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História

Lá todo dia é dia de vida

História de: Zeinab Mohamed Salman
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/03/2005

Sinopse

Nesta entrevista, Zeinab nos conta sobre a vida no Líbano, sobre o comércio no Brás, onde seu marido tem uma loja, e também sobre como é ser muçulmana no Brasil. 

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História completa

 

P/1 – Então vamos começar a entrevista com você dizendo seu nome e data do nascimento.

 

R – Meu nome é Zeinab Mohamed Salman, nasci [no] dia 21 de março de 1980. Estou com dezenove anos.

 

P/1 – Onde você nasceu?

 

R – Eu nasci na cidade de Haouch Er Rafqah, no estado [de] Baalbek, no Líbano.

 

P/1 – E como era o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai [se] chama Mohamed Ali Salman. Ele é coronel do exército aposentado há um ano. A minha mãe [se] chama Rachid Iasdek. Ela não porta o sobrenome do meu pai. Ela é dona de casa, não pratica nenhuma função.

 

P/1 – Onde eles nasceram?

 

R – Meu pai nasceu numa cidade chamada Mustad, também no estado Baalbek. A minha mãe nasceu em Haouch Er Rafqah, a mesma cidade que eu nasci no Líbano.

 

P/1 – E a idade deles?

 

R – Minha mãe tem 44 e o meu pai, 45.

 

P/1 – E seus avós? Você conheceu seus avós?

 

R – Conheci minha avó materna e paterna. Não cheguei a conhecer meus avós. Minha avó materna é viva ainda, [se] chama Fátima. Ela também nasceu na mesma cidade que minha mãe e eu. A minha avó paterna também, ela chama Juréia Iasdek, ela nasceu na mesma cidade que eu e minhas irmãs todas. Ela já é falecida faz cinco anos.

 

P/1 – E o que eles faziam?

 

R – Eram donas de casa. Meus avós eram agricultores, eles trabalhavam com coisa de terra. Não tinha uma função fora de casa.

 

P/1 – E como foi a sua infância, você se lembra?

 

R – Não me lembro. Eu nasci bem na época da guerra entre o Líbano e Israel, entre os muçulmanos e os judeus. Até os cinco, seis anos eu não lembro de muita coisa, depois eu lembro até os meus dez anos, a gente vivia mais fugindo do que em casa. Era aquela coisa de guerra, sempre uma bomba aqui, uma bomba ali, e o meu pai trabalhava no exército. Era mais aquela tensão mesmo, então não foi uma infância tão boa. Dos dez anos pra depois foi uma coisa normal, porque a guerra parou, mas enquanto isso foi uma coisa muito triste. Uma coisa que nem gostaria de lembrar mais.

 

P/1 – Quantos irmãos você tem?

 

R – Nós somos quatro mulheres e um menino.

 

P/1 – E depois que passou este sufoco da guerra como foi a sua infância, melhorou?

 

R – Melhorou bastante. Aí dava pelo menos pra gente sair na rua pra brincar, dava pra ir à escola tranquila, porque antes às vezes passava um mês sem ir à escola por causa da guerra. Às vezes a gente na escola, no meio da aula, vinham os aviões. Saía todo mundo correndo. [A gente] vivia mais embaixo da terra do que na própria casa. Acho que até foi bom porque a gente cresceu bem mais forte do que podia ter crescido, criança bem mais responsável. Aí depois foi legal, tanto que eu até hoje me sinto mais criança do que devia ser. Devia ser mais mulher, mais adolescente, no mínimo. Eu me sinto mais criança porque eu vivo mais agora a minha infância do que antes.

 

P/1 – Como assim?

 

R – Porque antes não tinha como eu brincar, não tinha como eu ficar correndo, brincando de esconde-esconde, não era seguro. Eu saía na varanda - minha mãe é muito medrosa, ela já ia atrás pegar. Agora eu fico brincando com as crianças, prefiro ficar com as crianças do que sair com meu marido, pegar um cinema, essas coisas. Eu fico correndo atrás de criança mesmo.

 

P/1 – Mas que mais você lembra da sua infância, o que mais marcou?

 

R – Os invernos lá, a neve é muito boa. Juntam-se as crianças da cidade toda. O Líbano é pequeno, 10.500 quilômetros, mas mesmo assim se juntam as crianças da cidade toda. Todo mundo fica na neve, a gente se enterra na neve. Às vezes chega até a ter que ir ao pronto-socorro porque se enterrou embaixo da neve. Mas é uma lembrança muito boa.

Eu me lembro muito também de ajudar a minha avó. Ela ia plantar, trabalhava na agricultura, não lembro bem o que. Lembro mais da pimenta; eu tirava pimenta ali, depois esfregava meu olho. (riso) Aí ficava ruim pro meu lado. Eu não tinha muita opção, não tinha Playcenter pra mim, essas coisas. Era mais brinquedo entre si, eu, minhas amigas, meus primos. Crescemos todo mundo junto, primo, homem com mulher, todo mundo junto.

 

P/1 – E que tipo de brincadeiras vocês faziam?

 

R – Era mais brincadeira de esconde-esconde. Brincadeira, não sei como se diz bem em português, mas fazia perguntas, cada pergunta que eu perdia era apanhar... Era apanhar de apanhar mesmo. Criança não tem esse conhecimento, se está machucando ou não está, a gente apanhava. O que você tinha de dinheiro você tinha que me dar caso você perdesse. Este tipo de brincadeira. Tinha também de ir roubar fruta - tendo frutas na minha casa, a gente ia roubar frutas nas casas vizinhas. Eu lembro uma vez que caí de uma árvore e eu machuquei aqui, rasgou tudo. Fiquei três dias sem falar pra ninguém. Toda vez que a minha mãe me dava banho eu dava um chilique, então teve um dia que ela me puxou e rasgou de novo, começou a sangrar, aí eu falei que foi ela que me machucou. Eu fiquei com medo de falar pra ela que eu fui roubar no vizinho. (risos) Aí ela ficou louca, desesperada: “Mãe, imagina, desculpa!”

Eu não tive a coragem de desmentir porque eu já tinha mentido, aí ficou uma situação super feia. Ela me levou no médico pra dar ponto, o médico falou: “Não tem condições de dar ponto por que esse machucado já está faz tempo.” Ela olhou pra minha cara e na hora viu que eu tinha mentido. Mas como mãe é mãe, me abraçou, começou a chorar. Aí ficou um alívio pra mim, ficou melhor a situação.

 

P/1 – E a escola?

 

R – Eu estudava numa escola numa cidade que [se] chama... É uma cidade católica, morando numa cidade muçulmana. Os católicos tiveram mais evolução no Líbano, então a escola deles era melhor. A minha era uma escola francesa. Uma escola de madres mais rígidas, então eu estudei desde os meus três anos até os quatorze. Eu fiz a oitava série lá, nessa mesma escola. Tanto eu como todas as crianças da minha cidade, meus irmãos, os meus primos, todo mundo estudava nessa escola. Uma escola muito boa. A segunda língua dela era francês, uma segunda língua no Líbano inteiro. Tinha o inglês também, mas como eu não gostava do inglês... Eu estudei até os quatorze anos inglês e não aprendi nada; só sei falar “How are you?”, que já é muita coisa pra mim. Francês eu falo muito bem, porque foi a segunda língua.

Uma escola muito rígida, era difícil alguém se dar mal naquela escola. E era mais uma escola interna do que externa. A gente podia até dormir na escola se quisesse, o dia que saísse tarde. Uma escola que se dedica muito à religião católica, não à religião muçulmana. Por isso que eu digo que eu cresci mais sabendo sobre a religião católica. Foi até bom porque, crescendo, eu pude ter a opção. Eu optei pela muçulmana mesmo, que eu gostei mais, eu entendi mais. Eu me identifiquei mais com a religião muçulmana.

 

P/1 – Mas você lembra o nome dessa escola das madres?

 

R – Era Soeur de Salvatorien, as irmãs salvadoras, mais ou menos. Traduzindo do francês para o português.

 

P/2 – Vocês tinham liberdade de não frequentar as aulas de religião católica, por exemplo?

 

R – Não, era uma coisa obrigatória. Tinha que ir à igreja, fazer o sinal da cruz. Eu não fazia muita questão de fazer ou não, porque eu não entendia muito. Pra mim, eu só sabia aquilo que a freira falava.

Meu pai tinha muito trabalho. Eu via meu pai, às vezes, uma vez por mês, às vezes nem isso. Meu pai viajava muito. A minha mãe não foi aquela pessoa... A minha mãe é analfabeta, ela não estudou, portanto ela não tem conhecimento. Não tinha esse diálogo de chegar e falar sobre a religião, então eu cresci mais com a religião católica. Era obrigatório sim, tinha que ir. Às vezes eu me escondia no banheiro pra não ter que ir, só que com o tempo a madre descobriu, ela já sabia até em qual banheiro. Eu não tive nem a ideia de trocar de banheiro, ela já ia me pegar lá naquele banheiro. (riso) Então eu tinha que ir sim.

 

P/2 – Mas nos finais de semana seus pais não levavam você na religião muçulmana? Em algum templo?

 

R – Não. A minha mãe não frequentava. O meu pai era difícil de ficar em casa. Quando ele vinha mal dava tempo da gente ficar junto, brincando, essas coisas. Pode ser que até tinha condições e ele não ligava muito. Deve ser isso, porque acho que pra religião sempre sobra um tempinho, mas eu não me lembro de ter ido. Depois de crescida, com uns doze anos, eu comecei a ir sozinha. Aí sim eu comecei a ir sozinha com as minhas amigas, com as minhas colegas, mas na minha infância não lembro de ter ido.

 

P/1 – E como era a sua relação com seu pai e sua mãe? Como eram as coisas?

 

R – Com meu pai, como ele era uma pessoa que viajava muito, ele tinha a cabeça bem mais aberta. Eu digo: “Meu pai é meu herói!” Além de amigo, ele é super protetor, é um paizão mesmo. Ainda mais no Líbano, com as condições que ele tinha, não tem que nem meu pai. Uma pessoa maravilhosa. Ele é perfeito, eu acredito na perfeição porque eu acho que meu pai é perfeito. Eu era superamiga dele. Eu conversava com ele como se fosse um amigo, não como pai. Com a minha mãe, ela mais rígida, mais tradicional, já tinha um receio de chegar e conversar. Eu tinha mais vergonha.

Eu tinha mais intimidade com meu pai, mesmo. Eu lembro que meu pai dava banho na gente, não era a minha mãe. Meu pai fazia o lanche, meu pai acordava de manhã quando podia pra levar a gente pra escola; mesmo tendo o ônibus escolar, quando ele podia fazia questão de levar. Meu pai era pai, mãe, amigo, irmão, era tudo.

 

P/1 – E o trabalho dele como militar, dava condições de um bom nível de vida?

 

R - No Líbano, pra viver é superfácil porque lá a vida é muito barata. Lá as coisas são muito baratas, é uma condição de vida muito fácil. Meu pai recebia tipo mil dólares por mês, nós estudávamos os cinco na melhor escola. Com o salário bem alto, não lembro, mas deve ser na faixa de quinhentos dólares por ano, por pessoa. Meu pai se privava de muita coisa pra poder dar pra gente tudo do bom e do melhor. Eu não posso reclamar de não ter nada na minha infância porque sempre tive tudo. Ele, às vezes, eu me lembro que ficava sem comprar roupa durante uns três ou quatro meses pra poder comprar pra gente toda semana, todo mês. Pra dar brinquedo, pra dar roupa. Eu tive uma infância bem satisfeita, não posso reclamar de nada, de ter me faltado.

 

P/1 – E depois disso, em que momento você veio pro Brasil?

 

R – Com quatorze anos. Eu não tinha nem completado os quatorze anos, faltava ainda uns dois, três meses. No começo… A família do meu pai, ele tem duas irmãs, uma que mora no Canadá e uma que mora aqui. E um irmão também, que mora aqui. Ela mora no Brasil faz uns cinquenta anos, mais ou menos. É isso, uns cinquenta anos.

Todo ano, depois que os filhos dela nasceram, ia alguém lá no Líbano pra conhecer a gente, porque era a única família que eles tinham lá: meu pai, minha mãe, eu e minhas irmãs. Todo ano ia alguém. Em 94 foi a minha tia, eu já conhecia todo mundo, menos um que eu não conhecia, que é meu marido atualmente. Ele [se] chama Hassan. Ele foi pro Líbano [quando] tinha 29 anos. Foi pra conhecer as primas, o tio e não sei o que. Ele foi com a ideia de ficar quinze dias e voltar porque ele colocava na cabeça dele: “Tem que ir pro Líbano, tem que casar.” Ele não queria casar. Foi pra lá, gostou e ficou um mês.

No começo eu não me dava muito bem com ele, depois a gente começou a se dar melhor, aí me apaixonei por ele e ele por mim. Pediu-me em casamento. Fiquei um mês, mais ou menos, pra fazer a papelada e vim pra cá em setembro de 94, casada já.

 

P/1 – Então nessa temporada dele lá, ele já veio com você? Você chegou no Brasil por causa dele?

 

R – Isso, por causa dele. Se não fosse por ele não teria motivo pra vir pra cá.

 

P/1 – E o resto da família, ficou lá?

 

R – Meus pais ficaram lá. Minhas irmãs. Em 92 foi a irmã dele, que é a minha cunhada mais velha, pro Líbano. Ela trouxe a minha irmã, que estava com quatorze anos, pra estudar aqui. Ela queria que ela estudasse aqui. Ela trouxe a minha irmã com a intenção de trazer a família toda. É mais fácil nós virmos de lá pra cá do que eles irem, por que a família aqui é bem maior do que a família lá.

A irmã está estudando. Ela faz medicina, está no terceiro ano. Ela está com a ideia de acabar e ir pro Líbano, ela também prefere lá do que aqui. Depois eu vim casada já, faz quase cinco anos que eu estou aqui.

 

P/1 – Na verdade, você se casou com quantos anos?

 

R – Quase com quatorze. Vim pra cá, mas como eu era muito nova, nós preferimos que ele morasse só. Eu morei com a família dele. Quando eu vi que era isso que eu queria, que eu estava preparada pra casar mesmo, aí foi que eu morei junto. Eu fiz uma festinha, usei branco, só pra estar no clima mesmo de casada. Estamos morando junto com a minha família, a família dele.

 

P/1 – E aí, como foi sua chegada?

 

R – No começo que eu cheguei eu estranhei muita coisa. Lá no Líbano, por mais que tenha liberdade, as pessoas são muito reservadas. Esse negócio de usar curto, ainda mais na cidade que eu morava... Nas cidades católicas você encontra isso normalmente, de usar curto, decotado. Esse negócio de cumprimentar todo mundo, beijar, isso não tinha na minha cidade. Muito menos na minha família.

 

P/1 – E como é que se cumprimenta lá na sua cidade?

 

R – Dando a mão e quando ela usa lenço é assim. (demonstração) O que significa “querido”, “está no coração”. Não preciso beijar pra gostar de você. Você está no coração mesmo sem cumprimentar, é isso, então eu estranhei um pouco.

Eu estranhei também a família. Aqui eles trabalham muito. Eles vivem pra trabalhar, praticamente. Lá a gente trabalha pra sobreviver. Aquilo que a gente trabalha a gente gasta mesmo, não tem esse negócio de ter que juntar. Eles vivem superbem lá, acho que vivem bem melhor do que aqui porque aquilo que eles trabalham, vivem com ele. Aqui já trabalham muito, se veem pouco. Podem aproveitar sábado e domingo e olhe lá. Lá todo o dia é um dia de vida, é super gostoso, lá. Todo dia é dia de se encontrar. Segunda é um domingo, sábado é um domingo, terça é um domingo pra gente. Qualquer dia eu ligo, nem preciso ligar, apareço na sua casa e já é muita alegria pra você. Aqui, o que eu tenho reparado, não... Eu ligo, talvez você possa me receber ou não, tá certo? Vou até sua casa, você me responde pelo interfone: “Olha, não posso porque ou estou com visita” ou “Estou deitada.” Isso eu estranhei muito aqui.

Como se diz, o libanês é muito hospitaleiro, ele gosta muito de hospedar as pessoas na casa dele. Tanto que eu falei pra ela, quando ela quiser ir pro Líbano era pra ela ficar na minha casa, faço questão. Eu não quero, não aceito que ela fique num hotel sendo que pode ficar na minha casa. Isso eu estranhei.

Acho que o ser humano se adapta com tudo, depois comecei a me adaptar, quase passei a seguir as mesmas regras aqui, entendeu? Isso é uma coisa que me incomodou muito, no começo. Foi muito difícil porque acho que eu vim em um momento, a adolescência… Foi a fase que eu mais precisava dos pais, né? Foi muito difícil pra mim também, eu não conseguia me abrir com ninguém. Eu não tinha intimidade com ninguém, não conseguia fazer amizade. Era uma coisa em geral, não podia falar de uma coisa íntima. Quando eu precisava da mãe, era um momento de depressão pra mim. Do pai, era pior ainda. Toda hora que eu ficava triste eu falava: “Não, vou voltar amanhã, vou voltar.” Mas aí eu fui crescendo, fui vendo que a vida era isso mesmo. Eu escolhi isso pra mim. Eu tinha que me adaptar ou pelo menos aceitar a situação que eu criei.

Eu não estudei logo que eu vim. Eu vim direto já trabalhar, pra pelo menos falar o idioma, porque é muito ruim ouvir um idioma que você não entende. Você se sente como uma barata tonta, eu não entendia nada ali. Aprendi muito fácil, com dois meses eu praticamente falava tudo. Eu falo francês, uma língua latina, o que já me ajudou bastante pra aprender até o sotaque. Foi bom, não estudei, fui trabalhar direto. Eu trabalho até hoje no comércio com meu marido, minha família toda.

Eu tenho também parentes que moram em Lorena, no interior de São Paulo, em São João da Boa Vista, em Angra dos Reis, em São José do Rio Preto. Antigamente, todo domingo, primeiro domingo do mês, se encontrava todo mundo em Lorena na casa do meu tio, que é o mais velho da família. Agora isso vem acontecendo de dois em dois meses, de três em três meses. Já não vem acontecendo todo mês como era antes, talvez pelo trabalho. Agora tem bem mais trabalho, mais preocupações, mais responsabilidade. Desde o dia 24 de dezembro até dia primeiro de janeiro do ano novo, a gente passa em Lorena, todo mundo junto. Meu tio faz questão que esteja todo mundo lá. Teve até o ano retrasado… Muito engraçado, dois primos meus queriam escapar, né? Até que conseguiram, mas [quando] deu meia-noite meu tio foi atrás deles, procurá-los nas cidades vizinhas. Ele foi pra Guará, já conhece. Já sabe os bares que eles frequentam, essas coisas... A intenção dele era chegar lá e pegá-los de surpresa, né? [Quando] chegou lá, tinha gente avisando: “Olha, o Mohamed está chegando, o pai de não sei quem está chegando.” Eles foram já escapando, foi muito engraçado.

 

P/1 – Você se referiu à meia-noite de que dia?

 

R - No dia do Ano Novo. No dia 31 de dezembro, dando meia-noite eles escaparam. Não queriam passar o Ano Novo com a família, aí não tem o direito, meu tio foi atrás.

 

P/1 – Onde você começou a trabalhar logo que chegou no Brasil?

 

R – Foi na loja de tecidos com a minha cunhada. Ela já falava o árabe, era mais pra ela traduzir pra mim. Eu fiquei lá durante um ano, mais ou menos, com a minha cunhada.  

 

P/1 – Mas era da família?

 

R – Da família. A minha família tem essas lojas faz muito tempo, uns vinte, trinta anos.

 

P/1 – Você podia dizer o nome dessa loja de tecidos?

 

R – Karan.

 

P/1 – E onde fica?

 

R – Fica na Almirante Barroso, 324.

 

P/1 – Em que bairro?

 

R – No Brás mesmo. As nossas lojas todas são no Brás; a única que é na Silva Telles, fica mais no Pari, que é a de confecção. A fabricação de confecção fica lá. D lado dessa, na mesma rua, tem uma outra loja que [se] chama Pedaços da Moda. Eu passei a ficar lá no caixa, comecei a ficar sozinha com os funcionários. Já falava o português, já sabia de tudo, então não foi difícil. Quando meu marido começou a ficar na loja de confecção, eu comecei a ficar com ele na loja de confecção. Fiquei lá uns seis meses. Fui pro Líbano depois de quatro anos no Brasil. Passei lá cinco meses e voltei faz uns dois ou três meses, de novo pra loja de confecção. Estou lá até hoje.

 

P/1 – E chegando no Brasil e na loja, o que você achou do bairro do Brás?

 

R – Lá você se comunica com todo o tipo de gente, sendo estrangeiro, de outro estado, de outra raça; se vê tudo ali. Eu acho que pra conhecer o Brasil tem que ir pro Brás mesmo, porque você vê tudo. Eu gostei porque encontrava muito patrício lá. Tem muito árabe lá, então eu gostava muito. Como eu não usava o lenço, não era fácil elas me reconhecerem. Eu usava uma corrente no pescoço com o livro sagrado da religião muçulmana, que é o Alcorão. Só olhando pra aquilo todo mundo já me reconhecia, então eu ficava conversando com todo mundo.

O Brás deve ser bem melhor que o Morumbi, pelo menos. As pessoas se comunicam mais. Como é um bairro bem mais comercial do que residencial, como era antigamente, de sábado e domingo é deserto, não tem nem condições de ver. Mas dia de semana é muito gostoso, a gente se vê, conversa com todo mundo. Eu na rua, pelo menos, já conhecia todo mundo, era a turquinha do bairro. Eu já conhecia todo mundo, era super legal. Até hoje é bom.

No bairro onde eu estou trabalhando, no Pari, é menos legal. Digo porque cada um [fica] na sua loja de confecção, não tem essa de ir e voltar. Antes eu ia de uma loja pra outra. São várias lojas nossas, então eu cruzava com um, com outro, conversava... Agora não, é uma única loja, então fico dentro da loja.

 

P/1 - E os demais lojistas, vocês não têm comunicação com os demais?

 

R – Como os meus primos são muito antigos lá, eles são conhecidos por todos os lojistas. Tanto que cliente que compra na nossa loja tem a preferência de comprar em qualquer loja que ele quiser, porque já é uma loja muito conhecida nossa. Eu tenho conhecimento com todo mundo, tanto que eu fiz amizade com bastante meninas lá. Foi até legal tê-las conhecido, aprendi muita coisa com elas e foi gostoso. A gente se conhece, todo mundo conversa, os lojistas, sabe? Eu me sinto quase no Líbano ali. Todo mundo conversando, é gostoso.

 

P/1 – E como você viu os outros lojistas que não são árabes? Você se deu com eles?

 

R – Eu me dei superbem. Não sei se porque eu vim nova e então já fui aprendendo, ou da minha natureza mesmo, mas eu me dei superbem com todos. Eu estranhei os costumes deles, dos brasileiros, que são diferentes dos meus. Esse negócio que eu digo da família, que não se encontra, não se veem.

Uma coisa que eu não gostei, não aceitei até hoje e não aceito, é esse negócio de pai e filho, a maioria com dezoito anos já pode fazer o que quer. “É minha vida, eu posso o que quero”, qualquer coisa sai de casa, vai, procura a turma dele. Isso é uma coisa que eu não aceito porque por mais que seja filho, por mais que você seja casado, ela continua sendo sua mãe, ele continua sendo seu pai, a quem você deve satisfação, a quem você deve respeito. Por mais que aconteça com você, você vai voltar pros pais, são eles que vão se preocupar com você. Não é nem minha amiga, nem meu vizinho, nem meu colega aqui no Brasil. No Líbano, a mesma coisa, mas lá os primos já se preocupam, os vizinhos já se preocupam também, entendeu? Isso é uma coisa aqui que aqui não tem. Não respeito. Com dezoito anos acho que a pessoa cria a sua própria personalidade - não cria, ela pensa que cria, né? Porque ela vai aprender sempre. E como é mãe, ela já viveu mais que a gente, a gente deve muita coisa aos pais. Isso é uma coisa que me revolta aqui. Esse negócio de: “Ah! Eu posso o que eu quero! Não devo satisfação a ninguém, é minha vida!” Ela está muito enganada. Na minha opinião, a pessoa está muito enganada. Isso é uma coisa que não aceito, tanto que muitas vezes eu entrei em conflito com as minhas amigas por causa disso. De vê-las respondendo pros pais e eu querer me meter porque eu não achava certo. Eu me metia onde não devia e nem podia, não era uma coisa que interessava a mim. Isso era a única coisa que não aceitava nos outros.

 

P/1 – E essas suas amigas eram brasileiras?

 

R – Brasileiras. Não tem nenhuma origem, passado, eram brasileiras mesmo. Elas trabalhavam ao lado, nas lojas. Fui criando amizade com elas. Elas também se interessavam por mim porque eu cheguei logo, os patrões delas já conheciam meus primos, então me apresentavam pra me conhecer bem. Pra eu sair do ritmo mesmo, mas eu não conseguia, porque tem essa balada de noite, não sei o que. No meu costume não tem isso, era mais coisa em geral.

 

P/1 – Eu não entendi, tinha o que de noite?

 

R – As baladas de noite, de sexta-feira tinha que sair, de sábado, de domingo. Eu já não tenho isso no meu costume.

 

P/1 – Você não vai?

 

R – Não, eu não saio.

 

P/1 – E qual é a sua forma de lazer? O que você faz no seu dia de descanso?

 

R – Além de reunir a família toda em casa, saímos eu a as minhas primas. É simples, a gente vai ao McDonald’s. A gente se diverte muito, fica lá conversando, rindo, vai, pega um cinema, vai ao teatro, viaja pro interior, pra casa dos meus tios. Pra mim é assim que eu curto, eu vivo ao redor da minha família mesmo. Pra eu curtir a vida, ou tem que ser com a família ou não é vida. Porque viver feliz sozinha, pra mim, não é felicidade. Ou tem que ser com todo mundo, compartilhar os seus momentos de tristeza com todo mundo ou não. Por que na hora que eu estou triste eu quero alguém pra me apoiar [e] na hora que eu estou feliz não quero compartilhar com ninguém? É meio injusto. Então meus momentos de lazer são isso mesmo.

 

P/1 – E junto com seu marido, que tipo de coisas vocês fazem? Atividades, estudos, enfim?

 

R – Meu marido e eles trabalham muito. Eles chegam em casa [às] dez horas da noite, onze horas. De sábado, de domingo, a maioria dos fins de semana eles trabalham.

 

P/1 – Seu marido faz o quê?

 

R – Ele trabalha na confecção com os irmãos dele. Ele cuida do negócio de costureiras, pagamento, de despesas da loja mesmo; ele que controla a situação. [No] fim de semana que ele não trabalha a gente sempre viaja pro Rio de Janeiro; ele já morou três anos lá, temos lojas lá, temos apartamento. Nós viajamos pra lá, viajamos pro interior. Mesmo não viajando, não precisando, a gente vai andar no Ibirapuera, vai pegar um cinema mesmo. Às vezes nem tem condições, nem tem dinheiro pra pegar um cinema, a gente fica em casa conversando. Saímos pra andar, porque lá no Morumbi é muito gostoso pra andar. Vamos até a banca, que é do lado da minha casa, tomar uma água de coco. Então nunca não tem o que fazer, sempre dá pra fazer, é só querer mesmo. Sempre tem uma atividade pra gente.

 

P/1 – Qual é a formação do seu marido, ele estudou?

 

R – Ele se formou em Economia. Depois ele fez dois anos de Administração Hospitalar. Ele trabalhou durante muito tempo na Nestlé; cuidava do setor de funcionários, contratava, pagamento de funcionários, essas coisas. [Foi] contador da Nestlé durante uns três anos. Depois os irmãos não queriam mais, queriam que ficasse todo mundo junto. Ele teve que sair pra ficar junto com a família. Ele está lá com a família, espero que fique durante muito tempo.

 

P/1 – E a família toda é muito praticante da religião em conjunto? Ou cada um tem um perfil?

 

R – Cada um tem um perfil, cada um tem o seu jeito de seguir a religião. Eu já sou mais aquela coisa radical mesmo. Faço as cinco rezas por dia, o traje da religião, já sigo mais assim, não cumprimentar. As minhas cunhadas já não usam, rezam em qualquer horário, cumprimentam homem, normal. Meus cunhados também. Meu marido não segue que nem eu, cada um tem o seu jeito de idolatrar Deus.

 

P/1 – E você é a mais ortodoxa a partir de quanto tempo?

 

R – Não mais ortodoxa, eu sou mais muçulmana.

 

P/1 – No sentido de ser muito praticante.

 

R – Eu sempre fiz tudo direitinho, faz uns três, quatro anos.

 

P/1 – Antes não?

 

R – Antes sim, eu seguia direito. Eu ia às missas, eu sabia o que era a minha religião. Eu fazia as rezas, mas não cumprimentava. Isso faz pouco tempo, faz mais ou menos uns três ou quatro meses, não faz muito tempo que eu não cumprimento e que eu uso isso.

 

P/1 – À medida que o tempo passa você vai se aprofundando, tentando se enquadrar melhor?

 

R – Eu vou pelo menos tentando aperfeiçoar. À medida que eu posso, a partir do momento que eu não incomode ninguém, vou fazendo isso mesmo.

 

P/1 – E qual é a prática coletiva da sua religião aqui em São Paulo?

 

R – Fazer as cinco rezas antes do nascer do sol.

 

P/1 – Você vai a alguma mesquita?

 

R – Não. Você pode fazer isso na sua própria casa. Você se dirigindo a Meca, que é onde - não sei se vocês conhecem - tem aquela pedra preta, já mostraram na televisão. Foi lá que a maior mesquita -, o que se diz que é a igreja pros católicos, mesquita pros muçulmanos -, a maior no mundo, muçulmana. Aliás, no mundo, para o muçulmanos, ali foi o profeta Maomé que construiu. Você se dirigindo a Meca - onde você estiver, não precisa estar na sua casa -, você se lava, lava o corpo. Você tem que estar pelo menos limpa exteriormente como interiormente porque você não pode rezar, sendo que você acabou de mentir, sendo que você acabou de falar mal, sendo que você acabou de roubar. Automaticamente a sua reza não está valendo nada. Você tem que estar de bem com si mesma, a sua consciência tem que estar limpa, como o seu corpo tem que estar limpo. Você pode fazer isso antes do sol nascer ou ao meio-dia, quanto o sol está bem no meio, está vertical, aí você também tem que fazer. Antes do sol se pôr, você também tem que fazer. Logo que está aquele negócio vermelho, o sol nem está ainda no meio, aí é a quarta, e depois, quando não tiver mais nada, o sol se põe todo, está bem escuro, já tem a lua, as estrelas, você faz também. Na madrugada, no meio-dia, na tarde… Você fala crepúsculo, é isso? E à noite. São cinco rezas que deve fazer.

Jejuar um mês por ano, que é o mês do Ramadã. Antes do sol nascer até o sol se pôr você não pode comer nada. Você não pode tomar água, não pode fumar, você simplesmente tem que ficar com o estômago vazio. Isso é pro ser humano se purificar, pro ser humano poder sentir a fome dos outros. Nesse mês ele educa o estômago, não come mais do que deve. Pra sentir a fome mesmo, pra poder ajudar os outros vendo que essa fome que você está sentindo nessa hora ele sente no dia a dia. Pra poder ajudar os outros, essa é uma coisa também.

 

P/2 – Você segue o Ramadã?

 

R – Sigo. Eu faço mesmo. Às vezes eu faço dez dias num mês. O mês passado eu fiz dez dias, não era o Ramadã, mas eu fiz. Eu faço sempre que vejo que eu posso. Eu tenho úlcera, então nem sempre posso. Mas em Ramadã eu me forço completamente, eu faço o mês inteiro.

 

P/2 – É em janeiro o Ramadã?

 

R – Todo o ano. O ano muçulmano é diferente do ano católico. O ano muçulmano começa a partir do momento que o profeta teve autoridade de entrar pra Meca. Foi aí que começou o ano muçulmano, que o profeta entrou pra Meca.

 

P/1 – E esse ano está em quanto?

 

R – Estamos em 1429. E são meses diferentes, que não tem nada a ver com os meses. São doze meses, mas não tem nada a ver com... A gente chama do ano lunar, né? Não sei em português como fala, mas é o ano lunar pros muçulmanos. A cada ano ele vai atrasando dez dias. Ele tem vindo faz bastante tempo em janeiro. Ele vai começar nesse ano [no] dia dez de dezembro. Acaba [no] dia dez de janeiro.

 

P/1 – E você não tem uma orientadora? Todo mundo que pratica uma religião complexa como a sua tem um instrutor.

 

R – Quando eu tenho as minhas dúvidas eu ligo pro shekh, que é o padre. Ele é o orientador, ainda mais aqui no Brasil. Tem uma mesquita aqui que fica no Brás, na Rua Elisa Whitaker. Ele mora lá e tem a mesquita lá. Os homens vão, rezam toda sexta-feira, tem que ir. Sexta-feira é um dia sagrado, tem que ir todo mundo. Eu sempre ligo pra ele.

 

P/1 – Só os homens?

 

R – Tem que ir mulher também. Vão mais os homens, que podem deixar as lojas. A mulher já tem os filhos dela, a escola, fica mais difícil pra elas irem. Eu ligo pra ele. Quando é coisa mais íntima eu falo com a esposa dele. Eu nunca fico na dúvida e nem faço nada na dúvida, eu prefiro não fazer a fazer na dúvida. Aí não está valendo mais nada. Porque tem a quem eu perguntar, com quem eu tirar a minha dúvida, com ele.

 

P/1 – Como é que se chama em português? Porque em cada religião tem um nome, é o padre ou pastor, é o rabino?

 

R – É shekh que a gente chama, é o rabino.

 

P/1 – Mas esse é o nome em português?

 

R – É o nome em árabe. Em português já não tem significado, você poderia traduzir como um instrutor, como uma pessoa que pode te iluminar, como seu professor, mas um certo significado não tem, não que eu conheça.

 

P/1 – Voltando ao bairro no Brás. Fora você encontrar tantos patrícios, quais são as impressões que você tem do bairro? Há quanto tempo você está no bairro?

 

R – Quatro anos, quase cinco, mais ou menos. Eu acho que não sou a pessoa certa pra falar bem desse bairro que eu não conheço. Pelo que eu sei, foi um bairro mais residencial, antigamente. Começaram os libaneses mesmo, sírios, a construir as lojas lá. Aos poucos, a Rua Oriente - a maioria é árabe mesmo; a Rua Miller, a Rua Maria Marcolina, a Rua Silva Teles, onde eu fico, já tem mais coreanos. A Rua Maria Joaquina já tem mais coreanos, agora os coreanos estão entrando mais ali. Na Almirante Barroso, que é a loja de tecido, já tem mais coreanos, na Joli também. Tem italianos, tem de todas as raças.

Pelo que eu vi é um bairro muito bom pra trabalhar. Pra abrir uma loja, sempre você se dá bem ali, não tem como não se dar bem. Eu tenho tecido, meu vizinho tem, o [outro] meu vizinho tem, mas as três lojas se dão bem. Mesmo tendo a mesma coisa. É incrível isso, eu acho incrível. Porque você entra numa loja, compra na primeira loja que você tiver; [se] você entra na outra tem a mesma coisa, você não vai comprar a mesma coisa, mas não. Tem gente que entra, vê o tecido, entra na loja, vê o mesmo, mas compra no outro. Acontece isso conosco também.

É um bairro muito bom pra trabalhar, bem agitado. Tem os dias mortos. (risos) Você não vê nem uma pessoa, a não ser os comerciantes mesmo na loja. Fica até difícil você abrir o caixa nesse dia. É um bairro que tem o seu lado bom, que é esse. O seu lado ruim é que de sábado e domingo é deserto. E seria um bom bairro ali pra se morar, porque é tudo perto, não é que nem no Morumbi. No Morumbi é deserto pra se morar, não tem condições, eu não gostaria mesmo de morar lá. Pra ir na padaria tem que ir de carro, pra ir não sei onde tem que ir de carro; ali seria melhor. Isso que é o ruim deles, eles não moram. Eles transformaram aquilo numa coisa mais comercial, [o] que não foi tão bom.

Mais pra baixo tem o Pari, que já é um pouco mais residencial e que tem mais árabes. Quem mora mais lá são os árabes mesmo.

 

P/1 – E se inicialmente foram os árabes que se instalaram nesse bairro, como é que eles estão se dando com os coreanos que vieram depois?

 

R – Que eu saiba foram os árabes mesmo que começaram ali no Brás.

 

P/1 – Mas e a chegada dos coreanos, como é o trato, a convivência?

 

R – Prejudica, até um certo ponto. Os coreanos foram pegando as lojas, então os árabes, não que foram saindo... Os coreanos vieram com tecidos de fora, coisas novas, novidades, eles tiveram seus lugares. Coreano só compra com coreano ali. Antes não, coreano tinha obrigação de comprar com árabe por que não tinha coreano. E coreano só vende pra coreano. Árabe já não pode comprar lá. Brasileiro do Rio de Janeiro, de não sei onde, fica muito difícil comprar ali com coreano.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Eles tem essa coisa deles. Acho que tem medo de dar cheque devolvido. Não sei qual é o problema deles, mas fica super difícil você comprar com coreano. Você pode até conseguir, mas é muita exigência deles, não sei quantas informações comerciais, não sei quanto tempo de loja, então fica difícil. Além deles já pegarem os clientes coreanos, eles não vendem pra fora de coreano. Fica essa coisa, mas não entram em conflito com árabe, porque os árabes já estão lá faz tempo. Eles já têm a clientela deles, já têm o lucro deles, todo mundo já conhece. Não tem como dar prejuízo. O coreano começou agora, então ele tem que começar agora tudo, o árabe não. Enquanto ele está começando, o árabe já tem tudo ali. Se o cliente do árabe for passar pro coreano, é só pra comprar algo que o árabe não tem, ou se o coreano for fizer pra ele um preço que o árabe não faz. Eu não deixaria escapar um cliente meu por causa de preço, eu abaixaria até o ponto que eu possa para não perder o cliente. Fica uma coisa normal, não tem muito prejuízo, nem tem uma coisa que incomode. Normal.

 

P/2 – Zeinab, vocês tem filhos?

 

R – Eu não tenho. Estou tentando, fazendo tratamento, e a hora que vier... Não tem problema. Nossos cunhados todos têm, todos os que são casados tem. Meu cunhado tem um que tem cinco, tem outro que tem três, tem outro que tem três também. E tem um amigo do meu cunhado que cresceu junto com eles, mora junto conosco na minha casa, trabalha junto na mesma loja, ele também tem quatro filhos. Várias crianças naquela casa.

 

P/2 – Como é o seu dia a dia hoje?

 

R – A gente vem cedo pra loja. Sempre na loja tem coisa diferente porque é pessoa diferente que você está conhecendo, é mercadoria nova que está entrando. A rotina é acordar, vir pra loja e ir embora pra casa. Chegando em casa eu faço a minha reza. Como a gente acorda cedo, a gente dorme muito cedo também. Às vezes eu espero meu marido chegar pra fazer janta, pra ver se ele precisa de alguma coisa. Às vezes não, eu já durmo de cara, a gente [se] cansa muito.

É uma rotina não cansativa, uma rotina até que gostosa. Você acordar, ter o que fazer sempre; não é você acordar e não saber o que fazer da vida. Se tivesse filhos, seria não uma coisa melhor, mas uma rotina bem mais gostosa, né? Porque é um ser humano pra você cuidar, uma pessoa pra você fazer crescer, pra fazê-la se transformar num homem, numa grande mulher. Seria bem melhor com filho, mas… Estou esperando o momento certo, tudo tem seu momento.

 

P/1 – Qual seria seu maior desejo?

 

R – Meu sonho? Morar no Líbano com meu marido. Eu luto com todas as minhas forças, tudo o que eu tenho de força. Acho que eu luto com isso pra poder morar no Líbano.

Eu queria muito, se eu tivesse filha um dia, que ela crescesse no Líbano. Com os costumes de lá, pra ela crescer mais mulher, mais reservada, mais respeitada. Ela se impõe mais na sociedade lá. E mais pela religião mesmo, porque a minha religião aqui não é uma religião normal, uma coisa normal que você encontra. E com a liberdade que a pessoa tem aqui, com a civilização que o Brasil está tendo agora fica muito difícil você criar uma filha ou um filho com os costumes que você tem. Por mais que você segure em casa, ela vai sair, vai ver os amigos na escola, vai ver não sei quem ou ela vai se sentir diferente deles. Se ela for uma boa pessoa, um pouco mais inteligente, com o passar do tempo ela se vê, ela vê isso de uma maneira positiva. Ela aceita isso, mas pra isso ela precisa ter muita cabeça, ou ela vê diferente, fala: “Não, não posso fazer em casa, não vou fazer fora. A minha mãe não me deixa sair, mas eu posso faltar na aula, fazer o que eu quero.” Por mais que você segure, fica mais difícil você criar uma criança. Não tem condições aqui de criar, pelo menos com os costumes que eu tenho. Se eu quiser deixá-la ir pelo caminho que ela quer, se é uma coisa que eu não quero, fica fácil aqui, portanto meu sonho é morar no Líbano mesmo.

 

P/2 – A gente está encerrando nosso depoimento. Você gostaria de falar mais alguma coisa que a gente não lhe perguntou?

 

R – Bom, o que vocês não me perguntaram, que eu gostaria de falar: esse negócio que mulher é submissa, que o Líbano é só guerra, o povo está muito enganado. Sendo no Brasil ou fora que traz a informação, isso é um grande engano. Com esses vinte anos de guerra que o Líbano teve, ele sempre foi um país muito forte, por menor que ele seja. Vinte anos mesmo de guerra, contados. Foi um país muito forte, um povo muito unido. Se você vai pro Líbano agora, você não reconhece. Eles conseguiram mesmo assim construir lá tudo de novo, conseguiram levantar o país de novo, conseguiram fazer do Líbano o que ele era. Que nem dizem: um país do Oriente Médio, que era a relação entre os ocidentais e os orientais. É o Líbano. Ele voltou a ser o que era.

E esse negócio da mulher ser submissa, desculpa falar, mas é ridículo. A mulher lá tem a palavra dela, ela se impõe mais. É ela que manda na casa, ela que ordena tudo. E a mulher já tem o seu lugar. Lá a mulher já pode até ser presidente, coisa que acho que aqui a mulher não pode ser, né? Lá ela pode ser presidente, ela pode ter o que quer da vida, ela pode escolher a profissão que quer. É uma mulher que nem qualquer outra. É bem mais respeitada, é bem mais reservada. Um homem mexe comigo, o outro que está vendo, o vizinho, já vem e me defende, não vem e ajuda pra mexer, entendeu? Nos mínimos detalhes, ela é muito respeitada. Isso é uma coisa que se eu pudesse, sairia por aí falando pra todo mundo. Eu fico muito revoltada quando eles me falam - aliás, não é culpa do povo, é da publicidade. A televisão que traz isso. Essa é uma [coisa].

Outra coisa: eu queria agradecer a vocês de terem me dado essa oportunidade de poder falar dos nossos costumes, das nossas tradições, de poder esclarecer coisas que o brasileiro não sabia e de poder falar ainda mais da religião muçulmana, porque os árabes e católicos aqui são conhecidos, normal. Porque brasileiro católico tem, mas brasileiro muçulmano já não tem. Foi bom ter vindo porque eu pude falar da minha religião, que é o muçulmano, que eu tenho muito orgulho. Não é esse negócio de: “Coitada, ela tem que usar isso!” Isso é lei de Deus, não do homem. Lei do homem é quando a mulher não pode sair, não pode ver, aí é o homem, o marido dela, o pai dela que faz. A lei de Deus é só a mulher se cobrir, a mulher cobrir as partes que fazem com que ela atraia o homem. É só isso, não tem nada de mais. Uso porque quero, não porque é obrigação minha, só isso. Obrigada pela equipe, por todos vocês.

 

P/1 – Nós que agradecemos. Sua entrevista foi ótima, muito obrigada.

 

R – Vocês que facilitaram, obrigada.

 

P/2 – Obrigada.

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