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História

Isso aqui não é emprego, é uma missão

História de: Israel Blajberg
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2018

Sinopse

Israel conta sobre sua trajetória no BNDES. Ingressou em 1975 como engenheiro, quando já era professor da Universidade Federal Fluminense. Relembra que eram os anos de chumbo da ditadura militar, lembrava dos amigos desaparecidos, mas precisava trabalhar para ajudar a sustentar sua família. Passou pelo setor de prioridades do banco e hoje atua no setor ambiental.

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História completa

P/1 - Bom dia. Gostaria de começar nosso depoimento com o senhor me dizendo seu nome completo e o local e a data de nascimento, por favor.

 

R - Meu nome é Israel Blajberg, eu nasci em 31/5/45 no Rio de Janeiro e entrei no Banco em 75, eu já tinha trinta anos, já tinha uma família, muita gente entrava no banco solteiro, recém-formado..., mas eu quando entrei já tinha sete, oito anos de trabalho né, eu já era professor da Universidade Federal Fluminense, já tinha trabalhado em algumas empresas e até ocorreu um fato engraçado: no concurso do banco caía muita engenharia econômica e eu nunca tinha mexido com este setor, só que houve uma coincidência interessante, eu tinha ficado desempregado poucos meses antes de fazer o concurso do banco, e nestes meses então, um antigo diretor da então Telemar que se chamava CTB, Companhia Telefônica Brasileira. Ele me convidou pra fazer uma tradução, aproveitando aquele tempo vago que eu tinha, e a tradução era de um livro chamado “Engineering Economics”, e no dia da prova quando eu fui fazer, parece que a pessoa tinha tirado a prova daquele livro, então eu passei três meses traduzindo um livro que caiu na prova (risos), então assim eu acabei passando.

 

P/1 - O que significava pra você entrar no BNDE [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico] nessa época? Era um projeto de vida? Um projeto profissional?

 

R - Não, foi mais ou menos como eu lhe falei. O setor de telecomunicações estava muito aquecido, então eu trabalhei nestes anos todos, mas depois veio a crise do petróleo, diminuiu um pouco o crescimento da economia, e coincidiu justamente com a minha saída de uma firma de consultoria, então eu fui trabalhar na (Emburgo?), que era uma pequena empresa, que aliás era mutuário do banco, e logo em seguida surgiu o concurso para o banco,  e eu fiz o concurso, fiquei apenas três meses, então foi uma decorrência daquele desemprego que aconteceu. Eu me lembro como se fosse hoje, eu tava lá na (Emburgo?) em São Cristóvão, aí via no jornal a convocação para o concurso, eu nunca tinha estado no BNDE, acho que uma vez eu estive no banco, não conhecia, não sabia, aí fui fazer a prova, passei, e estou aqui até hoje. Agora eram os anos duros. Eram os anos de chumbo. Eu me lembro que o banco pediu pra gente entrar aqui com um atestado de ideologia, eu tive de ir lá na Rua da Relação andar naqueles corredores, pegar esse atestado, ia andando lá e me lembrava dos meus colegas de faculdade, que alguns já tinham desaparecido, outras tinham retratos, a gente viajava no aeroporto e o retratos deles estava lá, procurado. Então eu me lembrava deles, mas não tinha outra saída, eu tava desempregado, a (Emburgo?) era um emprego assim muito..., que não era lá grandes coisas, então não havia outro jeito, lá em casa a minha esposa, ainda estava estudando na faculdade, dois filhos pequenos, eles dependiam de mim, então não tinha outra saída. Mas eu estava com o coração cheio de esperança, era um dia bonito como hoje, um dia de sol, então eu cheguei cedinho lá na Presidente Vargas, o Banco não era como hoje, esta potência, que ele já era conceituado, mas ele estava espalhado, eram dez, quinze prédios pelo centro da cidade, aí eu cheguei cedinho, animado, antes das nove da manhã, aí encontrei as portas fechadas. Eu não sabia, mas o banco abre às 10:00, né, então banco é banco. Abre às dez horas. Então eu fiquei lá esperando. Aí eu cheguei, fui lá na Rio Branco 53, aquele típico prédio de banco, na praça Mauá, aí fui lá recebido pelo Dr. Leão, era um técnico conceituado, ele ainda vive, deve ter mais de oitenta anos, noutro dia eu encontrei ele no Chaika em Ipanema, eu nem falei com ele, coitadinho, ele estava lá almoçando com a esposa, dois velhinhos fraquinhos. Mas o Leão chegou, abriu a porta pra mim e falou: “Ah, você é o novo técnico!? Entra. A casa é sua.” Depois eu vim saber que o Leão era um técnico conceituado, olhando você não dava nada por ele, tinha um cigarro no canto da boca, uma barriguinha meio avantajada, mas era um técnico assim da melhor qualidade. Aliás, aqui no banco isso a gente, é um lugar comum, as pessoas daqui todas maravilhosas, gente da melhor qualidade, o banco é um celeiro, de ministros, prefeitos, secretários. Um colega nosso que entrou há pouco tempo, eu recebi ele na sala, então semana passada ele foi nomeado ministro do planejamento.

 

P/1 - O nome dele?

 

R - Guilherme Dias. Tem alguns, a gente pode citar dezenas, né.

 

P/1 - Você então entra como engenheiro?

 

R - É, eu entrei como engenheiro. O concurso foi para quatro especialidades: engenheiro, contador, advogado e economista. Mas aqui no banco, ao longo do tempo a gente vai perdendo a especialidade, aqui a gente mexe com tudo, de agulha de alfinete até usina hidrelétrica, então no final fica todo mundo na sua mesa, mas faz exatamente a mesma coisa. É uma máquina que está voltada para o desenvolvimento do Brasil, é a poderosa máquina Benedense, composta aí de 1700 pecinhas minúsculas, que faz este trabalho aqui. Isto aqui não é emprego, é uma missão. É o desenvolvimento do Brasil.

 

P/1 - E, falando então, usando o termo missão. Algum destes grandes projetos do BNDES que esteve envolvido que tenha mais lhe marcado como profissional do ramo?

 

R - Olha, eu trabalhei aqui no banco em dois setores apenas, eu sou um caso meio raro, porque a maioria do pessoal circula muito pelo banco. O banco oferece milhões de empregos, e todo mundo pode mudar de um emprego para outro, fazer coisas completamente diferentes. Mas eu sempre dei sorte, eu tive chefes excelentes, colegas muito bons, então eu fiquei sempre ali. Eu entrei nas prioridades, eu fazia enquadramento de projetos, e só quando Márcio Forte modificou a estrutura do banco, eu saí, mas não porque eu quis, porque mudou. Aí eu fui trabalhar na área ambiental, e hoje eu sou decano da área ambiental, estou lá desde 89. Então eu trabalhei em projetos imensos, muito grandes, projetos de metrô e de portas, de telecomunicações, mas o que mais me marcou foram os pequenos projetinhos. Até quando eu entrei no banco eu fui logo para a Paraíba, para o interior da Paraíba, ver um pequeno projetinho. Eram minas, de bentonita, de metais que eram escavados ali, mas era uma coisa super rudimentar, então não havia ninguém ali, era tudo gente semi-analfabetas, e eles começavam a cavar, um cavava pra cá, outro pra lá, os dois se encontravam, e de repente aquilo desabava, e morria gente ali. Então eu fiquei desesperado, “como é que pode o Brasil estar fazendo uma mineração desse jeito?” Aí eu me dei conta do que eu estava fazendo no banco, a gente estava indo lá para trazer um pouco de, não é só o dinheiro né, mas o ensinamento, aí eu pensei, puxa, se eu fosse um engenheiro recém-formado eu vinha pra cá pra orientar este pessoal, como é que se faz uma mina. Então este projeto me marcou muito, no interior da Paraíba. E não é aquele deserto que falam que é o nordeste, a Paraíba é toda verdinha, mesmo com pouca chuva aquilo não parece um deserto. Então eu fico abismado. O Brasil é um país tão grande, tem tanta coisa que pode ser feita e nós estamos todos aqui no Rio e São Paulo, e ninguém quis ser aventurar lá para dentro. A Amazônia também, muitos projetos pequenos que a gente fazia, o peixe lá no interior da Amazônia, ele se perde em um ou dois dias, porque não tem nem gelo, não tem energia elétrica. Então a gente ia pra lá pra financiar estes pequenos projetos de unificação rural lá em Rondônia. Então é uma coisa assim impressionante o trabalho que o Benedense pode fazer é super gratificante. Não é uma missão, é mais do que isso, é um apostolado pelo desenvolvimento do Brasil. Então eu só tive..., todo dia que eu acordo, eu acordo feliz porque eu estou vindo para o banco trabalhar.

 

P/1 - Qual é sua área de atividade, hoje, como é um dia seu hoje aqui no banco?

 

R - Hoje eu estou no meio ambiente. Então a gente cuida para que os projetos do banco não sejam impactantes contra o meio ambiente. Que a ação financiadora do banco seja uma ação limpa. Nós somos um banco verde. Então eu faço isso, a gente estuda todos os projetos que o banco recebe para tomar cuidado para que eles não afetem o meio ambiente. E isto é uma coisa muito especial porque poucos bancos tem esta preocupação, ainda mais no Brasil que é uma coisa nova. A maioria dos bancos não tem unidade ambiental, mas o banco foi a primeira, em 89 começou com Paulo Sérgio Moreira da Fonseca, que vai estar aqui daqui a pouco, com a Isaura Frondise, mas aí ele já..., o Paulo Sérgio agora é o superintendente, a Isaura Frondise é a chefe, mas ela entrou depois de mim, então hoje eu sou o decano da unidade ambiental.

 

P/1 - O senhor gostaria de colocar mais alguma coisa?

 

R - É, a gente tem tanta coisa pra contar. Eu me lembro que antigamente o banco era menorzinho. A gente andava lá pela Rio Branco, andava pela rua e encontrava o presidente do banco, hoje é mais difícil, o Marcos Pereira Vianna, o ministro Veloso vinha lá no banco, agora aqui neste prédio enorme, é uma coisa mais eclética, mais inodora, mas eu acho que o banco continua com a sua grande missão. E eu estou muito satisfeito porque pra mim não são 50 anos, são 180 anos. São 50 do banco, 50 da UFF - Universidade Federal Fluminense, que está fazendo também cinquenta anos em outubro, aliás eu estou na UFF antes de entrar no banco, eu fui admitido no magistério público federal em 69, e no banco em 75, mais 50 anos porque minha esposa faz 50 anos, que por coincidência quatro dias antes do banco ela faz, e mais 30 anos porque eu vou fazer trinta anos de casado, que dá 180.

 

P/1 - Quer dizer que a história da família se mescla junto com a história do banco e...

 

R - É, é a felicidade total. E tão cedo eu não espero sair do banco, enquanto me quiserem aqui...

 

P/1 - Então o que o senhor achou de ter participado desta entrevista e ter contribuído com o projeto de memórias dos 50 anos do BNDES?

 

R - Isso aí é ótimo, desde o ano passado eu já estava pedindo para o pessoal do banco, mas foi uma surpresa muito grande ver que a coisa está tão bem feita, tão profissional. Eu não sabia que existia este Museu da Pessoa e vocês estão de parabéns. Vai ser ótimo poder ver a exposição e conferir os depoimentos. Estão de parabéns, o banco, o Museu da Pessoa, todo mundo.

 

P/1 - Obrigado pelo depoimento.

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