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Jamais parar

História de: Tamires
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Criada pela tia e pela avó maternas, Tamires teve pais ausentes durante a infância que, apesar de tudo, é lembrada pelas brincadeiras nas ruas da comunidade. Após escolher ficar com um namorado na adolescência, sai da casa da avó para se sustentar sozinha. Sem emprego, acaba se prostituindo para comprar comida e roupas, levando uma vida que não lhe faz feliz. Para sair das ruas passa a trabalhar em uma bomboniere e, posteriormente, em um bar, onde as péssimas condições  de trabalho a fazem ansiar por um futuro mais digno. Conhece, então, o ViraVida, de onde a jovem relata ter partido suas boas transformações. Persistente e esforçada, sonha hoje em dia em fazer faculdade de Administração e Veterinária para, então, construir sua própria casa e ajudar os familiares.

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História completa

Meu nome é Tamires, a minha mãe é auxiliar de limpeza e meu pai é pedreiro. Tenho quatro irmãos por parte de mãe e três por parte de pai. Na minha infância a casa era ótima, os meus amigos eram ótimos e a gente ficava correndo pela rua brincando. Era completamente diferente dos dias de hoje. Eu nunca cheguei a ver meus pais juntos, mas tenho o meu padrasto, que eu o considero meu pai. Mas, hoje em dia, depois que fui morar com a minha avó, já não tenho mais esse afeto com ele. Meu pai antigamente me buscava, quando eu era pequena. Eu passava o final de semana na casa dele. Depois ele teve as filhas dele. Agora, não quer nem saber mais de mim, nem de ninguém. Ele se entregou à bebida. Tudo o que meu pai não me deu, meu padrasto me deu, ele me ajudava bastante. Minha mãe também.

 

Antes as crianças podiam brincar na rua à vontade, não tinha tiroteio, carro, moto. As pessoas passam e não querem saber de nada, saem levando. É completamente diferente, eu não vejo as crianças brincando como era antes. Hoje em dia elas estão dançando funk, as meninas rebolando o bumbum, os meninos fazendo gestos de armas. Antes a gente brincava de pique esconde, amarelinha, andava de bicicleta, desfilava na escola de samba na época do Carnaval. Eu saía no carro, era bailarina. Era uma época muito boa. Minha primeira escola era muito boa, os amigos, os professores incentivavam a gente a estudar, o lugar era muito bom.

 

Eu comecei a trabalhar depois que eu saí da casa da minha avó, quando precisei me sustentar. Primeiro numa bomboniere, depois em um bar. Eu saí de lá por causa do meu primeiro namorado. Minha tia, que eu considero mãe, me disse: “Se você quiser morar com ele, você vai, porque aqui na minha casa você tem que fazer conforme eu mando.” Eu preferi ficar com ele, mas a gente se separou. Acabei ficando na casa do meu padrasto um tempo, aí eu tive que me sustentar para poder ganhar um dinheiro. Mas eu tenho muito que agradecer à minha tia. Ela nos incentivou a estudar e a fazer cursos. Eu saí da casa da minha mãe com uns dez anos e minha avó pegou a nossa guarda porque minha mãe não estava nem aí. Foi minha tia quem ajudou minha avó a criar a mim e a minha irmã, pagou cursos pra gente fazer, incentivou a gente a fazer um monte de coisas boas. A minha mãe não tinha responsabilidade nem comigo e nem com meus irmãos. Ela só queria saber de forró e ficar na curtição. Eu senti falta do que eu tinha, mas também eu me senti melhor, porque lá eu vi que eles queriam o meu bem.

 

Meu primeiro namorado eu conheci através de uma amiga de infância. Eu dormia na casa dela aos fins de semana e o conheci, ele era primo dela. A gente começou a namorar, então rolou a primeira vez. Depois a gente ficou acho que uns três anos juntos, mas ele era jogador, então não dava muito certo. Ele fazia muitas viagens e eu ficava aqui esperando. Não dava certo. Eu não cheguei a morar com ele, não. Só cheguei a dormir aos fins de semana. Minha avó via que eu gostava dele, então ela fazia de tudo pra gente ficar junto, mas minha tia não gostava porque eu era muito nova, tinha catorze anos. Ela não gostava que eu ficasse dormindo na casa de namorado. Minha avó sempre deixava escondido, mas um dia minha tia descobriu e ficou chateada. 

 

Quando eu saí casa da minha avó, eu ficava com alguns caras para poder me ajudar. Mas eu vi que isso não era vida pra mim e comecei a trabalhar na bomboniere. Eu ganhava pouco, mas já era um dinheirinho suficiente pra eu não ficar com um e com outro. Fiz isso porque não tive ninguém pra poder me incentivar a ir pra um caminho correto, foi ali que eu fui me perdendo, ficando com um e com outro. Ia pra casa deles, ia para os hotéis. Uma noite era boa quando eu sentia prazer e depois ganhava um dinheiro pra comprar alguma roupinha e me sustentar.  Mas eu não me sentia bem, não. Me sentia uma prostituta ficando com esses caras. Ou eu fazia, ou eu não tinha um dinheiro pra comer, pra me sustentar, comprar uma roupa.

 

Foi depois que uma prima minha, que trabalhava nessa bomboniere, pegou e falou assim: “Por que você não trabalha aqui?” Então ela conversou com a dona, e ela me deixou ficar. Ficava ela de manhã e eu à tarde. Eu ganhava uns cinquenta reais por semana. Depois fui trabalhar no bar, onde eu ganhava mais. Lá era muito cansativo, eu trabalhava de segunda a domingo e tinha só uma folga na semana. Tinha que lavar o chão, o vômito dos outros. Eu nunca imaginava que eu ia acabar num emprego desses. O movimento do bar era muito grande e eram muitas pessoas erradas, traficante, viciados.... Mas, apesar dos maus exemplos, eu nunca me envolvi com drogas, nem cigarro, nada. Só bebida.

 

Foi, então, que eu descobri o ViraVida, fiz a minha inscrição, e vim para as entrevistas contar um pouquinho da minha vida. Então eu passei na entrevista e minha vida começou mudar. Muitas coisas mudaram: meu modo de pensar, de vestir. Muitas coisas. Eu fiquei muito feliz, com boas expectativas. Não tenho o que reclamar do projeto. Sempre que aparecem umas oportunidades, eles me chamam. Esses dias eu fui pra Brasília, para o Seminário Nacional do Projeto ViraVida. Foi muito bom.

 

Hoje o meu cotidiano está tranquilo porque eu faço supletivo, duas vezes na semana, e o projeto, que é todos os dias. Eu gostei de conhecer pessoas que antigamente me olhavam de cara feia na rua e hoje em dia são minhas amigas. Não tem ninguém querendo ser melhor que ninguém porque todo mundo passou pela mesma coisa. Quando comecei eu era uma menina muito calada, ficava na minha, não tinha esforço. Hoje em dia eu tenho isso tudo e muito mais.

 

Agora, penso em fazer é uma faculdade: Administração. E no futuro quero fazer alguma coisa voltada para Veterinária. Sonho em construir minha casa aqui na comunidade, dar um futuro melhor para os meus irmãos, ajudar minha avó e minha tia. Servir de exemplo para outras meninas, mostrar que todos podem se transformar, estudar e realizar seus sonhos. Então eu vou lutar pra poder conseguir essas coisas. Nunca vou desistir, mesmo se eu tiver um trabalho em que eu possa ganhar. Nunca vou parar, vou querer sempre mais e mais.

 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista íntegra, bem como a identidade dos entrevistados, tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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