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José Mauro da Conceição: um açougue pra chamar de meu!

História de: José Mauro da Conceição
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/03/2021

Sinopse

Infância em Marília. Trabalho com sorvete. Supermercado. Experiência no açougue com o tio. Mary Dota. Descrição Avenida Doutor Marcos de Paula Raphael. Rio Grande do Sul. O português. Profissão dos filhos. Reforma do açougue. Brasil dos anos 80. Falta da carne. Carne maquiada. Bandejas e organização. Churrasco. Política. Relacionamento e casamentos. Jovem e idosos na experiência de compra. Pandemia. Futuro do açougue/comércio.

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História completa

        Eu me chamo José Mauro da Conceição, nascido no dia 18 de fevereiro de 1966. Eu sou de Marília, estado de São Paulo. O meu pai é o José Aparecido Benedito da Conceição, e a minha mãe, Maria Rodrigues Cunha da Conceição, ambos descendentes do pessoal lá do norte do país, da Bahia e de Alagoas. E eu também tenho uma vó que era portuguesa.

        Meu pai trabalhava numa fábrica de vassoura, e depois foi ser gari da prefeitura. Naquela época as coisas eram bem difíceis, porque tinha o aluguel pra pagar, tinha que manter a casa. A gente morava em casa simples, casa de madeira - tinha muito na época. Eu sabia quando era dia, quando era sol, quando era chuva, porque casa de madeira sempre tem um buraquinho, sempre tem um telhado furado.

        A escola de antigamente, na minha época, tinha punição. Eu estudava no Tomás Antônio Gonzaga, primeira escola de Marília. Tinha uns 800, quase mil alunos na parte da manhã; era muito aluno. E tinha uma árvore bem frondosa, onde a gente fazia aquela fila indiana: mulher de um lado, homem do outro, tipo o do exército. Aí você punha a mão, tomava a distância... no ombro da pessoa, todo mundo em silêncio, nada de bagunçar.

        Nessa época eu comecei a levar marmita pro meu tio, que tinha um pequeno açougue. E ele me segurava lá, pra ele poder sair um pouquinho, pra ir ao banco. E ali eu fui aprendendo, fui aprendendo uma nova profissão. Até que eu fui trabalhar integral com ele. E o meu salário era um botijão de gás no fim do mês, 500 gramas de carne moída e um frango por semana. Em dinheiro, eu recebia, se fosse hoje, 50 reais por mês. Mas eu ficava contente, porque eu estava aprendendo uma profissão. E eu tenho orgulho da minha profissão!

        Trabalhei muito tempo em Marília, mas depois veio o Mary Dota, em Bauru. O Mary Dota foi uma coisa que estava no meu sangue, que foi um sonho que eu realizei. Estavam fazendo as casas ainda, não morava ninguém, a rua era de terra. Aí eu fui lá no escritório, pra pegar uma casa aqui, porque eles iriam montar um comércio lá, com 3 mil casas, mais ou menos. Fui lá na Cohab, mas era só pra quem morava em Bauru. Aí passaram uns 15 anos, mais ou menos, eu voltei aqui uma vez e olhei bem um açougue no Mary Dota: "Nossa, que açougue bonitinho, ajeitadinho”. Aí um amigo meu falou assim: "Você quer trabalhar em Bauru, Mauro? Pro Português? Vai lá, que vai ser bom pra você!”

        Aí eu vim pra cá e deu certo. Chegou aqui, estava tudo preparado pra mim. Trabalhei 15 anos pra ele no açougue, e a gente sempre se respeitou. Ele foi meu patrão, ele foi meu amigo. Hoje ele vem aqui e me auxilia ainda, na parte da contabilidade. Ele tem a experiência, e quando a gente está cercado de pessoas com experiência, não tem como as coisas não darem certo, o sucesso é mais rápido. Ele fez uma proposta pra eu ser sócio dele, e agora ele vem uma vez por semana.

        A carne é assim: a carne com osso é uma carne diferenciada, que tem mais sabor, é uma carne que resiste mais. Só que o pessoal, hoje, não entende muito isso e vai mais pelo preço. A carne com osso não é tão cara quanto a carne maquiada, a carne embalada. Eu trabalhei 10 anos com carne embalada também, mas ela não aguenta muito.

        O exemplo vivo do meu pai, o legado dele, é nunca deixar a gente desistir das coisas, dos nossos sonhos. Por mais que seja dificultoso, por mais que seja difícil, sonho é sonho. Eu comento com meus filhos: a gente tem que sonhar, tentar construir um castelo. Porque se a gente não conseguir construir esse castelo, pelo menos dois cômodos, um banheiro e um quarto a gente fez. Os sonhos são feitos assim.

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