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Jair Littig

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IDENTIFICAÇÃO



Meu nome é Jair Littig. Nasci em dez de setembro de 1948 no Espírito Santo, na cidade de Marechal Floriano. Meu pai já é falecido, era também do Espírito Santo, de origem alemã. Ele era comerciante. E minha mãe chamava-se Carlota Joana

FAMÍLIA



Meu pai ficou viúvo, ele trabalhava em lavoura. Foi para a cidade de Marechal Floriano, abriu um comércio. E lá conheceu a minha mãe e casou-se. Marechal Floriano é na região serrana do Espírito Santo, uma região de imigração de alemães e italianos. Tanto que meus pais estudaram em colégio alemão. Por isso, minha mãe falava um português arrastado. E meu avô, que eu conheci também, falava alemão e muito mal o português. Na minha casa aprendi mais o alemão, que todo o mundo falava. Isso só acabou com a Segunda Guerra Mundial, que eu nem tinha nascido, quando o governo proibiu falar alemão. Foi aí que meus pais tiveram que aprender o português. Minha casa era a no centro da cidade, que era bem pequenininha, hoje deve ter cinco mil habitantes. Na época que eu nasci parece que tinha 400 ou 500 pessoas, 90% era de origem alemã.

ENTRADA NA CVRD



Eu saí aos 27 anos de idade e fui para Vitória trabalhar na Companhia Vale do Rio Doce, depois de passar por um processo seletivo. Eu já tinha ouvido falar em Vale do Rio Doce, em 1968 eu já tinha feito prova, mas não consegui a classificação, para a área de guarda- freios. Só em 1976 foi que eu consegui entrar na Companhia Vale do Rio Doce, em Vitória.

TRAJETÓRIA NA CVRD



Área administrativa
Eu entrei para trabalhar em área administrativa, numa secretaria. Mas aí aconteceu um fato interessante lá em Vitória. Tinha um processo, um recrutamento na Vale para eletricista. E concorria tanto interno como externo. As pessoas da Vale se inscreviam através de telex e o pessoal de fora mandava currículo, para a secretaria. E eu comecei a organizar aquilo. Organizar, organizar, e era uma quantidade muito grande. Foi aí que quando terminou esse processo seletivo, o gerente da área de recrutamento me convidou: “Olha, gostei do seu trabalho.” Eu tinha 30 dias de Vale. “Você quer trabalhar comigo no recrutamento e seleção?” Aí eu fui para lá, e comecei imediatamente a trabalhar com recrutamento.

Treinamento
Eu fiz uns treinamentos na área no Rio e São Paulo. Aí comecei a trabalhar. Bom, em Vitória, estava assim um período muito calmo, não tinha o recrutamento. Praticamente a gente quase não fazia nada. Eu era novo de Vale, tinha uma preocupação e dizia o seguinte: “Eu estou ganhando um dinheiro muito fácil.” Estava muito preocupado com isso. Aí surgiu Carajás. Só que eu não tinha chance nenhuma para Carajás, porque eu era novo de Vale e era solteiro. Mas assim mesmo eu procurei o responsável, o cara que ia recrutar aqui em São Luís. Conversei com ele, mandei meu currículo, ele falou: “Mas você é novo.” Quando foi em abril de 82, eu estava trabalhando, ele chegou e falou: “Olha, nós vamos recrutar em São Luís mecânicos e eletricistas. Você quer ir lá fazer este trabalho para mim? Não vou lhe garantir que você vai, mas eu preciso de você para recrutar lá.” Aí eu vim para São Luís em abril de 82 recrutar os primeiros eletricistas e mecânicos.

São Luís
Primeiro contato
Eu a princípio eu não me adaptei, porque eu não tinha chance de ficar. A visão que eu tinha era a de voltar. Mas, eu tinha vontade de ficar aqui. A cidade é histórica, eu sempre gostei de história. Gostei de viajar, aquela história toda. Então eu gostei de São Luís, mas eu sabia que não ia ficar. Aí fizemos os recrutamentos, e voltei para Vitória.

Licença prêmio
Las Malvinas
Quando voltei a Vitória, que eu tinha licença prêmio de 45 dias, o cara falou: “Você tira sua licença prêmio, quando você voltar, a gente vai ver onde você vai ficar aqui em Vitória.” O que aconteceu? Eu fui para São Paulo, comprei uma passagem para Buenos Aires em final de abril de 82. Em Buenos Aires, era para ficar no Hotel London, que até era de terceira classe. O meu vôo parou em Curitiba, parou em Porto Alegre, parou em Montevidéo. Eu sei que cheguei de manhã cedo em Buenos Aires. Quando eu fui fazer o câmbio, levei um susto, que o cara de falou:” Olha, um dólar, 600 pesos. E eu dei 50 dólares mas veio dinheiro para danar. Aí eu perguntei por que tanto dinheiro. Ela falou: "Las Malvinas.” Eu falei: “Las Malvinas? O que é las Malvinas?” Peguei o dinheiro e entrei no táxi. Aí eu comecei a conversar com o motorista, ele disse: ” Olha, a Argentina invadiu as Malvinas.” Impressionante. Quando eu cheguei no hotel, já não era Hotel London mais. Tinha uma placa lá Hotel Las Malvinas. O nome já tinha mudado. E eu que fui para ficar 15 dias, fiquei os 45 dias na Argentina, porque o dólar valorizou tanto, que não compensava voltar para cá. O dinheiro que eu tinha era para 15 dias, eu acabei ficando 45. Interessante é que eu, com essa cara de alemão, eles achavam que eu fosse inglês. Eu tive que comprar uma lapela muito grande, e botei: “Viva Las Malvinas.” Que onde eu chegava o cara olhava para mim assim e dizia: “Esse cara deve ser inglês.” Eu fui à Baia Blanca à noite, quando nós viemos de volta viemos num trem, e diziam que esse trem ia ser atacado. O trem ficou todo escuro a noite toda. Era aquela loucura danada. Impressionante também como as informações eram assim as mais mentirosas que você podia imaginar. O jornal dizia que a Argentina iria ganhar a guerra, aquele negócio todo. Enfim, foi fantástico para mim, porque o dinheiro que eu levei para 15 dias deu para 45, e ainda sobrou. Só que quando cheguei em Vitória, no aeroporto estava esse mesmo cidadão no aeroporto, vindo para São Luís. “Oi Jair, estou procurando você há mais de 10 dias. Você quer ir para o Maranhão? Só que tem que ser amanhã. ” Eu falei: “Quero. Quero ir para o Maranhão." Eu era solteiro. Aí em maio eu vim para cá, e estou até hoje.

De volta a São Luís
A minha impressão foi boa. A cidade é calma. Realmente muito diferente do sul. Muito pobre, mas tinha uma coisa interessante, como até hoje. Tem uma cultura. Não sei se foi por ser muito fechada, ficou muitos anos fechada, tudo que é de cultura ficou. Nada se perdeu aqui. Aí eu me adaptei, casei e tive meus filhos aqui. Eles são maranhenses. Mas minha esposa é do Pará. E não tenho mais vontade de voltar, porque me adaptei mesmo. Tenho muita saudade da minha cidade, vou lá, mas voltar... não. Acho que já sou um maranhense.

Recrutamento difícil
Ah, o trabalho de recrutamento é um trabalho danado. Difícil, na época. Até no livro de memória da Vale eu falo que era difícil. Eu recrutei em Igreja, eu recrutei em, eu ia até em prostíbulo para ver se encontrava gente. Eu trabalhava ao longo da linha para Carajás. Gente tinha demais, mas com saúde era muito pouco. Impressionante. Era uma coisa assim, Tinha que ter 50 homens para você tirar um, vamos dizer assim, em estado para trabalhar. Foi muito difícil mesmo. Então nesse período passei praticamente quatro, cinco anos recrutando esse pessoal. E tinha muitas histórias.

CASOS DE TRABALHO



Ferrovia X Garimpo
Num processo seletivo, nós precisávamos de um auxiliar administrativo, então nós aplicamos uma provinha. A prova de português tinha um texto e tinha algumas perguntas de gramática. E tinha uma pergunta que dizia: “Passe para o plural a seguinte frase.” “O trilho está quebrado.” Aí o cidadão respondeu assim: “Troque, senão a locomotiva vai cair.” Tinha uma outra frase interessante: “Passe para o feminino.” Estava lá: “Pai, avô, tio, padrinho.” Aí o candidato me chamou no cantinho e falou: “Professor, tem um problema danado. O senhor está pedindo aqui o nome dos meus parentes, agora o do meu padrinho eu só sei o apelido. É seu Zezinho. O senhor aceita?” Então foi complicado. Mas também, era época também do garimpo, né. E as pessoas, o sonho das pessoas, em 82, era o garimpo. Quando você falava o salário da Vale do Rio Doce, o cara: “Ah, mas no garimpo se eu der uma bamburrada é muito mais, né?” Porque ele achava o ouro. Também as pessoas ainda não acreditavam na ferrovia.

Universidade incrédula
Para você ter uma idéia, nós fizemos o primeiro processo seletivo, hoje conhecido como P.C.J. no Brasil, fizemos um P.C.O., Programa de Capacitação Operacional, na universidade, para os recém-formados. Nós fomos para Belém, fizemos uma palestra na Sudam, tinha mais de 1000 candidatos. Quando terminou a palestra, a maioria não acreditava e dizia: “Para trabalhar em Carajás, isso nunca. Nós já fomos enganados no início do século com a borracha. Jamais uma ferrovia vai chegar em Carajás. Isso é só conversa.” E a maioria desistiu. Quer dizer, muito pouca gente acreditava na ferrovia.

VALORES DA CVRD



Fé e perseverança
Foi um desafio vir para cá. E para isso me espelhei no meu bisavô, quando ele saiu da Alemanha, de Berlim, que em 1859, queira ou não, era uma cidade muito boa, e foi parar no Espírito Santo, dentro do mato, dormia em cima de uma árvore. Ali ele chegou solteiro, criou família, e viveu até aos 95 anos. Quer dizer, acreditou, entendeu? E eu, quando eu cheguei aqui, vi isso tudo também. Essa selva, entendeu? Não tinha quase nada, nada, nada ao longo da linha. E eu me inspirei muito no meu bisavô, fui fundo nisso vou trabalhar, vou acreditar nisso aqui. Um dia, pode se tornar realidade. E a gente viu que hoje a ferrovia está aí, cidades crescendo ao longo da linha. O desenvolvimento do Maranhão. Queira ou não queira, depois dessa ferrovia, o Maranhão teve um impulso muito grande. Acho que a gente tem que acreditar em alguma coisa. E quando a gente acredita, leva aquilo com fé e perseverança, no final a gente vence.

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