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Itaquera crescente

História de: Carlos Eduardo Fernandes Junior
Autor: Carlos Eduardo Fernandes Junior
Publicado em: 31/10/2008

História completa

Lembro-me de chegar em um sábado. Fazia muito calor. Era bem menino, não mais de 13 anos, o que me garantia energia suficiente para carregar as caixas da mudança, descendo e subindo do caminhão baú sem pestanejar. O lugar tinha um clima diferente, muita gente na rua, muita gente se cumprimentando, até o sol parecia diferente. Não demorou para que eu conhecesse os meus primeiros vizinhos. Logo percebi que aqui as brincadeiras eram outras, e confesso que muito mais legais do que as que eu já conhecia. Primeiro porque sempre tinha uns dez moleques para brincar e ainda sobravam alguns para fazer “próximo”. Assim descobri os mistérios de cada jogo, fosse no peão, na bolinha de gude, nas pipas mandadas, na rebatida, no taco, no gol-a-gol, no pula cela, no vôlei com o varal amarrado entre dois postes, estávamos sempre lá com os chinelos Ryders pendurados nas mãos e os pés belos e faceiros no chão . Tudo iniciava rapidamente, durava algumas semanas e assim como veio, sumia e ninguém mais lembrava da brincadeira, pois já havia outra em seu lugar. Agora, indescritível mesmo era a emoção de descer uma ladeira interminável de carrinho de rolemã. Para isso havia todo um ritual de montar o seu eixo perfeito para que o carrinho não desse cavalinho de pau, tivesse estabilidade e chegasse à máxima velocidade que os sonhos juvenis alcançassem. E se a velocidade era infinita, a distância não seria obstáculo. Íamos devagar. Primeiro as quadras vizinhas. Sabíamos o nome de cada cachorro do caminho, conhecíamos até mesmo as dimensões da boca de lobo que costumava engolir cruelmente as bolinhas de nossas brincadeiras, mas com a chegada da bicicleta as distâncias encurtaram-se rapidamente, pois o que era longe resolvíamos em poucos minutos pedalando tão rápido quanto fosse humanamente possível. Assim nos agrupávamos para buscar um quilo de carne para nossas mães ou procurar um remédio que não havia na Vila. Deixem-me apresentar a “Vila”. Era assim que chamávamos o nosso Bairro – denominado oficialmente de Jardim Heliam. Um bairro cercado por empresas e fábricas, o que mais tarde entendi tratar-se de um pólo industrial. Os pais e irmãos de meus colegas trabalhavam nessas empresas, mas havia os azarados que precisavam trabalhar fora dos limites de nossa Vila. Estes amargavam longas esperas no ponto de ônibus que contavam com o trânsito de Três linhas: Metrô Artur Alvim - Gleba do Pêssego, Terminal Carrão - Itaquera e Terminal A.E Carvalho – Terminal São Mateus. Sobre os ônibus tenho muitas lembranças, pois sempre estudei fora do bairro o que me apontava outras possibilidades de construção de um bairro. Um dia fiquei a pensar por que a Vila não tinha uma padaria, ou uma farmácia que oferecesse algo mais do que aspirinas e efervescentes. Até hoje compramos pão em mercearias improvisadas ou em bares que vendem pães alojados em uma cesta logo abaixo das bebidas e petiscos da boemia noturna. Um dia surpreendi-me com a pintura de uma faixa em minha rua. Era o tom da modernidade dando as caras pela Vila de Itaquera. Mais tarde chegaram com uma nova pavimentação e com postes altíssimos que realizavam o sonho das famílias em comunicar-se com os familiares distantes. Era o telefone que diminuía ainda mais as distâncias entre a nós e a cidade metropolitana de São Paulo. Em pouco tempo a vila expandiu-se em invasões que criaram num espaço de periferia subdivisões com escolas sociais entre os menos favorecidos. Os que moravam próximo à entrada da Vila eram, e ainda são chamados de playboys. E os moradores dos terrenos ocupados receberam a denominação pejorativa de favelados da Socó. Sem perceber a Vila adquiria a estrutura da megalópole que é São Paulo, incorporando seus serviços e preconceitos, suas novas tecnologias da informação visíveis nas garagens denominadas Lan-houses e os novos modelos de transportes coletivos caracterizados pelas lotações. Lotações estas que hoje nos ligam com as maiores redes de hipermercados atacadistas e as lojas representantes das marcas de toda ordem através do símbolo mais marcante de nossos tempos de convivência ajustadas aos Shoppings. (História enviada em novembro de 2008)
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