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João Bosco, a Petrobras tem sua história

História de: João Bosco Machado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/01/2021

Sinopse

João Bosco Machado, nasceu em Piquete interior de SP, no dia 11 de setembro de 1950, engenheiro de processo e engenheiro químico de formação na Petrobras. Sua trajetória dentro da empresa é longa e passou por diversos setores, mais de 26 anos dentro da Petrobras. Trabalhou na entrada do petróleo nacional na década de 1980.

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História completa

P/1: Boa tarde.


R: Boa tarde.


P/1: Queria começar pedindo que o senhor nos fale nome completo, local e data de nascimento?


R: Meu nome é João Bosco Machado, e eu nasci em uma cidade do interior de São Paulo chamada Piquete, no dia 11 de setembro de 1950.


P/1: Seu João Bosco, o senhor pode falar para agente quando foi e como foi o seu ingresso na Petrobras?


R: Eu entrei na Petrobras através de um concurso, eu sou engenheiro de processo, engenheiro químico de formação, na Petrobras engenheiro de processamento. Eu sou da turma de 1978, eu fui admitido na Petrobras em 12 de fevereiro de 1979, na Replan [Refinaria de Paulínia], inicialmente só como período de estágio, fiquei próximo de seis meses, depois fui para a Revap que era uma unidade que estava terminando a montagem para primeira partida, primeira operação.


P/1: E assim, o senhor falou que começou na Replan, né?


R: Isso.


P/1: E quais foram os setores que o senhor passou, se é que o senhor passou por alguns setores, conta pra gente um pouquinho dessa sua atividade?


R: Inicialmente eu fui para utilidades, né, utilidades é geração de vapor, produção de água, esse tipo de coisas, né? Depois fui para a Revap [Refinaria Henrique Lage]  na mesma função, passei posteriormente para a área de tratamento de afluente, que foi a primeira Unidade de Iodo Ativado da Petrobras que agente colocou em operação. Aí depois passei um pouco para processo, craqueamento, destilação, né? Até hoje?


P/1: Até hoje, pra gente acompanhar um pouquinho a sua trajetória.


R: Ai depois fui participar de um projeto de uma unidade nova, vim pro Cenpes [Centro de Pesquisas Leopoldo Américo Miguez de Mello], fiquei um período grande em torno de dois anos, entre Cenpes e Revap fazendo um projeto da unidade de desasfaltação. Foi o primeiro projeto que a Petrobras fez totalmente Petrobras.


P/1: Projeto de que? Desculpa.


R: Uma unidade de processo, uma unidade completa. Agente participou desde o início, da escolha do local onde ia ser, o tipo da unidade, dimensionamos todos os processos, é um projeto Cenpes junto com a Revap pela Revap eu participei nesse projeto, junto com outras pessoas. Aí fui ser coordenador de turma, que é uma função que tem dentro da unidade, não sei se você sabe bem o que é isso?


P/1: Não, explica pra gente.


R: O coordenador de turma é um responsável na ausência da administração. Então existem os grupos que trabalham em turnos de revezamento, e cada grupo tem um líder que é o coordenador de turma. Era antigamente os engenheiros, hoje tem técnicos que fazem também essa função, fiquei dois anos. Aí fui ser gerente, a primeira gerência minha foi gerência da área de transferência e estocagem, fiquei próximo de oito anos. Depois fui ser gerente de engenharia de projeto de processo, né? Fui pra, depois posteriormente pra gerência de destilação, isso tudo na Revap, e vim pra sede e to aqui como gerente de tecnologia de processo físico, há aproximadamente três anos.


P/1: No Edise [Edifício Sede da Petrobras]?


R: No Edise.


P/1: E nessa sua trajetória, o senhor pode contar pra gente, o que o senhor sentiu de mudança no refino depois da descoberta da Bacia de Campos, em especial na Revap que é a experiência que o senhor tem?


R: Já começa pelo projeto, o projeto básico todo estabelecido pra Revap, e para as unidades da Petrobras naquela época, era todo considerado um projeto pra petróleo importado, todo. Pega o projeto que tá lá, tipo de petróleo, iraniano, né, Basha, são petróleo do Oriente Médio, que eram referência, então o petróleo era importado. A partir da década de 1980, que começou a entrar o petróleo nacional, o primeiro petróleo foi o petróleo Cabiúnas, que era uma mistura de vários petróleos, mas denominado Cabiúnas, que tinha uma diferença bastante grande. Os petróleos importados eles eram mais leves, né, mais tinham alto teor de enxofre, e os petróleos nacionais que começavam a ser descobertos, eram um pouco mais pesados com baixo teor de enxofre. Em compensação, tinha uma acidez que era um pouco incompatível com os equipamentos na época, metalurgicamente falando, material da tubulação, material dos vasos, material de torre, eram um pouco incompatíveis com essa acidez. Então isso tem que ter uma adaptação, é todo um estudo de engenharia pra poder processar aquele petróleo sem agredir e sem provocar um desgaste excessivo aos equipamentos, né? E ao mesmo tempo, numa mudança muito grande do ponto de vista de processo, que os próprios produtos eram de qualidade um pouco diferente daqueles que eram obtidos com os petróleos importados.


P/1: E o senhor pode explicar pra gente qual é essa diferença de processo, já que a gente não entende muito como o óleo é processado, como se deu essa diferença, assim?


R: Essa diferença?


P/1: Começando como que o óleo é processado, que a gente não tem esse conhecimento.

 

R: O processamento era basicamente o mesmo, né, mais a qualidade do produto, o produto do petróleo nacional que é de base naftênica, o que é naftênica, é uma cadeia fechada com hidrocarboneto e tal, não vou entrar muito no detalhe, né? Eles são mais estáveis, ou seja, eles podem ser armazenados por menor tempo, se não tiver um tratamento adequado, essa é uma diferença bastante grande. Até então a gente não hidratratava, não tratava assim muito as correntes, eles tinham um teor de enxofre que era admitido na época, né, que não tinha o controle ambiental que ainda tem hoje, né? E eles tinham uma estabilidade maior, eles tinham um prazo de validade, vamos dizer assim, de maior duração, e os de petróleo nacional não, eram mais estáveis, eles poderiam ser armazenados por menor prazo de tempo. Então requeria e requerem um tratamento diferenciado do que até então se fazia, né, e o tratamento escolhido na época foi hidrotratamento, que é você entrar com hidrogênio, roubar enxofre, é, fazer com que essas moléculas mais estáveis possam ser tratadas, manuseadas e armazenadas por maior prazo de tempo.


P/1: O que vocês faziam na época, porque eu fico imaginando, né, até que vocês tenham desenvolvido esses estudos, tenham adaptado as refinarias, o que vocês faziam com esse óleo, como que vocês viveram isso?


R: Primeiro colocando em dosagens, que a gente sabia que não era agressivo ao sistema. Então, um exemplo, acidez, acidez é uma coisa que o petróleo importado não tem, e os nossos tem, então a gente evitava acidez máxima 0,5, em primeiro momento. Então a gente misturava o nosso petróleo com os petróleos importados, de modo que a gente atingisse esse limite, esse era o limite que a planta exportava, do ponto de vista físico. Do ponto de vista de produtos a gente aprendeu, teve que aprender ao longo do tempo, inclusive fazer análises que a gente não fazia, então o acompanhamento mais amiúde de laboratório, nos dava qual que era a diretriz que a gente tinha que utilizar para aquele produto. Se aquela mistura tava adequada ou não, se a gente precisava misturar outros produtos ou não, ou se precisavam ter um tratamento alternativo.


P/1: E o senhor pode apontar pra gente a diferença entre o óleo da Bacia de Campos e o resto do país, qual é a diferença desse óleo oriundo da Bacia de Campos?


R: Do ponto de vista de enxofre ele é muito melhor, tem pouco enxofre, então a agressão dele à atmosfera, a emissão de gases é menos agressiva do que os importados que tem um teor de enxofre muito alto. Então enquanto agente de teor de enxofre aqui de 0,6, 0,4, 0,5%, contra 1,5, 2% de petróleo importado, é uma diferença muito grande, talvez assim em percentagem não seja muito, mas do ponto de vista de gases, do ponto de vista de você queimar isso nos automóveis e gerar um gás poluente, né, essa diferença é significativa, né? Um aprendizado bastante interessante foi com relação a combustível para avião, o combustível da Petrobras, ele foi considerado, na época, o pior combustível do mundo, então aeronaves que vinham da Europa...


P/1: Isso mais ou menos quando senhor João Bosco?


R: Final da década de 1980. Então aeronaves que vinham da Europa paravam aqui no Brasil, não abasteciam, iam para a Argentina e abasteciam e voltavam. Então a gente fez um programa de qualidade do QAV [Querosene de Aviação], foi o primeiro grande programa de qualidade, isso tá muito ligado à qualidade do petróleo. Tinha uma certa acidez, né, tinha alguns ensaios que a gente não fazia para acompanhar a estabilidade, poderia produzir alguns compostos indesejáveis que iam depositar nos internos da turbina do avião ou provocar algum acidente, que não era o caso. Mas, aviões que voavam 6 mil horas, eles estavam parando para oficina com duas mil horas, o que a gente fez, primeiro conhecer o produto como era tratado lá fora, foi criado o que a gente chama de qualidade extra do querosene, que depois se estendeu para outros produtos. 


P/1: Qualidade?


R: Qualidade extra. Além de te oferecer um produto, eu te ofereço alguma coisa a mais em termos de qualidade. Você comprar um leite longa vida é diferente de você comprar um leite de saquinho, esse leite de saquinho você tem que tratar e consumir logo porque ele tem um prazo de validade menor, e assim é a mesma coisa com o querosene. Mas passando então de ser péssimo produtor de qualidade de querosene de aviação pra ser o melhor do mundo, assim num intervalo de tempo pequeno. Envolveu engenharia, envolveu muita técnica de laboratório, pesquisa do Cenpes, conhecimento, pesquisa lá fora, não sei se é uma coisa que pode ser dita, mas a gente fez algum... não vou dizer quais são as companhias aéreas que faziam voos internacionais que a gente falava, traz um litro do querosene que você tem lá fora para agente poder usar como referência. E hoje a gente tem o diferencial, então a gente não tem mais essa preocupação.


P/1: E vocês tinham alguma referência de estudo pra poder acompanhar esse trabalho de vocês, que é que estava sendo esse norte?


R: Ações das empresas, é, por exemplo, empresas alemãs, a Swissan Air, a empresa americana de voo, que mostrava, olha... eles desmontavam a turbina e mostravam tudo impregnado com um depósito escuro, preto. Nesse intervalo também houve uma mudança de turbina de avião, que passaram a trabalhar com níveis de temperatura mais altos, e isso levava a uma degradação do produto. Então a gente teve que ajustar perfil de produção, o que é isso, né, se a gente produzir uma faixa de destilação de A até C, agente produzir de A até B. Isso significa perder um pouco de produto, teoricamente, mas a gente ganhava em qualidade, né, depois passamos a tratar também, passamos a fazer a ativação, descobrir quais são os produtos aditivos, e esses produtos tem que ser validado por uma empresa internacional de validação de qualidade desse produto, para você poder colocar... O avião ele tem uma mudança muito brusca de condição de operação, ele tá aqui no Rio de Janeiro a 40 graus em temperatura ambiente, e vai pra Europa e voa a altitude, quando ele tem menos 40 graus de temperatura. Então o produto tem que suportar essas variações trazer nenhum transtorno. Esse foi também um dos trabalhos mais longos e mais difíceis, né, e que a Petrobras saiu rapidamente, eu digo rapidamente pelo estágio que a gente foi considerado inicialmente. Até onde eu me lembro que a gente recebeu um documento do presidente internacional da Shell para assuntos de qualidade, considerando o que havia produzido na área de São Paulo, falando basicamente Revap agora, como o melhor do mundo.


P/1: Revap e Rlam [Refinaria Landulpho Alves]?


R: É porque a Revap foi a primeira que teve essa planta de hidrotratamento, as outras não tinham, foi a primeira planta do Brasil.


P/1: Então o senhor apontaria esse como um dos grandes desafios pra empresa?


R: Agente deixar de ser um tratamento só físico, pra partir para um tratamento catalítico dos produtos. Então hoje todas as plantas têm, a Revap foi a primeira, hoje a Replan tem, a Reduc [Refinaria Duque de Caxias] tem, Repar [Refinaria Presidente Getúlio Vargas] tem, todas elas têm; a Rpbc [Refinaria Presidente Bernardes] tem. Então hoje nós fazemos o tratamento do produto, ele é o mesmo, você pode abastecer no Galeão, em Guarulhos, em São Paulo que é onde tem a maior movimentação, em Manaus, e assim vai. A gente chegou depois a exportar o produto, quando a gente atingiu boa qualidade.


P/1: Então conta pra gente um pouquinho dessas tecnologias desenvolvidas principalmente pra tratar esse óleo da Bacia de Campos?


R: Falemos do QAV, mais o diesel também foi no mesmo caminho.


P/1: No mesmo caminho?


R: E paralelamente a isso veio a mudança de qualidade, com as exigências de proteção ambiental.


P/1: Conta pra gente então um pouquinho sobre isso antes de o senhor entrar em relação às tecnologias?


R: A primeira restrição ambiental é que foi quanto ao teor de enxofre, você leva um produto a emitir SO2 ou SOX, né, pra atmosfera, e isso com a umidade forma o que a gente chama de chuva ácida. Tanto os compostos de enxofre quanto os compostos de nitrogênio, né, então vamos primeiro no enxofre. Essas unidades, elas removem enxofre, a gente remove 99,9% do que tem, né, então enquanto agente estava evoluindo. A gente poderia produzir produto, diesel com 1, 1,5% de enxofre, hoje não, hoje a gente trata com 0,05% de enxofre. Isso daí é a evolução que tem, a Europa já tá lá, os Estados Unidos, e a gente tá chegando, a gente já oferece hoje produto com 500 ppm de enxofre. Que é muito baixo, que seria o diesel futuro, isso tudo a luz de tratamento. Agora, o petróleo ajuda? Ajuda, porque tem baixo teor de enxofre, em compensação tem alto teor de nitrogenado, e o nitrogênio, assim como o enxofre, ele também pode produzir a chuva ácida, são os ácidos nítricos, a umidade mais o NOX, ele pode... então essas unidades hoje que trabalham com temperatura e pressão muito elevadas na presença de hidrogênio, com catalisadores desenvolvidos propriamente para isso, que são os catalisadores de primeira geração, né? Eles também, a gente remove e neutraliza, remove mesmo, né, uma coisa é neutralizar e outra é remover, a gente ta removendo parte do nitrogenado também. Então a gente tem hoje, eu digo em termos de vantagem competitiva, a gente não tem nada de diferente que o mundo tenha, né? O mundo não sabe tratar o nosso petróleo, nós sabemos. Hoje a gente exporta o petróleo da Bacia de Campos, e os nossos engenheiros vão lá fora dar suporte pra como processar, qual é a qualidade, quais são os cuidados, o que precisa ter de adequação, tanto no processo, como fisicamente nas plantas.


P/1: E em relação às tecnologias, fala pra gente um pouquinho desse desenvolvimento tecnológico pra tá trabalhando esse produto agora, né, esse óleo?


R: Muitas das coisas estão ligadas à metalurgia, né? Então a gente não pode processar o petróleo em temperaturas acima de 260 graus, 250 graus, utilizando aço carbono comum, pra isso eu preciso ou trocar a tubulação, ou revestir. Então nos internos de torres, agente reveste, né, um aço, um produto metálico que suporta aquela condição de temperatura, com aquela acidez, né? Então a gente já ta revestindo, agente identificou as regiões onde são mais atacadas, trocou os internos, né, hoje tem um aço que é o A-317, que é um aço inox de liga especial para isso. Então agente ta trocando tudo para revestimento ou o próprio equipamento pra 317. Tubulações e bombas, é, equipamentos, agente também troca onde é necessário, que é o que a gente chama de adequação metalúrgica. Essa foi a maior revolução, né, isso custa alguns milhares de dólares, 90 milhões, 100 milhões, 120 milhões de dólares para cada (internação?), pra cada planta.


P/1: Deixa eu te perguntar seu João Bosco, na verdade assim, vocês agora ficam oferecendo ou oferecem esse conhecimento por forma de cursos, alguma coisa, pra fora ou não, como que isso funciona?


R: Pra fora não, a gente usa isso pra conhecimento interno.


P/1: Como funciona isso?


R: Nos cursos de formação de engenharia, isso já é tratado, ta dentro do currículo, né, que se exige pro pessoal. Do pessoal de operação, que é o pessoal de nível técnico, né, que vai operar efetivamente a planta, né, também nos cursos agente trata desse assunto. Que eles têm um curso de menor duração, um curso de engenharia depois da pessoa formada, ele tem em média de duração um ano, entre sala de aula e campo. O curso para operador, ele tem, em termos de sala de aula, em torno de três meses, e o restante... E ele precisa de um pouco mais de campo porque ele vai ter a intimidade com o equipamento, ele tem que saber onde ta localizado, ele tem que saber como opera, como tira de operação, como coloca em operação, é, como intervir no caso de uma emergência, de uma parada de uma batida em emergência, ou em uma parada e uma batida normal. Então esse operador também ao longo do tempo a gente vai preparando e vai passando pra ele. O pessoal de laboratório, tem que ter um ensinamento que ele possa exercitar e fazer as análises e ajudar a interpretar. Que não adianta eu te dar um resultado, eu tenho que saber o que é aquilo significa em termos de processo, eu preciso fazer uma alteração ou não, né? Então internamente é tratado em todos os níveis, desde que cuida da saúde da planta que são os engenheiros, são os médicos que cuidam da saúde da planta e também definem como ela deve se comportar, se ela tem que fazer uma dieta desse petróleo ou não, né? E aqueles que são os técnicos que analisam e identificam, olha esse número ta muito alto ou ta muito baixo, identificar se isso ta bom ou não. Ele vai ler um boletim de analise, que é um resultado de um exame, e vai saber se o paciente ta bom ou não de saúde.


P/1: E quais são os principais produtos desse óleo?


R: O petróleo nacional da todos os produtos. Desde gás de cozinha, gás combustível, que agente mistura com gás natural hoje, né, pra utilizar como fonte de energia para os próprios fornos, ou vender como insumo petroquímico, que pode gerar, né, a própria geração de hidrogênio agente faz com esses gases, né? Então do gás combustível, dá o gás de cozinha, que é o GLT [Gás Liquefeito de Petróleo], dá a nafta, que a gente vende pra ser insumo petroquímico pra produzir ou roupa ou PVC ou qualquer coisa dessa ordem. Depois vem os combustíveis, o querosene, gasolina, diesel, depois vem os óleos combustíveis. Hoje agente ta evoluindo pra produzir as plantas de cóqui, né, o cóqui ele substitui o carvão, ele substitui a lenha. Então tem um apelo ambiental, uma vez que eu tenho, do petróleo eu posso substituir aquela que ta sendo desmatada, então a gente vai trocando, né, é uma possibilidade. Além de que a gente tem um suporte pra indústria de siderurgia, hoje agente importa alguns carvões ou mesmo cóqui, e agora nós vamos passar a produzir em grande escala, tanto pra mercado interno quanto pra exportação, né? E talvez o uso mais nobre do cóqui é pra produzir eletrodos para a indústria de alumínio. Na realidade é um carvão, vamos dizer assim, que queima e gera uma energia muito alta pra se tratar o minério que produz o alumínio, então não se perde nada. Da Bacia de Campos até agente entregar o óleo combustível o óleo bunker, não se você sabe o que é bunker?


P/1: Não.


R: Bunker é o óleo que impulsiona os grandes navios, eles usam um óleo especial. Então agente produz também, tem um bom preço no mercado internacional, e agora mais o cóqui, agente era importador de cóqui e agora a gente vai saturar o mercado nacional e já estamos ofertando pro mercado internacional alguma coisa. E é de extremo valor por conta do baixo teor de enxofre, então o petróleo nacional na Bacia de Campos ou o petróleo que a gente descobre aqui ao longo da costa brasileira, né, principalmente o de mar, eles te servem bastante a isso, todos eles são de baixo teor de enxofre.


P/1: E qual é o trajeto desse óleo saindo da Bacia de Campos até as refinarias?


R: Bacia de Campos, ele vem bombeado para um terminal, aqui no Rio de Janeiro tem o terminal de Angra do Reis, dali ele é distribuído por navio, ou vai pra São Paulo ou vai pra Bahia, vai pra Manaus, só pra Minas Gerais que não vai de navio, porque lá não. Então ali é bombeado daqui do terminal, ele vai através de oleoduto daqui pra Belo Horizonte, né? E São Paulo, tem as quatro novas refinarias que são responsáveis por aproximadamente 40, 45% do refino e da produção nacional, também é o maior consumo, ele vai até São Sebastião, de lá ele é bombeado para Santos, para São José dos Campos, pra São Paulo e pra Campinas...


P/1: Por oleoduto?


R: Tudo por oleoduto. Oleoduto de média de 32 polegadas de diâmetro, não sei se você tem noção, 32 polegadas, da quase um metro de diâmetro.


P/1: E média de barris por dia, quanto vocês...


R: Hoje, um milhão 880 hoje nós processamos, sendo disso aí...


P/1: Na Revap?


R: Não eu to falando do processamento hoje, no dia de hoje, um milhão 880 é muito próximo da nossa necessidade. Sendo que disso, tem aí em torno de 75, 80% de petróleo nacional. Como o petróleo nacional é pesado, a gente precisa misturar um pouquinho de um outro mais leve pra gente fazer um xarope adequado para ser processado, é uma mistura. O petróleo é como as pessoas, todo mundo é pessoa, mas cada um tem um DNA. Então a gente dá nome a eles, tem o petróleo Marlim, tem o petróleo Cabiúnas, tem o Fazenda Belém, tem o Fazenda Alegre, tem o Albacora Leste, e ai vai. Todo mundo é petróleo, só que cada um tem... E produz uma quantidade de produtos de qualidade e de rendimento diferentes, e a gente mistura dependendo do que eu quero produzir, mais diesel, menos diesel, mais pesado, um pouco mais de coque, menos coque, esse serve pra isso, esse serve pra aquilo.


P/1: E existe uma expectativa de vocês em conseguir processar esse óleo sem a mistura do óleo importado?


R: Já processamos, 95% ta bom, Replan faz isso, Rpbc faz, então a nossa evolução é pra isso. Por isso a gente tem que fazer adequação, como adequação é muito trabalhosa e de custo elevado, não da para fazer tudo de uma vez só, né. Pra se ter uma ideia, uma das unidades da Replan que é lá em Campinas, a gente fez uma troca, talvez a mais forte de todas que nós fizemos, em relação as demais, trocamos 700 toneladas de tubulação, 700 toneladas é muita coisa. Isso teve uma duração de 45 dias de trabalho, envolvendo ai umas 2.500, a 3 mil pessoas. Isso pra fazer, agora o projeto durou dois anos.


P/1: E como que se dá essa parceria de vocês, no caso a refinaria com esses projetos que estão sendo realizados, por exemplo, no Cenpes, como que vocês fazem?


R: Existe um programa, que tem que ser planejado, previsto. Existe um programa, e existe dentro desse programa a priorização quem vai se fazer primeiro e o que vai ser feito.


P/1: Tem um nome esse programa?


R: Não, depende, por exemplo, a gente chama de Programa de Modernização. Então hoje nós estamos tratando de modernização da Replan, modernização da Revap modernização da Reman. Envolve não só essa parte de metalurgia como a parte de controle, instrumentação, até a preparação das pessoas para poder trabalhar naquela nova produção, tudo tá dentro do mesmo projeto né? Isso é feito, é passado, a gente identifica as necessidades, fazemos um estudo que a gente chama de projeto conceitual, onde a gente pontua tudo que vai ser feito, que precisa ser feito. E colocamos então ou ao Cenpes ou a algum projetista, normalmente é o Cenpes que tem conhecimento suficiente pra fazer, tem técnica, tá preparado, tem muitos doutores, tem muita gente que pode. Agente não precisa do mundo, não é nenhuma arrogância não, é que a gente se desenvolveu e se preparou para isso, né, então o Cenpes consegue. Quando a gente não consegue, a gente compra o projeto fora, quando a gente precisa fazer alguma troca de conhecimento, transferência de tecnologia, então faz-se um contrato de transferência de tecnologia, a gente busca, tem o mundo e a gente faz essa, e tudo é através do Cenpes. Quando também não dá, então hoje lá fora têm quatro técnicos nossos acompanhando oito projetos na França, eles vão ficar lá um período de mais de ano acompanhando. Quando eles voltarem, os projetos vão estar com a nossa cara e eles vão estar com conhecimento, então a gente internaliza esse conhecimento pro restante da companhia. 


(Fim da fita)


P/1: Bom, a gente estava falando dessa troca de conhecimento, né, então esses quatro engenheiros que o senhor falou que estariam na França, mais ou menos acompanhando esses projetos...


R: São oito projetos.


P/1: São oito projetos?


R: Pra oito refinarias?


P/1: Então isso é em relação à Petrobras, né?


R: Foi comprado um pacote, agora nós estamos trabalhando na qualidade da gasolina. Então nós vamos introduzir alguns tratamentos que vão dar uma qualidade maior a nossa gasolina, não que a nossa gasolina não tenha qualidade, mas isso é uma visão de futuro, nós estamos mirando 2010, 2015.


P/1: E por enquanto a referência seria lá na França ou não, como que é isso?


R: Não, na França, isso é uma licitação internacional, que tem empresas no mundo, tem na Europa, tem nos Estados Unidos, a América Latina tem pouco, na América Latina quem tem é o Cenpes, e a PDT [?] da Venezuela tem alguma coisa, né? Mais ai foi feito uma licitação onde você busca qualidade, tecnologia, capacitação, referências internacionais, preço, né? E isso tudo é colocado, avaliado, e nesse caso, foi a Axen, que é uma empresa francesa que ta fazendo.


P/1: Bom, eu queria perguntar pro senhor?


R: Pode chamar de você.


P/1: Posso?


R: Deve [risos].


P/1: Bom, eu queria perguntar se você teria alguma história interessante que tenha te marcado nessa sua trajetória profissional, ou engraçada que você possa contar pra gente?


R: Tem bastante, algumas eu posso, e outras são censuradas [risos].


P/1: Então conta uma ai pra gente?


R: Deixa eu lembrar... A Petrobras ela tem muita sigla, assim quem tá de fora, não entende muito a nossa linguagem, acha que nós estamos falando um dialeto próprio, né? Quando a gente se formou, recém-formado anda de bando, né três, quatro, tudo junto, um vai pra lá o outro vai junto, que ninguém sabe muita coisa. Então a gente estava fazendo o curso, terminando o curso, nosso curso foi no fundão, né, na escola de engenharia, e nós tínhamos que ir lá pra sede, onde eu trabalho hoje, procurar alguém uma pessoa. Vocês vão lá e vão procurar a Edasma, então a gente saiu procurando as portas lá aquela sigla, mas só que o nome Edasma era o nome da pessoa, não era uma sigla, o que confundiu agente, né, até agente descobrir que era uma pessoa nós ficamos andando lá no corredor muito tempo.


P/1: Mas quem encaminhou já queria fazer esse trote ou vocês que se confundiram mesmo?


R: Não a pessoa achou... Como ela conhecia, achou que a gente ia identificar como nome, mas a gente achou que era sigla.


P/1: E tem mais alguma história que você quer contar pra gente?


R: De lembrança...Tem tanta coisa, vamos pensar... Eu vou acabar lembrando depois, né?


P/1: É verdade.


R: A gente tinha um, na época chamava superintendente, hoje chama gerente geral. Ele ficou bastante tempo na Revap chamava Brandão, né? E as pessoas... Como a Revap era a refinaria mais nova dos tempos da Petrobras, então as pessoas que vieram para operar, era uma mistura de novos, como eu era novo, era o meu primeiro lugar efetivo de trabalho, na época era quase que um estágio. E pessoas que já tinham experiência, pessoas de vários lugares. Então tinha o Brandão e tinham duas pessoas lá que eram dois técnicos de operação antigos já, o Paulo Grassi e o Picansi, eles conheciam bastante, do ponto de vista operacional de condicionar sistemas, então eles faziam suporte a engenharia, e o Brandão era o gerente geral do negócio. Ai na época de um deles se aposentar, que é o Picansi, eles foram contar uma história para o Brandão, que eles tinham feito, a 20 anos atrás, um trote que eles tinham... E eles estavam todos na Refap, lá em Porto Alegre, então tinha um treinamento de segurança, treinamento de segurança ele pode ser avisado, planejado, ou não. Esse caso era avisado, amanhã, a gente vai ter um treinamento de combate a incêndio em tal lugar. Então o Brandão colocou a botina dele lá no cantinho, deixou tudo preparado, que ele era gerente daquela área, e os dois estavam ali, só que a botina dele era 42, e eles resolveram trocar por uma 39, trocaram a 39 e colocaram no lugar. Chegou na hora que acionou o alarme, ele foi lá calçar e não conseguiu colocar, lógico, aí ele foi com o sapatinho dele social lá para a área, e nisso ele já tinha contratado alguém pra destrocar, né, colocaram o 42 no lugar de volta. E eles foram para lá, e enfrentaram a lâmina, voltou com o sapato tudo sujo, todo cheio de barro. Voltou, e chegou, não sei o que aconteceu comigo, acho que eu fiquei nervoso, porque eu fui calçar esse danado desse sapato, eu não vou falar as palavras que ele falava, porque eu vou falar palavrão, e não entrou, essa botina não entrou. E 22 anos depois, eles contaram que eram os dois que tinham trocado, falaram, a gente vai se aposentar, então nós vamos contar pra você que nós fizemos com você em tal dia a 20 anos atrás.


R: Ai que barato.


P/1: Então o ambiente é bom, é descontraído, né, a gente fica muito tempo na empresa e cria uma certa intimidade, né? E tem muita brincadeira, que eu sempre defendo o seguinte, o trabalho tem que ser sério, mas não precisa ser triste, né, então a gente trabalha assim dessa forma, pelo menos eu busco ser assim.


P/1: Eu queria perguntar o que você achou de participar do Projeto Memória Petrobras e ter contribuído com o seu depoimento, o que você acha dessa iniciativa da Petrobras?


R: A primeira coisa é a consciência de que eu já não sou novo, que senão eu não estaria aqui fazendo um projeto memória. Então isso é um negócio um pouco preocupante, então fala, poxa, já ta chegando a minha hora. Eu já tenho 35 anos de trabalho completos, e não to com vontade de aposentar ainda não, mais tenho o direito de. E fica aí como um registro daquilo que eu pude colaborar, né, e sempre vou levar, porque é uma vida inteira dentro de uma mesma empresa, nesses 35 anos lógico, eu tenho 26 anos e meio de Petrobras e os outros são fora, os outros anos que eu tenho são fora da Petrobras, mais aqui passei 26 anos e meio. Então hoje eu tenho um filho fazendo engenharia, daqui a pouco ele pode estar vindo ou não pra Petrobras. 


P/1: E ele se interessa demonstrou interesse?


R: Eu tenho um que faz engenharia e o outro terminando administração na Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, mas esse outro ele quer saber de banco.


P/1: O de administração?


R: É, ele não quer saber de Petrobras não. Mas o outro que tá na USP [Universidade de São Paulo], que faz engenharia, pelo menos agora ele diz que quer, mas eu deixo eles com total liberdade para eles decidirem a vida deles lá na frente. Eu por mim eu acho bom, só tive motivo de satisfação de estar trabalhando aqui na Petrobras, primeiro numa área de atividade do dia-a-dia, mais operacional, e agora mais numa atividade de estratégia de negócios onde a empresa tá crescendo muito, né? E a cada sensação que a gente tem é que a gente precisa estar sempre aprendendo.


P/1: Então tá bom, eu queria agradecer pela entrevista, muito obrigado.


R: Obrigado vocês, e desculpem aí pela gesticulação excessiva, porque a gente não é do ramo.


Fim da entrevista


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