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Jorene e a arte de contar histórias reais e fictícias e encantar pessoas

História de: Jorene Soares Barbosa Rocha
Autor: Instituto Lina Galvani
Publicado em: 09/11/2018

Sinopse

Jorene Soares Barbosa Rocha é educadora de Angico dos Dias (BA) e conta sobre a arte de contar histórias reais e fictícias e encantar pessoas.

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História completa

Meu nome é Jorene Soares Barbosa Rocha. Sou educadora de Angico dos Dias (BA) e vou contar sobre a arte de contar histórias reais e fictícias e encantar pessoas. Sentadas sobre uma colcha colorida estendida no chão, as crianças acompanham atentas a história. Ficam espantadas com a voz da bruxa. Divertem-se com as peripécias dos sete anões. Alertam a Branca Neve sobre a maçã envenenada. Comemoram quando o príncipe dá o beijo que salva a donzela. Elas participam como se os personagens saltassem das páginas do livro infantil que a professora Jorene Soares Barbosa Rocha tem nas mãos e ganhassem vida em plena Praça São José, ponto central do povoado de Angico dos Dias, no extremo norte baiano. Depois do "viveram felizes para sempre", cada criança volta para casa com um livrinho debaixo do braço para ler em família. A cena aconteceu em uma das sessões do projeto Árvore de Livros, desenvolvido em 2014, por mim, a professora Jorene, para incentivar a leitura entre os jovens da comunidade. Na difícil batalha contra os videogames e celulares pela atenção das crianças, eu sei que preciso lançar mão de todas as estratégias educacionais que lapidei em 20 anos de profissão. Desdobrar-me em mil personagens e ensinar com atividades lúdicas são técnicas que funcionam com sucesso, tanto em sala de aula, quanto nos projetos para os pequenos. Com os adolescentes que se mostram desinteressados pelos estudos, a estratégia é outra. Eu uso de minha própria história para ressaltar as oportunidades que eles não estão aproveitando. Eu não contei com as facilidades de acesso à escola que os jovens do povoado têm atualmente. Desde os 11 anos, até terminar o segundo grau, tive que ficar longe de minha mãe e meu irmão para estudar na cidade de Remanso, distante 200 quilômetros, onde eu morava com minha avó. As estradas eram péssimas e não tinha condições de visitá-los. Só os via em junho e dezembro. No magistério, percorria a pé ou de carona em cima de um caminhão os 6 quilômetros até a escola na qual fiz o estágio curricular. E mesmo uma década depois, quando cursei a faculdade de Letras, a dificuldade não deu trégua. Grávida do meu primeiro filho, cruzava na garupa de uma moto os 72 quilômetros de estrada de chão que separam Angico dos Dias da cidade de Campo Alegre de Lourdes. O alento para os períodos mais complicados eu encontrei no meu próprio povoado: sempre havia alguém para estender a mão. Costumo dizer que um dos bens mais preciosos que temos aqui é esse sentimento de comunidade. A regra vale nas alegrias e tristezas. Nos casamentos, os noivos conseguem montar a festa inteira com as contribuições dos moradores. Quando alguém morre, durante uma semana os conhecidos se reúnem para rezas em apoio à família da pessoa que partiu. Após a missa do sétimo dia, um almoço preparado com as doações de todos encerra o ciclo dessa tradição chamada de Visita. Eu acredito que esse espírito coletivo intrínseco ao povoado se fortaleceu desde que o Instituto Lina Galvani iniciou os projetos de desenvolvimento comunitário em Angico dos Dias, em 2009. Eu lembro das primeiras rodas de conversa que mapearam os problemas que afligiam os moradores e das votações para decidir em conjunto quais teriam prioridade na busca por soluções. As rodas despertaram na gente o poder de sermos protagonistas das mudanças que desejamos para a comunidade. A grande participação popular e a quantidade de ideias suscitadas nas reuniões levou à criação de uma associação de moradores que, depois, deu origem à Rede Social de Angico, Peixe e Região com o objetivo de coordenar todas as ações e projetos. Para mim, esse movimento é a concretização efetiva do sentimento de comunidade que eu sempre vi no povoado. Quem participa da Rede trabalha pensando no coletivo, no ajudar o outro. A certeza de que estavam no caminho certo veio quando encamparam a ideia de construir a Praça São José, um antigo sonho local. Eu perdi noites de sono, imaginando se daria certo o desafio de, em apenas dois dias, dar vida àquele imenso espaço quase vazio onde apenas uma figueira dava sombra. Eu nunca vou esquecer o que aconteceu naquele fim de novembro de 2013. Mais de 200 pessoas, dos 2 aos 89 anos, arregaçaram as mangas na construção da Praça. Aparecia gente de todo lado! Até moradores de outras regiões e quem estava só passando entraram no mutirão ao ver aquela mobilização toda. Foi emocionante. A minha empolgação em narrar essa história só encontra um rival páreo de competir no entusiasmo quando os projetos da Rede Social ligados à educação e artes entram na prosa. À frente do grupo Resgate Cultural, eu movimentei a comunidade na recuperação de tradições como as quadrilhas juninas e o Reisado, um folguedo religioso que percorre as ruas com cânticos na semana que antecede o Dia de Reis. Eram manifestações que eu via na minha infância e tinha muita vontade de trazer para a os tempos de hoje.
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