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História

Pão Sagrado!

História de: José Luiz Fernandes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/07/2021

Sinopse

Lembrança dos avós e sua descendência. Infância em São Paulo, na Vila Maria. Dificuldades e lazeres na infância. Período escolar e passeios pela cidade. Tradições portuguesas na família. Mudança de São Paulo para São José do Rio Preto. Produtos e especialidades da padaria. Perfil dos clientes. Eventos na padaria. Mudanças econômicas no país e dificuldades. Pandemia. Planos para o futuro. Lazer e família.

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História completa

           Meu nome é José Luiz Fernandes. Eu nasci dia 11 de agosto de 1962, aqui em São José do Rio Preto, na Santa Casa. Meu pai é Boaventura Fernandes Pedro, e minha mãe é Maria Amélia Marques Pedro, ambos portugueses. Quanto aos meus avós, eu fui conhecê-los em Portugal, em 1986, e depois o meu avô veio ao meu casamento aqui no Brasil, em 1990. Da parte da minha mãe, eu só tinha a avó, que morreu há seis anos, com 107 anos. Meu pai é de Proença-a-Nova, e minha mãe é do Castelo, no centro de Portugal. E os dois vieram se encontrar aqui no Palácio das Águas, em Rio Preto.

          Meu pai ficou careca de tanto carregar saco no J. Alves Veríssimo. Mas depois, em 1958, ele abriu um armazém chamado Casa Salgueiro, no centro de Rio Preto. Mais tarde, ele abriu uma mercearia em São Paulo. Abriu também um armazém e depois, uma padaria. Inaugurou em 1965, na Vila Maria, em São Paulo. Desde então, nós estamos no ramo de padaria. Só neste ponto aqui, da Pão Sagrado, eu estou há 32 anos.

          Na infância, eu morava na Vila Maria Alta. Ela recebeu muito nordestino, por isso tinha um baita movimento. Eram poucos estabelecimentos, e a vida era difícil. Por exemplo, não tinha leite para todo mundo. O leite era servido em litros de vidro, e a maioria das pessoas não tinha geladeira em casa. Conclusão: eles levavam uma embalagem de um quartinho de leite, que era para você pôr, e levavam para casa, para tomar só naquele momento. E se a pessoa chegasse na padaria e não levasse pão, meu pai não vendia o leite. Você vê? Que marketing lascado, né? 

          Estudei lá em São Paulo no primeiro e no segundo grau, e a primeira faculdade que eu fiz foi Engenharia Mecânica. Só que eu larguei no meio do segundo ano. Eu namorava uma menina que fazia Publicidade e assistia mais aula da faculdade dela do que da minha. Aí me apaixonei por Publicidade, por Marketing. Agora, há poucos anos, eu me formei em Publicidade. Mas o trabalho, mesmo, foi sempre com o meu pai. Nós tivemos a padaria, tivemos casa de esfiha, tivemos restaurante na praia e mercado. Aí, depois de tudo isso nós mudamos para Rio Preto, abrimos outras padarias.

          Nós tivemos várias padarias em Rio Preto. Quando eu vim de volta pra cá, era Padaria Ipiranga. Aí nós abrimos a Padaria América, em outro bairro. E depois, nós abrimos esta, que é a Padaria Pão Sagrado. No intermédio, nós compramos uma outra, que era Pão Gostoso, mas que ficou pouco tempo. Mas a Pão Sagrado já tem 32 anos, no mesmo ponto. É divertido aqui, porque eu vi muitas crianças nascerem. Hoje eu tenho filhos dos meus clientes, que eram crianças de colo.

          Quando eu voltei, eu fazia tudo nas padarias, porque numa época foram três de uma vez. Tocava tudo que era lado, o que precisava fazer eu fazia: aprendi a fazer pão, ajudava a confeitar bolo, ia entendendo um pouquinho de cada coisa e ajudava todo mundo. Mas o meu forte é balcão, atendimento direto ao cliente. Uma porque eu falo muito, e outra porque isso aí é dom, você nasce com ele. Não adianta, você nasce para o comércio ou não nasce.

          A ideia de fazer a Pão Sagrado aqui na Zona Norte foi do meu pai. O meu pai comprou uma área aqui, que tinha uma casa no fundo. Estava começando o bairro, o Solo Sagrado - por isso a padaria se chama Pão Sagrado. Mas estava começando, só tinha rua de terra, tinha sítio, tinha pouca gente morando. Na frente da padaria havia um pasto com uma vaca, e ela vinha aqui na padaria comer pão. Um dia, o Diário da Região veio fotografar isso, porque era inédito. Aí eu chamei a vaca lá dentro da padaria com uma bengala na mão, e ela entrou. Saiu no Diário da Região no dia 30 de dezembro de 1989. Na capa, mesmo. Você vê: meu pai investiu num lugar assim, e hoje são 530 ruas, é um bairro gigante, tem shopping. Ele tinha sorte para negócio, era esperto.

          Por um tempo, nós tocamos todas as padarias juntas. Eu tinha que fechar. Eu fechava esta oito e meia, aí eu corria para a Ipiranga, onde meu primo Eugênio fechava lá nove e meia. Depois eu ia para a padaria onde ficava o outro primo, fechava dez da noite e ia para casa. No outro dia, quatro e meia da manhã, eu estava de novo na Padaria Ipiranga.

          Mas aqui já aconteceu de tudo, viu? Primeiro, era uma padaria básica. Depois nós começamos a fazer show, videokê. Isso aqui lotava até uma e meia da manhã, duas horas, era uma doideira. Aí nós paramos com isso, tivemos um problema com vizinhos. Teve fases boas, fases ruins de movimento. Mas a nossa qualidade é a mesma hoje, igual a de 1965. A única diferença é que antes não tinha fermento, agora tem.

          Mas é carisma, né? Isso aí você tem que conquistar. Durante esses 32 anos, acho que eu conquistei bastante coisa, muitas amizades, e evitando ao máximo os inimigos, graças a Deus.

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