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Italianos e Espanhóis

História de: Euclides Carli
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/10/2016

Sinopse

Euclides Carli dá uma aula sobre a história da Zona Cerealista, falando sobre a vinda dos trens para São Paulo nos tempos do café, o surgimento do comércio na região e a importância do Brás como centro de distribuição alimentícia pro Brasil. Euclides recorta a Zona Cerealista em três partes: o Mercado Municipal, responsável pelo varejo, a Paula Souza, pelas importações e a Rua Santa Rosa, que concentrava o atacado de cereais básicos. Depois, nos conta sobre seus outros negócios e fábricas em São Paulo, sua conexão com o SESC e reflete sobre o futuro da região.

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História completa

Meu nome é Euclides Carli, eu nasci na cidade de Muzambinho, estado de Minas Gerais, em 1923. Em 1941, eu era especialista em máquina de contabilidade elétrica, que naquele tempo era uma novidade fantástica e fui trabalhar numa das firmas lá da Rua Santa Rosa, de José Facciolla. Eu não entendia de contabilidade mas eu conseguia fazer a máquina elétrica funcionar, depois vinha tudo em voucher, e eu traduzia, mas não é que eu sabia, mas depois eu fiz o curso de contador pra poder ficar explorando mais o negócio, né, foi isso. Ali eu tinha 18, 19 anos.

José Facciolla, cresceu baseado naqueles italianos, portugueses e espanhóis que vieram, principalmente italianos, como imigrantes, e não tinham instrução nenhuma, mas de vez em quando aparecia alguém interessado e progredia, então o José Facciolla era um deles. Eu quero que você entenda a Rua Santa Rosa como o comércio cerealista da região vizinha do mercado, da Rua Paula Souza, da Cantareira, tudo, é um bloco, o bloco que hoje vai ser homenageado pelo SESC através de uma grande construção que vai ser feita ali, né? Muito bem, você pode calcular que desde 1930, mais ou menos, até 1960, a Rua Santa Rosa, considerando esse conjunto, ditava o mercado nacional brasileiro de cereais e alimentos, então ele conseguia concentrar aqui na capital as produções do sul, as produções do norte e a produção local, então era de uma importância fantástica. O comércio era feito assim, os grandes atacadistas compravam nas regiões produtoras volumes grandes de mercadoria, volume grande que a gente diz eram vagões, porque naquele tempo, na maior parte do tempo, não tinha ainda caminhões ou frotas. Chegava tudo ou via Central do Brasil ou via Santos, aqui pela, mercadorias vindas do sul, ou então vinham do norte, através dos navios costeiros, mas a concentração era aqui, então havia uma grande estocagem de mercadorias, eu tô falando de cereais, arroz, feijão, batata, milho etc., os grandes estoques se concentravam aqui. Então o que era o comércio atacadista de cereais? O grande comerciante, o atacadista de cereais, ele tinha um armazém ou dois ou três, conforme seu tamanho, um central, na sede, e às vezes dois ou três um pouco retirados, pra efeitos de depósito das mercadorias, e tinha uma frota de caminhões. O que fazia essa frota de caminhões? Iam nas estações de estradas de ferro apanhar a mercadoria que vinha das diversas formas e a outra parte deles, que lotava diariamente com tudo que você poderia imaginar, para fornecer pro varejo de São Paulo, então era a mercearia, o café, o restaurante, tinha tudo. Então essa distribuição era feita pelo comércio atacadista. O grande atacado de São Paulo era isso, a possibilidade de concentrar as produções das diversas regiões do país, o Nordeste, cada um na sua época correspondente, o sul de Minas, um pouco de Goiás e também o Rio Grande do Sul e o Paraná e Santa Catarina, e fazer a distribuição efetiva de toda essa massa de produção que se concentrava em São Paulo, que aos poucos foi mudando com as alterações de transporte, de conservação. É pela própria função que eles tinham que podemos dividir o bloco, por exemplo, a Rua Santa Rosa era distribuir o atacado para o grande varejo da cidade, o Mercadão sempre foi sem atacado, recolhendo, por exemplo, a produção das circunvizinhanças da capital, as produções de fruta, de legumes, alguma carne, tudo e botando à disposição do consumidor diretamente, isso era o mercadão. E aqui, a Paula Souza e uma parte também do Mercadão se especializou na importação. Então eram todas elas especializadas aqui na Rua Paula Souza, os grandes importadores e as grandes firmas que tinham aqui não cuidavam de cereais, então eles cuidavam mais do azeite, do bacalhau e tudo e punham, especializado, as grandes firmas eram todas aqui. Mercadão era mais varejo, varejo e distribuição da produção circunstante à capital, quer seja frutas, seja legumes, seja suco, que havia, mas tudo coisa do dia para o dia, então os caminhões chegavam de dia, voltavam de tarde pra buscar outro, essencialmente deveria estar consumido. Agora, aqui era mais importações, as grandes importações, que não eram tão grandes, mas eram específicas. E o grande distribuidor, o grande comércio atacadista era feito aí na Rua Santa Rosa e adjacências. A Rua Santa Rosa, é italiana, ela cresceu em função daqueles italianos da baixa Itália, os bareses, chamados, que eles são bareses, são polignaneses, um abriu um armazém, o outro abriu outro, outro, e de repente fundaram a Bolsa de Cereais e o SAGASP, italianos, mas havia espanhóis, havia portugueses também. Aqui na importação você pode dizer que eram mais portugueses e espanhóis, se você, talvez querendo fazer uma divisão em relação à Europa, a Santa Rosa era a Itália e aqui era Espanha e Portugal (risos), não existia essa diferenciação, mas a característica geral demográfica, apenas demográfica, era essa, mas havia comerciantes de todas as nacionalidades em todos os setores.

Você tem que considerar também que a Rua Santa Rosa era um apêndice extra do sistema de gás da capital de São Paulo, da Companhia de Gás, o carvão era importado, vinha de Santos, parava no Pari, o carvão mineral, e era industrializado ali pra fazer o gás, e o trenzinho que fazia esse trabalho de transportar todo o carvão da estação para a Companhia de Gás passava exatamente na Rua Santa Rosa.

O transporte, no começo, era o transporte magnífico, vamos dizer, era o ferroviário, ou através da Central do Brasil ou através da SPR aqui, que SPR significava também Mogiana, Paulista, interior de São Paulo também, e Sorocabana, que era o sul do país, era a única, não tinha estradas de rodagem pra você ir, por exemplo, a Porto Alegre. Você podia ir até lá, mas era uma aventura, não? Então o comerciante chegava, mas a maioria tinha venda, os atacadistas tinham uma equipe de vendedores que faziam determinados setores, Santo André, São Caetano, Pari, o bairro, e vendiam a mercadoria, anotavam o pedido e traziam pra o atacadista, o atacadista separava, preparava o pedido de cada um, botava no seu caminhão e entregava. A maioria não precisava vir à Rua Santa Rosa, só vinha na Santa Rosa os de médio porte, os que tinham condução própria, o resto não, não precisava, ele recebia a visita de diversos vendedores.

O feirante é que ocupava diretamente as fontes de distribuição, já o varejo era muito menor, muito menor, porque o consumidor era servido, ele não se servia, ele era servido pelo atacado e o atacado servia o feirante diretamente. Então era um relacionamento quase que familiar do atacado com o varejo e também do atacado com o feirante, que o feirante era o varejista que andava, o outro não, tinha a porta aberta, tinha o armazém, né? Eu era padrinho de vários netos e coisa e coisa, era, havia um relacionamento quase que familiar, era social, mas era quase que familiar.

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