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Josefa Pereira da Fonseca

História de: Josefa Pereira da Fonseca
Autor: Memória Local na Escola - Bom Jesus e Currais, 2015
Publicado em: 15/11/2015

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Escola municipal João Pedro da Fonseca Professora: Miraneide Alves Arnaldo Depoente: Josefa Pereira da Fonseca - 9 º ano Josefa-Zefinha CAP. I JOÃO- DE- BARRO HUMANO Nossa história começa com uma visita à bela senhora Josefa. De sorriso aberto, gestos comedidos, pele bronzeada cor chocolate ao leite, logo se prontifica a nos contar um pouco sobre sua vida. Josefa de batismo; Zefinha para os muitos amigos. Logo às primeiras perguntas seus olhos lindamente azuis, guardados por detrás dos óculos, vez em quando levantados com uma das mãos, se dispersam no horizonte como se levados para um passado há muito distante. De repente, nos aparece uma menina esperta: -Eu sou obediente aos meus pais. Nascida e criada na comunidade Piripiri, zona rural de Bom Jesus, Piauí, onde mora até hoje, começa a nos descrever com um sorriso e olhar nostálgicos a casa onde morava com o pai João Pedro, a mãe Maria e seis irmãos; Cesarina, Diógenes, Manoel, Júlio, Paulo e Narcísio. A casa era cercada por árvores e construída em cima do um morro de onde se avistava todos os dias uma imensa lagoa e pessoas trabalhando ou buscando água no brejo com cabaças e latas na cabeça. Quando estava quase “truvando’’ era só olhar de lá de cima para ver um lindo pôr-do-sol que deixava o céu vermelho-alaranjado. Era uma casa grande, humilde, de taipa feita com varas cortadas na mata próxima. Depois de fincadas no chão sobre a planta da casa, eram cobertas por barro amassado. Um trabalho de João-de-barro humano: cansativo e demorado. O telhado todo coberto por palhas de buriti cortadas no brejo. Ruim era quando chovia. Chuva de vento então! Se eram muito fortes, levavam algumas palhas da casa e encharcava todas as coisas. Não que tivesse muita coisa, somente alguns utensílios de cozinha, tamboretes com forro de couro de boi, fogão de barro. Após o vento se acalmar e a chuva passar, a mãe dela limpava tudo com sua irmã Cesarina. No dia seguinte, bem cedinho, iam todos buscar água no brejo. Era para encher “os potim”. A água era para tudo: banhar, lavar roupa, louça e fazer comida. -Era tudo água do brejo! Saia com uma cabacinha de corda na mão e outra na cabeça ajeitada em cima de uma rodilha de pano. Tinha que passar por carreiros ainda molhados pela chuva do dia anterior. Eram pequenos e fechados por muito mato que arranhava as pernas, ao contrário das cobras que havia por lá. Tão grandes que Zefinha morria de medo de encontrar com uma e estar sozinha na hora. Ao chegar em casa, ia arrumar tudo rapidinho para poder brincar com suas amiguinhas. A mãe só deixava a menina brincar quando terminava todos os afazeres de casa, que para ser varrida, tinha que jogar água para abaixar a poeira do chão de terra batida. (Ana Gleice de O.Gonçalves,Tallita P. Barbosa-9º ano) CAP. II O BEBÊ DE PANO Depois de ter ajudado a mãe, saia correndo para debaixo das árvores. Começavam então as brincadeiras: roda, comidinha, subir e descer das árvores e correr em volta, boneca de pano feitas por elas mesmas. Sua amiga Perpétua fazia as bonecas. -Era a mais inteligente e melhor amiga. Zefinha era muito pequena, não podia costurar. Perpétua pegava pedaços de pano, linha, tesoura e “águia”. Cortava primeiro o corpo da boneca, costurava uma parte e depois fazia o enchimento com os restos dos panos que sobravam, para só então finalizar a costura. Aí era só costurar nariz, boca e olhinhos, bordando com a linha. Os cabelos eram pedaços de tecido desfiado. Tudo feito com muito capricho para ficar bonita e fazer inveja às colegas. Era como se conseguia bonecas naquele tempo. Não era como hoje em dia que elas falam, andam e até cantam. Certo dia, quando brincavam, as amigas maiores deitaram Zefinha em um lençol e colocaram um boneco de pano a seu lado. Quando a mãe dela se deparou com aquela cena se aproximou brigando: - O que é isso, Zefinha? As meninas ficaram olhando umas para as outras e Zefinha falou baixinho: - É uma brincadeira que nós inventamos. É um resguardo, mamãe. A mãe começou a rir e deu um suspiro dizendo: - O que vocês estão fazendo com minha filha? Levanta já daí! É para brincar de boneca e não fazer influência de casar. Dona Zefinha rir das histórias que conta. São boas lembranças. (Maria Eduarda da S. Lisboa, Paloma L. da Silva-9º ano) CAP. III ENTRANDO NOS PANOS Depois de criança, doze anos, “já entrando nos panos- ficando mocinha”, trabalhava como gente grande. Ia para a vazante com a família, bem cedinho e “sem quebra- jejum cortar arroz, panhar feijão. Muitas vezes só voltavam à tarde. Levavam lençol, rede e cabaça com água. Aproveitava para brincar com bonecas de milho. Elas tinham cabelinhos amarelos, pretos, vermelhos e palhas verde-claras. Já em casa, sua mãe não gostava de deixa-la sozinha com os irmãos. Passava muito cigano pelas estradas. Algum vizinho sempre avisava: -Os ciganos estão passando. Todos fechavam portas, janelas, agarravam os filhos menores e se escondiam. Costumavam dizer que pegavam crianças para viver com eles. Passavam. Muita gente! Tudo que avistavam pediam: -Oh, minha ganjona, me dê esse porco! Me dê essa galinha! Você tem muita. Deixe ler sua mão para ver seu passado, presente e futuro. Sou pobre, preciso de ajuda -mas era só abrirem a boca para se ver tudo com dente de ouro. (Felipe P. Gomes, Wanderson S.Santos-9º ano) CAP. IV A PALMATÓRIA E UM PIMENTÃO MADURO O tempo correu como cobra- cipó atrás de gente. Zefinha, agora com quinze anos, era moça feita. Surgiu então uma oportunidade que poucos tinham: estudar. Frequentou pouco a escola, por isso aprendeu a colocar mal o nome. As aulas eram à luz de candieiro na casa de alguém que emprestava um espaço. As suas, por exemplo, eram na casa de sua tia Pereira. Os professores eram o senhor Fernando e o senhor Vilson. Sem muitos recursos, os alunos possuíam apenas pequenos cadernos, tabuada e a carta de ABC. Os professores se viravam como podiam e a criatividade mandava. Hoje lembrar é engraçado, mas para saberem se os alunos haviam aprendido as letras, furavam um buraco em uma folha de papel e colocavam em cima de uma delas, se não soubesse: -Oh! Palmatória! (gargalhadas) Os colegas que conheciam as letras batiam na mão dos outros que erravam. Às vezes a mão ficava vermelha como um pimentão maduro ou latejando. Confessou ter levado “umas duas palmadas de palmatória”. Aquele buraco em uma folha abria as portas para um mundo novo: o mundo da leitura. (Camila de C. Matos,Maria Rafaela P. Nascimento-9º ano) CAP. V PARA NÃO DÁ MIXÓRDIA Certo dia, entre tantos andarilhos que passavam por ali chegou um rapaz muito vistoso por quem Zefinha logo se encantou. Ele começou arrudiar a moça. Começaram um namoro trocando cartas e olhares. O casal só saia junto se fosse acompanhados por um responsável: alguém de confiança. O namoro daquele tempo não era como o de hoje que os jovens saem sozinhos e só voltam de madrugada. Não deu três meses, se casaram no padre e no civil para não dá mixórdia. O padre e o juiz celebraram o casamento na casa de seus pais pela manhã. Seu vestido era lindo. Um pouco a cima do joelho de babadinho e flores brancas. O noivo” todo nos panos”. Tudo aconteceu debaixo das árvores onde quando criança brincava. Dava uma dor no peito de lembrar pois sabia que daquele dia em diante tudo ia mudar. A festa foi tocada por um violeiro em uma latada-cercado feita com paus cobertos por palha e iluminado por candieiros. Todos dançaram e se divertiram muito. O tempo foi passando. Aí começaram os problemas. Seu marido “ enciumava” muito dela. Além disso bebia muito: Mas que um botija com um buraco no fundo. Veio a separação. (Kênia P. de Castro, Daniela L. da Fonseca-9ºano) CAP.VI SUA COTA SERÁ COBRADA POR DEUS Passado algum tempo, ela terminou gostando de outra pessoa e ficando grávida. Por não ter como se sustentar sozinha foi para Brasília trabalhar. Ficou na casa de sua tia Cota. No período de gestante foi alegria de sobra. Os nove meses se passaram. Chegou o momento de “dar à luz”. Foi para o hospital, mas lá não havia vaga. Então terminou voltando para casa. Teve o bebê lá mesmo. Um belo menino. Após o nascimento da criança sua tia disse que daria o bebê, pois ela não teria condições de criá- lo. Zefinha não concordou com aquela ideia. Nunca teria coragem de dar um filho seu. Horas depois do parto, apareceu uma mulher na casa e pediu para segurar o bebê dizendo que ficaria ali por perto. Saiu fazendo graça para o menino. Não foi nada disso. Demorou e nada dela voltar com a criança. Só então percebeu que Cota havia cumprido o que prometera. - Tinha dado e pronto! Zefinha chorou por dias ( lágrimas nos olhos ): -Foi como se tivessem arrancado um pedaço do meu coração. Não sabia o nome da mulher, mas o homem era “um senhor Rubens”. Ficou sabendo que tinham ido embora para Goiânia com seu filho. O pior era ver os vizinhos chegarem para visitar ela e a criança e ficarem sabendo do acontecido: “Não acreditavam”. Quando a criança completou dois anos de idade; os pais adotivos, tiraram uma foto e mandaram para a tia dela, que somente lhe mostrou dizendo ser aquele o seu filho, depois guardou a foto. Surgiram esperanças de encontrá-lo. Infelizmente, a tia já muito doente veio a falecer. Depois disso, resolveu mexer nas coisas dela e então encontrou a foto do filho que é guardada com muito carinho até hoje. A única lembrança do pequeno “Fábio”, foi assim que o batizaram. Já se passaram mais de quarenta anos , mas dona Zefinha tem fé de encontrá-lo ainda. Deseja que aquela mulher se arrependa. Mulher que um dia, fazendo graça para uma criança transformou o dia de uma mãe, no dia mais triste de sua vida. (Suzana G. Gonçalves,Jefferson F. da Silva 9º ano) CAP.VII A BENGALA VOLTA AO PRESENTE -Pá. Algo cai no chão. Era uma bengala que escorregou pela cadeira assustando a todos. Dona Josefa, volta ao dia 14 de setembro de 2015. Hoje com 80 anos de idade, 8 filhos,26 netos e 29 bisnetos, mora em uma casa construída com blocos, coberta com telhas e piso de cerâmica. Sentada na porta de casa, diz não precisa trabalhar tanto. Seu único medo é parar em uma cadeira de rodas por sentir as pernas fracas e então não poderá visitar as pessoas. Seus filhos, são uma benção em sua vida. Olhando para cima do morro hoje com muitas casa, água encanada, calçamento, luz elétrica (aposentaram o candieiro) lembra de sua infância, brincando debaixo dos embuzeiros com sua irmã Cesarina e sua comadre Perpétua. Deseja terminar seus dias com saúde e esperança.ESPERANÇA... (José Eldinê C. Santos Silva, Joarles M. Coelho – 9º ano) ‘

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