Busca avançada



Criar

História

João Marcos dos Santos Varella

História de: João Marcos dos Santos Varella
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/01/2006

Sinopse

João Marcos dos Santos Varella nasceu no ano de 1942 em São Paulo, passando a maior parte de sua vida no bairro da Aclimação. Conseguiu um emprego em uma construtora aos dezoito anos de idade, após ser indicado para um amigo de seu pai. Iniciou o curso de Engenharia e desistiu, após um ano, a fim de ir atrás do que realmente gostava: Psicologia. Nessa entrevista, João Marcos perpassa o período de sua graduação, onde participou da União Estadual dos Estudantes [UEE] e apresentou peças de teatro no Teatro da Universidade Católica [TUCA], assim como a sua trajetória profissional, do início de sua carreira como psicoterapeuta até o trabalho atual, onde realiza orientação profissional e de empreendedorismo para executivos. Ele também comenta sobre o Grupo de Estudos de Recursos Humanos (GERH), do qual é membro há 25 anos.

Tags

História completa

P1 – João Marcos, eu queria que você começasse dizendo seu nome completo, local e data de nascimento.

R – Eu nasci em São Paulo, meu nome completo é João Marcos dos Santos Varella e eu nasci no dia 29 de dezembro de 1942. Eu cresci em São Paulo, estudei em colégio estadual e depois estudei no Mackenzie. Depois eu queria fazer Arquitetura, desisti e entrei em Engenharia. Cursei um ano de Engenharia Mauá, desisti da Engenharia. Não era o que eu queria. Prestei vestibular para Psicologia, nesse período de faculdade eu tive uma participação política no meio universitário – isso antes de 1964 – que faz parte da minha formação humanística e que acaba se estendendo por todo o resto da minha vida pessoal e profissional.

P1 – Eu queria saber o nome dos seus pais. Pai e mãe.

R – Meu pai, Armando, e minha mãe, Helena. Os dois nasceram em São Paulo, mas eu sou neto de português e espanhol. É que meus pais nasceram no começo do século passado, então tem uma tradição de cidade de São Paulo de muito tempo, a nossa vida sempre foi aqui.

P1 – Você tem irmãos, irmãs?

R – Tenho dois irmãos. Um irmão é advogado e o outro é funcionário público e músico.

P1 – E a origem então da sua família é... Você disse que é neto de portugueses e espanhóis. Você conhece as cidades de origem de seus avós?

R – Não. Eu estive em Portugal e Espanha, mas nunca fui na terra deles.

P1 – Em que bairro você cresceu em São Paulo?

R – Eu cresci a maior parte da minha infância e adolescência na Aclimação, e depois... Acho que a maior parte da minha vida eu morei na Aclimação, mas eu moro na região de Saúde, na Vila Mariana, há uns vinte anos.

P1 – E o que você fazia? Quais eram as suas brincadeiras quando você era criança na Aclimação?

R – Jogar futebol, noite e dia.

P1 – Já existia o Parque da Aclimação?

R – Eu conheci o parque da Aclimação no tempo que ainda era um zoológico que tinha ursos, tinha leão, tinha pássaros...

P1 – É mesmo?

R – É, depois reformaram, criaram o lago e tiraram o zoológico de lá. A gente brincava muito.

P1 – Isso em que época? Quando que era um zoológico?

R – Antes de 1950.

P1 – Como era a sua casa? Como era o dia-a-dia da sua casa?

R – Quando era criança eu morei numa casa na Aclimação, e do lado da minha casa tinha um terreno vazio onde a gente jogava bola. Eu vivia na rua o dia inteiro, andando de bicicleta... Quando eu não estava jogando bola, eu estava andava de bicicleta. Isso até treze, catorze anos, aí a gente começa a mudar de interesses e parei de ficar jogando bola. Acho que a atividade principal era... Me lembro de ir ao cinema sempre, era um cinéfilo; ler, eu lia muito. Tinha muitos amigos e...

P1 – Você ia aonde no cinema? Você ia mais no Centro da cidade?

R – É, porque naquela época os cinemas mais importantes eram o Cine Metro, Cine República, Cine Ipiranga... Os cinemas da minha adolescência eram esses.

P1 – O que você gostava de ver?

R – Tudo, tudo! (risos) Era qualquer coisa.

P1 – E na sua casa, o seu dia-a-dia, você com seus irmãos, com seus pais... Como que era o seu dia-a-dia? O que você lembra de marcante na sua família nessa época?

R – Lembro do meu cachorro, lembro da minha avó me chamar para cuidar do jardim dela – que é uma coisa que eu gosto até hoje, de planta, de flores. Eu tenho um jardim e gosto muito dele. Acho que essas são as coisas mais interessantes.

P1 – O que os seus pais faziam?

R – Meu pai sempre teve empresa, foi presidente de duas indústrias. No período da minha adolescência foi um período onde a família estava muito bem, depois as coisas não andaram tão bem. Logo que eu fiz dezoito anos eu quis trabalhar. Pedi para o meu pai que queria trabalhar e ele me apresentou para um amigo dele que tinha uma construtora, ele me chamou imediatamente. Eu comecei a trabalhar fazendo orçamentos de obras e eu trabalhava junto ao gerente de compras porque eu precisava saber dos preços dos materiais. Eu estava na empresa acho que há uns vinte dias, o gerente de compras foi embora e o dono da empresa disse: “Já que você está aí, dá para você ir tocando?” E eu fiquei um ano responsável pela área de compras de uma construtora grande com dezoito anos de idade, o que foi um desafio. A minha secretária era cinco anos mais velha que eu, eu tinha dois compradores que tinham idade para ser meu pai. Era divertido. Foi uma experiência muito interessante.

P1 – Quer dizer que o seu primeiro trabalho foi por opção própria?

R – Foi.

P1 – Essa escolha foi sua?

R – Isso, foi. Eu estava cursando Engenharia e desisti da Engenharia porque eu lia Psicologia, Filosofia, ficção científica, livro policial, qualquer coisa e ficava claro que eu tinha outros interesses. Fiquei na dúvida se eu fazia Economia ou Psicologia e acabei optando por Psicologia. Nessa época eu era da UEE [União Estadual dos Estudantes] e fazia teatro. Então eu fiz teatro por muitos anos, desde 62 a 68. Quando eu estava fazendo psicologia fiz Morte e  Vida Severina no TUCA [Teatro da Universidade Católica de São Paulo], que fez quarenta anos na semana passada, a comemoração e nos reunimos, o elenco de 40 anos atrás... Não é só o GERH [Grupo de Estudos de Recursos Humanos] que comemora os 25 anos com a turma antiga. Meu tempo de PUC [Pontifícia Universidade Católica] foi também um tempo ligado à teatro e às artes em geral. Eu convivia muito com o pessoal de música, com o pessoal das artes.

P1 – Quando você entrou na PUC?

R – Eu entrei em 63. No final, quando eu me formei, eu comecei a dar aula na PUC. Dei aula na PUC de Campinas, dei aula no Sedes [Sapientiae], dei aula na USP [Universidade de São Paulo]... Eu dei aula de 67, 68 até 72, e aí eu parei de dar aula. Quando eu me formei eu comecei a trabalhar como psicoterapeuta: além da formação, da especialização em psicologia, eu também tinha feito várias especializações em terapia. Uma das formações foi em psicodrama. Eu fiz toda a formação em psicodramática. E aí eu comecei a trabalhar em planejamento urbano, que era um velho sonho desde quando eu queria fazer Arquitetura, porque o meu interesse era planejamento urbano. Eu acabei trabalhando três anos em planejamento urbano. Eu trabalhei no plano diretor de muitos municípios e trabalhei com gente fantástica, gente do maior nível nesta área, mas surgiu uma oportunidade de eu trabalhar em Recursos Humanos – durante todo esse tempo eu tinha meu consultório, eu tinha clientes em paralelo –, comecei a trabalhar em Recursos Humanos e tive alguns resultados bem interessantes, desde o começo. Também em 73 eu fiz minha primeira especialização em planejamento estratégico, que sempre foi uma área de interesse. Em janeiro de 1975 eu entrei no grupo Copersucar União onde eu trabalhei durante treze anos e meio.

P1 – Em que área?

R – Em Recursos humanos. Eu participei muito do desenvolvimento dos Recursos humanos para viabilizar a implantação do Proálcool [Programa Nacional do Álcool]. O problema grave do Proálcool não era investimento nem tecnologia, era gente. Eu participei...

P1 – Era gente em que sentido?

R – Porque as usinas tinham um grau de profissionalização muito baixo. Era rara a usina que tinha um engenheiro. Não tinha profissionais suficientes na área de fermentação, de destilação, a expansão das lavouras não tinha planejamento agrícola e nem mão-de-obra especializada. Desde coisas simples como manutenção de tratores, manutenção da frota de caminhões, regulagem de implementos agrícolas... Tudo isso era ainda muito primitivo, não tinha uma escala industrial. Houve a necessidade de formar engenheiros especializados tanto na área industrial quanto na área agrícola, e técnicos nos mais variados setores. Foram anos de formação de equipes. Hoje se chama universidade corporativa. Naquela época não tinha esses nomes mais sofisticados, mas o que a gente tinha feito era uma universidade corporativa. A primeira turma foi formada na Ilha de Maurícios – não foi nem no Brasil – e foram estes dezoito primeiros participantes que replicaram, que foram multiplicadores da especialização de engenheiros daqui do Brasil para o setor açucareiro e alcooleiro. Depois teve... A Copersucar tinha adquirido a Companhia União e passou a ter uma gestão integrada, e o processo de integração, a fusão de duas grandes empresas é sempre um processo bastante trabalhoso. Houve também a necessidade de intensificar a profissionalização dessas duas empresas com a contratação e integração de uma grande quantidade de profissionais, de gerentes e diretores vindos do mercado para um setor que tinha pouca tradição de captar profissionais no mercado. Isso interferia na cultura organizacional, que tinha uma forte influência de uma mentalidade de usineiros do passado. Foi o início de uma grande transformação agroindustrial que hoje é um setor moderno com executivos profissionalizados e usineiros com uma visão estratégica mais avançada. Eu estou falando da década de 70 ainda, foi um processo de mudança bastante grande. Eu fiquei lá até o início de 78.

P1 – Antes de você avançar na sua trajetória profissional: você disse que no momento em que você estava na universidade você participava do movimento estudantil e que, por isso, você tinha uma visão social. Eu queria que você retomasse essa experiência que você teve.

R – Eu acho que uma experiência que é marcante é Morte e Vida Severina, porque hoje isso faz parte dos livros de História, mas na época aquela vivência era muito intensa. Primeiro pela peça em si, que transmitia toda uma dramaticidade e envolvia emocionalmente a plateia, porque era uma mensagem muito forte. Eu estou falando de 1965, 1966.

P1 – Na época você tinha quantos anos?

R – Eu tinha 23, 24 anos. Você tinha a repressão do lado de fora, todo o movimento estudantil estava sem poder se manifestar. Havia a Lei Suplicy, uma coisa que hoje está esquecida, mas que proibia toda a movimentação universitária, e a única manifestação possível foi o teatro. Foi isso que estava sendo feito, com uma mensagem que mostrava um Brasil que era diferente daquele bonito que se cantava. Também foi um momento de vida cultural do país talvez mais intensa. Tanto no Cinema Novo, como na Bossa Nova, qualquer lado que a gente olhar a manifestação cultural do país foi mais rico e a gente convivia nesse meio, que era uma experiência muito interessante. Ao lado da minha atividade profissional em Recursos Humanos, eu fui sempre desenvolvendo interesses por planejamento estratégico, porque eu nunca olhei Recursos Humanos de uma forma restrita e os projetos que eu me envolvi exigiam que eu tivesse essa visão estratégica. Para mim, a área de Recursos Humanos sempre foi a área que tinha que pensar a organização e não simplesmente buscar resultados imediatos. Com isso, eu fui sempre me aperfeiçoando fazendo novas especializações, e pessoalmente desenvolvendo interesses por Filosofia, por História... História é o meu hobby até hoje. Não sei se você é historiadora, também.

P1 – Eu, não. A Márcia é. Eu sou jornalista.

R – Um aspecto importante é que são filhos pequenos, procurar trazer o bem-estar para dentro de casa, isso também é sempre um desafio importante. Nesse período, final da década de 70, em 77, 78, 79, eu fui coordenador dos cursos de Marketing da Fundação Brasileira de Marketing. Naquela época o Marketing estava dando os seus primeiros passos, não era uma coisa muito divulgada, praticamente todos os grandes profissionais de marketing de São Paulo davam aula nesse curso e eu dava aula também, dava aula de Psicologia do Consumidor. Eu tive uma vivência de Marketing bastante grande. Eu assistia a todos os cursos, coordenava e convivia com grandes profissionais de Marketing.

P1 – A sua formação, portanto... Você fez Psicologia, e quais as especializações?

R – Teve uma época que foi para o lado de Psicoterapia, teve uma época que foi para o lado de Recursos Humanos, Planejamento Estratégico, Marketing, e agora eu ia contar que em 88 eu recebi um convite para ir para a DBM. A DBM tinha um desafio que reunia diversos aspectos que me interessavam: orientar executivos. Isso tinha uma ligação com a minha formação como psicoterapeuta e também tinha uma relação com Recursos Humanos: tinha que orientar a vida, planejar a vida dessas pessoas que tinham a ver com Planejamento Estratégico. Tinha que parar para pensar no plano de vida das pessoas, o que tem muito a ver com Filosofia e História... Era um desafio que juntava todos os aspectos do meu interesse. Desde o início a orientar executivos, o que parecia era que vários deles tinham interesse em deixar uma carreira executiva e iniciar um trabalho por conta própria. A partir daí eu passei a me dedicar, a estudar e a orientar pessoas que optavam na carreira por trabalhar por conta própria. Para isso eu me associei com diversas pessoas e tive diversos negócios em paralelo, nunca como sócio-operador, mas participando sempre das decisões como uma forma de aprofundar a minha experiência neste campo, o que facilitou muito o meu trabalho de orientação de quem partia para negócio próprio. Eu estou nesta atividade há dezessete anos e orientei, se for fazer uma contagem, umas setecentas pessoas.

P1 – Isso é o que se chama hoje de filosofia clínica?

R – Não, não é a filosofia clínica. Eu acho muito interessante a filosofia clínica, acho que tem um pouco a ver com a reflexão de vida que eu oriento a pessoa a fazer, porque... Você deve ter conhecimento da grande quantidade de negócios que não sobrevivem a um, dois, três anos. Isso tem mais a ver com a expectativa da pessoa do que com o negócio em si, na maior parte das vezes. Quando você pergunta para a pessoa o porquê que não deu certo, ela vai dizer: “Porque rendia pouco”, ou “Porque me ocupava demais”, ou “Porque estava afetando a minha saúde.” Tem uma série de fatores de ordem pessoal que não foram avaliados antes e quando eles surgiram, a desadaptação se deu. A reflexão tem a ver, claro, com as características pessoais, com as competências que as pessoas tem, mas tem a ver com os valores da pessoa, com as expectativas da pessoa, tem a ver com os interesses da pessoa e tudo isso tem que ser aprofundado, independente do negócio em si. Depois tem que se examinar a viabilidade do negócio em si – aí é técnica mesmo, plano de negócio –, e por último, verificar se há uma adequação entre tudo aquilo que foi resultado da reflexão da pessoa, o que a pessoa pretende da vida dela, e se o negócio é viável, se não vai exigir dela algo que ela não está disposta e que vai provocar um problema mais a frente. Se vocês começarem a lembrar das pessoas que tomaram a iniciativa de ter um negócio e que por algum motivo desistiram vocês vão encontrar esse tipo de ocorrência com muita frequência, porque... Qual é a vantagem de se fazer uma orientação desse tipo? É que se tiver uma expectativa de não dar certo a pessoa tem a chance de desistir antes de começar a pôr dinheiro e antes de começar a se arrepender, ou se a pessoa fez a análise e que de fato é adequado, a pessoa vai com confiança para o negócio e tem uma altíssima probabilidade de se adaptar e dar tudo certo. Esse é o trabalho que eu venho desenvolvendo nos últimos anos.

P1 – Como foi que você se envolveu com o GERH [Grupo de Estudos de Recursos Humanos]?

R – Em 1980 eu era vice-presidente da ABTD, da Associação Brasileira de Treinamento e Desenvolvimento. A ABTD tinha feito alguns grandes congressos que tinham feito a promoção pessoal de algumas pessoas e deixado uma enorme dívida, então eu e mais algumas outras pessoas nos reunimos e nos candidatamos à diretoria da ABTD. Foi uma disputa complicadíssima, ganhamos, saneamos financeiramente a ABTD e isso fez com que esse grupo tivesse um relacionamento muito grande com profissionais de Recursos Humanos. Quem me convidou foi o Moacir. O Moacir estava com um grupo pequeno discutindo a ideia de iniciar um grupo de Recursos Humanos e ele disse: “Você quer participar?” Eu disse que sim e me entrosei. Desde o inicio do GERH eu venho participando, isso foi em 1980. No ano seguinte houve a fusão com o GERHOF e houve o primeiro fórum do GERH, que dos 25 foi o único que eu não fui. Eu estive nos outros 24 fóruns. Mesmo no ano passado, que eu estava doente, eu vim. Teve um ano que eu cheguei de uma viagem dos Estados Unidos e fui direto para o fórum. Era em 89, eu me lembro disso. Eu nunca mais deixei de participar dos fóruns do GERH.

P1 – Eu entendo que o grupo é constituído de uma forma muito horizontal, não existe hierarquia, coordenador, mas você tem alguma posição específica dentro deste grupo? As pessoas mantêm alguma posição? Como funciona neste sentido?

R – A gente costuma dizer que é anarquia, mas funciona. Divertido é que funciona! Primeiro porque é um grupo de pessoas que têm uma capacidade executiva muito grande, e se tem uma necessidade, imediatamente acham um caminho, acham uma forma de solucionar. Você começa uma reunião da coordenação de um fórum: uns três meses antes, começa uma conversa, aí vai, a ideia está completamente estratosférica e chega no dia, tudo funciona. Essa dinâmica é extremamente interessante e tem algumas pessoas que carregam o piano, tem algumas pessoas que são muito dedicadas. Eu faço parte em termos de dar ideias, mas funções executivas dentro do grupo eu acho que eu nunca participei. Quando existia uma coordenação fixa, com coordenador e um grupo – isso no fim década de 80, começo da década de 90 –, eu devo ter participado uma ou duas vezes. Não me recordo mais, mas a característica do grupo é que ele funciona. Ele funciona por várias razões. Primeiro, porque a ligação entre nós é muito forte.

P1 – Quantas pessoas são atualmente?

R – Deve ter mais de cinquenta pessoas, mas existe um grupo de umas vinte pessoas que são mais frequentes e que a relação é muito forte. É uma amizade construída ao longo de muitos e muitos anos, a gente se entende. É um grupo, também, a gente tem que reconhecer, que é muito elitizado. É um grupo que, se a gente olhar no mercado, é o que tem de melhor em termos de profissionais de Recursos Humanos, então isso acaba aparecendo como resultado do grupo, porque as reuniões do grupo são sempre muito proveitosas, as pessoas que são convidadas a falar são sempre fantásticas. A gente sempre aprende, sempre aproveita. Um aspecto importante do grupo é esse de aprender, de se atualizar com o que tem de melhor em termos de atualização, de interagir com pessoas que são fantásticas. Não é só uma interação formal e profissional, é uma relação de amizade, uma relação afetiva de muitos e muitos anos. Isso pesa muito na imagem que o grupo tem, na atração que o grupo tem para as pessoas. As pessoas gostam de estar juntas.

P1 – Durante esses 25 fóruns, 25 anos, quais os temas que foram discutidos? Queria que você falasse um pouco sobre isso.

R – Sempre aquilo que é o maior desafio do ponto de vista social, político e econômico ou pessoal é trazido para o grupo. Se o que hoje preocupa é a situação política, é o que será discutido no grupo; se é a situação econômica, se grandes mudanças nas organizações, se as mudanças que a sociedade está passando impactam as pessoas, então isso é tratado. Então se o grupo está ficando com mais idade, que é uma coisa que vai acontecendo com o tempo, essa questão também é discutida. Quando nesse fórum se traz a questão da profissionalização dos filhos é porque isso é uma preocupação: esse grupo tem filhos em idade de iniciar uma carreira e isso é um desafio. O que é tratado pelo GERH é um espelho daquilo que é a maior preocupação da sociedade como um todo, não só do ponto de vista das empresas ou do ponto de vista pessoal. Ultrapassa esses limites.

P1 – Uma das questões interessantes que o João Augusto colocou foi que este grupo pegou um restinho de ditadura, de movimento social, e que vocês discutiam esses temas de como também lidar com essas questões, principalmente em relação ao movimento sindical. Ele deu esse exemplo de que as pessoas traziam essas angústias e que se promoviam espaços para os colaboradores funcionarem e discutirem essas questões. O que vocês aprendem neste grupo é levado para a vida prática das pessoas nas suas empresas?

R – Sim. Não é só o filosofar pelo filosofar, sem dúvida. Pegando esse aspecto sindical, eu acho que não tem nenhuma grande liderança sindical neste país que não tenha passado pelo GERH. Talvez nesse fórum não tenha ninguém de sindicato porque sindicato, nesse instante, não é uma preocupação, eles não estão promovendo nenhuma dificuldade para as empresas, mas quando os sindicatos viviam um momento de maior hesitação, o diálogo com eles aqui no GERH foi uma constante. Acho que não tem nenhuma liderança que não tenha vindo conversar com a gente.

P1 – Inclusive o atual presidente.

R – Todos. O último que eu me lembro foi o Feijó, numa última reunião que nós tivemos na Scania. Acho que foi o último, pelo menos. De um ano e meio para cá eu não tenho frequentado tanto por causa da minha situação de saúde, mas eu me lembro desse. Tem uns dois anos, pelo menos.

P1 – Nesses 25 anos do GERH quais são as questões mais significativas que você destacaria?

R – Olha, em 92, a temática de Ética foi... Quer dizer, não é agora, por causa da corrupção... Naquela época a gente discutiu muito e houve um esforço de divulgação. Você vai falar com o terceiro João (risos) e com o Fernando Lima – que não está aí, está no Canadá –, que foram os dois que fizeram o trabalho de divulgação dos princípios que nós definimos na época.

P1 – Divulgação no âmbito...

R – Eles foram a escolas, a empresas, eles fizeram contatos, fizeram essa apresentação em muitos lugares. A preocupação com o desenvolvimento social, a preocupação com a globalização, o impacto da globalização nas empresas... Se você pegar as grandes transformações que ocorreram no Brasil, por exemplo, a abertura em 1990. O impacto da abertura provocou uma mudança radical na indústria, que teve que se tornar competitiva no mercado internacional com a abertura dos portos. Houve uma redução drástica de unidades inteiras. Tem setores, como o setor químico, que reduziu o volume de pessoas, de empregados, a um terço do que tinha. Essas coisas sempre foram tema de discussão, de reflexão, de achar caminhos.

P1 – Que depois vocês divulgam em outras instituições.

R – Não, é entre nós. O tema que foi divulgado foi a questão da Ética porque era um problema grave que se vivia.

P1 – Bom, eu queria saber que tipo de colaborações o grupo trouxe no desenvolvimento da área de Recursos Humanos nas empresas. O que você sente? Quais são as sementes que vocês, de alguma forma...

R – É que esse é um grupo altamente atualizado com tudo que é modelo de gestão, técnicas, soluções e formas de encaminhar problemas. É um grupo que troca isso e está sempre muito atualizado. Acho que essa é a característica do grupo e do resultado que ele traz, é um grupo de referência que exerce uma forte atração. Quando alguém é convidado para participar do GERH adere imediatamente, porque sabem dessa característica do grupo.

P1 – Eu entendo que vocês valorizam muito as pessoas: quem faz parte do grupo não são representantes da empresa, mas pessoas.

R – Sim, exatamente.

P1 – Essas pessoas vêm, se nutrem deste saber que é discutido, que é uma fonte, que é uma referência, e levam para o seu dia-a-dia no trabalho. Essas pessoas trazem também alguns resultados daquilo que, por meio do grupo...

R – É que a gente conversa sempre, isso é tão natural que...

P1 – Essa troca mesmo.

R – É, isso é tão natural. Outra característica que eu não sei se você sabe... Você assistiu à abertura ontem?

P1 – Não.

R – Esse grupo é muito divertido. Esse grupo sempre, principalmente nos fóruns, tem o que a gente chama de show de rádio. Não sei se você viu na programação, para hoje, às seis horas da tarde, aonde esse grupo dramatiza jocosamente tudo o que acontece... Esse grupo tem muito bom humor e é extremamente participativo. Uma das características, a gente sempre avisa qualquer palestrante: “Você não vai falar do começo ao fim, você vai ser interrompido muitas vezes porque todo mundo aqui vai te perguntar, vai te interromper, vai te contestar.” É isso. Se você ficar assistindo às palestras, você vai ver que acontece todo o tempo, que é uma característica do grupo, que é participativo, contestador e, se discorda, fala na hora, o que é muito rico. E também trabalhar tudo isso jocosamente, com muito humor e sem mágoa: se tiver que brincar com alguém, brinca-se sem nenhuma ofensa. É muito divertido. Eu sempre participei desse grupo, que quase que a gente chama de show de rádio.

P1 – Você é um dos atores?

R – Não, eu participo. Esse ano eu não estou participando porque ainda não estou em condições. Outra coisa é que hoje a noite vai ter um show, mas show com algum cantor e algum conjunto musical convidado é uma coisa que vem acontecendo há uns três ou quatro anos, porque nos vinte fóruns antes desse era prata da casa mesmo. Você vai encontrar gente aqui que toca violão, piano, que canta... Uma das características era ficar ou de quinta para sexta ou de sexta para sábado até umas duas da manhã cantando.

P1 – Você se lembra de algum caso engraçado, algum fato que vocês gostam de lembrar que tenha acontecido dentro do grupo?

R – É, tem muitas histórias engraçadas.

P1 – Algo interessante, alguma coisa que você queria deixar registrado?

R – Acho que existem algumas pessoas que são particularmente marcantes. Quem gosta de fazer piadinhas? O Moacir. Tem um membro do grupo que não está aqui hoje que era sempre do contra, que sempre contrariava tudo. Tem membro do grupo que sempre faz uma perguntinha prática, de alguma coisa de importância menor e que foge à expectativa do grupo. Tem muitas coisas que são próprias do grupo, eu acho, que vale a pena conversar com o Moacir, o Luiz Felipe... Tem vários deles que têm histórias muito divertidas.

P1 – Tá certo. Agora só para a gente encerrar, João Marcos, quais são as suas perspectivas e quais os desafios do grupo nos próximos 25 anos?

R – O desafio é sempre manter o humor, a afetividade do grupo e essa disposição de discutir o que incomoda na sociedade brasileira. Eu acho que é por isso que esse grupo resiste e se mantém, porque tem essas características. Ninguém se aborrece em participar desse grupo.

P1 – Nossa, deu até vontade... Estou brincando! O que você achou desta entrevista, João?

R – Eu não esperava ter que falar tanto de mim, ficar contando das minhas histórias. Eu esperava falar do grupo. Acho que é isso.

P1 – Obrigado pela sua participação.

P1 – João Marcos, eu queria que você começasse dizendo seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Eu nasci em São Paulo, meu nome completo é João Marcos dos Santos Varela, eu nasci no dia 29 de dezembro de 1942. Eu cresci em São Paulo, estudei em colégio estadual, depois estudei no Mackenzie, depois eu queria fazer Arquitetura, aí eu desisti e entrei Engenharia. Cursei um ano de Engenharia Mauá, desisti da Engenharia, não era o que eu queria, prestei vestibular para Psicologia, nesse período de faculdade eu tive uma participação política no meio universitário, isso antes de 1964, e que faz parte da minha formação humanística e que acaba se estendendo por todo o resto da minha vida pessoal e profissional.

 

P1 – Bom, vamos voltar um pouquinho ainda no comecinho porque eu queria saber o nome dos seus pais, pai e mãe.

 

R – Meu pai, Armando e minha mãe, Helena. Os dois nasceram em São Paulo, mas eu sou neto de português e espanhol. É que meus pais nasceram no começo do século passado, então já tem uma tradição de cidade de São Paulo já de muito tempo, então a nossa vida sempre foi aqui.

 

P1 – E você tem irmãos, irmãs?

 

R – Tenho dois irmãos. Um irmão é advogado e o outro irmão é funcionário público e músico.

 

P1 – E a origem então da sua família é, você disse que é neto de portugueses e espanhóis, e você conhece as cidades de origem, as terras de seus avós?

 

R – Não, eu estive em Portugal e Espanha, mas nunca fui na terra deles.

 

P1 – Em que bairro você cresceu em São Paulo?

 

R – Eu cresci a maior parte da minha infância e adolescência na Aclimação e depois – acho que a  maior parte da minha vida eu morei na Aclimação – mas eu moro na região de Saúde, na Vila Mariana, já há uns 20 anos.

 

P1 – E o que você fazia? Quais eram as suas brincadeiras quando você era criança lá na Aclimação?

 

R – Jogar futebol, noite e dia.

 

P1 – Já existia o parque ali, da Aclimação?

 

R – Eu conheci o parque da Aclimação no tempo que ainda era um zoológico que tinha ursos, tinha leão, tinha pássaros...

 

P1 – É mesmo?

 

R – É, depois reformaram, criaram o lago, tiraram o zoológico de lá. A gente brincava muito.

 

P1 – Isso em que época? Quando que era um zoológico?

 

R – Antes de 1950.

 

P1 – E como era a sua casa? Como era o dia-a-dia da sua casa?

 

R – Quando era criança eu morei, numa casa na Aclimação e do lado da minha casa tinha um terreno vazio onde a gente jogava bola. Então eu vivia na rua o dia inteiro andando de bicicleta. Quando eu não estava jogando bola, eu estava andava de bicicleta. Isso até 13, 14 anos, aí a gente começa a mudar de interesses e parei de ficar jogando bola. Acho que a atividade principal era, me lembro de ir ao cinema sempre, era um cinéfilo, ler, eu lia muito. Tinha muitos amigos e...

 

P1 – E você ia aonde no cinema? Você ia mais no Centro da cidade?

 

R – É, porque naquela época os cinemas mais importantes era o Cine Metro, Cine República, Cine Ipiranga, os cinemas da minha adolescência eram esses.

 

P1 – O que você gostava de ver?

 

R – Tudo, tudo! (risos) Era qualquer coisa.

 

P1 – E assim na sua casa, o seu dia-a-dia, você com seus irmãos, com seus pais. Como que era o seu dia-a-dia? O que você lembra de marcante na sua família nessa época?

 

R – Lembro do meu cachorro, lembro da minha avó me chamar para cuidar do jardim dela, que é uma coisa que eu gosto até hoje, de planta, de flores. Eu tenho um jardim e gosto muito dele. Acho que essas são as coisas mais interessantes.

 

P1 – O que os seus pais faziam?

 

R – Meu pai sempre teve empresa, foi presidente de duas indústrias. Então no período da minha adolescência foi um período onde a família estava muito bem. Depois as coisas já não andaram tão bem. Logo que eu fiz 18 anos eu quis trabalhar, pedi para o meu pai que queria trabalhar e ele me apresentou para um amigo dele que tinha uma construtora, ele me chamou imediatamente. Eu comecei a trabalhar fazendo orçamentos de obras e eu trabalhava junto ao gerente de compras porque eu precisava saber dos preços dos materiais. Eu já estava na empresa, acho que uns 20 dias e o gerente de compras foi embora e o dono da empresa disse: “Já que você está aí, dá para você ir tocando?”. E eu fiquei um ano responsável pela área de compras de uma construtora grande e com 18 anos de idade, o que foi um desafio. A minha secretária era cinco anos mais velha que eu, eu tinha dois compradores que tinham idade para ser meu pai, era divertido. Foi uma experiência muito interessante.

 

P1 – Quer dizer que o seu primeiro trabalho foi por opção própria?

 

R – Foi.

 

P1 – Esta escolha foi sua?

 

R – Isso, foi. Eu estava cursando Engenharia e desisti da Engenharia porque eu lia Psicologia, Filosofia, ficção científica, livro policial, qualquer coisa e ficava claro que eu tinha outros interesses. E aí fiquei na dúvida se eu fazia Economia ou Psicologia e acabei optando por Psicologia e nessa época eu era da UEE e fazia teatro. Então eu fiz teatro por muitos anos, desde 62 a 68. Então quando eu estava fazendo psicologia e fiz  Morte e a Vida Severina no Tuca, que fez 40 anos a semana passada, a comemoração, nos reunimos o elenco de 40 anos atrás, não é só o GERH que comemora os 25 anos com a turma antiga. Meu tempo de PUC foi também um tempo ligado à teatro e às artes em geral, eu convivia muito com o pessoal de musica, enfim, com o pessoal das artes.

 

P1 – E quando você entrou na PUC?

 

R – Eu entrei em 63 e depois no final, quando eu me formei, eu comecei a dar aula na PUC, dei aula na PUC de Campinas, dei aula no SEDES, dei aula na USP. Eu dei aula de 67, 68 até 72 e aí eu parei de dar aula. Quando eu me formei eu comecei a trabalhar como psicoterapeuta, além da formação, da especialização em psicologia, eu também tinha feito várias especializações em terapia. Uma das formações foi em psicodrama. Eu fiz toda a formação em psicodramática. E aí eu comecei a trabalhar em planejamento urbano, que era um velho sonho desde quando eu queria fazer Arquitetura porque o meu interesse era planejamento urbano. E eu acabei trabalhando três anos em planejamento urbano. Eu trabalhei no plano diretor de muitos municípios e trabalhei com gente fantástica, gente do maior nível nesta área. Mas aí surgiu uma oportunidade de eu trabalhar em Recursos Humanos. Durante todo esse tempo eu tinha meu consultório, eu tinha clientes em paralelo. Comecei a trabalhar em Recursos Humanos e tive alguns resultados bem interessantes, desde o começo. Também já em 73 eu fiz minha primeira especialização em planejamento estratégico que sempre foi uma área de interesse. E em janeiro de 1975 eu entrei no grupo Copersucar União onde eu trabalhei durante 13 anos e meio.

 

P1 – Em que área?

 

R – Em Recursos humanos. Eu participei muito do desenvolvimento dos Recursos humanos para viabilizar a implantação do pró-álcool, o problema grave do pró-álcool não era investimento nem tecnologia, era gente, né? Aí eu participei...

 

P1 – Era gente em que sentido?

 

R – Porque as usinas tinham um grau de profissionalização muito baixo. Era rara a usina que tinha um engenheiro, não tinha profissionais suficientes na área de fermentação, de destilação, a expansão das lavouras não tinha planejamento agrícola e nem mão-de-obra especializada. Desde coisas simples como manutenção de tratores, manutenção da frota de caminhões, regulagem de implementos agrícolas, tudo isso era ainda muito primitivo, não tinha uma escala industrial. E então houve a necessidade de formar engenheiros especializados, tanto na área industrial quanto na área agrícola e técnicos nos mais variados setores. Foram anos de formação de equipes. Hoje se chama universidade corporativa, naquela época não tinha esses nomes mais sofisticados, mas o que a gente tinha feito era uma universidade corporativa. A primeira turma foi formada na Ilha de Maurícios, não foi nem no Brasil, e foi com esses 18 primeiros participantes que replicaram, que foram multiplicadores da especialização de engenheiros daqui do Brasil para o setor açucareiro e alcooleiro. Depois teve, a Copersucar tinha adquirido a Companhia União e passou a ter uma gestão integrada e o processo de integração, enfim, a fusão de duas grandes empresas é sempre um processo bastante trabalhoso. E houve também a necessidade de intensificar a profissionalização dessas duas empresas com a contratação e integração de uma grande quantidade de profissionais, de gerentes e diretores vindos do mercado para um setor que tinha pouca tradição de captar profissionais no mercado. Então isso interferia na cultura organizacional que tinha uma forte influência de uma mentalidade de usineiros do passado. Foi o início de uma grande transformação agro-industrial que hoje é um setor moderno com executivos profissionalizados e usineiros com uma visão estratégica mais avançada. Eu estou falando da década de 70 ainda, então foi um processo de mudança bastante grande. Eu fiquei lá até o início de 78...

 

P1 – Antes de você avançar na sua trajetória profissional eu queria que você voltasse um pouquinho no comecinho, quando você estava fazendo um resumo da sua formação e disse que no momento em que você estava na universidade, você participava do movimento estudantil e que por isso você tinha toda uma visão social. Eu queria então que você retomasse essa experiência que você teve.

 

R – Eu acho que uma experiência que é marcante é A Morte e a Vida Severina, porque hoje isso faz parte dos livros de História, mas na época aquela vivencia era muito intensa. Primeiro pela peça em si, que de fato transmitia toda uma dramaticidade, envolvia emocionalmente a platéia porque era uma mensagem muito forte. Eu estou falando de 1965, 1966, né?

 

P1 – Na época você tinha quantos anos?

 

R – Eu tinha 23, 24 anos. Você tinha a repressão do lado de fora, todo o movimento estudantil estava sem poder se manifestar. Havia a lei Suplicy, que é uma coisa que hoje está esquecida mas que proibia toda a movimentação universitária e a única manifestação possível foi o teatro. Então foi isso que estava sendo feito com uma mensagem que mostrava um Brasil que era diferente daquele bonito que se cantava. Também foi um momento de vida cultural do país talvez mais intensa, tanto no Cinema Novo, como na Bossa Nova, enfim, qualquer lado que a gente olhar a manifestação cultural do país foi talvez mais rico e a gente convivia nesse meio que era uma experiência muito interessante. Ao lado da minha atividade profissional em Recursos Humanos eu fui sempre desenvolvendo interesses por planejamento estratégico, porque eu nunca olhei Recursos Humanos de uma forma restrita. E os projetos que eu me envolvi exigiam que eu tivesse essa visão estratégica. Para mim a área de Recursos Humanos sempre foi a área que tinha que pensar a organização e não simplesmente buscar resultados imediatos, então com isso eu fui sempre me aperfeiçoando fazendo novas especializações e pessoalmente desenvolvendo interesses por Filosofia, por História. História é o meu hobby até hoje, não sei se você é historiadora também...

 

P1 – Eu não, a Márcia é, eu sou jornalista.

 

R – Um aspecto importante é que são filhos pequenos, procurar trazer o bem-estar para dentro de casa, quer dizer, isso também é sempre um desafio importante e nesse período, final da década de 70, em 77, 78, 79, eu fui coordenador dos cursos de marketing da Fundação Brasileira de Marketing. Então, naquela época o marketing estava dando os seus primeiros passos, não era uma coisa muito divulgada e praticamente todos os grandes profissionais de marketing de São Paulo davam aula nesse curso e eu dava aula também, dava aula de Psicologia do consumidor e enfim, eu tive uma vivencia de marketing bastante grande, eu assistia a todos os cursos, coordenava e convivia com grandes profissionais de marketing.

 

P1 – A sua formação, portanto, você fez Psicologia e quais as especializações que você fez?

 

R – Então, teve uma época que foi para o lado de Psicoterapia, teve uma época que foi para o lado de Recursos Humanos, planejamento estratégico, marketing e agora eu ia contar que em 88 eu recebi um convite para ir para a DBM. A DBM tinha um desafio que reunia diversos aspectos que me interessavam: orientar executivos, pois isso tinha uma ligação com a minha formação como psicoterapeuta, também tinha uma relação com Recursos Humanos, tinha que orientar a vida, planejar a vida dessas pessoas que tinham a ver com planejamento estratégico. Tinha que parar para pensar no plano de vida das pessoas, o que tem muito a ver com Filosofia e História, enfim, era um desafio que juntava todos os aspectos do meu interesse e desde o início a orientar executivos, o que aparecia era que vários deles tinham interesse em deixar uma carreira executiva e iniciar um trabalho por conta própria. Então a partir daí eu passei a me dedicar, a estudar e a orientar pessoas que optavam na carreira por trabalhar por conta própria. E para isso então eu me associei com diversas pessoas e tive diversos negócios em paralelo, nunca como sócio-operador, mas participando sempre das decisões como uma forma de aprofundar a minha experiência neste campo, o que facilitou muito o meu trabalho de orientação de quem partia para negócio próprio. Eu estou nesta atividade há 17 anos e já orientei, se for fazer uma contagem, umas 700 pessoas.

 

P1 – Isso é o que se chama hoje de Filosofia clínica?

 

R – Não, não é a filosofia clínica. Eu acho muito interessante a Filosofia clínica, acho que tem um pouco a ver com a reflexão de vida que eu oriento a pessoa a fazer porque, você deve ter conhecimento da grande quantidade de negócios que não sobrevivem há u,. dois, três anos, e isso tem mais a ver com a expectativa da pessoa do que com o negocio em si na maior parte das vezes. Quando você pergunta para a pessoa o porquê que não deu certo, ela vai dizer porque rendia pouco ou porque me ocupava demais ou porque estava afetando a minha saúde, enfim, tem uma série de fatores de ordem pessoal que não foram avaliados antes e quando eles surgiram a desadaptação se deu. Então a reflexão tem a ver, claro, com as características pessoais, com as competências que as pessoas tem, mas tem a ver com os valores da pessoa, com as expectativas da pessoa, tem a ver com os interesses da pessoa e tudo isso tem que ser aprofundado independente do negócio em si. Depois tem que se examinar a viabilidade do negócio em si, aí é técnica mesmo, plano de negócio e por último verificar se há uma adequação entre tudo aquilo que foi resultado da reflexão da pessoa, o que a pessoa pretende da vida dela e o negócio viável, se o negócio não vai exigir dela algo que ela não está disposta e que vai provocar um problema mais a frente. E se vocês começarem a lembrar das pessoas que tomaram a iniciativa de ter um negócio e que por algum motivo desistiram vocês vão encontrar esse tipo de ocorrência com muita freqüência, porque qual é a vantagem de se fazer uma orientação desse tipo? É que se tiver uma expectativa de não dar certo, a pessoa tem a chance de desistir antes de começar a pôr dinheiro e antes de começar a se arrepender ou se a pessoa fez a analise e que de fato é adequado, a pessoa vai com confiança para o negócio e tem uma altíssima probabilidade de se adaptar e dar tudo certo. Então esse é o trabalho que eu venho desenvolvendo nos últimos anos.

 

P1 – E como foi que você se envolveu com o grupo de estudos GERH?

 

R – Em 1980 eu era vice-presidente da BTD, da Associação Brasileira de Treinamento e Desenvolvimento, a BTD tinha feito alguns grandes congressos que tinham feito a promoção pessoal de algumas pessoas e tinha deixado uma enorme dívida. Então eu e mais algumas outras pessoas nos reunimos, nos candidatamos à diretoria da BTD, foi uma disputa complicadíssima, ganhamos, saneamos financeiramente a BTD. E isso fez com que esse grupo tivesse um relacionamento muito grande com profissionais de Recursos Humanos. Quem me convidou foi o Moacir. O Moacir estava com um grupo pequeno discutindo a idéia de iniciar um grupo de Recursos Humanos e ele disse: “Você quer participar?”. E eu disse que sim e me entrosei, então desde o inicio do GERH eu venho participando, isso foi em 1980. No ano seguinte houve a fusão com o GERHOF e aí houve o primeiro fórum do GERH, que dos 25 foi o único que eu não fui. Eu estive nos outros 24 fóruns, mesmo no ano passado que eu estava doente, eu vim. Teve um ano que eu cheguei de uma viagem, cheguei dos Estados Unidos, e eu fui direto para o fórum, era em 89, eu me lembro disso, enfim, eu nunca mais deixei de participar dos fóruns do GERH.

 

P1 – Eu entendo que o grupo é constituído de uma forma muito horizontal, não existe hierarquia, não existe coordenador. Mas você tem alguma posição específica dentro deste grupo? As pessoas mantêm alguma posição? Como funciona neste sentido?

 

R – A gente costuma dizer que é anarquia. Mas funciona, divertido é que funciona! Primeiro porque é um grupo de pessoas que têm uma capacidade executiva muito grande, se tem uma necessidade, imediatamente acham um caminho, acham uma forma de solucionar. Então você começa uma reunião da coordenação de um fórum, uns três meses antes, começa uma conversa, aí vai, a idéia está completamente estratosférica e chega no dia tudo funciona. Quer dizer, essa dinâmica é extremamente interessante e tem algumas pessoas que carregam o piano, tem algumas pessoas que são muito dedicadas. Eu geralmente faço parte em termos de dar idéias, mas funções executivas dentro do grupo eu acho que eu nunca participei. Quando existia uma coordenação fixa, com coordenador e um grupo, acho que isso já no fim década de 80, começo da década de 90, eu devo ter participado uma ou duas vezes, não me recordo mais. Mas a característica do grupo é que ele funciona. Ele funciona por várias razões, primeiro porque a ligação entre nós é muito forte.

 

P1 – Quantas pessoas são atualmente?

 

R – Deve ter mais de 50 pessoas, mas existe talvez um grupo de umas 20 pessoas que são mais freqüentes e que a relação é muito forte. É uma amizade construída ao longo de muitos e muitos anos e a gente se entende. É um grupo, também a gente tem que reconhecer que é muito elitizado, é um grupo que se a gente olhar no mercado é o que tem de melhor em termos de profissionais de Recursos Humanos, então isso acaba aparecendo como resultado do grupo porque as reuniões do grupo são sempre muito proveitosas, as pessoas que são convidadas a falar no grupo são sempre fantásticas. A gente sempre aprende, sempre aproveita. Um aspecto importante do grupo é esse de aprender, de se atualizar com o que tem de melhor em termos de atualização, de interagir com pessoas que são realmente fantásticas e não é só uma interação formal e profissional, mas é uma relação de amizade, uma relação afetiva de muitos e muitos anos. Então isso pesa muito na imagem que o grupo tem, na atração que o grupo tem paras as pessoas. As pessoas gostam de estar juntas, né?

 

P1 – E durante esses 25 fóruns, 25 anos, quais os temas que foram discutidos? Queria que você falasse um pouco sobre isso.

 

R – Ah, sempre aquilo que é o maior desafio do ponto de vista social, político e econômico ou pessoal é trazido para o grupo. Se o que hoje preocupa é a situação política, certamente é o que será discutido no grupo. Se é a situação econômica, se grandes mudanças nas organizações, se as mudanças que a sociedade está passando impactam as pessoas, então isso é tratado. Então se o grupo está ficando com mais idade, que é uma coisa que vai acontecendo com o tempo, essa questão também é discutida. Quando nesse fórum se traz a questão da profissionalização dos filhos é porque isso é uma preocupação porque este grupo tem filhos em idade de iniciar uma carreira e isso é um desafio. Então o que é tratado pelo GERH é um espelho daquilo que é a maior preocupação da sociedade como um todo, não só do ponto de vista das empresas ou do ponto de vista pessoal, ultrapassa esses limites.

 

P1 – Uma das questões interessantes que o João Augusto colocou foi que este grupo pegou um restinho de ditadura, de movimento social e que vocês discutiam esses temas de como também lidar com essas questões, principalmente em relação ao movimento sindical, ele deu esse exemplo, que as pessoas traziam essas angústias e que se promoviam espaços para os colaboradores funcionarem e discutirem essas questões. Então assim, o que vocês apreendem neste grupo, digamos, é levado para a vida prática das pessoas nas suas empresas, não é isso?

 

R – Sim, não é só o filosofar pelo filosofar, sem dúvida. Pegando este aspecto sindical eu acho que não tem nenhuma grande liderança sindical neste país que não tenha passado pelo GERH. Talvez neste fórum não tenha ninguém de sindicato porque sindicato, neste instante, não é uma preocupação. Eles não estão promovendo nenhuma dificuldade para as empresas, mas quando os sindicatos viviam um momento de maior hesitação, o diálogo com eles aqui no GERH foi uma constante, e acho que não tem nenhuma liderança que não tenha vindo conversar com a gente.

 

P1 – Inclusive o atual presidente.

 

R – Todos, o último que eu me lembro foi o Feijó numa última reunião que nós tivemos na Scania, acho que foi o último, pelo menos. De um ano e meio para cá eu não tenho freqüentado tanto por causa da minha situação de saúde, mas eu me lembro desse, já tem uns dois anos, pelo menos.

 

P1 – E nesses 25 anos do GERH, quais são os temas, enfim, quais são as questões mais significativas que você destacaria?

 

R – Olha, em 92, a temática de Ética foi, quer dizer, não é agora por causa da corrupção, naquela época a gente discutiu muito e houve um esforço de divulgação, você vai falar com o terceiro João (risos) e com – o Fernando Lima que não está aí, está no Canadá – que foram os dois que fizeram o trabalho de divulgação dos princípios que nós definimos na época.

 

P1 – Divulgação no âmbito...

 

R – Eles foram à escolas, à empresas, eles fizeram contatos, fizeram essa apresentação em muitos lugares. A preocupação com o desenvolvimento social, a preocupação com a globalização, o impacto da globalização nas empresas. Se você pegar as grandes transformações que ocorreram no Brasil, por exemplo, a abertura em 1990, o impacto da abertura que provocou uma mudança radical na indústria que teve que se tornar competitiva no mercado internacional com a abertura dos portos. Houve uma redução drástica de unidades inteiras, tem setores como o setor químico que reduziu o volume de pessoas, de empregados a um terço do que tinha. Essas coisas todas sempre foram tema de discussão, de reflexão, de achar caminhos.

 

P1 – Que depois vocês divulgam isso em outras instituições.

 

R – Não, basicamente é entre nós. O tema que foi divulgado foi a questão da Ética porque era um problema grave que se vivia. (PAUSA) Que mais?

 

P1 – Bom, eu queria saber que tipo de colaborações, acho que era mesmo dentro disso que a gente estava falando, o grupo trouxe na área de desenvolvimento de Recursos Humanos nas empresas? O que você sente? Quais são as sementes que vocês, de alguma forma...

 

R – É que esse é um grupo altamente atualizado com tudo que é modelo de gestão, técnicas, soluções, formas de encaminhar problemas. É um grupo que troca isso e está sempre muito atualizado e acho que essa é a característica do grupo e do resultado que ele traz, quer dizer, é um grupo de referência que exerce uma forte atração. Quando alguém é convidado para participar do GERH adere imediatamente porque sabem desta característica do grupo.

 

P1 – Mas assim, eu entendo que vocês valorizam muito as pessoas, quem faz parte do grupo não são representantes da empresa, mas pessoas.

 

R – Sim, exatamente.

 

P1 – Mas essas pessoas ao mesmo tempo vêm, se nutrem deste saber que é discutido, que é uma fonte, que é uma referência e que levam para o seu dia-a-dia no seu trabalho. Agora essas pessoas trazem também alguns resultados daquilo que, enfim, por meio do grupo...

 

R – É que a gente conversa sempre, isso é tão natural que...

 

P1 – Essa troca mesmo, né?

 

R – É, isso é tão natural. Outra característica que eu não sei se você sabe, você assistiu a abertura ontem?

 

P1 – Não.

 

R – Esse grupo é muito divertido. Esse grupo sempre, principalmente nos fóruns, tem o que a gente chama de show de rádio, não sei se você viu na programação, para hoje às seis horas da tarde, aonde esse grupo dramatiza jocosamente tudo o que acontece, esse grupo tem muito bom humor e é extremamente participativo. Uma das características, a gente sempre avisa qualquer palestrante: “Você não vai falar do começo ao fim, você vai ser interrompido muitas vezes porque todo mundo aqui vai te perguntar, vai te interromper, vai te contestar.”. É isso, se você ficar assistindo as palestras você vai ver que acontece todo o tempo, que é uma característica do grupo que é participativo, contestador e se discorda, fala na hora, o que é muito rico. E também trabalhar tudo isso jocosamente, com muito humor e sem mágoa, se tiver que brincar com alguém, brinca-se sem nenhuma ofensa, mas é muito divertido. Eu sempre participei desse grupo que quase que a gente chama de show de rádio.

 

P1 – Você é um dos atores?

 

R – Não, eu participo. Esse ano eu não estou participando porque ainda não estou em condições. Outra coisa é que hoje a noite vai ter um show, mas show com algum cantor e algum conjunto musical convidado é uma coisa que vem acontecendo há uns três ou quatro anos. Porque nos 20 fóruns antes desse era prata da casa mesmo, então você vai encontrar gente aqui que toca violão, piano, que canta. Uma das características era ficar ou de quinta para sexta ou de sexta para sábado até umas duas da manhã cantando.

 

P1 – E você se lembra de algum caso engraçado, alguma coisa, algum fato que vocês gostam de lembrar que tenha acontecido dentro do grupo?

 

R – É, tem muitas histórias engraçadas.

 

P1 – Algo interessante, alguma coisa que você queria deixar registrado?

 

R – Acho que existem algumas pessoas que são particularmente marcantes. Então quem gosta de fazer piadinhas? O Moacir. Tem um membro do grupo que não está aqui hoje que era sempre do contra, que sempre contrariava tudo. Tem membro do grupo que sempre faz uma perguntinha prática, de alguma coisa de importância menor e que foge à expectativa do grupo. Tem muitas coisas que são próprias do grupo, eu acho assim, que vale a pena conversar com o Moacir, o Luiz Felipe, tem vários deles que têm histórias muito divertidas.

 

P1 – Tá certo. Agora só para a gente encerrar, João Marcos, quais são as suas perspectivas, enfim, o que você acha do grupo, quais os desafios do grupo nos próximos 25 anos, se vocês pensam nisso?

 

R – O desafio é sempre manter o humor, a afetividade do grupo e essa disposição de discutir o que incomoda na sociedade brasileira. Eu acho que é por isso que esse grupo resiste e se mantém, porque tem essas características, ninguém se aborrece em participar desse grupo.

 

P1 – Nossa, deu até vontade... Estou brincando! E o que você achou desta entrevista, João?

 

R – Eu não esperava ter que falar tanto de mim, ficar contando das minhas histórias, eu esperava falar do grupo. Acho que é isso.

 

P1 – Então obrigado pela sua participação.

 

(Fim da entrevista)

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+