta para gente, como é que foi ser mãe, ficar grávida e ter o neném? O que isso mudou para você?

 

R – Eu fiquei grávida com dezenove, e meus filhos riem porque eu fiquei grávida com dezenove e ganhei com vinte (risos), eu fiquei grávida, fiz vinte em dezembro e, no finalzinho do mês, o meu filho nasceu, ia 30 o mais velho, o Joab. E muda totalmente a vida, o sentimento. Você admira a mãe, a pessoa da mãe, é muito forte, mas você só sabe realmente o que é ser mãe quando você é mãe. Quando você é mãe, você pode até, às vezes, falar algo com o seu filho que machuque, mas você não quer que outra pessoa fale, você defende os seus filhos, você passa uma noite em claro. Antes, o meu filho mais velho tinha bronquite, graças a Deus não tem mais – eu atribuo a Deus porque a bronquite é uma doença crônica –, não tem mais bronquite, e eu passava noites em claro e, às vezes, no dia seguinte, tinha que trabalhar, e não reclamava. Acho que ser mãe é isso, é você se colocar no lugar. O meu filho não pediu para vir ao mundo, então, já que ele veio, eu tenho a responsabilidade de criar, educar, incentivar, de apoiar, é isso. Mudou muito, bastante a minha vida, eu amava minha mãe, mas, depois que eu passei a ser mãe, eu continuei amando mais ainda porque eu sei que não é fácil ser mãe, é difícil. 

 

P/2 – Você falou que tem três filhos, qual é o nome deles? Quantos anos eles têm?

 

R – Eu tenho o Joab de treze anos, está fazendo catorze agora no final do ano. Ele é um filho maravilhoso como os demais, ele toca violino, já teve o privilégio de tocar para o presidente aqui do Santander – os dois, tanto o que passou como o atual –, é um filho maravilhoso, educado, as pessoas que o conhecem gostam muito dele, passam a amá-lo. Eu tenho a Júlia, de nove anos, que também é linda, ela toca oboé, ela ainda não tem o instrumento próprio, ela pega do Instituto e também toca um pouquinho de teclado, ela gosta dos dois tipos de instrumento. E tem o Jonathas de três anos, que é o caçula, fez três anos agora em março e ele ama percussão, gosta demais de bateria, o pai dele comprou uma pequena para ele e ele faz barulho lá. Eu passei uns momentos de apuros porque a minha vizinha teve bebê, recém nascido, não pode fazer barulho, essas coisas, e eu tinha que esconder as baquetas, os pauzinhos para tocar na bateria porque toda hora ele queria tocar do jeito dele e incomodava a vizinha, então eu escondia e ele ficava muito triste. Eles amam música, é muito legal isso porque música é cultura e meu filho faz planos de se formar na Música, seguir a carreira, ser maestro, a profissão dele, que ele já decidiu. Eu falo: “Você fala isso hoje, mas você vai crescer mais, você pode…”. Ele: “Não, eu decidi, eu quero isso”. Então ele é muito firme nesta decisão. A Júlia não pensa totalmente em ser música, ela já pensa em fazer Secretariado, essas coisas, mas o importante é que até aqui a música tem servido muito no lado de educar, de abrir a mente deles.

 

P/2 – Como é que começou o contato deles com a música? Por que isso é importante?

 

R – O Joab quando ainda criança, acho que ele deveria ter uns dois ou três aninhos, ele ganhou um violino de brinquedo do meu cunhado e ele se apaixonou, foi amor à primeira vista. Ele tentava tirar som daquele instrumento, mas não tinha noção, não conhecia notas nem nada e foi quando surgiu o Instituto Baccarelli, na época ficava na estrada, mas em outro endereço, bem mais próximo da minha casa, hoje ele já fica dois quilômetros ou mais de distância. E o que aconteceu, tem sete anos que ele faz lá, ele foi fazer um teste nos instrumentos e ele passou justamente no instrumento que é a paixão dele, que é o violino, e ele continua até hoje. Ele faz violino e faz também coral e a Júlia também. Quando a pessoa completa sete anos – hoje até com menos, eu creio que seis anos – eles têm a oportunidade – quem estuda em escola municipal – de se inscrever e participar do coral, entra pelo coral e dá sequência, vai continuar aquele instrumento que tiver vaga e que a pessoa mais se identifique. Ela passou para oboé, que é um instrumento de sopro muito lindo e também muito caro, então por isso eu não tive a possibilidade de comprar para ela, mas ela já conhece as notas, gosta também de tocar e também sabe um pouco de teclado, ela tem o teclado dela.

 

P/2 – Maria, conta para gente como é que foi assistir a primeira apresentação dos seus meninos? Qual é a sensação?

 

R – Olha, até hoje eu me emociono quando eu vou ali à Sala São Paulo vê-los tocar ou, às vezes, eles são convidados pelo coral para cantar, é muito maravilhoso, porque nós os vemos como verdadeiros artistas, aquela plateia que está ali realmente fica no silêncio total e a gente ouve o quanto é lindo o som de um instrumento, de um coro afinado, então eu sempre me emociono. Mas, à primeira vez, eles começaram fazendo apresentação no próprio Instituto e ali, quando eu vi, eu chorei. Eu sou chorona, eu sou risonha, mas sou chorona. E ali esta imagem nunca sai, meu pequeno já consegue fazer isso e nós os vemos evoluindo. Ele já participou do Criança Esperança, ele tocou ali um pouquinho para a Xuxa quando ela entrou, ele era um dos meninos que estavam tocando e também cantou com o Carlinhos Brown. Foi maravilhoso, foi emocionante. Ele falou que está à disposição do Instituto para mandarem ele até para a lua, ele vai, ele gosta do que faz, é paixão porque eu acho muito puxado para a idade dele, ele tem treze anos ainda, ele estuda de manhã, acorda às seis horas, vai para a escola, chega, almoça rapidinho, toma um banho, vai para o Instituto, volta nove e meia, nove e quarenta da noite. Isso de segunda à sexta. Mas, no sábado, ele tem também coral na parte da manhã, para a idade dele eu acho muita força de vontade porque muitos com idades acima da dele já desistiram porque acharam cansativo, gostavam do que faziam, mas disseram que não tinham pique para isso, então é uma paixão que ele tem e eu tenho procurado ao máximo incentivar.

 

P/2 – E como você como mãe sente de ver o seu filho na televisão, ou indo viajar para outros países para tocar?

 

R – Olha, para outros países em breve eu vou ver, por enquanto é só para estados. Mas, hoje mesmo, ele estava em um ensaio para participar do show do SWU que está tendo em Paulínia e eu me sinto feliz porque ele se sente feliz. É um pessoal selecionado a dedo que vai, vale comportamento, vale não dar trabalho porque, se aprontar, são excluídos. São excluídos, por exemplo, como se fosse um castigo. “Na próxima apresentação você não vai porque você não se comportou nesta.” E, graças a Deus, meu filho tem ido quase todas porque ele não tem recebido nenhuma punição por comportamento e eu me sinto só honrada e feliz porque é sinal que ele tem demonstrado caráter, tem demonstrado que é uma pessoa educada que sabe respeitar os seus líderes e seus superiores.

 

P/1 – E a senhora, depois de nos contar da mãe, Dona Eulene, da empreendedora, sobra tempo para o lazer, o que a senhora faz nos momentos vagos?

 

R – Olha, realmente é difícil, é difícil porque eu falo que eu sou como Bombril, tenho mil e uma utilidades. Eu corro muito, minha vida é muito agitada. Às vezes, o meu esposo reclama um pouco de que eu trabalho muito, mas eu penso comigo assim: você tem que trabalhar hoje para, quando você estiver em uma certa idade, você ter um pouco mais de conforto, e já não ser como eu vi minha mãe, outras pessoas que, às vezes, tem setenta e poucos anos vivendo de um salário, um salário mínimo, o que é muito pouco para quem já trabalhou tanto. Eu vou driblando ele, eu falo: “Eu sei, você tem razão, mas eu falo, o que te falta?”. Procuro deixar a casa em ordem, dar atenção, dar atenção para os meus filhos, então eu procuro fazer tudo em momentos vagos que eles não vão depender de mim totalmente. Então é difícil, mas o que eu faço? Eu peço para eles irem ao cinema com pessoas de confiança, com parentes, com amigos bem próximos porque, hoje em dia, está tão difícil você deixar os seus filhos andarem sozinhos ou com alguém; às vezes, as pessoas que você mais confia são aquelas que realmente te traem, te machucam de uma forma drástica. Mas eles conseguem sim, e o lugar onde eles frequentam, o Instituto proporciona muito lazer para eles porque, às vezes, eles vão, como eles foram para o Criança Esperança, eles ficaram uma semana e não ficaram só trancados, ensaiando, eles ensaiaram muito, mas eles tiveram oportunidade de ir à praia, de ir à piscina, então tem sim como eles conseguirem um pouquinho de lazer também.

 

P/1 – Podemos avaliar também. Depois de ter contado toda esta história e lembrando o projeto do banco, a senhora poderia dar uma definição do que entende do papel do banco em uma sociedade como a nossa? Qual é a importância?

 

R – Porque ele pode ajudar as pessoas a mudar de vida, assim como eles têm me ajudado, de degrau em degrau, porque não é fácil, ninguém vai crescer assim de uma hora para outra, ninguém consegue. Eu estou lá embaixo, no fundo do poço e, de repente, eu estou lá em cima. Ou você vai ter que roubar o banco ou você vai ter que trabalhar muito. Então esse banco tem me auxiliado, não só a minha pessoa, a minha família, mas muitas outras pessoas que eu conheço a melhorar de vida, a ter uma perspectiva de vida, a voltar a sonhar, fazer projetos. Então, para mim, todos os bancos deveriam ter esta mesma visão. Para mim ajudou bastante, não tenho o que reclamar, somente a agradecer.

 

P/1 – E de aprendizado, a senhora tem algum? Algum grande aprendizado?

 

R – Tenho, solidariedade. Solidariedade porque eu, particularmente, eu não precisei contar, expor alguns problemas para o banco e eles me ajudarem em problemas, assim mais restritos, mas umas colegas minhas já tiveram e eles foram lá, deram apoio, deram a mão amiga, deram abraço, aconselharam, disseram: “Por aqui, se você seguir, é melhor”. Então eles não estão pensando só no retorno, porque eu acho até que é pouco para ele este retorno, mas eles têm pensado em realmente ajudar na qualidade de vida de cada ser humano que entra neste tipo de empréstimo, de empreendimento e vê aos poucos todo mundo ter um nível social igual ou semelhante a uma classe média.

 

P/1 – E de realização na sua vida, o que a senhora julgou até hoje ser sua grande realização?

 

R – (risos) A independência, a independência de você precisar acordar cedo para chegar na hora, bater o cartão certinho, depois que você acostuma a trabalhar fora, assim como eu trabalho autônoma e ter a possibilidade de fazer o seu horário, dificilmente você quer voltar a ficar trancada em uma empresa e cumprir horário certinho, não poder sair para ir ao médico porque, às vezes, pode ser descontado na sua folha de pagamento. E essa liberdade eu tenho, eu faço o meu horário, eu consigo fazer outras pessoas a melhorar de vida e para mim é uma liberdade, é isso. 

 

P/2 – Eu queria que você nos falasse qual é a importância da música em toda esta sua história?

 

R – Música além de ser cultura, trazer cultura às pessoas, trazer alegria, ela dá esta possibilidade de você viajar, conhecer outras pessoas, de se integrar na sociedade de uma forma muito legal. E, hoje em dia, um músico, as pessoas estão aprendendo a conhecer melhor a música, principalmente a música clássica. E o Brasil, hoje, já tem visto com outro olhar, e o retorno financeiro para quem é um músico profissional é muito bom, então vale a pena também investir na música.

 

P/1 – A senhora contou das realizações, o que te mantém viva, empolgada para acordar todos os dias? Qual é o grande sonho, tem algum sonho ainda a ser realizado?

 

R – Tenho, tenho muitos sonhos a se realizarem. Eu comentei que eu quero ter o meu carro porque eu preciso muito dele, eu dependo muito de um transporte porque, às vezes, eu saio com sacolas cheias de produtos e ali pesa, é difícil. Eu não tenho um transporte porque é como se eu não tivesse carro em casa porque é um para dois que trabalham em locais diferentes, não tem possibilidade de eu usufruir deste automóvel. Eu luto para ter o meu carro, é um sonho, e terminar meus estudos, eu tenho o sonho de fazer faculdade, e eu vou me inscrever, o ano que vem eu quero voltar a estudar, é uma correria a mais, mas vale a pena você lutar por aquilo que você sabe que no amanhã vai ser melhor para você, é isso.

  

P/2 – Por que a educação é importante neste cenário?

 

R – Porque a educação abre portas, a pessoa que tem estudo, tem conhecimento, tem um jeito de se comunicar legal com as pessoas, ela tem mais possibilidades de arrumar um bom emprego, de ter um salário melhor do que os outros que têm menos escolaridade. Então educação é um conhecimento, um valor que ninguém rouba que ninguém toma de você, e é isso que eu quero passar para os meus filhos, por mais que eu não tenha financeiramente algo para deixar para eles e dizer: “Uh, eu recebi esta herança x”. Mas a educação eu quero passar porque esse daí ninguém vai tomar deles, ninguém vai roubar e vai ser muito útil para eles com certeza.

 

P/2 – E aproveitando que eu lembrei antes da gente encerrar, você falou que trabalha com uns produtos mais duráveis, melhor para a sociedade, que não estragam o meio ambiente, por que é importante você ter esta preocupação? Você falou da solidariedade, por que é importante olhar o outro e cuidar do meio ambiente?

 

R – Porque se todo mundo tivesse esta visão do meio ambiente nós não teríamos essas enchentes que hoje acontecem, o nosso planeta está realmente detonado, praticamente, porque as pessoas, hoje, elas não ligam muito para o próximo, não ligam para os netos que vão nascer, no sei lá, no primo, no sobrinho que vai ter filhos ainda e que se nós não cuidarmos do nosso planeta, daqui uns anos, nós não teremos mais água potável, não teremos mais animais nos bosques. Assim, por exemplo, se eu compro um plástico que vai quebrar rápido, vai ser um entulho a mais jogado no lixo, e se você pega uma coisa mais durável, ali, com certeza, você não vai ver aquele produto no lixo. Pelo menos, eu não consegui ver. Então tudo isso contribui para um planeta saudável. Planeta saudável, pessoa saudável.

 

P/1 – Tem alguma coisa que nós deixamos de fora que a senhora gostaria de falar e não foi perguntado até agora?

 

R – Olha, na verdade, eu só queria dizer que o Santander tem sido um modelo, assim referencial, não só para os demais bancos, mas para as pessoas que têm procurado. Eu consegui já montar dois grupos, ou seja, apresentar dois grupos formados para o rapaz que trabalha, que presta serviço aqui para o banco e minha intenção é de apresentar mais porque coisas boas você tem que querer para você e para outras pessoas. Então, assim como me beneficiou, eu pretendo levar mais, esse valor a mais, essa qualidade de vida que tem melhorado para mim, ampliar mais para outras pessoas que ainda não conhecem. Então, quando eu vejo alguém falando que precisa de empréstimo, eu indico o Santander.

 

P/1 – O que a senhora acha de ter participado do projeto e ter vindo aqui contar a sua história para nós?

 

R – Olha, é bacana, mais uma experiência. Como eu falei, eu só tenho a agradecer, eu tenho falado para o Jerônimo [Ramos] que eu estou à disposição do banco para o que precisar e o que eu puder cooperar, colaborar eu estarei sempre à disposição. Eu até pensei: “Gente, eu não ligo de abrir mão de uma tarde que eu poderia estar nas ruas vendendo porque, com certeza, alguém perdeu mais tempo do que eu para fazer uma documentação para que eu pudesse ter acesso a este financiamento, então eu estou só retribuindo aquilo que alguém já fez por mim”.

 

P/1 – Como foi se sentir neste lugar, contando a sua história?

 

R – Importante, importante, alguém assim capaz de ser útil para as demais pessoas, para a empresa, para o banco e espero que tenha sido útil a minha entrevista e estou sempre à disposição de vocês.

 

P/1 – Então, em nome do Banco Santander e da Vice Presidência de Marca, Marketing, Comunicação e Interatividade e do Museu da Pessoa a gente agradece a sua presença aqui.

 

R – Eu que agradeço.


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